Identificação
Meu nome é Sérgio Mazei. Eu nasci aqui no Rio de Janeiro, no dia 12 de Dezembro de 57,
Eu nasci na Tijuca. Na verdade, na fronteira entre Vila Isabel, Andarai e Tijuca, próximo a uma fábrica de tecidos que inspirou Noel Rosa numa música chamada Três Apitos.
Fábrica Confiança
A Fábrica Confiança, aquela que inspirou a música do Noel Rosa, não existe mais. Transformou-se num supermercado. Mas, a estrutura está mantida, a chaminé, tal. Eu cheguei a pegar o finalzinho, dela funcionando. Foi essa fábrica que gerou todo aquele aglomerado formado pelas casas de operários, baixinhas, com um comércio incipiente que atendia àquela região. Depois, com o crescimento do Bairro da Tijuca, a fábrica foi desativada. Hoje está transformada em um hipermercado.
Origem Família
O meu avô é imigrante italiano, trabalhou nesse comércio do centro. Ele veio para o Brasil e ainda pequeno começou a trabalhar. Eu não tenho recordação assim, nem desses depoimentos dele, não conversávamos sobre isso na época, mas ele chegou a trabalhar sim. Esse comércio pequeno do centro absorvia muito essa mão-de-obra de imigrantes para serviços braçais. Daí a pessoa ia evoluindo. Chegava ao balcão para atender, depois tomava conta do caixa. O comércio, o do centro em particular, absorveu muito o trabalho do imigrante. Em São Paulo eu acho que foi mais a lavoura.
Rua da Carioca
Meu avô trabalhou numa loja da Rua da Carioca, uma dessas ruas protegidas pelo corredor cultural, que hoje tem um comércio forte de instrumentos musicais. Tem lojas centenárias, como a Guitarra de Prata, o Bar do Luís, um bar típico carioca. Mudou de nome na época da guerra, porque era de alemães. O meu avô italiano dizia que essa época foi muito dura para os imigrantes italianos, porque a Itália fazia parte do eixo, e tal. Foi difícil para todos os italianos, aqui no Rio e em São Paulo também. As bancas de jornais, quase todas eram de...
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Identificação
Meu nome é Sérgio Mazei. Eu nasci aqui no Rio de Janeiro, no dia 12 de Dezembro de 57,
Eu nasci na Tijuca. Na verdade, na fronteira entre Vila Isabel, Andarai e Tijuca, próximo a uma fábrica de tecidos que inspirou Noel Rosa numa música chamada Três Apitos.
Fábrica Confiança
A Fábrica Confiança, aquela que inspirou a música do Noel Rosa, não existe mais. Transformou-se num supermercado. Mas, a estrutura está mantida, a chaminé, tal. Eu cheguei a pegar o finalzinho, dela funcionando. Foi essa fábrica que gerou todo aquele aglomerado formado pelas casas de operários, baixinhas, com um comércio incipiente que atendia àquela região. Depois, com o crescimento do Bairro da Tijuca, a fábrica foi desativada. Hoje está transformada em um hipermercado.
Origem Família
O meu avô é imigrante italiano, trabalhou nesse comércio do centro. Ele veio para o Brasil e ainda pequeno começou a trabalhar. Eu não tenho recordação assim, nem desses depoimentos dele, não conversávamos sobre isso na época, mas ele chegou a trabalhar sim. Esse comércio pequeno do centro absorvia muito essa mão-de-obra de imigrantes para serviços braçais. Daí a pessoa ia evoluindo. Chegava ao balcão para atender, depois tomava conta do caixa. O comércio, o do centro em particular, absorveu muito o trabalho do imigrante. Em São Paulo eu acho que foi mais a lavoura.
Rua da Carioca
Meu avô trabalhou numa loja da Rua da Carioca, uma dessas ruas protegidas pelo corredor cultural, que hoje tem um comércio forte de instrumentos musicais. Tem lojas centenárias, como a Guitarra de Prata, o Bar do Luís, um bar típico carioca. Mudou de nome na época da guerra, porque era de alemães. O meu avô italiano dizia que essa época foi muito dura para os imigrantes italianos, porque a Itália fazia parte do eixo, e tal. Foi difícil para todos os italianos, aqui no Rio e em São Paulo também. As bancas de jornais, quase todas eram de italianos. E tinha um grupo que trabalhava no setor da nossa economia na época, onde era muito significativa a e mão-de-obra imigrante.
Infância
Eu tenho lembranças muito claras do modo de vida do Rio na época da minha infância. De circunstâncias que diferem muito da vida atual. Por exemplo, eu me lembro do apito do guarda -noturno, a coisa mais tranquilizadora para todo mundo. Hoje em dia parece até ridículo se imaginar que normalmente esse guarda era um senhor andando de bicicleta, nem andava armado, e só tinha um apito. Só que aquele apito transmitia uma incrível sensação de segurança. A vida era mais tranqüila, a gente não tinha Shopping, não tinha grife, a formação das crianças era completamente diferente da que se dá às crianças hoje.
Zona Norte
Os bairros da zona norte tinham características muito semelhantes entre si. Um pequeno comércio, normalmente de imigrantes portugueses e italianos, que atendia às necessidades básicas das pessoas. Tinha normalmente uma padaria, um açougue, uma quitanda, um armazém. Os fregueses faziam conta, pagavam no final do mês e não tinha essa preocupação que se tem hoje com a preservação dos alimentos, com a pasteurização, a esterilização. E ninguém morria por causa disso. Era um comércio interessante . A água sanitária, por exemplo, ela ficava num barril, onde as pessoas iam para lá encher os casco. O que mais? Granel, também. Arroz, feijão era tudo a granel. Aí começaram a surgir os mercados maiores, evoluíram para o mercado de auto serviço, que a gente tem hoje em dia, mas antigamente o atendimento era personalizado, todo mundo era tratado pelo nome
Zona Sul
O comércio mais importante era na zona sul, no centro da cidade. A Tijuca, onde se situa a Praça Saens Peña tinha um comércio mais importante, com lojas de departamentos, como o Ponto Frio, a Tele Rio, que já existiam na época. Mas a gente tinha também um comércio caseiro. Os vendedores iam nas casas, se anunciavam na rua, anunciavam também a sua mercadoria, vendiam colchas, roupas, até artigos de beleza para as mulheres. Não existia um aglomerado de lojas, como existe hoje. Era realmente bem diferente. Aquela é uma região que, se você vê numa vista aérea, no centro ainda é cheia prédios baixos, antigos sobrados , é uma área foi protegida pelo corredor cultural, que deu alguns benefícios para os comerciantes, como isenção a de IPTU para a manutenção das fachadas originais. É uma área ainda bem preservada e mantém um pouco do comércio original.
Casa Turuna
Eu me lembro, assim pelo lado lúdico, que o que mais me marcou, acho que foi a Casa Turuna, porque era vendia fantasias de carnaval, que naquele tempo era um evento muito legal para as crianças. O carnaval hoje está muito restrito, mas na época era um carnaval mais infantil, as crianças ficavam na rua fantasiadas. E a Casa Turuna tinha aquela infinidade de fantasias e de máscaras. Aquilo ali era uma festa para as crianças. Nós vínhamos para a Tijuca e comprávamos as fantasias ou tecidos. Tinha todo um ritual. As avós ajudavam a bordar, eventualmente um piratinha na fantasia, uma caveirinha e tal. A Casa Turuna ainda existe, e é muito marcante. Eu passo lá na porta de vez em quando e ainda me lembro daqueles carnavais.
Publicidade
As campanhas publicitárias... isso é um negócio interessante. Elas sempre tinham uma vinheta marcante, de biscoito, das Casas Pernambucanas, mas não me peça para cantar, por favor ( risos ). A das Casas Pernambucanas era interessante, chamava a atenção. Hoje às vezes sai uma coletânea de antigos comerciais de programas de televisão, mas dessa aí é que eu me lembro bem. Tinha uma de uma empresa de dedetização que eles, usaram um artista interessante. Normalmente as propagandas tinham um display fixo, exibiam um número de telefone e pronunciavam um outro número parecido, trocando um ou dois algarismos. No fim, as pessoas ficavam tão intrigadas que acabavam decorando esses telefones.
Carreira
Eu comecei a fazer engenharia e fui trabalhar em projeto naval, uma outra indústria que foi muito relevante para a economia do estado. Eu fazia projetos, cálculos de máquinas, de tubulações, essas coisas. Infelizmente, perdi meu pai muito cedo e tive que trabalhar. Como não tinha aqui no Rio de Janeiro o curso de engenharia á noite, eu não pude continuar. Mas estava surgindo a informática, coisa que eu gostava muito também, e acabei me desviando, fazendo informática, onde trabalho até hoje. Eu trabalho numa empresa multinacional distribuidora de petróleo, na área de desenvolvimento de sistemas aplicativos.
Projeto Memória
Eu acho que o Brasil tem uma perda de memória muito grande, infelizmente. A gente vê em São Paulo, por exemplo, na semana passada recuperaram um busto do Pixinguinha num lixão, busto que foi esculpido pelo Elifas Andreato. Infelizmente, isso é muito comum, a gente perde a nossa memória, nossos idosos, nossos ícones. Acho legal qualquer iniciativa para resgatar e preservar a memória. O Arquivo Nacional aqui, a Cinemateca do MAM, também há alguns anos atravessa uma crise. As latas estão enferrujando, contendo com um material insubstituível. Por isso a iniciativa de vocês de resgatar e preservar a memória é uma atitude elogiável, que deve ser imitada por todas as instituições que lidam com a cultura. Tem que se olhar com muito carinho o nosso passado, porque dele a gente tira muito para direcionar o nosso futuro. Eu queria deixar registrado isso, porque na Europa a gente fica fascinado quando vê os prédios antigos. Mas é uma cultura muito antiga, eles já perderam várias vezes a História, até chegar ao ponto de descobrir que a História e a memória de um povo são os traços que têm que passar de uma geração para a outra. O Brasil é um país novo, mas muito a gente já perdeu. Queria colocar aqui que o governo e as autoridades têm que entender que o incentivo à cultura passa pela preservação da memória e é preciso ter mais empreendimentos e iniciativas como a de vocês.
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