Nasci em Jacareí em 1964, um ano marcado pela tristeza. Em pouco tempo meus pais mudaram-se para Campinas em busca de oportunidades de trabalho, repetindo a história de tantos trabalhadores que vagavam pelo pais.
Cresci em um bairro afastado do centro e a distância até a escola era uma boa caminhada. Eram tempos difíceis para colocar o pão na mesa. Minha mãe, dedicava-se aos afazeres domésticos, assim como inúmeras mulheres do seu tempo. O Brasil ainda não havia sequer admitido o divórcio com o pretexto de manter a família.
Era um menino com inúmeras dificuldades compreender os professores, para criar amigos, e com a boca seca de palavras.
Nem mesmo a adolescência, o trabalho para auxiliar em casa ou a mudança de escola foi suficiente para mudar o que era.
O segundo grau, hoje chamado de ensino médio, foi um período de novos ares, mas ainda marcado pelos medos que me atormentavam. Não sabia qual era o meu papel no mundo.
Até hoje não sei explicar de forma convicente a escolha por um curso superior em História, mas foi nesse curso que encontrei algum sentido para vida. Seja para esquecer minhas derrotas, seja para tornar-me professor.
O contato constante com jovens me fez nascer a vontade de ser pai. Ainda hoje não sei se sou um bom pai e professor. Tento manter meu caminho com as ferramentas que construí ao longo da vida. Nessa trajetória, mudei de cidades, conheci pessoas e vi meu pai adoecer. Ele partiu em 2011 e deixou a sensação de diálogos não travados, um silêncio que ecoa nos ouvidos, o peito apertado e os olhos vermelhos. Sua ausência se fez presente desde então.
No espelho vejo sua face em minha face e até as rugas parecem as mesmas.
Tão diferentes e tão iguais. Talvez, como diria Belchior, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.
Saudade



