Meu nome é Beatriz Rodrigues Silva. Eu nasci na cidade de Marília, que fica dentro do estado de São Paulo. E eu nasci no dia 8 de novembro de 1994. Tenho 32 anos.
E os seus pais, como é que se chamam?
Minha mãe se chama Cristiane Pavanello Rodrigues Silva. E meu pai é Luís Henrique Ferreira da Silva. Meu pai também nasceu em Marília, nessa cidade, apesar de também não ter morado por lá por muito tempo, nem eu. Minha mãe já nasceu na cidade de São Paulo. E a minha mãe, como eu falei, é Cristiane Pavanello Rodrigues Silva, somos todos descendentes de imigrantes, não é? Mesmo da cidade de São Paulo, também temos essa veia de imigrantes italianos, portugueses e sírios. E meu pai, provavelmente o tataravô dele, era português e casado com uma escrava.
E o que os seus pais fazem?
Então, minha mãe sempre foi enfermeira. E meu pai já foi policial, já trabalhou com comércio. Aqui em Portugal, minha mãe continua exercendo a enfermagem, mas como professora universitária. Meu pai, ele trabalha com Uber e também trabalha na secretaria da universidade onde minha mãe dá aula, que é a Escola Superior de Saúde de Santa Maria. Fica no Porto.
E quando é que vieram para cá?
A gente veio há 10 anos atrás. Dez anos atrás, justamente por essa necessidade das escolas superiores de terem professores doutores na área de enfermagem, porque é uma realidade aqui em Portugal, os enfermeiros emigram muito, também. Vão para fora atrás de melhores condições, melhores salários. E, digamos, as grandes cabeças, eles acabam perdendo para o setor público, para as universidades públicas, ou para fora. Então a faculdade é particular e viu essa necessidade de importar uma professora do Brasil.
E vieram os três?
Viemos nós três. Sim. Eu vim com a minha mãe primeiro, mas por conta de logística da universidade, que eu também tinha que começar a dar aulas, eu também tinha começado a minha faculdade, meu pai veio depois de seis meses, mas foi uma...
Continuar leituraMeu nome é Beatriz Rodrigues Silva. Eu nasci na cidade de Marília, que fica dentro do estado de São Paulo. E eu nasci no dia 8 de novembro de 1994. Tenho 32 anos.
E os seus pais, como é que se chamam?
Minha mãe se chama Cristiane Pavanello Rodrigues Silva. E meu pai é Luís Henrique Ferreira da Silva. Meu pai também nasceu em Marília, nessa cidade, apesar de também não ter morado por lá por muito tempo, nem eu. Minha mãe já nasceu na cidade de São Paulo. E a minha mãe, como eu falei, é Cristiane Pavanello Rodrigues Silva, somos todos descendentes de imigrantes, não é? Mesmo da cidade de São Paulo, também temos essa veia de imigrantes italianos, portugueses e sírios. E meu pai, provavelmente o tataravô dele, era português e casado com uma escrava.
E o que os seus pais fazem?
Então, minha mãe sempre foi enfermeira. E meu pai já foi policial, já trabalhou com comércio. Aqui em Portugal, minha mãe continua exercendo a enfermagem, mas como professora universitária. Meu pai, ele trabalha com Uber e também trabalha na secretaria da universidade onde minha mãe dá aula, que é a Escola Superior de Saúde de Santa Maria. Fica no Porto.
E quando é que vieram para cá?
A gente veio há 10 anos atrás. Dez anos atrás, justamente por essa necessidade das escolas superiores de terem professores doutores na área de enfermagem, porque é uma realidade aqui em Portugal, os enfermeiros emigram muito, também. Vão para fora atrás de melhores condições, melhores salários. E, digamos, as grandes cabeças, eles acabam perdendo para o setor público, para as universidades públicas, ou para fora. Então a faculdade é particular e viu essa necessidade de importar uma professora do Brasil.
E vieram os três?
Viemos nós três. Sim. Eu vim com a minha mãe primeiro, mas por conta de logística da universidade, que eu também tinha que começar a dar aulas, eu também tinha começado a minha faculdade, meu pai veio depois de seis meses, mas foi uma coisa mesmo logística.
Veio então com 22 anos?
É, tinha 21 para 22.
Tem irmãos?
Eu tenho uma irmã mais velha, ela já era casada no Brasil. Então, já tinha ela, seu apartamento com o seu marido, não veio, mas eu era mais nova ainda, porque a minha irmã está com 38. Também é muito jovem. É, ela casou jovem.
Para além da minha mãe ter essa questão... de investigadora, não é? Então, ela quis fazer a árvore genealógica da família toda, até mesmo para a gente ter os direitos, não é? Que no caso não temos da cidadania, então vamos ver até que ponto que a nossa família podia nos dar cidadania europeia, não é? Mas a nível de quando criança sempre soube, até mesmo nas palavras, falamos muitas coisas em italiano dentro de casa, comida, muita comida árabe, temos essa veia da família que foi sendo transportada durante as gerações.
Os Avós eram imigrantes?
Os avós da minha mãe, sim. Por parte de mãe eram italianos e portugueses,, depois por parte do pai da minha mãe, eram sírios e portugueses.
Os seus avós contavam histórias sobre a imigração e os países de origem?
Não, com certeza. Imagina as histórias, primeiro a gente já nasceu com muita consciência de classe, não é? Viemos todos para cá, para o Brasil procurando uma vida melhor, não é? Chegamos aqui pobres, pobres, pobres. Todos tinham uma profissão que ao chegar no Brasil, transformou em outra coisa. Então tem essa parte desde pequenininha deles contarem, não é que iam... principalmente a minha avó síria, não é? Que ia para a feira, no finzinho da feira, a falar que precisavam de comida para os coelhos, mas na verdade era para os filhos, não é? O restinho da verdura, faziam cuecas, calcinhas com um saco de batatas. Isso sempre foi uma realidade que meus pais quiseram transportar para a gente no sentido de tipo, “Olha, muito bom o que vocês têm agora, mas nem sempre foi assim”. Não é? Então, acho que eu e minha irmã, a gente sempre cresceu com essas histórias enraizadas, principalmente para a gente dar valor para a vida que tínhamos que temos agora.
E como é que foi a infância? Como é que foi? Lembra-se da casa, da rua?
Lembro porque assim, eu nasci em Marília, mas eu vim com dois anos para São Paulo e morei nessa casa até meus 22, que era a casa que o meu bisavô português construiu. Eu morava na Rua Nova dos Portugueses, no Chora Menino. Essa rua justamente tinha esse nome porque era uma comunidade portuguesa que chegou na zona norte de São Paulo. Muitos construtores por conta que esses portugueses foram para fazer a linha azul do metro em São Paulo. Então, todos tinham ali um terreninho e construíram casas, as casas dessa rua, normalmente nesse terreno tem mais de duas casas, normalmente é uma casa em cima e uma casa em baixo separada, mais uma casa atrás. E pronto, depois, na minha altura, já tinha muros, mas antigamente não tinha muro, porque já ligava com o vizinho, que não era vizinho, era alguém da família, enfim. Tenho essa noção da casa. E essa casa ainda é nossa, está alugada, mas tenho muito carinho por essa casa, por essa rua, por a rua que eu cresci, que eu estudei, estudei muito tempo no colégio nessa rua, mesmo quase em frente da minha casa, que se chama Colégio Brás Leme.
E brincadeiras na rua?
Brincadeiras na rua, não. Desculpa, não, não, brincadeiras não, porque eu tenho 20 anos, não é? Na altura da minha mãe, do meu pai, com certeza, eles brincavam na rua, mas na minha altura já passava autocarro, ambulância, passa de tudo ali, não se brinca na rua em São Paulo. Uma cidade grande, perigosa. Eu brincava dentro de casa, e as vezes assim ia para a casa de amiguinha e assim, com máxima segurança possível.
E com a irmã ou com vizinhos, primos, família?
É, a minha irmã tem seis anos de diferença comigo, a gente nunca bateu muitas brincadeiras, não é? Eu brinquei muito sozinha. Brinquei muito sozinha, eu lembro a brincadeira que... Eu lembro muito de fazer isso. E minha irmã também lembra, sempre, eu sempre brinquei de ser artista, não é? Então pegava o microfone do karaoke, não sei se vocês tiveram também essa fase aqui em Portugal, no Brasil, toda família assim, fosse média, já tinha o seu karaoke em casa, que eu pegava o microfone, ficava na frente da televisão, o programa do Raul Gil, o programa de calouros, sabe? E ficava fingindo ser uma caloura, o micro-ondas me refletia e eu ficava na frente do micro-ondas horas e horas e horas apresentando o meu programa, que eu achava que o micro-ondas era a minha câmara, sabe? Eu estava ali falando. Era essa a minha brincadeira. Eu brincava de ser. Claro que pedia bonecas, mas a minha brincadeira principal era ser alguma coisa, ser professora, ser, quase não pegava nos brinquedos materiais, assim, era mais uma coisa criativa.
E a família alargada — primos e outros familiares — vivia por perto, conviviam?
Sim, sim, tem essa noção também do domingo, domingo, sempre foi uma coisa muito importante em casa. Chegar, acordava já naquele ritmo assim, de festa de churrasco, não é? Aquela loucura de “os seus tios já tão chegando, os seus primos”. Quase todos os domingos tinha churrasco na minha casa. E a família reunia assim muito, n´ss somos descendentes de sírios e italianos, a gente se reúne pra comer. (risos)
E além dos domingos, eventos familiares não tão regulares, mas que eram importantes? Reuniam-se muitas vezes em família?
Olha, é uma coisa que o meu pai sempre fez para a gente. Marcou muito também. No dia da criança, ele juntava os primos todos. Tem dois primos que ficaram órfãos de pai e mãe em um acidente. E eles eram até mais velhos, eles batem mais menos com a minha irmã. Mas meu pai sempre fez questão de ir no dia das crianças acolhê-los e outros primos também. E fazer assim, era cachorro quente, batata palha, pipoca, fazer assim, o dia mesmo da criança, que o dia das crianças do Brasil é 12 de outubro, que é junto com o dia da Nossa Senhora Aparecida, que é a padroeira do Brasil. Então era um dia importante. Era um dia de festa, tanto para a parte católica, quanto para também essa parte do dia das crianças, era algo assim mais diferente. Sem contar com o Natal, Ano Novo…
Carnaval?
Sim, o carnaval também, mais por conta da… a minha família sempre foi um bocado ligada com as escolas de samba. E a minha rua também sempre foi ligada. Tinha amigos dos meus pais que também, a avó sempre costurava as fantasias, então a gente chegou a desfilar no Sambódromo com a Peruche, que é uma escola de samba. A X-9 também, que é uma escola da zona norte de São Paulo. Sim, também gostávamos muito. O Carnaval de rua começou a se popularizar de novo, porque teve uma altura que caiu, sabe? Quando era pequena. Eu já tinha para aí uns 16, 17 anos, que voltou com tudo em São Paulo. Tem esse carnaval de rua que hoje a gente vê. Quando era pequena não era muito de ir pra rua pra Carnaval.
E quando era pequena as amizades. Já percebi que de vez em quando ia pra a casa de uma amiga, brincava… era mais no espaço da escola?
Era mais um espaço da escola sim ou atividades extracurriculares, né? A gente fazia algumas amizades.
E lembra-se das amizades da infância?
Algumas. Mas eu também era uma criança que eu tinha muitas amizades, minhas amizades sempre foram… mas tenho duas ou três amigas da infância, que sim, eu lembro de brincar. Eu brincava mais…A gente brincava coisas bestas, não é? Assim, agora eu lembro uma memória bem, bem, bem antiga, era da Teletubbies. Fez sucesso o Teletubbies, e era aquela coisa, a Palhinha, coisas assim, de imaginar que a gente é uma personagem. b, né? Ou queimada, a gente jogava muito queimada, não sei se chama queimada aqui. A gente bate com a bola na pessoa e a pessoa se queima.
E a escola em si? Frequentou pré-escolar, berçário…
Eu frequentei desde sempre a escola, porque meus pais sempre tiveram mais de um emprego, não é? Tanto meu pai quanto minha mãe sempre tiveram dois empregos. Então, e meus avós também, quando eram vivos, precisavam também trabalhar, nunca teve essa possibilidade de ficar com a gente. Então, eu sempre fiquei, acho que desde os três, quatro meses na creche, fazendo o meu percurso escolar, assim, desde muito novinha. Passei por muitas escolas, principalmente por conta financeira, porque meus pais sempre quiseram dar o melhor que podiam para a gente, mas nem sempre, nem sempre conseguiam, então assim, aquele ano consegue. Então, numa escola de topo, “esse ano a gente tem que apertar mais as calças”, não é? Ficava dois, três anos nessa escola, depois ia para uma escola um pouco mais barata, depois ia muitas vezes também… eles estavam fazendo esse investimento, muitas vezes não aconteceu, eles fizeram esse investimento em mim e eu não correspondi, eu tive que ir dois anos para o público, porque eles falavam que “Você não está estudando. Também a gente não vai ficar investindo, se você não vai querer aproveitar”.
Mas as memórias são boas ou alguma coisa que a tenha marcado quando era mais pequenina?
Não, são boas, são boas. Eu sempre fiquei ansiosa para ela… mesmo durante as férias, sabe? 15 dias de férias eram bons para mim, depois já ficava ansiosa para ir para a escola, para.... Tem isso, acho que como eu morava em casa, quando você mora em apartamentos, tem as amiguinhas do prédio, não é? Eu morava em casa, então necessitava ir para a escola para estar com outras crianças. E sempre gostei muito das escolas, meus professores, têm muitas boas memórias de professores. Ah, tem dois professores que me marcaram muito, foi um professor de história. Foi o Professor Germano, foi um professor que assim, que meio que eu já estava no sétimo ano. Me tirou assim, sabe? “Olha, vamos pensar um bocadinho fora da caixa” lembro que ele era assim todo diferentão, e me marcou muito eu ele, assim, a postura dele em classe. E a professora Cleide de matemática, que ela tinha muita paciência comigo, essa professora chegou a ir até a minha casa para me ajudar. Com a prova que ela mesma ia dar, sabe? Mas sempre.... Acho que assim, eu também fui sempre próxima dos professores. Por pior aluna que eu fosse, eu acho que eu sempre fui próxima dos professores, os professores de mim. Então, tenho boas memórias, sim. Eu não tenho uma professora que fale assim, “Ah essa professora é insuportável” não gostava, não tem. Que me tenha marcado negativamente não.
Como é que ia para a escola? A pé de carro?
É isso, eu passei por várias escolas. Essa do [trecho pouco percetível], estudei lá durante dois períodos da minha vida, eu ia a pé, é muito próximo. Mas cheguei… cheguei muitas vezes a ir para a escola de carro, teve escola que fui de carro, já maiorzinha, eu fiz um tecnólogo na ETESP, que fica dentro da FATEC, na Luz, que eu já ia de transporte público. [trecho pouco percetível]
E na altura, não sei também se é no ensino secundário, que teve que escolher algum curso ou agrupamento que depois orientava um bocadinho as disciplinas para o que iria fazer depois no futuro.
No Brasil a gente funciona assim, no Brasil você tem que passar de tudo. Se você não passar, por exemplo, se eu reprovar de matemática, tem que reprovar aquele ano inteiro. Tem que fazer o ano inteiro novamente. Sim, sim, isso também. Mas aqui não escolhe humanidade. Ah, tem matemática em português. Mas a matemática.
Sim, sim, aqui também, mas no nono ano…
Mas escolhe Humanidades ou …
Ah, sim, mas temos sempre matemática e português. É mais fácil dependendo do agrupamento.
Por exemplo eu reprovei no meu décimo primeiro ano em química. E tive que fazer o ano todo novamente. Sim, não tem isso. Mas não, a gente só realmente escolhe para onde que vai depois do décimo terceiro, não é? A gente nem chama décimo terceiro, a gente fala terceiro ano do colegial. Aí a gente escolhe para que faculdade vai, eu na altura também fiz um cursinho, para ver se eu passava alguma faculdade pública. Mas é só nessa altura que a gente começa a pensar. Começa a pensar antes para ter notas, mas as nossas notas do secundário não reflete-se em nada depois da escolha da universidade.
E nesta altura já tem uma ideia. Mas na infância, pensava no que gostava de ser? Artista?
Artista, sempre pensei em ser artista. (risos) Eu pensava muito em ir para a área da saúde, acabei por ir, eu fiz três anos de medicina dentária, depois que eu desisti e fui para a comunicação. Acho que a gente escolhe muito cedo. Então, até acho isso aqui em Portugal. Se no Brasil é cedo aqui para a Portugal é desumano, você no nono ano começar a pensar o que você quer ser da vida. Porque a gente vai mudando tanto durante a vida, não é? Mas pensava, pensava muito em ir para a área da saúde, porque sempre acho que vi minha mãe como exemplo. E pensava em área da saúde e ser artista.
E então, mas na sua escolha, como é que foi a escolha do curso da faculdade? Como é que foi esse processo?
O processo pronto, é... Eu lembro, enfermagem não, medicina achava que não era capaz, aí eu falei, não, acho que vou para a medicina dentária. Foi algo que eu gostei muito nos primeiros anos, depois eu fui vendo que aquilo, conforme foi evoluindo as cadeiras, para as práticas, eu comecei a ficar até com... Um enjoo com cheiro de saliva. Eu falei, não, como é que eu vou ser uma dentista, sendo que enjoo com cheiro da saliva? Pronto, desisti. Também eram muitas horas de trânsito para a faculdade.
Como é que surgiu o gosto pela comunicação?
É isso, eu acho que sempre foi. Sempre foi. Só que eu confundi essa parte do ser artista, de comunicar com ser artista, não é? Mas esse veio… eu acho que sempre esteve em mim, assim, de gostar de falar, gostar de estar em contato com as pessoas, gostar de criar, acho que sou uma pessoa muito criativa. Então, acho que foi algo mesmo natural. E também sempre trabalhei, não é? Um trabalhinho ou outro, claro que sempre foi… a primordial era estudar dentro da minha casa. Mas seja assim eventos, às vezes monitoria de eventos, de festa de criança. Antes de entrar na faculdade. Desde os 16 anos já fazia isso. De festa de criança, de ad manager, tinha uma amiga da minha irmã, que a mãe tinha uma empresa dessas e eu ia lá também. E gostava muito dessa parte de eventos. Depois, quando… eu acho que eu também tinha mais ou menos por volta dessa idade, com 16 anos, que eu entrei num tecnólogo. É o que eu falei, que é a ETESP, e eu fiz o tecnólogo em gestão de eventos. E foi algo assim que eu brinquei, eu acho, assim, eu adorei fazer. Mas eu adorei fazer esse curso. Aliás, eu tenho muitas boas amizades e muitas boas recordações do pessoal desse curso. Depois que pronto, a gente faz isso um ano e meio, não é? E calhou assim mesmo, era um ano e meio, depois terminei esse curso, já comecei a fazer cursinho, para entrar na faculdade pública, e aí fui para a medicina dentária. Só que quando eu pensei, olha, não é isso que eu gostava, né? Eu gostava de fazer eventos, eu gostava de tirar foto, eu gostava de criar. Então, eu fui pra fui para marketing. Fiquei três meses nessa faculdade. Aí minha mãe falou “Olha, fui chamada para uma Universidade em Portugal. Tenho a certeza que se você tivesse essa oportunidade eu seria a primeira pessoa a dar força. Vocês vão me dar força?” A minha irmã claro que ficou meio chateada porque sabia que não poderia vir e eu estou pronta para ir para a Europa. (risos) e vim.
Este primeiro dinheiro que ganhou aos 16 anos, que é assim uma primeira independência em relação aos nosso pais, em quê que gastava?
Olha, com 16, acho que eu gastei…. Eu lembro muito bem de ter comprado um computador, um Dell vermelho. Eu lembro que eu trabalhei no Natal também, de extra… em extra de lojas também para comprar esse computador com 17 anos também comecei a juntar dinheiro para tirar minha carta de condução E também gastei esse dinheiro também com a carta de condução. Foi as duas coisas que mais me dediquei em juntar dinheiro
Então 3 meses depois de entrar em marketing vem para cá com a mãe primeiro. E quando veio para cá já tinha um plano para estudar?
Sim. A faculdade da minha mãe é uma faculdade de freira. E na altura, quando teve esse convite, calhou também dessa freira estar em uma convenção, mas assim, algo científico Ciclo de palestras, algo assim, em São Paulo E ela me pegou na minha mão Ela sentou comigo, ela falou, “Olha, obviamente a pública você não vai conseguir”, não é? Por conta que eu tinha que ter uma nota do ENEM muito alta. Não tinha as notas do secundário. “Dentro das particulares eu indicava essa, essa e essa”. A gente começou a ver valores de propina e basicamente chegámos em duas faculdades que aceitariam com a nota do ENEM, que foi a Lusíada e a Lusófona. E depois eu escolhi a Lusófona mesmo por uma coisa logística, tipo, era muito perto da minha casa, só pegava o metro na mesma linha, me sentia segura no trajeto, porque a gente ainda veio com essa coisa muito da insegurança, não é?
Então veio diretamente para o Porto
Sim, sim, sim.
E qual era o curso?
Eu tirei Gestão de Marketing. Adorei a Lusófona.
Como é que foi, então, a experiência aqui na faculdade?
Eu amei, eu amei ter feito a faculdade em Portugal. Eu tenho um filho muito pequeno, espero que eu possa dar essa experiência a ele também. Não que as faculdades do Brasil não sejam de boas, mas aqui eu senti que eu vivi a vida universitária. Não é? Tem essa coisa.... Claro, a questão da prática, mas assim, eu vivi mesmo, foi algo que a gente fez ali uma comunhão entre o pessoal que chegou. Foi muito fácil de fazer as amizades. Eu falo da prática, porque para mim foi uma forma de ser inserida dentro da cultura de forma muito fácil. Me senti muito acolhida, gostei muito, muito, muito mesmo da minha vida universitária. Também foi morar no centro do porto e ter vindo de uma cidade que era tão perigosa, não é? Cheguei ali, morava no centro do porto, a faculdade no centro. Era café e mais cafés, tainadas e mais tainadas, voltava sempre tarde para casa, foi algo que foi muito fixe.
Então foi bem acolhida pela faculdade e pela cidade também, pelas pessoas?
Sim, sim. Pela cidade, pelas pessoas…
Tinha na Lusófona mais estudantes do Brasil, de São Paulo?
Da cidade de São Paulo não. Tinha de São Paulo, mas do Estado. Éramos três brasileiros. Não era no meu curso. Não, não eram muitos. Há 10 anos atrás eu acho que…. mudou muita coisa, não é? Não era no meu curso, uma brasileira estava em direito e outra brasileira estava, acho que Gestão a gente se uniu ali, mas...O que eu achei… o que é giro também, não é porque a gente é brasileiro que a gente ficou junto. Não, a gente “Legal, você é brasileiro” então comunicávamos às vezes, mas não era algo que a gente fez, unir forças para…. minhas amizades eram todas portuguesas.
E durante o curso? Adorou já percebi, correu bem.
Correu bem, gostei de professores, gostei da.… também é isso, eu vim de um ritmo de faculdade de uma medicina dentária que tinha 17 cadeiras, para uma faculdade cá. Não estou falando de jeito nenhum que a Lusófona é fácil. Mas eu lembro quando falaram para mim que eu tinha que entrar às 9 da manhã na faculdade, às 9 da manhã em São Paulo já estava tomando meu primeiro café, era o meu primeiro intervalo. Já tinha tido pelo menos duas aulas. Entrava às sete. Sete, oito, né? Nove horas, nove horas, nove horas já tinha metade do dia feito né?... Era uma carga bem reduzida de estudo e de matérias. Foi bem.
Alguma coisa que eu tenho marcado mais nesse período. Falou algumas séries coisas positivas, colegas, professores, a própria instituição a própria cidade, mais alguma coisa que se lembre e que mereça ser mencionado em relação a esse período?
Olha, dos estudos, o que eu acho que, é assim algo que eu acho que foi o divisor de águas é da questão da língua, porque meus pais também sempre lá no Brasil, tentaram me dar cursinho de inglês, cursinho disso, cursinho de espanhol. E aquilo não desenrolava, quando eu cheguei na cidade do Porto, por essa multiculturalidade que tinha. Acabou que o meu inglês fluiu. Também tinha oportunidade de ir de Erasmus. Eu não teria essa oportunidade se não tivesse inserida dentro da faculdade europeia, não é? Eu morei oito meses em Paris. E foi só assim que também. Eu passei assim de um A1 do inglês, um A2, para o C1 só de falar com as pessoas, de conhecer pessoas novas e pessoas que eu sabia que não iam ficar, só estavam ali na cidade por um fim de semana. Mas a gente. A gente. O meu grupo de amigos era muito expansivos também, a gente agregava logo as pessoas turistas e tudo, foi muito fixe. E fazia o francês também. O francês faz seis anos que eu não entro em contato com a língua. Mas o francês também fluiu muito bem, eu saí falando bem da França, e depois no outro verão, como eu não queria perder o francês, eu fiz au pair no Canadá. E foi cuidar de duas crianças que falavam francês também, para não perder muito. Uma experiência de babysitting no Canadá. Foi mesmo para ter essa experiência fora. Fui para Ottawa. Foi fixe porque falava em francês, falava inglês, os pais, o pai era filho de português, então eles queriam também que as crianças aprendessem alguma coisa no português. Isso foi no ano que eu terminei o curso de marketing. Eu estava também estagiando numa revista no Porto. Liberaram eu ficar um mês fora. Esse estágio era curricular. Correu bem.
Já percebi que teve uma vida de lazer e de convívio, boa, os amigos os cafés, os jantares. Além disso também fazia alguma coisa, alguma atividade mais cultural?
Assim, atividades culturais, isso ficou sempre muito voltada com a minha família. A ida ao museu, mesmo viagens para conhecer castelos, conhecer isso, sempre foi muito voltada com a minha mãe. E tem muitas recordações, eu tenho certeza que isso é uma coisa que ninguém vai me tirar com a minha mãe, são as viagens que a gente fez.
E o grupo de amigos, como é que era?
Ah, era do mais diversificado possível. Sim, tudo, tudo, tudo, tudo.
Tinham o algum tipo de ritual, de encontro. Aquela festa que não podiam passar, aniversários, o que você...
Ah, o nosso ritual era mesmo aquela coisa assim, de a gente sair depois da aula, vamos encontrar. A gente ficava ali muito no passeio das Virtudes. Das Virtudes, não. Fica ali perto da Lusófona… aquilo é Miragaia, mas tem o nome de passeio. A gente ia muito para lá. A gente só cruzava estacionamento. Era uma vida conjunta, o pessoal também não morava… eu era das únicas que morava com os pais. Todos moravam sozinhos, a gente ia muito para a casa um dos outros, fazíamos trabalho juntos. E assim, meus amigos também não eram nem dos mesmos cursos. A gente tinha cursos diversos. Então, assim, eu estava fazendo um trabalho, quer editar um vídeo, estava a minha amiga aqui a estudar direito penal, tudo assim.
Então o primeiro trabalho depois de estar em Portugal foi esse intercâmbio de babysitting?
Não. Em Portugal, em Portugal, a primeira coisa que eu fiz foi cuidar de uma senhorinha. Foi a dona Norma. Num trabalho pronto. Completamente ao negro, não é? Eu ia dormir na casa dela três vezes por semana- Era uma senhorinha que ela era autônoma. Só que ela tinha caído, tinha tensões altas, ela tinha caído, e como morava sozinha os filhos ficaram com medo, então eu ia dormir na casa dela, assistir as novelas todas, estudava francês porque eu queria tirar o curso pra poder ir de Erasmus. Ela estudava comigo também. A gente… Fiquei com a dona Norma um ano e meio até ir de Erasmus.
E, depois de terminar o curso, como é que foi entrar no percurso profissional?
Então, eu terminei o curso e fui direto para o mestrado no IPAM. Eu concluí o primeiro semestre, acho que foi no meio do segundo semestre que deu a pandemia. E aí fomos todos para casa. Na altura eu comecei, eu conheci o meu namorado, o Tomás, que é transmontano. E agora já estamos a chegar…. E fomos todos para casa. E aquela coisa, a gente diz: “olha, estou em casa, estou pagando uma faculdade caríssima, o IPAM, não é propriamente barato”. Então eu vi que eu podia passar para o IPAM de Lisboa, que tinha essa vertente que eu podia terminar o meu mestrado em EAD. Eu já estava em EAD e estava, EAD é e-learning. Tava em e-learning. Porque a gente estava na pandemia, eu estava pagando como se fosse presencial. Não é? Não era pelo valor, era um pouquinho menor, mas permitiu que eu viesse para Vila Flor, onde não me ia faltar trabalho.
Ok, então veio para a Vila Flor enquanto ainda estava a estudar.
Sim.
E porquê Vila Flor?
Exatamente por isso. Primeiro que o meu namorado, o meu namorado tinha terminado, terminou naquele semestre da pandemia a faculdade e o meu sogro ligava todos os dias a falar que precisava dele aqui. Nos negócios da família. E a gente começou a ver que nossa relação não ia se sustentar no Porto. E depois, justamente pela família ter negócios, que o Tomás falou, “Não, olha. Aqui a gente está dando cabeçada, tentando…” Na altura eu ainda… O meu último trabalho no Porto tinha sido no MAR Shopping, a fazer bilheteira da pista de gelo, que é que tem no final de ano, não é? E falou, “Não, vamos para Vila Flor, que eu tenho certeza que lá a gente consegue se estabilizar, se não for com a minha família, vai ser com outra coisa, você vai conseguir um emprego na tua área, se não for na tua área também, a gente vai tentando” e aí eu falei “ok, vamos ir” e vim para cá.
E como foi? Um misto de entusiasmo e estar assutada?
Não. Foi muito entusiasmante, porque eu estava muito apaixonada, eu sou muito apaixonada por ele, mas estava muito apaixonada, aquela coisa, tipo, “Olha, vou morar junto…” Eu vim duas vezes a Vila Flor antes de vir definitivamente. A primeira vez vim para conhecer meu sogro. A segunda vez vim para conhecer a casa onde que eu moro hoje. Era uma casa que a mãe dele tinha, mas estava, não vou dizer abandonada, mas estava fechada. Ninguém utilizava, e a gente veio ver o que precisava fazer na estrutura para podermos morar. E a terceira vez já vim com mala para morar. Ainda a estudar no IPAM de Lisboa
E como é que foi essa transição, deixar o Porto e vir para aqui?
Ah, claro. Foi assim, eu cheguei de São Paulo para o Porto, já achava o Porto pequeno. Achava que o porto era uma cidade pequena, pacata, tudo era segura… Quando eu cheguei cá .. Tá eu e as cabras só aqui. (risos) Não se passa nada aqui. Comecei a reparar que as pessoas reparavam muito na gente, eu era nova, eu senti…. Eu nunca me vou esquecer disso, A primeira vez que eu entrei no Intermarché, o Intermarché era menor agora já passou por uma remodelação, que é o único mercado que tem aqui a Vila, assim, de grande superfície. E eu sentia o carrinho, assim, eu estava no meio do corredor… Como não era verão, o verão aqui aumenta exponencialmente a população, não é? Não era verão e as pessoas… Eu sentia assim: que o carrinho vinha, via que estava eu ali no meio, uma cara desconhecida, voltavam, davam uma olhadinha e voltavam de novo, porque “Olha, tem alguém aqui que não é de cá”, né? Então, tinha isso, assim, que eu senti logo assim… É uma vida mais vigiada.
Tem esse primeiro impacto, depois habituou-se a essa vida mais vigiada?
Não, a gente não se habitua a isso, não é? Agente não se habitua, mas a gente normaliza. Não é? Eu já sei que se comprar um carro novo, que se comprar qualquer coisa, as pessoas reparam logo, que tem algo novo, ou que chegou um caminhão, sei lá, fiz agora remodelações em casa. Então, “Olha, chegou isso na casa daquela pessoa”, as pessoas comentam, não é? Mas eu acho que… eu também me sinto parte disso tudo. Porque também ao fim de seis anos cá, não é. Eu vejo que eu mesma também já noto as pessoas. Eu já sei também que a pessoa compra um carro novo, que a pessoa isso, aquilo outro, também eu já me sinto, eu já estou super integrada nessa comunidade. Me vigiam, mas eu também vigio os outros, algo assim, não é. (risos)
Claro, mas essa vigilância também está em aspetos positivos.
Sim, do cuidado. Do cuidado, do cuidado, sim, sim, isso é verdade. É verdade, tem um aspeto superpositivo, no sentido que... No sentido mesmo de ser uma comunidade. Agente está falando de 7 mil habitantes, não é? Dentro da vila deve ter o quê? 3, 4? Estamos falando em 4 mil pessoas, é super pequena. Tem tanto influencer aí com tantos seguidores ou mais numa conta não é? E nem sabem para com quem estão a falar e aqui eu sei exatamente quem eu cruzo no dia, e dá uns bons dias, boas horas para aquela pessoa, não é? A gente sabe o quanto que a família dela também impacta na nossa vida, tudo impacta aqui. Não é? Eu acho que é por aí, assim, é algo mesmo…. Eu sei que em Portugal a gente utiliza “aldeia” para sítios ainda mais remotos, não é? Dentro de uma vila, dentro de uma cidade, mas quando eu penso em aldeia, eu penso mesmo nos índios, não é? De ser algo que… estamos numa aldeia de todo mundo cuida de toda a gente. E também em termos de segurança aqui é muito seguro. Muito, muito, muito! Muito, muito, muito. Quantas vezes eu deixo... quantas vezes não, minha casa está sempre aberta. Quantas vezes fica a chave do carro dentro do carro. Eu falo para minhas amigas do Brasil, eu vivo numa bolha. Eu vivo numa bolha. Não tem comparação com o que eu vivi durante os meus 22 anos e agora.
Já trouxe amigos para visitar a cá?
Já, já. Português, brasileiros. Gostaram porque acham um sítio pitoresco, chega na altura do Natal, a gente faz aqui o mercadinho de Natal. Parece que é assim que eu tou num conto de fadas, tudo assim, muito pequenininho. [trecho pouco percetível] Parece uma telenovela, não é?
E qual é o negócio de família do seu namorado?
A família do meu namorado tem algumas vertentes, nomeadamente pedreiras, quintas turísticas, produção agrícola, e comércio petrolífero, de gasóleo … eles têm também bombas de gasolina.
E depois de terminar o curso, queria saber a sua experiência profissional aqui.
Então, foi assim, eu cheguei. Eu fiquei seis meses assim mais dedicada ao mestrado, que foi mais a questão da recolha do estudo mesmo, para fazer a tese. Depois, quando era algo que eu já estava mais só a espera de defender, e fazendo estatística, e assim, eu já comecei a trabalhar na quinta turística da família, a maior, que é a Quinta da Terrincha. Trabalhei lá durante seis meses. E saí, não porque eu não gostei, foi uma experiência incrível. Gosto muito também na área do turismo, mas porque passei… Na altura ainda, eu estava no Porto, tinha aberto um concurso na Câmara Municipal de Vila Flor para design, que não é propriamente a minha área, a minha área marketing, mas esse concurso tinha ficado deserto. Ninguém concorreu. Então abriram uma segunda vez, e essa segunda vez. Olha, já que não tem nem designer, se calhar uma marketing serve né? Uma marketer . E prestei. Mas do prestar até me chamarem, olha, foi…. Eu me mudei de casa, fiquei seis meses fora, seis meses a estudar dentro dessa casa, depois mais seis meses a trabalhar na quinta, e depois me chamaram e eu saí para fazer o concurso, que foi um PEPAL de Design. Correu bem, foi durante um ano, era um estágio profissional pago. Durante um ano e depois prestei concurso para a Câmara e fui ficando, ficando, ficando, ficando, ficando. E hoje estou nos quadros.
Muito bom.
Sim. A fazer o que gosto. E algo que me prende muito em Vila Flor é também essa parte profissional. Porque eu gosto de fazer o que faço, não é? Gosto da parte da comunicação. Esse executivo veio com uma vertente também de dinamizar. É um executivo novo. Entrou junto com o meu estágio, então eu também tive essa oportunidade de ficar muito por conta que o executivo era novo, e com pessoas novas, e que estavam com essa garra, de dinamizar o território, de fazer mais festas, de trazer mais alegria, depois da pandemia, e foi… Eu acho que o encontro de almas, digamos assim, desse executivo comigo, no sentido de consegui ter essa oportunidade muito... Também por conta da característica mesmo deles.
E a relação com as pessoas, com os habitantes aqui de Vila Flor, mudou quando começou a trabalhar na Câmara? Quando começa a trabalhar na Câmara começa a trabalhar para as pessoas também.
Eu acho que é assim: a família do Tomás é uma família muito conhecida, cá. O Tomás é um menino muito conhecido cá, apesar dele trabalhar muito e ninguém o vê, porque ele sai muito cedo, volta muito tarde, mas toda a gente sabe quem é o Tomás. E o que foi principal, assim, da minha entrada para a Câmara é que eu deixei de ser a Bia do Tomás. Não é? E virei um ser que trabalha, da comunidade, Não é? Então meio que desassociou essa coisa do tipo, “Veio por conta do namorado”, não é? E comecei a trabalhar cá para a comunidade. E acho que toda a gente me conhece, ninguém me trata por Beatriz, muito raro me tratar por Beatriz, quando a gente conhece por Bia. A Bia brasileira, a Bia do Tomás, a Bia da Terrincha, né? Mas acho que também foi bom também ter o meu lugar aqui, mas com um lugar de fala de uma pessoa independente da família.
E as funções que tem profissionais implicam contato direto com pessoa?
Ah, sim, sim, muitas vezes, sim. Claro que a gente fica muito atrás do computador, a produzir cartazes, a produzir tudo que é conteúdo digital. Outdoors e assim. Mas também vamos muito para campo, fazemos muitas fotos, fazemos…. Então sim trabalho bastante com pessoas.
A casa, então que ficaram, não sei se é a mesma que disse no início que era uma casa que não estava a ser usada, da família, continua a ser a mesma?
Continua a ser a mesma, a gente remodelou ela.
E é perto da casa da família do seu namorado. Vivem perto uns dos outros?
A família do Tomás mora em Mirandela, em Vila Real? O pai até mora cá, mas está muito por Angola. A mãe dele mora numa aldeia, o Seixo de Manhoses, mas ela se faz muito presente em casa. Ela é a dona da casa, mas ela se faz muito presente. Ainda mais agora que eu tenho bebezinho, ela é vó. Então, tá sempre por perto. Essa parte da família materna do Tomás está muito por perto. É um bebé de sete meses.
Foi programado? Sentiu que é um bom lugar para ter um bebé?
Sim, eu acho que não existe sítio melhor para ter um bebê do que Vila Flor. E sou funcionária pública. A minha casa fica mesmo em frente ao infantário. Mas tem toda a estabilidade para ter um bebê cá, com certeza. Agora, a nível de saúde, se é o melhor sítio para ter um bebê, não! Não, porque você precisa conduzir, conduzir largos quilômetros para ter um bebê com as condições que eu queria ter, não é? Eu tive ele no Porto. E mesmo agora ele entrou para o infantário, ele ficou doente um mês inteiro, sempre correndo de hospital para hospital, e eu não confio na saúde pública de cá. Não, não, não confio na saúde pública de cá, vou confiando na saúde pública do Porto, com certeza, mas daqui da região de Trás-os-Montes, não. E sempre recorro também para a saúde particular.
E porquê? Acha que há poucos utentes?
Não, eu acho que tem muitos utentes, acho que tem muitos utentes até. Acho só que os profissionais não estão preparados para esses utentes. Ou está meio sucateado, digamos assim. Sucateado sucar, tá um bocado assim, deixado ao abandono, banalizado, algo assim, tudo muito... Também venho do Brasil, acho que a saúde... Não, a saúde pública. A saúde pública no Brasil funciona, mas funciona com a sua demora. E funciona para todos, não é? A gente não tem que pagar cota nenhuma, a gente apenas vai e funciona, né? O SUS funciona para toda a gente, mas tem as suas demoras. A saúde particular, eu acho que está a anos-luz de Portugal. É melhor. Muito melhor. Eu estou falando de particular para particular. Muito melhor. Então eu não consigo mudar. Não consigo confiar.
Chegou a casar?
Nós não casamos, fizemos um filho, mas não casamos. Olha vou batizá-lo, para não fazer as coisas erradas vou batizá-lo agora quando tiver um aninho.
E os seus pais, onde é que estão?
Sim, meus pais continuam morando no Porto. Por isso que eu também tenho essa facilidade. De até ficar lá. Ao fim de semana eu vou muito para o Porto. E também se preciso de ir ao hospital, agendar uma consulta.... Tenho essa facilidade. É o que eu falei. Vivo numa bolha de privilégios, eu consigo perceber isso, não é? Uma pessoa que seja se ouvir essa entrevista no Brasil, tanto no Brasil quanto cá, consegue perceber o quanto que está tudo certo, não é por aí, porque uma coisa é você morar no interior. Principalmente no meu caso, né? Ser imigrante no interior. Mulher brasileira, não é? Aqui nessa região. Mas eu vim casada, digamos, assim. Vim com pai e mãe, vim com faculdade feita cá, com a possibilidade de prestar concurso cá. Então são coisas que eu entendo como privilégios na minha vida. Não acredito que seja assim para todos os imigrantes.
E os seus pais gostam de Vila Flor?
Gostam. Eles gostam de Vila Flor até mais do que eu. (risos). Vêm cá muitas vezes. Mas acho que é mesmo por isso por ser uma cidade calma. É tudo muito calmo, eu tenho tempo. Eu vejo a vida da minha irmã em São Paulo. E a minha, tenho tempo para tudo. Se ajeitar certinho, se colocar certinho, eu consigo, eu consigo fazer tudo. Sobra tempo ainda, agora que está vindo o verão, que acaba escurecendo mais tarde. Sobra horas do dia, claro que agora vem um bebê não sobra tantas horas assim. Mas normalmente sobrava muitas horas.
E eles costumam ficar cá em vossa casa?
Sim, sim, ficam em casa, sim.
Mais alguma coisa que queira acrescentar em relação à parte profissional ou à integração, em geral?
A parte da integração profissional. É isso, eu tenho sempre o estereótipo de ser brasileira, não é? Mesmo estando cá há 10 anos, como eu já vim mais velha, não consigo ter… Não consigo e acho mal forçar o sotaque para o português, então as pessoas às vezes falam: “Ah você falar brasileiro…”, aquele tipo de situação. E como sou comunicadora às vezes… no escrever, não me dão oportunidade sequer. Mas isso seria em qualquer outra instituição com certeza. A culpa não é da Câmara, está muito enraizado isso nos próprios portugueses.
Então quando falou em preconceito tem a haver com…. É só um exemplo…
É um exemplo, sim. Da utilização do português do Brasil, sim. Não, acho que sejam injustos, eu acho que seja algo… algo como se fosse protetivo. Não é algo… Eu acho que não existe essa palavra protetivo. Mas algo como se fosse proteger. Preservar, uma questão de preservar a própria instituição, porque eu também estou falando uma autarquia. Não estou falando de uma página qualquer de Facebook, uma página de uma autarquia. Então claro que as pessoas falam “Não, não vamos colocar aqui brasilidades”, não é? E que podia sem querer passar.
Mas gostava de escrever?
Também, Também. Dividindo certinho o trabalho, se tiver trabalho para mim, se tiver trabalho para os outros, está tudo bem. Eu não encaro mesmo, eu não encaro isso como um preconceito. Acho mesmo que seja algo de proteção mesmo, de proteção até mesmo linguística, porque eu acho que a língua também se perde. Não é? E muitos pais hoje em dia falam, não é? “Ah, porque o meu filho só fala brasileiro e não sei o quê”. É algo também de proteção, como mirandês, não é? Acaba por se perder, como o gaélico.
Mas também têm de se adaptar, não é?
Eu acredito que sim. Eu acredito que sim, mas eu não vou nessa linha de frente. Outras pessoas sim.
E, hoje em dia, quais são as tarefas principais? Já voltou a trabalhar com horário normal?
Não, eu trabalho, eu trabalho com o horário do aleitamento, não é? Então a gente pode ter uma hora menos de manhã e uma hora menos à tarde. A instituição deixa livre, essa hora você que escolhe, não é? E eu escolhi entrar uma hora mais tarde e sair uma hora mais cedo. E as tarefas são mais à volta do computador e também sair. Tem alturas que sou 110% mãe e o restante, se sobra alguma coisa sou profissional, mas eu acho que é algo... Algo nesse início, né? Também só faz um mês que eu voltei a trabalhar. E claro que a gente tem muitas incertezas, inseguranças, mas o executivo também foi muito pé no chão, muito querido, no sentido de aliviar um bocado também os fins de semana, porque eu trabalhava muito com os eventos. Os fins de semana, as noturnas, arranjaram uma outra pessoa que fizesse, e eu estou mais ligada agora ao computador mesmo.
E o que o Tomás faz?
O Tomás tem uma pedreira. É uma das vertentes dos negócios da família.
Agora podemos dizer que é uma mulher de Vila Flor de Trás-os-Montes. Em termos de características, é que associa ao facto de ser uma mulher de Trás-os-Montes? O que que lhe adicionou?
Ah pois sou! Eu acho que eu sou uma mulher mais forte, que ser uma mulher transmontana. Eu acho, eu ainda falei isso esse dia, que eu estava fazendo ali um artesanato, e o Tomás “Ah está [trecho pouco percetível]” Tem essa coisa de morre de fome no morro, de “eu sei fazer tudo, e se eu não sei fazer, eu vou atrás e vou aprender e vou atacar que a gente faz” e… Claro que a mulher de Vila Flor, as mais antigas, tem muito essa vertente da agricultura, não é? Mas eu acho que a mulher transmontana é uma mulher forte e independente. Por mais machista que possa ser o território, que eu acredito que ainda seja bastante machista o território. A mulher de cá viu muitas pessoas partirem como a minha família, não é? Para ter uma família, para uma vida melhor. Os maridos foram, os filhos foram, elas ficaram, e desbravaram isso daqui sozinhas. E eu acho que, nesse sentido, também eu me vejo muitas vezes sozinha, mas com uma força…. mesmo sentir que não precisaria também estar com alguém do meu lado, sabe? É algo…. mesmo um chamado, um chamado de construir minha família, de ficar cá, de ser forte, de que tudo aqui vai dar certo, temos aqui um terreno fértil, algo assim.
Pensando no seu percurso de vida, o que significa ser mulher, uma pessoa do género feminino?
Olha, hoje, aqui assim, ser mulher hoje, para mim, eu estou com filho de 7 meses, não é? Eu falo, é o cuidado. Porque eu acho que a minha mãe foi isso e eu tenho sido isso, é o pilar. Sem uma mulher nada funciona. Não funciona, não conseguia, eu não chegava lá do mesmo jeito. Pela família do Tomás. Meu Tomás é de uma família que construiu muita coisa. Teve o pai e o tio do Tomás que foram para Angola, desbravaram muita coisa, mas sem a avó, a dona Odete, nada tinha feito. Nada tinha feito. Então eu acho que ser mulher é ser o pilar. Não é a questão do cuidado. A gente consegue cuidar de todos. Ainda no fim do dia, a gente consegue cuidar da gente, vê uma coisinha que a gente quer, e não sei o que, não é? Mas tem o dia das mães que foi há pouco tempo e me fez refletir muito nesse sentido, de como é que eu cuido de tudo. Hoje em dia na minha casa, apesar de ter 32 anos, mas quando engravidei, “olha que tem uma gravidez super jovem”, não é? Eu falei, “eu não vou dar conta”, não é? Eu dou conta. Eu dou conta disso e mais um pouco. Pode mandar projeto que eu faço! Não é? É esse o sentimento de eu dou conta de tudo, eu equilibro tudo. E quero mais. Não quero ficar por aqui.
E pensando na mulher de São Paulo, a mulher do Porto, e a mulher de Vila Flor. Há diferenças ou há uma espécie de confluência?
Eu acho que há uma espécie de confluência, eu acho que assim, é também o momento de vida que eu estou, de maternar. E tenho certeza que eu maternando em São Paulo, maternando no Porto, a gente é cuidado, não é, mas é o que eu disse, se eu quisesse, se eu quisesse desempenhar essa função de mulher cuidadora, não é? Em São Paulo, se calhar não teria o mesmo tempo que eu tenho cá. Não teria. Não teria tempo de trabalhar, porque eu teria que ficar muitas horas no trânsito, a parte digital teria que ser muito mais presente na minha vida, não é? De pedir coisas, pedir comida online, até mesmo no Porto. E aqui eu não tenho isso. Aqui se eu quiser comer um hambúrguer, eu é que levanto e faço. Então, fazer o mercado, não tem nada digital. A minha casa é uma casa moderna, temos coisas digitais dentro de casa, mas fora isso, o digital não me pega. Provavelmente o meu filho também não vai estar tão... quanto meu sobrinho. Normalmente sim, mas isso de tar nas redes sociais, mas de só ficar nisso, provavelmente não, por conta que ele tem aqui espaço para brincar. Eu não tive essa oportunidade, não é? De brincar na rua, não sei andar de bicicleta. Porque eu não podia andar de bicicleta, não é? Iam me matar no trânsito lá. Meu filho vai poder andar de bicicleta, meu filho vai poder andar de moto, não é? Então, a questão da natureza, da natureza ser mais presente dentro da nossa vida, não é? De você ter um tempo assim. O tempo que eu tenho para relaxar, não vou ficar na televisão, vou dar uma volta aqui na barragem, que a gente tem uma barragem incrível. Eu acho que essa parte da natureza também se faz muito presente.
E o futuro, como é que o imagina?
Olha, eu me imagino… Essa pergunta é difícil. Mas eu me imagino Vila Flor. Apesar de tudo, eu me imagino em Vila Flor, eu acho que eu sendo… agora com o crescimento do Luís Miguel, seria uma loucura trocar essa vida que eu tenho cá, não é? Pelo menos até uns 10, 12 anos dele, eu quero que ele tenha a oportunidade de estar num sítio melhor, de ter o convívio com a comunidade. Então, acredito que eu mulher e mãe.... Vou me sacrificar estar assim mais pela vila, mais aqui em Trás-os-Montes, no sentido de dar uma melhor condição de crescimento para os meus filhos. Agora a nível de estudos e outras coisas se calhar eu vou ter que ir embora de cá.
O futuro pode passar por voltar a estudar noutra cidade e trabalhar?
Não, o que eu digo, é eles estudarem, não é? Para os meus filhos estudarem, terem alguma condição, nós… mas não sei. Não sei também. Eu espero mesmo do fundo do coração, eu trabalhando no município de Vila Flor, que as nossas crianças não tenham o que sair de cá. Esse é o ideal. Esse é o ideal. Porque a gente, aqui, a parte do envelhecimento, a gente tem um envelhecimento ativo incrível. Que a gente consegue ter pessoas idosas fazendo de tudo, trabalhando junto com a comunidade, super ativas. É mesmo incrível isso, porque pronto, a minha avó não tem essa oportunidade no Brasil. A minha avó não sai de casa. A minha avó não consegue pegar um transporte público. Então eu vejo aqui as mulheres, as mulheres com mais idade, com longa idade. Isso daqui é incrível. E eu espero que para as crianças também a gente consiga construir algo fértil, para que elas não tenham que sair de cá. E provavelmente também no futuro, eu não sei como é que vai ser essa questão da agricultura, mas o agro é pobre e pode ser que agora ninguém ligue, mas quem apostar nisso vai dar muito certo. Eu espero que o meu filho também tenha essa cabeça de ir para a agricultura também e continuar semeando o que é a família do Tomás tem. Então, não sei.
Como é que foi contar a sua história?
Foi fácil, mas eu acho que eu não falei muito do feminino. Mas eu acho que é mesmo por conta que o meu feminino.... Acho que eu, Beatriz, estou numa fase que eu não… Acho que sou só mãe sabe. É uma fase muito que a gente só se vê muito mãe, a gente não se vê quase como mulher. É esquisito falar isso em voz alta. É, mas o que é o feminino para mim. É uma coisa…. O poder de gerar, não é? É algo incrível, é só o feminino consegue fazer isso. Não é a mulher quanto o feminino, mas fora nisso, eu estou muito .... Estou muito com a cabeça pra isso. Tiveram uma altura que muitos foram embora, não é? Para a França, a Suíça. E as mulheres ficaram. Muitas mulheres foram, mas muitas mulheres ficaram. E essas mulheres estão aqui ainda, fazem parte do meu quotidiano. E lá têm o chato que se reformou na Suíça e agora é que elas estão a aturar eles, não é? (risos) Essas mulheres têm um brilho no olhar diferente. As mulheres que ficaram. Elas são empoderadas do jeito delas, não é? Porque nem sempre uma mulher empoderada é a mulher que tem dinheiro, que tem isso, que tem outro. A mulher empoderada é a mulher que é dona de si. Que levanta todos os dias e vai fazer sua coisinha, vai fazer suas coisas, [trecho pouco percetível], vai tomar seu banho. De forma autónoma, de…. faz o que quer. Eu acho que aqui em Vila Flor as mulheres têm essa vertente de não baixar a cabeça. Não é? De serem assim fortes. Conseguem fazer tudo mesmo.
Mas não é uma sobrecarga? Falando em equilíbrio?
Mas assim, agora vamos falar, vamos falar a verdade? A mulher está sobrecarregada, desde que mulher é mulher, não é? Não é as mulheres são sempre sobrecarregadas, eu me sinto muito sobrecarregada. Eu consigo fazer tudo e faço tudo e me sinto sobrecarregada. E até às vezes às vezes falo assim, olha, agora eu sou só mãe, não é? Mas as mulheres são…. Mas elas também não estão muito voltadas para que isso…. Acho que aqui em Vila Flor, que isso mude, elas não têm essa consciência. Não sei se elas têm essa consciência. Vejo assim pela minha vizinha, a minha vizinha está sempre lá, bater água no quintal e o meu vizinho, meu vizinho vai tomar seu café
Então, eu acho também que a mulher, a mulher portuguesa, a mulher transmontana tem isso, tipo, “Olha, vai, vai me deixa! Me deixa fazer o que eu quero aqui. E você que vai fazer qualquer coisinha que você saiba fazer”, eu acho que essa mulher tem essa garra de trazer tudo para ela e não demandar muito para as outras pessoas, nem para os filhos. E é claro que é cíclico, né? Porque como o filho não aprendeu a fazer nada, vai vir outra mulher que vai fazer por ele, e vai indo nessa cultura machista que temos, não é? Mas é a verdade. É a verdade, não é? São mulheres que fazem tudo, mas são mulheres machistas. Não ensinam para os filhos a serem diferentes. E aí vai ter uma nora também que vai estar sobrecarregada. E ela não vai ensinar para o filho dela, Não quer dizer que não admire essas mulheres eu admiro muito, eu admiro muito. Não é porque é machista que eu não admiro, pelo contrário, não é algo que a gente só pensa, “por que tem que ser assim?” Mas é da mesma forma que eu falei na língua. Porque tem que ser assim? Mas agora vou eu sentar com essa senhora e falar, “olha, você tem que falar com o seu marido te ajudar com a casa”. Ela viveu 70 anos assim. Eu falo “É mesmo! Vai pró café, vamos ficar aqui lavando”. Tem que levar a vida leve de forma leve. Sem muita preocupação.
Então, destacou o facto de que contar a história da vida foi fácil, mas quando falamos da questão do género, de ser mulher empancou ali um bocadinho porque a maternidade está muito presente. Mas recordou coisas que já não se lembrava, ou já tinha assim muito consciente da sua história de vida?
Acho que sempre foi muito consciente da história de vida e da minha ancestralidade. Acho que isso é algo que eu carrego muito comigo. Muitas vezes também, às vezes a conduzir aqui pelos montes, eu falo assim, às vezes bate aquela música e a paisagem daqui é incrível, não é? Você fala assim, “Nossa senhora, por que eu estou aqui? Como é que eu vou...” Porque uma coisa você vir parar em Lisboa, uma coisa vir parar no Porto, outra coisa é vir parar em Vila Flor, não é? Não é possível que não existe algum chamado. Algo para fazer diferente, cá, não é? E eu sinto esse chamado, essa coisa de “Não, temos que fazer alguma coisa com isso”. E sinto mesmo assim, aí penso que avozinho, avozinha. Se vocês me conhecessem, os meus avós, meus bisavós italianos e portugueses, se vocês tivessem me conhecido, vocês iam estar tão orgulhosos de mim. Sabe alguma coisa assim? Acho que já falei bastante.
Obrigada. Obrigada mesmo. É um agradecimento muito sincero.
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