O Mundo Que Aprendi A Ver Com Os Olhos Do Meu Filho
Antes do Miguel chegar, eu tinha uma ideia muito pronta de como a vida deveria ser. Tinha planos, rotinas, expectativas, tudo organizado, como se o mundo seguisse um manual único e obrigatório. Eu olhava ao meu redor e via apenas o que era óbvio, o que todos chamavam de “normal”, e acreditava que esse era o único jeito certo de viver.
Quando meu filho nasceu, foi a alegria maior da minha vida. Mas, com o passar do tempo, comecei a perceber que ele era diferente. Não da forma ruim que as pessoas às vezes pensam, mas diferente de um jeito que eu não conhecia. Atrasos nas falas, movimentos repetitivos, dificuldade em lidar com barulhos, luzes ou mudanças pequenas na rotina… e também uma capacidade incrível de se concentrar no que gostava, de reparar em detalhes que ninguém mais via, de sentir o mundo com uma intensidade que eu nunca imaginei ser possível.
O diagnóstico de autismo chegou com um misto de medo e alívio. Medo do que eu não sabia, do que viria pela frente, de como iria protegê-lo. Alívio, finalmente, de entender: “ah, é isso. Ele não é ‘difícil’, não é ‘teimoso’, ele apenas vê e sente o mundo de um jeito diferente do meu”.
E foi aí que a minha vida começou a mudar, devagar, mas de forma completa.
Eu tive que aprender a desacelerar. O mundo corre, grita, exige pressa e respostas rápidas, mas com meu filho, aprendi que o tempo tem outro ritmo. Aprendi a esperar: esperar que ele se acalme, esperar que ele se comunique do seu jeito, esperar que ele entenda o que eu digo, e principalmente, esperar que eu mesma entenda ele. A pressa que eu tinha antes desapareceu, substituída por uma força que eu nem sabia que existia dentro de mim.
Parei de olhar apenas para o resultado e comecei a valorizar cada pequeno passo. Uma palavra nova, um olhar que durou mais tempo, um momento em que ele tocou em algo que antes o assustava… essas...
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O Mundo Que Aprendi A Ver Com Os Olhos Do Meu Filho
Antes do Miguel chegar, eu tinha uma ideia muito pronta de como a vida deveria ser. Tinha planos, rotinas, expectativas, tudo organizado, como se o mundo seguisse um manual único e obrigatório. Eu olhava ao meu redor e via apenas o que era óbvio, o que todos chamavam de “normal”, e acreditava que esse era o único jeito certo de viver.
Quando meu filho nasceu, foi a alegria maior da minha vida. Mas, com o passar do tempo, comecei a perceber que ele era diferente. Não da forma ruim que as pessoas às vezes pensam, mas diferente de um jeito que eu não conhecia. Atrasos nas falas, movimentos repetitivos, dificuldade em lidar com barulhos, luzes ou mudanças pequenas na rotina… e também uma capacidade incrível de se concentrar no que gostava, de reparar em detalhes que ninguém mais via, de sentir o mundo com uma intensidade que eu nunca imaginei ser possível.
O diagnóstico de autismo chegou com um misto de medo e alívio. Medo do que eu não sabia, do que viria pela frente, de como iria protegê-lo. Alívio, finalmente, de entender: “ah, é isso. Ele não é ‘difícil’, não é ‘teimoso’, ele apenas vê e sente o mundo de um jeito diferente do meu”.
E foi aí que a minha vida começou a mudar, devagar, mas de forma completa.
Eu tive que aprender a desacelerar. O mundo corre, grita, exige pressa e respostas rápidas, mas com meu filho, aprendi que o tempo tem outro ritmo. Aprendi a esperar: esperar que ele se acalme, esperar que ele se comunique do seu jeito, esperar que ele entenda o que eu digo, e principalmente, esperar que eu mesma entenda ele. A pressa que eu tinha antes desapareceu, substituída por uma força que eu nem sabia que existia dentro de mim.
Parei de olhar apenas para o resultado e comecei a valorizar cada pequeno passo. Uma palavra nova, um olhar que durou mais tempo, um momento em que ele tocou em algo que antes o assustava… essas coisas que ninguém mais notava passaram a ser as maiores vitórias da nossa casa. O que era “grande” para os outros, como notas na escola ou brincadeiras com muitas crianças, passou a ser pequeno para mim, e o que era pequeno para o mundo, passou a ser tudo para nós dois.
Eu parei de julgar e de comparar. Antes, eu olhava para as outras crianças e pensava “por que ele não faz isso também?”.
Hoje, olho para cada pessoa e penso: “cada um tem a sua forma de estar no mundo, de sentir, de aprender e de se expressar”.
Aprendi que não existe um jeito só de ser feliz, de inteligente, de capaz. Que o “normal” é só uma ideia inventada, e que a verdadeira beleza está na diversidade, em cada caminho único que cada um percorre.
Passei a reparar em tudo o que o mundo tem de detalhes. Ele me ensinou a olhar para o brilho de uma gota de chuva, para o som suave do vento nas folhas, para as cores que se misturam no céu ao entardecer, para a textura das coisas… detalhes que eu passava a vida inteira ignorando, ocupada com as minhas preocupações e tarefas. Hoje, eu sinto o mundo com muito mais profundidade, porque ele me mostrou como fazer isso.
E mais do que tudo: aprendi o que é amor de verdade. Não um amor que espera retorno, que exige algo em troca ou que fica triste quando as coisas não saem como planejado. Mas um amor que acolhe, que aceita, que se adapta, que luta, que se alegra com o que é, não com o que poderia ser. Um amor que me faz ser mais forte, mais sensível, mais humana.
Hoje, eu não trocaria nenhum dia da nossa jornada, nem os mais difíceis. Se ele não fosse autista, talvez eu continuasse vivendo no meu mundo pequeno, apressado e superficial, sem ver toda a beleza e toda a verdade que existem fora do que eu achava que era “certo”.
Meu filho não é apenas um adolescente com autismo. Ele é meu escritor favorito, sim, ele escreveu um livro lindo de um super herói e suas superações.
Meu filho veio para me mostrar que eu poderia ir além de tudo que um dia imaginei.
Meu filho é o meu grsnde mestre nessa jornada chamada vida.
Ele me ensinou a viver de verdade, a enxergar o mundo com olhos mais doces, mais atentos e mais cheios de amor. E por isso, eu sou eternamente grata.
Se existir outras vidas, em todas quero ter você comigo.
Sou Alessandra Carvalho , doutora em educação, palestrante e ativista em relação ao autismo.
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