Áurea Tereza Geber Oliveira, nasci aqui no Rio de Janeiro mesmo, no dia 3 de outubro.
Na verdade, essa história vem desde pequena, quer dizer, colocaram na minha cabeça, no caso, o meu pai, que eu teria um dia, que trabalhar na Petrobras. Ele achava isso – de repente acharia até hoje, lógico, como eu acho – que é o melhor lugar pra se trabalhar. Ele foi contratado durante um tempo pela Petrobras – bem pouco tempo. Desde muito pequena eu lembro de falar sobre o curso superior que eu fiz, de engenharia química – eu nem sabia o que era – e da empresa onde eu iria trabalhar. Desde muito pequena. Quando eu cresci, eu quis outra coisa, mas não deu muito tempo pra isso. Eu fiz a faculdade que ele queria, no caso, engenharia química, e durante o curso eu conheci pessoas daqui de dentro que me influenciaram a fazer esse concurso. Fiz o concurso, estou aqui e estou satisfeita. A minha ideia era outra, eu queria fazer artes plásticas, nada a ver com isso. Mas aí, somos quatro irmãos. Meu pai quase que exigiu que os quatro fossem engenheiros. E são. Uns meio frustrados, outros não. Tanto que eu não exerço a função de engenheira química aqui na Petrobras, mas estou super satisfeita aqui dentro. E eu não esqueço disso, meu pai falando o tempo inteiro: “Um dia você vai trabalhar na Petrobras.” Ele dizia: “A data de nascimento é igual, você vai apagar a vela, um dia, num bolo...” Até houve isso aqui, numa festa da Petrobras, eu fui convidada e calhou. Estou satisfeita. Cada um [dos meus irmãos] seguiu sua vida. A única – como se fosse uma missão, sei lá – que realmente veio pra cá fui eu. Ele não chegou a ver, faleceu antes disso. Foi meio frustrante pra mim porque, de alguma forma, contrariada ou não, eu cumpri uma etapa que ele queria, que era a formação e a empresa. [Entrei na Petrobras] em 1993. Eu estava terminando a faculdade. Eu já tinha feito o concurso, acho que há uns três anos antes, já tinha até perdido a...
Continuar leituraÁurea Tereza Geber Oliveira, nasci aqui no Rio de Janeiro mesmo, no dia 3 de outubro.
Na verdade, essa história vem desde pequena, quer dizer, colocaram na minha cabeça, no caso, o meu pai, que eu teria um dia, que trabalhar na Petrobras. Ele achava isso – de repente acharia até hoje, lógico, como eu acho – que é o melhor lugar pra se trabalhar. Ele foi contratado durante um tempo pela Petrobras – bem pouco tempo. Desde muito pequena eu lembro de falar sobre o curso superior que eu fiz, de engenharia química – eu nem sabia o que era – e da empresa onde eu iria trabalhar. Desde muito pequena. Quando eu cresci, eu quis outra coisa, mas não deu muito tempo pra isso. Eu fiz a faculdade que ele queria, no caso, engenharia química, e durante o curso eu conheci pessoas daqui de dentro que me influenciaram a fazer esse concurso. Fiz o concurso, estou aqui e estou satisfeita. A minha ideia era outra, eu queria fazer artes plásticas, nada a ver com isso. Mas aí, somos quatro irmãos. Meu pai quase que exigiu que os quatro fossem engenheiros. E são. Uns meio frustrados, outros não. Tanto que eu não exerço a função de engenheira química aqui na Petrobras, mas estou super satisfeita aqui dentro. E eu não esqueço disso, meu pai falando o tempo inteiro: “Um dia você vai trabalhar na Petrobras.” Ele dizia: “A data de nascimento é igual, você vai apagar a vela, um dia, num bolo...” Até houve isso aqui, numa festa da Petrobras, eu fui convidada e calhou. Estou satisfeita. Cada um [dos meus irmãos] seguiu sua vida. A única – como se fosse uma missão, sei lá – que realmente veio pra cá fui eu. Ele não chegou a ver, faleceu antes disso. Foi meio frustrante pra mim porque, de alguma forma, contrariada ou não, eu cumpri uma etapa que ele queria, que era a formação e a empresa. [Entrei na Petrobras] em 1993. Eu estava terminando a faculdade. Eu já tinha feito o concurso, acho que há uns três anos antes, já tinha até perdido a esperança de ter passado. Eu sabia que a classificação tinha sido boa, mas não tinha esperança de ser chamada. Como na época o concurso demorava mais um pouco, eu entrei na última turma. O concurso foi em 1989. Em 1993 eu estava me formando, eu recebi, no último período, esse telegrama. Duas semanas depois de formada eu vim pra cá. Quer dizer, numa turma de 60 pessoas, eu era a única que tinha já uma coisa estabelecida; já tinha um emprego. Eram muitos engenheiros sem ter o que fazer e eu já tinha, mesmo não sendo na função. Eu já tinha feito estágio aqui. Você se forma meio sem expectativa. A coisa funcionou quando o telegrama chegou: “Agora já tenho pra onde ir, posso ficar tranqüila.”
Depois do curso de formação, [o primeiro dia de trabalho] foi num horário de 11 e meia da noite até sete e meia da manhã. Foi meio esquisito (risos). Eu trabalhava só com homens. Ainda hoje [é assim], eu trabalho no administrativo. Na época era turno e não tinha mulher no grupo. Nunca tive problema com relação a isso, mas foi meio estranho: sair de casa às dez e meia da noite, pegar um ônibus, vir pra cá, chegar aqui, ligar para a mãe pra dizer que chegou, aquela coisa toda. Deu pra levar, porque foi um horário só, depois eu já entrei de folga, e aí depois foi normal. Fui muito bem aceita porque eles mesmos diziam que eles se educaram melhor após a entrada das mulheres. E eu, por sinal, aprendi a falar palavrão depois que entrei aqui (risos). Quer dizer, é uma troca meio injusta (risos). Mas foi perfeito, não tenho nada pra reclamar deles. Super atenciosos, o tempo inteiro.
Minha área era a operacional. O trabalho era alinhamento – como a gente chama –, que é mexer em válvulas, subir em tanque, fazer medição de produto, vistoria na área, [ver] o que está acontecendo e o que não está acontecendo. Eu não estranhei porque era o primeiro emprego, [mas] já sabia, mais ou menos, como funcionava uma refinaria. Mas com o tempo a gente vai sentindo que o negócio é meio pesado. Tem mulher que tira de letra. [É um trabalho meio braçal]. Eu tenho minhas ressalvas. Hoje estou um pouco afastada dessa função, desse jeito. Continuo sendo operadora, supervisora, ainda vou à área, mas não tanto para abrir válvula e subir em tanque.
Enquanto eu trabalhava em turno, eu gostava. Quando eu saí, vi que não gostava, que o melhor é fazer o que estou fazendo hoje, que é o horário administrativo. Esse horário de 11 e meia até sete e meia da manhã é terrível, porque são três horários juntos, você vai em casa só dormir e volta. Eu, pelo menos, não dormia o dia inteiro. Tem gente que consegue. Tem filhos, tem não sei o quê e consegue. Mas eu não conseguia. Chegava em casa às nove horas da manhã, dormia até às quatro, cinco da tarde. Era muito cansativo. Com esse horário, [chegava a trabalhar] três dias direto e, depois, uns dois dias direto. Quer dizer, durante 35 dias, mais ou menos, dão sete dias assim, de 11 e meia até sete e meia da manhã. É aquela coisa: você quer dormir em casa, você não quer passar a noite em claro. Mesmo que você tenha dormido o dia inteiro, não descansou de jeito algum. Eu percebi que aquele horário era muito sacrificante. Enquanto eu estava lá, estava tudo bem; estava levando, mas o corpo cansa e aí você sente que tem a vida mais normal: sábado e domingo em casa, coisas normais de família, de amigos, de praia, de cinema, essas coisas que a gente acha que é bobo e nessa hora a gente sente falta.
Hoje a Reduc está muito maior, mais complexa. Sempre foi complexa, mas hoje está muito mais. Por exemplo, quando eu entrei aqui, nós éramos vários – nem lembro o número mínimo qual era –, mas era muita gente num grupo e o trabalho parecia menor. Hoje você tem menos gente e mais trabalho, apesar da automação de tudo, tem muito mais trabalho. As pessoas são muito mais ligadas, é um trabalho muito mais intenso do que era antigamente. Eu percebo assim. Houve muita mudança [na questão da segurança]. Dos últimos quatro anos pra cá, três anos pra cá, isso está muito mais em voga. A Petrobras tem pleiteado e pensado muito mais nisso do que antes. A gente trabalhava com segurança, mas não como hoje. É colocado bem mais claro isso pra gente. A despreocupação de antes [era maior]. Você tem que estar ligado o tempo inteiro. Você vir aqui pra dentro é trabalhar dentro de um estopim, como o pessoal fala, mas é seguro; pensando no outro e pensando em você é tranqüilo. [Houve um dia em que] eu não estava aqui e teve um caso [de acidente] de uma pessoa bem próxima, que já não trabalha mais, e teve conseqüências bem graves na vida dele. Eu estaria envolvida se eu estivesse naquele dia com ele. Quer dizer, graças a Deus, ruim pra ele, mas ainda bem que eu não estava junto.
Antes [eu só trabalhava] nesse lado operacional. Depois eu comecei, no horário administrativo, a fazer um pouco disso e a pegar outros afazeres mais administrativos, como auditorias, procedimentos e até treinamento de pessoas, que é o que eu faço até hoje. Bastante auditoria, tudo quanto é auditoria eu estou envolvida, tanto auditando como sendo auditada. A gente faz curso fora, vai auditar em outras refinarias e volta, quer dizer, troca conhecimento com um monte de gente, é bom. Isso me empolga mais do que estar simplesmente aqui num trabalho mais... Não desmerecedor, mas um trabalho mais voltado só aqui pra dentro.
Quando se sai para conversar com outras pessoas, no local de trabalho delas, elas abraçam aquela refinaria com toda força, como eu faço aqui também: “A Rlam [Refinaria Landulfo Alves], Replan [Refinaria do Planalto Paulista], Repar [Refinaria Presidente Vargas], não tem defeito, não tem isso...” Mas todo lugar tem, só que a gente não tem que expor isso. A gente vai lá e verifica que não é aquele mundo maravilhoso que todo mundo pensa, como as pessoas veem pra cá também e percebem. Mas a gente tenta, de alguma forma, trabalhar adequadamente e passar essa visão de que trabalhamos na melhor refinaria.
Venho de ônibus e chego – como todo mundo chega – às sete e pouco. Eu já tenho um trabalho que é fixo, uma função, que vai até às dez horas, dez e meia, que é falar com clientes, prepostos, desses bombeios todos, dos produtos finais que a Refinaria manda para fora: gasolina, diesel, QAV [querosene de aviação]. Tudo isso passa pelo meu conhecimento, eu faço uma avaliação com as companhias distribuidoras lá fora, para daí sair nota fiscal, aquela coisa toda. Isso é todo dia. Não tem como fugir disso. Esse é um trabalho certo. Fora isso tem agendamento dessas auditorias, que eu comentei, pois as coisas são passadas pra gente um mês antes, dois meses antes e a gente tem que preparar o ambiente, preparar relatórios e questionários e até mesmo os operadores que vão atender aos auditores. Isso também ao longo do dia, na medida em que vai acontecendo. Parte dos suprimentos do meu setor sou eu que vejo. Desde papel até uma válvula, um cadeado, qualquer coisa que seja necessário sou eu que vejo também. Procedimentos, revisão de procedimentos, mesmo que não seja eu que faça, mas sou eu que leio para depois mandar para o gerente aprovar. Isso tem que estar sempre em dia. Basicamente é isso, fora outras coisinhas que acontecem durante o dia e que a gente vai resolvendo.
Pela minha mão passa todo o abastecimento das companhias distribuidoras: a BR, a Shell e a Esso, que hoje é Cosan. Quer dizer, tudo que sai de produto para eles, eu vejo antes; todo o volume que é colocado para fora da Refinaria.
[A engenharia química me] auxilia, por exemplo, nos cálculos, [no uso] do computador de vazão que a gente tem, fica mais claro pra entender o funcionamento, a própria destilação do petróleo. Porque que é assado, composição, certificado de qualidade, tudo isso dá pra não ter tanta dúvida. Já sei compreender o que está sendo feito.
Na minha área, a gente tem gasolina, diesel, o QAV – o álcool a gente só estoca – o GLP [gás liquefeito de petróleo] e óleo combustível, que a gente também manda pra fora da refinaria. Quer dizer, os que passam pela minha mão são esses.
Eu tenho dúvidas, mas eu acho que não [sou sindicalizada] (risos). Eu tenho dúvidas porque quando eu entrei meio que – desculpe a palavra, é pesada –impuseram algumas coisas. Eu tenho quase certeza de que não porque outro dia, eu estava nessa dúvida, porque estavam falando em sindicato e eu fui ao meu contra-cheque e não vi nenhum desconto para sindicato. Já andei pensando em entrar – não acreditando muito –, mas não... Existem algumas vantagens... Eu não sou muito ligada em jornaizinhos, essas coisas que veiculam do sindicato. Mas tem algumas coisas que eu escuto em conversas e que o sindicato traz de briga pelos trabalhadores e que a gente acaba conseguindo. Pode ser que eu fique de fora, então, é melhor que eu esteja inserida.
[Ser petroleira] é um orgulho muito grande. Quando eu falo que eu trabalho [aqui], umas pessoas se orgulham, outras parecem ter aquela inveja, aquela coisa feia. Mas isso me enobrece. Apesar de alguém estar com inveja, eu não levo isso em consideração, acho que isso enobrece porque é maior empresa, a melhor empresa do país. Eu gosto muito daqui. Diretamente eu acho que não [influenciei ninguém a vir trabalhar aqui], mas nas conversas, eu não falo nada que denigra a imagem da empresa. De modo algum Nem nada sobre problemas ambientais, de vazamentos. Não. Nada mesmo. Eu sempre defendo e defendo mesmo Mas alguém que tenha vindo trabalhar por minha causa, não lembro mesmo.
O que a gente espera – eu, pelo menos espero – é progredir. Não estou sendo hipócrita. Não é o dinheiro no banco, não é a letra... Claro que a gente está aqui pra isso, a gente trabalha para sobreviver, mas eu gosto de elogio e já fui elogiada por gerentes, pelos meus gerentes, por outros gerentes em algumas situações. Então, isso, me engrandece. Eu comentei isso uma vez e alguém falou: “O que interessa é dinheiro no bolso.” Não. Naquele momento, o que me interessou foram as palavras que eu ouvi. Foi isso que me deixou satisfeita. Foi esse aniversário que eu comentei. Foi surpresa, me levaram para uma sala e lá tinha mais de um gerente e nessa brincadeira de simplesmente cortar um bolo, eu ouvi coisas muito bonitas: que eu era querida, que eu era profissional, responsável; isso que importa. Eu gosto muito disso.
Acho que ainda existem pessoas aqui que não levam essa empresa a sério, apesar de estarem aqui dentro. Ainda acham que é pouco o que a empresa faz, que paga pouco... Acho que se pode pensar que poderíamos ganhar mais, mas dentro de todo o contexto que a gente recebe de profissionalismo, de responsabilidade, de levar isso pra fora daqui, até a segurança mesmo, você começa a ver isso em casa, começa a ver isso na rua, começa a prestar atenção, a dar conselho, tudo isso vem daqui de dentro. Então, não é simplesmente bater um ponto, trabalhar e ir embora; no final do mês está o seu salário. Não é isso. Pra mim, a empresa é muito mais. É educadora mesmo, incentivadora. Tanto que se você quiser sair daqui, você sai pra um outro lugar muito bem. A empresa te deu essa chance de aprender, de aprender mais. É isso.
Eu sempre aceito na hora essas coisas. Sempre. Teve um outro momento em que para os 50 anos da Petrobras, eu mandei uma foto, mandei um registro meu de uma visita que eu tinha feito a Urucu. Eu acho isso aqui tudo muito importante: as pessoas saberem e eu pessoalmente, porque eu estou inserida nesse contexto. Acho que colocam o funcionário da Petrobras sempre num patamar muito bom e eu gosto de participar disso.
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