Éramos uns cinco ou seis meninos mais unidos de uma turma de uns doze, ali da esquina da 15 de novembro com General Carneiro, onde ficava a loja de tecidos do Latif Esperidião, pai do Miguel e do Antônio, vizinhos do Zeca Craveiro e da Lilian, pais da Claudia, do Rui e da Rosângela, na casa de frente para a casa do “seo” Osvaldo, marido da dona Geni, mãe da Zulméia, e tantos outros personagens.
E ali era nosso território, onde nos reuníamos depois da escola, nos começos de noite, e aos finais de semana, para todo tipo de atividade, e entre elas estava a ida aos sábados após o almoço à matinê do cine Império, o conhecido “pulgueiro”, naquela época já bastante deteriorado e decadente, mas que era o mais popular e barato e nos sábados para alegria da piazada, “passavam” 3 filmes pelo preço de uma entrada!
Logo após o almoço, nos reuníamos e partíamos para o ritual, sim, era um verdadeiro ritual, pois cada um dos “piás” levava um maço de gibis já lidos, para na entrada em frente ao cinema e antes do início da longa sessão, fazer as trocas com outros piás de outras regiões da cidade. E assim havia o escambo cultural e Cavaleiros Negros eram trocados por Fantasmas, Tios Patinhas por Recrutas Zero, Mandrakes por Sobrinhos do Capitão e por aí vai, um verdadeiro intercâmbio literário espontâneo.
Trocas realizadas, ingressos comprados no “buraco” da pequena bilheteria, quem ainda tinha alguns trocados comprava da vendedora amendoins que vendia o mais gostoso, salgado e torrado amendoim com casca da cidade, direto da cestinha de vime para o bolso do interessado, sim, nem pacotinho havia, era da cesta para o bolso com o auxílio de uma xícara de cafezinho!
E vamos logo para o poeirento cinema, a mofada sala de projeção, com aquele cheiro característico de umidade do córrego que passava logo abaixo do antigo prédio.
Sentávamos em uma fileira todos juntos, prontos para, logo que as cortinas começassem...
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Éramos uns cinco ou seis meninos mais unidos de uma turma de uns doze, ali da esquina da 15 de novembro com General Carneiro, onde ficava a loja de tecidos do Latif Esperidião, pai do Miguel e do Antônio, vizinhos do Zeca Craveiro e da Lilian, pais da Claudia, do Rui e da Rosângela, na casa de frente para a casa do “seo” Osvaldo, marido da dona Geni, mãe da Zulméia, e tantos outros personagens.
E ali era nosso território, onde nos reuníamos depois da escola, nos começos de noite, e aos finais de semana, para todo tipo de atividade, e entre elas estava a ida aos sábados após o almoço à matinê do cine Império, o conhecido “pulgueiro”, naquela época já bastante deteriorado e decadente, mas que era o mais popular e barato e nos sábados para alegria da piazada, “passavam” 3 filmes pelo preço de uma entrada!
Logo após o almoço, nos reuníamos e partíamos para o ritual, sim, era um verdadeiro ritual, pois cada um dos “piás” levava um maço de gibis já lidos, para na entrada em frente ao cinema e antes do início da longa sessão, fazer as trocas com outros piás de outras regiões da cidade. E assim havia o escambo cultural e Cavaleiros Negros eram trocados por Fantasmas, Tios Patinhas por Recrutas Zero, Mandrakes por Sobrinhos do Capitão e por aí vai, um verdadeiro intercâmbio literário espontâneo.
Trocas realizadas, ingressos comprados no “buraco” da pequena bilheteria, quem ainda tinha alguns trocados comprava da vendedora amendoins que vendia o mais gostoso, salgado e torrado amendoim com casca da cidade, direto da cestinha de vime para o bolso do interessado, sim, nem pacotinho havia, era da cesta para o bolso com o auxílio de uma xícara de cafezinho!
E vamos logo para o poeirento cinema, a mofada sala de projeção, com aquele cheiro característico de umidade do córrego que passava logo abaixo do antigo prédio.
Sentávamos em uma fileira todos juntos, prontos para, logo que as cortinas começassem a abrir ao som da música tema de “Canhões de Navarone”, todos batessem ruidosamente os pés no chão como todos os piás dentro do cinema, acompanhando o ritmo da música, um frenesi incrível e engraçado, que fazia levantar poeira para todo lado. E de nada adiantava o “lanterninha” querer coibir a algazarra, era tarefa impossível.
Depois de alguns trailers e do Canal 100 que terminava com um jogo de futebol resumido, finalmente iniciava-se a maratona de filmes, quase sempre teríamos um “faroeste”, uma “capa e espada” e um de “guerra”, para deleite da gurizada.
Não sabíamos o que era machismo, mas aquela sessão era exclusivamente masculina, talvez pelo ambiente rústico, não “pegava bem” as mocinhas de então frequentarem um ambiente daqueles, para elas estavam reservadas as sessões do cine teatro Ópera e depois do Renascença e Inajá.
A longa sessão terminava já no cair da tarde, e saíamos do cinema literalmente zonzos, mas inspiradíssimos para brincadeiras no decorrer da semana, com tudo que havíamos assistido na tela...
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