Aloisio Pellon de Miranda, eu nasci no Rio em 25 de junho de 1959.
Fiz quatro anos de geologia no Fundão e, no final do quarto ano, a Petrobras fez um concurso – isso já não existe mais, só houve duas vezes – onde não só ela dava uma bolsa, ela fazia um quinto ano de estudos em Salvador. Ela conseguia transferência de todos aqueles que passavam para a Universidade Federal da Bahia. E a partir da formatura, nós éramos imediatamente contratados, caso passasse no curso, nesse cursinho da Petrobras que era dado em conjunto com o quinto ano. Então eu tenho o diploma da Bahia, mas uma parte da minha vida universitária foi no Fundão.
Entrei em quatro de janeiro de 1982, há 25 anos. Na realidade, eu fiz o concurso para a Petrobras e imaginava Petrobras-Brasil, né? Mas faltando um mês para a conclusão do curso, nós fomos comunicados que haveria um grupo reduzido de estudantes que seriam contratados pela Braspetro. Então eles deram preferência a quem tivesse um bom desempenho no curso e que tivesse fluência em inglês. Eu morava no Rio e a sede da Braspetro também era no Rio. Eu sempre tive vontade de trabalhar em alguma coisa que envolvesse conhecimentos de novas culturas, experiência de exterior e aí eu vim direto para a Braspetro.
Naquela época, a Braspetro era uma subsidiária muito pequena em relação à Petrobras. Hoje a área internacional da Petrobras produz em torno de 250 mil barris de petróleo por dia; naquela época ela produzia quatro mil barris, era uma fração do que é hoje. E tinha um grupo de pessoas, de técnicos e de empregados, bem menor, nessa fase de internacionalização. Quer dizer, a Braspetro foi criada mais por conta de atender às exigências de alguns países e ter uma contrapartida de investimento no país, para celebrar contratos de abastecimento, de fornecimento de óleo em longo prazo, porque era uma época de crise de petróleo. Um grande trauma da Braspetro foi ter descoberto campos gigantes. As...
Continuar leituraAloisio Pellon de Miranda, eu nasci no Rio em 25 de junho de 1959.
Fiz quatro anos de geologia no Fundão e, no final do quarto ano, a Petrobras fez um concurso – isso já não existe mais, só houve duas vezes – onde não só ela dava uma bolsa, ela fazia um quinto ano de estudos em Salvador. Ela conseguia transferência de todos aqueles que passavam para a Universidade Federal da Bahia. E a partir da formatura, nós éramos imediatamente contratados, caso passasse no curso, nesse cursinho da Petrobras que era dado em conjunto com o quinto ano. Então eu tenho o diploma da Bahia, mas uma parte da minha vida universitária foi no Fundão.
Entrei em quatro de janeiro de 1982, há 25 anos. Na realidade, eu fiz o concurso para a Petrobras e imaginava Petrobras-Brasil, né? Mas faltando um mês para a conclusão do curso, nós fomos comunicados que haveria um grupo reduzido de estudantes que seriam contratados pela Braspetro. Então eles deram preferência a quem tivesse um bom desempenho no curso e que tivesse fluência em inglês. Eu morava no Rio e a sede da Braspetro também era no Rio. Eu sempre tive vontade de trabalhar em alguma coisa que envolvesse conhecimentos de novas culturas, experiência de exterior e aí eu vim direto para a Braspetro.
Naquela época, a Braspetro era uma subsidiária muito pequena em relação à Petrobras. Hoje a área internacional da Petrobras produz em torno de 250 mil barris de petróleo por dia; naquela época ela produzia quatro mil barris, era uma fração do que é hoje. E tinha um grupo de pessoas, de técnicos e de empregados, bem menor, nessa fase de internacionalização. Quer dizer, a Braspetro foi criada mais por conta de atender às exigências de alguns países e ter uma contrapartida de investimento no país, para celebrar contratos de abastecimento, de fornecimento de óleo em longo prazo, porque era uma época de crise de petróleo. Um grande trauma da Braspetro foi ter descoberto campos gigantes. As maiores descobertas dos anos 70 no mundo foram feitas pela Braspetro, no Iraque, os campos de Majnoon e Nahr Umr. Alguns poucos anos depois, o governo iraquiano tomou essa concessão da Braspetro, pagou uma indenização muito alta, 300 e poucos milhões de dólares, era muito dinheiro, e deu ainda um desconto de um dólar por barril, em um contrato de 10 anos. Era, também, bastante dinheiro para a Petrobras para compra de óleo iraquiano e ela assinou com a Braspetro um contrato de assistência técnica no Iraque. A Braspetro ia ser contratada para fazer o desenvolvimento do campo de óleo, mas como uma empresa de serviço e não mais como concessionária, como uma empresa com participação no bloco, éramos 100%. Então, logo depois da assinatura desse contrato, um ano, um ano e meio depois, estourou a guerra Irã e Iraque. Houve aquele problema, nós tínhamos funcionários e empregados, 150 pessoas em Basrah, lá na fronteira, entre o Irã e o Iraque. Eles tiveram que ser evacuados. Quando eu entrei, depois do início da guerra, ainda havia um resíduo de trabalhos que seriam feitos para a assistência técnica.
O meu trabalho na Braspetro era mapear um dos horizontes produtores do campo de Majnoon. Quer dizer, praticamente, a atividade no país tinha sido cancelada, a Braspetro estava terminando um grande relatório para entregar, talvez tenha sido o último relatório relativo a esse contrato de serviço. O meu primeiro trabalho foi fazer um dos mapas para complementar esse trabalho lá. Mas era daqui do Rio. Depois eu comecei a trabalhar com a Líbia e, imediatamente, com Iêmen até eu ter um envolvimento maior e ser expatriado para esse país. IÊMEN O Iêmen hoje é muito diferente do que era naquela época, né? O Iêmen era um país árabe comunista, com um sistema bem rígido. Havia uma base militar russa em Áden. A Guerra Fria ainda estava em vigor, tinha uma base americana, Diego Garcia, uma base russa em Áden e uma base francesa em Djibuti, que controlava a entrada do Mar Vermelho. O Iêmen era um país pobríssimo. Na época, havia o Iêmen do Sul e o Iêmen do Norte, que era uma república islâmica e uma república comunista, antagônica. Então havia uma situação de tensão entre os dois Iêmens. Não havia produção de petróleo, a principal riqueza do país era a pesca, tinha uma refinaria. Nós inclusive tivemos muitas dificuldades materiais no Iêmen, questão de moradia, morava-se num apartamento... Em termos materiais, foi a pior sucursal da Petrobras no exterior, disparado, em toda a história. Eu passei dois meses morando na casa do gerente-geral, já que não havia um apartamento para mim. Quando foi disponibilizado, era um tipo “BNHzão”, uns edifícios de três andares, pré-moldados, sem elevador, no meio de um areal. Era um calor tremendo, tinha ar condicionado até na cozinha. E você não podia andar na rua entre 10 da manhã e duas da tarde porque era simplesmente impossível agüentar o calor. Só de carro. Eu era recém-casado. A minha ex-esposa trabalhava numa subsidiária da Petrobras, a Brasoil, ela era analista de sistemas, fazia um trabalho local. Nós descíamos do apartamento e chegávamos ao carro completamente molhados de suor. Era um troço impressionante Tinha uma umidade tremenda porque era um porto; Áden é beira-mar e no verão as temperaturas ficam na faixa entre 40º e 47ºC. Tinha praia, mas no verão você não podia ir, só no inverno, para não ter uma insolação. A temperatura da água era muito alta. Você saía e não tinha aquele ventinho do mar. Era até engraçado, também não tinha muito perigo, mas eles não estavam acostumados com mulheres de maiô, biquíni, né? As mulheres entravam na praia com roupa. Então íamos a uma praia afastada do centro, e ficava um bolinho de iemenita, mudávamos para o outro lado e eles iam descobrindo, quer dizer, nós e outros. Porque eram pouquíssimos estrangeiros, não tinha muitos ocidentais. Era uma piada. Outro ponto bastante estressante era não ter o que fazer. Você não tinha uma televisão. Bom, teatro e show, esquece, né? Agora, televisão Era uma época pré - TV a cabo, pré-internet, pré - tudo. Fui para lá em 1984, a guerra foi no início de 1986. Você ligava a televisão e aparecia uma rosa, a fotografia de uma rosa Ela ficava de manhã até às oito da noite; a rosa e uma música árabe tocando, ham... Aí entrava um jornal, o único programa em inglês. Era um jornal internacional, mas ele cobria o sudeste asiático e o mais ocidental era sobre o Marrocos, então não adiantava muita coisa. Não tinha nada para fazer, nada Eu me lembro que nós tínhamos saudade de sofá. Era uma coisa interessante: saudade de sofá Só quem morou no Iêmen sabe o que é. Você não tinha conforto, não tinha um lugar, assim: vou para um bom restaurante para ficar bem, vou para um lugar confortável. A minha casa não era confortável, porque não tinha móveis para comprar. Os móveis eram do Estado, era um país comunista, então eram sofás horrorosos Aí de vez em quando ficávamos: “Pô, mas um sofá bom dá uma saudade” Quando saíamos de férias, gostávamos de comer uma torta de fruta, porque também não tinha lá. Então aprendemos a dar muito valor às pequenas coisas.
O Iêmen era uma colônia, uma ex-colônia inglesa. Eles ficaram independentes em 1967. O pessoal mais velho falava inglês. O pessoal mais novo era complicado. Mas conseguíamos nos comunicar. Nós tínhamos os empregados locais, que também falavam inglês, os mais velhos. Tinha um mais novo, um desenhista que eu contratei. Eu tinha 24 para 25 anos, muito novo. Eu me lembro que contratei um desenhista que já tinha uns 37 anos, por aí. Fiz uma seleção e o contratei. Ele ficou eternamente grato. Seis meses depois de contratado, ele já tinha mais confiança, ele nunca tinha falado nada pessoal, aí ele me chamou num canto e falou: “Oh, queria fazer muito uma pergunta.” O nome dele é Abdul Gaful. “Pode fazer”; “Eu queria saber como é esse negócio de namorar, queria que você me explicasse”. Assim muito humilde. Ele falava: “Como é que é namorar?”. Eu explicava: “Você conhece uma moça, leva para jantar, leva para o cinema, dá uns beijos e tal.” Ele ficava maravilhado: “Mas como você faz para dar um beijo? Você faz o quê? Aqui não tem nada”; Falei: “Como não tem nada?”; “Aqui nós temos que juntar dinheiro para pagar o dote e se você é mais pobre, logicamente, que não vai conseguir uma esposa das mais formosas. Quem tem um dote menor, assim, o pessoal do fim da fila já é difícil porque você tem que ter um dinheiro para pagar”. E ele não sabia: “O que é esse negócio de pegar na mão? O que você faz no cinema?”; “Você abraça”, “Mas como abraça?”; “Pega lá, abraça e dá um beijo.” Quer dizer, era um negócio de louco. Era muito engraçado porque é uma cultura completamente diferente e tem esse lado. Eu me lembro que depois da guerra eu voltei lá, nossa A minha sorte é que sou muito alto, porque os caras voaram em cima para me beijar, porque eu estava vivo Muitos estrangeiros morreram. A cidade tinha 200 mil pessoas, morreram 16 mil na guerra. Eu voltei lá dois meses depois. Eles vieram me abraçar, me beijar, eu falava: “Ó, pelo amor de deus, dêem tudo, menos beijo.” Mas é isso, era uma vida culturalmente... Era uma coisa
NO IÊMEN Existe um “pseudo” glamour: “Ah, você vai morar no exterior” Olha, uma terça-feira à noite, depois do quarto, quinto mês, quando já perdeu a novidade, num país desses, é uma tortura. Só quem esteve lá para saber o que é a monotonia. Eu me distraía jogando cartas. Eu fui primeiro em missão temporária, fiquei 45 dias. Depois eu voltei com a minha esposa na época e fiquei mais uns 15 meses, ia ficar mais dois anos, mas estourou a guerra e nós voltamos. A minha esposa era um ano mais nova: eu tinha 24 para 25, ela 23 para 24. Ela nasceu e se criou em Ipanema, então houve um pequeno contraste cultural. Bom, eu sou geólogo e desde a faculdade, nós íamos para o interior, fazer mapeamento e tal. Ela vivia no circuito Visconde de Pirajá, Maria Quitéria. Quando ela chegou a Áden foi um negócio de louco. Tem a parte boa que é tomar contato com aquilo tudo. Mas depois de três semanas isso acaba e aí você tem que conviver com o cara contratado para limpar a tua casa; você olha e ele está lavando o pé na pia da cozinha: “Não vai lavar o pé na pia da cozinha” Coisas do gênero. Então ela só conseguiu ficar mais equilibrada quando começou a trabalhar, porque tinha uma ocupação, dava para passar o tempo, mas o dia-a-dia era meio complicado. Em termos de resultados, não tivemos sucesso. Na realidade nós estávamos fazendo toda a parte pré-perfuração, a parte de aquisição de dados sísmicos no deserto. Depois nós perfuramos o primeiro poço, foi uma descoberta sub-comercial de gás; mas naquela época ninguém ligava para o gás. No final dos trabalhos desse primeiro poço, houve a guerra civil. E aí as famílias não voltaram depois da guerra. Havia o pessoal que ia em missão temporária. Foram furados mais dois poços, mas que não resultaram em nada comercial. A decisão foi abandonar o país. Mas talvez se tivéssemos ficado... Quer dizer, havia outras áreas, nós éramos praticamente os pioneiros, era uma área que ninguém havia perfurado. Então até se conseguir algum resultado positivo numa situação dessas, demora um tempo. Não é na primeira experiência que você vai ter êxito, né? E faltou essa seqüência, depois foi descoberto petróleo em outras áreas, mas nós já tínhamos saído, em função do trauma da guerra civil, que foi muito violenta para nós, realmente.
Depois, eu não fui mais residente em nenhum país, mas eu fiquei na Braspetro, tenho 25 anos de área internacional. Participei de vários projetos, principalmente na Argentina. Eu ia e voltava em missão temporária. E, lembrando dos principais, Argentina e Bolívia, algo que me marcou muito foi ter ido instalar o escritório na Bolívia, logo no início. Não tinha nem Petrobras - Bolívia, nós contratamos o primeiro funcionário. Foi interessante. O ex-geral no Iêmen estava para se aposentar, o José Almeida dos Santos, e precisava ir à Bolívia instalar o escritório, formalizar a assinatura do contrato. Ele havia sido designado para isso e precisava de alguém da área técnica para dar uma olhada nos blocos, fazer a primeira visão e ajudar também a escolher o escritório e tal. E eu fui. Nós chegamos lá em Santa Cruz. Eu não sabia nada sobre o país e fiquei até surpreso, porque Santa Cruz é uma cidade que está numa altitude mais ou menos baixa, parece uma cidade do interior do Brasil. Nós ficamos num hotel, onde tinha uma recepcionista que era muito competente, trabalhava com fax... Ela era brasileira, casada com boliviano, tinha nacionalidade boliviana. Nós perguntamos a ela: “Você quer ser a primeira funcionária da Petrobras?” “Tá bricando, primeira funcionária da Petrobras na Bolívia? Quero sim, quero”; “Então tá, você vai ser a primeira.”. E ela está lá até hoje, quando tem essas festas da Petrobras, sei lá, dos três mil empregados – Petrobras - Bolívia hoje responde por 10% do PIB da Bolívia – então, quando tem essas festas ela é lembrada: a primeira funcionária Nós fomos visitar as áreas, quer dizer, a área de trabalho era nos Andes. Sabe que mesmo com a experiência da Petrobras, principalmente no mar, offshore – e nós já trabalhamos em várias áreas no interior – nenhuma tem a complexidade do relevo dos Andes Bolivianos. Então nós levamos um susto, porque tinha que fazer um levantamento de sísmica, um método geofísico para indicar onde furar, e tinha uma diferença de relevo quase que de um Corcovado; você estava num plano, tinha uma montanha enorme, era um trabalho muito difícil Então, primeiro, nós ficamos muito surpresos com a dificuldade, foi uma aventura, um desafio desde o início. Mas foi muito gratificante, porque o trabalho da exploração é fundamental para a empresa, porque vai levar a descoberta de reservas e, posteriormente, a produção de petróleo e gás. A exploração trabalha com um índice de sucesso nos projetos na faixa de 15, 20%, ou seja, de cada quatro, dos cinco projetos um é um êxito e quatro são fracassos, como foi o caso do Iêmen. Às vezes você se envolve emocionalmente com isso, não é só o trabalho. Você se envolve por dois, três, quatro anos e, de repente, não é comercial, você não consegue atingir, abandona aquilo e começa tudo de novo. Então nesse projeto da Bolívia, eu entrei desde o início, participei e vi realmente o impacto; quer dizer, foi um aprendizado, porque não é só a questão do êxito comercial para a empresa, o que já é um negócio altamente gratificante. Mas ver em um país, principalmente um país mais pobre como a Bolívia, – em um país desenvolvido nem significa tanto – a descoberta de dois campos de gás é muito gratificante. CAMPOS DE GÁS Eu era o coordenador de exploração, o Gerson Faria Fernandes foi o primeiro gerente-geral, foi designado depois que nós assinamos o contrato. Algum tempo depois começou a vir o pessoal do gasoduto para fazer a construção. Eram os campos de San Alberto e Sábalo, dois campos gigantes de gás. Eles entraram em produção em 2000, 2001 e respondem basicamente por boa parte do consumo de gás do Brasil. Então nós vimos a mudança que houve no país em função dessas descobertas. Como Santa Cruz se desenvolveu depois da entrada não só da Petrobras, mas das outras companhias de petróleo. Hoje, lamentamos a situação um pouco caótica que o país está, com esse desrespeito aos contratos, pode ser uma situação que traga certo benefício imediato para a Bolívia, em termos de tirar um pouco mais de dinheiro, mas prejudica os investimentos a longo prazo: quem vai querer investir num país onde as leis, os contratos são desrespeitados? É complicado... Na realidade, é lógico que há perdas, mas eu espero que essa negociação termine, eu não estou acompanhando isso daí, eu tô vendo de longe, mas espero que cheguem a acordo entre as partes. Mas é duro, por exemplo, ver o campo, a unidade, as baterias de produção de gás no interior da Bolívia serem ocupadas pelo exército boliviano. Dizem na Bolívia que a Petrobras é uma multinacional, que está tirando dinheiro; a Petrobras criou a riqueza, o gás debaixo do solo é zero, é riqueza zero, não tem nada ali, você não consegue gerar dinheiro daquilo. Foi a Petrobras que tornou aquele potencial uma riqueza para o país.
Mesmo em todas as fases de investimento da Petrobras na Bolívia, tinha uma parcela de apoio a alguma atividade social; mesmo nessa fase preliminar de aquisição de dados sísmicos, que é a primeira atividade, nós tínhamos uma rubrica lá no nosso orçamento de apoio às comunidades locais. Eu mesmo já cansei de levar, nós íamos de aviãozinho monomotor, então... Ah, tem milhares de histórias Mas construíamos escola e posto de saúde nas áreas onde nós operávamos. Levamos aquele sistema de energia solar para colocar nas casas, nas fazendas, nos sítios. Naquela época, nós tínhamos uma excelente convivência com o pessoal local. Santa Cruz sempre foi muito bom e continua sendo, mas o pessoal do campo, eles eram muito organizados, não era como no Brasil. Lá eles eram organizados em grupos mesmo, tipo um sindicato rural, muito ativo, mas nós tínhamos um excelente relacionamento. Agora a situação ficou um pouco complicada, mas foi uma experiência muito boa, andei muito no interior da Bolívia, um país muito bonito, mas muito pobre, com muitos problemas, não tem muita infra-estrutura. Na Bolívia eu fiquei na área internacional, a parte de exploração se cuida daqui da sede. Nós implantamos o projeto exploratório. Então é designado um coordenador. Ele e o grupo de trabalho ficam baseados no Rio, mas visitam esses países. Quando há uma descoberta, no caso da Bolívia, se monta uma estrutura de exploração local, aí você tem o gerente de exploração e geólogo-geofísico. Então, entre 1996 e 1999, sei lá, quase metade do meu tempo, eu passei indo e vindo da Bolívia. Eu tenho muitos amigos na Bolívia. Hoje mesmo, dois geólogos da Petrobras – Bolívia estão aqui no Rio. Eu praticamente contratei os dois. Mas é muto interessante porque lembramos das histórias, é bom demais ARGENTINA Na Argentina, o trabalho foi mais espaçado, nem foi tão intenso, mas nós tivemos uma assinatura de contrato de um bloco no norte da Argentina que tem produção, depois foram descobertos alguns campos de gás, mas não era operado pela Petrobras. A Petrobras era sócia. Então foram “n” reuniões de trabalho na Argentina, no início dos anos 1990. A Petrobras tinha acabado de entrar, tinha um escritório pequenininho, porque logo depois começou uma atividade do primeiro bloco no offshore, onde nós operamos, onde conduzimos os trabalhos. Era o Bloco San Julian, eu também fui coordenador de exploração desse bloco. Esse foi um insucesso exploratório, era uma área que nunca tinha sido perfurada; uma fronteira, como se diz. Não conseguimos ter êxito, de lá para cá nenhuma companhia conseguiu achar nada no offshore da Argentina, tirando o extremo sul do país. Depois, eu também participei mais ativamente dessa compra da petroleira Perez Companc, que hoje virou a Pesa. Toda a análise de ativos de exploração foi feita por um grupo, do qual eu fazia parte. Então eu estive na Argentina algumas vezes. Houve um crescimento da área, não só da Argentina, mas da área internacional. Em termos de produção e reserva foi um crescimento de mais de 50% com essa compra. Teve um impacto muito grande na área internacional. IRÃ Depois disso eu voltei ao Oriente Médio como coordenador de exploração de atividades no Irã, no Golfo Pérsico. Estamos perfurando um poço agora no Golfo Pérsico Iraniano, no mar. No ano passado também em uma área, dois bloco na Turquia, nós estamos em uma fase de pré-descoberta. Então, toda parte exploratória é tocada aqui da sede e eventualmente acompanhamos no exterior. Lá é offshore, ficamos baseados em Teerã. Eu estava em Teerã quando os americanos entraram em Bagdá, tinham derrubado aquela estátua do Saddam, mas não se via nada na rua, nem soldado na rua, nada, tranqüilo. Superficialmente não tem problema nenhum, você sabe dos problemas, das tensões internas quando conversa com os funcionários locais. As mulheres, as funcionárias, quando vão ganhando um pouco de confiança, elas reclamam dessa questão da rigidez, tem polícia de costumes, elas podem ser presas na rua se não estiverem usando adequadamente o “shador”. Mas tem funcionárias mulheres na Petrobras. Tem uma secretária, uma contadora e uma recepcionista. É um escritório pequeno, são uns oito empregados locais e três expatriados. Desses oito ou nove, três são mulheres. E você vê um ônibus passando, as mulheres estão lá no fundo e os homens na frente. É uma piada, né? Pelo menos elas podem dirigir. Na Arábia Saudita a mulher nem pode dirigir e é interessante porque os shoppings centers têm um dia da semana só para mulher, o resto é só para homem. Então tem coisa mais radical do que o Irã. O Irã é mais soft. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Eu acompanho o Irã. Agora, na nova reorganização, eu estou como gerente dos projetos ativos, hoje, na Turquia, Irã. Novas oportunidades e estudos regionais. A minha gerência, onde sou responsável, cuida de novos projetos exploratórios no mundo, fora o Brasil e de estudos regionais, para ter um conhecimento prévio e tal. E, além disso – porque isso foi uma mudança relativamente recente, de outubro do ano passado –, eu cuido da coordenação desses dois projetos em atividade: Irã e Turquia.
Ah, mudou a escala, né? A Braspetro era uma subsidiária que tinha uma limitação de investimento. Era muito pequena, tinha um investimento muito reduzido. Na medida em que você é incorporado, vira uma diretoria. Naquela época da incorporação, a visão era internacionalizar a empresa. Então teve uma mudança muito grande no apetite da Petrobras para adquirir novos negócios no exterior. Comparando a atividade, essa busca de novas áreas feita nos anos 80 e 90 com o que está acontecendo agora: é passar de um fusca para uma BMW. Isso para a empresa foi muito bom. Tem algumas questões em termos de agilidade. Por ser uma subsidiária menor, nós conseguíamos as coisas mais rápido, mas no geral foi um benefício tremendo para a área internacional ter saído da condição de subsidiária de Petrobras para ser uma área efetiva da empresa. INTERNACIONALIZAÇÂO DA PETROBRAS A valorização desse processo de internacionalização pode ser marcar a partir do século 21, vamos botar assim. Tem algumas marcas anteriores; a própria Bolívia é um marco, o próprio Iraque com a descoberta do poço. A Braspetro com cinco anos descobriu o maior campo da década de 70, foi um negócio muito, muito significativo. Os anos 80 –90 foi um período de preço de petróleo baixo, que não favorecia também muito ao investimento. A descoberta da Bolívia chamou atenção para a questão estratégica. A descoberta de gás na Bolívia, se você considerar o consumo de gás no Brasil e as questões geopolíticas, chamou atenção para o que pode significar uma atividade no exterior para a Petrobras. E aí veio a internacionalização, a partir de 2000 e a incorporação da Braspetro pela Petrobras. A tendência é crescer bem. Agora, nesse período, a área internacional vem crescendo, crescendo, crescendo, tanto que estamos nos mudando para o Metropolitan, saindo do Edise, porque já não cabe mais, estamos em processo de mudança, mudando de edifício, porque está ficando impossível; não tem espaço. Esse prédio é na Avenida Chile, depois do BNDES, um prédio grande, chamado Metropolitan. Estamos indo para lá, a área internacional vai ficar toda ali. Daqui a pouco daremos à volta, chegaremos à Ásia; da Chile, daremos a volta ao mundo. A Petrobras por ser uma empresa estatal tem algumas vantagens em alguns países, por exemplo, nos países árabes eles valorizam muito a associação entre uma empresa de petróleo e o governo. A Petrobras hoje, tecnicamente, é reconhecida como uma empresa privada; você vai para os Estados Unidos é tratado como funcionário de uma empresa de vanguarda. Mas aí você busca as oportunidades numa competição direta com as outras grandes, muitas vezes nós levamos vantagem, não é à toa que somos a vanguarda, por exemplo, na produção em campos de petróleo em águas ultra profundas. Mas quando podemos associar alguma vantagem por ser estatal, aí fica realmente bastante interessante, porque, por exemplo, em países árabes, no extremo Oriente, onde estamos agora, na China e tal, é uma vantagem. Do ponto de vista de pessoal, eu acho que o brasileiro tem uma vantagem pelo fato de ser normalmente um povo que não tem uma cultura imperialista, ou seja, ele não é visto como alguém do primeiro mundo, ele nem tem aquele vício de tentar se impor por ser do primeiro mundo, o que é comum em um europeu, um americano, que, às vezes, em uma discussão, acaba levando para o lado da arrogância. Então isso é muito admirado pelos países, principalmente do terceiro mundo. Agora, não é um processo pessoal dos mais fáceis. Primeiro você deve ter a noção de que o Brasil não está no eixo Estados Unidos; quer dizer, na realidade, ainda somos um país que está em fim de linha, né? E nós falamos português. Agora está mudando muito, mas quando eu entrei na empresa quem falava inglês, por exemplo, era uma minoria, ninguém falava espanhol, todo mundo ficava naquele “portunhol” horroroso que não serve rigorosamente para nada quando se trata de negócio. Então, pela barreira da língua e pela barreira geográfica, você é obrigado a correr atrás. O que eu vejo é que passando essa barreira inicial acaba sendo uma vantagem, porque você acaba falando várias línguas e usando de maneira inteligente essa sua condição de não ser primeiro mundo. Então você mantém um respeito técnico elevado e fala de igual para igual, tem sempre uma vantagem nisso e a empresa vai muito bem, detém reservas. Hoje, quem tem reservas de óleo e gás, a empresa que tem reservas em crescimento está realmente com tudo. A Petrobras tem uma relação reserva-produção de mais de 10 anos, o que uma Esso não tem, quer dizer, considerando as dimensões. Mas fazer uma previsão de futuro em termos de empresa, a Petrobras vai se destacar, vai ter uma presença no exterior, ainda como empresa no Brasil e no exterior crescente cada vez mais. Então isso é um fator que nos deixa bastante animados. Quando eu faço uma retrospectiva, vejo o quanto se produzia no Brasil e quanto se produzia no exterior, em termos de Petrobras, o que ela é hoje, houve um progresso. E a resistência também, a questão da quebra do monopólio que, de uma maneira ou de outra, alimenta a competição, Mas houve uma resistência a se privatizar a Petrobras. A importância disso para o país, como isso aí alavanca realmente empregos, a indústria... E isso daí não acontece quando uma empresa não tem o menor compromisso com o país, mas tem o compromisso com o lucro, né?
A área internacional está organizada – eu trabalho debaixo da gerência executiva de serviços técnicos, no caso de geologia, geofísica, exploração, produção, reservas e a parte de downstream também. Tem uma outra gerência-executiva de novos negócios. Só que essa gerência cuida de contatos com empresas, ela não tem geólogos e geofísicos. Então toda entrada de negócios vem por essa área de Novos Negócios, mas a análise, avaliação exploratória desses blocos – logicamente que trabalhamos em conjunto – é feita pela minha gerência. E, eventualmente, quando olhamos uma área nova ou um país novo, fazemos um grupo misturando o pessoal de desenvolvimento de negócios. Eles vão cuidar da parte contratual, dos termos do contrato, do relacionamento com a empresa que está oferecendo ou com o governo, e nós vamos cuidar exclusivamente da avaliação de geologia e geofísica. Depois, se a negociação vai pra frente, é passado para uma outra gerência que cuida da parte de estimativa de custo de produção, de desenvolvimento da produção e uma outra área que faz análise para ver se o projeto tem consistência econômica. Caso seja aprovado, se faz uma reunião e uma proposta que, eventualmente, pode ser aceita ou não pela empresa que está oferecendo, pelo país que está fazendo a licitação.
Nós estamos na América do Sul em quase todos os países, em termos gerais. Em termos de exploração, na América do Sul nós estamos na Argentina, Bolívia, Equador, Peru e Venezuela, e Colômbia. Na Venezuela, nós temos um escritório, nós temos uma associação offshore, uma área de exploração e temos interesses também numa área que veio da Pesa, da Perez Companc. Quando Perez Companc foi comprada, houve modificações contratuais; da mesma maneira que houve na Bolívia, está havendo na Venezuela, estão sendo criadas empresas mistas entre Petrobras e Pedevesa para tocar esses projetos de produção lá. Também estamos em muito ativos nos Estados Unidos. Na parte de exploração, estamos com grandes descobertas nesses últimos anos, em offshore, no Golfo do México. Vamos colocar a primeira plataforma no Golfo do México, baseada no conceito de plataforma que não é fixa, ela pode ser retirada, como são várias plataformas da Bacia de Campos, as FPSOs. No caso do Golfo do México é interessante, primeiro porque você acaba tendo que ter a aprovação do órgão regulatório americano, que é muito rígido. É um reconhecimento ao trabalho dos engenheiros, da parte de engenharia da Petrobras. Então, com a questão de furacões, que é comum lá, [a utilização dos FPSOs] facilita muito a retirada. Estamos para desenvolver alguns campos grandes nos próximos cinco, 10 anos. Teremos um crescimento muito grande por lá. Na África, estamos na Nigéria e vamos adicionar 150 mil barris por dia à produção da área internacional aí nos próximos dois, três anos. Já tem dois campos que nós somos associados e tem ainda área de exploração. Em Angola, assinamos uma série de contratos no ano passado [2006], também está muito ativo. Temos também na Tanzânia. Na África, temos muitas áreas no mar. Na Líbia, temos uma área no mar. Na Turquia, uma área exploratória no Mar Negro. E dois blocos, no Irã. Estamos cada vez mais indo para o sudeste: Paquistão é um recente associado, uma coisa pequena, mas que vai dar a noção de estarmos indo mais para o Oriente. Agora estamos focando no sudeste da Ásia, vendo se conseguimos algo por lá. Temos escritório na China e em Cingapura, nessa parte de trading. Eu sou da área de E&P. Estamos, através dos pontos de apoio nesses dois países, buscando oportunidades na Ásia. A China tem um mercado fabuloso, tem algumas dificuldades na parte de exploração, é um mercado que está tomado praticamente pelas empresas estatais chinesas, mas que está se abrindo, tem uma série de oportunidades. Estamos negociando alguns blocos, talvez se consiga assinar algum contrato ainda nesse ano. Mas é inevitável que a Petrobras chegue até o extremo oriente, de alguma maneira, em um curto prazo. O foco da área internacional, quando foi criada, depois a Braspetro, era as Américas, América Latina, o Golfo do México e Oeste da África. Quer dizer, os investimentos da área internacional estão concentrados nessas três áreas que eu falei. Mas não podemos ficar parados, porque, o que acontece é que as empresas, com essa alta do petróleo, estão super capitalizadas; as empresas de petróleo estão com muito dinheiro e a competição por áreas disponíveis para a exploração é muito grande. A exploração é como um canavial, você vai lá todo ano plantar cana. Tem as bacias sedimentares... Produzir petróleo tem início, meio e fim. Por isso, cada vez mais as companhias estão indo para águas profundas, ultra profundas, isso aí acarreta um aumento de custos. Então o mercado está muito competitivo, tudo muito caro. Com a demanda da China por aço, por exemplo, o custo de material de poço, conseguir colocar uma sonda, tudo isso hoje tem preços de serviço, custo de material que está, sei lá, duas vezes o que era há três anos, até mais. Então tem o foco, mas se começa a ver que até essas áreas já estão ficando pequenas demais. Na realidade, o foco é no que for rentável. Hoje em dia não tem muito essa questão geográfica. Ela está deixando de existir numa velocidade impressionante. Eu estou viajando para essas áreas, acabei de vir da Índia e estive também em Cingapura no mês passado, eu não sei sinceramente onde eu estarei daqui a três meses, mas com certeza eu não vou estar no país. E isso acontece com todas as empresas. Eu tenho 25 anos de área internacional. Eu e mais dois que vieram na primeira turma, talvez nós sejamos os que têm mais tempo de área internacional hoje na empresa. O que se vê pelo histórico, de 1982 para cá, da mesma maneira que a Petrobras no Brasil cresceu, área internacional teve um crescimento fabuloso. E você vê o pessoal novo chegando também com aquela mesma vontade. Então é importante – até esse projeto eu acho interessante, porque de alguma maneira você vê os erros e os acertos que aconteceram nesse período, e eles têm que ser passados para as gerações futuras, para evitar
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