Entrevista de Adriana Martins da Silva.
Entrevistada por Felipe Rocha (P/1) e Estfani da Costa (P/2).
São Paulo, 28 de março de 2026.
Programa Conte Sua História.
Entrevista nº: PCSH_HV1518_parte2.
Revisado por Julia Cariatti Leandro.
R- Obrigada, eu.
P/1 - Primeiramente, agradecer aqui pela disponibilidade, pelo tempo, por compartilhar aqui com a gente.
R - Eu é que agradeço por estar aqui, por vocês estarem me dando essa oportunidade de as pessoas saberem mais um pouquinho quem é a Adriana Dagmar.
P/1 - Então, vou aproveitar e pedir para ti, para falar o seu nome completo, o local e a data de nascimento.
R - Atual ou o local onde eu moro atual?
P/1 - O local de nascimento e a data.
R - Ah, desculpa. Então, meu nome é Adriana Dagmar, eu sou nacional da Paraíba, nasci em Solânea. Atualmente, eu moro aqui no bairro da Liberdade, na Barão de Iguape, 897.
P/1- Maravilha! Vou voltar um pouquinho para a gente ir lembrando algumas coisinhas. Eu queria que você falasse, se você lembrar sobre os seus avós, você lembra alguma coisa dos seus avós? Quem eles eram?
R - Difícil de não lembrar, não ter como, até mesmo porque o que eu carrego comigo é herança dos meus avós e dos meus bisavós e tataravós. Como você já deve ter lido, eu sou uma das rezadeiras do Terço de Maio, aqui em São Paulo há 25 anos. Inclusive agora é dia 30, no próximo sábado, é o encerramento do terço que é rezado durante 31 dias, fecha com a coroação de Nossa Senhora, a queima das flores, lanternas e bandeiras. Esse texto é uma herança dos meus avós, que eu aprendi a rezar convivendo com eles. Inclusive, no ano passado eu ganhei um livro o qual esse livro vem de geração para geração. Eu não sei exatamente quantos anos tem, aliás, séculos, porque vem dos meus tataravós e veio passando de geração em geração. Imagina, se a minha avó faleceu com 96 anos e passou para a minha tia, que faleceu ano passado com 80 anos, e agora esse livro...
Continuar leituraEntrevista de Adriana Martins da Silva.
Entrevistada por Felipe Rocha (P/1) e Estfani da Costa (P/2).
São Paulo, 28 de março de 2026.
Programa Conte Sua História.
Entrevista nº: PCSH_HV1518_parte2.
Revisado por Julia Cariatti Leandro.
R- Obrigada, eu.
P/1 - Primeiramente, agradecer aqui pela disponibilidade, pelo tempo, por compartilhar aqui com a gente.
R - Eu é que agradeço por estar aqui, por vocês estarem me dando essa oportunidade de as pessoas saberem mais um pouquinho quem é a Adriana Dagmar.
P/1 - Então, vou aproveitar e pedir para ti, para falar o seu nome completo, o local e a data de nascimento.
R - Atual ou o local onde eu moro atual?
P/1 - O local de nascimento e a data.
R - Ah, desculpa. Então, meu nome é Adriana Dagmar, eu sou nacional da Paraíba, nasci em Solânea. Atualmente, eu moro aqui no bairro da Liberdade, na Barão de Iguape, 897.
P/1- Maravilha! Vou voltar um pouquinho para a gente ir lembrando algumas coisinhas. Eu queria que você falasse, se você lembrar sobre os seus avós, você lembra alguma coisa dos seus avós? Quem eles eram?
R - Difícil de não lembrar, não ter como, até mesmo porque o que eu carrego comigo é herança dos meus avós e dos meus bisavós e tataravós. Como você já deve ter lido, eu sou uma das rezadeiras do Terço de Maio, aqui em São Paulo há 25 anos. Inclusive agora é dia 30, no próximo sábado, é o encerramento do terço que é rezado durante 31 dias, fecha com a coroação de Nossa Senhora, a queima das flores, lanternas e bandeiras. Esse texto é uma herança dos meus avós, que eu aprendi a rezar convivendo com eles. Inclusive, no ano passado eu ganhei um livro o qual esse livro vem de geração para geração. Eu não sei exatamente quantos anos tem, aliás, séculos, porque vem dos meus tataravós e veio passando de geração em geração. Imagina, se a minha avó faleceu com 96 anos e passou para a minha tia, que faleceu ano passado com 80 anos, e agora esse livro chegou às minhas mãos. Então, quantos séculos tem esse livro? Inclusive, era para mim ter trazido ele, mas assim, como eu estava conversando ali com a minha amiga, não trouxe o rosário, não trouxe porque eu aprendi a rezar contando nos dedos. E até hoje, mesmo tendo o rosário em mãos, ainda continuo. Quando você me vê rezando, eu estou contando nos dedos, que eu lembro que quando eu era criança, eu prestava muita atenção, os meus avós começavam a rezar e eles ficavam contando nos dedos.
P/1 - Vou aproveitar, então, o que você falou desse livro. Você lembra a primeira vez que viu esse livro na vida?
R - Lembro. Quando eu me entendi por gente, mais ou menos eu tinha uns cinco anos, e o meu avô abria ele em frente ao oratório para começar a cantar. Chama-se Inário. Eles moravam num sítio chamado Filgueira.
P/1 - Você pode falar mais um pouquinho sobre seus avós? Como que era esse sítio?
R - Esses avós, vamos lá. Um dos hinos fala-se das flores. Das flores vermelhas, só que lá a gente conhece como encarnada. Amarela, branca e rosa. E essas flores eram plantadas em volta da casa. Quando chegava a época do meio de maio, todos os dias, meus avós costumavam tirar uma flor, que é para deixar no altar, para essas flores serem queimadas no último dia. Não pode cultivar. Tem que deixar lá no altar, igual eu faço aqui. As pessoas que vão durante o mês, elas levam, fazem assim, um tipo de um, pede a graça que quer alcançar, deixa lá no altar, para no último dia elas estarem secas para serem queimadas. Então, voltando lá atrás, as flores eram plantadas em volta de casa, não tinha exatamente o quintal ou varanda, era em volta da casa. Em volta da casa dos meus avós tinha também outros pés de frutas, eu lembro que tinha manga, além das flores, é claro, tinha manga, tinha mamão, Isso em volta, porque descendo mais para baixo tinha a vazante, que é onde se plantava batata, cana e tudo, feijão, milho e etc. Passei a maioria da minha infância, fui criada com meus avós. Por quê? Porque meus avós moravam em um lugar onde era brejo. Chovia, era tudo verdinho. E lá para o lado de Casserengue, que na época era município de Solânea – Solânea era a cidade, Casserengue era o município –, quando chegava mais ou menos no mês de setembro, começava a ficar seco. O que acontecia? Minha mãe me levava até o sítio, porque lá não tinha isso. Até hoje, né? Ainda continua tudo lá é verde.
P/1 - Então, você frequentava bastante a casa dos seus avós? Principalmente nesse período…
R - Sim, sim. Devido a isso.
P/1 - Aproveitando que você falou, eu queria que você falasse um pouquinho sobre os seus pais, então. Você sabe como eles se conheceram?
P/1 - Meus pais? Vamos lá. A minha mãe vem de uma família de rezadeiras. Segundo a minha avó, eu não conhecia a minha avó materna, aliás, eu não conhecia a minha bisavó materna, mas eu conhecia a minha bisavó paterna. Mas a história que eu vou contar é da minha avó materna. A minha bisavó foi encontrada no mato quando criança. É como se tivesse uma aglomeração de índios e aconteceu alguma coisa e eles foram embora e esqueceram aquela criança. Então, alguém foi e encontrou a minha bisavó no mato. Viu? Então, a família da minha mãe era uma família de rezadeira. E naquela redondeza ali do Filgueira até chegar em Casserengue, a família que costumava juntar as pessoas para rezarem, tirar a novena, terço, era a família dos meus avós maternos. Então, eu acredito que a família do meu pai, que morava no mesmo sítio, participava das novenas e do terço, e foi assim que o meu pai conheceu a minha mãe. Eu cresci mais ou menos ouvindo isso, viu?
P/1 - Antes de a gente falar um pouquinho sobre a casa de suas avós, como que era a sua casa?
R - A minha casa? A minha casa era uma casa de barro, onde meu pai era, porque meu pai já faleceu, meu pai faleceu faz 27 anos, vai fazer. E o meu pai era um homem muito caprichoso. Mesmo sendo de barro, ele procurava deixar as paredes bem lisinhas. Ele pegava um pedaço de tábua, amassava aquele barro e deixava as paredes bem lisinhas. Nós éramos de uma família muito humilde, ele queria aquelas paredes não da cor de barro, principalmente nas laterais. Ele pegava o cal, juntava na água para pintar, ficar mais ou menos branco, porque, na verdade, não ficava branco, ficava um branco meio acinzentado. O meu pai era coveiro e me ensinou a cavar covas. Eu sei cavar covas. Mesmo criança, nos meus sete, oito anos, quando chegava o final de mês, que ele ia receber o pagamento na cidade de Solânea, ele me deixava na responsabilidade de, se morresse alguma pessoa, eu fizesse o enterro. Era assim que falava. Imagina eu ficar com essa responsabilidade. E eu só poderia enterrar a pessoa, o defunto, aliás, se os familiares trouxessem aquele documento que faz depois que morre, né? Nossa, eu quase apanhava, na maneira de dizer, porque tinha gente que não tinha dinheiro para fazer essa documentação. E queria enterrar o parente, o familiar ou o amigo, e eu ficava ouvindo, pedindo a Deus que meu pai chegasse para assumir esse compromisso que era dele, porém ele me deixava com essa missão. Mas o bom, entre aspas, foi que eu aprendi a enterrar, a velar… E foi ali que começou tudo, onde eu comecei a entender que eu sou e era uma mestre de saber. Porque, a partir do momento que você vai colocar um pai, ou um irmão, ou um filho, você tem que fazer aquilo com carinho. Porque a terra do cemitério lá de Casserengue era uma terra cheia de pedra. Aí, pensa bem, você coloca aquele caixão, que na época era um caixão frágil, não é agora que é de tábua, quem tem condições, cada um que tem um caixão mais chique, não. Na época era um tecido fininho. Então, na primeira pá que eu jogava em cima do defunto, já descobria o rosto. Então, eu percebia que eu tinha que ter um certo cuidado, porque mesmo a pessoa estando morta, já pensou um filho ou um pai ver aquela pasada de terra na cara? Era outro choque, outra dor. Então, eu tinha todo esse cuidado, mesmo sendo uma criança com seus 7, 8, 9, 10, 11 anos.
P/1 - E você lembra a primeira vez que você precisou enterrar alguém?
R - Olha, Mesmo o meu pai estando presente, eu costumava seguir ele ao cemitério. Eu sempre acompanhava o meu pai em tudo. Eu comecei a trabalhar na roça muito cedo. O meu pai encamava, não sei se você sabe, leirão. Isso quem faz é uma máquina que se chamava capinadeira. Encamava as terras. Então, meu pai me ensinou a fazer isso com a enxada. Então, para mim, eu via, só que era diferente uma coisa o meu pai estar presente, outra era eu estar sozinha, mas eu sempre o acompanhava. Inclusive, lá até hoje, onde eu continuo, lá a gente percebe por ser uma cidade pequena, diferente de São Paulo, mas quando morre uma pessoa, parece que uma sai puxando as outras. Então, ele costumava deixar uma, duas, três, quatro covas abertas. Sabe o que eu fazia com essas covas? Eu entrava para dentro das covas, ficava deitada lá fingindo que era uma morta. E outra coisa, sempre o meu pai tomava café às nove horas da manhã. Ele costumava levar bolacha, levar rapadura para comer, e eu comia sentada dentro da cova sem nenhum receio. Dentro do cemitério, ou nascia naturalmente, pé de goiaba, pé de mamão, e eu pegava aquelas frutas e ficava comendo. Então, assim, eu cresci vendo também quando eu não estava no sítio, que estava na casa dos meus pais, eu fazia isso. A minha mãe foi uma das primeiras professoras também. Viu a minha mãe? Ela é uma professora aposentada. Lá, a cidade, a família, além de ser as primeiras pessoas que começaram a rezar o texto, foi as primeiras pessoas que começaram também a dar aula. A minha tia era diretora. Depois, como começou? A minha mãe começou assim. Por necessidade e sabedoria, ela conversava com as pessoas que tinham filhos para ela ensinar o alfabeto, como se dizia lá, que eu não esqueço, não tem como negar a minha origem, alfabetizava. Então, assim, a minha mãe pegava uma mesa, colocava quatro a cinco crianças e o pagamento era a pessoa dar ou um quilo de farinha, ou um quilo de feijão, ou um quilo de fava, ou uma galinha, esse era o pagamento. Com o passar do tempo, o povoado virou cidade, E o prefeito contratou a minha mãe para ser uma professora do grupo, que hoje não é mais grupo, hoje se tornou a Prefeitura da cidade. E minha mãe também, tá? A minha mãe ia receber o pagamento dela, e quem ficava dando aula? A Adriana. A Adriana. Só que, antes de você me perguntar, como sonho de todos os nordestinos, paraibano, eu também tinha um sonho de conhecer São Paulo. Tudo bem?
P/1 - Vamos chegar lá.
R - Sim.
P/1 - Aproveitando aí, você falou um pouquinho da sua mãe, do seu pai. Falamos sobre a casa. Então, você estudou nessa escola que a sua mãe dava aula, eventualmente.
R - A minha tia, que era diretora, ela era minha professora. Viu? Ao mesmo tempo que a tia era diretora, ela era professora e foi minha professora. E hoje, eu conheço um monte de pessoas que viraram juízes, advogados, professores, e eu digo assim, olha, se você fosse aluno, sabe quem te alfabetizou? Foi a minha mãe. E muitos que hoje estão, como é que se fala, com diplomas, passaram também pela minha mãe. Eu venho de uma família de seis irmãos, sete comigo, eu sou a mais velha, são quatro mulheres e agora três, três homens, porque, infelizmente, na mesma época que o meu cunhado faleceu, o meu irmão também faleceu. Então, eu e meu marido ficamos quites na dor. Uma diferença de um mês e pouco. Ele faleceu aqui em São Paulo.
P/1 - E com seus irmãos, como que era a convivência lá na casa? O que vocês gostavam de fazer na infância, quando você não estava ajudando seus pais?
R - Quando não estava, né? Que raridade. Graças a Deus, acabei de comentar, nós somos uns irmãos muito unidos, só que hoje a gente dá risada e ao mesmo tempo a gente fica triste porque ser filho de pessoas muito humildes não foi fácil. Você sabia que eu tinha que andar mais ou menos 60km para comer um pão? Com a minha avó paterna. Imagina você caminhar para ir até essa cidade chamada Arara para comer um pão. Tá, comi o pão, se saciava. Na minha idade, enchia a barriga. Mas imagina voltar tudo a pé novamente. Então, quando eu chegava em casa, já estava com fome. O meu pai, todos os dias, ele comprava uma solda. Não sei se você sabe o que é uma solda. Uma broa. E aquela broa, ela era dividida para as crianças pequenas. Então, eu, por exemplo, eu ficava olhando. Viu? Eu não tenho vergonha de contar. É tanto que eu cresci, eu mandava muito assim pro universo. Um dia Deus vai me dar com o quê? Pra mim poder comer tudo aquilo que eu quiser. Tudo que eu quiser. E hoje, graças a Deus, hoje na maneira de falar, né? Que graças a Deus isso ficou bem pra trás. Tudo que eu quero comer, eu vou lá e como. Por quê? Porque ficou na mente, né? É uma coisa que não tem como não carregar. Não só a comida, mas como as roupas, o sapato. Eu vi essa semana, ontem, eu achei uma foto minha que eu estava comportadinha na roupa, porém com os pés descalços. E os meus dois irmãos estavam com os pés no sapato, mas a roupa não estava composta. Porque minha mãe caçou um e vestiu o outro, você entendeu? Mas, graças a Deus, com o tempo, minha mãe, como entrou na Prefeitura, como eu lhe falei, foi… E meus irmãos pegaram destino, né? Começaram a cada um tentar sobreviver, para ajudar em casa também.
Para voltar lá no sítio, do sítio Filgueira, pra aguar essas flores, o meu avô cavou um poço, mas a gente não chamava de poço. Até hoje eu o conheço como barreiro. É um buraco, só que não tem córrego. A água que junta é a água que cai das nuvens mesmo. Só que a água ficava tão escura, cor de barro, Eu lembro que eu pegava um pote, ia lá com um pano de prato, colocava no pote para pegar aquela água com caneca, colocar naquele pote. Um, dois, três dias aquela água estava sentada para a gente beber. Então não posso esquecer a história do barreiro. E desse barreiro era onde aguava as flores. Só que para beber, às vezes, andando… aqui na casa do poeta tem uma cartografia que foi dada pelo J. Borges, pro Sebastião Marinho, que é uma mulher num burro, com uns caçoais e uns potes. Aí eu olho assim e me invejo, porque o meu avô me colocava naquele burro, no meio, para ir buscar água. Então, me faz lembrar muito esse painel que tem lá, que o J. Borges deu para o Sebastião Marinho de presente.
P/1 - Eu queria saber um pouquinho mais, Adriana, sobre... Você falou bastante dessa questão sobre a transmissão da reza na sua família. Eu queria que você falasse um pouquinho sobre como que se deu. Você vem dos avós, passou para os seus pais, e aí até chegar em você, como que é essa transmissão? Como que é?
R - Então, disse que... Eu bem pequenininha, pequenininha assim, não cresci muito. O meu avô começava, eram 14 irmãs, e o meu avô também tocava violão, viu? Ele, sanfona, e eles começavam a rezar, imagine, diz que eu me ajoelhava lá, E eu começava a rezar, a cantar junto com eles. Sempre eu gostei de conversar muito. Até hoje eu gosto de falar muito. Para mim não é problema nenhum falar. Nisso eu cresci, minha mãe me teve, é claro. Eu fui crescendo e fui vendo a minha mãe sendo chamada para rezar nas casas. E eu acompanhava também. Quando cheguei aqui em São Paulo, posso falar? Quando cheguei aqui em São Paulo, vou contar que, no primeiro dia, conheci o poeta Sebastião Marinho, mas depois você me pergunta. Pulando. Ele fez uma promessa, o Sebastião Marinho conhecia a minha família, porque ele cantava lá quando era jovem, E ele participava também das novenas. Em 2000, o Sebastião passou por uma enfermidade e ele fez uma promessa. Olha só, me comprometeu, né? Porque ele fez uma promessa para ele, que quem está pagando sou eu, até hoje a promessa. E ele lembrou que eu sou filha de rezadeira, então, por eu ser filha de rezadeira, eu saberia rezar. Daí ele me fez esse… Ele me chamou, falou assim, Adriana, aqui na casa já acontecem as cantorias, já acontecem os forrós, por que não o Terço de Maio? Porque é um pouco da nossa cultura. Você foi criada ouvindo seus pais e seus avós fazerem isso. Você não quer rezar? Eu pensei um pouquinho, isso foi há 25 anos atrás, 2001. Pensei um pouquinho para responder. Aí eu falei, mas, Curu, o Sebastião Marinho tinha o apelido de Curujão. E eu, para não falar a palavra, é até um pouco, né. Porque curu, eu falei assim, curu, deixa eu pensar um pouco, porque eu não tenho comigo os hinários. Porque lembro que eu herdei faz um ano, que minha tia morreu com 80 anos, e ela tinha falado para mim, Adriana, o ano retrasado que eu estive lá, ela estava viva. E ela falou assim, quando eu... Eu pedi o livro, eu falei assim, tia Carminha, me dê esse livro. Aí ela falou, quando eu morrer, ele é seu. Eu falo pra sua mãe, nossa, nem sabia ela que morreria no ano seguinte. Agora tá comigo, porque a minha mãe mandou, ela é uma amiga que viajou e minha mãe mandou. Aí eu falei, Curu, eu não tenho os hinários, o que é que eu faço? Aí ele falou assim, você vai ir até a Paraíba, você vai procurar alguma rezadeira que tenha esse hinário pra passar pra você. E assim eu fiz. Eu fui até a Paraíba procurar uma pessoa que tivesse esse, para me trazer, para começar. E deixa eu te falar que não foi fácil, porque naquela época, em 2001, a cidade de Casserengue ainda não tinha tanta facilidade com pessoas que tinham impressora, computador, e quem me cedeu o livro guardava um tanto também, assim. Na cabeça dela, acho que, se ela xerocasse para mim, era como se eu estivesse pegando o original dela ou se fosse tomar a missão dela, sendo que era aqui em São Paulo. Daí, quando falei da casa do poeta, mudou de figura. Falei, O apelido dela é Galega. Até porque eu falo que sou a Galega preta de São Paulo, porque ela é branca lá. Aí eu falei assim, Galega, eu vou rezar na casa do Sebastião Marinho. Então, Sebastião Marinho é um nome, quando você fala até hoje, você fala do Sebastião Marinho, então tudo muda de... Aí ela foi e falou, tá bom. Então, eu peço para alguém xerocar para você. Tadinha, ela deve ter gastado um x-valor, porque ela teve que se deslocar de Casserengue. Eu não sei se ela foi até Guarabira ou até mesmo Campina Grande para xerocar. E me deu as cópias desse hinário. Eu trouxe para São Paulo, entreguei nas mãos de Sebastião Ele foi decifrar o que estava escrito e escrever da maneira dele. Como ele, Sebastião, eu costumo dizer que ele é um ícone, um homem muito inteligente, ele tinha um computador na cabeça. Então, lá o livro da Galega, ela tinha escrito várias coisas, então não dá para entender se Rosa era Rosas, e ele foi atualizar, pediu pra minha cunhada digitar do jeito que ele tinha entendido e passou pra mim. Fizemos doutrinário digitado, mas o Sebastião teve que... Eu comecei a rezar.
Quando eu anunciei que ia começar o Terço de Maio, nossa! Imagina as pessoas que são do Nordeste, que há muito tempo não tinham presenciado, sabe? Aquele Terço de Maio foi muito bonito como é até hoje. Chamei todas as filhas de rezadeiras que moram ali próximo ao Griceros, que são filhas de rezadeiras também. Hoje nós somos uma equipe, dependendo do dia que vai todas, de 10 a 20 rezadeiras e fazemos uma fogueira igualzinho lá no Nordeste, mas e falando, não posso mudar os hinos, quanto mais antigo, mais bonito, porque é como se eu estivesse ouvindo a voz dele. Adriana, você não pode mudar os cânticos, porque as igrejas mudam, estão sempre atualizando. E ele fala, não, Adriana, você não pode cantar hino novo, você tem que cantar quanto mais antigo, melhor. Então, às vezes, eu quero até cantar um hino atualizado, mas eu lembro daquela voz, sabe? Você não pode. Por quê? Alguns padres, eles vão assistir o Terço de Maio, chegaram até me chamar para ir rezar na igreja. Mas eu falei, não, meu compromisso é nessa casa, enquanto ela estiver aqui, eu também estiver viva. Depois da reza, o mesmo costume de lá, servimos café, chá e bolacha. A bolacha da Paraíba.
P/1 - Como é essa bolacha?
R - Olha, até que aí eu estou comprando umas macias que vêm de lá. Mas, para ser bem nordestina, é aquela que você mastiga e, se não tiver cuidado, quebra até o dente. Ela é salgada. E o biscoito também, que é doce. O biscoito é mais molezinho que a gente coloca dentro do café.
P/1 - Vamos voltar um pouquinho agora. Você falou que o Sebastião já era bem conhecido lá.
R - Sim.
P/1 - Qual foi a primeira vez que você ouviu falar dele?
R - Olha, a minha tia que foi me buscar para vir passar seis meses aqui em São Paulo, que esses seis meses vai fazer 40 anos, né? Eu vim passear e acabei ficando. Ela era casada com o primo dele. Então, sempre que ela escrevia na carta, ela falava assim, Tota Marinho, sobrenome Marinho, porque o marido dela era Antônio, mas tinha o apelido de Tota. E teve uma época que eles foram passar uma temporada lá em Solânea. Então, ela falava muito do Sebastião Marinho, mas eu não tinha interesse nenhum de conhecer, não dava a menor importância quem era o Sebastião Marinho, até mesmo pela idade. Como eu lhe falei, vim conhecer no primeiro dia que eu cheguei aqui em São Paulo. Viu? Foi como eu conheci o próprio.
P/1 - E como que você veio para São Paulo?
R - Então, a minha tia foi buscar uma das filhas delas que morava, que ela tinha deixado lá no Filgueira, no sítio, com os meus avós. Como os meus avós faleceram e a filha cresceu, ela foi até lá buscar. E ela levou duas passagens compradas. Hoje a gente já não pode fazer isso, comprar para uma pessoa e trazer outra. Lá atrás podia. Na verdade, ela queria trazer essa irmã dela que é a que me deu o hinário, que faleceu ano passado. Ela levou duas passagens compradas, a da filha e a da irmã. Só que eu tinha falado que gostaria muito de conhecer São Paulo. Na época, eu estava fazendo um curso de telefonista. Não sei se vocês sabem o que é Telpa [Telecomunicações da Paraíba S.A]. Então, eu estava prestando um curso e eu tinha passado. Então, foram duas coisas, eu começar a estagiar como telefonista ou vim conhecer São Paulo. Daí, eu fui até o prefeito Valdomiro James da Rocha, que era o atual prefeito de Solânea, e perguntei pra ele se eu poderia vir a São Paulo. Aí ele falou assim, eu te dou seis meses. Se você não voltar, eu coloco outra pessoa no seu lugar. Aí, claro que vim. Nossa. Três dias dentro de um ônibus. Primeiro dia até que vai, tá? Mas do segundo dia em diante. Por quê? O que a gente traz na bagagem, além de três roupas contadas, né, Estfani? Porque eu estava falando para o Estfani que... Chego lá. A gente traz comida que, no segundo dia, está um pouco estragada, para não falar toda estragada. Então, cheguei aqui e lá atrás, o que a gente trazia de presente para os familiares aqui em São Paulo era farinha, que vinha numa bolsa. Você vai rir agora, tá? A minha história. Eu trazia numa bolsa. Farinha. Feijão macaça, que hoje vocês falam feijão de corda. Peixe, olha só. Massa de tapioca. Sabe o que aconteceu quando eu cheguei na rodoviária, que fui colocar o pé naquela escada rolante pela primeira vez? Foi. Isso porque eu vinha com minha tia, que já morava há mais de 30 anos em São Paulo, mas... A outra que estava do lado ficou assim, Drica, meu apelido é Drica. Cuidado, se você não souber pôr o pé numa risquinha que tem amarela, não sei se vocês já prestaram atenção, que tem uma risquinha que você não pode, ou pode, sei lá o quê. Menino, quando eu pisei ali, que eu fiz assim, que eu percebi que eu ia cair, eu nem me importei com a bolsa que estava na mão. Joguei a bolsa no chão, foi farinha, milho que vinha dentro da bolsa para tudo que é lado. E a pessoa que estava do meu lado ainda me fez medo. Você vai ser presa porque você conseguiu quebrar a escada. Sabe mais triste disso tudo? é que, dentro dessa bolsa, eu trazia uma fita cassete. Nessa fita vinham algumas músicas que eu adorava escutar quando eu morava lá, como aquela de Sérgio Rey. Eu lembro como fosse hoje. Era assim… (entrevistado canta) “O rio de Piracicaba…” Era alguma coisa assim. E três músicas de Roberto Carlos, que são (entrevistado canta) “Como é grande…”, e você não sabe, cantada por mim. Porque na casa que eu trabalhava tinha um gravador, e eu costumava ouvir as rádios, Integração, o rádio Caturité, e gravar as músicas. Eu amava muito a música de Roberto Carlos. Então, o mais triste dessa escada rolante ter feito com que eu tombasse, quase caísse, soltasse tudo, foi que a fita, adivinha, o que fez a escada parar não foram os grãos, Foi a fita que entrou dentro daqueles dentinhos da escada e enrolou tudo. A escada parou e eu olhei para trás, vi aquela fileira de milho, farinha, tudo, e eu com medo, porque eu lembro daquela danada, daquela prima de Sebastião Marinho, chamada Gracinha. Ela ria e falava, quer ver o segurança chegar? A polícia vai te prender. E eu, olha, vou correndo até agora. O bom, minha tia morava ali, na rua Padre Vieira, que fica no Pari. É quase em frente ao... Ai, meu Deus, que Roberto Leal gostava de fazer muito show. Ponte Pequena. Ai, meu Deus do céu, como é o nome que... Foi muito show do Roberto Leal lá. Bom, enfim. E, nesse dia, a filha dela, não a que veio junto comigo, me chamou para vir aqui na Liberdade. Na casa de uns primos. Lembra que a minha tia era casada com o primo do Sebastião Marinho. E nós viemos no mesmo dia, graças a Deus, foi para esquecer aquele momento, o cansaço da viagem e aquele nervoso que eu passei naquela escada rolante. Não estava nem aí pelas coisas que foram de escada abaixo. Mas, assim, pela fita que eu fiquei triste, que era uma coisa que eu trazia comigo, até parece que eu já sentia que eu não ia voltar, que eu ia ficar. Aí minha prima falou assim, vamos nos meus primos lá na Liberdade? E eu fui para a Liberdade, cheguei lá na casa dos primos, entramos em fileira. Entrou a minha prima que veio comigo, que é a Givanedi, a segunda era eu, e a terceira era a minha prima que morava aqui, que chamou a gente para ir na casa dos primos. Quando entramos, eu lembro que o Hailton estava sentado e falou assim: já sei, a filha da Francisca é ela, com a segunda que era eu, porque dizem que eu me pareço mais com a minha tia do que as próprias filhas. Aí a Vânia, que chamou para ela, não falou não, essa é a sobrinha. Ela foi me apresentar, aí me apresentou primeiro o Hailton, depois apresentou para o Sebastião Marinho. O Sebastião Marinho gostava de ficar com um short e sem camisa, não teve nenhum receio de receber sem camisa. Fui lá, vocês conhecerem o Sebastião Marinho, era bem assim. E ele se apresentou. Eu conheci a esposa dele, a filha dele, que era uma criança, e todos os sobrinhos, irmão e cunhado, que moravam todos juntos. E, a partir daí, você não sabe. Eu não larguei mais, não saí mais da casa do Sebastião Marinho. Porque eu olhei bem dentro do olho do Hailton Marinho, e ele olhou no meu, E eu falei assim, esse moço ainda vai ser meu. Até parece, que ninguém é dono de ninguém. Mas eu falei, esse moço ainda vai ser meu. E o Hailton foi bem atrevido. No primeiro dia, ele falou de namoro. Ele falou assim, baixinha, você quer namorar comigo? Aí eu falei assim: calma, acabei de chegar em São Paulo, não estou procurando ninguém. Uma adolescente de 17 anos, estava toda assim, mas quem disse que o homem saiu do meu pé? Não saiu. E eu comecei a gostar daquilo. Mesmo eu morando na Padre Vieira, a Vânia, estudava na São Joaquim, num colégio, não é o Rúzio, é num que pegou fogo. E eu tive que fazer a minha matrícula também para começar a estudar. Eu estava fazendo a sétima série.
Nossa, que bom! Mas o motivo, para mim, está na casa do Sebastião Marinho. Fizemos a matrícula e todos os dias, quando tinha um intervalo, a gente ia até a casa do Sebastião Marinho e o Hailton acabava na volta me levando para casa depois da escola. E rapidinho a gente casou, não demorou muito o namoro, a gente casou e foi bom porque eu passei a conviver. Hoje eu lamento porque aquele homem tentou me ensinar muitas coisas e eu não soube aproveitar. Hoje estou interessadíssima em aprender a tocar violão. Até já comecei. E com a viola, adivinha de quem? De quem é as violas? Quem toca as violas do poeta? Adriano e o Hailton. E já comecei a treinar, já sei a tocar algumas coisinhas. Lá atrás, ele falava, senta aí, pega o violão e eu não pegava, entendeu? Fica aí, começava a ler os livros, a falar, contar até da minha própria infância como eram os meus avós, que eles conviviam lá antes de eu crescer, de eu nascer. E eu falava, ai, Curu, está falando demais hoje, né? Eu morava, eu costumo dizer que lá a casa, eu morava na casa dois. Eu morava na segunda casa, quando tinha os eventos que eu via aquela casa cheia, eu fechava a porta para não ouvir. Só que a minha irmã, que morava comigo, ela que ajudava o Hailton a receber as pessoas e a servir as comidas da casa, que é o cuscuz e o jabá, essas coisas para o pessoal. Só que, adivinha, eu sempre gostei de festa, principalmente de forró.E o Sebastião não dava conta de tudo, dos eventos, da cantoria. Eu falei, o quê? Quem vai começar a colocar forró nessa casa sou eu. E comecei a fazer isso. Ele colocava a cantoria e eu chamava alguém para colocar forró. Ou até mesmo, adivinha, até hoje a gente continua. Ligo o karaokê, dou uma de cantora, chamo o pessoal e animo a casa. Se não tem, eu invento. Se você estiver completando um ano, eu digo assim, vamos fazer o aniversário, mas como? Eu falo assim, cada um traz um prato e fica aquele banquete, aquele aniversário chique, que é festa americana, cada um traz alguma coisa. É tanto que agora, antes dele se ir, você acredita que ele me fez um pedido? No leito de morte, o Sebastião Marinho me pediu para eu continuar alegrando a casa, porque ele fala que eu sou uma pessoa alegre. Qualquer motivo é motivo de festa, entendeu? Ele me fez esse pedido. Eu quis até desistir de rezar agora. No ano passado, com a morte dele. Eu não queria mais continuar rezando e a gente queria entregar a casa, deixar pra lá. Aí foi quando veio o meu pensamento. Duas coisas que eu não posso parar. Uma vez que você começa a rezar o Terço de Maio, eu ouvia que não pode parar, só quando você morre, que é uma tradição que você carrega. E outra coisa, o legado dele. Se eu tenho como dar continuidade, eu não sei cantar, nem improvisar. Porém, ele deixou um monte de alunos dele por aí, e hoje está todo mundo de produção independente. Então, toca onde eles quiserem. Se a casa está lá, por que eu não chamar? Por isso que agora estão me dando o nome de produtora, porque de vez em quando eu chamo, igual agora, sábado, Eu chamei um para, após o Terço, ir lá cantar pelo menos umas três canções. Então, assim, eu voltei atrás e falei, Hailton, vamos dar continuidade. Tem lá uma foto dele que eu coloquei assim. Eu tenho a impressão de que ele está lá vivo, e que ele está feliz. Eu sei que, agora mesmo, nesse momento, eu sei que ele está bem feliz. Olha só onde ela está, onde eu estive um dia. E é isso que me incentiva, me motiva a continuar e fazer bonito. Todos os meses de maio ele não cantava, ele não ficava ali, mas ele ficava ouvindo, escondidinho, lá onde tem a rádio. Quando eu terminava de rezar, ele ia lá falar o que estava certo e o que estava errado, onde eu tinha que melhorar mais. Por que ele me chamava a atenção? Porque uma das rezadeiras sempre gostava de sair, sair da rota da reza. Aí ele falava, você como coordenadora, você tem que conversar com elas para elas não saírem da tradição, você tem que continuar. E é isso. Porém, assim, terminou o Terço de Maio, eu já começo a ensaiar as festas juninas. Eu sou bem assim, eu falei que depois do CTN, qual é o lugar que tem mais… que representa a Paraíba? A casa do poeta Sebastião Marinho, porque terminou as rezas, eu já começo a ensaiar para o pessoal, dançar a quadrilha. É eu.
P/1 - Vou voltar um pouquinho e fazer algumas perguntas.
R - Ai, que feio, meu. Não tem como não falar dele e não se emocionar, tá?
P/1 - Quer tomar uma água?
R - Não, não, não pode ir. Pode continuar.
P/1 - A gente voltou um pouquinho, queria te perguntar qual foi a primeira vez que você entrou na casa?
R - Do poeta?
P/1 - Isso.
R - Como eu ia quase todos os dias, mesmo não sendo casada na Galvão Bueno, um dia eu cheguei lá e ele estava falando sobre… que precisava ter um lugar para fazer as cantorias e receber, se reunir mais com as pessoas. E ele estava falando de um lugar na Teixeira. O nome da rua é Teixeira Leite. E o que acontece? Eu conheci essa casa, ainda era namorada do Hailton. O Hailton falou assim, baixinha, um dia ele foi me levar, lá onde eu morava, e falou assim, baixinha, eu vou morar agora na Teixeira Leite, vai ficar um pouco… Difícil para a gente se ver todos os dias, porque uma coisa, o colégio, era encoxado a Galvão Bueno, e a Teixeira Leite é uma, duas, bem a quinta quadra, né? Aí... Eu falei, não, mas no domingo eu apareço, você vem me buscar e eu vou conhecer a casa. E ele desceu junto com o primo para fazer toda a faxina e já foi de mala e cuia. E no domingo, realmente, após eu ajudar a minha tia na igreja, porque a minha tia era zeladora de uma igreja presbiteriana. Então, no domingo, eles faziam comida, os coreanos, e ela tinha que ajudar, primeiramente, a limpar a igreja, passar a vassoura no tapete, e, à tarde, ela ajudava na louça. E eu podia sair, sim, eu e minhas primas, mas desde que ajudasse ela primeiro. E foi mais ou menos umas 17 horas que eu desci para ir conhecer a casa. A casa ainda não tinha sido quebrada. Estava limpa porque tinha tirado o entulho, mas as paredes que o finado Chico Binga quebrou e os banheiros que ele construiu, que o Sebastião Marinho mandou ele parar porque ele gastou três sacos de cimento só numa parede só, está lá até hoje para rebocar. Ele era um bom pedreiro, mas… É muito assim como eles falam, gastava muito. Eu fui, conheci a casa. Eu fecho o olho e vejo aquele salão. As portas pareciam as portas do Nordeste, era tudo por igual. Da porta da sala até a porta da cozinha, era tudo assim, seguia uma fileira. Agora está diferente, a gente mudou, tá? Então, eu conheci. Ele já morava na segunda casa, era só um quartinho. Porque a cozinha o Sebastião usava para fazer as comidas para servir no salão, a gente fala salão. Tinha um banheiro, só um banheiro que era para todos, um banheiro com uma banheira enorme, bem antiga, e tinha um quintal, é onde que entra. A minha tia, Ela ficou viúva. Os coreanos mandaram elas embora, com uma mão na frente e outra atrás, porque ela não era registrada. E nem o meu tio, que era o primo do Sebastião Marinho, viu? Lá veio o Sebastião Marinho de novo. As portas de São Paulo, as pensões, os cortiços de São Paulo se fecharam, porque ninguém queria alugar um quarto de pensão para uma senhora que tinha três, quatro, cinco adolescentes. Eram muitas pessoas. Foi quando o Sebastião Marinho falou assim, Francisca, você... Faz um quartinho para você aí no quintal e vem morar até você conseguir um espaço maior. Então, eu fui morar na casa mesmo sem estar casada. Por quê? Porque a minha tia foi morar lá. A única coisa que a minha tia recebeu De todo o tempo que o trabalho dela foi em cima da casa da zeladora, tinha um escritório. Desse escritório, eles arrancaram as portas, e ela levou essas portas para colocar lá. Nós fizemos um mutirão e construímos as paredes que tinham que ser construídas, porque essa parede daqui tinha um muro que a gente pegou ela. A outra casa, que era dos familiares do Sebastião, que ele colocou dentro, pegou outra parede. Então, só foi preciso fazer uma parede e meia. Então, ali se juntou os amigos e todo mundo fez. E, em seguida, eu já fui morar na Teixeira Leite também. Um ano e pouco que eu estava morando lá foi que eu casei. Porque até então eu não tinha certeza se era isso que eu queria, porque eu era muito jovem para casar. Pretendia estudar, fazer alguma coisa para depois casar. Não estou arrependida, tá? Graças a Deus, eu costumo dizer que eu não finjo ser feliz, eu sou feliz, né? Porque se eu não fosse, eu não tinha como manter. Eu não vivo de aparência, viu? Eu não vivo de aparência. Deus me deu um homem, um pai, um amigo, um marido, um amante, numa pessoa só.
P/1 - E, aproveitando o gancho, como que foi o dia do casamento?
R - Ai, tem certeza? Eu tinha sido mandada embora, ele tinha acabado de fazer acordo. No dia do casamento, o salão que eu ia me arrumar foi assaltado. Eu, em cima da hora, não tive como procurar mais outro salão para arrumar o cabelo nem me maquiar. Ou seja, eu só fui colocar a roupa e fui do jeito que estava. Acho que é por isso que deu certo, né? É verdade. Sério mesmo, mas assim, é tanto que não tem muita foto já devido a isso. Eu estava feliz por estar casando com a pessoa que eu queria, né? Mas, ao mesmo tempo, olhando o visual, apesar que eu sou uma pessoa que se você me falar que eu tô feia, não entra no meu psicológico. Eu me acho bonita. Eu me amo do jeito que eu sou, eu sou essa pessoa mesmo, viu? Mas eu queria uma foto mais bonita, pelo menos… Eu usava o meu cabelo igual o seu, curtinho. Então, naquele dia, eu queria pelo menos fazer uma escova, porque era muito encaracolado. Depois foi que eu... Tá metade pai, metade mãe. Que eu inventei de mexer, nem rolou, nem estirou mais. Entendeu? E eu deixei crescer. Mas, muito feliz. Fui bem aceita, porque, eita, mais uma na família. Porque a minha tia já tinha... Já era casada com um dos Marinho, né? Mas, parabéns para mim, uma mulher para conseguir ficar, manter um casamento de 38 anos com um Marinho, tem que ser uma mulher bem, primeiramente se amar, ficar bem com esses Marinhos não é fácil não, viu? São muito assim, eles são muito, eles são muito cobiçados. Até hoje, as minhas colegas brincam comigo. Ei, cuidado, hein? Se você não quiser, eu quero. Aí eu respondo. O que Deus me deu, ninguém toma. O que Deus me deu, ninguém toma. Estava falando para a Estéfani, não sei se é interessante. Você viu que, apesar de eu morar aqui em São Paulo há quase 40 anos, eu não perdi o meu sotaque. Ainda continua. Tem gente que acha que eu cheguei ontem de lá. E eu sofri um pouco de preconceito pelo sotaque, porque eu fui trabalhar como babá, E a mãe da criança, ela ficava preocupada da criança crescer e aprender a falar, e ao invés dela falar paulista, começava a falar arrastado. E aquilo me incomodou, mesmo com dois anos e pouco eu sendo babá, porque até então ele ser recém-nascido, recém-nascido não vai aprender a falar, mas a preocupação dela era ele começar a falar, e falar, como ele convivia comigo mais do que com ela, eu pegava ele e era às oito horas da manhã, era até umas vinte e três, meia-noite, ele comigo. Então, claro que ele ia aprender tudo que eu ensinasse e ela toda preocupada. Eu falei, quer saber? Eu não quero mais isso pra mim, não. Vou arrumar uma coisa melhor. Não que eu não ame criança, amo. Acho que eu nasci pra cuidar. Tem tudo a ver com a reza, com o que eu faço. Mas como você ficar ali num lugar onde você não tava sendo bem-vinda, né? Aí eu fui pedir a conta, falei que tinha arrumado outro e tinha mesmo. Só foi o que eu fiz. Eu passei num estacionamento, tava precisando de operadora de caixa. Eu não sabia nem o que era um computador. Aí eu cheguei na atendente e falei assim, ei, aqui tá precisando de atendente. Ela falou assim, tá, mas tu sabe mexer em computador? Aí eu falei assim, ei, se tu me ensinar, deixa eu sentar aí. Só fala pra mim o que eu preciso fazer. Aí ela foi muito amiga, me ajudou bastante. Ela falou, senta aqui mulher. Aí faz assim, olha, aqui liga, aqui desliga, e quando aparecer um carro, tu olha pra letra que tá na placa, tu digita aqui, olha, aperta aqui o Enter, que só o papel tu passa por... Aí eu falei assim, e se eu não souber o carro? Porque um Fusca, eu sabia o que era um Fusca, o que era um Chevette, mas apareceu... Na época era Landau, eu não sabia o que era o Landau. Aí... Os carros que eram importados. Aí ela falava assim, ela falou, tu escreve outros, quando tu não souber o que é o carro, tu coloca outros. Ou importado. Ih, muitas vezes eu coloquei carro que era nacional importado, o dono do carro falava, meu carro não é importado. Mas não tem problema, tem. Se roubarem o meu carro, vai estar aqui como importado, né? Bom, nesse dia eu tinha que voltar a trabalhar, aí eu liguei lá no trabalho e falei assim que não podia ir, que eu tinha um compromisso. E o compromisso era o quê? Fazer uma entrevista. Quando o encarregado chegou, que a Caixa falou assim, sim, na hora que ela estava me ensinando, o encarregado chegou, aí falou assim, parece que temos uma funcionária nova? Aí eu respondi assim, depende. Aí ele desceu do carro, estacionou, desceu. Aí falou assim, é você a candidata que vai ser a nova operadora de caixa? Eu falei assim, é. Você sabe mexer no computador? Eu falei, Jesus, sei. Então, senta aí pra fazer um teste. Na mesma hora eu passei, entendeu? Eu falei, o resto vem depois, né? Aprender a passar troco, essas coisas vêm depois. No dia seguinte, cheguei lá e falei assim, arrumei outro trabalho e estou saindo. Como? Aí, eu falei, é, eu vou ser agora operadora de caixa. Foi triste porque a criança ficou doente, levaram pra mais ou menos três tipos de pediatra e não descobriram o que a criança tinha. Aí um dos pediatras perguntou o que aconteceu de diferente na vida dessa criança que ela tá assim? Aí ela contou que a pessoa que cuidava dele tinha se demitido. Aí de imediato pediu pra ela me procurar, e ela foi até a minha casa. Se humilhar não, que é uma palavra muito forte, ela teve sabedoria, mas eu falei assim, olha, eu já comecei a trabalhar. Não, eu vou começar a trabalhar a partir de segunda-feira da semana que vem. Faz o seguinte, você todos os dias vem trazer ele pra ficar comigo de uma a duas horas. E foi isso que ela fez. No primeiro dia que ela trouxe, a febre do menino já baixou. Aí, ela ainda conseguiu trazer três dias em seguida. Depois, ela foi alternando, sabe? Eu chegava do trabalho, ela estava lá. Até hoje, até chegar uma hora que ele não sentia mais falta. Trabalhei sete anos como operadora de caixa. Ali na Humberto Primo. Na época, o Clodovil tinha um ateliê do lado. E, do prédio em que eu trabalhava, tinha a agência da Globo. Então, esses atores mais velhos, como o Raul Cortez, o Glória Menezes, o Gianfrancesco Guarnieri, eu conheci todos, e todos para subir na agência, adivinha para quem passava? Passava pela Adriana, eu que atendia, que era na porta do edifício. Mesmo assim, eu percebia de um jeito meio preconceituoso, por eu ser... Tinha um que quando eu dava bom dia, aí remedava. Bom diiiiiiiia! O… “I” até… Eu falei, tá bom, mas eu não vou... Outros não respondiam. Eu falei assim, mas eu vou fazer a minha parte. E sabe o bom? Acabei conquistando todo mundo. No final, neguinho chegava com presente, até me convidando pra ir pra festinha. Eu fui até nos velórios. Essa parte que eu não gosto. Não gosto assim. Entre aspas, tá? Porque é da minha natureza morrer uma pessoa e eu ir ou cantar, ou rezar, levar um abraço, uma palavra amiga, e eu consigo, viu? Eu consigo. Se eu chegar num lugar e tiver todo mundo triste, eu faço todo mundo sorrir. Sem fazer nada. Eu acho que quando eu abro a boca eu já sou uma palhaça, né? Então, assim, acabei conquistando todo mundo, depois eu falei assim, ah, não quero ser mais operadora de caixa, fui ser sacoleira, fui fazer curso de enfermagem. Fiz enfermagem, acabei de concluir massoterapeuta, mas dizem que agora tenho que virar produtora, porque depois que eu e a Hailton resolvemos dar continuidade ao que Sebastião fazia, está ocupando muito o meu tempo. Então, estou me dedicando mais a isso. Eu tenho ido à faculdade, eu estou lutando pela casa, pelo espaço. Por quê? Se você viajar lá com o drone, você vai ver que estão construindo duas torres, uma de cada lado da casa, uma casa sempre por fora, aonde dentro acontecem muitos eventos culturais, sabe? E eu fico triste que eu tenho a sensação que é como se quisesse expulsar a gente de lá. Então, eu estou tentando salvar isso. Uma casa onde passou por lá muita gente importante… importante sou eu, mas lá também passou muita gente importante.
Lá nós tivemos a visita do presidente Lula, de vários poetas e vários escritores. Cite ele, cite um deles. O Assis Anjo amava ouvir o Texto de Maio, que lembra a infância dele. O nosso novo candidato, que na época já foi Ministro, o Aldo Rabello, era bem amigo mesmo. E entre outros e outros, assim. Então, a minha luta, mais a do Hailton não está sendo fácil, porque nós temos que... Eu dei o nome da casa, chama-se Resistência. É uma casa acolhedora. Desde sempre, os antigos repentistas, quando vinham a São Paulo, não queriam ou não podiam, gostavam de ficar hospedados lá. Eu que recebia como recebo até hoje. Não sei se vocês chegaram a conhecer a Mocinha da Passira, uma repentista muito boa. Nossa, a mocinha, quando vinha a São Paulo, amava ficar hospedada lá, sabe?
P/1 - A gente vai retomar algumas coisinhas, então. A gente chega aí. Eu queria saber por que o apelido do Sebastião era Corujão.
R - Então. Eu fiquei sabendo, no dia que eu cheguei aqui, que eu ouvi um dos irmãos, a irmã dele, falava assim, Curu. Por isso que eu só chamava metade do Curu, eu tive curiosidade de saber por quê, porque para mim era um palavra errada, Curu. Aí ela me falou, a finada da Luzia, ela já faleceu. Ela falou assim, é que ele não dorme à noite. E quem não dorme à noite é um pássaro chamado Corujão. Por isso que o apelido dele é Corujão. E eu não chamo um nome. O apelido completo, eu falo só a metade. E pegou. Eu não chamava de Corujão nem Sebastião. Sempre era Curu. E agora, quando vou falar dele, eu caio assim me vendo falando Curu. Pessoal, quem é Curu? Aí eu tenho que dar toda uma explicação.
P/1 - E aí você contou tudo de quando ele te fez o convite para trazer a reza. E como que foi isso para ti?
R - Então, eu não dei a resposta de imediato, até mesmo porque eu não tinha em mãos. Eu sabia rezar, eu sabia os cânticos, mas eu não sabia a exódia, porque ter uma exódia, a ordem encaixar, encaixar, porque até então eu não sabia, eu ouvia, via, mas eu não era a frente. A frente que eu digo hoje, eu sou a coordenadora das outras, porque mesmo lá atrás eu não participava… na casa dos meus avós, eu era, de certa forma, obrigada a ficar ali ouvindo. Mas, nas casas vizinhas, eu ia brincar com as outras crianças de toca, de estátua, de corda. Só que, quando você nasce com o dom, hoje eu me vejo, mesmo brincando de toca, o som das pessoas rezando, entraram e ficaram, porque é isso que eu faço. Foi com isso aí, ouvindo, mesmo brincando, que hoje eu ponho na prática. Ele falou assim, vá ao Nordeste, vá na Paraíba, procure, foi isso que eu te falei, eu trouxe. No mês seguinte, ele falou assim, mas você precisa de uma ajudante para ajudar você a cantar. Aí ele lembrou de uma apologista dele que sempre estava nas cantorias, tanto quando ele vivia lá na Paraíba, como aqui em São Paulo, que ela também mudou para São Paulo, que chama-se Maria de Dadá. E ele falava que Maria de Dadá tinha uma voz bonita, que se ele pudesse, ele até investia na Maria como cantora. E ai dela, se ela ouvir essa entrevista aqui, eu não falar no nome dela. Porque ele fala que Maria ia ser a cantora dos hinos, pela voz dela ser bonita, ter tudo assim a ver, e eu ia, com a organização, com as rezas, explicar os mistérios, explicar por que dos anjos. Durante o mês de maio, porque isso aí ele jogou para mim, ele falou, você lembra que tem os anjos, as crianças vestidas de anjos? Você lembra que tem as lanternas? As lanternas não podem ser essas que estão fazendo agora, cortadas de garrafa de Coca-Cola, não. Você tem que fazer as lanternas tradicionais, daquela folha de caderno, colada. Bom, essa ficou... Por minha parte. Aí ele ligou para a Maria de Dadá, fez o convite para ela. Isso foi antes do mês de maio, porque no mês seguinte, isso foi em, vamos supor, em 2000. Logo quando ele recebeu o diagnóstico do problema dele de saúde, que fez a promessa, que ele fez os exames, que graças a Deus deu normal, que ele já falou, vai começar a rezar. Tudo isso antes do mês de maio. Ele ligou pra Maroca, que eu falo ela Maroca. Eu viajei, tive tudo isso em questão de dois, três meses. Trouxe os hinários e a gente começou a rezar, eu e a Maroca. E foi boca a boca. Nessa época não tinha como divulgar através das redes sociais, um saiu. Eu moro ali perto de quase todas as pessoas lá da nossa cidade, então um foi passando. Para outro, foi passando para outro e o mínimo que eu consigo reunir é 500 pessoas. O ano passado, porque eu falei em rede nacional, não ia mais rezar. Eu consegui reunir 500 pessoas na pandemia porque eu falei, eu não quero ninguém aqui no terço porque eu não quero pegar Covid. Parece que foi tudo o contrário. Todo mundo foi para o terço, apareceram mais de 500 pessoas. E não só os nordestinos, as pessoas que conhecem, que vão lá ver uma coisa diferente. Diferente por quê? Chega lá e se depara com 30 crianças vestidas de anjos. O que esses anjos representam? Esses anjos, essas crianças vestidas de anjos, representam cada dia do mês. E elas fazem umas coreografias ensinadas por Adriana e outras rezadeiras, que é como colher as flores e jogar as flores quando Maria é coroada. E as flores que são deixadas lá no altar têm todo um propósito, muitos pedidos. Eu creio que onde tem mais de doce presente, Deus está como Ele está aqui agora. Onde você vê Deus? Eu? Eu vejo Deus ao puxar o ar e sentir, no respirar, ao poder enxergar, é onde eu vejo Deus. Por isso que eu digo que Ele está aqui. E a Adriana, As pessoas não só procuram para ouvir ou rezar. Adriana é procurada, a casa de Sebastião Marinho é procurada quando uma mulher está passando por algum feminicídio. A Adriana é procurada quando uma criança está precisando de algo, de alguma coisa. Ah, Adriana, mas você é rica? Não. Se eu não posso, eu procuro uma pessoa que pode, senão eu saio arrecadando, viu? E é isso, o trabalho da Adriana e outras rezadeiras. A Adriana está fazendo o curso com Amélia Telles, fica atualizada de quase tudo que acontece dentro de São Paulo, inclusive que o centro ali na Sé é sete vezes mais a porcentagem contra o feminicídio. Fui numa palestra na PUC, no mês passado, com a Erundina e a Márcia, e o tema era sobre... E eu entrei em desespero porque eles não estavam... Apesar da palestra ser sobre o assunto, eles não falavam isso. Sabe o que eu fiz? Eu peguei o microfone, eu me apresentei e, no final, tinha umas pessoas chorando porque acharam que a Casa da Cultura, de repente, tinha ido abaixo junto com o poeta. Eu falei, não, que o irmão dele está lá e eu estou lá. Uma das pessoas que chama-se Pitarelli. Ela estava chorando. Ela falou assim, o quê? Você falou o quê? Quem? Quando eu peguei o microfone e falei assim, meu nome é Adriana e vocês estão falando sobre o feminicídio. Uma das rezadeiras, no ano passado, a filha dela foi assassinada pelo próprio, namorado, marido, não sei o quê. E essa rezadeira, através da fé e da nossa união, ela continuou. Isso aconteceu dia 17 de maio de 2025. Uma filha das rezadeiras foi assassinada, inclusive por um choque, porque nós tínhamos acabado de rezar o Terço, quando ela foi para casa e recebeu essa notícia, ela me ligou. Eu achei até que era brincadeirinha dela, por ela ser uma mulher bem... Que gosta de contar piada, eu não acreditei. E o assunto lá na PUC era sobre isso, e eu me vi assim, na obrigação de pegar o telefone e falar algo, e falar que estava fazendo o curso da PLP, isso porque, graças a Deus, eu não passo por nenhum tipo, mas eu preciso saber como ajudar. Outro dia, um rapaz sofreu um acidente, pro lado de Cachoeirinha, e a mãe lá no Nordeste me ligou para mim socorrer esse filho. Era mais ou menos umas 23h30, quase meia-noite. Eu falei, olha, hoje eu não vou fazer isso, porque até mesmo pelo horário. Mas quando ele já foi socorrido, onde ele tá? Tá no hospital. Mas que hospital? Ela não sabia. Eu falei, então faz o seguinte, você descobre logo onde é o hospital, porque eu não vou sair procurando, batendo em portas de hospital procurando o seu filho. Dia seguinte, ela me passou o nome do hospital. Eu fui até o hospital, eu descobri o leito, conversei com o menino, fiquei à par do que estava acontecendo. Depois, não tinha como todos os dias eu estar lá no hospital, por ser longe. Eu falei, venha para São Paulo. Aí ela falou, mas eu não tenho onde ficar. Eu falei assim, na minha casa. A minha casa é um espaço de 50 metros, é só um quarto. Eu falei, rapidinho ela vira um... O quê? Um hotel. Mas venha. Aí a mãe veio, o filho pegou a alta, ficou dois meses na minha casa. A minha casa, a sala virou um quarto hospitalar. Ele veio com uma ______ maior do que ele. Passou ainda por uma, duas, três cirurgias antes do médico autorizar ele voltar pra Paraíba. E esse é o meu trabalho.
P/1 - Obrigado. Dava pra ficar um tempão aqui contigo. Queria fazer uma última pergunta. Se você tem algum sonho...
R - Se eu tenho um sonho, olha, eu quero continuar fazendo o que eu faço. Eu quero que Deus permita que aquela casa continue. Não, assim, vê se você entende o que eu quero falar. Não a casa em si, para eu dizer que tem um posse, porque o Hailton até ri, porque eu falo assim, o pau que eu mais tenho é terra, é casa. Os meus avós faleceram, estão lá, casa, terreno, não levaram. A minha tia também faleceu, deixou um monte de casa. Eu já tenho onde dormir. Eu só quero poder continuar fazendo o que eu faço e dizer assim, a casa é para todos e procurar ser acolhido. Esse é o meu sonho. E Deus me manter viva para poder continuar fazendo.
P/1 - Obrigada, ...
R - Espero ter contribuído, correspondido com o que vocês me choraram. Finalizo sempre falando isso, não tem como falar de uma pessoa que não está mais aqui… Ele está bem. E continua e está muito feliz por eu estar tentando. Jamais vou chegar a ser a pessoa que ele foi, mas se puder falar dele, eu vou falar.
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Entrevista de Hailton Marinho (H) e Adriana Martins da Silva (A).
Entrevistado por Felipe Rocha (P/1) e Estfani da Costa (P/2).
São Paulo, 28 de maio de 2026.
Projeto Conte Sua História.
Entrevista nº: PCSH-HB1518_parte3.
P/1 - Gente, vamos lá. Parte 3 agora com os dois para a gente falar um pouquinho sobre a Casa. Já falou um pouquinho dessa história sob as duas perspectivas, mas eu queria que vocês constassem um pouquinho a história da casa. Como que ela apareceu aí, a gente já falou um pouquinho sobre isso mas...
Hailton - Vamos lá. A casa. A história da casa. Eu, Hailton Marinho, Irmão do Sebastião Marinho, eu vou contar a história da casa seguinte. _________ Sebastião trabalhava num restaurante aqui na rua, na rua Frei Caneca, Antigo Baião de Dois, hoje não existe mais. E, Frei Caneca, ele ia às quintas, às terças e às quinta-feiras, na Frei Caneca, e aos sábados, ele trabalhava na rua Augusta. E ele conheceu um cidadão, um ouvinte que ele tinha lá, o doutor Armando. E foi no começo que ele queria montar a associação para ajudar os outros companheiros dele, os poetas, que não tinham ido cantar até então. Sofria aqui em São Paulo, que ele e mais uns três, que tinha pouco na época. Ele conheceu o doutor Armando, o doutor Armando foi e lembrou dessa casa velha que ele tinha lá fechada há muito tempo. Aí foi quando ele ofereceu pra ele. Poeta, eu tenho uma casa na rua Teixeira Leite. Assim, explicou, né, os motivos da casa, porque enchia, a rua enchia, como enche até hoje, e essa casa tava lá fechada há uns dois, três anos lá. Foi quando ele ofereceu pro Sebastião, foi quando aí, como eu morava mais dele, né, no caso, Foi quando eu desci pra Teixeira Leite, fiz a limpeza, nessa casa, junto com o primo, né? Aí foi quando começou a casa do poeta Sebastião Marinho. Voltamos até a Galvão Bueno, pegamos nossas coisas e passei a morar lá, junto com o primo. Aí foi quando o Sebastião pegou umas paredes, fez umas mudanças lá, derrubou, botou umas vigas pra sustentar e segurar o telhado. Aí começou a casa da Sebastião Marinho. Quando ele fundou a sede, fundou a associação pelo nome de UCRAN. Em 1988, lá na Zona Sul, que ele decidiu com os outros amigos, no Santo Amaro, o nome da UCRAN. Aí fundaram lá e, em 89, criou a sede lá da UCRANna Teixeira do Leite, na fundação mesmo da UCRAN. A assinatura da ata inicial foi na Santo Amaro, no galpão lá, junto com os amigos. Aí a casa começou a partir de 89. Começou os eventos nessa casa, que foi muito sucesso, né? Que eles reuniram os amigos, os repentistas e outros que vinham do Nordeste. Essa casa servia de acolhimento para aqueles que não tinham a condição de pagar hotel, né? Nem sempre eles tinham, né? Coitados vinham e se alojavam nessa casa, entendeu? E tinha os finais de semana, os eventos, entendeu? É onde nós fornecíamos, nós servíamos o ajabá, o queijo de coalho e o sarapatel e as bebidas normais que o pessoal pedia do Nordeste. Tipo, as bebidas normais lá. Eurobeba, as pinguinhas das terras lá que eles gostavam. Desculpa. E nós começamos e... Essa casa teve sucesso mesmo, de 90 até 98, por aí. Todo final de semana essa casa enchia. E os ouvintes e os representantes, toda semana era uma dupla. Aí foi quando, 2000 e 2001, foi que aí ele pensou, opa, vamos... Trazer mais um ponto de… Um dos nossos eventos culturais do Nordeste. Quem? Com o quê? O nosso Terço de Maio que nossos antepassados sempre passavam pra nós quando criança. Aqui só vem essa moça, entendeu? Entendeu? Que entra ela na história.
Adriana - A casa tem muitas histórias, talvez seja por isso que o Hailton esqueceu de falar um x. A empresa do Sebastião Marinho não só era uma casa, era duas casas.
H - É, porque a casa a gente contava com uma só, que é geminada, né?
A - Isso, só geminada.
H - Contamos por uma só.
A - O que ele fez? Ele abriu uma porta pra dar acesso e ele trouxe toda a família pra outra casa. Um lado, ele deixou pra fazer os eventos, que a gente falou salão, e lá o quartinho onde ele já estava, lembra, dormindo, e o quintal é a casa da minha tia. A casa do lado, ele levou, chamou todos os irmãos, irmãs, sobrinhos e cunhadas. Pra quê? Pra formar uma casa só.
H - Tipo uma pensão.
A - Entendeu?
H - Era tipo uma pensão. Cada um tinha o seu ambientezinho. Tipo o tamanho disso aqui. Já dava pra mais uma cozinhazinha separada e um banheiro.
A - Junto, existia um pedreiro. O bom de tudo é que já tem um pedreiro, né? Saudoso, Chico Binga. Que era casado com a prima deles. Então, O que que acontece? Tinha várias paredes, o Sebastião Marinho derrubou, pediu pra ele derrubar, e a casa, que era uma casa com sala, quarto e cozinha, virou vários cômodos, pra várias famílias, né? A casa do lado, a 261. Casa 1, casa 2, casa 3, casa 4. Viu?
H - Transformou em 4.
A - Mas assim, graças a Deus de vida, a união que o… A União do Estatuto formou exatamente da palavra União do quilo de açúcar. Fala aí pra eles, pra elas saberem que veio.
H - Ah, eu esqueci de contar desse negócio. Por que surgiu o nome União? Porque a irmã, que nós morávamos na Galvão, na Galvão Bueno, na casa do Sebastião lá, e a irmã fazendo café e ele dialogando com os colegas lá, qual o nome que ia dar pra associação? Ela tava fazendo café, com o que que ela tava na mão? União! Aí, união de vocês juntos. Aí, no união de vocês juntos, ele lembrou. Ele lembrou. Opa, união! O que que ele era? Cantador, repentista. Aí ele falou, os ouvintes são os apologistas. Então, aí ele… Surgiu a união dos cantadores. Dividiu uma bandida, um café que ela tava fazendo e viu. O nome União, ela gostou, aí deu a ideia pra ele. No caso da época que surgiu, a União dos Cantadores, Repentistas e Apologistas. Agora é, eles mudaram, é Cordelista. Em vez de Repentista, é Cordelista, que é tudo igual, né? O Repentista e o Cordelista, então é, entendeu? Aí é União dos Cordelistas, Repentistas e Apologistas do Nordeste. Aí ficou UCRAN, no caso do... A União por causa desse açúcar, entendeu?
A - O Terço de Maio, como eu já tinha falado, ele me fez o convite para rezar, porque além de ele querer acrescentar mais um evento cultural, ele lembrou que eu era uma das herdeiras dos Terços de Maio, porque até então, hoje, já estão rezando os terços de maio na cidade. A igreja tenta imitar, mas jamais é igual quando era rezado nos sítios, nas fazendas, os caseiros que rezavam. Então, o Sebastião, por ser do mundo da Viola e conhecia vários sítios, vários lugares, como ele conhecia o Araçá, o Filgueira, que está tudo ali próximo à Solânea, a Areia, esses lugares. Então, ele passava por vários sítios e as casas das pessoas estavam rezando o Terço de Maio. Então, ele lembrou que a minha família fazia parte de um desses sítios. Pessoal que morava no sítio que rezava. Foi quando ele me fez o convite. Eu fiquei um pouco assim, né? Porque até então eu participava. Não era coordenadora. Uma coisa é você ir lá como apologista, um exemplo. Outra coisa é como você ir como o tocador repentista. Uma coisa é vocês irem lá como fiéis, outra coisa é eu estar lá rezando. Todo um compromisso, tem toda uma regra. Mas assim, como eu já tinha em mente como que era pra ser feito, deveria ser feito, eu só respondi pra ele que eu não tinha os hinários, precisava… Que alguém mandasse, ele achou melhor eu ir pessoalmente, por eu ser mulher, ter conhecimento pela minha família, já ter o livro. E eu fui, viajei pra pegar o livro. Foi um pouquinho assim... Um pouquinho, né, vai. Mas quando eu falei o nome da pessoa, a pessoa já não cedeu de imediato, mas foi-se procurar a forma de me dar pelo menos a cópia. Eu trouxe a cópia e começamos a rezar. E quando as pessoas que eram do lugar descobriram que na casa do Sebastião Marinho, além de cantoria, estava acontecendo o Terço de Maio, nossa, que bonito, né? Trazer uma da nossa cultura, que os nossos familiares rezavam, eu não acredito! E foram passando a ponto do espaço ficar pequeno. Eu até cheguei a comentar, Sebastião Marinho, vamos fazer o Terço de Maio no meio da rua, não só a fogueira. Ele falou, não, a tradição é aqui dentro de casa, com oratório. Ele até mandou construir uma capelinha igualzinho lá no Nordeste, lá dentro da casa tem uma capelinha onde ele quer tudo, bandeira natural, lanterna natural, tudo conforme a tradição.
H - É nada moderno.
A - Nada moderno. A casa é isso. Eu falei que na casa acontecem muitos eventos, uma casa que por fora Você fala assim, nossa, mas quando você coloca o pé, a casa tem assim uma chama de positividade, você sente a presença de um ser superior que faz com que você fale assim, nossa, agora nós temos assim… Uma parede que eu digo que é o museu, que está todas as fotos, todas não, tem um pouco de foto das pessoas que passaram por lá, inclusive tem até foto do Patativa do Assaré, que nós fomos na Assembleia Legislativa, nós fomos um evento que estava lá o Patativa, e ele eu, de vez em quando, costumava acompanhar ele, com o museu acompanha ele, para um aniversário de Inezita, na Sala São Paulo. Ele ganhava os ingressos e perguntava se eu queria acompanhar. Como eu falei, ele gostava do meu jeito de animação, então ele queria a minha presença, porque falava esse lugar aqui é a cara dela. E continua até hoje. De um lado tem um pequeno museu, do outro lado a gente tem alguns livros que ele escreveu, alguns poemas que ele escreveu, inclusive está lá o dicionário, tem três dicionários, e era o dicionário que ele costumava tirar dúvida, bem que eu digo que ele não precisava disso, porque qualquer tema, qualquer pergunta que você fizesse desse para o Sebastião, ele sabia mastigar em questão de segundos. Daqui até a Paraíba, ele sabia todos os estados, todos os municípios, todas as cidades. Está lá o dicionário dele. Inclusive, ainda estão os armadores de rede, que ele gostava de ficar deitado numa rede. Ainda tá lá uma cadeira, que essa cadeira…
H - A cadeira tá lá.
A - A cadeira não é bem piada. A cadeira tem uma... É lenda isso, Hailton?
H - É lenda.
A - Por quê? Claro que eu não acredito nisso. Isso é coincidência. Porque, infelizmente, algumas pessoas que passaram por essa casa e sentaram nessa cadeira já faleceram, inclusive o próprio, né? Aí as crianças que frequentam o Terço falam assim, não vou sentar nessa cadeira não, que todo mundo que sentou nela morreu. Morreu porque chegou o dia.
H - Sempre no meio de maio, aquele que fica lá sentadinho, sentadinho, que sempre eles gostam da cadeira. Fica sentadinho, sentadinho. No outro ano, nós perdemos essas pessoas, né? Mas é sempre os mais idosos.
A - É, isso é lenda, né? Faz parte da história da casa. E o Terço de Maio, pra você ver que é tanto de geração pra geração, que as criancinhas que frequentam o Terço, inclusive o meu neto tem três aninhos, e quando ele está presente, o Terço de Maio é transmitido pelo Facebook, temos uma comunidade, Terço de Maio. É bem movimentado, viu? As pessoas pedem muito o pedido e acaba agradecendo, porque acaba, pela fé, acaba alcançando, né? Não sou eu, quem sou eu, meu Deus? Mas a pessoa pede com tanta fé que acaba alcançando. A gente reza muito pelas pessoas, tem que... Rezar mesmo, porque não adianta. Além da oração, a gente precisa também ter ação, porque os dois têm que caminhar juntos. Como eu falei na outra entrevista, as pessoas batem na minha porta pedindo ajuda. Se tiver ao meu alcance, eu faço. Se eu não puder, eu procuro. Alguém pra me ajudar a fazer isso, porque não adianta oração sem ação. Deus quer que a gente caminhe com essas duas coisas juntas. Voltando ao meu neto. O meu neto já sabe rezar. Três aninhos, ele já acompanha nos hinos. Se pedir, se der uma lanterna pra ele, ele já sabe que tem que dar a volta. Criancinha de um ano fazendo o nome do pai. Você viu que o Terço é de geração para geração. E assim, o meu pedido, se hoje, o meu maior sonho é poder continuar passando e fazer com que, quando eu não estiver aqui, aqueles que ficarem continuarem.
P/1 - Queria, vocês falaram um pouquinho já, eu queria perguntar, a casa como esse espaço de acolhida, as pessoas que passaram. Tem alguma… cada um de vocês trazerem alguém que marcou muito de passagem por lá?
H - Ah, temos. Nós temos o Furiba, que era o repentista, e tem a Mocinha, né?
A - O Furiba, ele vai contar o porquê. Pela rua, até hoje, da Enchente. E o Seu Furiba, quando ele vinha a São Paulo com outros, ele ficava hospedado lá. E começou a chover. E nessa época estava ele e a Mocinha da Passira. Como a Mocinha já tinha presenciado que a rua enchia e que a casa alagava, porque que a casa alagava? Hoje, a gente aterrou, o Sebastião aterrou, tá um piso, mas antes era purão, era tábua.
H - Era um suspenso e o porão embaixo.
A - Cabia, vamos supor, eu de cócoras embaixo. O que que acontece? A Mocinha tinha vindo antes e a Mocinha tinha presenciado que quando chovia, a casa alagava e ela ficava com medo por ser de tábua, a casa desmoronar. Começou a chuva se preparar no céu, a mocinha, por aqui. Ela preferiu ficar lá na ponta da rua, levando chuva, do que permanecer na casa. O seu Furiba, o repentista Furiba, não sabia. Gente, começou a chover. Pra sorte dele, eu estava em casa porque a minha filha era pequena. O Hailton estava no trabalho. Ele começou a passar mal, o seu Furiba. Aí eu fui e liguei pro Hailton, pra o Hailton vir tirar a gente, que eu também comecei a ficar amedrontada, com medo da casa despencar, porque a rua já tava aquele mar. A janela, a altura da janela para o chão, eu acho que é de um metro...
H - Não, dois metros e quinze.
A - Eu já tava conseguindo colocar... A mão na água, pela janela. O Hailton veio arriscando a vida, bem que não tinha muita boca de lobo. A gente conhece a rua, né, Hailton? O Hailton veio. O que o Hailton fez? O Hailton pulou a janela, pegou o seu furiba, colocou nas costas.
H - Você visse a cena, né? Maravilhosa. Cena maravilhosa.
A - E ele ia voltar pra pegar eu e minha filha, só que eu, por ver, adivinha o que era que eu já tava vendo? A geladeira da minha tia, imagina, uma geladeira que é pesada, né? A geladeira já tava boiando. Eu falei, se tá boiando a geladeira, daqui a pouco eu tô boiando também. O que foi que eu fiz? Coloquei minha filha também no pescoço. E fui seguindo ele. Agora imagina a cena, gente. Que pena que não tinha ninguém. Nessa época não apareceu nem um helicóptero. Mas eu quase caí. Eu quase que hoje não estaria aqui contando essa história, essa cena. Porque eu quase caí numa boca de lobo. Porque eu achava que conhecia a rua, E não conhecia, porque mesmo tendo aquela tampa, aquela tampa, dependendo da força da água, a água...
H - Faz um redemoinho.
A - Então, eu ia caindo.
H - E ela não prestou atenção e eu estou indo pelo meio da rua.
A - Foi. A gente só morre quando chega a hora. Então, não estava marcado. Estava marcado pra mim estar contando essa história hoje, tipo, um tipo rindo e chorando, mas assim… Só que antes, quando eu via isso, me dava uma tristeza. Se eu te falar aqui hoje eu já não fico mais... Traumatizada com isso. Sabe o costume?
H - Costume.
A - Eu perdi muitos móveis, mas o importante é que eu tô aqui. Nós estamos aqui, né?
H - E como ele falou que é pra nós falar dos nossos... As memórias dos nossos poetas. Então, tem esse Furiba, tem a Mocinha, ainda tinha outra figura, que era o Zé Lucca.
A - Esse Zé Lucca do nada. Esse… Olha, por não ter colchão e nem muita rede pra todo mundo, acontece isso até hoje. Se tiver um evento lá e as pessoas não tiverem condição de voltar com táxi, uber, esperar o metrô circular, o que é que a gente faz? A gente vai fazendo uma garrafa de café atrás da outra, sabe? E a gente se compromete em colocar aquelas cadeiras e começar todo mundo a contar piada. E o Zé Lucas, além dele ser poeta, ele vende bijuteria. E ele falava que é ouro. O que era, acontece. Chegava nos bares, começava a beber, né?
H - E falar muito.
A - E falar muito.
H - Que vendia ouro.
A - Que vendia ouro. E é onde ele falava que estava hospedado?
H - Na casa do Sebastião Marinho.
A - E ele dormia com a porta que dá acesso ao quintal, que tinha um muro que dava acesso para uma pensão. Essa pensão não tinha porta. Era invadida. Certo dia, um dos meus irmãos veio a São Paulo passear e estava dormindo junto com ele. Quando a gente pensa que não, está as duas figuras gritando. Um gritava pelo Hailton, que era o meu irmão, e o outro gritava pelo Giovanni, que era o meu primo.
H - Na casa do lado.
A - Saímos nós arriscando a vida, sem arma nenhuma. A arma que tinha. Esse aqui saiu com a vassoura. O meu primo saiu com a pá. Gente, imagina se isso é arma pra quem tá armado, pra um ladrão que tá armado. Só que o grito deles foram tanto que o cara que entrou mesmo pra roubar vai correndo até agora, devido aos gritos. O meu irmão, lembra, relata que o poeta tava dormindo, ele ainda tava acordado, tava muito quente, época do mês de dezembro, e ele viu uma luzinha, tipo. Um...
H - Aquele com o celularzinho dele no começo?
A - Não, o ladrão entrando, clareando, procurando o próprio, né? O repentista que dizia que vendia ouro. Só que o que vendia ouro tinha chegado um pouquinho meio alterado. Estava roncando. Aí meu irmão, quando viu que o cara vinha em direção a ele, começou a gritar. Nisso o poeta acordou e falou assim, meu irmão, meu amigo deve estar ficando louco. Tá gritando pelo Hailton. Mas já que ele tá gritando pelo Hailton, eu vou gritar pelo Giovanni. Aí começou, olha, um gritava pelo Hailton e o outro pelo Giovanna. E assim, esse poeta Zé Lucas, ele costumava passar seis meses aqui e seis meses lá. Época do calor de São Paulo, ele vinha pra São Paulo. Época do frio, ele voltava pra Sumé. Só que a esposa dele ficou doente e ele não voltou mais. Como a Mocinha da Passira também, Curu até me prometeu de me levar lá, mas agora eu vou ter que ir junto com a Rossilene. Ela ainda está viva, né? Mora num sítio em Pernambuco.
H- Em Passeira, cidade de Passeira, né?
A - Mas não só esses dois, não.
H - É, nós temos o atual agora que nós, esse já é de coração, esse já é, que é o Antônio Costa, né? Entendeu? Esse é o momento.
A - Mas ele tá perguntando pessoas que passaram pela casa.
H - Não, é, o Antônio Costa, esse é um já que a gente tem como irmão. Entendeu?
A - Nossa! Tem vários, tem o seu Heleno... Fala aí, que passou pela casa?
H - Não, mas… É, tem muitos, mas o que marcou mesmo foi o seu Furiba, a Mocinha e esse Ze Lucca, que marcou. E agora, o que marca com nós agora que é do nosso meio, que a gente tá sempre lembrando, é o Antônio Costa, né? Porque esse é...
A - Tá vindo a São Paulo, vai ficar hospedado.
H - Porque esse é tipo um irmão. Quando o Sebastião tava pra lá, era ele que... Entendeu? Então, quando a gente tá pra cá, a gente tem… A gente faz por onde, a gente dá um acolhimento pra ele, por causa que ele nunca deixou o poeta de mão.
A - Agora, com a… Durante o tempo que o Sebastião Marinho ficou acamado, e precisava fazer uma arrecadação, uma campanha para ajudar ele. Ah, tem uma coisa que eu vou deixar aqui e pode publicar em rede nacional. Apesar da casa… Ser uma associação, nós, começando pelo poeta Sebastião Marinho, nunca tivemos uma ajuda financeira. Sempre quem arcou com as despesas até hoje, mesmo depois da partida, é o Sebastião e os amigos. Os amigos e a comunidade. É uma casa que… É os amigos e a comunidade. É bom e é bem que temos amigos, né? E é isso. Diga.
P/1 - Eu queria perguntar pra vocês qual é a lembrança que vocês guardam mais do Sebastião na casa.
A - Você quer de triste ou de alegria?
H - Que vocês quiserem contar pra gente.
A - Olha. Teve um Natal e ele tava bem barrigudinho. E final de ano, nossas festas de confraternização, a gente vestia alguém de Papai Noel. E esse ano, o que eu fiz? Eu pedi pra ele se vestir de Papai Noel.
H - Essa foi boa.
A - E ele falou pros familiares que ia fazer um evento, ia cantar em algum lugar, e quando faltava mais ou menos 20 minutos pra meia-noite, Aí a gente comprou presente e colocou, a gente conversou com as crianças, a gente, que eu digo as mães, conversou com as crianças, o que as crianças queriam ganhar que estava ao alcance das mães. E a gente comprou os presentes e colocou no saco do Papai Noel. Quando faltava mais ou menos 20 minutos pra meia-noite, o Sebastião apareceu vestido de Papai Noel. E, assim, ele mesmo que não se aguentou, ele mesmo que acabou, como é que se fala, o segredo, né? Desvendando o mistério, porque os adultos já perceberam. Riram, foi um Natal muito alegre, porque todo mundo se divertido, porque ele ficou bem parecido com o Bom Velhinho. Mas, assim, as crianças não conseguiram descobrir quem era ele, sabia? Muito emocionante. Isso é a parte boa. A parte ruim, a gente, nós dois, foi o que mais convivemos com ele, os oitavo, os oito meses, né? E nós presenciamos cada momento da partida dele e não tem como não ficar triste, mas o bom de tudo é que ele me fez um pedido. No último Natal, a gente não queria fazer o que se fazia de costume, que era a ceia. Aí ele falou, não, não é pra deixar de fazer. Ele só pediu pra não deixar ele no salão, pediu pro Hailton levar ele lá pra dentro do quarto. E ele, de lá, ele percebeu que as pessoas não estavam se divertindo, rindo, como era de costume. Ele me chamou. Alguém, não sei se foi o Hailton ou a cunhada dele, foi levar a comida. Aí eu fui lá buscar o prato, aí ele falou assim, vocês pensam que eu não estou percebendo que vocês não estão felizes, que vocês estão tristes, eu não quero isso, não. Eu quero que vocês continuem alegres. Mesmo sem eu estar presente, eu quero que vocês continuem.
H - E a parte boa que eu dei todas com ele, porque quando ele fazia uma letra de uma música, ele fazia questão de mostrar pra fazer opinião, pra dar opinião, né? Será que gostou? Aí ele fazia questão de pegar o violão lá e passar toda aquela letra que ele tinha escrito. Ele gostava de me mostrar. Sempre, toda tarde que eu saía do trabalho, eu passava lá. Então, essa coisa boa que eu gostava dele ter. Ele tinha o prazer e eu ficava mais feliz ainda dele estar apresentando aquela letra que ele estava escrevendo, para que ele ia lançar. Aí ele perguntava, o que tu acha? Nosso pai não ia amar? Eu falei, claro que o meu pai ia amar uma coisa dessas. Tinha as lives também, que a gente, na pandemia, fez junto com ele. Aí essa live já foi porque ele tava meio que cabeça baixa, né? Lá ele não podia cantar em lugar nenhum, e ele naquela rede dele, sentado, só lia, entendeu? Telefone, né? Aí foi quando nós tivemos a ideia da live. Aí pronto, a live foi uma maravilha pra nós, porque aí nós toda… Ficava esperando a semana inteira, que era só nas quintas, mas marcamos só na quinta-feira. Nossa live. Toda quinta, nós... Eu tava lá junto com ele. Eu, mas os outros rapazes. Muito bom, _________. Fomos momentos bons com ele. Tristeza no tempo, porque ele, quando ele ficou doente, tudo bem. Aí eu ficarei normal. Claro, eu ficava triste às vezes de ver ele acalmado ali, ele sem reagir. Castigando ele, cutucando ele, que ele não estava muito mole, que ele não sabia fazer nada. Ele até me xingava às vezes. Porque era pra ver se ele, né, se mexia, porque até então ele estava bem, mas ele estava tipo com depressão. Aí a parte triste foi só essas partes. Mas eu _________ bem. Depois disso aí, a tristeza foi depois que ele faleceu, que aí eu vi as coisinhas dele. Aí é aquilo que eu falei. Aí é que a tristeza vem depois.
A - Você sabia que todos os anos quando ele fazia, completava ano, Era eu e a filha dele que animava, a gente sempre fazia uma… O Sebastião Marinho, ele era muito saudável. Ele morreu por curiosidade. Viu? Ele fazia check-up a cada seis meses, ele não tinha nenhum problema de saúde. Morreu por curiosidade, que está lá a escada onde ele foi subir para curiar o teto que o meu genro e o Hailton trocou. E ele caiu e, adivinha, ficou calado. Uma história que estava ficando velho e que o Covid tinha deixado a perna dele meia, como é que se fala, hein? Falava assim, hein? A minha perna tá assim depois do Covid. Mentira! Era o femur trincado e ele se esforçando, fazendo esforço físico, inclusive até viajou, né, pra Paraíba pra fazer uns eventos lá. Quando chegou lá, pegou a Covid pela segunda vez. Quando voltou, ainda estou achando, se enganando ou querendo enganar os irmãos, os amigos, as cunhadas, inclusive a mim, que não tinha caído. Não queria falar da queda, né? Mas ele tinha falado para o outro irmão dele. Depois de tudo isso, foi que o irmão dele falou que na hora que ele caiu, ele viu a queda e mandou ele procurar um médico e ele falou que não estava sentindo nada.
H - Não tinha acontecido nada.
A - Depois que ele caiu, a queda e ele ficou acamado, que foi quando a filha dele o levou ao hospital e fez a tomografia, que detectou que o fêmur estava trincado, que ele teve que passar pela cirurgia. Nessa mesma época, foi quando ele ouviu falar que ia vender, ia tomar a casa para construir os prédios. E tudo isso para lhe falar. O Sebastião Marinho, ele tinha um amor. Não pela casa em si, pelo que ele podia fazer, o que a gente continua fazendo pelas pessoas dentro da casa. Então, eu falo que foi um pouco de… Foi eu como auxiliar técnica de enfermagem, um pouquinho de conhecimento. Ele se entregou, foi ficando depressivo e não quis mais. Ele muitas vezes pegava a viola e dizia assim, rapaz, é a tua perna que tá cirurgiando, não é as tuas mãos. Continua aí, mas sabe assim, ele prestando atenção nas torres subindo? Isso aqui vão tomar. Como vocês viram, se derrubar um teatro, imagina uma casinha sempre na Rua Teixeira Lente, 263. Aí ele foi colocando isso na cabeça a ponto de não querer mais… Eu disse que ele não queria mais viver para ver o que não vai acontecer. Entendeu? O que não vai. Eu disse que não vai acontecer. Então, ele não quis viver para... Não vê o que não vai acontecer. Essa parábola, viu? É a casa. Uma vez que você fica aclamado, meninos, mesmo que vocês não tenham nenhum problema de saúde, além do que ele tinha lá, o fêmur, que foi cirurgiado, que passou por uma cirurgia, mas você sabe que a gente não pode ficar só deitado, porque você que fica só deitado, você acaba contraindo uma pneumonia, uma bronquite, ele não quis fazer fisioterapia, só deitado, deitado, deitado, deitado, e isso vai criando uma escara, e assim foi o fim. Da história do nosso poeta.
P/1 - Um pouquinho mais sobre o que a casa significava para ele. Eu queria ouvir de vocês o que a casa do poeta significa para vocês.
H - Para mim, é a minha segunda casa. Porque, claro, tem a minha casa, que eu moro, que nós moramos. Tivemos a nossa filha, está com a nossa filha. Mas lá é tudo, porque eu tô lá, tô cá. Todo dia eu tô nessa casa, entendeu? Porque eu moro do lado, no prédio do lado, entendeu? Mas tem a casa lá, era tudo, porque eu tô dentro de 89 de lá, 88 para 89, e é raro o dia que eu não tô dentro dessa casa, né? Parece que o cordão umbilical foi plantado ali, como dizem, né? Porque dou uma voltinha, tô dentro da casa, né? Vou em casa, pergunto, vejo ela, vamos lá na Teixeira? Não, não vou, não. Retorno a Teixeira, né? Porque a Teixeira, nós chamamos por causa da rua, mas a casa é 261. Então, a minha casa lá, pra mim, é a minha segunda casa, né? A minha casa, né? Seria, entendeu?
A - A casa. A casa foi lá que eu conheci... Ó. Conheci o meu primeiro amor, né? Casei e fui morar lá. Lá eu tive o meu segundo amor, que é a minha filha. A minha filha nasceu, foi gerada, nasceu e se criou. Além de ter acontecido tudo isso, aí vem o que eu faço e as pessoas que eu recebo. E vejo o que a casa pode oferecer. Não tem como fugir da casa, porque agora todo mundo quer conhecer a casa que foi do poeta Sebastião Marinho. Nós estamos na rua, as pessoas estão ligando, as pessoas dos museus, das universidades, porque, quando ele era vivo, ele recebia muitos alunos. Então, com a viagem dele, que eu falo que é viagem, com a viagem que ele fez, as pessoas acham que a casa está fechada. Então, nós aqui, fazendo com que a casa renasça não, que ela já é nascida, refloresça. Então, estão voltando. E sabe quem está fazendo o que ele fazia? De uma maneira diferente, porque ele improvisava, né? E eu relato o que ele fazia. Então, é eu que estou abrindo a casa para as pessoas irem lá conhecer a cadeira, né? Contar a história da cadeira. Está lá agora, como nós estamos para receber, é conhecido pelo IPHAN, patrimônio cultural, né? Rezadeiras da Paraíba tivemos lá. O primeiro seminário está lá, um cartaz enorme, as pessoas chegam lá, veem aquele cartaz e falam, opa, o que foi? Eu vou explicar da reza, né? Porque tem o altar, tem também a pequena biblioteca, tem dois painéis que foram doados pelo próprio Jota Borges. Às vezes as pessoas dizem assim, acho até que foi a gente que mandou. Não, aqui foi o próprio, que o Sebastião Marinho foi fazer uma exposição… que o Jota Borges foi fazer uma exposição na França, e quando voltou, perguntou se o Sebastião...
H - Como eles se conheciam, ele perguntou se ele queria, né?
A - Se ele queria. E eu agora resolvi. Antes o Sebastião usava para live, que eles faziam, né? Agora eu resolvi colocar lá.
H - Não ficar só pra nós, deixar pra quem chegar ver lá o painel. Ver o trabalho do Jota Borges, entendeu? Porque antes nós usávamos só na live e guardávamos. Voltávamos lá, botávamos o poeta na frente, fazíamos a live, ele mesmo já ia lá, desmontava e guardava. Agora não. Falamos, não. Por que guardar? Vamos dividir com as pessoas, né? Apreciar a arte do homem. Jota Borges. Muito bonito o painel.
A - É. Não soube aproveitar muito a passagem do poeta por aqui. Teve muita oportunidade. Quarenta anos convivendo com ele ali, comendo cuscuz, com ele e comendo a sardinha dele. Ah, sabia fazer uma sardinha de panela que eu não sei fazer, viu? Então, ele tinha o prazer de fazer e me oferecer. Claro que aproveitei. Não foi o suficiente, mas a sabedoria que Deus dá pra gente é da gente. Eu só peguei aquilo que era pra se pegar. Uma pessoa de um coração que possa até existir melhor, mas igual não conheço.
P/1 - Queria perguntar pra vocês como que é estar aqui hoje, no museu, no mesmo lugar que o Sebastião estava em 2001 e em 2011.
H - Então, quando elas falaram, eu lembro, voltou essa vida dele aqui na época, porque eu sabia nos dias que ele vinha pra cá, que ele comentava comigo. Eu vou em tal lugar, tu tá aí trabalhando, não vai dar pra me levar lá, porque eu sempre o tragava nos cantos. Não quer me acompanhar, não dá, poeta. Porque eu trabalhando, né? Então aí voltou tudo, eu falei, é claro que eu vou. Porque eu vou rever um pouco onde o Sebastião foi. Essa foi a curiosidade, né? Pra ver onde ele deu a entrevista aqui, entendeu? Porque, como eu falei, não sabia que eu amava tanto o irmão, entendeu? Porque como me faz falta, eu fico só agora dividindo as coisinhas dele junto ali com o coração partido, mas por causa disso, essa foi a curiosidade. Devido a entrevista dele, e quando ele contou na época, claro, nas correrias nós não dávamos tanta importância, né? A parte dele e a entrevista que ele teve, claro, dava importância sim, mas não acompanhou muito, né? Ele falou, não, eu dei entrevista pros meninos lá, de tal dia vai sair. Só que aí a gente não foi pesquisar. Depois da partida dele, aí todo mundo atrás das coisas do Sebastião. Pra matar a saudade que o homem partiu não tá mais entre nós, entendeu? Aí essa, eu digo, mais um motivo pra... E quero ver a foto dele lá. Cheguei procurando, não vi ela, quem encontrou, entendeu? Entendeu a curiosidade? Mas, por causa, tudo isso vem do homem, do Sebastião Marinho.
A - Eu, eu agradeço. Estou muito lisonjeada. Por quê? Porque, como, as pessoas perguntam onde eu vejo a história de Sebastião. Aí eu indico só vocês procurarem no Museu da Pessoa. E saber que, a partir de agora, não que eu me vá agora, mas daqui a alguns anos, quando eu não estiver mais aqui, alguém falar também só procurar no Museu das Pessoa que vocês vão encontrar. E eu sei que, onde ele estiver, ele está orgulhoso. Não é?
H - Certeza.
P/1 - Muito lindo. Para encerrar, se não for pedir demais, eu queria que vocês falassem uma poesia e, se não for um despropósito, uma reza pra gente.
H - Então pronto, diga uma reza pra nós.
A - Eu quero terminar o Terço de Maio cantando no violão. O pessoal da Globo foi fazer uma entrevista comigo e eu tentei improvisar com Coqueiro da Bahia, eu vou ver se eu consigo improvisar com vocês agora.
H - Não é melhor a reza do rouxinol dele? Ah. Do hino, do hino dele que era tudo pré.
A - Cada pré, ah. Ele falava que não tinha religião e hoje eu assino embaixo. Porque não é religião nem placa de igreja que salva ninguém. Porém, ele ganhou um São Francisco de Assis, protetor dos animais. E lembra que eu falei que ele tentou corrigir todo o hinário? Lá tinha um hino que ele amava me pedir pra ouvir cantar, que é assim. Ai, ai, ai. Meu Deus, me deu um branco agora. Que fala do rouxinol. (entrevistado canta) “Quero morrer cantando seus louvores. Qual rouxinol que expira o pôr do sol? Quando partir da minha pobre lira, tu cantarás meu triste coração.”
H - É que ele amava esse hino que elas cantavam. Ela tinha que cantar esse hino sempre pra ele.
A - Ele falava que eram os bisavós de vocês, pessoal, os tios que costumavam cantar. Então, quando ele viu aquele hino, ele falou, você vai puxar bem o sotaque, hein, Adriana? Aí eu me esforcei para aprender a cantar. Então eu lembro da imagem lá de São Francisco. Essa semana eu já até cantei olhando para o São Francisco e cantei esse hino em homenagem a ele.
P/1 - Gente, foi maravilhoso. Muitíssimo obrigado.
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