O meu nome é Alberto Severo, eu nasci em Caçapava do Sul, Rio Grande do Sul, no dia cinco de setembro de 1935.
Entrei na Petrobras através de um processo seletivo em novembro de 1963. Estava no sexto ano do curso de engenharia mecânica e elétrica da Universidade Rio Grande do Sul. No dia dois de novembro, me lembro muito bem, foi feito um processo seletivo ao qual compareceu grande parte do pessoal que estava no último ano. Prestávamos um exame que destinaria as pessoas para três direções: manutenção, refinação ou produção de petróleo. Fiz para manutenção. Eu fui aprovado, fui para o Rio de Janeiro, onde assumi minha posição na Petrobras, no dia 13 de janeiro de 1964, no Cenap, que era um órgão de treinamento da empresa. Fiz um concurso de manutenção chamado CM64, que foi ministrado na Reduc, onde tinha um pavilhão para esse curso. Fiz uma especialização em equipamentos da indústria de petróleo.
Nessa época, estava sendo construída a Refinaria Alberto Pasqualini. Existia um órgão que era “Obra de Construção da Refinaria Alberto Pasqualini”. O meu objetivo e dos outros gaúchos era voltar. Fiz o curso e me candidatei a voltar para cá e, felizmente, todos conseguiram. Desses quatro, dois estão trabalhando aqui como terceirizados: eu e o Moisés Pinto Gelzer. Terminado o curso em setembro fui lotado na refinaria, fazendo estágio na Reduc, na divisão de obras. O nome não era divisão de obras, mas fazia as obras da Reduc. Fui fazer esse estágio me preparando para vir trabalhar na obra aqui. Acredito que em abril ou maio de 1965, não tenho certeza, fui definitivamente transferido para a obra de construção da refinaria. Fui trabalhar na parte de acompanhamento do projeto elétrico. O chefe era o Percy Louzada de Abreu, que depois foi superintendente da refinaria, diretor da Petrobras, diretor da Petroquisa e superintendente da Copesul – onde também trabalhei cedido pela Petrobras. Em 1965 vim para cá e comecei a...
Continuar leituraO meu nome é Alberto Severo, eu nasci em Caçapava do Sul, Rio Grande do Sul, no dia cinco de setembro de 1935.
Entrei na Petrobras através de um processo seletivo em novembro de 1963. Estava no sexto ano do curso de engenharia mecânica e elétrica da Universidade Rio Grande do Sul. No dia dois de novembro, me lembro muito bem, foi feito um processo seletivo ao qual compareceu grande parte do pessoal que estava no último ano. Prestávamos um exame que destinaria as pessoas para três direções: manutenção, refinação ou produção de petróleo. Fiz para manutenção. Eu fui aprovado, fui para o Rio de Janeiro, onde assumi minha posição na Petrobras, no dia 13 de janeiro de 1964, no Cenap, que era um órgão de treinamento da empresa. Fiz um concurso de manutenção chamado CM64, que foi ministrado na Reduc, onde tinha um pavilhão para esse curso. Fiz uma especialização em equipamentos da indústria de petróleo.
Nessa época, estava sendo construída a Refinaria Alberto Pasqualini. Existia um órgão que era “Obra de Construção da Refinaria Alberto Pasqualini”. O meu objetivo e dos outros gaúchos era voltar. Fiz o curso e me candidatei a voltar para cá e, felizmente, todos conseguiram. Desses quatro, dois estão trabalhando aqui como terceirizados: eu e o Moisés Pinto Gelzer. Terminado o curso em setembro fui lotado na refinaria, fazendo estágio na Reduc, na divisão de obras. O nome não era divisão de obras, mas fazia as obras da Reduc. Fui fazer esse estágio me preparando para vir trabalhar na obra aqui. Acredito que em abril ou maio de 1965, não tenho certeza, fui definitivamente transferido para a obra de construção da refinaria. Fui trabalhar na parte de acompanhamento do projeto elétrico. O chefe era o Percy Louzada de Abreu, que depois foi superintendente da refinaria, diretor da Petrobras, diretor da Petroquisa e superintendente da Copesul – onde também trabalhei cedido pela Petrobras. Em 1965 vim para cá e comecei a trabalhar no que se chamava de “Divisão de Planejamento”, uma divisão de projeto. Depois fui trabalhar na divisão de construção civil, fazendo o acompanhamento da instalação da tubulação destinada aos cabos elétricos da refinaria. Era obra de construção civil, uma novidade aqui na região. Eu não conhecia nada igual. Eram uns envelopes de concreto, que hoje é uma coisa comum, mas na época era uma novidade muito grande. Depois disso fui trabalhar na DIM, Divisão de Instalação e Montagem como fiscal da instalação elétrica da refinaria. Quando a refinaria entrou em operação, em 1968, fui o primeiro chefe do Setor de Manutenção Elétrica. Antes tinha trabalhado na Divisão de Pré-operação, na preparação da manutenção elétrica da refinaria e na decisão de compra de equipamentos. Quando começou a operação fui designado chefe do Setor de Eletricidade da Divisão de Manutenção. Fiquei pouco tempo, acho que uns quatro ou cinco meses. Logo em seguida assumi o Setor de Coordenação de Área, onde fazíamos a coordenação da manutenção da refinaria toda. Naquela época tinha um corpo de auxiliares técnicos de manutenção que faziam a meia-cancha entre a operação e a manutenção. E o setor de área era esta meia-cancha. Lá por 1972 fui promovido. Fui designado chefe da Divisão de Manutenção com a saída do outro chefe, que foi para suprimento, o Ermírio Menezes Goulart, já falecido. Fiquei ali até 1979, quando fui cedido para a Petroquisa. Fui ser gerente de montagem da Copesul. Fiquei lá durante toda obra, fiz a coordenação da montagem mecânica toda. Quando entramos em operação, em 1982, fui designado gerente técnico da Copesul e me aposentei nessa função. Como eu era Petrobras, no último dia de trabalho fui devolvido à refinaria e me aposentei aqui como engenheiro. Esse foi meu caminho percorrido dentro da organização. Minha aposentadoria foi no dia 31 de janeiro de 1992.
[Minha vida] mudou muito. Passei a dispor do meu tempo e passei a ter menos tempo do que tinha, porque a gente administrando nunca é suficiente. Depois disso trabalhei várias vezes. Trabalhei em construção civil com um outro colega, depois fiz representações e montagens. Atualmente trabalho como preposto numa firma que presta serviço de manutenção à refinaria, que é justamente a minha área, desde dezembro de 2006. Eu já tinha feito trabalhos na refinaria. Trabalhei na Copesul, na Inova e no pólo petroquímico em montagem de tanques. Também trabalhei na Copesul com ação judicial, como perito. Então, não há nenhuma sensação especial, porque nunca estive afastado do ambiente. Tenho comparecido a solenidades, às vezes até participo de jogos na refinaria e na Copesul. Sempre me mantive muito ligado à Petrobras e aos órgãos da Petrobras.
Tudo é marcante. Cada passo que damos na vida profissional e, especialmente, numa entidade que prezamos é muito importante. Sempre fui um admirador da Petrobras e me considero um dos criadores. Nós criamos a Petrobras aqui no Rio Grande do Sul. Criamos até uma mentalidade, e dizem que ela foi exportada. Essa mentalidade se deve ao fato de quando fizemos a refinaria, em 1968, nós éramos todos jovens, estávamos começando. Éramos um grupo de pouca experiência, comparado ao que temos hoje. Mas tínhamos a tarefa de tocar uma refinaria com coisas que a gente nunca tinha visto. Nós tínhamos feito estágios, mas não tínhamos assumido responsabilidades. Isso nos obrigou a nos unir muito e a trabalhar muito em equipe, um ajudando o outro. Até tínhamos um lema, que nunca foi um lema, mas um procedimento, uma maneira de ser, onde dizíamos o seguinte: “Nós temos o direito de errar”. Isso possibilitou o crescimento da gente enquanto grupo. Nós tínhamos uma unidade de pensamento e de objetivo nesse começo da refinaria, derivado da inexperiência e da necessidade de mútuo apoio. Nós soubemos fazer isso. Fomos bem orientados. Aos nossos chefes devemos muito disso, sem dúvida nenhuma: Maurício Silva, que foi o primeiro superintendente; Percy, principalmente, que é uma pessoa notável; e o Martinez, outra pessoa notável. Eram pessoas mais experientes que tiveram o bom senso e a visão de conseguir conduzir o crescimento da equipe. Isso foi uma das grandes contribuições que a Refap deu para a Petrobras. Eu me lembro que, como chefe da manutenção, tinha reuniões no Brasil inteiro. As refinarias eram poucas: Refap, Regap, RPBC, Reduc e Replan. A Refap sempre foi muito ouvida pelos resultados que apresentava. Era reconhecida como organizada e com um grau de excelência um pouco maior. Isso é verdade e a gente sentiu.
Hoje pouco conheço a refinaria. A gente começou na obra com uma filosofia que a empresa tinha de fazer ela mesma muita coisa, menos as obras. As obras eram feitas por empresas contratadas, mas toda a fiscalização, trabalho burocrático e trabalho de apoio eram feitos por empregados próprios. Eu me lembro que a refeição era uma empresa que fazia, mas o resto não era terceirizado. O transporte dos engenheiros, por exemplo, era feito pelos carros e com motoristas da Petrobras. A filosofia era assumir todos os encargos e funções. Isso foi até quando a gente começou a trabalhar na refinaria, que era bem pequena. Em 1968, a refinaria era a unidade 01 e a unidade 02 de hoje. Quer dizer, era uma destilação atmosférica e uma pequena unidade de tratamento. A torre de vácuo foi feita depois, junto com o UFCC, que é a unidade 03. Inclusive, não tinha nem casa de força, nós tínhamos umas caldeiras provisórias, produzindo vapor e a eletricidade era através de um transformador que nós chamávamos de PT15. O meu primeiro trabalho foi comprar o transformador de 15MVA, que abasteceu de energia elétrica a refinaria até o momento em que foi construída a casa de força, quando passamos a ter geração própria. Nessa época, nós tínhamos as oficinas de manutenção.
Eu trabalhava na manutenção. Eu fiz a seleção dos eletricistas. Fizemos uma prova teórica e uma prova prática. Na prova teórica aconteceram coisas fantásticas, porque muito sujeito que era montador pensava que, por ter trabalhado na montagem ia trabalhar na operação. Nós fizemos provas e saíram coisas fantásticas. Eu perguntava, por exemplo: “Cite duas maneiras de partir um motor síncrono”. O sujeito respondeu: “Talhadeira e marreta”. Partir para ele era cortar. Outra: “Qual é a finalidade do aterramento de um motor?”. É problema de eletricidade estática, mas o cara disse: “É para que fique bem firme”. Como se fosse enterrar o motor, esse tipo de coisa. Naquela época o salário da Petrobras era muito bom e nós fizemos um processo seletivo para o pessoal de operação, de onde saíram os nossos instrumentistas. Tivemos uma quantidade enorme de candidatos e um pessoal de alto nível. Inclusive, as empresas se queixaram disso. A Vale se queixou, porque o nosso salário era tão bom que o pessoal especializado deles veio participar dos exames, foram aprovados e admitidos.
Na medida em que a refinaria foi crescendo, fomos sentindo necessidade de mão-de-obra e passamos a usar terceirizações. Contratávamos empresas, mas de modo diferente do que é hoje. Naquela época a contratação era basicamente de mão-de-obra, se contratava uma empresa que fornecia pessoas que seriam dirigidas pelos nossos encarregados, contramestres, mestres e auxiliares técnicos, trabalhavam como se fossem nossos funcionários. Hoje a refinaria tem uma filosofia diferente, já contrata empresas que assumem uma série de atividades que, no passado, eram assumidas pela Petrobras.
Tem uma curiosidade que vale a pena relatar. Em 1968, 1969, a casa de controle ficava descentralizada em relação à refinaria, que era só a unidade de destilação atmosférica e tratamento. A casa de controle ficava em frente a um espaço vazio que, posteriormente, foi preenchido pelas unidades de craqueamento catalítico. O operador ficava distante da casa de controle e por isso se pediu abrigos para os operadores. Nós tínhamos um arquiteto muito criativo, o Vieira. Era um artista Foi encomendado ao Vieira o projeto de uma instalação móvel, que pudesse ser re-alocada com facilidade e que desse um abrigo para o operador num dia de sol, chuva ou vento, ou à noite enquanto tomava conta da área. O Vieira fez um projeto em chapa e com muito vidro na volta. Então, o operador sentaria ali no banquinho – dava até para mais de um operador – e tinha visão de 180 graus. O aspecto desse abrigo lembrava a de uma cabine de um caminhão chamado FNM, mas com a pronúncia: “fenemê”. O pessoal achou parecido com o FMN. Mas como era todo envidraçado, também era parecido com carrinho de pipoca. Então fizeram uma simbiose e passaram a chamar de “fenemoca”. Até hoje esse termo existe. Um dia desses cheguei para um operador e disse: “Escuta, onde é a fenemoca?”, “A fenemoca é lá”, “O que é a fenemoca?”, “É a casa do operador”, “Por que se chama fenemoca?”, “Não sei, não tenho nem idéia”. Essa é a origem do termo “fenemoca”. Eu fui informado que esse termo foi até exportado. Existem “fenemocas” fora da refinaria.
Muito pouco se tinha disso no tempo que a gente entrou aqui. A única preocupação que tínhamos era de ter o EPI – equipamento de proteção individual. Qual era o EPI? Luva, capacete, botina. Não me lembro assim da botina, eu usava o meu sapato mesmo. Em 1965, 1966, 1967 a preocupação com proteção pessoal era mínima em relação ao que se tem hoje. Preocupação com meio ambiente não existia nessas regras e normas que existem hoje. Não havia, por exemplo, coleta seletiva de lixo e DDS. Eu diria que era primário, tudo era primário. A evolução foi enorme, assustadoramente grande para mim, quando me deparei com esses problemas. Esses problemas passaram a ser examinados com cuidado a partir das normas ISO, que é bem recente. Quando saí da Copesul não se fazia DDS, mas hoje faço até no escritório. Tenho rapazes que trabalham comigo e fazemos um DDS todos os dias. DDS é um diálogo diário de segurança. A preocupação do órgão de segurança era muito mais a segurança patrimonial. O órgão se preocupava com permissão de trabalho, verificação de explosividade, condições especiais de trabalho, mas sem essa visão humanística atual, voltada para preservação da integridade do indivíduo e do meio ambiente.
Uma vez petroleiro, sempre petroleiro. O que é ser petroleiro? Primeiro, ser petroleiro é ser Petrobras, porque existem outras petroleiras. Aqui mesmo, no Rio Grande do Sul, existe a primeira refinaria do Brasil, que foi a Argos, em Uruguaiana. A segunda foi a Ipiranga, em Rio Grande. Então, quando digo petroleiro, digo petroleiro Petrobras. Ser petroleiro significa ter trabalhado, vivido e sentido a Petrobras. Sentir-se como participante, coadjuvante e ator dentro desse cenário Petrobras. Eu me considero assim. Acho que eu contribuí bastante no começo. A Petrobras contribuiu muito comigo também. Crescemos juntos, isso é ser petroleiro. MEMÓRIA PETROBRAS Foi muito bom. Acho que só não estava preparado para isso. Estava fazendo um improviso e provavelmente esqueci muita coisa. Mas acho muito bom que a Petrobras faça isso. A preservação da memória, a história de uma nação e de uma companhia é fonte de ensinamento. O passado ensina o presente e o presente é o passado do futuro.
Recolher