Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de Ana Beatriz Fanha
Entrevistado por Débora Santos
Natal, 28 de maio de 2003
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB180
Transcrito por Transkiptor
00:00:06 P/1 - Para começar, eu queria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.
00:00:29 R - Precisando do seu ano também. Ana Beatriz Fanha, nasci em Uberlândia, Minas Gerais, Brasil, 27 de 12 de 1956.
00:00:42 P/1 - Certo. E como é que deu a sua entrada na Petrodela?
00:00:45 R - Eu era estudante de geologia em Belém do Pará, no último ano da graduação, e eu fiz um concurso da Petrobras, que naquela época ela tinha um programa chamado Geopet, que as pessoas no último ano do curso de geologia faziam o concurso, e no último ano todo mundo se localizava para Salvador e cursava no último ano na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Então eu fui para Salvador no último ano de geologia, e já sendo estagiária da Petrobras no período. Terminei o curso de Geologia em Salvador e de lá eu fui lotada no Centro de Pesquisa da Petrobras do Rio. Eu morei no Rio de janeiro de 1981. até abril de 1982, em que eu me casei, e vim pra cá, pra Bacia Potiguar, que o meu marido era geólogo também, e estava lotado aqui, em Natal. Então, houve um certo demora nesse trâmite, porque eu trabalhava na área de explotação de petróleo, na área de reservatórios, já no SEMPS, E atividade não tinha aqui, então eu vim para a Geologia do Desenvolvimento de Natal. No período eu estava grávida de quatro meses e cheguei aqui em abril de 1982, na bacia Potiguá, grávida, e era a primeira geóloga mulher que a bacia tinha. Então, naquele período, foi meio confuso, porque o campo não estava muito acostumado, até em atividades, em logística, para a gente atuar. Então, eu tive, e uma das observações da minha transferência é que eu tinha que fazer uma fase de campo, porque eu entrei direto pro centro de pesquisa, né, e é que eu ia atuar na área de gerenciamento de reservatório e eu precisava de fazer uma fase de campo. Então, foi quando eu cheguei aqui na Bacia. Foi muito engraçado em algumas áreas, né, um posto confuso em outras, porque o campo tinha sempre muita dificuldade. Naquela época, Natal atuava mais na área de pendências, né, no interior. E não tinha assim, até a parte de alimentação era mais problemática, né? E a gente grávida, todo mundo fica muito solidário, né? Então, nessa hora da solidariedade, eu tinha sempre um copo de leite extra que alguém guardava pra mim no final da noite da sonda, né? Que nem todo mundo tinha essa... E os meninos também ajudavam muito, assim, eram bastante solidários no sentido de... Eu nunca tive nenhum problema com relação à profissão em si, né? E eu fiquei na bacia, eu acho que até três anos. Eu era a única geóloga mulher na bacia portuguesa, na época era o antigo Debar, né? E depois chegou um auxiliar técnico de geologia, que veio da Bahia, que era a Mirian. Então... foi a minha grande companheira nessa área durante esse período.
00:03:51 P/1 - Deixa eu voltar um pouquinho que você estava em Salvador. Vocês eram transferidos pra Salvador pra Geologia porque lá tinha alguma...
00:03:57 R - É, a Universidade Federal da Bahia, né? Ela tinha o curso de Geologia, então eles transferiam todo mundo que passava no concurso ia pra Salvador e fazia o último ano. Aí era um pouco diferenciado por causa dos currículos das universidades que não eram semelhantes e tinha que adequar o número de crédito pra que a gente conseguisse terminar o curso nas universidades, né? E, ao mesmo tempo, fazia o estágio dentro da Petrobras. Então, era um processo diferenciado entre os alunos. Certo.
00:04:25 P/1 - E esse curso, esse estilo, essa contratação dessa forma, continua até hoje?
00:04:30 R - Não, esse tipo de programa a Petrobras só teve durante dois anos, certo? Ela teve muito questionamento, eu acho que existe algum, alguma coisa com relação à parte de classes profissionais, porque a gente, em tese, né? Não estaria terminando, ainda não tinha terminado, né? E fazia o treinamento como profissional, né? E ela quando a gente entrava na Petrobras a gente já era contratado como geólogo um e não mais como geólogo estagiário. Então eu não sei se foi bem por isso ou se ela também achou que não tava tendo interesse. Então só houve dois anos durante a turma de novecentos e oitenta e eu acho que oitenta e um. Eu acho que oitenta e um encerrou para a área de geologia, que era o geopet.
00:05:17 P/1 - Existiu no resto do país, você consegue saber se tinham mais mulheres trabalhando?
00:05:23 R - Não, é interessante notar o seguinte, que o curso de geologia é um curso, ainda é até hoje, muito pouco procurado pelo sexo feminino, até porque é um curso meio doloroso e duro, não é uma coisa muito fácil, né? Porque a gente tem muita discussão, muita coisa que você vai muito pra campo, né? Todo mundo que tem, né? Essa disponibilidade, essa disposição e gosta, né? Não é uma... Mas em 1976, eu acho que eu até tenho essa carta em algum canto, não dá tempo de eu atrás dela, mas pode até ser que mande pra você depois. Uma professora da Universidade Federal do Pará tentou se inscrever num concurso de geologia da Petrobras e foi recusada porque era mulher. Isso em 76, foi quando eu entrei na faculdade. E eu entrei no concurso em 79. É muito interessante de notar que, em geral, as pessoas que passaram no concurso Eram 10%. E parece que foi durante 10% alguns anos. Então, na minha turma eram 40 que ingressaram na Petrobras e 4 mulheres. Tinha uma de Brasília, aliás, duas de Brasília, eu de Belém e uma de Salvador. Eram 4.
00:06:41 P/1 - E, assim, aí você vem transferida pra cá, quer dizer, você notou, depois disso, teve uma grande mudança, então, readaptação até logística, né?
00:06:48 R - Teve, teve. Eu acho que muito mais de cabeça, né? Porque a gente, quando faz o curso de geologia, já é um curso que você lida com isso, né? A gente, de geologia, Sempre tá em excursão, nunca é um local com acomodações muito boas, sempre um local assim onde dá, né? A gente já durante a faculdade faz campo e ficando em fazenda de poceiro, um local assim que você não tem banheiro. Então, já tinha uma certa dosagem com relação a isso, mas a Petrobras teve que se adequar sim. Eu me lembro que acho que na bacia do Amazonas, não sei se foi exatamente lá, o pessoal teve que construir alguns locais em plataforma, porque antes não tinha, era comum pra poder ter banheiros e locais diferenciados pra meninas.
00:07:37 P/1 - E o seu marido então trabalha na Petrobras?
00:07:40 R - Trabalha, trabalha também.
00:07:41 P/1 - Então assim, as pessoas que você falasse um pouco, quer dizer, a sua ligação de vida, independente do trabalho que é o tempo todo, você ainda tem essa, você consegue me contar alguma coisa?
00:07:51 R - Não, a gente foi colega de faculdade, né? Eu e o meu marido e depois quando nós fizemos concurso, nós fizemos concurso juntos, passamos juntos. Fomos para Salvador, fizemos o Joppert no mesmo período. Só que a gente foi lotada em um local diferente. A gente não era casada, era namorada ainda na época. E eu fui pro Rio, na época ele tava também querendo ir pro Rio, mas acabou vindo pra Natal, né, pra trabalhar em plataforma no período. E aí nós ficamos durante esse um ano e pouco, um ano e dois meses, um ano e três meses. Aí no final do ano a gente casou, né, e eu fiquei tentando transferência de Natal do Rio de Janeiro pra cá. E demorou um certo tempo, mas depois a gente... E hoje vocês trabalham... É, a gente tem, como diz ele, cúmplice de trabalhos e consegue conciliar as duas partes sem muita... interferência, né? E também sem muito dificuldades também. Eu acho que até ela ajuda em alguns pontos, eu acho.
00:08:57 P/1 - E assim, quer dizer, do tempo que você entrou na Petrobras, quer dizer, ela teve uma grande mudança, né?
00:09:03 R - É, é.
00:09:03 P/1 - Eu queria que você falasse, bom, independente só do lado feminino, mas assim, as mudanças de trabalho.
00:09:08 R - É verdade, é verdade. Eu diria que a Petrobras da Bacia Portugal, na qual eu participei no início, ela era uma Petrobras mais higiênico, menor, a gente tinha muito mais convivência entre as pessoas e a gente vestia realmente a camisa da Petrobras, uma das coisas que eu acho muito maravilhosa ainda na empresa e eu acho que ainda tem muito disso, é a vibração quando a gente encontra uma nova descoberta. Eu acho que quem trabalha em empresa privada, só privada a vida inteira, onde, por exemplo, essa coisa da nova descoberta, daquilo, ela é pouco vibracional, mas na Petrobras ela é muito. Eu acho que pelo fato dela ser uma empresa em que você...
00:10:00 P/1 - Queria que você falasse, independente só do lado feminino, as mudanças de trabalho.
00:10:05 R - É verdade, é verdade. Eu diria que a Petrobras da Bacia Portugal, na qual eu participei no início, ela era uma Petrobras mais ingênua menor, entendeu? A gente tinha muito mais convivência entre as pessoas, né? E a gente vestia realmente a camisa da Petrobras, né? Uma das coisas que eu acho muito maravilhosa ainda na empresa, e eu acho que ela ainda tem muito disso, é a vibração quando a gente encontra uma nova descoberta. Eu acho que quem trabalha em empresa privada, só privada a vida inteira, onde, por exemplo, essa coisa da nova descoberta, daquilo, Ela é pouco vibracional, mas na Petrobras ela é muito. Eu acho que pelo fato dela ser uma empresa em que você contribui com a sociedade, como a Petrobras ela é, por não ser uma empresa privada propriamente dita, ela tem esse lado social que a gente sempre está imbuído enquanto empregado dela. Eu acho que é a coisa mais importante, mais maravilhosa que a gente possui, além do fato que, por exemplo, na parte técnica da empresa, a gente ainda não tem aquela ciumeira, entendeu? Tipo assim, egoísmo de você não compartilhar com o outro uma experiência que você tem. Embora nos últimos anos a gente tenha modificado um pouco esse caráter econômico de empresa, de olhar a Petrobras como empresa, mas eu nem acho que isso foi tão intensificado, não. Até porque, por exemplo, quando a gente achava um campo de petróleo, achava uma nova descoberta, a gente também pensava se aquilo era economicamente importante para ela enquanto empresa. Eu acho que esse lado, embora esses últimos 10 anos, eu acho que ela primou por esse lado, ou seja, de resultados muito rápidos, de coisa muito mais econômica, de coisa muito mais do que no passado. No passado, a gente tinha muito mais sonho de olhar tudo como um todo. Isso mudou muito depois do monopólio. Eu acho que o monopólio, ele... teve esse lado.
00:12:20 P/1 - E também teve um incentivo para vocês, quer dizer, de trabalho, de sair pesquisando, de estudar mais?
00:12:28 R - A Petrobras sempre investiu nesse lado. Eu acho que uma das coisas mais maravilhosas dela, eu acho que é esse lado do investimento profissional, entendeu? Dentro dela você consegue fazer isso muito bem. Eu me lembro, me recordo que quando eu fui fazer mestrado em Campinas, a gente tinha que levantar nossos cursos que foram feitos para poder você preencher alguns dados. E quando eu fui levantar isso, eu tive a curiosidade de olhar, contabilizar os horas, os horários que a gente tinha feito de treinamento na empresa. Ele era um terço de uma faculdade. Entendeu? Então, eu acho que é uma empresa que ela valoriza muito esse lado profissional, né? Embora, assim, alguns percalços, algumas coisas a gente tenha a criticar dentro dela, eu acho que existe, sim. Mas ela ainda tem essa coisa no âmago que eu acho que é importante não perder.
00:13:24 P/1 - E assim, quando você falou até a questão do monopólio e tal, o trabalho de vocês com o geólogo, também assessorando a própria questão do sindicato ajudou muito também nessa discussão?
00:13:36 R - É, eu acho. Eu acho que é fundamental a gente... ter os papéis definidos na sociedade e também de apoio, né? Porque eu acho que o sindicato, ele é um apoio, entendeu? Para o profissional dentro da empresa, não só no período de exílio, né? Que eu acho que a gente lembra muito dele nesse período, né? Todo mundo, porque pega no bolso, né? Todo mundo acha que isso é muito importante. Mas eu acho que o sindicato tem outro papel também, entendeu? Na defesa do próprio profissional, entendeu? Naquela necessidade que você tem de não deixar a coisa virar muito patrão, né? E isso é importante, é importante. Embora algumas vezes eu acho que a gestão da empresa como um todo ela ultrapassa muito disso. Então, aquela criação gerencial no sentido neoliberal, algumas vezes, ela ultrapassa e ela dirige a gestão da própria empresa. Mas eu acho que é fundamental o sindicato ter lucidez nessa hora de que é preciso continuar defendendo os princípios, porque é necessário, é necessário diálogo, é necessário Posições, entendeu? Eu acho.
00:14:59 P/1 - E você tem, assim, alguma coisa mais interessante, assim, pra contar do seu dia a dia, mesmo, de trabalho? Porque essa coisa é descoberta, mesmo, do...
00:15:05 R - É, eu acho que eu sou geóloga de carteirinha, né? Me considero sempre, eu acho que todas as coisas que a gente faz, né, com prazer, ela é um negócio que dá pra render, entendeu? E eu acredito que, na parte de geologia, a gente ainda tem muito que contribuir, porque a gente trabalha com análise de risco, não trabalhando com uma coisa concreta, a gente trabalha com informações, informações que nunca são juntas, elas são esparsas, então você tem que lidar com isso. Acho que o papel fundamental do geólogo numa companhia de petróleo, como a Petrobras, E para o Brasil como um todo. Eu acho que as descobertas de um meio mineral como é o petróleo, eu acho que é importante. Acho que tem um desafio muito grande no futuro que a gente conseguir conviver isso com relações de meio ambiente, que é uma coisa que tem se intensificado. A gente pensa sempre, quando você está mexendo num meio mineral, tem sempre o lado do meio ambiente que a gente tem que tentar conviver. Mas eu acredito que a Petrobras faz um trabalho legal nessa área, embora muitas vezes a mídia caia em cima, em alguns momentos, de acidentes, mas eu não conheço empresa no mundo que invista tanto, entendeu? Tanto e de maneira honesta quanto a Petrobras nessa área de meio ambiente, de contenção, de segurança. Aqui na Bacia do Patiguar a gente tem vários exemplos da Petrobras com a comunidade, com a comunidade pesqueira, no sentido de não impactar os nossos resíduos com o meio ambiente dos pescadores, com a atividade de pesca. Então eu acho que é uma coisa que ela faz muito bem e que eu espero que continue assim. E que os dirigentes lembrem disso quando estiverem fazendo os seus planejamentos. E valorize mais a capacitação técnica. Eu acho que ela tem que resgatar isso também. Enxugou muito nesses últimos anos e a empresa está precisando de retornar a isso aí. Não perder alguma capacitação que nós temos e que foi difícil de adquirir enquanto empresa e que a gente não deixa nada a desejar para o mundo todo. E que eu acho que precisa de resgatar isso aí e continuar. Porque não copiando sociedade lá fora, né? Nós somos sociedade diferenciada. Tem que ser como a gente é mesmo, tupiniquim.
00:17:32 P/1 - E assim, bom, para a gente estar terminando, eu queria que você fizesse uma avaliação do que você acha desse projeto da Petrobrás da Fazenda e Resgate, da história, da sua história através dos funcionários.
00:17:42 R - Eu acho muito legal isso. Eu acho que a memória de um povo é a capacidade que você tem de ver os erros e acertar o futuro, porque não existe fórmula, né? E eu acho que a Petrobras faz isso de uma maneira que eu acho legal e acho que esse resgate é importante, porque tem muita coisa por aí que de repente fica morta, né? Se a gente não bota isso num papel, num documento, né? É quase que impossível. Um dia desse eu tava conversando com uma pessoa, ela me disse assim que a gente guardar foto, né? De família e tal e tal, é muito interessante, mas o dia que você morre, 30% na primeira leva de limpeza que as pessoas fazem e vão embora. Então que a gente registre isso num livro, por exemplo. Que um livro é uma coisa que se expande. E eu acho que, no caso desse projeto, é uma coisa que se expande. E não fica só na memória de algumas pessoas aqui e ali. Eu acho que é legal. Eu acho que é importante.
00:18:39 P/1 - Então só temos a agradecer a você.
00:18:41 R - Obrigada a você.
00:18:41 P/1 - Obrigada. Pela passeia. Imagina, agradecemos a passeia. A fila tá grande lá fora.
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