A melhor história da minha vida é o que acontece hoje. Mas, o que já passou me importa muito. Não sou de me perder em lembranças, porém, às vezes, surpreendo-me mergulhada numa delas. E vem outra e mais uma e... volto para cá, para o hoje. E o que vivo é intenso.
Um pouco da menina? Muito magrinha e feinha até, porém, tão auto-confiante. Cresci num quintal de casa bem grande, onde a Vó (de quem herdei o nome) vivia me chamando para tomar limonada, leite com pão e gema de ovo. Mamãe estava lecionando e papai trabalhando no Posto de Saúde. Vida boa a daquela época - anos 50 - tudo tão simples, sereno, rodeado de galhos da jabuticabeira e folhas e formigas e mandrovás.
Aos doze anos veio minha irmã "temporona", tão linda, que olhos tão claros. Sempre, até agora somos muito próximas, ela e seu bom companheiro.
Papai se foi aos quarenta e quatro anos, quando eu era uma adolescente avoada. Tempos de nuvens escuras aqueles. Um homem bom, um pacifista, por assim dizer; sua batalha pela justiça, pelos direitos iguais, a honestidade à flor da pele, lhe renderam muitos amigos e moldaram o que somos hoje.
Mamãe, a árvore sempre firme, está aqui conosco, tão bonita com seus olhos azuis demais.
Conosco também, meu filho (que me fez sogra e avó) e minha filha. Duas pessoas admiráveis e meus grandes amigos.
Ao meu lado, um companheiro, o amor da minha vida, alguém que veio iluminar meu caminho, que acredita em mim. Não é ele o pai dos meus filhos.
Aliás, essa é a parte movimentada da história, que fica pra depois.
Do meu avô Renato não posso me lembrar, pois tinha um ano quando ele foi embora. Do meu avô Adolfo, lembro-me apenas assim: um portão, um corredor. À porta da entrada, vovô Adolfo sentava-se numa cadeira, me chamava para ir ao seu colo. Era um homem sério, de poucas palavras e que fumava cigarro de palha. Minha única lembrança.
Já de vovó Antonia e vovó Olga lembro-me muito. Vovó Tona, mãe de meu pai, era um sonho de...
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A melhor história da minha vida é o que acontece hoje. Mas, o que já passou me importa muito. Não sou de me perder em lembranças, porém, às vezes, surpreendo-me mergulhada numa delas. E vem outra e mais uma e... volto para cá, para o hoje. E o que vivo é intenso.
Um pouco da menina? Muito magrinha e feinha até, porém, tão auto-confiante. Cresci num quintal de casa bem grande, onde a Vó (de quem herdei o nome) vivia me chamando para tomar limonada, leite com pão e gema de ovo. Mamãe estava lecionando e papai trabalhando no Posto de Saúde. Vida boa a daquela época - anos 50 - tudo tão simples, sereno, rodeado de galhos da jabuticabeira e folhas e formigas e mandrovás.
Aos doze anos veio minha irmã "temporona", tão linda, que olhos tão claros. Sempre, até agora somos muito próximas, ela e seu bom companheiro.
Papai se foi aos quarenta e quatro anos, quando eu era uma adolescente avoada. Tempos de nuvens escuras aqueles. Um homem bom, um pacifista, por assim dizer; sua batalha pela justiça, pelos direitos iguais, a honestidade à flor da pele, lhe renderam muitos amigos e moldaram o que somos hoje.
Mamãe, a árvore sempre firme, está aqui conosco, tão bonita com seus olhos azuis demais.
Conosco também, meu filho (que me fez sogra e avó) e minha filha. Duas pessoas admiráveis e meus grandes amigos.
Ao meu lado, um companheiro, o amor da minha vida, alguém que veio iluminar meu caminho, que acredita em mim. Não é ele o pai dos meus filhos.
Aliás, essa é a parte movimentada da história, que fica pra depois.
Do meu avô Renato não posso me lembrar, pois tinha um ano quando ele foi embora. Do meu avô Adolfo, lembro-me apenas assim: um portão, um corredor. À porta da entrada, vovô Adolfo sentava-se numa cadeira, me chamava para ir ao seu colo. Era um homem sério, de poucas palavras e que fumava cigarro de palha. Minha única lembrança.
Já de vovó Antonia e vovó Olga lembro-me muito. Vovó Tona, mãe de meu pai, era um sonho de pessoa, singela, meiga, humilde, não sabia ler, nem escrever, tadinha. Falava com meu pai em um dialeto italiano (era imigrante) e eu nada entendia. Era católica fervorosa e estava sempre vestida de preto. Na igraja sentava-se bem à frente, rezava a missa de cor (na época, em latim) e sabia todas as músicas. Sua voz era fininha e alta. Lembro-me, em casa, ela cantando assim: "memélo gapéço um béco, como farála becar", é claro que não se escreve desse modo, era como em entendia. Olhos azuizinhos da Vó Tona tão humilde e boa. Se foi aos 93 anos...
Vovó Olga, mãe de minha mãe era a minha sábia preferida. De todos os seus netos, fui eu quem mais ficou próxima a ela. Fazia crochê com perfeição e cozinhava muito bem. Tinha os cabelos compridos e grisalhos e os enrolava num coque. Muito magrinha e ereta, até os 86 anos (quando partiu) nunca curvou. Mulherzinha animada, espirituosa e de muita bondade. Vovó Olga sabia receber convidados e oferecer refeições como ninguém, por sua educação primorosa. Escrevia bem e tinha uma letra bem bonita. Casou-se com Renato aos 17 anos, uma menina que ainda brincava com boneca às escondidas, segundo me confidenciou. Nos tempos abastados - vovô tinha negócios com café - e nos áureos tempos, contou-me ela, seus sapatos e roupas muitas vezes vinham de São Paulo em lindas caixas. Depois da crise do café, restou somente a bela e magestosa casa (onde atualmente mora minha tia Zélia), o mais lindo palco da minha infância. Na grande casa, nos anos 50, havia muita movimentação: minhas tias mais novas - Ivone, Inês e Zélia, ainda solteiras, sempre às voltas com flertes, footings, saias rodadas, ruge, batom e pó-de-arroz. Quando iam ao carnaval no Aero Clube, enfeitavam-se e eu, pequena, acompanhando tudo, maravilhada com todos aqueles potes e frascos de perfume nas gavetinhas do guarda-roupas. Tia Zélia, a mais faceira, rodopiava, girava a saia e fazia trejeitos aem frente ao espelho. Tão lindas minhas tias
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