Projeto Memórias do Futebol de Várzea
Entrevista de José Roberto Andrade
Entrevistado por Maurício Rodrigues Pinto (P1)
São Paulo, 06/06/2026
Entrevista n.º: MFV HV002
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrita por Edméia Vieira
Revista e editada por Anna Miranda
(00:00:22) P1 - Peço que você se apresente, fale seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
(00:00:28) R - Primeiramente, nós aqui representando o Negritude agradeço a oportunidade de estar contando um pouquinho da história do Negritude para o Museu da Pessoa e para as pessoas. Meu nome é José Roberto, sou nascido em Adamantina, interior de São Paulo, em dezoito de abril de mil novecentos e sessenta e um.
(00:00:51) P1 - Zé Roberto, quais os nomes do seu pai e da sua mãe?
(00:00:55) R - Meu pai é Eurípedes de Andrade e minha mãe Maria Madalena Barbosa de Andrade.
(00:01:01) P1 - Que atividade eles faziam ou ainda exercem?
(00:01:06) R- Meu pai veio de Minas Gerais e minha mãe da Bahia e se conheceram em São Paulo. Minha mãe era servente escolar, em uma escola próxima da região da Vila Nhocuné. E o meu pai era ajudante geral, em uma empresa de material de construção.
(00:01:28) P1 - Conta um pouco da história do seu nascimento, em Adamantina.
(00:01:49) R - Eu sei muito pouco porque eles se conheceram em São Paulo, mas na região do interior. Eu sou o terceiro de quatro irmãos e apenas o meu irmão mais novo nasceu na capital, todos nós outros nascemos em Adamantina. Eu vim para São Paulo bem pequeno de lá.
(00:02:11) P1 - Como foi a vinda para São Paulo?
(00:02:16) R - Quando nós viemos para São Paulo, a gente morou na região do Tatuapé. Na época não era o que é hoje, tinham muitos cortiços na região bem próxima à Praça Silva Romero. Meu pai trabalhava ali perto e minha mãe trabalhava na escola na Vila Nhocuné.
(00:02:41) P1 - Você lembra com que idade você veio para São Paulo?
(00:02:44) R - Eu vim com dois anos. E tinha ali no Tatuapé, bem próximo ao shopping, tinha um parque infantil na Praça Santa Terezinha, onde eu e minhas irmãs ficávamos praticamente o dia inteiro. No final do dia meu pai ia buscar a gente, porque ele trabalhava ali perto.
(00:03:05) P1 - Fale um pouco dessas memórias da casa que você morou no Tatuapé e do entorno.
(00:03:18) R - Eu lembro muito pouco, mas era um cortiço e moravam muitas famílias. Eu lembro que apenas uma casa tinha televisão, então todo mundo ficava assistindo televisão na casa dessa pessoa. Mas era bem diferente do que é hoje. A gente brincava muito na rua e todo mundo praticamente se conhecia. Hoje a gente se preocupa e depois das seis da tarde você não deixa qualquer criança ficar nem na calçada.
(00:03:56) P1 - Quais eram as brincadeiras favoritas na infância?
(00:03:59) R - Tinha de tudo: polícia e ladrão, peão, jogar bola na rua, esconde esconde, mão na mula - aquela brincadeira que a gente vinha correndo e pulava -, aquela que a gente passava por baixo. Tinha várias, um monte que a gente nem lembra mais porque hoje nem tem mais. Antigamente era bem diferente de hoje, não tinha computador, celular, shopping, então era mais a interrelação entre as pessoas.
(00:04:38) P1 - Tinha algum hábito que era comum da sua família, como reunir todas as pessoas da família?
(00:04:48) R - Naquela época sim, porque praticamente a gente convivia muito mais. Meu pai trabalhava a semana toda e a minha mãe também, então o final de semana era em casa, com a família, não tinha passeio ou viagem, até porque tinha muita dificuldade naquela época. Era bem mais o relacionamento familiar.
(00:05:20) P1 - Qual é a sua primeira memória relacionada ao futebol?
(00:05:25) R - Eu lembro que ali na região mas em outra rua, na Marechal Barbacena, eu frequentava um clube chamado Estudantes. Como a gente era novinho, o time era chamado de Terceirinho. Depois nós fizemos um time que tinha o nome do bairro. Tinha um senhor que tinha um sítio em Guararema e nós fomos jogar neste sítio entre amigos e nós fomos campeões lá. Assim, surgiu minha história no futebol.
(00:06:03) P1 - Essa sua primeira experiência já pode se chamar de futebol de várzea?
(00:06:08) R - Na verdade era futebol de salão. Ali tinha o Estudantes, o Primeiro de Maio do Tatuapé e o Sete da Água Rasa, que os clubes que eu sempre jogava
(00:06:20) P1 - Você lembra que idade você tinha?
(00:06:03) R - Eu tinha na faixa de 10 a 12 anos. A gente jogava desde pequenininho, desde novinho. Eu sempre gostei muito de futebol.
(00:06:31) P1 - Teve alguma influência da família para você jogar futebol?
(00:06:39)R - Minha mãe sabia que eu gostava muito. Ela até me levou no Corinthians na época, mas não deu certo. Mas eu joguei pouco tempo como federado no SEPA [Sociedade Esportiva Platina Azevedo], mas era futebol de salão.
(00:06:58) P1 - Fale um pouco da sua trajetória escolar, como você foi como aluno.
(00:07:07) R - Na minha época era diferente, comecei estudando no SESI. Minha mãe também trabalhava em escola, mas era servente. Foi uma pessoa maravilhosa, uma mãe sem palavras, mas era uma pessoa super rígida. Então, as professoras tinham toda a autonomia para me colocar de joelho no cantinho, puxar a orelha. Não fui um ótimo aluno, mas fui bem disciplinado, porque se eu chegasse em casa e tivesse reclamação, o couro comia.
(00:07:54) P1 - Quando criança, você tinha algum sonho, já pensava o que queria ser quando crescesse?
(00:08:01) R - Acho que na minha época, o sonho de qualquer garoto era ser jogador de futebol. Até porque eu nasci em 1961 então, muito novo, eu vi o Brasil campeão do mundo em 1970. Naquela época a televisão já era em cores. A gente era apaixonado por futebol. Tanto é que tinha os jogos da rua de cima contra a rua de baixo valendo uma tubaína.
(00:08:45) P1 - Você tem uma memória marcante da copa de 70, do futebol profissional?
(00:08:56) R - Poxa, quem não lembra, né? Era todo mundo na rua, a música “90 milhões em ação” [jingle da copa Pra frente Brasil]. Era maravilhoso. Você via todo mundo alegre na rua, não tinha motivo para tristeza. Todo mundo era bem simples, mas não tinha as dificuldades de hoje.
(00:09:24) P1 - Você falou que tinha TV apenas na casa de um vizinho. Onde você viu os jogos da Copa de Setenta e quais lembranças você tem?
(00:09:34) R - A gente ouvia mais o jogo pelo rádio, mas também tinha esse vizinho da televisão. Quando acabava o jogo, todo mundo estava na rua. Era só vitória, não tinha nem motivo para preocupação, digamos assim. Era todo mundo na rua, alegre, festejando, alegria pura. Muito bacana.
(00:10:10) P1 - Você torce para qual time?
(00:10:12) R - Graças a Deus sou santista.
(00:10:14) P1 - Até porque pegou a época gloriosa do Santos.
(00:10:17) R - Sem dúvida.
(00:10:19) P1 - Quais lembranças você tem da época de infância, em acompanhar as partidas do Santos?
(00:10:26) R - Não era tão fácil como agora. Meu pai também era santista, e sempre que podia a gente assistia aos jogos do Santos pela televisão. Eu cheguei a ver o milésimo gol do Santos e Vasco [se refere ao milésimo gol do Pelé]. Eu não sou muito bom de memória, mas essas coisas assim ficaram marcadas. Tanto é que toda a minha família é santista, só minha mãe que era corintiana.
(00:11:08) P1 - Você falou que toda criança e adolescente tinham o sonho de jogar futebol. Você tentou fazer parte de alguma peneira? Como foi?
(00:11:22) R - Sim, minha mãe me levou uma vez na peneira do Corinthians. Depois não deu sequência, porque ela trabalhava. Eu jogava futebol de salão, porque o time Estudantes era na rua onde eu morava, depois eu fui para o SEPA, que era a Sociedade Esportiva Platina Azevedo, que disputava a primeira divisão de futsal, mas eu joguei só no juvenil. Também não deu certo, e fiquei jogando nos times de bairro. Perto da minha casa os times eram: o Primeiro de Maio, o Azevedo, o Estudante e o Sete da Água Rasa. No Sete, era o único que eu jogava futebol de campo, depois só no Negritude mesmo.
(00:12:12) P1 - Fala um pouco de como foi a fase de juventude para o início da vida adulta.
(00:12:23) R - Eu morava na Água Rasa, e antes de sair a COHAB [Companhia de Habitação Popular] aqui, a minha mãe já tinha feito inscrição e a gente foi contemplado com uma casa na Juscelino [Kubitschek], que é em Guaianases [Zona Leste de São Paulo]. Primeiro, nós mudamos para a Vila Nhocuné, que era mais próxima da onde minha mãe trabalhava, mas ela não gostou, achou que ainda ficava longe. Então nós esperamos mais um pouco e foi liberada a casa na COHAB aqui [Artur Alvim]. Então eu morava aqui e estudava na Água Rasa até começar a realmente participar dos times de escola e do bairro. Mas nessa época de adolescente eu praticamente só estudava e trabalhava de carreto nas feiras de rua.
(00:13:21) P1 - Conta um pouco como foi o processo de mudança para o bairro de Artur Alvim, na COHAB e esse envolvimento comunitário. Imagino que isso vai ter relação com o surgimento do clube.
(00:13:36) R - Sim, sem dúvida. Na época, nem eu nem minhas irmãs queríamos morar na Vila Nhocuné, porque a gente achava muito longe, ainda mais para quem morava na Água Rasa. Ainda não tinha metrô, era só ônibus da CMTC [Companhia Municipal de Transportes Coletivos], o fenemê [fnm cavalos mecânicos - fenemê era conhecido popularmente]. Mas nós viemos e se você perguntar hoje se eu quero morar na Água Rasa, eu respondo que de forma alguma. Depois que a gente veio, acho que foi paixão. Não digo à primeira vista, mas depois da convivência com as pessoas e a comunidade, eu não troco o bairro por nada.
(00:14:25) P1 - Zé Roberto, conta um pouco como foi o momento da criação do time, como também está relacionado com a experiência comunitária e construção de vínculos com a comunidade.
(00:14:44) R - A história do time Negritude é bem engraçada. A gente que joga bola, a primeira coisa quando se muda, é procurar um campinho. Um lugar para praticar o futebol. E aqui praticamente todos os dias estavam mudando pessoas para a COHAB. Perto das casinhas, como eles falam, que é a outra parte da COHAB, tinham umas quadras, e eu fui lá. Tinha um pessoal jogando, e quando um time fazia dois gols, entrava o próximo. Por coincidência tinham mais cinco negros. Um perguntou para o outro: "Você joga?”, “Vamos fazer o próximo jogo?". Por coincidência todos jogavam bola e, ali sim, foi amor à primeira vista. Naquele dia surgiu o Negritude porque, desculpe a falsa modéstia, mas parecia o Globetrotters [famoso time de basquete masculino estadunidense] jogando, porque todo mundo jogava muito bem. Éramos eu, o Bidula, o Agnaldo, o Osvaldão e o Marrom, e foi impressionante. Na hora, fizemos um time e como todos eram negros e era a época do movimento black, pensamos em Black Power e Poder Negro, mas não podia, porque já era usado, então ficou Negritude.
(00:16:21) P1 - Qual era a sua relação com o movimento black, no final da década de 70 e início da década de 80?
(00:16:37) R - Na verdade eu não era tão bem engajado. Mas na época, como eu falei, surgiu o Negritude, e muitas das pessoas mudando para a COHAB eram negros. Além disso tinha a Cristina [Maria Cristina Costa Valim], que até foi presidenta do Negritude, que participava do Vagão [famoso bar/lanchonete temático construído dentro de um vagão de trem real, que funcionava como um importante ponto de encontro para os adeptos da cultura soul, black e groove] e do movimento negro. Tinham reuniões do movimento negro no apartamento do Choco, um amigo nosso, e a Cristina passava conhecimento e causos para a gente. Foi a partir daí que começamos a ter uma consciência social e cultural.
(00:17:29) P1 - O time está muito ligado à construção da COHAB e ao processo de urbanização da região. Queria que você contasse como foi a chegada da sua família aqui. Como era o bairro e o entorno quando vocês chegaram?
(00:17:49) R - Basicamente, era uma cidade. Você não precisava sair da COHAB para nada. Você tinha comércio e tudo o que precisava. Só tinha a COHAB, era praticamente bem deserto e depois vinham os outros bairros como Itaquera e Guaianases. Agora se expandiu, mas antes a gente vivia basicamente dentro dessa cidade.
(00:18:29) P1 - Você comentou que, no início, vocês começaram jogando "gol a gol". Como eram os espaços de lazer da região naquela época?
(00:18:44) R - Sim, nós tínhamos o Matraca, um ginásio poliesportivo aqui dentro da Cohab, e desde o começo começaram torneios, onde graças a Deus surgiram muitos talentos. Como o goleiro do Corinthians, o Giovanelli [Ronaldo Giovanelli, ex- jogador de futebol], o Ronaldo, o Emerson, o Alemãozinho que jogou até na seleção da Espanha e o Baré [Marcos Baricala, ex jogador] que também jogou no Corinthians. Foram muitos talentos. Tudo graças à esse envolvimento esporticvo onde tinha essa quadra.
(00:19:37) P1 - Quais os nomes dos 06 fundadores do Negritude e como foi a formação e organização do time e ter um espaço para jogar?
(00:20:04) R - Eu [José Roberto de Andrade], Jair, Bidula [Douglas], Osvaldo, Marrom e Agnaldo, todos moradores da COHAB e por a gente ser bem jovem, houve também o envolvimento das nossas famílias. Para você ter ideia, a minha mãe e a mãe do Bidula lavavam as nossas roupas. No primeiro jogo que nós fizemos, a gente tinha o time de futebol de salão, e fomos os campeões da COHAB, logo no primeiro ano. A gente jogava fora, e o Bidula, que trabalhava na CMTC, levou a gente para disputar um torneio na empresa e também fomos os campeões da CMTC. Um irmão do Bidula montou o time de futebol de campo do Negritude, já que tinham muitos talentos aqui na COHAB. Mas não tinha um técnico, não tinha alguém mais de idade que administrasse esse time de jovens. Então o Seu Ivan [pai do Bidula], que jogava bola no time Artur Alvim, falou: “Vamos ver se esse Negritude sabe jogar mesmo". Ele levou a gente para jogar em um festival contra o Artur Alvim, do Valdir. No primeiro jogo nós ganhamos de 4 a 1, lá dentro. O próprio Ivan, pai do Bidula, veio a ser o técnico, inclusive o mais vitorioso que o Negritude teve, e levou a gente no Desafio ao Galo [campeonato de futebol amador criado em 1972] e tudo mais.
(00:22:08) P1 - O time de futebol de campo se forma em que ano?
(00:22:12) R - Foi em 1981 ou 1982. Foi bem em seguida porque tinha muita gente, graças a Deus.
(00:22:29) P1 - Você diria que com a experiência de festivais, o time começa a jogar contra outros times e o principal torneio que vocês participam é o Desafio ao Galo?
(00:22:42) R - Não, acho que foi o Metropolitano. Nós chegamos na final e perdemos, foi antes do Desafio ao Galo.
(00:23:00) P1 - Como foi a experiência de disputar esses grandes torneios?
(00:23:04) R - Posso dizer que foi até engraçado. O Seu Ivan [técnico do time] era um tipo de pessoa totalmente disciplinadora. Tanto é que a gente tinha um apelido, os neguinhos doce. Mas ele também era um paizão, mas rígido e rigoroso. A gente ia jogar, apesar de ser um time muito bom, mas se você não desse o dinheiro do ônibus, não ia, podia ser quem for. Às vezes - era engraçado - a gente chegava para jogar e muita gente perguntava quanto a gente ganhava para jogar. A gente dava risada e falava que sem o dinheiro do ônibus ninguém nem vinha. Mas era uma época que tinha muito talento em muitos lugares e calhou de ter na COHAB também. O Negritude já nasceu com os dois times muito fortes. O nosso segundo quadro - vai falar até que é empáfia - ganhava de 5 ou 6 gols em todo jogo. A gente tinha o Haroldo, em todo jogo ele fazia 3 ou 4 gols. Tinha gente que falava que se o segundo quadro era assim, imagina o primeiro. Teve time que desistiu de jogar com o primeiro quadro só pelo fato de ver o segundo quadro jogar. Nós tivemos uma época que foi impressionante.
(00:24:55) P1 - Zé Roberto, você pode explicar - como se para alguém que não sabe nada de várzea - essa diferença do primeiro e segundo quadro e como é feita a divisão do primeiro para o segundo quadro?
(00:25:22) R - O segundo quadro eram os aspirantes, um time um pouco mais jovem, e que estava aspirando o degrau de cima, que é o primeiro quadro. Então basicamente era isso, e os dois times do Negritude eram muito fortes. Se você ver foto aí da época, o segundo quadro tinha mais de 20 jogadores e o primeiro também. Para você escalar o primeiro era uma dor de cabeça assim impressionante. Com Paulo Marques, Sapeiro e Sapo jogavam no Nacional, o Esquerdinha jogava no Corinthians, era só craque. Quem você escala? No segundo quadro, a gente era jovem, mas todo jogador sabia jogar. E se não servisse, o técnico falava para a pessoa não voltar mais porque não dava.
(00:26:42) P1 - Você pode falar de como era a dedicação do time nos treinos e dia de jogos?
(00:26:55) R - Era até engraçado, porque - queira ou não queira - naquela época tinham muitos bailes black, e a negrada era muito gandaeira. Aqui nós tínhamos o o Guilherme Giorgi, Brasília e vários outros bailes. Às vezes, como a gente jogava de domingo de manhã, tinha nego que já vinha todo social para o vestiário, porque não queria chegar atrasado. E a negrada é muito gozadora, a gente começava a cantar, e o cara tentava se esconder para o Seu Ivan não ver, porque se visse, era gancho. Que época boa, cara.
(00:27:49) P1 - Você falou que o time era conhecido como neguinhos doce. Além do nome, o time também tinha esse distintivo. Tinham situações de estranhamento ao chegar em muitos lugares com o nome Negritude e com esse distintivo?
(00:28:10) R - Sim, vários. Eu vou falar dessa primeira copa do Metropolitano. Praticamente foi a primeira grande copa que nós disputamos, no bairro do Ipiranga e chegamos na final. Quando terminou, um dos diretores do Metropolitano veio pedir desculpa para gente e falou: "Vocês me perdoem, a gente não conhecia vocês e quando ouvimos que o time era o Negritude, de Itaquera, ficamos preocupados”. Por isso, todo jogo tinha policiamento, mas a gente pensava que era normal, que fazia parte do evento, pois era o primeiro grande torneio que a gente estava disputando, mas não. Era preocupação deles achando que o nome pressentia alguma coisa nesse sentido de marginalidade. Um outro fato, uma vez eu fui direto para um jogo no bairro da Mooca, e quando o ônibus do Negritude chegou, teve um cara que fez uma piada infeliz: "Olha, o zoológico chegou". Tiveram algumas atitudes assim, e a própria Federação Paulista na época não deixou registrar Negritude com esse nome e tivemos que cadastrar como Alvinegro. Tivemos esse tipo de impasse - digamos assim -, referente ao nome e a nossa etnia.
(00:29:50) P1 - Em que momento você sentiu que deixou de ser um “impasse”?
(00:29:59) R - Nunca. Nunca. Nunca. Não tem. Tentam disfarçar e minimizar. Não é mimimi. Eu acho que a gente tem o nosso valor, a gente sabe o que a gente construiu, mas a gente não pode ser hipócrita de dizer que não tem uma certa restrição. Um exemplo é a Copa Negritude, que é a única de São Paulo que contempla todas as faixas etárias. É a única que tem os sub-11, sub13 e sub15, tem o master 40 e 50, o esporte (categoria principal). Tem 27 anos que vai ter a próxima agora, e não tem um patrocinador. Tem copas muito mais novas que já tem patrocínio. Não vou falar a copa, porque mérito deles, Deus abencoe, e que consigam muito mais. Mas tem Claro, Netshoes, Pepsico, Caninha 51, Puma. Por que que aqui não tem?
A gente pode dizer que teve a F12, mas foi um um projeto para várias copas. E entre as copas, tem a grandeza da Copa Negritude, que é uma Copa bem conceituada e conhecida. Então ela foi uma das contempladas com um auxílio da F12.Bet.
(00:31:49) P1 - Antes da gente falar um pouco mais da Copa, que é um episódio importante da história, eu queria que você falasse um pouco da construção da família Negritude. Você falou sobre o envolvimento de familiares dos jogadores. Quando começa também ter a torcida que acompanhará o time nos jogos?
(00:32:08) R - O Negritude teve o ápice no Desafio ao Galo. Na época, praticamente toda a COHAB abraçava a gente. O Desafio ao Galo era um torneio que passava na Rede Record ao vivo, e precisavam de vários ônibus para a gente ir. Mas a dificuldade era tão grande que a cada jogo que a gente passava era um problema, porque a gente não sabia como ia conseguir dinheiro para o outro jogo, porque tinha que alugar ônibus, tinha uma taxa que tinha que ser paga através de uma certa quantia de ingressos. A diretoria da época torcia para a gente perder, senão nas próximas semanas não teria como o time ir. Mas os jogadores, o Carlinhos fazia parte do elenco, queria ganhar, e foi ganhando.
(00:33:24) P1 - Quais, você diria, foram as principais conquistas dessa primeira fase do Negritude?
(00:33:29) R - Eu acho que foi o conhecimento. Acho que a divulgação do nome. Se você for ver o que abrange o nome Negritude, se você for ver…teve o Negritude Júnior, que foi um dos meninos que morava com a avó na COHAB, e ia nos jogos do Desafio ao Galo, e ele juntou os amigos dele de Carapicuíba, criaram o Negritude Júnior. Nas camisetas a gente fazia reverência aos negros, então tinha aqui do lado [aponta para a lateral da camiseta]: Príncipe Negro, Princesa Negra, Diamante Negro, Raça Negra. Sempre na camiseta tinha, digamos assim, uma reverência. Depois, surgiu aqui perto do bairro a banda Raça Negra que se inspirou no nome das camisetas do Negritude. Então podemos dizer que isso aí abrangeu bastante coisa. Não tiramos proveito do que apareceu, mas ficamos bem conhecidos.
(00:34:50) P1 - Para além de conquistas em campo, do crescimento do time, tem também um processo de formação e de uma consciência política e social para outros jovens de bairros periféricos.
(00:35:12) R - Sim. Como eu falei, tinha a Cristina, que era uma pessoa à frente do seu tempo. Imagina um time de várzea ter uma mulher como presidenta. Ela era bem a frente da gente em matéria de consciência. Uma pessoa extremamente inteligente, advogada, trabalhava no fórum na área social e familiar. Então ela passou muito conhecimento para a gente. Lógico que o grande foco da gente era dentro de campo, mas com a Cristina a gente aprendeu muita coisa.
(00:35:59) P1 - Até falando sobre a Cristina, como você via, nesse primeiro momento, a participação das mulheres nesse universo da várzea?
(00:36:12) R - Nós éramos muito jovens e teve muitos casamentos aqui. O Carlinhos casou com uma menina que fazia parte da torcida. Eu conheci minha esposa também ali e estamos juntos até hoje. A Cristina é irmã do Aguinaldo, que é um dos fundadores. A Cátia e a Karina são irmãs de outro fundador. O Marrom, um dos fundadores, casou com a irmã de outro fundador. Por ser aqui uma cidade, e o Negritude ter toda essa importância local, foram muitos casamentos graças ao Negritude. Isso a gente está falando apenas de fundador e jogador, mas tinham outras pessoas que acompanhavam e que conheceram seu parceiro ou parceira dentro da nossa entidade.
(00:37:11) P1 - Como era o cenário do futebol de várzea em São Paulo e mais especificamente da Zona Leste, nos anos de 1980 e 1990?
(00:37:37) R - A Zona Leste, na várzea, sempre teve destaque superior às demais regiões. Grandes times, muito conhecidos, com uma comunidade e uma torcida muito grande. A qualidade da Zona Leste sempre teve um diferencial e foi um grande celeiro para o futebol profissional. E eram todos campos de terra e eu acho que isso ajudou muito na qualidade dos jogadores. Hoje, essa qualidade nós não temos mais.
(00:38:34) P1 - Muita gente fala da importância do terrão não só como identidade, mas também de qualidade técnica na formação dos futebolistas. Quais foram as transformações mais significativas que você viu acontecendo na várzea ao longo dessas décadas de envolvimento?
(00:38:58) R - Eu acho que primeiro perdeu a paixão pela comunidade e pela entidade, hoje isso não tem mais. Chega a ser até bizarro. Vou contar uma história: teve uma vez que um time da Zona Sul ia fazer uma final da Copa Negritude, só que antes ele tinha uma final em Itapecerica de manhã e à tarde ele jogava a final aqui. Um jogador que jogou de manhã para a equipe da Zona Sul, veio no ônibus com eles, e entrou no outro vestiário para jogar contra aquela mesma equipe que ele tinha defendido de manhã. Isso na nossa época você não consegue imaginar. Hoje, para quem acompanha a várzea, quem tem o time é o treinador. Você toma conta de um time A, amanhã você está num time B. Os mesmos jogadores que estavam no sábado, são os mesmos jogadores com você no domingo. Só muda a camisa. Tem time que não participa de uma copa se o outro time entrar. E hoje, têm jogadores aí que ganham mais na várzea do que times profissionais da terceira ou até da segunda divisão. Chega a ser bizarro você ver um time de várzea hoje com uma folha de R$15.000,00, R$20.000,00 por jogo. Eu não estou brincando não.
(00:40:41) P1 - Como você percebe esse crescimento dos investimentos na várzea? Hoje, é possível dizer que a várzea também passou a ser vista como um negócio. Você falou da paixão pelo futebol e da relação comunitária, que eram muito fortes e, em certa medida, ainda são. Mas como você percebe essa transformação da várzea em um negócio, que hoje movimenta muito dinheiro?
(00:41:14) R - Algumas empresas já estão reconhecendo o valor da várzea, porque antigamente tudo que não dava certo no futebol, chamavam de várzea. “Ah isso aí é uma várzea”. Quer dizer, o nome em si era motivo de chacota. Hoje já não, a várzea movimenta muita coisa. Você vê que vai ter um especial da Netflix falando sobre a várzea. A Copa Pioneer, que é uma das maiores copas que tem em São Paulo, parece que a final vai ser transmitida pelo canal TNT. O próprio Negritude fez um documentário com a Rede Globo de 18 minutos no programa Esporte Espetacular e ganhou até um prêmio internacional. Hoje a várzea está sendo vista com outros olhos, mas no momento está bom para os jogadores e para os técnicos. É uma disputa muito acirrada para que determinado jogador dispute um campeonato para determinada equipe. Eles estão bem valorizados.
(00:42:36) P1 - Eu queria saber da sua trajetória na várzea, onde você começou como jogador e agora está como dirigente. Como foi essa transição?
(00:42:51) R - Eu fui um dos fundadores do Negritude, e jogador, e muito cedo o Negritude foi para o Desafio ao Galo, e já era um grande time. Só que logo depois o time participou do Super Galo e o time e os jogadores foram valorizados. Por isso, muitos foram embora e ficou um time mais modesto aqui. Aí uma vez nós perdemos aqui em casa de 3 a 0 e o Seu Ivan não admitia. O time chegou a ficar três anos parado. Isso aconteceu depois do Galo, em 1987. Alguns jogadores perguntavam se o time não ia voltar, porque alguns já tinham migrado para o master. Assim eu parei de jogar e fui tomar conta. Na década de 90 eu fui ser o treinador do time. Praticamente foi essa a minha trajetória, aí eu fiquei praticamente 30 anos quase tomando conta.
(00:44:23) P1 - Então o Negritude retorna às atividades quando você se torna técnico?
(00:44:29) R - Na verdade, na categoria esporte. Porque já tinha a categoria de base e tinha o master. Porque antes era só a equipe principal que a gente tinha, com dois quadros, mas só a equipe principal.
(00:44:48) P1 - Queria que você contasse um pouco sobre como foi esse processo de estruturação. Aos poucos foram surgindo as categorias de base e também as categorias master. Como aconteceu a organização e a consolidação dessas categorias?
(00:45:04) R - Na categoria de base, como eu falei, na família do Bidula [Douglas], o pai dele era técnico, a mãe lavava a roupa, e uma das irmãs dele, a Karina, com o meu irmão fizeram a escolinha do Negritude. Foi a categoria de base das crianças. O master, era o pessoal que era daqui, e já começaram a migrar para a categoria master por causa da idade, 40 anos na época. Basicamente foi isso os 3 anos que a categoria esporte ficou parada.
(00:45:47) P1 - Então o nome Negritude manteve-se mas com essas outras categorias.
(00:45:50) R - Ah sim, o nome sim.
(00:45:55) P1 - Quando o time passa a utilizar este espaço onde estamos hoje, na COHAB?
(00:46:02) R - O campo era na praça que hoje se chama Praça do Morcegão, era um campo bem no centro da COHAB. Na época o prefeito era o Mário Covas, e ele queria fazer uma praça, mas ele prometeu uma outra praça de esporte para a gente da comunidade, porque não tinha só o Negritude, que seria esse espaço que estamos. Em 1987 o Negritude veio para esse campo e o campo lá em cima se tornou uma praça de eventos. Todo o show da COHAB é feito nessa Praça do Morcegão.
(00:46:47) P1 - Quando foi formado já tinha essa configuração de clube da comunidade ou isso foi sendo construído ao longo do tempo?
(00:46:53) R - Mudou de nome, parece que depende do prefeito, era CDM, Clube Desportivo Municipal, e agora é Clube da Comunidade, mas tiveram outras denominações.
(00:47:12) P1 - Na década de 1990, você passou a atuar como treinador na categoria de esporte de competição. Como foi a experiência de estar nesse lugar de treinador?
(00:47:25) R - Ah, foi maravilhoso. Eu acho que eu ajudei muitos garotos aí a ter um direcionamento. Eu posso falar que hoje o Juninho [Paulista] foi para a Itália e mora até hoje lá, o Zé Ricardo [José Ricardo Avelar Ribeiro] foi para a Bélgica, o Clébinho [Cleber Barbosa Viana] foi para a Espanha. Eu tive muitos garotos aí que, graças a Deus, tiveram sucesso na carreira. Era um time também muito bom. Na década de 1990, mesmo o Negritude sem recursos, nós chegamos em 3 anos seguidos entre os oito primeiros, se eu não me engano, da Copa Kaiser. A gente não tinha dinheiro para levar a torcida. Praticamente a torcida do Negritude, basicamente esfacelou no Desafio ao Galo. Para você ter uma torcida hoje, o custo é mais alto do que a do time, tem que levar a torcida, disponibilizar a condução, tem que ter batuque, dar uma cachacinha ou uma cerveja para o batuque. Muita gente não percebe, mas ter torcida também é um custo muito alto.
(00:48:41) P1 - Como foi o processo de estruturação de conceber uma Copa, a Copa Negritude, tendo este espaço como sede?
(00:48:53) R - Em todo o aniversário do Negritude era tradição fazer um festival. Festival é um dia de jogos festivos e que todo ganhador levava uma lembrança, levava um troféu. Nós vimos que a gente conseguia fazer grandes festivais, até que surgiu a ideia de fazer uma Copa. Em 1999, já tinha a Copa Kaiser, e fazer a Copa Negritude desde o primeiro momento também foi um sucesso muito grande. Tanto é que começou na categoria esporte, depois foi para categoria master e agora tem até a categoria de criança. É muito bacana. As pessoas não conseguem mensurar porque quando assistem uma final de categoria sub-11, vem a mãe, o pai, a irmã, o cachorro,vem o vizinho, é uma festa familiar. É um futebol visto de um ângulo totalmente diferente do profissional.
(00:50:14) P1 - Como é organizar um torneio desse porte e o que um time precisa fazer para participar da Copa Negritude?
(00:50:26) - Primeiramente é muito cansativo, porque a Copa Negritude começa no sábado de manhã com as crianças, à tarde começa a categoria esporte e no domingo de manhã tem o master 40 e 50 e domingo à tarde é o esporte. A nossa sorte é que a diretoria do Negritude é muito grande, muito bem engajada e é dividida por categorias. A gente tem a comissão técnica que cuida da base, a outra que cuida do master e uma que cuida da categoria esporte. Isso facilita bastante. Mas é cansativo porque são de 4 a 5 meses de competição, tendo jogos todo sábado e domingo. E para participar tem algumas regras, mas a gente manda convites abertos para todas as equipes. Tem times que participam todo ano. E tem sempre novas equipes querendo participar, então é aberto para todos.
(00:51:41) P1 - No formato atual são quantas equipes participando nessas categorias?
(00:51:48) R - A base são 36 equipes, o master 40 e 50 têm 24 equipes e o esporte caiu bastante. A meta agora são 48 equipes, mas já tivemos 96. É que o futebol hoje está muito caro. É uma Copa muito difícil, já começa por aí, e tem gente que tem plena consciência, que para participar tem gasto e pensa que a equipe não tem condições e dificilmente vai chegar numa final da Copa Negritude. Por isso, muita gente de antemão não participa. Tem equipe que participa todo ano e nunca foi campeã, em 27 anos.
(00:52:46) P1 - Na categoria esporte o Negritude já conquistou quantas vezes e quando?
(00:52:52) R - Uma vez, em 2008. Mas foi um grande time também. Foi muito difícil, em 2003 batemos na trave e perdemos a final nos pênaltis. Tínhamos um grande time, estávamos cotados para sermos campeões, porque tinha um time que tinha sido bicampeão, e era muito forte, e nós ganhamos deles na semifinal. No dia da final teve uma infelicidade que choveu muito e o jogo foi adiado. Na outra semana choveu de novo e nós tínhamos dois jogadores que faziam diferença, o Juninho Paulista e o Emerson que jogava no Palmeiras. Eles não jogaram a final por causa do barro e também com medo de lesão, porque tinham compromissos semiprofissionais. Nós empatamos o jogo e perdemos nos pênaltis. Em 2008 meu filho estava começando a carreira profissional e montou um time, graças ao conhecimento dele, montamos um time fantástico. Algumas pessoas acham que o time ganhou porque era o time da casa, mas o time que perdeu para a gente continuou participando das Copas, porque viu que foi uma vitória incontestável.
(00:54:43) P1 - Você estava como treinador desse time?
(00:54:46) R - Nesse time era o meu irmão o treinador. Porque na Copa eu sou o coordenador técnico, e não consigo dar atenção para o time dentro de campo e cuidar da Copa. Mas tava meu irmão, e meu filho que montou o time praticamente.
(00:55:12) P1 - Você se lembra como foi esse momento da conquista aqui para a comunidade?
(00:55:18) R - Foi maravilhoso, é até difícil de descrever. Eu lembro que era véspera de natal. Não é discriminando, tinham muitos negros… e brancos também. Muita gente, que não conhece, pensa que o Negritude é um time exclusivamente de negros, mas não é. Nós temos dois japoneses como diretores. Mas ver aqueles negrinhos tudo de gorrinho de Papai Noel foi muito bacana. Toda a nossa família, festejando, família do Bidula. Como eu falei, muitos casamentos surgiram aqui, é um clube muito familiar. Sabendo das dificuldades, pois é um time que não pagava os jogadores e ver todo mundo feliz, foi uma alegria muito grande.
(00:56:32) P1 - A vitória foi no tempo normal?
(00:56:35) R - Sim, no tempo normal. Foi 2 a 0 contra o Tiradentes da Vila Curuçá.
(00:56:42) P1 - Você comentou que hoje muitos times pagam jogadores e têm uma estrutura financeira maior. Como o Negritude consegue sobreviver e se manter dentro dessa realidade da várzea?
(00:56:58) R - Hoje em dia é muito difícil, tanto é que a gente não tem um time de competição. Você pode até participar, mas é um mero coadjuvante. O Negritude não tem essas condições que hoje os grandes times da várzea têm financeiramente. Hoje em dia a gente é mero participante, digamos assim. Prova disso é que a última grande conquista nossa foi essa aí em 2008.
(00:57:34) P1 - Hoje, o Negritude continua participando dos torneios da categoria esporte, e imagino que tenha muita rotatividade dos jogadores. Vocês têm conseguido manter o time competitivo nos campeonatos?
(00:57:49) R - Hoje em dia, está parado por causa do campo e a gente também não tem condições de sair toda semana para jogar, porque o custo é muito alto. A gente está esperando a reforma do gramado para retomar. Graças a Deus, a gente tem a nossa escolinha de futebol que é muito forte, muito boa. O professor Lima é um ex-profissional, e juntou com o projeto dele, que é uma escolinha de competição, projetando garotos para entrar na vida esportiva de jogador. Tanto é que a escolinha, das três categorias, duas chegam na final, a outra bate na trave. Hoje, a escolinha é muito forte e, praticamente, é o que mantém o nome do Negritude em um alto estágio.
(00:59:06) P1 - Atualmente, considerando todas as categorias e equipes do Negritude, aproximadamente quantas pessoas fazem parte do clube?
(00:59:24) R - A base tem praticamente seis ou sete professores, e tem mais de 200 crianças. Para você ter ideia, o nosso sub-11 ganhou do Palmeiras de 3 a 1. O sub-13 ganhou de 3 a 2 e o sub-15 perdeu. Nós temos um amigo, o Cal, que jogou comigo e com o Carlinhos, e está há mais de 30 anos no Palmeiras, e faz parte da comissão técnica do time amador. Ele veio junto para os jogos e me disse que os treinadores do Palmeiras estavam ferrados porque o clube não admite perder para time de várzea. E eles vieram aqui com 3 times e perderam 2. Eu tenho uma lista de garotos que saíram da escolinha para outros clubes. A gente não sabe se vai virar um um jogador profissional, mas estão bem encaminhados, tanto para o Palmeiras, para o Santos, Atlético Paranaense, Botafogo, do Rio de Janeiro, e tem um garoto que foi para a Alemanha. É uma escolinha muito forte
(01:00:47) P1 - Como você vê, hoje, a relação do time com a comunidade?
(01:00:55) R - O brasileiro tem a cultura de acompanhar time vencedor. Se o time está bem, lógico que todo mundo vai assistir. Se o time não tá bem, ninguém vai. Por exemplo, o São Paulo, a torcida, pelo menos o que mostra, só abraça mesmo a equipe ou é na Libertadores ou quando está muito bem, senão não acompanha. Aqui também não é diferente. Ninguém quer perder o seu domingo nem gosta de ser gozado. Ninguém gosta que o outro fique tirando sarro da cara dele. E na várzea é muito disso, a outra torcida cantar contra você ninguém gosta, de ser chacota de ninguém.
(01:01:56) P1 - Aproveitando que estamos na sede do Negritude, você pode contar a importância da Copa para a manutenção desse espaço?
(01:02:17) R - A Copa gera muitas receitas não só para o Negritude. Nós temos a nossa lanchonete, mas também tem os ambulantes e os demais comércios, a própria padaria. Ela movimenta “N” pessoas: materiais esportivos , transporte. Tem muita coisa que envolve um torneio muito grande…comércio de bebida, de alimento. Muita coisa mesmo, se você parar para detalhar. Ele move uma economia muito grande, mesmo sendo na periferia. Desde onde está saindo uma equipe, que vai movimentar o comércio lá quando estão fazendo aquela concentração e tudo mais, até vir para cá com o transporte, e muito mais.
(01:03:32) P1 - Qual foi o jogo mais significativo que você esteve presente?
(01:03:44) R - Tiveram vários momentos marcantes. Ver o seu filho ser campeão, artilheiro, de um trabalho que você faz, é impagável. Ver seu filho se transformar em jogador profissional, ver o sucesso dele, o maior artilheiro do país que ele joga na Ásia. O próprio Desafio ao Galo, a gente era quase irmãos. Saía junto para os bailes e, no domingo, estava todo mundo jogando. Ver todos eles e a alegria da vitória sendo transmitido em rede nacional. Tiveram muitos muitos muitos momentos felizes. Tanto é que a Roberta [Pereira da Silva], escreveu um livro [Campo de terra, campo da vida: alternativas de resistência negra e o Negritude Futebol Clube], o programa de TV, Esporte Espetacular, contou também. Tiveram muitos momentos felizes e fica difícil escolher um.
(01:04:54) P1 - Qual foi o momento que você considera mais desafiador ao longo da trajetória na base?
(01:05:12) R - Eu acho que a parte mais difícil é a parte financeira. Principalmente o Negritude, que não tem um patrocinador, um patrono, alguém que possa passar a receita para o clube. A gente vive mais do campo, da Copa Negritude. Se não tiver a revitalização do gramado, esse seria o segundo ano sem a realização da Copa. Foi durante a pandemia e está sendo novamente agora, sem o campo, e de usufruir tanto da lanchonete quanto das receitas que a Copa traz, como a taxa de inscrição, essas coisas.
(01:06:06) P1 - Quais foram os principais valores que você aprendeu nessa trajetória como jogador, fundador, treinador e, hoje, dirigente de um time de futebol de várzea?
(01:06:21) R - Eu acho que a amizade, disciplina e responsabilidade. Amizade, porque foi aquela empatia desde o primeiro dia quando nós se encontramos naquela quadra e dali surgiu o time e uma grande amizade. Tanto é que muitos são compadres e até hoje, graças a Deus, todos vivos. Eu não lembro da gente ter discutido ou brigado um com o outro nesses 40 e tantos anos, e praticamente a gente está junto todos os anos. Ainda bem que tem o Carlinhos para lembrar porque eu sou ruim de memória. Os filhos que vieram…os meus filhos são amigos dos filhos dos demais fundadores. Ali praticamente é uma história de vida. Minha mãe era amiga da mãe do Bidula, que era amiga da mãe do Agnaldo. A disciplina que o Seu Ivan passou para a gente, a responsabilidade e o caráter. É difícil a gente passar assim. Ele era uma pessoa muito rígida, rígida mesmo, e dava muita bronca áspera, independente do lugar que estava. Então ele passou para a gente a importância do respeito de um para com o outro. E essa dificuldade que, vocês viram o salão do Negritude, o esforço que foi para a gente, sem ter recurso, construir tudo que construímos. É uma lição de vida muito grande, ali é muito trabalho e suor. Choramos bastante, rimos bastante, mas eu acho que se tivesse que fazer, eu faria tudo de novo.
(01:08:20) P1 - Você já contou muitas histórias. Mas tem alguma história curiosa, um causo inusitado do futebol de várzea que você lembra?
(01:08:36) R - Vou contar uma história engraçada, a do Adelino. Ele era jogador e, como eu falei, era todo mundo muito família. O João, lateral esquerdo, era tio do Adelino, ponta esquerda, mas praticamente eles tinham a mesma idade. Adelino era todo jeitosinho e ia praticamente para os jogos todo vestido de social. Os jogadores do Negritude, como eu falei, tinham que dar o dinheiro para pagar o ônibus. E a gente sempre ia de ônibus. A gente ia jogar no Ipiranga e no meio do caminho o Adelino: “Pô, para o ônibus que eu vou descer aqui porque estou perto de casa” - você vindo lá da Zona Sul. Você vindo lá de de São Miguel Paulista: “Pô, para o ônibus que eu estou perto da minha casa”. Você vindo lá da Zona Norte ele: “Pô, pode parar aqui”...cada hora ele descia num lugar. A gente falava “Meu, mas quantas casas esse neguinho tem?”. Depois a gente foi ver, o Adelino tinha uma casa em cada lugar. É impressionante, meu. Esse era um dos casos que fazia a gente dar risada pra caramba. Quando a gente vinha de ônibus, nego só ficava olhando: “Olha lá o Adelino, Adelino levantou”. Era muito engraçado. Quando chegava no vestiário, o pessoal vinha direto do baile e todo mundo cantando. Também, no Desafio ao Galo, como era o primeiro quadro que jogava, o segundo quadro ficava todo na arquibancada cantando as músicas do Fundo de Quintal [grupo de samba brasileiro], era muito gostoso e parecia que era tudo ensaiado. Muito bacana mesmo
(01:10:32) P1 - Zé Roberto, hoje, como é o seu dia a dia?
(01:10:41) R - Eu trabalho demais. Eu tenho uma pequena empresa de transporte. O meu filho, que é jogador, tem duas arenas de futebol de areia que eu ajudo a cuidar porque ele não mora aqui. Além disso, tem a parte técnica do Negritude, tem o CDC [Clube da Comunidade], que eu também faço parte da diretoria. Mas eu gosto bastante. Quando eu fico em casa é complicado, dá uma vontade louca de sair, ou vir para o campo ou vir trabalhar.
(01:11:18) P1 - O que você faz nos momentos de lazer?
(01:11:24) R - Acho que é estar aqui no campo, meu maior lazer. A minha mãe sempre falava para minha esposa não brigar comigo, porque o meu único vício era ir pro campo. Eu acho que o meu maior lazer é estar aqui no campo.
(01:11:41) P1 - Você mencionou que é casado. Qual o nome da sua esposa e dos seus filhos?
(01:11:44) R - Minha esposa é a Leila. Eu tenho 03 filhos, o Hebert, a Tainá e o Kleber.
(01:11:56) P1 - Qual deles se enveredou para o futebol, e como é ter um filho que conseguiu construir uma carreira, realizar um pouco daquele sonho.
(01:12:08) R - O jogador é o Herbert. Eu acho que foi um grande prêmio. Eu acho que foi praticamente contemplar tudo que eu fiz. Não só pelo Negritude, pela várzea em si, pelos campeonatos que nós realizamos. Acho que Deus foi muito bondoso e me deu esse prêmio e isso também me proporcionou conhecer alguns países, passeando e indo visitar ele. Eu acho que foi um um grande bônus que eu tive por tudo que eu trabalhei pela várzea.
(01:12:46) P1 - Por quais clubes ele passou?
(01:12:48) R - Ele jogou no Japão, na Arábia, na Tailândia, e atualmente ele está na Malásia. Foi muito gratificante. Se você vê ele, ele é tímido, que nem eu que não sou muito de falar. Mas ele é muito mais tímido do que eu. Não abre a boca para nada. Tanto é que quando nós fomos para a Tailândia visitá-lo, eu e minha esposa, andando pela cidade, você via aqueles outdoor gigante em prédio, com a foto dele. Eu dando autógrafo e nem sabia o porquê. É muito gratificante e é uma surpresa.
(01:13:37) P1 - Ele joga em que posição?
(01:13:38) R - Ele é meia esquerda. Meia atacante.
(01:13:44) P1 - Zé Roberto, o que que a paternidade representou na sua vida?
(01:13:49) R - Eu acho que foi a única coisa que eu não acompanhei tão de perto, por causa do trabalho aqui no clube. Eu acho que aí eu eu pequei um pouco. A não ser esse [Hebert, jogador] que me acompanhava desde pequenininho nos jogos e por isso que era mais próximo de mim. Porque a vida era trabalhar e vir para o campo, do campo para casa e voltar para o trabalho, uma correria. Nesse ponto eu acho que o clube em si me tomou um pouquinho do meu tempo perante a família.
(01:14:36) P1 - O que o futebol de várzea, ou melhor, o Negritude, representa na sua vida?
(01:14:46) R - Eu não vou dizer tudo, porque, graças a Deus, eu tenho uma família maravilhosa. Eu não posso nem comentar. A minha família é uma grande alegria: eu tenho sete netos, meus filhos e minha esposa são maravilhosos, e o Negritude , eu acho que, veio completar isso. Não vou dizer que é minha segunda pele, mas está bem enraizado dentro de mim. Eu vivo o Negritude todos os dias. A gente está sempre pensando em como melhorar, em fazer alguma coisa para ajudar os outros e fazer o clube crescer. Melhorar não só o clube em si, mas também para quem está dentro do clube e que faz merecer uma gratificação por gratidão.
(01:15:51) P1 - Para você, qual é a importância do futebol de várzea para a cidade de São Paulo?
(01:15:58) R - Muita, cara. É uma grande oportunidade que muitos jovens têm de transformar a vida da própria família. Você vê muitos sonhos serem realizados, e eu, graças a Deus, participei de muitos. Eu falo muitos porque são 40 e tantos anos. Nós tivemos uma época de ouro que nós vimos muitos garotos transformar não só a vida deles, como a vida familiar. E hoje a gente vê também na escolinha, eu não estou diretamente, não conheço tanto os garotos, mas eu fico sabendo, quando é postado, quando um garoto ou outro vai para um clube. Meu próprio sobrinho saiu da várzea e já assinou com o Palmeiras e o meu filho também, como falei. Então você vê a transformação que pode esse futebol de várzea gerar na vida de uma pessoa e de uma família.
(01:17:08) P1 - O que você gostaria que as próximas gerações soubessem sobre o futebol de várzea?
(01:17:19) R - É até difícil explicar que teve uma época de ouro em que brotavam talentos. Hoje, infelizmente não é só na várzea, mas até na seleção brasileira, a gente ter apenas um grande jogador. Sendo que, em outras seleções aí, em época de Copa do Mundo a gente tinha quatro ou cinco grandes jogadores. Hoje a gente tem apenas o Neymar e na várzea também não é diferente. O próprio Negritude tinha de sete a oito craques, hoje em dia é até chato falar, mas na COHAB mesmo, por ter tanta gente, antes a gente conseguia formar dois ou três times muito bons e hoje não consegue formar um grande time aqui. Sinceramente, a gente não sabe como a gente se perdemos no caminho, e o que você vai passar para esses jovens e o porquê. Hoje, infelizmente, é mais prazeroso para ele estar com narguile, com celular ou ir ao shopping, do que está desfrutando do esporte em si, do futebol de várzea. Você vem num domingo à tarde aqui no Negritude, esses dois campos não têm um jogo. E na nossa época a gente brigava para jogar na rua, brigava com a mãe para ela deixar jogar um pouco.
(01:19:18) P1 - Zé Roberto, a gente está a uma semana da estreia do Brasil na Copa. Acho também que temos que levar em consideração que o clube está há 1km da Neo Química Arena, onde aconteceu a estreia do Brasil na Copa de 2014. Teve algum impacto para o Negritude e para a comunidade a construção da Arena do Corinthians?
(01:19:48) R - Eu acho que a comunidade teve algumas benfeitorias. Não chegou todas, mas foi feito um anel viário, foi implantado mais algumas linhas de ônibus. Em matéria de infraestrutura, melhorou sim. Foi uma região mais valorizada, até por causa do Corinthians, que ia receber pessoas de todos os países e continentes. Sim, teve uma revitalização muito boa. Faltou muito ainda, mas essa parte de investimento de estrutura teve um “up” muito grande.
(01:20:44) P1- Mas isso não teve muita diferença refletida nos espaços de lazer, como no clube?
(01:20:54) R - Não, digamos que não. Onde nós estamos podemos dizer que estamos em um dos palcos, e da Zona Leste acho que é o principal palco de competição. A Copa Negritude é tranquilamente a maior Copa da Zona Leste, tanto pela quantidade de categorias, pela tradição e por tudo que engloba em si. Mesmo assim, a gente está brigando pela revitalização. Você vê os alambrados e tudo mais. Demograficamente, a quantidade de moradores por metro quadrado é muito grande. Por que isso não chama a atenção do poder público? Por que essa praça é tão deficitária? A obra, no clube, nós conseguimos apenas no ano retrasado. São mais de 40 anos de COHAB, tendo um evento como a Copa, e o próprio Negritude tomando o lugar do poder público. Porque, a Copa Negritude deveria ser feita pelo poder público e não por nós. Então você tomando o lugar do poder público, e praticamente sem estrutura nenhuma. Teve uma final de Copa Negritude que tinha oito vereadores aqui prestigiando, e mesmo assim a gente não vê o reflexo em infraestrutura para a comunidade, é muito pouco. Apesar que agora, graças à família Leite, nos contemplou com os vestiários e com a lanchonete e eles também prometeram nos ajudar na revitalização do gramado.
(01:22:56) P1 - Qual é o seu sonho para o futebol de várzea?
(01:22:02) R - Para o futebol de várzea, eu não sei, porque eu não tenho nem essa empáfia para dizer o que eu quero - pô, quem sou eu. Mas para o Negritude eu tenho muitos sonhos. A gente quer terminar a nossa sede social. Quem sabe um dia ter um ônibus do Negritude. A gente recebe bem, principalmente as categorias 50 e 60, que é o pessoal mais antigo nosso, e as mulheres participam - é o grupo das Poderosas. Elas fazem almoço para os adversários. Mas a gente gostaria de propiciar muitas coisas para quem vem nos visitar. Infelizmente a gente não tem essas condições. Eu acho que a parte da receita, é o maior sonho nosso…que o Negritude possa andar com passos largos. Apesar que a gente sempre fala que o Negritude é o time do futuro. Enquanto muita gente gasta na equipe, a gente vem construindo um patrimônio que vai ficar para as próximas gerações e quem sabe, num futuro próximo, a gente andar tranquilamente. A gente poder presentear quem vem aqui, como vocês, e dar uma camisa e um boné do Negritude, uma lembrança, alguma coisa assim.
(01:24:44) P1 - O que você ainda almeja viver, seja no campo ou com o Negritude?
(01:24:55) R - No Negritude, eu já estou passando o meu bastão. Aqui eu já estou indo embora. Como eu sempre falo pra eles, nós já estamos na descida, já passamos a curva e estamos na descida. Eu almejo para o Negritude que venha uma nova geração aí. O meu filho, o filho do Carlinhos, do Zé Aranha, filho dos meus sobrinhos, que cuidem de tudo que nós construímos com muita dedicação, com muito suor, com muita luta. Graças a Deus, sem nenhum vício, nada ilícito. Isso acho que é o nosso grande sonho, que a próxima geração conquiste muito mais do que nós conquistamos.
(01:25:42) P1 - Tem alguma coisa que você gostaria de ter contado e que eu não perguntei ou algo que você queira complementar?
(01:25:52) R - É tanta coisa, que é difícil. Para as pessoas que não conhecem o Negritude - não é um desabafo, nem nada, nem uma crítica - mas é o que a gente aprendeu com as crianças. Nós tivemos um ano que a categoria sub-11 nossa foi campeã, nós tínhamos no time apenas uma ou duas crianças pretinhas, e todas as crianças gritando Negritude. A gente viu que as crianças podem aprender a odiar com o tempo, mas elas não nascem com ódio ou com nenhuma restrição a outras etnias. É uma das coisas que machuca. Para quem não conhece, às vezes critica mas é porque não conhece.
(01:27:18) P1 - Como foi contar a sua história e relembrar os momentos da sua vida com o Negritude?
(01:27:30) R - Como eu falei, eu não sou muito bom de memória. O Bidula que deveria estar aqui. Eu sempre falo para ele que tem muitas coisas que eu esqueço, o Bidula tem uma memória de elefante. Ele conta casos da gente que nem eu lembro. Eu acho que ele seria a pessoa mais ideal para estar contando a história do Negritude. Ele conhece muito bem. Toda a família dele - desde a mãe, o pai, as irmãs - faz parte da vida do Negritude e da vida deles, então acho que seria a pessoa mais indicada para contar a nossa história.
(01:28:24) P1 - Primeiro quero agradecer a sua disponibilidade por compartilhar muitas histórias e memórias desse clube tão importante e significativo para você e para tantas outras pessoas. Mais uma vez agradeço pela oportunidade de estarmos nesse espaço.
(01:28:54) R - Eu agradeço vocês do Museu da Pessoa, por poder contar um pouquinho da história do Negritude. Uma história simples, mas de muita luta, muita dedicação, muito sofrimento e muitas batalhas. Um dia atrás do outro. Uma luta muito grande. Mas eu acho que a gente conseguiu conquistar algumas coisas muito relevantes para o Negritude e até para as próximas gerações, já que temos o Negritude musical, o Negritude eventos, tem As Poderosas. Acho que a gente conseguiu construir algumas coisas bacanas também. E conseguimos, com um pouquinho do nosso auxílio, transformar a vida de muita gente também. Acho que foi muito bacana. Tudo que nós fizemos foi muito bacana.
— FIM DA ENTREVISTA —
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