APRENDER A ENSINAR, ENSINAR A APRENDER (crônica)
Quando iniciei minha trajetória como professor universitário, há três décadas, acreditava que a experiência seria construída como uma longa escada cujos degraus me conduziriam, pouco a pouco, à segurança de quem domina o próprio ofício. Imaginava que, com o passar dos anos, as disciplinas se tornariam familiares, os conteúdos amadureceriam naturalmente, as metodologias encontrariam uma forma definitiva e a sala de aula seria um espaço em que eu, apoiado pelo acúmulo dos anos, conduziria os estudantes pelos caminhos do conhecimento. Pensava na docência como um processo contínuo de aperfeiçoamento do professor, mas ainda não compreendia que a universidade reservaria para mim uma lição muito mais profunda: a de que nenhum docente permanece inteiro se não aceitar ser também aluno ao longo de toda a vida. Hoje, depois de trinta anos diante de inúmeras turmas, centenas de bancas, milhares de aulas e incontáveis conversas pelos corredores da universidade, percebo que a verdadeira formação nunca termina. Ela apenas muda de direção. Em certos momentos, deixamos de ensinar para aprender, e descobrimos que essa inversão talvez seja o maior privilégio da profissão.
Ao longo dessas três décadas, acompanhei mudanças que, em outras épocas, pareceriam inimagináveis. Vi currículos serem reformulados, laboratórios nascerem, bibliotecas crescerem, tecnologias substituírem pilhas de transparências e retroprojetores, computadores ocuparem espaços antes preenchidos por fichários, e plataformas digitais transformarem radicalmente a relação entre professores, estudantes e conhecimento. Vivi a experiência singular de atravessar uma pandemia, reinventando a sala de aula diante de telas que, ao mesmo tempo em que aproximavam, também evidenciavam novas distâncias humanas. Entretanto, nenhuma dessas transformações, por mais marcantes que tenham sido, provocou em mim uma revisão tão profunda...
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APRENDER A ENSINAR, ENSINAR A APRENDER (crônica)
Quando iniciei minha trajetória como professor universitário, há três décadas, acreditava que a experiência seria construída como uma longa escada cujos degraus me conduziriam, pouco a pouco, à segurança de quem domina o próprio ofício. Imaginava que, com o passar dos anos, as disciplinas se tornariam familiares, os conteúdos amadureceriam naturalmente, as metodologias encontrariam uma forma definitiva e a sala de aula seria um espaço em que eu, apoiado pelo acúmulo dos anos, conduziria os estudantes pelos caminhos do conhecimento. Pensava na docência como um processo contínuo de aperfeiçoamento do professor, mas ainda não compreendia que a universidade reservaria para mim uma lição muito mais profunda: a de que nenhum docente permanece inteiro se não aceitar ser também aluno ao longo de toda a vida. Hoje, depois de trinta anos diante de inúmeras turmas, centenas de bancas, milhares de aulas e incontáveis conversas pelos corredores da universidade, percebo que a verdadeira formação nunca termina. Ela apenas muda de direção. Em certos momentos, deixamos de ensinar para aprender, e descobrimos que essa inversão talvez seja o maior privilégio da profissão.
Ao longo dessas três décadas, acompanhei mudanças que, em outras épocas, pareceriam inimagináveis. Vi currículos serem reformulados, laboratórios nascerem, bibliotecas crescerem, tecnologias substituírem pilhas de transparências e retroprojetores, computadores ocuparem espaços antes preenchidos por fichários, e plataformas digitais transformarem radicalmente a relação entre professores, estudantes e conhecimento. Vivi a experiência singular de atravessar uma pandemia, reinventando a sala de aula diante de telas que, ao mesmo tempo em que aproximavam, também evidenciavam novas distâncias humanas. Entretanto, nenhuma dessas transformações, por mais marcantes que tenham sido, provocou em mim uma revisão tão profunda quanto aquela que começou a se intensificar nos últimos dez anos, quando a universidade passou a refletir, de maneira mais concreta, a extraordinária diversidade da sociedade brasileira.
Foi nesse período que testemunhei uma mudança silenciosa, mas profundamente revolucionária, na Universidade Federal de Catalão, ainda quando era Regional Catalão da Universidade Federal de Goiás. A cada semestre chegavam estudantes que, durante séculos, estiveram ausentes dos bancos universitários não por falta de inteligência, talento ou vocação, mas porque lhes haviam sido negadas oportunidades históricas de acesso, permanência e reconhecimento. Não eram apenas novos alunos ocupando carteiras antes vazias; eram novas histórias entrando pela porta da sala de aula, trazendo consigo outras formas de existir, de compreender o mundo, de produzir conhecimento e de reivindicar direitos. Vieram estudantes trans, estudantes surdos, estudantes indígenas e integrantes de outros grupos historicamente invisibilizados pelas estruturas acadêmicas. Com eles, chegou também uma universidade que eu ainda não conhecia e que exigia de mim muito mais do que domínio de conteúdos: exigia disponibilidade para rever convicções, escutar experiências e reconstruir conceitos que eu julgava sólidos.
Durante muito tempo, talvez por influência de uma compreensão limitada sobre inclusão, imaginei que bastaria garantir o acesso ao ensino superior para que a justiça educacional estivesse, de alguma maneira, realizada. Hoje compreendo o quanto essa percepção era insuficiente. Abrir os portões da universidade é apenas o primeiro gesto. A verdadeira inclusão começa quando somos capazes de transformar os ambientes, as linguagens, os currículos, as práticas pedagógicas e, sobretudo, nossa maneira de olhar para aqueles que chegam. Descobri que não basta afirmar que a universidade pertence a todos; é preciso perguntar diariamente se todos conseguem, de fato, participar dela em condições de igualdade. Essa pergunta, aparentemente simples, passou a acompanhar minhas aulas como uma inquietação permanente. Ela deslocou meu olhar do conteúdo para as pessoas, da disciplina para os sujeitos, da transmissão de conhecimento para a construção coletiva do aprendizado.
Lembro-me vividamente dos primeiros estudantes surdos que passaram a frequentar minhas disciplinas. Até então, eu jamais havia refletido sobre aspectos aparentemente banais da minha prática docente. Caminhava pela sala enquanto explicava conceitos, voltava-me para o quadro ao desenvolver um raciocínio, respondia perguntas escrevendo ao mesmo tempo em que falava. Nunca havia percebido que, para muitos estudantes, compreender uma aula significava também poder acompanhar a expressão do rosto, o movimento dos lábios, o ritmo da comunicação. Foi então que comecei a aprender um pouco de Libras. Não o suficiente para afirmar que domino essa língua tão rica, mas o bastante para compreender o tamanho da minha ignorância e, principalmente, para reconhecer a beleza de uma forma de comunicação construída pelas mãos, pelos olhos e pela expressividade do corpo inteiro. Aprender alguns sinais não representou apenas adquirir um novo vocabulário; significou compreender que existem múltiplas maneiras de produzir sentido, de construir pensamento e de estabelecer vínculos humanos. Descobri que o silêncio não é ausência de linguagem. Pelo contrário, ele pode ser profundamente eloquente quando habitado por gestos que carregam histórias, emoções e conhecimento.
Também a presença crescente de estudantes trans provocou em mim um exercício constante de revisão ética e humana. Em muitos momentos, precisei abandonar hábitos linguísticos aparentemente automáticos para compreender que o respeito começa nas pequenas escolhas do cotidiano. Aprendi que um nome não é apenas uma identificação administrativa; ele é uma afirmação da própria existência. Um pronome, muitas vezes tratado como detalhe gramatical, pode representar acolhimento ou exclusão. Passei a compreender que inúmeros estudantes carregavam consigo trajetórias marcadas por rejeições familiares, violências simbólicas, discriminações reiteradas e longos períodos de invisibilidade. Quando atravessavam os corredores da universidade, não traziam apenas livros e cadernos: carregavam também experiências de resistência que jamais apareceriam em seus históricos escolares. Diante deles, percebi que ensinar exigia, antes de tudo, reconhecer a dignidade de cada pessoa em sua integralidade. Foi um aprendizado lento, construído na convivência cotidiana, nos diálogos sinceros, nos erros que precisei corrigir e na disposição de compreender realidades que minha própria formação jamais havia abordado.
Os estudantes indígenas talvez tenham provocado uma das transformações intelectuais mais profundas da minha trajetória docente. Cresci, como grande parte da minha geração, estudando uma história nacional narrada quase exclusivamente pelo olhar dos vencedores. Aprendemos sobre "descobrimento", "civilização", "ocupação", "pacificação", repetindo conceitos que pareciam naturais, mas que ocultavam relações profundas de violência, apagamento e dominação. Termos como "silvícolas", durante muito tempo empregados sem qualquer questionamento, passaram a revelar o peso histórico das palavras e a necessidade urgente de revisarmos nossa linguagem. Foram os próprios estudantes indígenas que me ensinaram a perceber a insuficiência dessas narrativas. Ao relatarem suas experiências, suas línguas, suas cosmologias, seus territórios e suas formas próprias de compreender o conhecimento, mostraram que os povos originários jamais pertenceram apenas ao passado dos livros didáticos. Estavam presentes ali, na universidade, produzindo pesquisa, elaborando ciência, preservando memórias e oferecendo contribuições indispensáveis para pensarmos um país verdadeiramente plural.
Foi nesse processo que compreendi uma expressão que hoje me acompanha constantemente: lembrar para esquecer. Lembrar da formação que recebi, dos livros que li, das narrativas que durante anos reproduzi, para então reconhecer seus limites e abandonar aquilo que já não responde às exigências éticas do presente. Esquecer, nesse contexto, não significa apagar a história, mas superar interpretações que legitimaram exclusões e silenciamentos. Trata-se de revisitar o passado com honestidade suficiente para reconstruí-lo sob novas perspectivas, permitindo que vozes historicamente marginalizadas ocupem, finalmente, o espaço que sempre lhes pertenceu na produção do conhecimento.
Esse movimento também alcançou minha compreensão sobre a história da escravidão no Brasil. Durante décadas, acostumamo-nos a utilizar expressões que naturalizavam processos profundamente violentos. Aos poucos, aprendi que dizer "pessoas escravizadas" restitui humanidade àqueles que foram reduzidos, por séculos, à condição de mercadoria. Ninguém nasceu escravo; pessoas foram escravizadas por estruturas políticas, econômicas e sociais que precisam ser nomeadas. A linguagem, percebi, nunca é neutra. Cada palavra carrega escolhas, memórias e responsabilidades. Alterar o vocabulário não resolve, por si só, as injustiças históricas, mas representa um gesto importante de reconhecimento e reparação simbólica.
Hoje, depois de tantos anos de magistério, continuo entrando em sala de aula levando livros, planejamentos e anotações. Mas levo também algo que não possuía quando comecei: a consciência de que ensinar não consiste apenas em transmitir conteúdos acumulados ao longo da carreira. Ensinar significa criar condições para que o encontro entre diferentes produza novos conhecimentos, novas sensibilidades e novas formas de compreender o mundo. A universidade que encontrei há trinta anos já não é a mesma. Felizmente, eu também não sou. Se algo permaneceu constante em toda essa caminhada, foi justamente a certeza de que a educação só cumpre plenamente sua missão quando transforma simultaneamente quem aprende e quem ensina. Talvez esse seja o maior legado que esses últimos anos me ofereceram: compreender que uma universidade verdadeiramente pública não é apenas aquela que abre suas portas, mas aquela que se dispõe, todos os dias, a ampliar seus horizontes para acolher, escutar e aprender com a riqueza da diversidade humana. É nesse espaço de encontros, revisões e descobertas que a docência revela sua dimensão mais nobre: não a de quem detém todas as respostas, mas a de quem permanece, humildemente, disposto a continuar aprendendo.
ULYSSES ROCHA FILHO - Catalão - Goiás
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