Houve um tempo em que as esquinas e as edificações nelas erguidas representavam verdadeiras obras-primas arquitetônicas. Essas construções, erguidas junto às calçadas, não estavam sujeitas à obrigatoriedade dos recuos atuais, uma demanda que se tornou cada vez mais necessária devido à crescente exigência por vagas de estacionamento frontal. Vivemos agora em uma época diferente no que diz respeito à mobilidade. A constante proliferação de veículos, com suas diversas marcas, modelos, valores e condições de financiamento, alimenta continuamente a expansão das frotas. No passado, essas esquinas abrigavam casarões assobradados, muitos ornados com sacadas, enfeites elaborados, pequenas estátuas ou carrancas decorativas no topo, frequentemente exibindo as iniciais dos sobrenomes das famílias ou construtores, além do ano de sua construção. Grandes janelas esculpidas em madeira trabalhada destacavam-se na fachada—imponentes e decoradas com persianas antigas que se abriam para fora e eram mantidas abertas por pequenos suportes, hoje raros de se encontrar. Esses detalhes evitavam que as persianas se fechassem com o vento. Os portões também tinham seu charme único: robustos e feitos de madeira ou ferro trabalhado, criados manualmente antes da invenção da solda elétrica. Somavam-se a isso outros elementos inconfundíveis, como os charmosos alpendres e telhados cobertos por telhas coloniais de barro apoiadas sobre calhas metálicas — nada de plástico barato, mas acabamentos que agregavam beleza e funcionalidade. Cada um desses detalhes contribuía para a identidade e o encanto da construção, além de contar fragmentos da história de seus moradores. Muitas dessas casas aproveitavam o térreo para fins comerciais, tanto pelos donos quanto por inquilinos. Assim surgiam pequenos estabelecimentos como bares, padarias, depósitos, barbearias, alfaiatarias e até açougues — constituindo um cenário movimentado e repleto de vida. Com o passar...
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Houve um tempo em que as esquinas e as edificações nelas erguidas representavam verdadeiras obras-primas arquitetônicas. Essas construções, erguidas junto às calçadas, não estavam sujeitas à obrigatoriedade dos recuos atuais, uma demanda que se tornou cada vez mais necessária devido à crescente exigência por vagas de estacionamento frontal. Vivemos agora em uma época diferente no que diz respeito à mobilidade. A constante proliferação de veículos, com suas diversas marcas, modelos, valores e condições de financiamento, alimenta continuamente a expansão das frotas. No passado, essas esquinas abrigavam casarões assobradados, muitos ornados com sacadas, enfeites elaborados, pequenas estátuas ou carrancas decorativas no topo, frequentemente exibindo as iniciais dos sobrenomes das famílias ou construtores, além do ano de sua construção. Grandes janelas esculpidas em madeira trabalhada destacavam-se na fachada—imponentes e decoradas com persianas antigas que se abriam para fora e eram mantidas abertas por pequenos suportes, hoje raros de se encontrar. Esses detalhes evitavam que as persianas se fechassem com o vento. Os portões também tinham seu charme único: robustos e feitos de madeira ou ferro trabalhado, criados manualmente antes da invenção da solda elétrica. Somavam-se a isso outros elementos inconfundíveis, como os charmosos alpendres e telhados cobertos por telhas coloniais de barro apoiadas sobre calhas metálicas — nada de plástico barato, mas acabamentos que agregavam beleza e funcionalidade. Cada um desses detalhes contribuía para a identidade e o encanto da construção, além de contar fragmentos da história de seus moradores. Muitas dessas casas aproveitavam o térreo para fins comerciais, tanto pelos donos quanto por inquilinos. Assim surgiam pequenos estabelecimentos como bares, padarias, depósitos, barbearias, alfaiatarias e até açougues — constituindo um cenário movimentado e repleto de vida. Com o passar do tempo, porém, essas edificações começaram a sucumbir ao avanço da especulação imobiliária. As poucas casas que resistem hoje enfrentam o abandono e a deterioração. Transformaram-se em relíquias que já não cumprem sua função original de residência e têm seu destino traçado: a demolição. Algumas raras serão preservadas por leis de tombamento e esforços de conservação histórica e arquitetônica, mas são verdadeiras "exceções à regra", quase invisíveis diante de um panorama tão homogêneo. E aqui estamos: a paisagem urbana atual é dominada por estruturas triviais — caixas de concreto, vidro e metal — desprovidas de charme ou significado estético. Apesar de cumprirem seu papel comercial, elas custaram caro no quesito memória e identidade. Falta-nos uma consciência maior sobre a importância de preservar a nossa História, tradições e costumes. O fim desse descaso possivelmente será o dia em que as antigas esquinas e suas joias arquitetônicas só poderão ser contempladas através de fotografias. Talvez essa seja a única maneira de futuras gerações vislumbrarem o esplendor de um passado cujos protagonistas já terão, há muito tempo, partido.
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