Atrás do desempenador de centelhas
(Mauro Leal)
Setembro de mil novecentos e setenta e quatro,
no Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia,
a capinação enfrente ao prédio da administração,
estava de vento em popa.
O primeiro-sargento Melo, conhecido como Melão,
que estava de serviço de Adjunto na Sala de Estado,
resolveu pregar uma peça num pequenino recruta franzino
que estava a “estrovengar”:
- Aluno venha cá!
O discente recém-chegado, largou a ferramenta e
imediatamente correu e na posição de sentido,
assustado com os olhos arregalados, se apresentou:
- Recruta Fuzileiro Naval 376 LEAL.
A autoridade de quase dois metros com a pistola na cinta
e com o bandulho proeminente,
fez de bobo o calouro inexperiente,
dando-lhe uma ordem para que fosse ao paiol de ferramentas
e pegasse o “desempenador de centelhas”,
o aprendiz de militar, pronunciou:
- Sim senhor!
Pediu licença, deu meia volta e saiu disparado.
Poucos minutos depois, todo suado,
apresentou-se ao sargentão, dizendo:
- Senhor, o Cabo Gerson, mandou pagar dez flexões e
falou que não tem lá não!
O Adjunto cabide de divisas então determinou que o bisonho
desse também dez voltas no campo de futebol,
jogando as mãos para o alto e gritando:
- Eu sou um despreparado, eu sou um despreparado,
eu sou um despreparado,
Finda o ano, término do curso de formação de soldados,
gorros de fita lançados para o alto,
abraços e apertos de mãos para todos os lados,
só alegria e emoção, uma grande comemoração.
Passaram os anos e num certo dia
circulou uma triste notícia que num exercício,
a granada explodiu e o então combatente Melão,
um exímio elo de ligação,
infelizmente havia perdido uma vista
e uma mão.