Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de Agnelson Camilo da Silva
Entrevistado por Mirian
Manaus, 02 de julho de 2003
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB190
Transcrito por Transkipto
00:00:41 P/1 - Você podia repedir para a gente seu nome completo, local e data de nascimento?
00:00:46 R - Eu nasci no dia 6 de outubro de 1954, Manaus, Amazonas. Cidade de Manaus, que é a capital do estado do Amazonas.
00:00:58 P/1 - Como se deu o teu ingresso na Petrobras?
00:01:01 R - O meu ingresso na Petrobras deu através de concurso público. feito em, mais ou menos, abril de 1987, e adentrei na empresa em 1º de junho do mesmo ano, 1987.
00:01:20 P/1 - Fala um pouco da tua trajetória dentro da Petrobras.
00:01:24 R - Bom, a minha trajetória se iniciou exatamente aqui nesse prédio, onde funcionava o DENOC, Distrito de Exploração do Norte, e já iniciei nessa empresa trabalhando no setor de laboratório de geologia, que funcionava pelo lado de dentro, na época era lado de dentro da refinaria de Manaus, no último prédio que era construído ali na área, que dividia a Reman e a Shell lá embaixo, que ainda pertencia a Isaac Benayon Sabah. E toda a minha trajetória dentro da empresa foi exatamente trabalhando na... Entrei como auxiliar de apoio operacional, depois passei a auxiliar administrativo, auxiliar técnico-administrativo, mas sempre desenvolvendo a função de auxiliar de apoio e depois técnico de lâmina petrográfica. Eu fiz cursos e treinamentos no centro de pesquisa, no Rio de Janeiro, num trabalho que é análise de lâminas petrográficas, como eu já disse, na área de geologia. Essas lâminas são para confirmar porosidade, permeabilidade da rocha, e é exatamente esse processo que eu sempre executei dentro da Petrobras. desde o início que eu adentrei essa empresa. Auxiliei vários geólogos nas questões sísmica, mapa, todas essas questões eu sempre trabalhei na área de geologia.
00:03:03 P/1 - Sempre aqui em...
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Depoimento de Agnelson Camilo da Silva
Entrevistado por Mirian
Manaus, 02 de julho de 2003
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB190
Transcrito por Transkipto
00:00:41 P/1 - Você podia repedir para a gente seu nome completo, local e data de nascimento?
00:00:46 R - Eu nasci no dia 6 de outubro de 1954, Manaus, Amazonas. Cidade de Manaus, que é a capital do estado do Amazonas.
00:00:58 P/1 - Como se deu o teu ingresso na Petrobras?
00:01:01 R - O meu ingresso na Petrobras deu através de concurso público. feito em, mais ou menos, abril de 1987, e adentrei na empresa em 1º de junho do mesmo ano, 1987.
00:01:20 P/1 - Fala um pouco da tua trajetória dentro da Petrobras.
00:01:24 R - Bom, a minha trajetória se iniciou exatamente aqui nesse prédio, onde funcionava o DENOC, Distrito de Exploração do Norte, e já iniciei nessa empresa trabalhando no setor de laboratório de geologia, que funcionava pelo lado de dentro, na época era lado de dentro da refinaria de Manaus, no último prédio que era construído ali na área, que dividia a Reman e a Shell lá embaixo, que ainda pertencia a Isaac Benayon Sabah. E toda a minha trajetória dentro da empresa foi exatamente trabalhando na... Entrei como auxiliar de apoio operacional, depois passei a auxiliar administrativo, auxiliar técnico-administrativo, mas sempre desenvolvendo a função de auxiliar de apoio e depois técnico de lâmina petrográfica. Eu fiz cursos e treinamentos no centro de pesquisa, no Rio de Janeiro, num trabalho que é análise de lâminas petrográficas, como eu já disse, na área de geologia. Essas lâminas são para confirmar porosidade, permeabilidade da rocha, e é exatamente esse processo que eu sempre executei dentro da Petrobras. desde o início que eu adentrei essa empresa. Auxiliei vários geólogos nas questões sísmica, mapa, todas essas questões eu sempre trabalhei na área de geologia.
00:03:03 P/1 - Sempre aqui em Manaus.
00:03:06 R - Não, eu trabalhei em Manaus, eu entrei em 87, em 1991 fui transferido para Belém, quando o distrito, o mesmo distrito que era Dnoc, passou a ser Exproper, que era a Exploração e Produção da Amazônia, mudou a sede para Belém, a sede principal, ficou um pequeno núcleo aqui em Manaus, eu fui transferido para Belém. E fiquei em Belém 11 anos. Voltei a Manaus, transferido no dia 1º de agosto de 2002. Voltei a ser transferido.
00:03:40 P/1 - Tem alguma história interessante pra contar pra gente? Alguma coisa marcante desse teu tempo de emprego?
00:03:49 R - Para mim, eu já trabalhei em diversas áreas, mas eu quando adentrei a Petrobras, como já disse, através de um concurso público, Acho que todas as pessoas têm um sonho, e o símbolo Petrobras é muito vivo na mente da população, e isso há anos, pelo respeito que o povo tem por essa empresa que pertence a ele. E eu sempre tinha vontade de trabalhar nessa empresa, tinha trabalhado inclusive na área de telecomunicações, na época, pela Amazon. E trabalhei também em indústria de café e várias outras funções. Eu exerci cargo de técnico de refrigeração, auxiliar técnico. Eu fiz diversos tipos de trabalhos que nunca eu vou deixar de me orgulhar. Mas a Petrobras era um sonho que eu tinha, como acho que todo brasileiro tem, de trabalhar nessa empresa, que é a maior empresa da América Latina. Embora todos nós saibamos que os governos que passaram, todos eles tentaram liquidar com essa empresa, ela ainda continua sendo a empresa mais respeitada nesse país e de uma potencialidade que poucos trabalhadores petroleiros, poucas pessoas da sociedade conhecem, têm o privilégio de conhecer de fato o tamanho de fato e verdadeiro dessa empresa, o que ela representa de fato para esse país e para a sociedade como um todo. E é assim que surgem as oportunidades de você trabalhar. E um concurso público que eu tive agora recentemente, um desprazer de ver um companheiro desses novos, e eu escutei uma frase dita pelo irmão dele, sábado, acho que foi 15 horas, 15h30, esse companheiro Ele sempre dizia, né, para os irmãos, para o pai, para a mãe...
00:05:58 P/1 - Desculpe.
00:06:04 R - Aí. Ele tinha o sonho de trabalhar na Petrobrás, como fez, né? Trabalhou, mas foi muito pouco com o tempo dele. E veio a falecer esse final de semana. Para a gente é uma perda, mas a gente sabe que é muito difícil. Eu não tenho muita essa questão do emotivo, mas tem hora que a gente não dá para segurar. E esse rapaz, ele veio a perder a vida dele, trabalhou muito pouco tempo na Petrobras, deixou a família e pra mim é muito ruim isso aí. Mas era o sonho dele, como de muitas pessoas também, trabalhar nessa empresa. E hoje a gente continua fazendo esse trabalho. Sou afastado da empresa, mais ou menos de 95, 96, eu fui afastado para a direção do sindicato, que eu faço parte praticamente desde que adentrei a empresa, eu faço parte da direção do sindicato, já estou no quarto ou quinto mandato aqui no sindicato e também na Federação dos Petroleiros, já estou no terceiro mandato. E continuo ver que aquele sonho que eu tive e todos os brasileiros tem de trabalhar nessa empresa, ele é muito importante, porque a gente mesmo não... com esses governos que passaram, com as gerências passadas não respeitando o trabalho que a gente sempre fez. A gente, mais do que ninguém, defende a Petrobras como as outras empresas oficiais do país. A gente defende com todo afinco, exatamente porque nós conhecemos e sabemos o que essa empresa representa. E eu estou no movimento sindical e pedi realmente para ser liberado porque tem certas coisas que a gente não pode aturar. Por ter falado algumas verdades de um ex-presidente da Petrobras, onde li um documento onde estabelecia alguns desmandos feitos na empresa, que era um gasoduto ou oleoduto que ia de Brasília a Campinas e o deputado Luciano Zica denunciou algumas fraudes e eu li essa fraude dizendo que não confiava na direção da empresa e exatamente que entendia que havia de fato a fraude que teria que ser debelado esse tipo de atitude da direção da empresa e tentar realmente trabalhar inicialmente em contratações de empresas que estavam enriquecendo na costa e no suor dos trabalhadores e do povo brasileiro. E tomei uma punição de 29 dias, mesmo depois de eu ter desenvolvido um projeto no laboratório de geologia, um projeto, um extrator onde eu operacionalizava lá um setor de fazer limpeza de rochas tirando óleo e sal e tinha perda de metanol e tolueno e eu junto com outros companheiros construímos lá um projeto onde se limitou as perdas ou quase liquidou de vez com as perdas de produtos e ao construir esse projeto quando eu retornei a Belém recebi o comunicado que estava punido 29 dias e aquilo me revoltou, me deixou bastante revoltado e talvez para não tomar nenhuma atitude incoerente é até chegar ao ponto de tentar agredir algum gerente, alguma pessoa, eu preferi ficar liberado do sindicato e continuar fazendo o trabalho que também eu gosto de fazer e continua fazendo por prazer, eu não faço por qualquer outra coisa que não seja o prazer de fazer, porque eu entendo que... seja lá onde for, ser dirigente sindical e fazendo o seu trabalho com honestidade, com humildade, desenvoltura, a gente consegue realmente melhorar as condições desse país, consegue manter ainda como estatal, embora meio esfacelada, a gente consegue manter a Petrobras como uma empresa estatal e mesmo com todas as dificuldades, embora tenha um quebrado monopólio do país, que ainda tinha esse monopólio era Petrobras, a gente continua na luta e continuou e sempre vai continuar com o projeto de evitar que liquidem qualquer empresa. oficial do nosso país. As empresas que são originadas, são criadas através do suor do povo brasileiro. E para mim é satisfatório esse trabalho, eu gosto muito de fazer o que eu faço, embora sempre gostei de executar a tarefa de técnico da área de geologia, técnico de laboratório, e mesmo desviada de função, porque eu sou administrativo e trabalho sempre numa área de laboratório, mas para mim é satisfatório. Eu sempre tive satisfação de fazer, não só aqui na Petrobras, mas onde eu passei, eu sempre procurei fazer da melhor maneira possível, cumprir com as minhas obrigações. Eu sou um camarada muito chato, às vezes. Eu sou um camarada que cobra, eu sou um camarada que faz críticas, Mas eu, antes de fazê-las, antes de cobrar, antes de qualquer outra coisa, eu procuro cumprir com as minhas obrigações da melhor maneira possível. Eu tenho dito isso para vários companheiros que, às vezes, gritam muito, mas não tem nenhuma poltrona para fazer o grito deles exatamente porque não quer cumprir com os pré-requisitos. Você tem que entender que trabalhando numa empresa você tem compromissos com ela. Você assina um contrato, você tem nesse contrato vários compromissos. Nós sabemos também que tem trabalhadores que às vezes não cumprem exatamente porque não permitem. E a Petrobras não é diferente das outras empresas. Ela trabalha muito com a com a aparência de uma empresa da iniciativa privada. Alguns gerentes ainda teimam em querer manter, manda quem pode, aquele velho ditado da gerência que manda quem pode, obedece quem tem juízo. Ainda não perceberam que os tempos mudaram, que a direção da empresa mudou, que o governo mudou, e que tem uma nova política a ser tocada. E essa política não pode mais ser feita da maneira que sempre foi, de tentar realmente desqualificar essa empresa, de tentar de fato privatizar definitivamente e entregar todo esse potencial energético, todo esse potencial aí de empresa de petróleo na mão do capital internacional. Isso pra gente é notório, A gente não tem nenhum problema de dizer isso porque eu trabalhei bastante na questão do monopólio, antes de quebrar, desde 91, indo a Brasília. Trabalhei muito lá nos gabinetes, junto dos parlamentares, para fazer esclarecimento. Nós dávamos palestras em várias escolas aqui no Amazonas, no Pará, seja lá onde que a gente esteja, a gente dava as palestras, mostrando para os estudantes, nas feiras, nas comunidades, a importância que era o monopólio estatal do petróleo, como que era o monopólio estatal das telecomunicações, como que era o monopólio estatal das águas, A gente sempre fez essa demonstração tentando buscar conhecimentos para poder fazer uma discussão ampla com a sociedade e a gente hoje vê que a empresa tem algumas mudanças. Tem algumas mudanças e a gente pretende que ela mude ainda mais. Nós não podemos mais permitir que aconteça e a gente tem que partir do princípio que sempre diziam que sindicalistas só obrigavam por salários. Isso é Boris Casoy da vida e outros que estão aí de plantão para tentar desqualificar o conjunto dos trabalhadores petroleiros. Eles sempre disseram isso, que nós somos marajás, eles sempre dizem que nós temos salários privilegiados. Isso não é verdade. Eu tive ano passado, em junho mais ou menos, nos Estados Unidos, lá em Cincinnati, uma cidade de Ohio, e participei lá de um evento de duas semanas com 350 trabalhadores de várias empresas de petróleo do mundo todo. E eu pude constatar que a gente aqui no Brasil, o petroleiro aqui, é o mendigo da indústria do petróleo. Porque nos outros países, principalmente no primeiro mundo, é uma remuneração muito maior do que o petroleiro aqui no Brasil. E o que a Petrobras fez, ou as direções da empresa fez, ou os governos que passaram, foi tentar ajudar a criar uma mística de que nós éramos trabalhadores marajás. E nós provamos com muita competência, os trabalhadores, o seu conjunto de técnicos é o maior patrimônio que essa empresa tem. conseguiu mostrar para a sociedade, conseguiu mostrar para o mundo todo o potencial que essa empresa tem. Ela conseguiu ganhar 12 prêmios internacionais lá dentro dos Estados Unidos, prêmios de offshore. Por duas vezes a Petrobras conquistou esse prêmio pela sua qualificação técnica laboral. E a gente hoje pode dizer que o maior patrimônio dessa empresa são os trabalhadores. o crime que esses governos cometeram contra esse patrimônio, a gente tem que deixar registrado. O crime cometido por Fernando Henrique, Fernando Collor, Sarney e outros que passaram de tentar liquidar essa empresa, não foi concretizado exatamente porque o movimento sindical junto com os trabalhadores fizeram uma resistência muito grande. E a greve que nós fizemos, várias, mas a greve que marcou todos os trabalhadores, marcou Esse país foi a greve de maio de 95, onde nós fizemos 31 dias de greve, que representou exatamente demissões de companheiros, representou punições de companheiros, mas que a gente vai continuar na luta, a luta está aí, a gente vai continuar nesse projeto de manter essa empresa estatal. E dizer também uma coisa que hoje a gente briga muito, eu faço parte da federação, lá o meu cargo é saúde, segurança e meio ambiente, e a gente vem brigando muito por essa questão da segurança na Petrobras. O atuário que criou o nosso fundo de pensão, Rio Nogueira, criou a Petros, ele dizia que até o ano mais ou menos de 2004, a Petrobras teria 120 mil trabalhadores. Quando eu entrei na empresa, ela devia ter 65 mil. Hoje nós temos 33 mil trabalhadores na Petrobras e o Rio Nogueira, quando fez as previsões das gerações futuras, ele dizia que nós teríamos 120 mil trabalhadores até 2004. Nós temos de fato, mas 90% são terceirizados, que é a maior causa dos acidentes. Se você quiser fazer alguma pergunta, eu vou dar uma parada porque tem um fato que eu vou relatar sobre essa questão.
00:18:11 P/1 - Seja o momento mais marcante dessa tua luta pelo lado sindical, foi essa greve em 95, esse pra você é o momento mais marcante?
00:18:24 R - É um dos momentos marcantes, eu não posso lhe dizer com toda a convicção que foi o mais marcante. Todas as nossas ações, elas marcam, ou para bem ou para mal, depende da visão que é encarada. Mas a gente pode aqui dizer que a greve foi um fato muito importante que ficou na história.
00:18:47 P/1 - Mas uma coisa mais particular aqui da região, porque essa foi uma greve nacional. Tem alguma luta, uma conquista ou não conquista?
00:18:57 R - Aqui nós temos várias lutas aqui. A indústria do petróleo na Amazônia, ela é muito mais difícil do que qualquer outra região. A luta aqui é muito mais intensa. As condições de se achar petróleo aqui na região é muito mais difícil. E quando eu digo que a qualidade técnica, ou os trabalhadores, os técnicos dessa empresa, é o maior patrimônio, e isso é verdade, você pode constatar aonde é que a gente foi encontrar petróleo, na província petrolífera de Urucu, aonde você realmente pôde estabelecer a criação da Petrobras aqui na Amazônia, depois aqui da Reman, que é a refinaria de Manaus, que antes pertenceu a Isaac Benayon Sabá, até 1956. e hoje pertence a Petrobras, depois de 56, você vê a diferença que tem. Mas as dificuldades são tremendas. As questões geográficas são mais difíceis. As questões geológicas também são muito ingratas. Você tem dificuldade de adentrar, como se adentrou na selva amazônica, no centro da selva, para encontrar petróleo. Onde você só chega é com rapidez, através da aviação. você vai poder constatar das dificuldades que o trabalhador tem de passar 10, 15, 20, até 60 dias lá dentro da selva, que são os trabalhadores terceirizados e algumas empresas passam esse período. Todas as dificuldades são encontradas aqui na nossa região. Como eu já disse, tanto faz ser geográfica como geológica, as dificuldades são maiores. E o marco para a gente é a qualidade técnica desses trabalhadores, a resistência dos trabalhadores que vieram aqui para a Amazônia, lá atrás, que tinham uma dificuldade muito maior. Eu costumo sempre falar em alguns companheiros. Eu não posso esquecer o companheiro Armando Lucena, que é um aposentado hoje com 80 anos. Eu não posso esquecer do companheiro Carlos de Sá Pereira, lá do Pará. que até hoje, aos 74 anos, é dirigente do sindicato. Eu não posso esquecer dessa história de luta que é aqui na Amazônia, do conjunto dos trabalhadores petroleiros, da luta e da dificuldade que teve os sindicatos em organizar essa categoria aqui na região. A discriminação, até você ver a discriminação por parte do Sul e Sudeste, Muitas das vezes a gente tem que se impor para poder realmente mostrar que aqui tem, embora o pensamento das pessoas de não são todas, que aqui na Amazônia tem índio, isso para mim não é nenhuma discriminação porque nós somos descendentes deles. tem a miscigenação, mas o principal fator são os índios, são eles que são os primitivos do nosso país e aqui a gente não pode ficar renegando se você é chamado de índio ou caboclo, qualquer coisa. Isso só para você ver o montante das dificuldades que todos nós temos aqui. para desenvolver o distrito hoje que tem aqui, embora eu seja contra da maneira como está sendo feita na Petrobras, trazendo aqui essa logomarca de NBSOL ou NREMAN. Para mim sempre tem que ser usado o estigma que virou esse nome que é Petróleo Brasileiro ACA e tem que ser Petróleo Brasileiro ACA, Petrobras Regional Norte, para não ficar usando esse negócio de unidade de negócios, que isso aí divide a empresa em várias empresas e é muito ruim até para se trabalhar. Você visualiza muito as que têm mais dificuldade e as que têm menos dificuldade. Isso para a gente não é bom. Quando eu me dispus a fazer essa entrevista, É exatamente porque eu precisava dizer algumas coisas no sentido de mostrar para essa nova direção que está aí, que eu sei que tem uma outra filosofia, tem um pensamento que... não é igual dos que passaram, que se realmente eles quiserem, eles mudam e vão tornar essa empresa, também aqui na região norte, uma empresa de qualidade, uma empresa até de lucrativa, que ela sempre foi, mas que para a gente não é o principal fator, o fator realmente é o abastecimento para a população, foi para isso que ela foi criada, com menores custos, como eu falei, quebraram o monopólio, em nome de concorrência e competitividade. E, ao concorrer, você percebe que, hoje, o preço da gasolina, o preço do gás de cozinha, principalmente, o preço do óleo diesel foi lá para cima, internacionalizaram os preços e está aí na ordem do dia. O governo não tem o poder de chegar lá e decretar, como na energia, por exemplo. A energia está lá em cima, o preço, Como está privatizada, os homens determinam os valores da eletricidade, os valores da telefonia e também hoje querem digitar regras aqui no nosso país, como liminares que aconteceu agora recentemente aqui com o juiz Lafayette Coutinho, onde dificultou a questão do preço aqui. Tinha um preço bem mais baixo do que o país todo e de repente saiu uma liminar que não podia vender abaixo de R$ 2,15. um negócio absurdo no nome que eles pregavam da competitividade e os preços iriam baixar. Pelo contrário, hoje a gasolina está... enquanto no governo da FHC os salários subiram em torno de até 85%, nesse mesmo período os combustíveis chegaram a subir perto de 300%. E isso a população precisa saber para ela realmente conhecer profundamente. E é importante que nós, dirigentes sindicais, os trabalhadores petroleiros, pessoas como você e outras, realmente façam esse tipo de trabalho e que dê conhecimento aos seus verdadeiros donos. Porque o problema das empresas estatais, a desqualificação que as pessoas tentam passar a imagem de uma empresa desqualificada, ela só acontece exatamente porque nós não temos um trabalho de uma grande plenitude, um trabalho bem feito que venha demonstrar o que representa essa empresa para todos os trabalhadores. E só para relatar essa questão das dificuldades, no meio da selva nós temos companheiros ali convivendo com flora, com fauna, companheiros que sumiram, sumiu definitivamente. Temos casos de companheiro que até hoje o corpo não apareceu, esse caso está até na OIT, fiz uma denúncia, documentação, entregue pelo companheiro Carlos Espis, lá em Genebra, na Suíça, e foi colocado lá o sumiço desse companheiro. Outro companheiro caiu no rio, sumiu. Outro companheiro vai, some, ninguém sabe se é engolido por alguma cobra. O pessoal acha até graça quando a gente diz isso, ou engolido por uma onça, seja lá o que for. E os acidentes que ocorrem dentro da empresa, eu estava colocando isso ainda há pouco, e eu disse que ia relatar. Esse é um dos fatores que acontecem aqui na Amazônia com maior ênfase. dentro da província petrolífera de Urucu e outras unidades da Petrobras aqui na região, como Itapiranga, Silves, Rio Preto da Eva, outras localidades onde a Petrobras também desenvolve seus trabalhos. A gente coloca isso aqui com toda tranquilidade porque nós aqui como região somos uma uma região muito esquecida pelos governantes. A gente tem aqui, a única coisa que a gente tem que funciona um pouquinho é a Zona Franca de Manaus, senão isso aqui era um porto de lenha. Nós vemos aqui o estado do Pará, por exemplo, aí relegado a terceiro plano. E os dois maiores estados da federação, os estados produtores de ouro, ferro, manganês, petróleo, a biodiversidade da floresta amazônica na ordem do dia. E a gente ainda passa discriminações, a gente passa aqui, chega a população aqui da nossa região passar fome. E isso a gente não pode compactuar. Eu, particularmente, entendo que esses projetos aí de fome zero, fome não sei o quê, não vai funcionar e não funciona nunca. Porque o princípio não é primeiro matar a fome, o princípio é educar. E a gente não tem uma adequação a priori, nós não temos saúde para o conjunto da sociedade. Isso a gente fica fazendo essas discussões de, olha, vamos aplicar isso. Para mim, são equívocos. Nós temos um livro, nós temos uma carta magna, E se você ler, abrir, você vai ver o que está escrito. Todos nós temos conhecimento, mas a população, na sua maioria, não tem, que lá está colocado. Todas as necessidades básicas terão que ser providas pelo governo. E a gente não consegue reverter o número, o montante de impostos que nós pagamos, que chega a gente, trabalhador principalmente, consegue pagar até 55% de imposto. tudo que a gente consome está pagando imposto. Então, toda essa dificuldade aqui na nossa região, tanto faz-se na área do petróleo, como na indústria de qualquer uma outra atividade, as dificuldades são maiores, muito maiores. A gente tem como principal meio de transporte aqui as vias navegáveis. A gente tem dificuldade aqui de médico, nós temos dificuldade de grandes educadores, nós temos várias dificuldades maiores que nas outras regiões não tem. Mas eu vejo que é com brilho que a gente vê esse estado crescer, a gente vê as condições aqui da Amazônia afluir para o mundo todo, exatamente pela capacidade, pelas condições, pela fortaleza que é o Caboclo-Amazônia. O caboclo amazônico é resistente, ele enfrenta várias adversidades, como malária, outras doenças endêmicas e tropicais e continuam resistindo. Isso aí não é privilégio só da Petrobras, não. É de todas as empresas, de todo o povo amazônico. E a gente vê como todo. Eu costumo dizer que eu não seria diretor, eu não seria sindicalista se fosse para defender petroleiro só. A minha função como sindicalista é defender a sociedade como todo, é defender o conjunto dos trabalhadores, seja lá de que empresa seja, seja lá de que sociedade ele pertence. A gente tem que estar atento para defender todo o conjunto e evitar os desmandos que vêm acontecendo há 500 anos nesse país. Se você tiver perguntas, pode fazer.
00:29:53 P/1 - Não, só por efeito de curiosidade, essas histórias que você está contando pra gente, assim, de sumiço de trabalhadores, em seus locais de trabalho, quer dizer, existem coisas comprovadas, alguma história comprovada de, sei lá, uma onça matou, ou some e você acaba sem saber?
00:30:15 R - Quando eu fiz o relato do sumiço, se você procurar a direção da empresa aqui na região, você vai ver que eles não têm nenhum documento que concreto, que diga o que aconteceu. Sumiu e sumiu. Não encontrou o corpo. foi dado como morto. Ninguém tem nem, não, nós não temos, nós não podemos aqui afirmar que a onça comeu, a cobra comeu, você pode afirmar, mas você pode ter a ideia de que pode ter acontecido, porque você, você já foi em Urucu?
00:30:54 P/1 - Não.
00:30:54 R - Você precisaria ir como companheiro ali também, e outras pessoas, para você ver como é que é a diversidade que existe ali, é flora, fauna e o homem. no centro da selva, você pensa que está na cidade, porque tem todos os fatores de uma cidade, mas você está rodeado não por prédios, não por edifício, é por árvores, é por animais, e aí tem todos os tipos de animais, porque é selva virgem, só tem lá aquele... você viaja uma hora e quarenta minutos numa aeronave dessas aí, até R-45, e você de repente está como se fosse em cima do mar, só que o mar verde, de repente abre aquela clareira, aí está a província de Urucu. E quando a gente diz que pode ter sido isso, é a única coisa que pode ter ocorrido. Pode ser que com outro fator ele sumiu na selva, mas teria o encontrado, porque o exército foi colocado, exército para procurar, várias pessoas fizeram procura lá, intensiva, semanas procurando e ninguém encontrou o mínimo vestígio desse companheiro. O outro que caiu no rio também, esse aí foi mais... sumiu e não apareceu até hoje. Então, a gente tem comprovado que sumiu. Agora, o que aconteceu, de fato, nós não podemos afirmar que a onça comeu. Isso é uma questão de raciocínio. A gente raciocina quem pode engolir um homem aqui, quem pode matar um homem. Ou uma onça, que é um animal mais feroz, ou uma cobra sucuri, que tem a potencialidade de desossar todo o homem ou retorcê-lo, fazer com que diminua para que ela engula o ser humano. Isso é verdadeiro, todos nós sabemos aqui na região, embora passe até como história de caronchinha, mas não é. Quem conhece a diversidade dessa floresta amazônica, ele sabe que ela tem todos esses riscos. tanto o risco como a beleza que ela tem, como a biodiversidade que ela tem, como a influência que ela tem na questão até do clima, em todas essas questões. Não é aquela questão de a floresta amazônica é o pulmão do mundo. Isso é mentiroso. O oxigênio que a floresta amazônica produz, ela usa, ela consome e nem dá pra ela ir em alguns locais pra se autossustentar. Então, essa questão de americano, francês dizer que a Amazônia é a pulmão do mundo, o pulmão tá em outro fator, muito diferente, que é a biodiversidade dessa floresta que eles querem. Por isso, eles querem anexar ela como patrimônio mundial, exatamente pra ter o poder de domínio completo aqui da nossa região e isso a gente não vai eu quanto dirigente sindical junto com outros companheiros que eu costumo dizer sempre nós eu não gosto muito dessa palavra eu porque Eu nunca aprendi nada. A gente, junto, em conjunto, em coletividade, a gente consegue construir, a gente consegue realmente aprender e avançar na melhoria de toda a sociedade, não é só da sociedade petroleira, que, volto a repetir, mendigo da indústria do petróleo, mas que tem uma situação menos ruim do que a maioria da nossa população, que continua a passar fome num país, como eu já disse, onde tem tudo que sobra. Hoje o que produz esse país dá para sustentar todo o Brasil e a metade da América Latina. Só para ter uma ideia, a gente continua naquela ideia que tem que pagar os juros bilionários aos bancos internacionais e a população é que arca com todas as consequências.
00:34:41 P/1 - A gente está terminando o nosso depoimento, eu queria saber o que você achou de ter participado do projeto e o que você acha desse projeto que é uma parceria do sindicato com a empresa para contar a história da empresa pela visão dos seus trabalhadores.
00:34:57 R - Eu não gosto da palavra parceria porque não é bem esse termo, não gosto, mas eu acho importante que tenha os dois polos trabalhando com posições diferenciadas, às vezes, politicamente, mas para que o efeito seja um efeito benéfico, a gente entende que é muito importante. É muito importante que tenha esse tipo de trabalho para começar a demonstrar a história que é esse projeto que vocês estão fazendo, vai mostrar realmente de fato a história, quem viveu essa história. Eu estou aqui dando essa entrevista porque fui consultado alguns dias e eu sou bastante ocupado lá com a federação, outros problemas. Estava muito ocupado com a situação desse companheiro que morreu, que é um companheiro novo e tem problemas, ele não tem todos os direitos que os outros têm. E eu me predispus a vir fazer esse pronunciamento exatamente que é para, através dele, a gente demonstrar que nós não somos pessoas ingratas para esse país. Nós queremos construir. Nós não podemos aceitar matérias, igual saiu na última semana lá no exame, desqualificando completamente os dirigentes sindicais. Seguro, eles chamam lá o título da matéria Alto grau de risco, uma coisa assim, na nova direção da empresa é alto grau de risco, porque está sendo dirigida por dirigentes sindicais. Mas eu quero deixar registrado aqui que nós somos, eu e os outros companheiros todos, nós somos dirigentes sindicais por convicção, nós temos ideologias e queremos realmente a construir e melhorar a situação dessa empresa. A gente não entende que ela tenha só que gerar lucro, a gente quer que o lucro dessa empresa seja revertido em benefício da sociedade como toda. nós não podemos aceitar que uma parte da sociedade coma e a outra parte passe fome, uma parte da sociedade estude e a outra parte fique leiga, uma parte da sociedade tenha saúde e a outra morra amigo. Isso a gente não pode aceitar e eu quero aqui deixar registrado que é de vital importância, eu acho, Eu não achei porque eu não sou geólogo. Eu tenho absoluta convicção nas coisas que eu faço. Às vezes erro, às vezes acerto, mas eu não acho. Eu tenho absoluta convicção nas coisas. Eu penso que esse tipo de trabalho feito como está sendo feito, se ele realmente for colocado da maneira que está sendo proposto, é de vital importância para melhorar tudo. Até parabenizo vocês e o conjunto que fez esse tipo de trabalho. As pessoas que organizam, às vezes, não percebem tudo o que acontece na história. A gente também tem que refrescar a memória de alguns para poder não esquecer as pessoas mais importantes, de todo esse movimento aqui na região. Tem um ali que tá se negando a dar entrevista, eu vou fazer a questão que ele desse, que é o Vivaldo. Embora tenha algumas discordâncias no posicionamento dele, ele é uma das histórias vivas aqui da região, como é Carlos de Sá Pereira ou Armando Lucena e outros que no momento aqui eu não me lembro, mas que eu tenho a mesma importância, mesma importância de todos os outros companheiros que eu estou citando com ênfase, o Carlos Tapirira, que pra mim tem sido um mestre, tem sido um pai, tem sido um amigo, tem sido tudo e tem sido companheiro de luta aos 74, a gente trabalhando junto, pra mim é um privilégio aprender com esses senhores e fazer com que, de fato, mude o rumo desse país e definitivamente deixe de pagar banqueiro, para dar as assistências básicas a esse país, que é educação, saúde e comida.
00:38:51 P/1 - Muito obrigado também.
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