Primeiro Contato
CAPÍTULO 1 — RAÍZES
Antes de qualquer mistério tocar aquele pedaço de terra, já existia ali uma história de resistência. O sítio não nasceu grande.
Cresceu. Como crescem as coisas que são plantadas com necessidade — e não com escolha.
Elas viviam do cultivo da goiaba tailandesa, possuíam um gigantesco pomar, muito bem distribuído na -se em outro tipo de fruta da mesma família chamada de roxinha, pela cor de suas folhas propriedade e buscavam também aperfeiçoar e pelo escasso número de sementes.
Mãe e filha, muito conhecidas em sua região desenvolviam técnicas, exportavam conhecimento, colecionando prêmios e trazendo fama para a cidade. Além do cultivo, desenvolviam com a mão de obra local pratos doces e salgados, que tendo por base a fruta, faziam um sucesso enorme chamando turistas para a localidade.
A mãe - Zilah, de tronco forte e boa disposição havia iniciado com o falecido marido o negócio de plantio e venda da goiaba de tamanho e peso avantajado que eram o sucesso das feiras e mercados.
Zilah costumava dizer que a terra responde ao tipo de mão que a toca. Se for mão apressada, ela devolve pressa. Se for mão cuidadosa, ela devolve vida.
Ela sabia do que falava.
De origem simples, ela carregava no corpo a marca do trabalho desde cedo. Não era apenas força física — era constância. Daquelas pessoas que acordam antes do sol não por obrigação, mas porque aprenderam que a vida não espera.
Ao lado do marido, iniciou o plantio das primeiras mudas de goiaba. Nada grandioso. Algumas fileiras. Alguns testes. Muita tentativa e erro.
Mas havia algo diferente naquelas frutas. Cresciam maiores, mais pesadas, mais vistosas. Chamavam atenção nas feiras. Logo, logo, não eram apenas frutas — eram néctares procurados.
Foi assim que o pequeno plantio virou sustento e o sustento virou projeto.
Até que a vida, como faz sem pedir licença, mudou o rumo.
Mais tarde com a perda do companheiro e tendo...
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CAPÍTULO 1 — RAÍZES
Antes de qualquer mistério tocar aquele pedaço de terra, já existia ali uma história de resistência. O sítio não nasceu grande.
Cresceu. Como crescem as coisas que são plantadas com necessidade — e não com escolha.
Elas viviam do cultivo da goiaba tailandesa, possuíam um gigantesco pomar, muito bem distribuído na -se em outro tipo de fruta da mesma família chamada de roxinha, pela cor de suas folhas propriedade e buscavam também aperfeiçoar e pelo escasso número de sementes.
Mãe e filha, muito conhecidas em sua região desenvolviam técnicas, exportavam conhecimento, colecionando prêmios e trazendo fama para a cidade. Além do cultivo, desenvolviam com a mão de obra local pratos doces e salgados, que tendo por base a fruta, faziam um sucesso enorme chamando turistas para a localidade.
A mãe - Zilah, de tronco forte e boa disposição havia iniciado com o falecido marido o negócio de plantio e venda da goiaba de tamanho e peso avantajado que eram o sucesso das feiras e mercados.
Zilah costumava dizer que a terra responde ao tipo de mão que a toca. Se for mão apressada, ela devolve pressa. Se for mão cuidadosa, ela devolve vida.
Ela sabia do que falava.
De origem simples, ela carregava no corpo a marca do trabalho desde cedo. Não era apenas força física — era constância. Daquelas pessoas que acordam antes do sol não por obrigação, mas porque aprenderam que a vida não espera.
Ao lado do marido, iniciou o plantio das primeiras mudas de goiaba. Nada grandioso. Algumas fileiras. Alguns testes. Muita tentativa e erro.
Mas havia algo diferente naquelas frutas. Cresciam maiores, mais pesadas, mais vistosas. Chamavam atenção nas feiras. Logo, logo, não eram apenas frutas — eram néctares procurados.
Foi assim que o pequeno plantio virou sustento e o sustento virou projeto.
Até que a vida, como faz sem pedir licença, mudou o rumo.
Mais tarde com a perda do companheiro e tendo uma filha pequena para cuidar foi cedendo espaço para empregados, técnicos e pequenos agricultores tocando o negócio da melhor forma que podia.
A perda do marido não foi apenas emocional — foi estrutural. O sítio, que antes era dividido em decisões e esforços, passou a repousar inteiro sobre os ombros de Zilah.
Ela aprendeu a confiar em funcionários, a ouvir técnicos, a negociar com pequenos produtores. Não gostava de depender — mas entendeu que crescer exigia abrir espaço.
E o sítio continuou. Não como antes. Melhor.
E havia Céres.
Pequena demais para entender, mas importante demais para ignorar.
Foi por ela que Zilah não parou.
Céres cresceu entre as arvores e o plantio, aprendeu a andar desviando de caixas de colheita e a reconhecer as frutas boas pelo toque, a ouvir conversa de adultos sobre preço, oportunidade, previsão do tempo, preço, lucros e perdas.
Mas o que mais chamava atenção não era sua familiaridade com o campo. Era sua mente. Enquanto outras crianças brincavam, ela perguntava.
Queria saber por que um cliente comprava mais em determinado dia.
Por que uma fruta vendia melhor do que outra. Por que algumas pessoas voltavam… e outras não.
Zilah observava em silêncio e entendia.
A filha não herdaria apenas o sítio. Herdaria a visão.
Mais tarde a menina começou a se desenvolver, demonstrando uma habilidade muito grande pela venda, pelos cálculos matemáticos e daí para o marketing foi um processo natural, alavancando o negócio familiar.
Construíram assim uma credibilidade ímpar e um respeito considerável por toda a cidade, transformando assim o pequeno negócio em algo realmente lucrativo que trazia ganhos reais para o povoado e seus habitantes.
O nome Céres nunca foi casual.
O pai, homem simples, mas observador, gostava de histórias antigas. Falava sobre deuses da agricultura como quem fala de vizinhos distantes — com respeito, mas sem idolatria.
Quando a filha nasceu, não teve dúvida.
— Vai se chamar Céres — disse, com convicção. — Para lembrar que quem planta… nunca planta sozinho.
Zilah achou estranho na época. Mas aceitou.
E com o tempo… o nome pareceu fazer sentido.
O nome da menina era então uma homenagem a deusa da agricultura dos romanos prestada por seu pai em agradecimento aos préstimos que julgara ter obtido dos mitológicos seres que protegiam os responsáveis em prover a alimentação dos povos na antiguidade.
A casa principal agora ocupava um quinto do terreno, possuía três quartos suítes, sala, uma pequena cozinha para uso das duas mulheres sem interferência com o empreendimento e que servia para o merecido descanso das lides da lavoura e dos trabalhos congêneres que se seguiam. Neste local elas evitavam falar do dia a dia e procuravam realmente ter um relacionamento de família.
A propriedade começou a se transformar. A casa tornou-se refúgio — um espaço onde negócios não eram discutidos. Uma regra simples, mas sagrada.
— Aqui é casa — dizia Zilah. — O resto é trabalho.
A transformação do sítio não foi rápida. Foi precisa.
A primeira grande mudança veio com a organização. Fileiras alinhadas, espaçamento calculado, colheita planejada. Depois vieram os experimentos — novas mudas, novas técnicas, novas ideias.
E então… o diferencial.
As receitas.
O que antes era excedente virou produto. Doces, geleias, compotas, salgados. Tudo feito com cuidado, com padrão, com identidade.
Ainda a frente de tudo uma loja muito bem equipada com geladeiras, freezer e balcões, dois empregados por vez revezavam-se na demonstração dos produtos e promoviam degustações retirando das prateleiras os produtos que mereciam em cada época seu devido destaque.
Céres entrou com tudo nessa fase.
Criou formas de apresentar, de divulgar, de encantar.
Não vendia apenas comida.
Vendia experiência.
E funcionou.
A loja sempre organizada, limpa e convidativa.
Clientes podiam ver, provar, escolher.
Mais do que comprar… permanecer.
No segundo quinto se podia ver a casa de produção dos produtos com a sala de testagem e aprovação, com paredes em vidro para que se possa expor aos clientes a limpeza e a organização cobrada aos empregados. A obrigatoriedade de roupas e sapatos brancos para a visualização da limpeza necessária e sua desinfecção diária, levando o cliente ao credito do produto comprado a ser consumido.
. Higiene impecável. Funcionários uniformizados. Tudo visível. Tudo confiável.
Nos três quintos restantes a imensa plantação de pés de goiaba tailandesa dispostas de forma a facilitar o cultivo e a colheita do produto líder das vendas, tendo ainda um pequeno espaço destinado aos ensaios da pesquisa da goiaba roxa ainda em embrião empresarial.
Em um terreno quase totalmente plano, tinha-se gosto em ver o conjunto que se apresentava, das casas, da plantação e da enorme caixa d’agua que tinha pintado em sua estrutura externa a logomarca e o nome da empresa que era o orgulho da cidade e de seus habitantes.
O pomar vivo. Ordenado. Imenso.
A cidade mudou com elas.
Empregos surgiram.
Visitantes chegavam.
E elas começavam a ser observadas.
E com certeza o observador estava em algum ponto entre o crescimento do sítio e o silencio do céu azul. Alguém começava a prestar atenção nelas.
CAPÍTULO 2 — O SÁBADO
Em um belo dia de Sábado à tarde, já praticamente sem empregados, tendo a loja fechada, Céres curtia o sol frio em céu azul repassando as correspondências recebidas das mãos de Chico-Correio como era conhecido o servidor público que em sua bicicleta percorria a região entregando e recolhendo as correspondências, já tão escassas em função das facilidades dos serviços apresentados pelo e-mail e pela web.
O movimento havia sido bom pela manhã. Turistas regionais, alguns compradores recorrentes, degustações animadas. O cheiro doce da goiaba ainda pairava no ar, misturado ao calor suave que subia da terra.
Mas, como sempre acontecia aos fins de tarde, o sítio começava a desacelerar. Funcionários se despediam. Portas eram fechadas. Máquinas silenciavam. E o lugar, aos poucos, voltava a ser apenas… casa.
Céres gostava daquele momento. Era quando o sítio parecia respirar.
Sentada próxima à entrada da residência, com algumas correspondências nas mãos, ela aproveitava o sol mais baixo — um sol frio, dourado, que não queimava, apenas iluminava.
Chico-Correio havia passado mais cedo.
Figura conhecida, quase parte da paisagem. Sua bicicleta rangia mais do que rodava, e sua presença trazia um tipo de tempo antigo que resistia ao avanço das telas e mensagens instantâneas. As cartas eram poucas. Quase sempre irrelevantes, mas Céres gostava de abri-las mesmo assim. Havia algo de nostálgico ali.
Foi enquanto distraía-se com papéis e pensamentos que algo chamou sua atenção.
Não foi um som. Nem um movimento brusco. Foi… um contraste. Ela ergueu os olhos.
O céu estava limpo. Azul contínuo. Perfeito demais para esconder qualquer coisa.
E ainda assim… havia algo. Riscos. Linhas finas cruzando o alto, tão distantes que pareciam falhas na visão.
Céres estreitou os olhos. Observou que os riscos se moviam. E que não seguiam direção alguma conhecida.
Ela começou a observar que riscos negros e prateados cruzavam contrastando com o céu completamente límpido onde nuvens ausentes prenunciavam uma nova semana de muita estabilidade atmosférica trazendo boas vendas e muitos turistas regionais.
No início, pensou em pássaros, descartou.
Eram grandes demais.
Uniformes demais.
Silenciosos demais.
Esses riscos muito distantes começaram a parecer estar descendo em cada passada e em velocidade cada vez mais lenta deixando ver a forma de um cilindro de cor marrom de grandes proporções. Estes cilindros lembravam aqueles sacos de lixo que a criançada enche de ar quente e solta para bailar no espaço até sumir de vista.
Eles desciam lentamente, não como algo que cai – e sim como algo que escolhe descer. A diferença era sutil, porém inegável
A distinção estava na cor marrom, os sacos são sempre pretos, na velocidade que bailam ao sabor do pouco vento, sempre sem direção e comando, percorrendo distancias em ascensão até atingir as camadas mais frias da atmosfera quando deixam de ser visto pelo responsável em soltá-los.
Pensou então no que sua mãe dizia observando o perigo que representava este artefato para os aviões e helicópteros que poderiam se deparar com algo que parecia ser tão inocente, mas causadores de grandes tragédias.
Pensou também como as nuvens caminhavam no céu e quanto podiam subir até atingir o espaço frio e interromper a ascensão. Porque o topo das montanhas era frio e até nevado sendo quente a nível do mar, se o cume era no caminho dos raios solares.
Porque o piloto de avião quando passando pelas grandes cidades dizia estar atravessando uma temperatura externa de trinta graus negativos e que em solo a temperatura era de trinta e três graus positivos.
Mistério para os simples humanos e talvez objeto de dissertações dos estudiosos.
Céres levantou-se, deixou as cartas de lado sem perceber. Agora, sua atenção estava completamente presa ao céu.
De tão longe pareciam velozes, com direções definidas, tinham o tamanho de sacos de lixo de cem litros inchados de ar.
Cada vez mais pertos pareciam crescer e tomar o tamanho de um prédio de 3 andares deitado.
A cada segundo, as formas cresciam. Definiam-se. Transformavam-se.
Cilindros. Longos. Imensos.
— Não pode ser… — murmurou, quase sorrindo.
Mas não havia medo em sua voz. Havia fascínio. As estruturas continuavam descendo.
Agora já não eram apenas visíveis — eram presentes.
E então, algo mudou. A cor mudou.
O marrom opaco começou a vibrar.
Como se algo despertasse dentro da matéria.
E, em um instante impossível de medir, surgiu o fogo.
Mas não era fogo como Céres conhecia.
Não consumia. Não se espalhava. Não aquecia.
A cada segundo, as formas cresciam. Definiam-se. Transformavam-se.
As chamas dançavam presas à superfície do cilindro, como se fossem parte dele — como uma pele viva de luz. Amarelos intensos. Vermelhos pulsantes. Reflexos prateados que pareciam surgir e desaparecer ao mesmo tempo.
Era belo. Perigosamente belo.
Ainda assim… Nada queimava ao redor. O ar não mudava. O silêncio permanecia absoluto.
A cor parecia transformar-se em uma parede de fogo cuja labaredas não ultrapassavam os limites do objeto, permanecendo a forma vista inicialmente.
Os tons vibrantes agora misturavam-se entre amarelo, vermelho, preto e prata. Parecia uma festa de loucos pigmentos vivos e dançantes.
Não haviam janelas nem escotilhas, era um só bloco incandescente como brasa de um charuto tomando todo o corpo do cilindro. As extremidades, se é que se pode definir assim, lembravam a música infantil da minhoca que dizia “a boca é d’outro lado”.
Mas não causava medo na observadora, era apenas muita curiosidade e não alterava a temperatura no entorno, brilhando com a dança das cores, como se um mel intenso fosse a cobertura que impedia a saída das chamas e do calor intenso que sugestionava.
E o artefato começou mesmo mantendo a rotação a inclinar-se subindo uma das extremidades e descendo a outra até permanecer de pé em uma altura um pouco superior ao telhado principal de casa permanecendo afastado como se obedecesse um critério de segurança. Parado no ar não alterava em nada o quadro geral, como se em uma pintura não fizesse qualquer diferença em estar ou não no local.
Céres deu um passo à frente.
Como quem se aproxima de algo que não entende… mas reconhece.
— Mãe! — Chamou, sem tirar os olhos daquilo. — Vem ver!
- Rápido...acho que vai embora...é muito lindo!
Zilah estava em seu quarto naquele soninho da tarde que os “maduros” costumam usufruir e levantou um pouco assustada, não acostumada aqueles rompantes da filha. Mas a palavra Lindo, compreendida no final da frase a apaziguou, ela então se dispôs a ver, achando que seria a visão de algum animal ou fenômeno da natureza.
Mas havia algo mais. Uma urgência tranquila.
— Já vou! — Respondeu, ainda ajustando os chinelos.
Levantou-se, calçando o chinelo caminhou em direção a entrada da residência e ficou perplexa ao ver depois de cruzar o umbral, aquele imenso artefato em chamas como um balão sendo consumido pelo fogo a poucos metros de sua casa sem irradiar nenhum tipo de calor.
Quando atravessou a porta e levantou os olhos…
Parou. O corpo reagiu antes da mente. Os músculos enrijeceram. A respiração falhou.
E a voz, quando tentou sair, tropeçou:
— Filha… de onde… veio isso?
- Como surgiu? Está caindo?
A jovem rindo disse:
- Calma mãe, ele parece que não faz mal a ninguém, apenas é muito lindo!
Como por encanto as árvores do pomar começaram a balançar suavemente mesmo sem vento como se reverenciassem alguma divindade.
O cilindro pairava agora a poucos metros da casa.
Imenso. Vertical.
Girando lentamente sobre o próprio eixo.
Lentamente a nave começa a alçar afastando-se da casa e de suas espectadoras.
As cores agora mais brilhantes parecem se despedir das mulheres. E elas sem mesmo saber porque abanam as mãos retribuindo a gentileza.
As duas agora abraçadas com lágrimas nos olhos e maravilhadas, buscam entender o presenciado. Combinam então jamais comentar tal fato com qualquer pessoa até que elas mesmas possam explicar uma para a outra o que acabara de ser visto. Um milagre? Uma entidade? Um acontecimento? Uma simples visita? Um Deus?
Será que alguém mais viu isso? Foi uma miragem? – Se foi, foi bem real.
Zilah segurou o braço da filha com força.
— Isso não é coisa boa…
Mas Céres não concordava.
Sentia.
E o que sentia não era ameaça.
Era… presença.
Céres sorriu.
Sem perceber.
Sem entender por quê.
Era como olhar para uma pintura…
Onde algo novo foi acrescentado
Ainda assim, tudo continuava fazendo sentido.
— É lindo… — disse, quase em um sussurro.
Zilah não respondeu. Não conseguia.
Aquilo não era o fim. Era… o início.
O céu voltou ao normal.
Azul. Limpo. Silencioso.
Mas o sítio…
Nunca mais seria o mesmo.
CAPÍTULO 3 — O SILÊNCIO DO MUNDO
O Domingo começou com muito sol e céu azul, amanheceu como se nada tivesse acontecido.
O céu repetia o azul do dia anterior. O sol surgia no mesmo ritmo. Os pássaros cantavam como sempre cantaram.
Era quase ofensivo.
Céres acordou cedo. Não por hábito. Mas por necessidade.
Abriu os olhos com a sensação de que havia sonhado algo importante
— Daqueles sonhos que parecem reais demais para serem apenas imaginação.
Sentou-se na cama. Silêncio. Respirou fundo e então lembrou.
Não era sonho.
Levantou-se rapidamente e saiu do quarto.
No corredor, encontrou a mãe.
Parada.
Como se estivesse esperando e as duas se olharam.
Nenhuma perguntou. Ninguém explicou.
Não era necessário.
— Você viu… — disse Céres, em voz baixa.
— Eu vi — respondeu Zilah, firme, mas com o olhar ainda carregado.
Silêncio novamente.
Um silêncio diferente.
Não vazio, mas cheio demais.
Foram até a varanda.
O pomar estava ali.
Intacto.
Nenhuma árvore queimada.
Nenhum galho quebrado.
Nenhuma marca no chão.
Nada.
Zilah cruzou os braços.
— Isso não faz sentido.
Céres não respondeu.
Caminhou alguns passos à frente.
Observou o lugar onde o cilindro havia pairado.
Tentou encontrar qualquer detalhe fora do lugar.
Não encontrou.
— A gente precisa saber se mais alguém viu — disse, por fim.
Zilah concordou com um leve movimento de cabeça.
Era a única forma de dar lógica ao absurdo.
Decidiram uma ida ao clube na cidade para sondar se havia algum tipo de comentário, se alguém tinha vista algo diferente, um acontecimento mesmo que bizarro, passagem de algo estranho no ar, algo que tivesse provocado a curiosidade do povo ou mesmo um acidente, algo inédito. Consideravam impossível ter presenciado algo tão intenso sem que qualquer pessoa tivesse ou pudesse haver assistido.
Se algo daquela magnitude tivesse sido visto… Alguém comentaria.
Mas, ninguém comentou ou soube dizer de algo diferente naquele final de semana. Sendo assim elas só podiam acreditar em uma visão exclusiva para elas e que era melhor esquecer o assunto para que não fossem taxadas de loucas ou de criadoras de estórias pelos amigos e principalmente pelos adversários concorrentes que sempre surgem nessa hora para oferecer “pitacos” tentando prejudicar a sua imagem.
Céres tentou conduzir o assunto com cuidado.
— Ontem o céu estava diferente, né?
— Diferente como? —
Respondeu um dos conhecidos, distraído.
— Sei lá… limpo demais.
— Ah, isso estava mesmo — disse outro. — Bom para quem quis aproveitar.
Risadas. Assunto encerrado.
Mais algumas tentativas. Outras abordagens. Nenhuma resposta. Nenhum indício.
Nenhuma dúvida sequer. Ninguém viu. Ninguém percebeu. Ninguém sentiu.
No caminho de volta, o silêncio entre mãe e filha era mais pesado do que qualquer resposta negativa.
— Não é possível — murmurou Zilah. — Aquilo não era pequeno… não era escondido… Céres olhava pela janela. Pensativa.
— Ou ninguém viu…
Pausa.
— Ou… era só para gente.
Zilah virou o rosto imediatamente.
— Não fala isso.
— Por quê?
— Porque isso não é coisa normal, Céres.
— Justamente.
Mais silêncio.
Ao chegarem ao sítio, tudo parecia ainda mais estranho.
Não pelo que havia mudado. Mas pelo que não havia.
A rotina retomou.
Segunda Feira começa a nova semana de trabalho e ainda assim elas esperam que algum cliente ou comprador avulso venha fazer qualquer tipo de comentário, mais uma vez elas constatam que nada foi percebido ou registrado, ficando o evento restrito à sua propriedade e as duas personagens.
Pedidos foram feitos. Produtos vendidos.
E, ainda assim… Nada.
Nenhum comentário. Nenhuma notícia.
Nenhuma menção em rádio, conversa ou boato.
Era como se o céu tivesse guardado o segredo só para elas.
Com o passar dos dias, o assunto começou a se afastar.
Não porque foi esquecido. Mas porque não podia ser explicado.
— É melhor deixar isso quieto — disse Zilah, em uma das noites.
.
Os dias passam e o evento daquele sábado vai para o mundo das lembranças agradáveis deixando de ser prioridade e assunto. Que fique apenas no campo da felicidade, da boa sorte e de bons presságios.
Mas não achava que ficaria quieto.
Porque, no fundo…Algo havia mudado.
Não no mundo. Mas nelas.
Céres passou a observar mais.
O céu. As árvores. Os sons.
Tudo.
Como se esperasse… uma repetição.
Zilah, por outro lado, evitava.
Ocupava-se mais. Trabalhava além do necessário.
Como se o esforço pudesse apagar o que não compreendia.
E assim, em um acordo silencioso, decidiram:
Não contariam a ninguém. Não comentariam. Não insistiriam.
Mas havia um detalhe que nenhuma das duas percebeu naquele momento.
O fenômeno não havia terminado.
Ele apenas, tinha mudado de forma.
Passados vários dias elas começaram a ouvir pequenos sons vindos sempre de cômodos em que não estavam presentes, como se em uma brincadeira de pique esconde-esconde alguém quisesse chamar a atenção e faze-las procurar pela fonte.
Sempre músicas suaves que enchiam a casa, hora de alegria, hora de encanto e beleza, as vezes remetiam a sorte e prosperidade, porém sempre faziam lembrar coisas boas que ninguém poderia deixar de amar, esses sons paravam como por encanto retomando sem que ninguém descobrisse a origem e sempre de maneira suave.
Na primeira noite em que o som apareceu, Céres pensou que fosse o vento.
Um sussurro leve.
Quase imperceptível.
Mas não era vento.
Era música. Suave. Distante.
Bonita demais para ser ignorada.
Ela se levantou da cama.
Abriu a porta do quarto.
E ficou parada no corredor.
Tentando entender de onde vinha.
A casa estava escura. Silenciosa.
Exceto por aquilo.
A música cessou. De repente.
Como se nunca tivesse existido.
No dia seguinte, Céres não comentou.
Mas também não esqueceu.
E, naquela mesma noite…
A música voltou.
Os funcionários percebendo o que passava na casa das patroas, interpretavam como se o local fosse a fonte de novos níveis de agradáveis sons cuja função fosse tornar o sitio em um ambiente acolhedor aos clientes e colaboradores sem que as duas mulheres fizessem qualquer comentário. Tudo parecia tão natural!
Nos dias nublados ou chuvosos em que a frequência de pessoas era menor, tinha-se a impressão de aumento do volume, porém nada que ferisse ouvidos ou preocupassem quem estivesse ouvindo. Sempre doces e suaves os sons remetiam a tranquilidade dignas de caixinhas mágicas de música.
Certa noite Céres não dormiu de verdade.
CAPÍTULO 4 — A MÚSICA
Em uma certa noite, cada mulher dormia em seu quarto quando recomeçaram os sons de música, não havendo mais qualquer empregado na casa. Elas levantaram e foram para o corredor que ligava cada quarto onde se entreolharam surpresas procurando mais uma vez uma explicação plausível para o fato. Notaram então uma claridade que vinha do lado externo entre a casa, o laboratório e a produção. Foram caminhando de mãos dadas em direção daquela luz buscando ver o que acontecia. A escuridão da noite sem lua naquela semana dava um certo destaque a luminosidade. Elas sem temor algum se aproximaram de uma janela fechada que deixava passar pelas frestas aquela luz tão clara e bem devagar a abriram pensando em não assustar quem quer que fosse o causador daquele clarão.
Deitou-se. Fechou os olhos. Mas permaneceu atenta.
Esperando.
E a. música veio
Dessa vez, mais clara.
Não alta. Não invasiva. Mas… presente.
Era diferente de qualquer som que já tivesse ouvido.
Não havia instrumentos definidos.
Não havia ritmo marcado.
E, ainda assim… havia harmonia.
Uma harmonia perfeita.
Como se cada nota soubesse exatamente onde deveria existir.
Céres levantou-se lentamente. Caminhou até a porta.
Abriu.
O corredor estava mergulhado na penumbra.
E a música… parecia vir de todos os lados.
Não era possível localizar a origem. Não vinha de um ponto.
Vinha… do espaço.
Ela respirou fundo.
E, pela primeira vez, sentiu algo novo:
Não era medo.
Era acolhimento.
Deu alguns passos. Descalça. Silenciosa.
Como se qualquer ruído pudesse quebrar aquele instante.
Parou. Fechou os olhos e deixou o som envolvê-la.
Imagens começaram a surgir em sua mente.
Não claras. Não definidas. Mas sensações.
Campos abertos. Luz suave. Movimento lento.
Uma paz que não dependia de explicação.
E então… cessou.
Assim, sem aviso.
Céres abriu os olhos.
O silêncio voltou a ocupar o espaço.
Mas não era o mesmo silêncio de antes.
Agora… parecia preenchido.
Na manhã seguinte, encontrou a mãe na cozinha.
Zilah estava calada. Pensativa.
Mexendo o café sem necessidade.
Céres observou por alguns segundos.
E então perguntou:
— Você ouviu?
Zilah parou, lentamente.
Ergueu os olhos.
E respondeu:
— Ouvi.
Não houve surpresa.
Não houve negação.
Apenas… confirmação.
— O que você acha que é isso? — Perguntou Céres.
Zilah demorou a responder.
— Não sei.
Pausa.
— Mas não é coisa ruim.
Céres concordou sem hesitar.
E aquele foi o primeiro momento em que as duas compartilharam algo invisível… sem medo.
Nos dias que se seguiram, a música tornou-se presença constante.
Nunca no mesmo horário.
Nunca com a mesma intensidade.
Mas sempre… adequada.
Nos dias de movimento intenso, ela era quase imperceptível.
Um fundo sutil. Como se respeitasse o ritmo do trabalho.
Nos dias mais calmos…
Ela se expandia.
Preenchia o ambiente.
Tornava o ar mais leve.
E algo começou a mudar. Os funcionários passaram a trabalhar com mais tranquilidade. Menos reclamações. Mais cooperação. Clientes permaneciam mais tempo. Sorrindo. Relaxados.
— Tem alguma coisa diferente aqui — comentou uma senhora, enquanto provava uma geleia.
— Diferente como? — Perguntou Céres, com cuidado.
— Não sei explicar… dá vontade de ficar.
Céres sorriu.
Mas não respondeu.
Outros comentários surgiram.
Sempre vagos, porém sempre positivos.
— Aqui a gente esquece dos problemas…
— Parece que o tempo anda mais devagar…
— Dá uma paz…
Zilah observava tudo. Atenta. Silenciosa.
Em uma tarde nublada, quando o movimento era pequeno e o céu parecia pesar sobre o sítio, a música surgiu mais intensa do que nunca.
Preencheu cada canto. Cada espaço. Cada pensamento.
Zilah parou no meio do corredor.
Fechou os olhos.
E, por alguns segundos…
Não estava mais ali.
Quando abriu novamente, havia lágrimas.
Não de tristeza. Mas de algo que ela não sabia nomear.
Naquela noite, as duas conversaram.
Sentadas na varanda.
Sem pressa.
— Isso está ligado àquilo — disse Céres.
Não era uma pergunta.
Zilah suspirou.
— Eu sei.
Silêncio.
— Você tem medo?
Zilah pensou.
De verdade.
— Não — respondeu, por fim. — Mas tenho respeito.
Céres gostou da resposta.
Porque era exatamente isso que sentia.
Algo grande demais para entender.
Mas bom demais para rejeitar.
E, ainda assim…
Havia uma pergunta que nenhuma das duas conseguia evitar.
Se aquilo era um contato…
Por que não se mostrava novamente?
A resposta viria.
Mas não como esperavam.
Viria à noite. Sem música. Sem aviso e com luz.
CAPÍTULO 5 — A LUZ NA NOITE
A admiração cresceu muito mais ao verem que naquele ponto bem acima, uns cinco metros além dos telhados o artefato de brilho intenso sem emitir som ou calor projetava da extremidade como uma lanterna fosse um feixe de luz coordenado para aquele espaço que pelo tamanho no encontro com o chão não tinha mais do que o diâmetro que pudesse ser ocupado por uma pessoa.
Que aquele enorme cilindro guardava em si mesmo toda a luz que produzia não permitindo que no espaço fora dele qualquer parede, árvore ou objeto se iluminasse como a lua recebe e projeta o sol. As coisas não refletiam, a noite para eles era a mesma como sempre fora sem a luz da lua. Fora do cilindro não havia cor ou reflexo era somente escuridão, exceção feita apenas ao feixe fazendo com a luz um círculo no chão.
Cada vez mais curiosas elas foram para a porta da casa, dar a volta e chegar no local em frente à janela que elas mesmos haviam aberto, qual não foi a surpresa ao dobrar a lateral da casa em direção a luz, puderam observar que outra vez ele (o cilindro) se retirava ascendendo em sentido vertical sem emitir qualquer ruído, apenas aquela luz que irradiava sem queimar, mais que intensa e bonita parecia prometer voltar.
Naquela noite, não havia música.
E foi exatamente isso que despertou Céres.
O silêncio estava diferente. Mais denso. Mais atento.
Como se o próprio ar estivesse… esperando.
Ela abriu os olhos devagar.
Ficou imóvel por alguns segundos.
O quarto estava escuro.
Mas não completamente.
Havia luz. Uma claridade suave atravessava as frestas da janela. Não era luz de lua.
Não era luz de poste. Era… outra coisa.
Céres sentou-se na cama.
O coração batia firme. Não acelerado. Mas consciente. Levantou-se. Abriu a porta do quarto. E, no mesmo instante, viu a mãe no corredor.
Zilah também estava acordada.
Também havia visto.
Nenhuma palavra foi dita.
Não era necessário.
As duas caminharam juntas.
Passo a passo. Como se qualquer pressa pudesse quebrar algo importante.
A casa estava silenciosa. Funcionários já haviam ido. O mundo lá fora parecia suspenso.
A luz aumentava à medida que se aproximavam da sala.
Mas, curiosamente…
Não iluminava a casa. Era como se tivesse direção própria. Elas chegaram à janela. Fechada. A claridade escapava pelas frestas.
Céres colocou a mão no vidro.
Frio.
Normal.
Olhou para a mãe.
Zilah assentiu.
Com cuidado, abriu.
O que viram… não pertencia à noite.
Acima das construções do sítio, pairava novamente o cilindro.
Mas agora… diferente.
Não havia chamas visíveis.
Não havia dança de cores.
Havia luz.
Uma luz intensa… mas controlada.
Contida dentro da estrutura.
Como se o objeto fosse uma fonte que se recusava a iluminar o mundo ao redor.
Exceto por um ponto.
De sua extremidade inferior, um feixe descia.
Perfeito. Direto.
Um círculo de luz tocava o chão.
Pequeno. Preciso.
Nada além daquele círculo era iluminado.
Nem as árvores.
Nem a terra ao redor.
Nem as paredes.
Era como se a luz… escolhesse exatamente onde existir.
Céres prendeu a respiração.
— Mãe…
Zilah segurou sua mão.
Firme.
— Eu sei…
Mas não sabiam.
Porque aquilo não era apenas presença.
Era ação.
As duas se afastaram da janela.
Deram a volta pela casa.
Saíram.
A noite estava escura.
Sem lua.
Sem estrelas visíveis.
E, ainda assim…
Ali estava.
O cilindro pairava a alguns metros acima.
Silencioso.
Imponente.
O feixe de luz continuava.
Imóvel. Esperando.
Céres deu um passo à frente.
Instintivo.
Zilah apertou sua mão.
— Devagar.
Elas se aproximaram.
Com cautela.
Mas sem medo.
Quanto mais perto chegavam…
Mais percebiam algo estranho.
Não havia nenhum calor.
A luz parecia intensa o suficiente para queimar.
Mas não queimava.
Era… segura.
Pararam a poucos metros do círculo.
E então…
Algo aconteceu.
O feixe de luz vibrou levemente.
Quase imperceptível.
Como se tivesse notado a presença delas.
Céres sentiu um arrepio.
Não de medo. Mas de reconhecimento.
— Ele sabe que a gente está aqui… — sussurrou.
Zilah não respondeu.
Mas sentiu o mesmo.
O cilindro começou a se mover.
Lentamente.
Subiu alguns centímetros.
Quase nada.
Mas o suficiente para indicar intenção.
E então…
Sem qualquer aviso… Começou a ascender.
O feixe de luz se retraiu. Desapareceu.
A nave subiu. Verticalmente. Silenciosa.
As duas permaneceram imóveis.
Observando.
Até que, mais uma vez…
Ele se foi.
O céu voltou a ser apenas noite.
Mas algo havia mudado de forma irreversível.
Céres virou-se para a mãe.
Os olhos brilhando. — Isso não é só visita…
Zilah respirou fundo. — Não…
Pausa.
— Isso é contato.
Silêncio.
E, pela primeira vez…
Nenhuma das duas pensou em esconder.
Nem negar.
Nem fugir.
Porque agora estava claro:
Elas não estavam sendo apenas observadas.
Estavam sendo… preparadas.
A música cessou imediatamente voltando tudo a normalidade, a noite sem luar. O som do campo e da natureza voltava a imperar. Elas eufóricas e agitadas buscavam novamente esclarecimento, entender as razões dos acontecimentos que parecia aliar-se a existência daquele ponto no sitio onde a residência delas estava.
CAPÍTULO 6 — O HOMEM QUE CHEGOU
Mais uma vez pactuaram que nada falariam, precisavam entender o que se passava antes de divulgar qualquer coisa que pudesse agitar autoridades e pessoas que fatalmente arruinariam seu negócio. Elas pareciam ouvir dentro de suas cabeças uma mesma voz instruindo a não decifrarem o inesperado, que apenas o desfrutassem até que pudessem melhor entender cada fato ou ato presenciado. A hora certa chegaria, sem pressa!
E a semana voltava a sua normalidade, elas agora ansiavam pela música de origem misteriosa e som baixinho. A impressão era de que as pessoas se sentiam bem e felizes por estarem naquele local tendo a satisfação estampada na face de cada um dos funcionários pela tranquilidade vivida no Sitio.
E assim semanas se passaram, elas intrigadas, mas, não queriam tocar no assunto. As músicas passaram a ser menos ouvidas e os clientes cada vez enchiam a casa. Pessoas vinham de longe em busca de receitas e doces que tinham ouvido falar. Maravilhas da arte culinária, alguns comentavam.
Os dias seguintes foram… tranquilos demais. A rotina voltou. Pedidos. Produção. Clientes. Tudo seguia com uma naturalidade quase ensaiada. Mas, por dentro, nada era igual. O silêncio agora não era vazio. Era expectativa.
Foi em uma manhã comum que ele apareceu.
O carro parou em frente à loja.
Nada chamativo.
Nada diferente.
Desceu um homem jovem.
Bem vestido.
Postura segura.
Olhar atento.
Não havia nada de estranho nele.
E, ainda assim…
Havia.
Céres percebeu primeiro.
Não soube explicar o motivo.
Mas, ao vê-lo caminhar em direção à entrada, sentiu algo familiar.
Como se já o tivesse visto.
Ou esperado.
— Bom dia — disse ele, com um leve sorriso.
A voz era tranquila. Equilibrada.
— Bom dia — respondeu Céres, mantendo a naturalidade.
Ele observou o ambiente.
Cada detalhe.
Como quem não apenas vê…
Mas entende.
— Ouvi falar muito de vocês — disse. — Resolvi conhecer.
Zilah aproximou-se. Discreta. Atenta.
________________________________________
— E o que achou? — Perguntou, direta.
O homem sorriu.
— Melhor do que imaginei.
Houve uma breve pausa.
Mas suficiente para que algo se estabelecesse.
— Meu nome é Otaviano.
Ele já estava na cidade, hospedou-se no melhor hotel da cidade e se dizia um representante comercial com empresa na capital do estado. Disse que havia tomado conhecimento das maravilhas feitas pelas duas Senhoras e deseja representa-las levando seus doces e salgados para a capital. Haveriam inúmeras providencias a serem tomadas, tais como, embalagens, uniformidade de peso, controle da qualidade e registro nos órgãos públicos e principalmente para ele a fidelização da quantidade para entrega em estabelecimentos comerciais.
O jovem se prontificou a resolver todos os problemas inclusive tornando-se sócio investidor para qualquer que fosse as necessidades de alavancagem do negócio. Assim preparam um documento e onde elas ficariam de posse das receitas e ele seria detentor de uma boa fatia nos lucros advindos do trabalho que seria desenvolvido.
Tudo parecia caminhar satisfatoriamente e elas estavam empolgadíssimas considerando que jamais passou pela cabeça delas tamanho salto em seu empreendimento.
Céres sentiu. De novo. Aquela sensação. — Céres — respondeu.
— Zilah — completou a mãe.
Ele assentiu. Como se já soubesse.
— Trabalho com representação comercial — continuou. — Tenho contatos na capital… mercados, empórios, redes especializadas.
Pausa.
— E acredito que vocês estão prontas para crescer.
Zilah cruzou os braços. Não por rejeição. Mas por hábito.
— A gente já cresce no nosso tempo — respondeu.
Otaviano manteve o sorriso. Sem pressão.
— E fazem muito bem.
Pausa.
— Mas poderiam crescer mais.
Céres observava.
Atenta a cada palavra. Mais do que isso… Atenta ao que não era dito.
Elas momentaneamente haviam até esquecido dos acontecimentos ocorridos; da nave, das músicas, dos medos e pensamentos que tiveram motivados pela insegurança em controlar os acontecimentos. Agora o que motivava era a oportunidade de crescer e transformar aquela produção caseira e regional em algo nacional.
— O que você propõe? — Perguntou Zilah
Ele não respondeu de imediato.
Caminhou até um dos produtos.
Pegou.
Observou.
— Organização de escala.
— Padronização de produção.
— Expansão de mercado.
Colocou o produto de volta. Com cuidado.
— E investimento.
Zilah estreitou o olhar.
— E o que você ganha com isso?
Otaviano olhou diretamente para ela.
— Participação.
Juntaram-se então a trabalhar e estudar a melhor forma de executar os planos que fervilhavam nas mentes empreendedoras dos três agora sócios. O rapaz deixava entrever um certo encantamento pela ideia e era o maior entusiasta das metas que estavam programadas. Muitas mudanças deveriam ocorrer inclusive na disposição das casas e no terreno para que fosse viável atingir o fabrico e a distribuição dos produtos.
Não havia nada de errado na proposta.
Pelo contrário.
Era lógica.
Estratégica.
Possível.
E, ainda assim…
Havia algo além.
Céres percebeu antes de qualquer decisão.
Ele não estava ali por acaso.
— Você veio até aqui só por causa de um comentário? — Perguntou.
Otaviano sorriu novamente.
Mas, dessa vez…
Havia algo diferente.
— Digamos que… eu soube escolher bem onde investir meu tempo.
A resposta não esclarecia. Mas também não mentia.
Zilah respirou fundo.
— A gente pode conversar — disse. — Mas sem pressa.
— Sem pressa — concordou ele.
E foi assim que começou.
Nos dias seguintes, Otaviano voltou.
E voltou.
E voltou.
Sempre com ideias.
Sempre com soluções.
Sempre… presente.
A confiança veio rápido.
Ele entendia o negócio com facilidade.
Antecipava problemas. Propunha melhorias.
Como se… já conhecesse tudo aquilo.
Céres começou a passar mais tempo com ele.
Naturalmente. Sem esforço.
Conversavam sobre produção.
Sobre vendas. Sobre expansão.
Mas também...
Sobre coisas simples.
E, aos poucos, a relação mudou.
Sorrisos demoravam mais.
Olhares permaneciam.
Silêncios deixavam de ser desconfortáveis.
Zilah observava.
Não interferia.
Mas percebia.
Havia algo ali.
E não era só entre os dois.
Era como se Otaviano… Se encaixasse.
Perfeitamente, sem esforço. Sem ruído.
Como uma peça que sempre pertenceu ao lugar…
Mas só agora foi colocada.
O negócio começou a crescer.
Ideias se transformavam em ação.
Planos ganhavam forma.
Mudanças eram discutidas.
Estruturas redesenhadas.
Novos caminhos surgiam.
E, pouco a pouco… O extraordinário dava lugar ao progresso.
As constantes reuniões, a convivência que se fazia necessária começa a transformar criando uma intimidade entre a moça e o jovem rapaz. Já eram vistos sempre juntos em todos os lugares, no atendimento na clientela, na comercialização dos produtos, na compra de matéria prima e insumos necessários ao desenvolvimento de cada produto e na fiscalização das obras que começavam.
Não durou muito e já precisavam da opinião do outro para tomar decisões, viviam como carne e unha, sempre um ao lado do outro. Sábados e domingo sentiam saudades e desejavam estar juntos, sempre achando que tinham algo para relatar ou discutir.
A nave. A luz. A música. Tudo parecia distante. Quase um sonho.
Mas não era. Porque, mesmo sem perceber…
Elas estavam mais próximas do mistério do que nunca.
O crescimento não foi anunciado. Aconteceu.
De forma natural. Quase inevitável
CAPÍTULO 7 — ENTRE NÓS
Com a presença constante de Otaviano, o sítio começou a ganhar um novo ritmo. Não mais acelerado — mas preciso. Cada decisão parecia encontrar o momento certo. Cada mudança… o lugar exato. Novas ideias surgiam nas conversas mais simples.
Com a presença constante de Otaviano, o sítio começou a ganhar um novo ritmo. Não mais acelerado — mas preciso. Cada decisão parecia encontrar o momento certo. Cada mudança… o lugar exato. Novas ideias surgiam nas conversas mais simples.
À mesa. Na varanda. Entre uma visita e outra ao pomar.
— S a gente organizar melhor a produção, dá para atender mais gente sem perder qualidade — dizia ele.
— E sem perder a essência — completava Céres.
Era assim. Eles se completavam.
Zilah observava tudo. Em silêncio. Com atenção. Ela confiava. Mas não relaxava.
Havia algo em Otaviano…
Que não se explicava.
Não era desconfiança.
Era… percepção
Ele nunca errava.
Não nos números.
Não nas decisões. Nem nas leituras de pessoas.
Antecipava problemas antes que surgissem.
Sabia o que clientes queriam… antes mesmo de pedirem.
E isso, para alguém experiente como Zilah, não era comum.
— Ele é bom demais — comentou certa noite, enquanto fechavam a cozinha.
Céres sorriu.
— Ou talvez a gente só encontrou a pessoa certa.
Zilah não respondeu. Mas guardou a frase.
Porque, no fundo… Sabia que não era só isso.
Enquanto o negócio crescia, algo mais também se desenvolvia.
A proximidade entre Céres e Otaviano deixou de ser apenas profissional.
Era natural. Sem esforço. Sem pressa. Eles se procuravam. No meio do trabalho. Entre tarefas. Nos finais de tarde. E quando não estavam juntos… Sentiam.
Enquanto o negócio crescia, algo mais também se desenvolvia.
A proximidade entre Céres e Otaviano deixou de ser apenas profissional.
Era natural. Sem esforço. Sem pressa. Eles se procuravam. No meio do trabalho. Entre tarefas. Nos finais de tarde. E quando não estavam juntos… Sentiam.
Enquanto o negócio crescia, algo mais também se desenvolvia. A proximidade entre Céres e Otaviano deixou de ser apenas profissional. Era natural. Sem esforço. Sem pressa. Eles se procuravam. No meio do trabalho. Entre tarefas. Nos finais de tarde. E quando não estavam juntos… Sentiam.
— Parece que o dia não rende — disse Céres certa vez.
— Rende sim — respondeu ele, com um leve sorriso. — Só não é o mesmo.
Ela riu. Mas entendeu. Os olhares passaram a durar mais. As conversas, também. E o silêncio… Deixou de ser vazio.
.
Em um domingo de sol intenso que fazia brilhar toda a plantação e dava vida ao telhado das casas, onde até a grama orvalhada pela madrugada trazia a impressão de que haviam pedras de diamante no jardim. O sol iluminava as folhas. O vento era leve.
— Você acredita em destino? — Perguntou Céres.
Otaviano demorou a responder.
— Acredito em encontros que não são por acaso.
Ela olhou para ele.
— Como o nosso? Ele sustentou o olhar.
— Principalmente o nosso.
Houve um instante. Curto. Mas suficiente. Algo mudou ali.
No dia seguinte, o movimento foi intenso.
Clientes chegaram de outras cidades.
Alguns já vinham por indicação.
Outros… por curiosidade.
— Dizem que aqui tem algo diferente — comentou um homem.
Céres sorriu. — Tem mesmo.
Mas não explicou. Porque nem ela sabia mais dizer… O que era.
No meio da tarde, um som começou.
Baixo. Sutil. A música.
Pela primeira vez em dias.
Baixinho a encantar toda a propriedade fazendo com que as duas mulheres se levantassem e viessem para a porta da casa.
E, por um momento…
Algo cruzou sua mente.
A luz.
O silêncio.
Ele.
A associação foi rápida.
Quase inexistente e foi embora.
E, por um breve instante…
Seus olhares se cruzaram.
Diferentes.
Não era apenas reconhecimento.
Era… consciência.
E então, ele sorriu.
— Bonita, não é?
Céres sentiu algo estranho.
— Você ouve?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Ouço.
Silêncio.
— Desde quando? — Perguntou ela.
Ele deu de ombros.
— Desde sempre.
A resposta veio leve.
Natural.
Mas ficou forte demais para ser ignorada.
Zilah olhava para os dois e olhando teve certeza.
O que quer que estivesse acontecendo…
Não estava mais fora.
Estava entre eles.
CAPÍTULO 8 — O RETORNO
Nada se via no céu a não ser aquele azul maravilhoso digno de um fim de primavera. Alguns poucos empregados encarregados de manutenção chegavam para substituir a turma da madrugada que funcionava como uma espécie de grupo de segurança das plantas e seus frutos.
Azul profundo. Sem nuvens. Sem presságios.
Mas havia algo no ar.
Não era vento.
Não era temperatura.
Era… expectativa.
Não era pensamento.
Era sensação.
Levantou-se mais cedo que o habitual. Saiu do quarto. Caminhou até a varanda. O sítio ainda despertava. Poucos funcionários chegavam. O silêncio ainda dominava o espaço.
Mas, dentro dela… Algo já havia começado. — Hoje… — murmurou, sem saber completar. Atrás dela, Zilah apareceu. — Você também sentiu? Céres virou-se. — Senti. As duas se olharam. E entenderam. As tarefas precisavam ser feitas.
Os clientes atendidos. As conversas aconteciam. Mas tudo… com uma leve desconexão. Como se o mundo real estivesse apenas esperando algo maior acontecer. Não precisavam mais explicar.
Otaviano chegou mais cedo.
Não disse nada.
Mas, ao olhar para Céres…
Ela soube.
Ele também sabia. — Você sentiu — disse ela.
________________________________________
Ele assentiu. — Sim. A conexão entre eles não era apenas emocional. Era… compartilhada.
No meio da tarde, o som começou. Céres sentiu o corpo reagir.
Não suave. Não discreto. Dessa vez… presente.
O coração acelerou.
A respiração mudou. Não era medo. Era chamado
Otaviano deu um passo à frente.
— Venham.
Não foi um pedido. Foi um convite.
E, pela primeira vez… Ele assumia a condução.
As duas hesitaram. Por um segundo. Mas seguiram.
Contornaram a casa a procura da nave em forma de charuto em pé que ardia sempre sem parecer consumir e na lateral interna o encontraram como sempre dando um show nas cores e labaredas. A música aumentara a intensidade e estava diferente das anteriores irradiando alegria e fazendo-as rir. Entreolhavam-se de forma divertida e dançavam timidamente acompanhando aquele novo som.
— Ele voltou… disse Céres
Zilah não respondeu.
Porque agora não havia mais dúvida.
Ele nunca tinha ido embora.
A nave começou a reagir à presença deles.
As cores se intensificaram.
A música mudou. E então…
Algo novo aconteceu.
Uma abertura surgiu. Lenta. Precisa.
Uma linha de luz se formou na lateral do cilindro.
Expandiu-se. Até tornar-se… uma entrada.
Uma porta começou a abrir como se as convidassem a entrar e elas receosas permaneceram no mesmo lugar dançando, porém, em dúvida quanto a realização em dar o passo que seria necessário. Milhões de coisas passavam-se em suas cabeças, se aquele artefato saísse voando e as levassem, para onde estariam indo? O que encontrariam se se atrevessem a entrar? Poderia ser uma armadilha? Tanto fogo, não as consumiria?
Os pensamentos entravam em choque atrapalhados pelo show de cores que irradiava da nave. Por um lado, o medo do desconhecido, por outro lado, o convite maravilhoso que se anunciava.
Céres deu um passo à frente. O coração agora batia forte. Não de medo. Mas de decisão.
Zilah segurou sua mão. — Tem certeza? Céres olhou para a mãe. — Não.
Pausa.
— Mas sei que é isso.
Como se aquele momento… Dependesse delas.
A música suavizou. As cores diminuíram.
A nave parecia… esperar.
Céres respirou fundo. E começou a caminhar. Um passo. Depois outro.
Zilah a acompanhou. Juntas. Sempre.
Quando chegaram próximas à entrada… Algo aconteceu. Uma forma começou a surgir.
Primeiro, luz. Depois… contorno.
Uma labareda dançante ainda disforme que mais lembrava um número oito parecia acompanhar o jeito delas de expressar-se buscando claramente interagir e criar uma atmosfera simpática.
E, lentamente uma figura humana tinha seu corpo envolvido em cores. Movia, se adaptava, organizava-se. Formava um rosto, um corpo e transformava-se em presença, até ficar bem claro.
Segundos passaram-se que pareciam eternos e uma figura começou a sair bem devagar, envolta em um manto tão colorido quanto as cores da própria nave. Cobria-lhe da cabeça aos pés, mas poderia se ver uma forma masculina se formando vagarosamente.
Zilah apertou a mão da filha, Céres prendeu a respiração. O que agora estava diante delas, tornava-se impossível negar.
Na mente das duas mulheres um som de voz pedia-lhes calma e atenção, dizia que o processo era um pouco demorado tendo em vista a necessidade de que ele fosse visto na forma conhecida para não causar pânico, mas que tudo se resolveria tão logo elas concretassem a imagem que seria familiar.
Era ele. Otaviano
CAPÍTULO 9 — A REVELAÇÃO
O tempo pareceu parar, não o tempo do mundo, mas o delas. Céres não conseguia desviar o olhar, Zilah não conseguia falar, diante delas estava Otaviano, e não estava. A forma era a mesma, o rosto, o mesmo, a voz era inconfundível. Porém, havia algo além. Algo que não pertencia à carne.
A pele parecia sutilmente translúcida, como se uma luz muito antiga respirasse por baixo dela. Os olhos carregavam uma profundidade impossível — não eram apenas olhos… eram memória.
Memória demais.
Ele perdia aquela aparência e cor de fogo e ganhava contornos de um ser humano cada vez mais parecido com o Otaviano como elas o conheciam.
Mais alguns minutos e formou-se na frente das duas mulheres a figura bonita daquele que seria o sócio, conselheiro e amigo das duas mulheres.
— Eu precisava que fosse assim — disse ele, com calma.
Ele as cumprimentou como se fosse a coisa mais natural do mundo: - olá!
Como está sendo o dia, hoje? – Com esse céu de brigadeiro, esse azul anil entremeado de nuvens brancas e tão limpas vim buscá-las para um passeio. Topam? – Não se preocupem, já estamos preparados para recebe-las, fizemos vários testes e enfim podemos apresentar nossa morada da mesma forma que conhecemos as suas.
A voz ecoava diferente agora, não mais apenas no ar, mas dentro delas.
Zilah deu um passo atrás, foi instintivo.
— O que… você é? — Conseguiu dizer, com esforço.
Otaviano — ou o que quer que fosse — não se moveu.
— O que vocês chamam de “ser”… ainda é pouco para explicar.
Céres permaneceu firme.
— Então explica do jeito que a gente entenda.
Ele sorriu, levemente.
— Nós somos viajantes.
Silêncio.
— De onde? — Perguntou ela.
— De fora do que vocês conhecem como origem
A resposta não ajudava, mas também não confundia.
Era como se cada palavra proferida por ele fosse medida para não quebrar algo dentro delas.
Uma pergunta se fazia necessária, a filha quis saber: - Porque nós? O que te levou a nos escolher para contato?
Otaviano responde: - tentamos outras formas e maneiras para contato imediato, porém, sempre somos rechaçados por medo e ignorância. Quanto mais instruído maior o medo que sentem de nós. Quanto menos instruídos maiores os perigos de sermos massacrados pela excessiva forma preconceituosa sobre nossas atitudes. Para uma perfeita aceitação precisamos de pessoas boas e bem resolvidas moralmente para atestar nossa presença neste planeta. — Porque vocês não reagiram com medo.
Pausa.
— E isso… é raro, completou ele.
Céres sentiu um arrepio.
— Você já tentou com outros?
Ele assentiu.
— Muitas vezes.
A expressão mudou.
— E quase sempre… falhamos.
Seguiu-se um silêncio.
Ele então completou:
— Medo gera ataque.
— Ignorância gera violência.
— Conhecimento… gera rejeição.
Palavras pesadas.
— Então vocês… nos estudaram? — Perguntou Céres.
— Sim.
Sem hesitação, sem culpa.
— Por quanto tempo?
Ele olhou ao redor, para o sítio, para as árvores, para a casa, como se tudo justificasse
— Tempo suficiente para entender quem vocês são equilibradas todo o tempo e que seriam perfeitas para cumprir nossa missão.
Zilah questionou: — Isso não é invasão?
Ele inclinou levemente a cabeça. — Seria… se houvesse intenção de domínio.
Pausa.
— Não há.
Céres deu um passo à frente.
— Então o que vocês querem?
Dessa vez, ele demorou a responder.
Porque aquela… era a pergunta mais importante:
— Contato.
Simples.
Direto.
Zilah quis saber mais: — Só isso? — Perguntou desconfiada.
— “Só” é uma palavra humana para algo que vocês ainda não dimensionam.
Ele caminhou lentamente.
Sem ameaça, sem imposição.
E caminhando completou:
— Vocês vivem isolados uns dos outros.
— Divididos em busca de uma individualidade.
— Desconfiados, como; - Só isso?
Olhou para Céres.
— Mas também são capazes de algo raro.
— O quê? — Perguntou ela.
— Aceitar… o que não entendem.
Silêncio.
— Por isso… foram escolhidas.
Zilah reagiu.
— Escolhidas para quê?
Ele parou.
— Para iniciar.
O ar pareceu pesar.
Céres sentiu o coração acelerar.
— Iniciar o quê?
Ele respondeu.
Sem desviar.
— A transição.
— Transição… para quê? — Insistiu Zilah.
— Para um contato aberto.
Pausa.
— Para que não sejamos mais história e combustível para imaginação.
Céres sentiu o mundo girar.
— Você está dizendo que… vão aparecer para todo mundo?
— Sim. Simples assim.
Zilah balançou a cabeça negativamente.
- Isso vai causar pânico, vai ser o caos.
Sim – conto com vocês para diminuir os efeitos fazendo com que todos acreditem que viemos em paz. Estimamos que já está na hora de saber que ninguém está sozinho neste grande e magnifico universo. Trazemos para partilhar tecnologia, curas e dignidade ao povo deste planeta.
As duas se entreolharam. Nada daquilo parecia absurdo, parecia mesmo inevitável.
Vocês serão a ponte entre o medo, a desconfiança e a aceitação e a amizade.
Zilah murmurou apertando os lábios:
- Isso e grande demais para nós, simples agricultoras.
- Nós não pedimos isso.
Ele respondeu:
- Mas aceitarão pelo grande momento.
Na cabeça de Céres passava a beleza do céu, da terra e das pessoas de bem. A ausência de medo e o avançar de todos em busca da felicidade.
- a gente já disse sim...sem saber
A nave atrás deles pulsava em cores suaves, aguardando .
Se elas tinham medo, com certeza sim, mas a confiança era muito maior.
— Transição… para quê? — Insistiu Zilah.
— Para um contato aberto.
Pausa.
— Para que não sejamos mais histórias.
Céres sentiu o mundo girar.
— Você está dizendo que… vão aparecer para todo mundo?
— Sim.
Simples assim.
— Transição… para quê? — Insistiu Zilah.
— Para um contato aberto.
Pausa.
— E agora? — Perguntou Céres.
Otaviano deu um pequeno passo para o lado. Abrindo caminho para a nave.
— Agora…
Pausa.
— Vocês vêm conosco.
Silêncio.
O mundo ficou pequeno, o universo... Se abriu
Em passos tímidos elas começaram a caminhar na direção da nave, e a cada movimento as cores se solidificam, perdiam o brilho transformando-se em uma máquina comum e prazerosa como uma residência de viajante.
O silêncio antes do primeiro passo foi mais intenso do que qualquer som.
Céres olhou para a entrada, apertaram as mãos e de mãos dadas, juntas avançaram.
Não havia degrau. Não havia transição visível.
Mas, ao cruzarem… Tudo mudou.
CAPÍTULO 10 — DENTRO DA NAVE
Ao adentrar puderam ver uma grande sala repleta de seres com aparência humana, homens e mulheres com rostos felizes e sorridentes como a acalma-las, desejando uma feliz estada na nave, que outrora flamejante, em seu interior fresca como se houvesse um ar condicionado ligado para deixa-las bem à vontade.
O ar era leve, mais puro como se cada respiração carregasse algo além de oxigênio – algo que acalmava, que compreendia a situação das mulheres.
A temperatura era perfeita, nem quente, nem fria e não havia som. Mas, também não havia silencio. Parecia um ambiente vivo em uma frequência que não precisava ser ouvida.
As partes de metal mostravam que era uma nave de proporções medianas que eram utilizadas para deslocamento entre algo maior e o sítio das goiabas, porém, tinham toda a singularidade que as faziam sentir-se bem e em casa. Sentiam-se seguras e em boa companhia!
Otaviano então explicava para elas: - Assumimos a aparência conhecida pelos humanos para que ficassem tranquilas e pudéssemos conversar sobre qualquer assunto sem sustos ou sobressaltos. Posso assegurar que nossos trajes são muito mais bonitos do que esses em osso e carne que vocês utilizam. Esse modelo já os dispensamos a muito e muito tempo. Mas não se preocupem, voltamos a testá-los e mesmo rindo e fazendo milhões de piadas estamos prontos para usá-los e se houver alguma falha poderemos consertar imediatamente.
Elas ficaram curiosas, porém decidiram em um rápido olhar nada comentar até que compreendessem melhor o significado daquelas palavras.
Seres do bem com certeza deveriam ser, já que se preocupavam em promover uma aproximação lenta, gradual, sem oscilações e bruscas interrupções. O Mundo como nós terráqueos conhecíamos jamais seria o mesmo.
Zilah parou por um instante.
— Isso… não é natural — disse, em voz baixa.
Otaviano, logo atrás, respondeu com suavidade:
— Para vocês, ainda não.
Céres continuou caminhando.
Os olhos atentos.
Absorvendo tudo.
O interior da nave era amplo.
Muito maior do que parecia por fora.
As paredes não eram exatamente paredes.
Eram superfícies curvas, suaves, que pareciam reagir à presença delas.
Mudavam de tonalidade. Sutilmente.
Como se reconhecessem movimento.
— A nave responde… — murmurou Céres.
— Sim — confirmou Otaviano. — A nave não é apenas estrutura.
Pausa. — Ela participa.
Zilah franziu o cenho.
— Participa de quê? — De nós.
A resposta não foi explicada. Mas foi sentida.
Mais à frente, o espaço se abriu e uma grande área central se fez presente.
Ali estavam outros seres de aparência humana causando uma impressão de familiaridade.
Corpos semelhantes, postura semelhante e rostos serenos. Mas havia diferenças, os olhos profundos demais, tranquilos demais, como se carregassem o tempo dentro deles. Alguns se aproximaram, sem pressa, sem invasão. Apenas presença.
________________________________________
Uma mulher — ou algo muito próximo disso — deu um passo à frente, sorriu.
— Sejam bem-vindas.
A voz não saiu apenas da boca.
Veio… de dentro.
Zilah olhou ao redor: — Vocês são todos… como ele?
A mulher respondeu: — Como ele… e diferentes dele.
- Assim, observamos vocês desde há muito, e fomos complementando com pequenos testes de confiança e aceitação, até a revelação que agora fazemos. Em outras terras estamos realizando o mesmo trabalho para que quando se revelar a nossa presença tudo seja de forma bem natural, de fácil afeição, carinho e aceitação.
- Alguns testes foram abandonados e esquecidos, onde tivemos que optar também pelo bloqueamento das mentes, transformando tudo em um singelo sonho que também serão úteis no momento correto.
Céres observava tudo.
— Vocês vivem assim? — perguntou
— Vivemos… de forma mais integrada.
— Integrada com o quê?
A resposta veio com leveza:
— Com tudo.
Silêncio.
Céres absorvia cada palavra.
— E por que parecem humanos?
Otaviano respondeu:
— Porque essa é a forma que vocês aceitam.
Pausa.
— Não é a nossa única forma.
Zilah cruzou os braços.
— Então essa aparência… é construída?
— Adaptada.
Resposta simples e direta
Céres sentiu um leve desconforto.
— Então… eu não conheço você de verdade.
Otaviano olhou para ela.
E pela primeira vez… Houve algo mais profundo ali.
— Conhece o suficiente.
— O que importa? Não muda nada!
Ela sustentou o olhar
E, de alguma forma…
Acreditou.
Mais seres se aproximavam, não com curiosidade invasiva, Mas com acolhimento. Como se estivessem felizes por elas estarem ali.
— Vocês são poucas — comentou Zilah.
— Esta é apenas uma unidade de contato — explicou a mulher.
— Existem outras?
— Muitas.
Céres respirou fundo.
— Então… isso não é só aqui.
— Nunca foi.
O impacto veio forte, mas curiosamente não assustador. Era grande. Grande demais.
E, ainda assim, parecia certo.
— E o que acontece agora? — Perguntou Céres.
Otaviano fez um gesto suave.
Uma parte da nave se abriu, não como uma porta, mas como um espaço que se revelava.
Uma espécie de painel ou janela que não mostrava o exterior, apresentava algo mais.
Imagens começaram a surgir.
A Terra vista de cima, depois cidades. Pessoas, movimento, conflitos, alegria, dores, vida, tudo em sequência, a fome, a miséria, a riqueza hábitos de uns e sofrimento de outros.
— Este é o momento de vocês — disse a mulher.
Céres observava hipnotizada: — E nós estamos prestes a entrar nele.
Zilah deu um passo à frente.
— Isso vai mudar tudo.
Sim.
— E se não estivermos prontos?
Silêncio.
Então, a resposta: — Vocês nunca estão.
Céres sentiu um arrepio.
Não de medo, mas da verdade.
— Então por que agora?
Otaviano respondeu: — Porque agora… vocês conseguem ouvir.
Silêncio. A nave parecia pulsar ao redor delas.
Viva, atenta, esperando.
E, naquele instante Céres entendeu que não se tratava de uma invasão, nem de descoberta, mas de encontro que já estava em curso há muito tempo.
Muito antes do céu daquele sábado, muito antes da música e muito antes de Otaviano.
Céres olhando para Otaviano perguntou:
— E o que vocês esperam da gente?
Ele respondeu com calma.
— Que nos apresentem...
— Para quem? — Perguntou Zilah.
Otaviano olhando para as duas, disse:
— Para o mundo.
- Agora a frase que treinamos e que é o nome de nosso projeto:
- Leve-nos a seu líder!
CAPÍTULO 11 — O PROPÓSITO
A imagem da Terra desapareceu lentamente. O painel — ou o que quer que fosse — voltou a ser apenas uma superfície viva, pulsando em silêncio.
Céres ainda estava imóvel. Como se parte dela tivesse ficado ali… observando o mundo de fora.
Zilah respirou fundo.
— Isso é grande demais… — murmurou.
Ninguém discordou.
Porque era.
Otaviano deu um passo à frente.
—Nós não esperamos que vocês compreendam tudo agora. Nem que aceitem sem questionar.
Céres olhou para ele.
— Mas esperam que a gente faça alguma coisa.
Ele assentiu.
— Sim.
— O quê, exatamente? — Perguntou Zilah, firme.
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A mulher que os havia recebido aproximou-se novamente.
— Vocês são o primeiro elo.
Céres franziu a testa.
—Elo com quem?
— Com a humanidade.
A palavra ecoou diferente agora. Mais pesada. Mais concreta.
Zilah soltou um leve riso, nervoso.
— Vocês estão falando como se a gente tivesse algum tipo de poder.
— Vocês têm — respondeu Otaviano.
Ela negou com a cabeça
— Nós somos produtoras rurais
— Vocês são ouvidas — disse ele. — Respeitadas. Confiáveis.
— E, principalmente… equilibradas.
Céres absorveu aquilo.
— E isso é suficiente?
— Para começar… sim.
— Começar o quê? — Insistiu ela.
A resposta veio clara.
— A aceitação.
O ar pareceu ficar mais denso.
Vocês querem que a gente fale de vocês? — Perguntou Zilah.
— Não apenas falar
— Vocês vão nos apresentar.
Céres absorveu aquilo.
— E isso é suficiente?
— Para começar… sim.
— Começar o quê? — Insistiu ela.
A resposta veio clara.
— A aceitação.
O ar pareceu ficar mais denso.
— Vocês querem que a gente fale de vocês? — Perguntou Zilah.
— Não apenas falar.
— Vocês vão nos apresentar.
Céres sentiu o coração bater mais forte.
— Ninguém vai acreditar.
— No início… não.
— E depois?
Otaviano respondeu:
- Ao mesmo tempo, haverá um sinal e em mais de 90 países pessoas como vocês estarão fazendo a mesma coisa, nos apresentando a seus líderes. Muitos serão considerados loucos, porém muitos serão ouvidos, e quando divulgados em todas as mídias existentes levará as lideranças a falar de nós e de nossas boas intenções. Sem naves, sem sustos, como uma notícia natural e há muito aguardada.
Céres olhou para ele.
— Vocês têm certeza de que a gente está pronta?
Ele respondeu sem hesitar:
— Não.
Ela quase sorriu.
— Pelo menos são sinceros.
— Sempre fomos.
Zilah voltou o olhar para Céres.
Ali havia uma pergunta silenciosa.
E uma escolha.
Céres respirou fundo.
— Se a gente disser não?
Zilah caminhou alguns passos, pensativa.
— Isso pode causar pânico.
— Pode.
— Pode causar conflito.
— Sim.
— Pode destruir o que a gente conhece.
Dessa vez, houve uma pequena pausa antes da resposta.
— Ou pode transformar.
A mulher respondeu com tranquilidade:
— Vamos respeitar.
— E procurar outros?
— Já estamos.
— Então isso vai acontecer… com ou sem a gente.
— Sim.
Céres fechou os olhos por um instante.
Penou no sítio.
Na vida simples.
Na rotina construída com esforço.
Pensou nas pessoas.
Na cidade.
No mundo.
E então…
Pensou naquilo tudo sendo revelado de uma vez, o medo veio, mas não ficou, porque algo maior ocupou o lugar. Responsabilidade.
— Se é para acontecer…
Olhou para a mãe.
— Então é melhor que seja com alguém que não vai transformar isso em caos.
Zilah sustentou o olhar. Longos segundos.
E então assentiu
— A gente não pediu isso.
— Mas também não vai fugir.
Otaviano observava, sem interferir
Mas, pela primeira vez…
Havia algo próximo de admiração em seu olhar.
— Então… vocês aceitam? — Perguntou.
Céres respondeu.
Sem hesitar.
— Aceitamos entender.
Zilah completou:
Antes de qualquer coisa.
A mulher sorriu.
—É o suficiente.
O ambiente pareceu reagir.
As paredes pulsaram suavemente.
Como se a própria nave reconhecesse a decisão.
E o primeiro passo? — Perguntou Céres.
Otaviano fez um leve gesto.
O painel voltou a se iluminar.
Mas agora não mostrava o mundo.
Mostrava… pessoas líderes, governantes, autoridades.
— Vocês vão nos levar até eles.
Zilah arregalou os olhos
— Até… líderes de verdade
— Sim
Céres soltou um leve riso
— Isso não faz o menor sentido.
— Faz para nós.
— E como a gente faria isso? — Perguntou Zilah.
Otaviano respondeu com naturalidade:
— Da forma mais simples possível.
— Pedindo.
Céres olhou para ele.
E então entendeu.
A frase. O conceito. A ironia.
— Vocês treinaram isso, não foi?
Ele sorriu.
— Sim.
então, com leveza…
Mas carregando o peso de um mundo inteiro…
Ele disse: - Vou repetir a frase, agora com a ênfase que se faz necessária,
— Senhoras. Leve-nos ao seu líder.
CAPÍTULO 12 — LEVE-NOS AO SEU LÍDER
O retorno foi silencioso, quando elas deixaram a nave, o mundo parecia o mesmo, o céu continuava azul, o vento seguia leve e o sitio estava intacto. Mas nada mais seria igual.
Mãe e filha caminharam em direção a casa sem dizer uma palavra. Não por falta de assunto. Mas porque tudo o que havia para ser dito não cabia em palavras.
Ao cruzarem a porta, Zilah parou, olhou ao redor. A mesa, as cadeiras, a simples cozinha e pensou, tudo isso sempre foi mais do que o suficiente. Agora a gente vai mudar o mundo.
- Não, a gente vai apresentar um novo mundo, porque a verdade é que o mundo já estava mudando.
Não havia manual, não havia precedente, somente verdade. Começamos pequenos – digitou, apagou, digitou novamente e então escreveu. “Algo aconteceu e não aconteceu só com a gente, mas a gente viu primeiro”
Zilah leu.
— Ninguém vai acreditar.
Céres sorriu.
— Não precisa acreditar.
— Precisa ouvir.
O tema ultrapassaria a cidade, o estado, o país. Programas de televisão, rádio, redes. Surgiriam especialistas para explicar, céticos tentaria negar. Mas haveria um problema, as pessoas estariam sentindo a verdade chegando e isso nunca mais seria desmentido.
Otaviano não apareceu por alguns dias, mas não era ausência, era preparação. Quando voltou, não veio sozinho, a nave não voltaria a se esconder, estaria lá bem alto para que todos a vissem.
Céres e Zilah estavam ali, firmes e pela primeira vez não como testemunhas, porem pontes para um mundo melhor, mais humano e mais consciente.
Otaviano surgiu, não escondido, não adaptado, mas compreensível. Caminhou até elas e disse: - Está na hora.
E então juntos deram o passo que nenhuma outra pessoa havia dado antes.
Avançaram, não para dentro da nave, porém para fora, em direção ao Mundo, para as pessoas e para a esperança: Não viemos invadir, estamos aqui para somar, viemos em paz.
Era o início de algo que ninguém mais poderia impedir, uma nova história, não deles, mas de todos.
EPÍLOGO
Meses depois, o mundo já não era o mesmo. Fronteiras ainda existiam. Mas já não significavam tanto.
Religiões ainda falavam. Mas agora… escutavam.
A ciência avançava. Não por competição. Mas por colaboração.
E, no meio de tudo isso…
Um sítio simples com árvores carregadas de goiabas e uma casa onde ainda não se falava de negócios e com duas mulheres que nunca quiseram mudar o mundo, mas aceitaram o desafio quando o mundo bateu em sua porta.
Céres, certa tarde, voltou a sentar-se ao sol, o céu estava limpo como naquele primeiro dia.
Ela sorriu, não por lembrar, mas por entender.
E, ao longe… Quase imperceptível…
A música suave voltou. Eterna
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