Nome do Projeto: Memória Petrobras
Depoimento de: Almir Bonfim
Entrevistado por: Márcia de Paiva
Local da gravação: Madre de Deus/BA
Data: 08/10/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista: PETRO_CB588
Transcrito por Flávia de Paiva
P/1 – Bom tarde.
R – Bom tarde, Márcia.
P/1 – Eu gostaria de começar esta entrevista pedindo que o Senhor nos fornecesse o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Almir Botelho Bonfim, nasci em Salvador, Bahia no dia 31 de julho de 1936.
P/1 – Senhor Almir, o Senhor pode contar pra gente como foi o seu ingresso na Petrobras, o que o Senhor fazia antes?
R – Eu trabalhava no comércio. Quando o salário mínimo aumentou de 1.500 para 2.700, o patrão me chamou e disse que não tinha condição de pagar o salário. Eu saí e fui pra casa. E, no caminho, eu comprou um jornal. Antes de ler o jornal em casa, fui fazer um trabalho carregando engradado de cerveja, na Fábrica de cerveja Caracu. Quando cheguei em casa, vi concurso da Petrobras, me inscrevi para fazer o concurso da Petrobras. Na época, a dificuldade minha era datilografia, que eu não era muito bom em datilografia. Pedi uma máquina emprestada ao vizinho. Com essa máquina, fiquei uns três ou quatro dias treinando, treinando, e fui fazer o concurso na Petrobras, em 1956. Nesse concurso, fiz um trabalho de conhecimentos gerais muito bom, muito bom. Na época, foram 400 empregados, 400 participantes. Passaram oito e eu fui um dos oito que foram beneficiados. Fiquei um pouco triste porque quando eu fui ver o resultado, tive a insatisfação de saber que eu tinha perdido. Mas como eu tinha uma pessoa amiga lá dentro do setor pessoal, ela disse: “Almir, você fez uma prova boa. Procure o doutor Salomão (Kligelang?)” – era um senhor que era chefe de Recursos Humanos na época. E Doutor Salomão - eu pedi a ele, disse que era arrimo de família, precisava de meu emprego, isso e aquilo – ele foi lá, procurou a minha pasta....
Continuar leituraNome do Projeto: Memória Petrobras
Depoimento de: Almir Bonfim
Entrevistado por: Márcia de Paiva
Local da gravação: Madre de Deus/BA
Data: 08/10/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista: PETRO_CB588
Transcrito por Flávia de Paiva
P/1 – Bom tarde.
R – Bom tarde, Márcia.
P/1 – Eu gostaria de começar esta entrevista pedindo que o Senhor nos fornecesse o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Almir Botelho Bonfim, nasci em Salvador, Bahia no dia 31 de julho de 1936.
P/1 – Senhor Almir, o Senhor pode contar pra gente como foi o seu ingresso na Petrobras, o que o Senhor fazia antes?
R – Eu trabalhava no comércio. Quando o salário mínimo aumentou de 1.500 para 2.700, o patrão me chamou e disse que não tinha condição de pagar o salário. Eu saí e fui pra casa. E, no caminho, eu comprou um jornal. Antes de ler o jornal em casa, fui fazer um trabalho carregando engradado de cerveja, na Fábrica de cerveja Caracu. Quando cheguei em casa, vi concurso da Petrobras, me inscrevi para fazer o concurso da Petrobras. Na época, a dificuldade minha era datilografia, que eu não era muito bom em datilografia. Pedi uma máquina emprestada ao vizinho. Com essa máquina, fiquei uns três ou quatro dias treinando, treinando, e fui fazer o concurso na Petrobras, em 1956. Nesse concurso, fiz um trabalho de conhecimentos gerais muito bom, muito bom. Na época, foram 400 empregados, 400 participantes. Passaram oito e eu fui um dos oito que foram beneficiados. Fiquei um pouco triste porque quando eu fui ver o resultado, tive a insatisfação de saber que eu tinha perdido. Mas como eu tinha uma pessoa amiga lá dentro do setor pessoal, ela disse: “Almir, você fez uma prova boa. Procure o doutor Salomão (Kligelang?)” – era um senhor que era chefe de Recursos Humanos na época. E Doutor Salomão - eu pedi a ele, disse que era arrimo de família, precisava de meu emprego, isso e aquilo – ele foi lá, procurou a minha pasta. Quando chegou lá, viu minha pasta que tinha presa uma nota com aproveitamento nota oito e que não sabia porque a minha pasta estava lá embaixo. A partir daquele momento, ele mandou fazer logo exame, exames médicos e isso e aquilo. Aí fiz o exame médico e aí fui aprovado no dia 22 de novembro de 1956. Graças a Deus, entrei nessa Empresa maravilhosa.
P/1 – Senhor Almir, quando o Senhor entrou, o Senhor foi trabalhar aonde? Era na Refinaria? Qual era o trabalho?
R – Não. Eu fui trabalhar na área administrativa no setor de controle de estoque, que era um setor ligado à contabilidade da Empresa, lá em Jequitaia, que hoje é extinta, a antiga Jequitaia, que foi extinta.
P/1 – E de lá, qual a sua trajetória na Empresa?
R – Naquela época, tinha alguns setores na Bahia, como em todo o Brasil, que tinha periculosidade e os que não tinham. Como eu tinha me casado, tinha casado novo, estava com 21 anos de idade mais ou menos, um colega que estava lá em Santiago, Santiago de Icatu, na Bahia, tinha necessidade de voltar para Salvador para estudar e eu estava casado, precisando ganhar mais alguma grana para melhorar a minha situação salarial, já que se ganhava periculosidade naquela época – aqui na Petrobras tinha isso, você trabalhava num local aí tinha periculosidade, trabalhava em determinado local e não tinha periculosidade, mesmo na área, independente da distância – como eu trabalhava no almoxarifado, junto dos compressores de (Dmag?), aí eu tinha direito aos 30%. Então, eu fui pra Santiago e lá em Santiago eu passei uns quatro ou cinco anos, lá em Santiago.
P/1 – E aí...
R – E aí, posteriormente, eu sofri um pouco lá em Icatu. Porque, assim que eu cheguei, eu fui pra chefiar o escritório do suprimento, e o engenheiro, finado Doutor Paulo Afonso, uma pessoa muito maravilhosa, me deu pra fazer um inquérito administrativo, porque tinha um funcionário que pisou na bola. E me deu um ofício dizendo que era confidencial. Como tinha outros colegas meus lá, um colega inclusive tinha oito ou dez filhos e estava envolvido no inquérito, eu chamei essa pessoa para procurar saber se ele estava envolvido. Porque se ele estivesse envolvido, por questão de coração e amizade, eu me afastava do processo. Como ele me disse que não tinha nada a ver com o problema, eu aí contei a ele o que estava se passando. Esse colega, eu disse que guardasse sigilo, mas não guardou sigilo, falou para a pessoa que era o réu. Essa pessoa foi de noite na casa do doutor Paulo Afonso, contou e Doutor Paulo Afonso, no dia seguinte, sem me dizer nada, eu não soube de nada, simplesmente pediu pra eu desistir do inquérito administrativo. Tudo bem. Aí eu passei mais um ano em Santiago, que, apesar de ser encarregado de escritório, mas chegava um caminhão Mercedes Benz, aqueles caminhões grandes com pneumático, com camisas de bombas, broca de perfuração, eu me levantava da carteira pra carregar, fazer tudo e nunca deixei de cumprir o meu horário, sempre pontual, assíduo no trabalho, muito dedicado. Mas eu fiquei um ano lá, sem saber o que tava se passando.
P/1 – E descobriu como?
R – Quando completou mais ou menos um ano, eu entrei um dia na sala dele: “Doutor Paulo, eu quero falar com o Senhor.” Ele me disse: “o que é, Almir?” Eu disse:”Doutor Paulo, eu sou assíduo, sou pontual, faço tudo pra atender os trabalhos da Empresa, tenho medo de perder o emprego, que eu tenho a minha família, sou casado de novo, eu quero saber o que é que está acontecendo com o Senhor, que o Senhor passa e não fala comigo. É a pior solidão que existe. Não é a solidão sozinho, não. É a solidão de que está uma pessoa presente e a pessoa não está falando com a pessoa.”Ele disse: “sente aqui.” Aí me mandou sentar e me relatou. Puxou e disse que naquele momento que ele passou pra mim, ele tinha tido ótimas referências a meu respeito, e como ele viu o meu potencial grande, inclusive em termos morais e isso e aquilo, ele aí me castigou, foi um castigo que ele me deu pra me ajudar na minha vida pessoal pro futuro. Então, foi um ano de sofrimento, mas levantou da carteira, pegou um papel de baixo de um tampo de vidro e me disse: “olha, eu vou chefiar o Departamento de Suprimento, lá em Salvador, e tem quatro pessoas que vão descer aqui comigo. Então, aqui tem Jaime Garrido, mais uns dois lá, e você. Você é uma pessoa que eu quero trabalhando comigo.” Fui pra Salvador, naquela época a Petrobras estava reestruturação de cargos, eu passei de ajudante administrativo letra B para assistente administrativo. Dei um pulo bem alto mesmo, dado a capacidade e interesse que ele fez. Então, eu acho que aquilo ali pra mim não foi um castigo, foi uma lição que eu recebi de vida, que veio me trazer muitas alegrias na Petrobras.
P/1 – E aí, foi pra Salvador...
R – Salvador.
P/1 – Promovido...
R – Promovido. Não, fiz primeiro o processo que tem de reenquadramento, passei, fui pro Parque de Pirajá, onde congregava toda a área de suprimento da Empresa. Fui trabalhar com um senhor chamado Geraldo Basílio, como assistente do Parque Pirajá. Tive a oportunidade, quando ele saiu de férias de assumir, eu assumi a chefia do Parque Pirajá. Lá tinha em torno de 250 pessoas, criei uma família, onde tinha médico, tinha enfermeiro, tinha pessoal de produção, tinha pessoal de transporte. Nós fizemos aqui uma família. O Parque Pirajá era um a ambiente sadio e bom de trabalhar. Posteriormente, houveram as modificações. Aí, automaticamente, eu também saí, mas saí numa boa. Lá em Pirajá, fizemos campo de futebol, não tinha área de lazer pro pessoal, fizemos campo de futebol, fizemos tudo que era possível pro trabalhador. Mas era um trabalho que nós fazíamos sempre preservando o patrimônio da Empresa, mostrando pro trabalhador que a força do trabalho dele era importante mas era mais importante a gente zelar pela grandeza da Petrobras. Fui bem sucedido. Saí de lá, aí acho que voltei pra Jequitaia novamente. De Jequitaia, fui requisitado pra trabalhar em Candeias. E, não sei se por perseguição ou o que foi que houve naquela época, eu fui trabalhar em Candeias. Cheguei lá em Candeias, fui trabalhar com um engenheiro chamado Doutor Celso, era um senhor baixinho, muito simpático, muito educado. Mas me colocaram pra trabalhar dentro do armazém. Aí, eu já fui trabalhar pra poder organizar toda a parte de estoque do almoxarifado, grupar os materiais, catalogar os materiais, registrar. Mas, no fundo, no fundo, foi um trabalho bom, mas um castigo indiretamente, porque eu comecei a ser nivelado como um trabalhador, despachando material, despachando box. Não senti muito porque, naquela época, a gente precisava realmente que todos fossem imbuídos de que todo mundo tinha que trabalhar. Naquela época, não tinha engenheiro, não tinha capataz. Tinha pra suas funções, mas todo mundo pensava sempre em fazer com que a Empresa crescesse. Então, naquela época, tinha aquela “campanha dos 100 mil barris de petróleo”, isso e aquilo. Quando o pessoal encontrava óleo no poço, aí tinha prêmios, era uma festa. E tinha, eu não digo que era um sentimento só de patriotismo nem de amor não. Era um sentimento mesmo que tinha a segurança, a Empresa dava segurança ao trabalhador. A gente não tinha transporte, como a gente tem hoje, pra conduzir a gente pra lá e pra cá. A comida da gente, às vezes, era servida de maneira precária, em cima de caminhões, a gente comia sempre em capacetes de alumínio, mas a gente sentia que no meio do petroleiro tinha uma felicidade muito grande. E eu fui uma pessoa que, graças a Deus, não tenho o que me queixar da Empresa. E sempre, posso até sair um pouco da linha, nos movimentos sindicais coordenando greve e essas coisas, sempre defendi que, acima de tudo, tem que defender o patrimônio da Empresa. E por isso é que eu me sinto uma pessoa totalmente feliz na Empresa.
P/1 - Vamos falar um pouco do Sindicato. O Senhor desde que entrou, se sindicalizou? Como é que foi?
R – Eu sou sindicalizado desde 1957, logo no primeiro mandato de Simpliciano José dos Santos que era o Presidente do Sindicato na época. Posteriormente, veio o Wilton Valença, na época do Francisco Mangabeira, aquela época de campanha “para não para”, Nós tínhamos aquelas greves, para não para, mas eram greves, como eu disse a você, a gente não esperava que Petrobras desse, não, ela dava. A competição era menor ou talvez até, no sentido de investir no trabalhador, de jogar pra frente, a Empresa então, participava e dava aumentos salariais sem o menor problema. Depois, eu saí, por motivos de doença e tal, fiz acordo eu saí. Depois eu retornei à Empresa, em 1987, já como aposentado, de acordo com a cláusula 33 ou 45 do acordo coletivo de trabalho. Retornei. Comecei a gozar de todas as benesses, da AMS, da Petros, e isso e aquilo. E eu agradeço a Deus tudo isso. E aí foi que eu me envolvi diretamente, mais uma vez, dentro do Sindicato. Então, eu participei, principalmente das greves de 1994, 1995, uma greve de 32 dias; comecei a participar da Federação Única dos Petroleiros desde 1995, com Antônio Carlos Spis, meu guru.
P/1 – E hoje, o Senhor está como?
R - Hoje, eu estou como Diretor-secretário do Sindicato dos Químicos e Petroleiros da Bahia, fazendo parte da direção executiva do Sindicato.
P/1 – Quando o Senhor passou a exercer algum cargo, assim, mais efetivo no Sindicato?
R – Bom, no Sindicato já estou na direção desde de 1990, onde eu comecei a exercer o cargo, entrei na suplência de Antônio José Pinheiro Rivas, que hoje é gerente da (Oil?) Bahia, um geólogo. Por falta de tempo, trabalho, atividades de trabalho lá na Empresa, ele deixou que eu assumisse a titularidade. Ele era titular, mas na realidade o titular de fato era eu, porque ele estava trabalhando. Então, fiquei oito anos das duas gestões, porque teve o primeiro mandato, depois veio o mandato já com o doutor Luís Carlos Bassun, de 1990 pra cá. E nós assumimos e ficamos oito anos na direção jurídica do Sindicato de Químicos e Petroleiros. Uma parte que eu considero bem atuante, bem atuante e excelente, foi que, na greve de 1995, devido à greve, nossos companheiros foram demitidos - na Bahia, tivemos mais de 12 ou 13 companheiros demitidos, de diversas tendências diferenciadas - mas eu, como diretor do Sindicato, posso dizer com orgulho, participei de todas as audiências, acompanhei todos os processos dos demitidos, independente de circunstância, independente de tendência. Achei que todos aqueles eram colegas meus que foram demitidos e eu tinha obrigação de respeitar todos os valores. Nós, como direção do Sindicato, somente os diretores do Sindicato, os advogados, a assessoria jurídica, defendemos quatro, quatro companheiros já eram diretores, já retornaram, como tem o Engenheiro Robson, o Paulo César Martins, que é o curador da Petros e mais dois, que eu não consigo me lembrar que foram reintegrados, e os outros, independente de partido, do PcdoB ou sei lá, eu acompanhei. Tenho a consciência tranqüila, eu fiz um trabalho bom. Antes disso, o sindicato era o Siep, que era o sindicato que representava a parte do pessoal de exploração e produção. Posteriormente, unificamos com o Sindipetro. O Sindipetro representava o pessoal da refinaria. Unificamos e ficamos com o Sindicato Único dos Petroleiros da Bahia. E, a uns quatro anos atrás, nós unificamos com o Sindicato dos Químicos, e hoje nós temos o Sindicato dos Químicos e Petroleiros da Bahia. Nesse Sindicato dos Químicos e Petroleiros da Bahia, eu já tive diversas atividades. E, como dentro da estrutura do Sindicato, a gente escolhe os cargos de acordo com as tendências, por exemplo: eu sou de uma tendência, então a minha tendência entendeu que eu seria o homem ideal para trabalhar como diretor-secretário do Sindicato. Então, no Sindicato hoje, tem eu, com diretor do Sindicato da área dos petroleiros e tem um rapaz que é da área química. Como esse rapaz vive mais em atividade na base, então eu assumo quase que 90, 95% de atividades do Sindicato, na área de secretaria, quem manda e demanda, recebe documentação, faz isso, despacha, providencia tudo, o esquema do Sindicato quem resolve é na secretaria.
P/1 – Senhor Almir, nesses anos todos, acompanhando o Sindicato, atuando, exercendo uma função bastante significativa, o que é que mudou na relação do Sindicato com Empresa? Hoje, como é que o Senhor vê isso, quais são as mudanças principais?
R – Bom, eu vejo um relacionamento melhor pra gente dialogar com a Empresa. Agora, o que eu observo é que, devido às dificuldades conjunturais, tem sido difícil sempre nas campanhas reivindicatórias, a gente alcançar o nosso objetivo. Geralmente o trabalhador quer alguma coisa, a Empresa quer outra e a gente, às vezes, é forçado a fazer movimentos no sentido de buscar aquilo que nós achamos, que temos direito. Tem sido um relacionamento, não digo ruim, o nosso relacionamento tem sido bom. Eu durante esse período na FUP – Federação Única dos Petroleiros, fui representante nacional dos aposentados. Compreendo a dificuldade que tem, tanto do lado do sindicalismo, como do lado da Petrobras para atender as necessidades. Mas não é uma relação ruim. Acho que é apenas uma questão de cultura da minha época e a cultura de hoje, né. A conjuntura é completamente diferente.
P/1 – Mas, assim, de mudança...o Senhor acha que era mais fácil antigamente?
R – É. Antigamente, era mais fácil porque exatamente isso: naquela época, a Petrobras, ela precisava produzir. Como é que ela fez naquela época? Eu entrei em 1956, três anos após a criação da Petrobras. A Petrobras aqui na Bahia, pegou trabalhadores em usina de açúcar; a gente pegava o pessoal “vamos trabalhar na Petrobras?” “Vamos trabalhar na Petrobras .” E o pessoal vinha trabalhar. Hoje é diferente. Hoje a relação é completamente, completamente diferente. Hoje você tem concursado, apesar de que, na época, eu também fui concursado. Mas muita gente que trabalhava nessa área de “braçal” e pra construir a Empresa, foram pessoas que foram pegas em usinas e outras coisas mais aí.
P/1 – Mas, aís, proporcionalmente a Empresa, no início, ela atendia mais? É isso? Conseguia atender pelo número menor?
R – Eu acho que era mais fácil porque a Empresa, nós somos seres humanos, e a Empresa sempre atendia apesar das dificuldades. Como eu disse a você: eu comia no capacete de alumínio, muitas vezes, bebi água de poço, eu não tinha carro pra conduzir pro trabalho, não é? Hoje, você tem toda uma estrutura diferente, você tem refeitório, quer dizer, então a Empresa, eu acho que a Empresa hoje, em termos de estrutura, ela cresceu muito. E é natural, porque um a Empresa que ela veio debaixo batalhando, batalhando, batalhando, hoje é um poder muito grande, é uma grandeza, é muito grande. Então eu acho que...é difícil dizer a você se melhorou. Naquela época, eu acho que a Empresa me atendeu perfeitamente, porque ela pagava bem, como sempre pagou bem, naquela época principalmente, ela pagava bem. A gente não tinha banco, mas a gente tinha médicos, a gente tudo, né? Posteriormente, é que foram criadas outras situações, que eu acho, de melhora. A única dificuldade que eu acho que existe pra gente é na época dos acordos salariais devido às conjunturas que tem por aí. Mas, de modo geral, eu acho que não mudou quase nada, nesse aspecto.
P/1 – Senhor Almir, nesses anos todos, conta pra gente uma história engraçada, interessante, alguma história que tenha lhe marcado.
R – Uma história que tenha me marcado...Conforme eu disse à você, eu graças a Deus, eu sempre fui uma pessoa que de maneira equilibrada de conduzir minhas coisas, eu sempre tive mais alegrias na Empresa do que tristeza, mais alegria. Uma coisa assim, pra lhe contar que seja uma coisa...Posso lhe falar uma coisa que me marcou, por exemplo: naquela época, em Santiago, a gente tinha trabalhadores competentes. Mas tinha os equipamentos que chegavam do exterior pra poder montar, e isso e aquilo, e tinha aquela equipe de engenheiros ou aquelas pessoas mais preparadas que vinham de fora pra poder montar. E eu vi umas duas vezes, o pessoal ir pra montar o equipamento e hora o camarada não saber montar e pegar um operário, como tinha um mecânico muito bom chamado..., não me lembro o nome dele, parece que era não sei o quê Bonfim, e o apelido Pirão. E esse camarada é que chegava lá pra armar, pra fazer as coisas. Então, essas coisas é que me marcaram. Uma coisa que me marcou também muito, eu vi os prédios da Petrobras em Jequitaia, lá em Salvador, serem construídos de baixo, né, eu vi aquilo construir. Construir um prédio, depois construir outro refeitório. Muita gente pensa que aquele prédio que tem lá em Jequitaia é um prédio, mas não é. É um prédio que é colado junto com outro, sei lá, com as suas estruturas básicas de engenharia. Então, são essas coisas que eu vi. Não sei. A maior alegria que eu tenho na minha vida foi a Petrobras reconhecer que eu, como fundador da Petros, eu tive a condição de voltar, conforme o acordo coletivo de trabalho 85, 86, pra retornar e dar as condições a minha família de ter assistência médica, de ter a Petros que eu não tinha, que eu tinha saído. Então, tudo isso pra mim, essa é a alegria que eu tenho. E outra coisa, de todas vezes de ter participado de todas as greves como a de 95, essa é interessante, 95, vou passar. Na greve de 95, eu como um dos coordenadores, em Jequitaia, falava pro pessoal: “olha, não pode entrar pra danificar bem de ninguém. Você tem que segurar aqui fora.” E eu vi engenheiros carregando pau, barrote, pra poder ajudar a fazer o piquete, para a gente poder acertar, negociar. A gente saía três horas da manhã pra poder fazer o piquete, botar corrente nas grades, e isso e aquilo. E, me lembro bem que, a polícia quando chegava, chegava abafando, querendo bater na gente. E tinha umas três ou quatro meninas, e tinha aquele pessoal, aqueles mendigos que ficavam aqui perto, em Jequitaia, no calçadão fazendo o trabalho deles ali. E as meninas carregavam aquelas fezes, botavam numa pá e levavam pra gente passar nas cordas e nas faichas. Quando a polícia chegava aqui e pegava, eles ficavam; “ah, não sei o que...” e ficavam danados. Eu dizia: “camarada, tenha paciência, mas é isso mesmo. Entre aqui, lave a mão aqui, tem um sabonete aqui, e isso e aquilo. “Então, essas coisas que me marcaram. Mas a gente do movimento sindical, tem um cuidado de: primeira coisa, preservar o bem da Empresa. Está tendo essas paradas agora, em função dessa conjuntura aí, de acordo e isso e aquilo, mas posso lhe afiançar que todos os dirigentes sindicais e os militantes também __________em preservar. Fio como eu disse a você anteriormente, tudo o que nós temos, o que todo petroleiro tem hoje, deve agradecer a Petrobras, ao capital e à força de trabalho da gente. Graças a Deus, eu sou muito grato à Empresa pelas condições que ela tem dado à minha família.
P/1 – Senhor Almir, como é que foi se aposentar e voltar depois?
R – Conforme eu disse a você, eu me aposentei, mas eu não voltei pra trabalhar, porque eu já estava aposentado. Você imagine uma pessoa que está ganhando, sei lá, 50 reais e, de repente, você voltar a ganhar 80. Você imagina uma pessoa que não tem assistência médica, só tem INSS, de repente, você voltar a ter assistência médica da Empresa. Eu posso falar até com...dá até vontade de chorar.(choro) Porque, a dez anos atrás, eu estava dirigindo e foi acometido de um infarto. Consegui chegar no hospital a tempo. A Empresa...(choro) bancou. Eu coloquei três pontes de safena, mamária. A Empresa desembolsou em torno de 140 mil reais para a minha cirurgia. Eu não ia...(choro)
P/1 – Quer parar um minutinho?
R - ...poder arcar com isso. Então, acho que o maior patrimônio que a Petrobras me deu de alegria foi exatamente esse. Saber que eu tenho, minha esposa tem, meus filhos todos, graças a Deus, uma é assistente social, o outro Oficial da polícia e a outra é formada em Ciências Contábeis, está fazendo pós-graduação, e ainda tem um, de 20 anos, que vai fazer 21 anos agora, na segunda-feira, que faz o terceiro semestre em Administração e ainda goza da Assistência Médica da Petrobras. Então, a maior alegria que eu tive na Petrobras, pra mim, e entre a relação Petrobras – Sindicato, foi essa. E saber que em todos os momentos tenho, apesar de ser aposentado, mas tenho acesso em toda a Petrobras. Em qualquer lugar que eu chego, seja no Edise ou em qualquer lugar, sou respeitado pelas pessoas...
P/1 – Muito querido...
R – Muito querido pelo José Lima Ned, Solange. Aquela turma toda da Petrobras me conhece, sabe como é o meu comportamento; procuro sempre fazer um trabalho sindical muito limpo, muito puro, procuro sempre a defesa do trabalhador e tenho uma felicidade que, apesar de ser aposentado faço parte de todas as atividades do Sindicato, faço greve, vou fazer as setoriais com o pessoal da ativa. Porque antes de tudo, apesar de ser aposentado, sou o diretor do Sindicato. Eu sempre digo aos meus colegas: “eu sou aposentado, como podia ser um engenheiro. O importante pra mim é que eu sou o diretor da entidade e eu tenho obrigação de saber respeitar, informar e fazer tudo.” Então, é nesse aspecto, faço tudo isso, sou bem respeitado por todos. Não tem o que me queixar de Petrobras, nem de Lima, nem de Solange, nem de Reginaldo, aquela turma toda, Júlio, a turma toda. Exatamente pelo meu comportamento de saber tratar as pessoas.
P/1 – Gostaria de terminar essa entrevista, perguntando o que o Senhor acha dessa iniciativa da Petrobras e do Sindicato fazerem o Projeto Memória e se o Senhor gostou de participado.
R – Em primeiro lugar, adorei. Foi uma maneira que, todas as vezes, eu...peço desculpa você pelo desabafo, mas o desabafo é de coração...
P/1 – O Senhor não tem que pedir desculpas, não.
R - ...é de amor, né? Eu acho importante ficar gravado, porque, pelo menos, se eu demorar três, quatro, cinco anos ou um ano, e isso e aquilo, isso vai ficar gravado, meus filhos vão ficar sabendo e os colegas vão saber que, realmente, eu deixei marcada alguma coisa pro movimento sindical, pra Petrobras, um enriquecimento, de um modo geral de todos os setores, tanto da Petrobras como do movimento sindical.
P/1 – Muito obrigada pela sua participação.
R – Ah, Márcia, me fez chorar, Márcia!
P/1 – Nada...
(fim da entrevista)
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