Entrevista de Vitoria Alice Cleaver
Entrevistado por Maurício Rodrigues Pinto
Brasília, 1º de outubro de 2025
Projeto ADB - Memórias da Diplomacia Brasileira
Entrevista ADB-HV-024
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Rafael Guerche
Revista e editada por Maurício Rodrigues Pinto, Mauro Malin e Luiz Egypto
00:00:26
P1 – Para iniciarmos, eu queria que a senhora se apresentasse, falando o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R – Eu sou Vitoria Alice Cleaver, nasci em Recife, Pernambuco, em 5 de setembro de 1944.
00:00:56
P1 – Quais os nomes dos seus pais?
R – Sou filha de uma carioca, Elza Pérez Figueroa, de solteira, que adotou o Cleaver no nome de casada; e de um imigrante inglês, Francis Westmore Cleaver, que era natural de Liverpool. Eles se conheceram na cidade de Recife, para onde a minha mãe tinha se mudado ainda jovem, acompanhando a família. O pai dela era um espanhol, não imigrante. José Francisco Figueroa veio para o Brasil contratado para participar das obras de ampliação do porto do Recife. E como engenheiro ele construiu muitas estradas de ferro no Brasil e tanto que os irmãos da minha mãe, cada um, nasceu em um lugar, acompanhando o traçado da própria estrada de ferro. O meu pai, por sua vez, veio com o pai dele, ainda adolescente, na Primeira Guerra Mundial, fugindo dos horrores da guerra; depois voltou à Inglaterra e depois da Segunda Guerra, ele já veio contratado pela Tramways [The Pernambuco Tramways & Power Company Limited], era contador e trabalhou no Rio de Janeiro. Os pais da minha mãe, ele, meu avô, era espanhol, da cidade de Vigo, engenheiro, e a minha avó, já nascida no Brasil, era filha de imigrantes italianos, que trabalhavam numa fazenda de café em Vitória do Espírito Santo. E o papai veio inicialmente fugindo da Primeira Guerra e depois já contratado como contador trabalhava para a Tramways, no Rio de Janeiro. E depois que perdeu os pais na Inglaterra, ele resolveu se fixar no Brasil e abriu uma loja de pneumáticos e peças de automóveis. Quando a mamãe casou com ele, ele era proprietário desta loja em Pernambuco, onde praticamente viveu toda a sua vida.
00:05:03
P1 – E a senhora sabe como é que eles se conheceram?
R – Sei. A mamãe me contava que o papai morava na mesma rua em que ela morava. E ele a notou, em algum momento, sempre que ele passava pela casa dela, ele fingia que tropeçava e caía. Coisas do século passado. E assim eles estabeleceram um relacionamento e vieram a se casar. Papai faleceu em 1968, em Pernambuco, de câncer, e eu tenho mais uma irmã somente, a Eileen, é também casada com um colega, com o Luiz Fernando de Ataíde, que também é embaixador aposentado e mora no Rio de Janeiro.
00:05:58 P1 – E quando eles se casam?
R – Papai nasceu em 1901 e a minha mãe, em 1915. A minha mãe tinha 25 anos quando se casou, então em 1915… Por volta de 1940, aproximadamente, eles se casaram.
00:06:21
P1 – A senhora é a filha mais velha?
R – Eu sou a mais velha e a minha irmã é três anos mais jovem.
00:06:28
P1 – Então, alguns anos depois do casamento…
R – Eu nasci em 1944 e a minha irmã é de 1947.
00:06:35
P1 – E a senhora sabe um pouco da história de como foi o seu nascimento, a escolha do nome Vitoria Alice?
R –A minha mãe queria me chamar de Vitoria Eugênia. Ela achava esse nome bonito. Mas a minha avó italiana disse para ela que esse nome tinha sido de uma rainha espanhola infelicíssima. Então, o nome foi trocado para Alice, Vitoria Alice, porque Alice era o nome da minha avó paterna. E aí fiquei Vitoria Alice. Assim que foi escolhido. Esse nome nunca me deu muitos problemas na escola, não. Na verdade, em casa, eu sempre fui chamada de Alice. E as pessoas que são meus conhecidos e amigos de todo o tempo, mesmo antes da escola e da universidade, para eles eu sou Alice. A minha irmã me chama de Alice, minha mãe me chamava de Alice. Mas, na escola, a tendência é sempre chamar as pessoas pelo primeiro nome, de modo que eu fiquei Vitoria, eu sou conhecida em todo lado como Vitoria. Há gente no Itamaraty que me chama de Vicky, mas o meu nome de guerra é Vitoria Cleaver.
00:08:03
P1 – Quais lembranças você tem da sua casa de infância e do bairro de Recife onde passou a primeira parte da infância?
R – Olha, toda a minha infância, na verdade, foi passada na mesma casa, na Avenida 17 de Agosto, 934, ficava muito próxima do quartel do CPOR [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército brasileiro] e de uma pracinha que se chamava Jornal do Commercio. Era uma casa enorme, com um terreno muito grande, que a minha mãe tinha recebido do pai dela. Até eu decidir ir para o Rio de Janeiro estudar, já na década de 1960, a minha vida inteira eu me lembro de crescer, de brincar, das festas de aniversário, dos almoços que a mamãe gostava de fazer, sempre nessa mesma casa em Recife, que era um bairro, aliás, que tinha muitos britânicos. Porque o Recife da minha infância tinha muitas empresas concessionárias inglesas. Eu me lembro do papai com amigos, por exemplo, na Western Telegraph, ele tinha na Pernambuco Paper Mills, Price Waterhouse, Tramways, Power Company, o Banco de Londres, Bank of London in South America, eram muitas empresas concessionárias que havia. E existia em Pernambuco um clube, o British Country Club, que diferentemente dos clubes ingleses, como no Rio de Janeiro, por exemplo, que é da nata, da alta sociedade, em Pernambuco era o clube da colônia inglesa que morava lá, que nessa época era muito grande, porque havia muitos funcionários que trabalhavam para essas grandes concessionárias. E essa grande família britânica frequentava o Country Club, de modo que eu me lembro muito da minha infância nesse clube. Os folguedos, as brincadeiras, os Natais, os jogos de tênis, tudo acontecia nesse clube. Os bailes… Toda essa parte da minha infância, adolescência, juventude, foi frequentando esse clube e convivendo muito mais com uma colônia britânica do que com amigos brasileiros. Acho até que quando eu cresci, o meu pai gostaria que eu tivesse me casado com um filho de um dos amigos dele. E o papai achava que eu, na verdade, quando escolhesse uma profissão, eu deveria ser uma secretária executiva dessas grandes empresas, porque elas pagavam excepcionalmente bem. Tanto que eu aprendi taquigrafia, mas a mamãe tinha outros planos. A mamãe era uma pessoa muito avançada, considerando que ela nasceu em 1915, e ela se ressentia muito do fato de que, na época dela, sendo de uma família de sete irmãos, todos os rapazes puderam fazer uma carreira, estudar, e ela foi educada para o lar. Então, ela fez curso de corte e costura, pintura, culinária, estudou um pouco de música, mas ela não pôde fazer nenhuma faculdade. E eu cresci ouvindo a mamãe dizer: “Se eu tivesse podido estudar, eu teria sido uma diplomata, porque eu gosto de política internacional, da possibilidade de viver em outros países, conhecer outras culturas, certamente essa é a melhor das profissões.” E ouvir, desde que eu era pequena, esse desejo da minha mãe, acho que ela realizou o dela através da filha mais velha, porque eu acabei enveredando por esse caminho quando chegou o momento.
00:12:12
P1 – Qual a sua primeira lembrança de escola? Onde você estudou?
R – Eu fiz a escola primária no Sagrada Família, que era um colégio na Praça de Casa Forte, de freiras francesas. E depois, o ensino médio, que antigamente era científico e clássico, eu fiz o clássico no Colégio Vera Cruz, que também era um colégio de freiras. Mas o interessante é que eu comecei a minha vida estudantil quando era pequenininha num educandário que se chamava José de Anchieta, que ficava em Parnamirim. Era relativamente perto da minha casa e era um colégio misto, quer dizer, um avanço, se você considerar oitenta anos atrás. Era um colégio misto que eu gostava muito, mas eu gostava muito de brincar com os meninos e eu gostava de jogar bola de gude. Aí um dia minha mãe chegou no final da tarde e me encontrou acocorada jogando bola de gude com os meninos. E aí, para aquela época, ela achou realmente que era um absurdo, que aqueles não eram modos de uma senhorita, e eu fui parar no colégio de freiras. Mas eu não sei se eu perdi, não. Acho que ganhei, porque era um colégio excepcionalmente bom e onde eu aprendi muito. É um colégio que não existe mais hoje, essa ordem de freiras francesas acabou na Praça de Casa Forte, mas praticamente toda a minha educação foi nessa escola. E eu diria que a nossa vida, quer dizer, a da minha irmã e a minha, era a vida das crianças daquelas épocas. Normalmente, como é que a gente se diverte? A gente se dividia entre a escola e, geralmente, os folguedos no clube que frequentava ou na casa dos amiguinhos. Mamãe nos deu também a possibilidade de muitas atividades extracurriculares. Então, por exemplo, eu jogava tênis, aprendi um pouco de balé, aprendi pintura, aprendi a tocar piano, estudei um pouco de acordeom. Então, essas coisas todas que a gente fazia extra escola nos ocupavam muito. E além do colégio, em que pese não ser horário integral, mas sempre naquela época era comum trazer muitas tarefas para casa para você fazer, de modo que era uma vida bem ocupada. De vez em quando, nós viajávamos ali pelas redondezas. Papai, ao contrário de mim, era um homem que não gostava muito de viajar, já minha mãe gostava muito. Então, os passeios que nós fazíamos, enquanto o papai foi vivo, não foram para muito longe, porque ele era um homem muito caseiro. Mas eu diria que foi uma infância bastante tranquila no meio dos amigos e dividindo entre escola e o clube, que era mais ou menos a extensão da nossa casa. Ali estavam, digamos, os filhos da maior parte das famílias que papai conhecia, em que pese que os filhos dos ingleses – e eu acho que a minha família foi uma exceção –, eles costumavam estudar na Inglaterra e vir de férias para o Brasil. Já papai nos educou totalmente na escola brasileira e mesmo a língua inglesa eu não falo desde pequenininha. Eu me lembro quando eu tinha mais ou menos catorze anos, eu me lembro da mamãe brava em casa, dizendo para o papai que era um absurdo, como é que ele deixava os filhos crescerem sem estudar, sem falar a língua dele. Então ele nos conseguiu uma excelente professora e a partir dos quinze anos, nós passamos a falar inglês. Mas em casa, não falava muito com o papai, porque eu, como boa nordestina, até hoje, são mais de 50 anos vivendo em lugares diferentes, eu ainda tenho um ligeiro sotaque nordestino, que foi muito mais pesado. Hoje em dia, eu rio dos meus amigos nordestinos, porque eu acho o sotaque fortíssimo, mas eu devia ter igual ao deles na época que eu era jovem e eu me lembro que quando fui aprender francês, a Odete, que foi a minha professora, ela ficava louca porque eu estudava, saía de férias para Pernambuco, e quando eu voltava era um desastre até ela fazer eu perder aquela entonação nordestina das coisas. Eu nunca fiz esforço para perder o sotaque nordestino, mas à medida que você é exposto a outras culturas, outras línguas, outros lugares, ele naturalmente vai se modificando, de modo que o meu acho que se tornou um pouco mais suave, mas certamente ainda tem aquele ranço do Nordeste.
00:18:00
P1 – Mesmo fazendo parte desses espaços de sociabilidade de uma comunidade inglesa, não era usual conversar em inglês?
R – Com as crianças que estudavam na Inglaterra, quando elas vinham, nós falávamos em inglês. Mas com os meus amigos, cuja maior parte eram de crianças brasileiras, eu falava português. Ao contrário, por exemplo, dos meus filhos, que estudaram a vida inteira em escola americana, por causa das sucessivas transferências, e uma coisa que me surpreendia era vê-los brincando em inglês. Eles não brincavam em português, coisa que eu, sendo filha de inglês e convivendo com uma colônia britânica, eu nunca brinquei em inglês, eu brincava em português. Mas os meus filhos, talvez por causa da escola, a escola de horário integral, o dia inteiro, eles falavam inglês o tempo todo.
Terminado o clássico, veio o momento de escolher o meu caminho. Como eu mencionei, o papai preferia que eu começasse imediatamente a trabalhar em uma empresa ganhando super bem, mas a mamãe gostaria que eu estudasse e ela me ajudou a ir para o Rio de Janeiro. Primeiro, fiz concurso para a [Universidade] Federal de Pernambuco, em Direito. Papai não era muito favorável a que eu fizesse o curso, mas eu acho que por isso eu devia me aplicar tanto nos estudos. E eu tenho a publicação de quando eu passei na faculdade de Direito, em primeiro lugar naquela época. Então, papai não se opôs a que eu estudasse, tendo em vista o êxito do concurso e eu fiquei nessa faculdade até o terceiro ano, quando decidi ir para o Rio de Janeiro procurar um ensino especializado para fazer o concurso para a carreira diplomática. Essa decisão não foi pacífica, porque o meu pai se opôs aque eu deixasse o Recife, inclusive ele passou um ano sem falar comigo. Foi com a ajuda da mamãe, e do advogado que ela tinha no Rio de Janeiro, que eu consegui uma vaga na PUC [Pontifícia Universidade Católica] e me mudei para o Rio, para estudar. Eu estava comentando da minha experiência na PUC no início, de tentar estudar mais com receio de que fosse uma universidade mais puxada do que a de Pernambuco. Tirei boas notas e conheci o José Maurício Bustani, que hoje também é embaixador aposentado, mora no Rio de Janeiro e foi o meu grande mentor, porque foi o Zé que conseguiu preparar para mim um programa extraordinário de estudo: me indicou todos os cursos que eu deveria seguir, me apresentou a Odete Lázaro, depois sogra dele, que foi a minha professora de francês, que se tornou minha amiga e quase uma mãe, e que me fez ter êxito no concurso com seis meses de preparo. Eu também tinha uma certa habilidade, mas eu me lembro quando fiz a prova oral, porque a prova oral era feita assim: tinha um copo com uma porção de temas dentro, então você puxava um tema, tinha dez minutos para pensar nele e fazer uma exposição. Aí eu tiro: “Qual foi o último livro que você leu em francês?” Poxa, eu só tinha seis meses de francês, eu nunca tinha lido um livro em francês completo. Mas eu tinha lido muito texto. E então eu disse para os professores. A filha da Odete assistiu a minha prova e ela de longe, vendo a cara dos professores, ela disse assim: “Meu Deus, o que será que é a barbaridade que a Vitoria está dizendo?” Mas eu simplesmente estava dizendo a eles: “Olha, eu nunca li um livro em francês.” Aí foi aquele choque. “Eu não li porque só tem seis meses que eu estou estudando, mas eu li alguns textos de literatura francesa sobre isso e aquilo…” E fiz uma exposição sobre algum texto que eu provavelmente sabia quase de cor. E eles ficaram abismados e perguntaram quem era o professor e qual foi o método utilizado. Essas eram as caretas que eles faziam e que a Janine, filha da Odete Lázaro, ficava se perguntando que barbaridade que eu estava dizendo. Mas eles realmente ficaram muito impressionados com a fluência que eu apresentei só com seis meses de estudo. E eu ganhei a segunda nota do concurso, com seis meses. E eu me lembro que a Odete Lázaro saiu de férias. E ela disse: “Vitoria, você me mande notícias”. Mas aí eu tinha que mandar um telegrama naquela época, não havia nada dessas facilidades eletrônicas que a gente tem hoje. E aí só o endereço dela já era uma fortuna. Aí eu coloquei assim: “Passei! Vitoria!” Aí a família dela, que sabia que ela estava esperando notícias, não entendeu o “passei”, mas entendeu o Vitoria e falou: “Vitoria! Vitoria! Vitoria…” Podia ter dito “levei bomba” ou algo do gênero, mas coincidiu que realmente, com essas duas palavrinhas, eu consegui dizer para ela que tinha tido êxito nos exames e certamente muito desse êxito eu devo à dedicação dela, porque raras pessoas adotariam um aluno como ela me adotou. Ela foi extremamente carinhosa e ficou minha amiga até o final da vida. E eu sou muito amiga do José Maurício Bustani e da Janine Monique, esposa do José Maurício, que é filha da Odete, que também tem a Maria Theresa Lázaro, que também é embaixadora aposentada. A Janine não chegou a embaixadora por causa das agruras das mulheres diplomatas no início de carreira, porque era extremamente difícil você progredir, havia uma série de regras que te impediam de permanecer na ativa, sobretudo se você casasse com um colega. Se você casasse com um colega, você tinha a figura do que se chamava agregar ou acompanhar cônjuge ao exterior. E aí você parava, ficava com o marido no exterior todo o período para o qual ele tinha sido designado, que geralmente eram seis anos, e quando você voltava ao Brasil você retomava a sua carreira no ponto onde você parou para acompanhar o cônjuge. Como no Itamaraty você tem limites de idade por nível de promoção, isso fazia com que você alcançasse o patamar que levava à aposentadoria por idade. A minha geração foi uma geração que trabalhou muito para a modificação dessas regras. Todas na surdina, porque se isso transpirasse, não só nós poderíamos ser punidas, como poderiam ser punidos os maridos diplomatas dessas colegas. Eu me lembro de um determinado momento, quando havia uma colega casada com outro diplomata, que era parente do [almirante Augusto] Rademaker, que era vice-presidente da República [durante o governo de Emílio Garrastazu Médici, de 1969 a 1974], na década de 1970. E o [Mário] Gibson Barbosa, o chanceler, ele tinha um chefe de gabinete que odiava mulheres na carreira. Então, além da gente agregar e perder tempo de carreira e acabar aposentada, ele propôs uma emenda que estabelecia que a mulher que agrega para acompanhar o cônjuge agrega para o resto da vida, quer dizer, não desagrega mais. Quer dizer, ele queria cortar logo no início da carreira. E sabedoras disso, nós, mulheres, fizemos uma contraemenda. Nós trabalhamos no Congresso, quer dizer, mulher que agrega para acompanhar cônjuge no exterior também conta o tempo de serviço, como se estivesse trabalhando. E essa emenda foi a primeira grande vitória nossa dentro do Itamaraty, porque passou a ter vigência essa regulamentação. Então, você agrega para acompanhar o marido, passa seis meses fora até trabalhar, mas o teu tempo de serviço está contando como se você estivesse trabalhando. E ao regressar, você não mais ia para aquele patamar rígido do passado, você tinha caminhado na lista de antiguidade. Esse foi realmente o primeiro ponto que permitiu às mulheres terem um pequeno ganho na carreira. Depois vieram muitos outros. Eu me lembro de quando as mulheres conseguiam trabalhar no exterior, mas elas podiam ser transferidas junto com o marido para outro posto ou uma outra posição, mas grande parte do nosso salário é a representação. E a mulher não ganhava a representação, só uma cabeça do casal. Então você trabalha tanto quanto o seu marido, mas você só ganha metade do salário. Isso era o que acontecia na época, mas também acabou sendo corrigido. E com a Constituição de 1988, acabou que os direitos foram igualados, em que pese que nem sempre a vida desses casais foi facilitada. Porque é difícil você conseguir postos que fiquem perto um do outro. Na minha época, isso dificultava muito a carreira das mulheres. Hoje não mais, porque com o home office tudo é possível, tudo na vida progride.
00:28:29
P1 – A senhora havia dito que a sua mãe talvez tenha sido a incentivadora inicial para que a senhora fizesse diplomacia. Mas o que a senhora até então, antes de ingressar e fazer o curso no Instituto Rio Branco, conhecia sobre a diplomacia?
R – A mamãe, na verdade, ao dizer que ela gostaria de ter sido diplomata, ela me dava uma noção do que era a carreira, porque ela colecionava artigos do Itamaraty. Por exemplo, de cada vez que o Itamaraty comprava uma embaixada nova. Eu me lembro quando foi comprado o Palazzo Pamphilj, em Roma. Era um artigo enorme, acho que da revista Manchete, que mostrava fotos do palácio. Então, mamãe me dizia: “Olha que residência maravilhosa que o Brasil tem. Isso é um lugar onde você um dia pode vir a morar. É uma carreira que te permite conhecer governantes, presidentes, reis, rainhas, poetas, escritores, todo o espectro de pessoas existentes numa sociedade; o seu acesso a eles é muito facilitado, porque você é representante do seu país.” Ela me tentou com todas essas coisas, com a pintura de uma carreira de muito glamour. Eu diria que nem tanto glamour assim, mas de qualquer modo foi uma carreira que me propiciou os contatos mais variados, como ela mencionava, além do prazer realmente de você trabalhar pelo bom relacionamento entre as nações, de você ver que às vezes uma gestão, um trabalho de cooperação que você incentiva, pode aproximar países e gerar mais compreensão entre os povos. Eu não me lembro exatamente disso, mas teve um jornalista que disse: “Vitoria Cleaver quer trabalhar pela paz”. Alguém um dia me perguntou: “E você conseguiu fazer isso?” Eu acho que eu tive uma experiência muito real disso, quando eu fui para o Equador em um momento de guerra com o Peru [1995], podendo trabalhar, por exemplo, pela paz entre dois povos. Então, acho que é uma carreira que te põe o mundo aos pés e cabe a você escolher o melhor caminho. Certamente hoje, como o Brasil tem embaixadas em todos os países do mundo, você tem que estar preparada para momentos também em que você tem que funcionar em situações de crise. E eu peguei muitas dessas, como no caso do Paraguai, com a queda do [general e ditador Alfredo] Stroessner, por exemplo, que eu estava lá com dois filhos pequenininhos. Como no caso do Equador, com a guerra Peru e Equador. E até em um consulado, onde fui cônsul-geral em Zurique, teve um caso específico que eu cuidei, foi uma das situações que envolveu personalidade e pessoas das mais difíceis que eu já cuidei, porque eu nem tinha atinado para a possibilidade de que pessoas podem viver essa doença chamada on the borderline. Você vive em cima de um muro, como se você fosse uma pessoa perfeita, mas de repente você cai e nessa queda você pode cometer coisas absolutamente incalculáveis, que foi o caso que eu tive nas mãos e que gerou uma crise entre os dois países, porque, no caso, a Suíça não digeriu bem a coisa. Além disso, a menina tinha conhecidos importantes no Brasil, as pressões sobre o Itamaraty, pressões do Itamaraty sobre a Embaixada da Suíça, em Brasília. Então, na carreira nem sempre você tem só momentos em que as relações bilaterais fluem facilmente. Você tem crises também. Mas, mesmo com todas as crises que eu tive que enfrentar, eu não me arrependo.
00:33:28
P1 – E antes da diplomacia, a senhora teve a experiência fazendo a faculdade de Direito.
R – Foi.
00:33:37
P1 – Conte um pouco sobre sua experiência no Direito e como ela ajudou a preparar o ingresso na diplomacia, e também a conhecer um pouco mais do que era o Brasil naquele período, na década de 1960, um período de muita ebulição política.
R – Eu estava na Faculdade de Direito quando houve o golpe civil-militar de 1964. A Faculdade de Direito da Universidade de Recife, hoje [Universidade] Federal de Pernambuco, ficava ali perto da Praça 13 de Maio. Do lado, estava o quartel-general do IV Exército e também havia o prédio da reitoria e da faculdade. Então, nesses primeiros anos que eu entrei na faculdade, foram momentos de muita ebulição. Eu estava no primeiro ano de Direito quando houve o golpe em abril de 1964. Eu me lembro que o meu pai me levava todo dia, no caminho do escritório, para a faculdade. Ele encontrou muitas blitze no caminho, uma movimentação muito estranha e ele me buscou na faculdade, para me levar para casa. E os dias que se seguiram foram de muita ebulição. Havia um reitor, ele era conhecido por reitor João Alfredo [Gonçalves da Costa], que era um cara muito avançado para a época. Em 1964, havia um receio muito grande de socialismo, comunismo, qualquer atitude um pouco considerada mais pioneira já era mal vista pelos militares e, às vezes, pela própria sociedade. De modo que o João Alfredo acabou sendo perseguido e eu me lembro que não muito tempo depois do golpe ele acabou renunciando à reitoria.
Eu fiz ainda mais um ano de Direito na Faculdade do Recife e depois eu me mudei para a PUC no Rio de Janeiro. E é claro que os ensinamentos de Direito… porque eu acho que as duas carreiras que melhor ajudam no curso do [Instituto] Rio Branco e na tua carreira propriamente são o Direito e a Economia. Hoje acrescentaram Relações Internacionais, mas a gente negocia muito memorando de entendimento, muita carta de intenção, muito acordo internacional e realmente se você tem um pouco de conhecimento de Direito, isso te ajuda nas negociações. Nesse aspecto, eu acho que eu escolhi a carreira de base certa para entrar no Instituto Rio Branco. Mas a Economia ajuda, assim como Relações Internacionais. Mas tem, por exemplo, a esposa de um sobrinho que é diplomata e ela era médica pediatra. Foi trabalhar no hospital público, ficou tão horrorizada com a deficiência de materiais e o sofrimento das crianças que pensou: “Tenho que fazer alguma coisa que me permita levar um dia a dia menos doloroso”. E aí ela disse que abriu um jornal e tinha um anúncio de concurso para carreira diplomática. Ela fez o concurso e passou para ser diplomata. Aliás, acabou de ser promovida a embaixadora, a Maria Rita [provavelmente fazendo referência a Maria Rita Silva Fontes Faria]. Mas ela era médica. Na verdade, o Itamaraty na minha época exigia só dois anos universitários, hoje exigem curso universitário completo, mas pode ser em qualquer área. Você tem médicos, economistas, administradores, linguistas, filósofos, qualquer formação universitária é aceita para o concurso do Instituto Rio Branco. Mas certamente o Direito me ajudou bastante por causa disso, porque faz parte da carreira diplomática muita negociação de textos jurídicos. Isso te ajuda a lidar mais facilmente com esse tipo de documentação.
00:38:10
P1 – Sobre a sua viagem para o Rio de Janeiro. Você sai também do Recife em um momento em que desafia o desejo do seu pai. Ele não foi favorável, num primeiro momento, a sua ida para o Rio para realizar esse desejo de ser diplomata. Conte um pouco dessa experiência no Rio de Janeiro.
R – Quando eu saí a primeira vez, o que me ajudou foi o fato de ir para esse pensionato das Irmãs Teresianas, cujo prédio, na verdade, se conectava com a PUC. E ali tinha talvez umas 20 jovens, todas elas vivendo uma realidade similar à minha, quer dizer, cada uma estudando uma coisa, mas tendo deixado as suas respectivas famílias em busca de aperfeiçoamento e abertura de novos caminhos. De modo que a realidade de uma e outra colega no fundo servia para nos apoiarmos mutuamente. E esse primeiro ano, quando eu fiz as provas da primeira fase, eu diria que foi relativamente tranquilo. A parte mais difícil foi quando eu voltei ao Recife nas férias e encontrei o papai muito doente. Ele me disse pela primeira vez que se esse era o caminho que eu queria seguir, ele iria me apoiar. Ele nunca tinha realmente acreditado na possibilidade de eu poder passar, porque ele era um imigrante inglês, não era de uma família quatrocentona. Realmente naquela época o Itamaraty tinha quase que uma tradição de famílias diplomáticas, passava de pai para filho, havia muitos paulistas também, não era uma carreira ainda muito aberta à participação de candidatos do Brasil inteiro. Mas, infelizmente, o papai morreu na cirurgia. Eu te contava que tinha que ser, porque sempre em momentos difíceis da minha vida, apareceu aquela mão amiga que ajuda. E realmente aconteceu um telefonema de um amigo que o procurava e eu contei o que tinha acontecido e ele me deu o endereço se eu precisasse de algo. Então, eu voltei ao Rio, mas eu não fui mais para as Teresianas. Eu mesma tomei a decisão de que era muito pesado para a mamãe ficar pagando, então eu fui morar na casa de um irmão dela, que morava perto da Estação Riachuelo, em uma casa antiga que tinha sido dos meus avós. Porque aquela região da zona norte do Rio de Janeiro nos séculos passados era a parte desenvolvida do Rio de Janeiro. Depois cresceram Copacabana, Leblon, Ipanema e todos os bairros e aquela região caiu no esquecimento. Mas esse irmão da mamãe conservou essa casa e me acolheu lá. Então, eu estudava nesse cursinho à noite, depois eu ia para a Central do Brasil de ônibus, aí tomava um trem e ia para a estação de Riachuelo e ainda andava sobre um viaduto, para chegar na casa do meu tio. Graças a Deus, nunca me aconteceu nada, apesar de eu chegar sempre em casa meia-noite, uma hora, durante esse período do concurso, a última fase. Paralelamente, eu telefonei também para aquele tal amigo que ligou no dia que meu pai havia morrido e disse: “Olha, eu estou fazendo concurso para diplomacia, mas eu perdi o papai, a vida está mais complicada. O senhor não podia me ajudar a encontrar um emprego de meio expediente?” E ele me indicou. Veja só, o papai queria tanto que eu fosse secretária executiva e eu acabei por um período sendo secretária executiva. E a taquigrafia que eu aprendi, embora não tenha seguido os passos que ele tinha pensado, me ajudou no Rio de Janeiro. Porque esse senhor me indicou para ser secretária executiva do chefe de uma organização que se chamava International Executive Corps. Era um grupo americano de empresários de alto gabarito, aposentados, que, nessa organização, prestavam consultoria a empresas brasileiras dos mais diversos campos, desde gestão à melhoria de produtos. Então, durante o Instituto Rio Branco, como o curso só funcionava de tarde, eu trabalhava de manhã como secretária deste senhor e à tarde eu cursava o Rio Branco. Estudava de noite, trabalhava de manhã, então foram dois anos bem puxados e eu deixei esse emprego quando tomei posse, finalmente, em março de 1971, em Brasília. Quando eu cheguei a Brasília, o meu sonho era trabalhar na divisão das Nações Unidas. Até pelo histórico passado, porque eu tinha ganhado o tal prêmio que o Pnud [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento] promoveu na época em que a ONU [Organização das Nações Unidas] fez 25 anos de existência. Eu tinha visitado a sede das Nações Unidas e eu queria ir para a divisão das Nações Unidas no Itamaraty, porque também era uma praxe os primeiros colocados escolherem esse Departamento de Organismos Internacionais. Mas aí eu descubro...
00:43:59
P1 – Eu posso pedir para você contar um pouco dessa história de você ganhar esse concurso, que acho que ele é bem interessante porque foi uma experiência até anterior a seu ingresso do Rio Branco? E você vai como representante do Instituto Rio Branco.
R – Quando eu ingressei no Instituto Rio Branco, isso coincidiu com os 25 anos de existência das Nações Unidas. E aí o Itamaraty promoveu cursos sobre as Nações Unidas em vários estados brasileiros. Tanto que eles emitiram um diploma que todos os colegas da minha turma têm, esse curso de extensão universitária sobre as Nações Unidas. E o escritório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Pnud, no Rio, fez uma proposta de prêmio que era uma passagem de ida e volta a Nova York e uma visita à sede das Nações Unidas, mediante a apresentação de uma redação de duas páginas sobre a ONU e a paz mundial nesses 25 anos. Eu fiz e ganhei o prêmio. E foi incrível. Sabe quando você fica cozinhando, eu vou fazer, não vou fazer... Foi na véspera que eu decidi. Porque eu quando ia para pegar o ônibus para o Instituto Rio Branco, eu passava na frente do escritório do Pnud no Rio. Aí a minha mãe falou assim: “Vai fazer ou não vai fazer esse negócio? Faz, menina, que não custa nada.” Aí de noite fiz a redação e ao ir para o Rio Branco, eu deixei lá. Mas eu não tinha nenhuma segurança de que ia ganhar, devia ter muitos candidatos. Foi uma surpresa quando eu ganhei essa passagem, que me foi dada no programa [televisivo] do Flávio Cavalcanti [1923-1986, apresentador e jornalista]. Eu ganhei uma enciclopédia Barsa também, então eu fui com o “passaportezinho” azul, especial, em uma viagem de estudos do Instituto Rio Branco. Fiquei em Nova York duas semanas, os técnicos da ONU tinham sido avisados pelo escritório do Pnud, de modo que todos foram muito gentis. Me deram uma verdadeira aula de ONU. Visitei todos os conselhos, a sala da Assembleia Geral, o Conselho de Segurança. Apreciei todas aquelas obras de arte que tem na sede da ONU. Foi muito interessante. Por essa coisa pregressa de estudar no Instituto Rio Branco, ter ganhado o prêmio e ido à ONU, eu fiquei com essa vontade de trabalhar na Divisão das Nações Unidas, que, por coincidência, era a seção que os primeiros de turma gostavam de selecionar, porque estava muito em voga o multilateralismo. Mas, por incrível que pareça, eu soube que eu não seria designada para a Divisão das Nações Unidas, mas que eu ia para o Cerimonial. Aí eu digo que não é possível, pode ser uma seção muito importante também, porque, por incrível que pareça, cerimonial mal feito pode criar a maior crise entre os países e as pessoas. Mas eu queria as Nações Unidas e eu tive o topete de ir no Departamento de Administração reivindicar o que eu tinha direito, porque eu sabia que meia dúzia de diplomatas que me precederam no primeiro lugar escolheram aquela divisão e eu também tinha sido classificada em primeiro lugar e tinha direito de escolher aquela divisão. O embaixador não falou nem que sim nem que não, mas no final eles respeitaram o meu pedido. E eu consegui ser lotada no Departamento de Organismos Internacionais, no qual eu estava subordinada à Divisão das Nações Unidas. Mas para o meu choque, quando eu me apresentei ao embaixador [Carlos] Calero Rodrigues [1919-2011], que era o chefe desse departamento, ele olhou assim para mim e disse: “Olhe, realmente tem sido uma tradição que os primeiros de turma venham trabalhar comigo, mas só quero mesmo ver se a senhora corresponderá.” Eu levei um choque, porque ele, naquelas palavras, estava dizendo “não aposto nada na senhora”. E realmente, durante um primeiro tempo, os meus expedientes eram, assim, examinados com lupa. Me lembro de um, porque os expedientes no Itamaraty geralmente são distribuídos com as siglas das divisões às quais o assunto interessa. Então, o meu assunto tinha que começar com DNU, Divisão das Nações Unidas barra, e as siglas das outras divisões às quais o assunto poderia interessar. E eu, ao bater – porque eu não era muito boa datilógrafa – ao bater, eu esqueci de botar a distribuição. E me lembro que ele devolveu esse expediente com o maior desaforo. O que foi bom até certo ponto, porque nunca mais na vida eu esqueci de distribuir o expediente. Mas o tempo passou e eu achei que o Calero Rodrigues acabou vendo que dava para trabalhar comigo e ele acabou sendo um chefe que, até certo ponto, se tornou um amigo. Mas quando eu entrei na divisão, todos os assuntos, basicamente, estavam distribuídos. E só sobrava a Sexta Comissão, que era a Comissão Jurídica. E eu depois descobri porque ela sobrava. Porque, simplesmente, por mais que você trabalhasse nela, os temas eram tratados na Comissão Jurídica de Genebra. E nessa comissão, não era a DNU que participava, era o filho do Haroldo Valadão [1901-1987], que foi um grande professor de Direito Internacional Privado, que foi meu professor inclusive na faculdade. Então, era um tema frustrante, porque você trabalhava, trabalhava, mas na hora de ir para a reunião, você não ia, era outro que pegava os seus assuntos e ia embora. Por isso que ela estava abandonada e foi um assunto que me foi jogado no colo. Eu me ocupava muito de temas que, de vez em quando, eu achava interessantes. E aí vou te contar uma coisa que mostra o certo machismo que prevalece na carreira desde terceiro-secretário, o que podia ser normal, a quase embaixadora.
Eu me interessei pelos temas de energia nuclear, que era o pet subject, inclusive, do Calero Rodrigues. E aí fiz um grande memorando, com uma série de sugestões. O meu chefe gostou muito, despachou favoravelmente e mandou para o Calero. E o Calero me deu uma espinafração, porque me disse que aquilo era um tema superdelicado, que não era para eu colocar a mão. Nesse momento, eu era terceiro-secretário, jovem, recém-saída do Rio Branco, eu aceitei. Os anos se passaram e eu estou no Paraguai, eu era conselheira. Aí veio alguém conversar comigo sobre os temas [da usina hidrelétrica] de Itaipu e [o projeto] Corpus [usina que a Argentina pretendia construir]. O embaixador não estava e eu tratei do tema, quando ele chegou, eu fui reportar. Aí ele me deu um passa-fora: “Tire a mão deste assunto que é delicado demais para a senhora cuidar”. Os anos se passaram e eu era a segunda na embaixada em Buenos Aires. Eu respondi por aquela embaixada, que o embaixador teve um AVC [acidente vascular cerebral]. Seis meses assinando o nome dele e ninguém viu…. Quando ele ainda estava bem, antes de sofrer o AVC, ele estava jogando golfe com o [presidente argentino Carlos] Menem [1930-2021, foi presidente entre 1989 e 1999]. Aliás, um contato superprivilegiado, porque você jogar golfe com o presidente, você está por dentro de todos os temas e de todas as informações. Mas quem ficava no batente ali do dia a dia era eu. E aí toca a chancelaria argentina, o Departamento de Energia Nuclear, e faz uma queixa: “Vamos passar uma nota, protestando”. Aí eu disse: “Não façam isso. Olha, a nossa relação é superboa, a gente vai conversar com a Agência de Contabilidade e Controle. Vamos resolver isso em um bom clima. Preciso de 24 horas para isso…” Está bom. Eu fiquei esperando que o embaixador voltasse, só que o meu filho pequeno era muito sujeito a convulsão febril, tinha começado essa história no Paraguai, e a minha empregada ligou, já eram oito horas da noite, dizendo que ele estava com uma febre muito alta. Aí eu chamo um colega e digo assim: “Olha, quando o embaixador chegar, você relate isso e isso e eu vou atender meu filho, mas eu volto”. Aí eu fui, levei meu filho ao hospital, deixei em casa, voltei à embaixada e eram nove e meia da noite. Não sei como posso descrever isso, mas o embaixador teve um ataque, porque eu coloquei a mão nesse assunto tão sensível. Afinal de contas, eu já não estava na beira de ser um embaixador mulher? – e eu não posso tocar nesse assunto. Eu não sei o que é que existe, mas você vê que os colegas homens têm uma desconfiança de que talvez a mulher fale demais, não pode guardar segredo ou não tem competência. Eu não sei exatamente explicar, mas esses três casos aconteceram em três níveis de carreira. Terceiro-secretário, conselheira e ministra-conselheira e encarregada de negócios muitas vezes na embaixada em Buenos Aires. Isso existiu na minha época no Itamaraty. Ainda permanece com menos intensidade, mas você pode imaginar que a minha geração foi uma geração que lutou muito contra esse tipo de preconceito.
Eu me lembro que quando eu me formei em primeiro lugar teve um embaixador que chegou para mim e disse: “A senhora foi classificada em primeiro lugar, deve ter uma memória extraordinária” – como que dizendo que é uma estúpida que só decora tudo. Aí eu disse: “Tenho embaixador, tenho memória de elefante e eu nunca vou esquecer do que o senhor está dizendo.” Então, havia essas pequenas coisas. Me lembro também, por exemplo, ainda como terceiro-secretário, nós fazíamos correios diplomáticos que eram pagos em dólar. E como o nosso salário era baixo, todo mundo disputava esses correios, que era levar uma mala diplomática para um país sul-americano, antigamente pelo CAN, o Correio Aéreo Nacional. E eu reparei que a minha turma inteira havia sido chamada, e eu e a Isis Martins Ribeiro de Andrade, uma colega minha que já faleceu, nós que tínhamos sido primeira e terceira de turma, não tínhamos sido chamadas. Aí eu fui falar com o Jorge Ribeiro, que era chefe do Departamento de Comunicações. E disse: “Embaixador, qual é o critério que o departamento utiliza para selecionar diplomatas para o Correio Diplomático?” Aí ele responde inadvertidamente: “A ordem de saída do Instituto Rio Branco, a ordem de classificação”. “Então, o senhor poderia me dizer por que já foram o décimo segundo, o décimo quarto, enquanto a primeira e a terceira de turma não foram chamadas?” Aí ele ficou assim: “Ah, vocês querem ir? Então está bem.” Ele me deu o correio. Sabe o que ele fez comigo? Ele me deu um correio triplo. Para Montevidéu, Buenos Aires e Santiago do Chile. Com uma mala diplomática. Antigamente a gente transportava máquinas de telex em malas diplomáticas, de um posto para outro. Às vezes, para conserto, para algum detalhe. Pois ele me deu uma mala que eu não conseguia levantar de tão pesada. Mas eu não me apertei, porque eu pedi àqueles jovens do Correio Aéreo Nacional para me ajudarem a colocar a mala dentro do avião e quando chegou nos postos, chamei o funcionário para tirar e entreguei na embaixada. Mas aí você vê, são coisas que mostram um pouco de machismo, do “ah, coitada, mas ela também é tão jovem, tem pouca experiência. Está começando…”
00:56:53
P1 – Começando na carreira.
R – Está começando, mas a mulher é idiota.
00:56:56
P1 – Já num nível de que não tem preparo para estar nesse lugar…
R – Eu entrei numa fase que tinha muito poucas mulheres no Itamaraty. Eu fui a oitava embaixadora a ser promovida na história do Itamaraty.
00:57:11
P1 – Até porque também teve no período não muito distante.
R – Não podia nem entrar.
00:57:16
P1 – Até 1954, se não me engano.
R – Eu entrei 15 anos depois que caiu esse impedimento de mulher trabalhar no Itamaraty. Lá eu realmente fui ver, fui conhecer machismo, porque na minha cabeça eu não sabia nem o que era, porque na minha casa, por meu pai ser estrangeiro, e mamãe também era filha de estrangeiro, sempre tudo muito liberal, lá era 50-50, os dois mandavam igualmente, se entendiam perfeitamente, e eu cresci achando que nada me seria impedido. Aí, quando entro no Itamaraty, de cara você leva um choque, porque aí você começa a ver que tudo é impedido.
00:58:06
P1 – E mesmo tendo o mérito ali já posto, tendo sido laureada como a primeira aluna da turma, mas mesmo assim isso lhe não garantiu usufruir…
R – De ouvir que você só foi bem-classificada porque você tem uma memória de elefante, como eu disse que tenho mesmo, porque eu nunca esqueci esse cara. Realmente fiquei com uma raiva inacreditável. Mas eu diria, vamos dizer assim, que eu sempre consegui driblar essas coisas. Porque do não que me foi dado, sempre acabei contornando e fazendo exatamente o que eu tinha que fazer. Mas, evidentemente, você encontra muito mais dificuldades que os homens.
00:59:21
P1 – Sobre um período significativo do Itamaraty, havia um decreto que proibia o ingresso de mulheres na carreira. A senhora havia mencionado que havia ainda poucas mulheres no momento em que a senhora entrou no Itamaraty. Além de você, na sua turma havia outras mulheres?
R – Havia. A minha turma foi uma turma privilegiada, porque tinha umas trinta mulheres fazendo o concurso, e cinco foram aprovadas. Então, nós éramos um grupo de 22 ingressantes, com cinco aprovações de mulheres, foi uma das turmas que mais mulheres teve. Dessas cinco mulheres, duas chegaram ao posto de embaixadora. E as outras três ficaram conselheiras por circunstâncias várias, casamento, muita agregação, essas coisas.
01:00:29
P1 – A senhora foi descrevendo em diferentes momentos da carreira cenas do que seria esse machismo que de alguma forma colocava a senhora e outras diplomatas mulheres em um lugar de desconfiança, de um olhar de que vocês não têm talvez o mesmo preparo ou qualidade para desempenho da carreira. E depois também a senhora vai se deparar com situações em que vai combater esse tipo de machismo e também promover uma maior inclusão das mulheres na carreira. Mas eu queria que a senhora contasse um pouco como é que foi o desenrolar da sua carreira. Desse primeiro posto que foi na Divisão das Nações Unidas, quais outros cargos em que a senhora foi lotada e até o primeiro momento que a senhora vai para alguma missão no exterior. Como é que foi?
R – Quando terminamos o Instituto Rio Branco, a gente normalmente cumpre um período em uma divisão do Itamaraty – que, no meu caso, foi a Divisão das Nações Unidas. E aí, logo depois, isso foi entre março de 1971 a 1974, eu saí para o primeiro posto diplomático, eu tinha escolhido Londres. E aí aconteceu uma coisa extremamente interessante, porque quando eu estava na Divisão das Nações Unidas eu tive a oportunidade de ir a uma Assembleia Geral da ONU, em 1972. E eu trabalhei com o então ministro conselheiro na missão junto à OEA, que era o embaixador Ítalo Zappa, já falecido [1926-1997], e o chefe da missão era o embaixador Sérgio Armando Frazão [1943-2010]. Por causa desse trabalho na ONU, quando chegou o momento na Divisão das Nações Unidas de meus colegas de turma terem um oferecimento de posto, eu fui chamada e aí o chefe da administração me ofereceu Nova York. Ele disse: “Olha, o embaixador Frazão gostou muito da senhora…” Aí dourou bem a pílula. “Ele só aceita conselheiros, mas aceita a senhora como terceiro-secretário”. Eu digo: “Pois é, embaixador, mas a minha situação é que eu estou sofrendo aqui com um pássaro maravilhoso na mão e lutando por um que está voando. Por questões pessoais, eu gostaria de ir para Londres.” Porque como meu pai nunca acreditou que eu passaria e ele morreu, eu quase que fiz uma promessa mental a ele. “Pai, olhe, eu vou mostrar a você. Eu vou não só passar [no Itamaraty], como o meu primeiro posto vai ser no posto da tua rainha.” Porque lá em casa tinha uma foto enorme da rainha Elizabeth. Todo inglês tem, tinha uma foto da rainha Elizabeth [Elizabeth II, 1926-2022]. E aí o embaixador que conversava comigo ficou meio surpreso, por ele estar me oferecendo uma coisa tão boa e eu pedir outra coisa. Eu disse: “Olha, embaixador, se por acaso não tiver nenhuma possibilidade de eu ir para Londres, aí eu pediria para o senhor ser meu amigo e me mandar para Nova York. Mas realmente o que eu gostaria era ir para Londres”. Aí eu volto para a minha divisão, o meu subchefe, que era o Regis Novaes de Oliveira, também já falecido, disse: “Como é que foi a entrevista?” Eu contei essa história, ele me disse: “Você é uma jovem muito ingênua. Agora nem em Nova York, nem em Londres, você vai para um lugar perdido aí no espaço.” Eu levei um choque quando ele disse aquilo e chorei à beça. Aí olha o que acontece. De noite, eu estava dando um jantarzinho para um diplomata britânico que estava voltando para Londres. E eu tinha chorado tanto, tanto, que o meu olho tinha dado uma congestão, ficado todo inchado e eu não consegui baixar aquilo. Todo mundo viu. “Vitoria, o que aconteceu com a sua vista?” E eu acabei contando o que tinha acontecido de manhã. Muito bem, acabou o jantar que foi muito agradável, todos foram embora. No dia seguinte, eu chego no Itamaraty e encontro a Renate Stille, minha colega de turma, que foi uma dessas colegas que eu falei que chegou ao posto de embaixadora e ela trabalhava para o chefe da administração. Ela disse: “Vitoria, tem um telegrama do embaixador em Londres pedindo para contar com seus serviços”. Eu falei: “Renate, isso não é possível porque o embaixador Sérgio Corrêa da Costa não me conhece.” “Vai você contar, esconder os pistolões para outro”, ela disse." “Renate, eu juro que eu não conheço o embaixador Sérgio Corrêa da Costa”. Aí eu fiquei encucada, quem poderia ter me ajudado? A esposa do [embaixador] Rubens Barbosa, que vocês devem ter entrevistado, a Maria Ignez [Corrêa da Costa], é filha do Sérgio Corrêa da Costa, e ela tinha em Brasília, naquela época, uma galeria de arte e fez um vernissage. Aí eu fui lá e disse: “Maria Ignez, eu queria te dizer que eu estou na maior felicidade, porque o seu pai pediu para contar com meus serviços. E eu me pergunto, será que eu devo isso a você?” Aí ela virou para mim e disse: “Agradece a tua amiga Elizabeth Fiel”. Elizabeth Fiel era chilena, casada com o encarregado de negócios do Canadá que estava no meu jantar. A Elisabeth chilena era filha de um embaixador chileno que tinha sido amigo do [Sérgio] Corrêa da Costa e elas duas tinham sido colegas de colégio. Como a Elizabeth foi em casa e me viu com o olho inchado, ela tocou para Maria Ignez e disse: “Olha Maria Ignez, eu tenho uma amiga tão legal, ela tem tanta vontade de ir para Londres. Por que você não pede ao seu pai para ele solicitar os serviços dela?” E a Maria Ignez, que gosta muito da chilena, fez isso imediatamente. Em menos de 24 horas eu acabei removida para Londres por uma gestão da mulher do encarregado de negócios do Canadá.
Foi um posto muito difícil, diplomaticamente, porque eu trabalhava com o [Jorio Dauster, também entrevistado neste projeto] com café, açúcar, cacau, estanho, trigo, comissão internacional da baleia, em uma época que os ativistas vinham para a porta da comissão e jogavam tinta vermelha em cima dos delegados, e iam matando as baleias e a gente negociava... Eu me lembro que participei do acordo de 1976, na Organização Internacional do Café [OIC], e era uma época em que eu acho que a delegação que vencia era aquela que tinha mais resistência, porque nós almoçávamos e jantávamos sanduíches na mesa de negociação. E às vezes íamos até meia-noite, uma hora. Quanto teatro e coisas boas eu perdi, porque as reuniões eram absolutamente intermináveis. Em uma época em que não existia ainda uma regulamentação do trabalho de intérprete, que depois, eu ainda em Londres, o trabalho do Intérprete foi regulamentado, e aí, passada a hora, os governos tinham que pagar hora extra. E as reuniões passaram a terminar mais cedo. Mas antes, eu me lembro até que o delegado da Colômbia era o [Juan] Manuel Santos [nascido em 1951], que depois foi presidente da Colômbia [2010-2018]. O Manuel era um excelente delegado, mas ele trabalhava para aqueles grandes empresários de café. E ele era incansável, era meia-noite, uma hora, e a gente estava naquelas reuniões de café imaginando mecanismos novos que pudessem equilibrar preços e, sobretudo, dar um certo desenvolvimento aos produtores, que eram de países em desenvolvimento. Eu me lembro que o Acordo de Café de 1976 [ocorreu depois de] uma geada que tinha acontecido no Brasil [em 1975, no Paraná]. A demanda era muito grande e a oferta de café estava em baixa, porque tinha queimado a maior parte dos nossos cafezais. Então, eles imaginaram um regime de cotas para funcionar. Quando os preços estão muito altos, você libera a cota. Quando estão muito baixos, você bota a cota para o preço subir. Então, toda negociação geralmente trazia para a outra negociação, eram insumos. E foi um período em que eu aprendi muita coisa.
Eu me lembro, quando eu cheguei em Londres, esse Departamento de Organismos Econômicos Internacionais era formado só por três pessoas. Era o embaixador Marcelo Raffaelli, o conselheiro [Gustavo de Miranda] Proença Rosa e eu. E nós cobríamos todas essas reuniões. Quando eu saí de Londres, virou uma repartição brasileira que se chamava Rebraslon [Representação Permanente do Brasil junto aos Organismos Internacionais], com doze diplomatas, então naquela época nós três fazíamos o trabalho de doze. Mas, de qualquer modo, eu aprendi muito. E do ponto de vista político, foi um período na Inglaterra muito interessante. Porque havia sindicatos, naquela época, que eram fortíssimos, sempre estavam conseguindo reajustes salariais, que eram altíssimos. O governo estava sob o impacto da crise do petróleo de 1973. Era gerenciar a crise de energia, mais o aumento do petróleo. Eu me lembro que cheguei logo depois de algumas medidas incríveis. Eles adotaram na indústria três dias de trabalho só. Tinham cortado as transmissões televisivas depois das dez e trinta, não podia iluminar estádio de futebol, tinha corte, limite para a velocidade nos carros. Foi um período bem difícil. Teve várias eleições, passou do partido conservador para o trabalhista e uma coisa que eu admirava muito no Roberto Campos [1917-2001, economista, professor, diplomata e político, foi deputado, senador, presidente do BNDE – então sem o “S” de Social –, ministro do Planejamento], naquela época, é que ele era chamado muitas vezes à chancelaria inglesa para ser ouvido, não porque ele era o embaixador do Brasil, mas porque ele era Roberto Campos, um economista de renome internacional, e os ingleses gostavam muito de ouvi-lo. Então, esse período na Inglaterra foi extremamente bom e foi um evento na Inglaterra, que pautou a minha ida para outro posto. Porque o presidente [Ernesto] Geisel veio para uma visita de Estado, no final do meu posto na Inglaterra. Ele foi hospedado no Palácio de Buckingham e nas negociações que aconteceram foram obtidos muitos empréstimos, porque o Brasil estava precisando de dinheiro naquela época. Então, o Geisel se sentiu extremamente satisfeito, porque era uma mostra de que embora o Brasil estivesse vivendo uma experiência ditatorial, ao mesmo tempo era um país que tinha um plano de desenvolvimento. Ele ficou tão contente que promoveu o ministro-conselheiro da embaixada em Londres, que era o Ronaldo Costa, a embaixador. Mandou o Ronaldo ser embaixador em Tóquio. E o Ronaldo levou a equipe dele de Londres. Então, embora eu nunca tivesse pensado em servir na Ásia, fui parar lá por causa dessa circunstância. Porque o Geisel ficou contente, promoveu o ministro-conselheiro que já nos conhecia e o ministro nos levou como assessores dele para o Japão.
01:18:31
P1 – E como foi a experiência em Tóquio?
R – O posto foi um desafio para todo mundo, porque naquela época, na década de 1970, apesar da colônia imensa que a gente tem aqui, a comida japonesa não era ainda tão divulgada no Brasil. Eu não sabia comer com os hashi, hoje toda criança faz, mas naquela época não era tão conhecida. Então, foi o descortinar de uma cultura completamente diferente e para mim, foi o posto mais desafiante de toda a minha carreira pelo fato de ser mulher, porque naquela época não tinha nenhuma mulher diplomata na representação estrangeira no Japão, ou seja, nenhum país designou mulher, porque os japoneses eram muito machistas, mas o Brasil, evidentemente, na medida em que você quer ser diplomata, então tome, vá para um país bem machista. Mas eu achei que foi um desafio que eu acabei vencendo. A situação era de tal maneira que eu me lembro de um jantar na Embaixada do Brasil, em que o chefe do Departamento da América, no Gaimusho, o Ministério das Relações Exteriores do Japão, disse para o Ronaldo Costa: “Hoje aprovamos a primeira diplomata japonesa. Mas ela era tão preparada, mas tão preparada que não houve como reprová-la…” Aí você vê o machismo dessa afirmação, uma coisa bárbara. Eu ia para as recepções, por exemplo, era um mar de homens e o meu crachá de identificação sempre estava escrito “Mr. Cleaver”. Nunca era “Miss Cleaver”. Aí eu chamava o cara e dizia: “Eu tenho cara de homem?” Eles ficavam vermelhos e corrigiam o crachá. Na embaixada, por exemplo, eu trabalhava no setor econômico com mais um colega, o Frederico [Cézar de] Araújo. Frederico Araújo seria ótimo você entrevistar, porque o Fred tem uma experiência de protocolo e as histórias mais divertidas da carreira diplomática são da época em que eu trabalhei junto com o Fred. Porque você pode imaginar as coisas que acontecem nessa área de protocolo. E no Japão os empresários marcavam horário comigo, mas para eles Vitoria não soava nem como homem nem como mulher. Mas quando eles chegavam na embaixada e descobriam que no setor econômico quem iria atendê-los era uma mulher, eles não apareciam. Eles nunca apareciam nas entrevistas. E no dia seguinte eu recebia uma notinha do embaixador pedindo insumos, que eram exatamente os temas que tinham sido mencionados por telefone, que esses sujeitos vinham tratar comigo. Isso aconteceu uma, duas, três, quatro vezes e eu subi e fui falar com o embaixador. Aí o Ronaldo disse: “Olha, Vitoria, na verdade eu tenho recebido essas pessoas e eu faço isso, minha filha, para lhe proteger, porque você sabe que no Japão eles são muito machistas.” Aí eu disse: “Mas embaixador, eu pedi ao senhor para me proteger? Eu quero, é uma oportunidade de me impor. Então, vamos combinar o seguinte: esses empresários do segundo escalão, que são os meus contrapartes – porque os do senhor são os presidentes das empresas –, o senhor não vai receber gente abaixo do seu nível. Esses são meus. E os seus são os presidentes. Então, ou fala comigo ou não fala com ninguém na Embaixada do Brasil. Seis meses. E se eu não conseguir nesse tempo, o senhor pode me botar no telex, na administração, na contabilidade, uma coisa interna e eu vou aceitar a minha derrota.” E assim foi feito. Coincidia que era uma época de muito desenvolvimento nas relações bilaterais. O Japão estava em uma fase de grande desenvolvimento, participava de muitos projetos no Brasil. Eu me lembro de projetos como a usina siderúrgica de Tubarão, uma ampliação da Usiminas, tinha um tal de Prodecer [Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento Agrícola dos Cerrados], que era um projeto de desenvolvimento do Cerrado, e o projeto mais espetacular de todos, que foi o desenvolvimento da mina de Carajás [PA]. O Eliezer Batista [1924-2018], que era o presidente da Vale do Rio Doce, ia ao Japão sempre para negociar, e conseguiu fazer com que os japoneses comprassem a produção da mina de Carajás antecipadamente, dinheiro que fez a mina ser desenvolvida. Porque o Brasil, a Vale do Rio Doce, não tinha os recursos para desenvolver a mina, mas como a produção foi comprada por antecipação pelos japoneses, com esse dinheiro eles desenvolveram a mina, e hoje é o potentado que é. Era um período de muitas visitas bilaterais, o Delfim Netto ia muito a Tóquio. Esses japoneses que eram do meu nível, ou seja, os caras que fazem a assessoria, que preparam o caminho para as autoridades trabalharem, precisavam de muita informação e não tinha outra pessoa para falar, eles vinham falar comigo. E acabaram vendo que dava para a gente fazer interlocução e trabalhar bem. A um ponto, que eu sempre conto essa história, que eu consegui algo incrível.
Um dia, o embaixador Ronaldo Costa me telefonou e disse: “Vitoria, olha, Brasília está pedindo a posição do Brasil na classificação de risco financeiro no mercado de Tóquio.” Aí eu toquei para um amigo do Banco de Tóquio – japonês, quando não quer dar informação, ele ri… E ele não me dizia nada. Eu digo: “Puxa, mas quando o Delfim Netto vem aí e todas as outras autoridades, o [José Flávio] Pécora [nascido em 1928, economista, foi secretário-geral do Ministério da Fazenda entre 1969 e 1974] também, eu sempre facilitei para você as informações pertinentes, não confidenciais, que facilitaram o trabalho de vocês. É a primeira vez que eu peço uma coisa e você não me informa.” Ele riu de novo e disse: “Vitoria San, tem caixa de correio?” Aí eu disse: “Tenho”. “Então amanhã, quando você sair da sua casa, você olhe a sua caixa de correio”. Aí quando eu desci de manhã cedo e abri a caixa de correio, achei um papel não timbrado, em branco, só com a classificação de risco do Brasil, porque japonês não deve nunca favor. Na hora que eu joguei na cara que ele me devia, ele me pagou com a informação. Então, eu diria que o período de Tóquio foi um desafio, no começo eu odiava, porque eles não me aceitavam. E evoluiu para um período que eles compreenderam que dava para trabalhar com uma mulher, eles me aceitaram. E lhe conto um caso.
Quando eu cheguei, em um jantar na residência, estava o presidente de uma dessas grandes tradings. Tudo naquela época, em que não falávamos japonês, eram conversas via intérprete. As palavras do intérprete, traduzindo o que presidente havia dito, foram essas: “Eu acho que mulheres são seres de segunda categoria. O que a senhora acha disso?” Ainda me pergunta. Aí eu respondi e o embaixador não deixou traduzir. Eu disse: “Olha, eu aceito a sua opinião, porque o senhor deve estar se referindo às mulheres japonesas e eu não estou incluída entre elas”. Aí o Ronaldo bateu no intérprete, não deixou traduzir. Eu disse: “Vou aprender japonês só para dizer desaforo, porque isso é um absurdo”. Mas esse mesmo cara que me fez essa grosseria ao chegar, quando fui embora, recebi um telefonema de um assessor dele, que me perguntou: “Cleaver San, how tall are you?” Qual é a sua altura? Aí eu disse: “Oxente, que pergunta mais esquisita… Eu tenho um metro e setenta e cinco”. Eu costumava rir muito, porque eu ia nos fins de semana naqueles ryokan, aqueles hotéis japoneses, e eles dão uma yukata, que é aquele robe japonês para você vestir. Só que eu, muito alta, e os japoneses baixinhos, ficava com a yukata aqui, um pedaço de perna aparecendo e todo mundo morria de rir quando me via com aquela roupa. Pois esse sujeito mandou fazer uma yukata para mim, na minha altura, perfeita, que eu guardei durante anos. Ele me deu de presente quando eu fui embora, me ofereceu um almoço monumental. Isso mostrou para mim que depois de tantos anos passados, eu fiquei cinco anos no Japão, esse tempo que eu passei acabou convencendo-os de que sim, é possível trabalhar com uma colega mulher. E aquele que havia sido tão grosseiro comigo ao chegar, foi supergentil ao partir, ao me presentear com uma vestimenta japonesa no meu tamanho. Então, acho que Tóquio foi um posto de muito desafio pelo fato de eu ser mulher, mas de muita realização pelo trabalho que nós fizemos nessa época, porque era um período de uma relação bilateral intensa. Eu diria que foi o posto que eu mais gostei em toda a minha carreira. Interessante que meus filhos recentemente foram para lá. Eu sempre disse que o Japão foi o país que eu mais amei e eles foram esquiar lá, porque souberam que tem uma neve de melhor qualidade. E adoraram o Japão. O meu menor disse: “Mãe, agora eu entendi porque você achou que o Japão foi o posto que você mais gostou.” Porque tudo que envolve o Japão, a sua cultura, o seu desenvolvimento, a sua seriedade, em que pese a língua tão diferente da nossa e com padrões estruturais diferentes, muitas vezes, a gente negociava durante dias para chegar à conclusão de que queríamos a mesma coisa. Mas eles leem da direita para a esquerda, de cima para baixo. Tudo é contrário aos nossos padrões mentais. Então, às vezes, o entendimento se tornava mais difícil. Porque eu diria que hoje os japoneses falam inglês perfeitamente. Naquela época, há 50 anos, quase não falavam. Então, na medida em que você domina uma outra estrutura linguística, que é a ocidental, o entendimento passa a ser muito mais fácil.
01:29:52
P1 – Alguns anos depois a senhora vai ter uma experiência em contexto complicado, que é em Assunção, no Paraguai. Queria que a senhora contasse como foi essa experiência.
R – Ao sair de Tóquio eu voltei para o Brasil e cheguei à cooperação técnica e daí fui para o Paraguai. Quando eu fui para o Paraguai eu tinha filhos, com um e dois anos, porque eu me casei exatamente no caminho de Tóquio de volta para o Brasil. Eu parei no Equador para visitar o meu cunhado, que era diplomata e estava em posto lá. Fiz um cruzeiro nas ilhas Galápagos e conheci a pessoa que depois se tornou meu marido. Em Brasília eu fiquei por cinco anos, porque foi o período em que eu tive as crianças. Eu viajava muito na época do Decopt (Departamento de Cooperação Técnica do Itamaraty), e quando eu voltei de uma viagem de vinte dias, em que a mãe ficou tomando conta das crianças, o meu maior olhou para mim como se quase não me conhecesse. Eu perdi os primeiros passos dele, então digo: “Não, não posso realmente ficar aqui com tanta viagem para o exterior, deixando os meninos sozinhos com a mamãe.” Eu pedi um posto e fui para o Paraguai. Achei que seria um posto bastante tranquilo para crianças com um e dois anos de idade. Eu chefiava no Paraguai o setor comercial, que era um setor deveras diferente, porque naquela época o Paraguai era um hub do contrabando. Predominava o contrabando, era o paraíso da receptação de carros roubados no Sul do Brasil e que iam para o Paraguai, onde eles trocavam a identificação, os números e nacionalizavam os carros brasileiros. Era um período de pedidos de propinas imensas em que os investimentos brasileiros quase não conseguiam prosperar. Eu me lembro de empresários me contando, por exemplo, que lá no Paraguai tinham pedido metade do valor do investimento em propina e isso inviabilizava completamente os investimentos. Então, nessa parte, era bastante complicado o trabalho com o Paraguai. E eu também chefiava o econômico e o comercial. No econômico, eu me lembro de ter feito um telegrama em que eu relatava para o Brasil o fechamento das casas de câmbio que eram de propriedade do general [Andrés] Rodríguez [Pedotti (1923–1997)], que era o comandante do Primeiro Corpo do Exército. Ele era um sujeito muito rico e entre os sinais visíveis da riqueza dele, além das casas de câmbio, estavam uma mina de cobre e uma empresa de aviação. Ele era consogro do [presidente Alfredo] Stroessner, porque a filha do general Rodríguez era casada com o filho do Stroessner, presidente da república do Paraguai. Então, apesar de eles terem certas desavenças, sempre se achou que essas desavenças seriam resolvidas em família, porque a filha de um era casada com o filho do outro. Tanto que quando houve o golpe, Stroessner não acreditou que era o Rodríguez que comandava esse golpe. Mas eu, quando fiz o tal telegrama, eu perguntava: “resta saber quais serão as consequências do fechamento das casas de câmbio”. E é verdade também que o Stroessner quis passar o Rodríguez para a reserva, e o Rodríguez sabia disso. Conta-se que ele, na quinta-feira, o dia de despacho, ele teria enrolado a perna como se a tivesse quebrado; [e não] foi ao despacho por problemas, entre aspas, de locomoção. E à noite veio o golpe [conhecido como "La noche de Candelaria", de 2 para 3 de fevereiro de 1989]. Esse golpe encontrou a embaixada em uma situação difícil e peculiar, porque você imagine que o embaixador Orlando Soares Carbonar [1931-2019], que era o chefe, ele tinha um assunto particular para resolver do outro lado da fronteira. Ele telefona para o Paulo Tarso Flecha de Lima, que era o secretário-geral, e diz: “Paulo, eu vou atravessar em Iguaçu, vou resolver um problema meu, e amanhã eu já estou voltando”. “Vai, tudo bem, vai”. Ele não passou a encarregatura de negócios e a embaixada tinha acabado de receber o Virgílio Moretzsohn de Andrade [1941-2020], que era o novo ministro conselheiro da embaixada. Eu era conselheira nessa época, e veio o golpe. A embaixada estava juridicamente acéfala, porque o embaixador não tinha passado a encarregatura. Então, existia o ministro conselheiro, que é o segundo, mas ele não tinha os poderes jurídicos para atuar. Bom, foi um rol. O [presidente José] Sarney, que estava em viagem no norte da América do Sul, ligou para saber do problema. Eu sei que o Carbonar teve que voltar às pressas para o Paraguai e a maneira que encontraram dele voltar foi ele pegar um avião da Itaipu Binacional, mas precisava de autorização de sobrevoo e pouso. Nós recebemos instruções de fazer isso, mas não tinha ninguém no seu posto, ou seja, não tinha autoridade nenhuma, o país estava em convulsão generalizada. Eu me lembro que eu fui com o Virgílio até o aeroporto achando: “Meu Deus, o avião vai ser abatido!” Ao final, ele aterrissou, são em salvo, e com o Carbonar assumindo vieram as negociações que depois vão culminar com a vinda do Stroessner para o Brasil, porque não havia o interesse que o Stroessner ficasse no Paraguai e o Brasil apoiou a vinda dele para o Brasil. Ele morou aqui em Brasília até quase a sua morte, acho que ele morou no Brasil uns 15 anos. Mas você sabe que quando houve esse golpe foi incrível, porque nós tínhamos um colega aposentado que era casado com uma pessoa da sociedade paraguaia, e por essa razão inclusive ele ficou no Paraguai. E ele tinha mania de vir à embaixada avisar que ia ter golpe. E nesta vez que teve o golpe, ele veio e avisou, mas ninguém acreditou, porque ele já tinha avisado tantas vezes e o golpe não houve… E eu me lembro do adido militar dizendo para o ministro: “Olha, tem um número maior de tropas aquarteladas”. Eu me lembro de perguntar: “Tropas aquarteladas significa o quê?” “É um número maior de tropas militares no quartel. Tem alguma coisa que não está bem…” E tinha vindo nesse dia uma colega minha para fazer um serviço provisório no consulado, ficou hospedada na minha casa. E nós íamos jantar fora, mas ela estava cansada e por sorte não quis ir. Porque nós começamos a ouvir tiros e bombas. E era justamente o ataque ao batalhão de escolta presidencial. Uns quinze minutos depois, a embaixada mandou que eu entrasse em contato com os brasileiros, para saber se estavam todos bem. E eu achando naquele momento, docemente, que era a festa de São Brás, que é um santo padroeiro de lá, quando eles soltam muitos fogos. E era a deixa do golpe contra o Stroessner. Foram momentos de suspense que a gente viveu. Quando o embaixador não estava no posto, eu me lembro que pela manhã, cedo, eu fui mandada para encontrar o ministro conselheiro, que tinha alugado uma casa linda, mas afastada do centro. Aí as rádios diziam que tinha muitas granadas que não tinham estourado durante o golpe. Então aquilo era um perigo para os carros. E eu lembro que nós tivemos que dirigir – eu fui com um colega que morava perto de mim até a casa do Virgílio – com o coração na mão, com medo que uma granada daquela explodisse o nosso carro. Mas, enfim, estou aqui, nada aconteceu e tudo foi resolvido. E o Stroessner acabou asilado aqui no Brasil. Mas foram momentos de suspense no Paraguai.
Do Paraguai eu voltei para Brasília, porque eu era conselheira e precisava da promoção a ministro. Quando você está longe, não tem muita chance de ser promovida, porque a competição é muito forte dentro do Itamaraty. Eu voltei para Brasília e fui chefiar a divisão da América 1. Naquela época, o tema principal era a hidrovia Paraguai-Paraná e a conexão entre os países do Mercosul pela hidrovia. Eu fiquei dois anos nessa divisão até receber um convite do Marcos Azambuja [1935-2025] e fui para Buenos Aires, quando eu fui ministra conselheira lá. Eu fiquei pouco tempo, fui eu que manobrei para sair, em que pese que o embaixador pensa que foi por questões familiares que eu tive que sair. Mas, na verdade, Buenos Aires, de todos os postos em que eu trabalhei, foi o mais difícil do ponto de vista de relacionamentos dentro da embaixada. O embaixador atravessava uma fase difícil, ele tinha se separado, a nova mulher era advogada, queria contar tempo para a aposentadoria, então ele saía muito mais do posto para vê-la, do que ela podia ir para o Paraguai, e tudo isso o deixava meio nervoso. Itamar Franco [1930-2011, ex-governador de Minas Gerais, senador e presidente da república entre de 29 de dezembro de 1992 a 1 de janeiro de 1995] era o presidente naquela época e eu acho que eles não se afinavam muito bem. A embaixada em Buenos Aires sempre teve dois ministros conselheiros, mas o Marcos disse para mim: “Ah, não, eu confio tanto no seu trabalho, basta um…” O que significava, para mim, uma carga de trabalho monumental e um adicional complicado, porque ele colocou uma figura que não existe normalmente nas embaixadas, mas ele colocou um diplomata primeiro-secretário como chefe de gabinete. Este chefe de gabinete sentou-se na sala do outro ministro. Ali tinha um fax. Então, por exemplo, visita do governador da Bahia. A informação veio pelo telex central, eu sabia que o governador da Bahia estava vindo. Depois, [as] tratativas para a programação do governador em Buenos Aires saíam pelo fax particular do chefe de gabinete. O Marcos saía para ver a esposa e acontecia a visita do governador da Bahia. Ligava o chefe de gabinete do governador da Bahia e fazia uma série de perguntas e detalhes da visita que eu não tinha a menor noção de para onde ia. Aí tinha que consultar o Miguel Magalhães, que era o chefe de gabinete do embaixador, para saber onde é que estavam as comunicações. Tudo isso era uma coisa que me deixava num estado de tensão terrível, porque a sensação que dava é que eu era um ministro-conselheiro completamente idiota, porque eu não sabia as coisas que estavam acontecendo, porque esse era o modo que o embaixador tinha de trabalhar, o que me deixava numa situação bem complicada.
Fora isso, foi um período que a minha mãe esteve muito doente, ela estava comigo no posto. Meus filhos eram pequenos e as reuniões de serviço na embaixada eram intermináveis, inclusive nos fins de semana. Nos fins de semana, eu não tinha empregada, aí eu tinha que levar os dois meninos para a embaixada, deixava eles na minha sala, brincando no computador e dizia: “Olha, fica aí que a mamãe vai para uma reunião, no andar de cima, mas eu volto. Só que a reunião começava às dez, onze, doze, uma e duas…” A reunião terminava com o meu filho pequeno, que tinha subido a escada, chegar na porta da sala do embaixador e dizer: “Mamãe, eu estou com fome!” O embaixador olhava para o relógio, já eram duas e tanto e terminava a reunião. Isso é só para dar um exemplo das dificuldades diárias. Então, naquela época, eu aleguei que estava com problemas familiares, que meu marido estava se queixando muito dessa vida em ponte aérea, porque realmente eu estive casada com o Gonzalo [Facundo Salord, advogado e diplomata] por 25 anos em ponte aérea, uma coisa que era sui generis para a época. Já começou com o casamento, que me levou ao estado civil, que eu comentei. Porque quando eu me casei com um estrangeiro, à época, era obrigatório uma autorização do ministro de Estado. Então, o Gonzalo preencheu todos os formulários, conseguiu todas as cartas de recomendação que eram necessárias e o casamento foi aprovado. Eu ia para Quito, um assessor do chefe da administração foi lá, viu que o Gonzalo estava numa candidatura política porque tinha morrido um outro cara do partido alfarista [referência ao movimento político e ideológico liderado por Eloy Alfaro (1842-1912), uma das figuras mais importantes da história do Equador] e acharam que ele era a pessoa que tinha as conexões possíveis para a tal da eleição. O rapaz viu, contou para o chefe da administração que não ficava bem um conselheiro do Itamaraty estar casada com um político local e a minha remoção foi cancelada. Nisso, o Gonzalo, que conhecia do porteiro ao presidente, conseguiu uma designação de tipo político, foi ser cônsul-geral do Equador no Rio de Janeiro. Aí era preciso um exequatur [do latim "execute-se" ou "cumpra-se"], que é a autorização de aceitação do nome dele para [o consulado] no Rio de Janeiro. O embaixador aqui do Equador me disse: “Olhe, nós não gostaríamos de uma negativa. Você verifica se esse exequatur vai ser concedido, eu entro em contato com a secretaria-geral, que me diz ou eu ou ele”. E aí eu tirei os meus papéis – porque eu tinha casado na embaixada do Equador, em Brasília – da mão do advogado, mas continuei solteira no Brasil. O governo mudou, esqueceram de mim, muita gente no Itamaraty, inclusive até hoje, acha que eu sou divorciada, mas eu nunca me divorciei. Eu fiquei casada no Equador e hoje sou viúva no Equador. Mas os meus papéis, juridicamente falando, no Brasil, são todos de solteira. E me lembro que quando eu registrei os meus dois filhos, por meu desespero, era que no lugar que diz os pais não eram casados, naquela época, cinquenta anos atrás, eu achava um absurdo que aquilo figurasse. E eu tanto reclamei, falei, que o oficial de registro civil disse: “Tá bom, então, vou botar aí casados no Equador”. E consta na certidão dos meninos essa história de casados no Equador... Mas eu fiquei sempre casada e depois viúva no Equador, já tem cinco anos que meu marido morreu, mas eu continuei solteira aqui no Brasil. Então, Buenos Aires era o posto mais importante da carreira, realmente o porta-aviões da diplomacia brasileira. Me foi dada muita oportunidade de trabalhar, porque o embaixador teve um AVC, e eu fiquei respondendo pela embaixada durante vários meses, assinando o nome dele, porque ele continuava no posto. Mas eu manobrei para sair.
Nessa época, o Rubens Barbosa passou por Buenos Aires, eu contei para ele os meus problemas, ele me convidou para ser ministra-conselheira em Londres, mas eu não aceitei, porque eu imaginei o problema das crianças pequenas. Rubens, se vocês o entrevistaram, vão ver que ele é um workaholic, porque é uma pessoa super trabalhadora, super dinâmica em tudo. Eu, como ministra-conselheira dele, ia trabalhar 24 horas por dia e ia continuar sem poder dar nenhuma atenção às crianças. E aí apareceu o Osmar Chohfi [secretário-geral do Itamaraty entre 2001 e 2002], que também hoje é aposentado, está em São Paulo. E eu fui então ser ministra-conselheira do Osmar, em Quito, onde eu fiquei cinco anos. Eu achei que seria um posto super tranquilo, onde eu ia levar finalmente uma vida de casada normal, debaixo do mesmo teto do meu marido, com as crianças, com uma maior oportunidade de estar com a convivência diária com o pai e aí explode... Mal eu pisei no Equador [em 1995], houve um episódio no Alto Cenepa, na Cordilheira do Condor. Era uma faixa de setenta e tantos quilômetros, 78 quilômetros, eu acho, que não era demarcada [no vale do Rio Cenepa], porque o Peru tinha invadido o Equador na década de [19]40, assinaram o Protocolo do Rio de Janeiro [1942], mas o Equador havia denunciado esse protocolo nos anos [19]60, dizendo que quando assinou tinha tropas peruanas que estavam fazendo pressão, então que não era válido assinar documento sob coação, e foi justamente nessa faixa não demarcada que houve o incidente de fronteira. Mas como existia o Protocolo do Rio de Janeiro, os países garantes agiram rapidamente, foi criada a Momep [Missão de Observadores Militares Equador-Peru], que era uma missão de observadores militares que incluiu os militares dos países garantes. Eles conseguiram, naquela época, um cessar-fogo no terreno, uma zona de desmilitarização. Eu cheguei, inclusive, a visitar o acampamento da Momep, no Alto Cenepa, com os embaixadores dos garantes. E essa cooperação permitiu depois que inclusive se abrisse uma cooperação militar maior com os novos desafios de questões de guerrilha, narcotráfico e outras coisas que acontecem na região. Mas o fato é que esse conflito levou o trabalho a dez horas, a chegar em casa às onze horas, meia-noite, a ponto do meu marido perguntar o que é que eu fui fazer lá, porque eu passei vinte e tantos anos em ponte aérea e lutando para um posto em Quito e quando eu consigo, acontece esse conflito que efetivamente impactou diretamente a vida do lar, porque eu era a segunda da embaixada, então tinha que estar sempre presente na assessoria do embaixador. Nós tínhamos uma missão militar lá muito boa, que tinha excelente interlocução com os militares locais. Então, o trabalho se estendia por muitas horas e eu chegava tarde. Aquela história que eu contei, que o meu filho há pouco tempo me contou, que ele ficava esperando que eu chegasse, quando o carro fazia ruído e entrava na garagem, aí é que ele ia dormir. E eu nem me dei conta que ele, com dez anos, passou por todas essas coisas. Então, certamente, se desvantagem há na carreira diplomática para mulher, é a conciliação perfeita com uma vida no lar. Porque é uma carreira que te demanda muito externamente, que te demanda constantes mudanças, porque a carreira diplomática é nômade, a cada três anos você muda de lugar. Isso implica, por exemplo, a adaptação da sua família a uma nova realidade, que ela não pediu, inclusive, porque você abraçou a carreira e está achando ótimo. Eu sempre gostei de novos desafios, encontrar outras realidades, me ajustar rapidamente a essa nova realidade, mas as crianças sofrem por deixar os seus amiguinhos, a iniciar outras escolas, a recomeçar tudo outra vez. Porque para mim era sempre um desafio, por exemplo, eu chegar e dominar tudo, quer dizer, eu me reinserir em uma sociedade, estabelecer novos contatos, fazer o meu trabalho. Isso tudo, para mim, era um desafio que me dava um imenso prazer de realizar. Mas, e as crianças que não pediram? E o seu marido, que tinha uma outra profissão? Então, essa parte é a que eu considero mais complicada de conciliar, em que pese que eu acho que nos dias de hoje é muito mais fácil porque você tem o home office e acho também que a mentalidade masculina mudou no sentido de aceitar melhor a carreira da mulher. Eu tenho colegas homens que tiraram uma licença para fazer um curso de pós-graduação enquanto a esposa está em um posto, por exemplo, em Londres, Paris, na Espanha. Ele não se incomoda de parar a carreira dele e fazer um aperfeiçoamento. Mas, no passado, para um homem deixar o seu métier diário e acompanhar a mulher era muito mais complicado. Como sou dessa geração mais antiga, eu tive que enfrentar todas essas coisas e efetivamente foram aspectos que mudaram muitas vezes o rumo da minha carreira para propiciar algum equilíbrio com a vida do lar.
O Gonzalo era advogado. Durante todo o período que eu estava no Equador, ele tinha o escritório de advocacia. Ele foi diplomata temporariamente, no período que, logo depois que nós nos casamos, quando eu fui vetada a ir para Quito, porque ele estava metido em questões na carreira política e aí ele conseguiu uma designação política para ser cônsul-geral do Equador no Rio de Janeiro. Naquela época eu ia na sexta-feira para o Rio e voltava na segunda-feira de manhã. Na outra semana, era ele que vinha para Brasília e voltava na segunda de manhã. E assim, nesses cinco anos em que eu fiquei em Brasília, que foi a época também que os meninos nasceram, nós ficamos em ponte aérea Rio-Brasília, mas era perto, quer dizer, todo fim de semana estávamos juntos. Mas depois, quando eu tive que optar por posto, eu fui para o Paraguai e já ficou um pouco mais longe. Nós nos víamos nas férias e quando ele podia, porque o Paraguai também não é tão longe: ele vinha quando dava e eu também ia ao Rio de Janeiro, mas já não era aquela facilidade de Rio de Janeiro-Brasília. Depois vieram crises econômicas no Brasil, também mudou o governo no Equador e o Gonzalo perdeu a indicação política, tendo que voltar para o escritório dele no Equador. Aí foi o período que a gente quase se separou, porque ele disse: “Olha, eu já fiz a minha parte, estive no Brasil e agora eu tenho que voltar para o meu trabalho. Então, você deixe tudo e venha para cá...” E aí eu falei: “Gonzalo, eu falei para você que não deixaria a minha carreira. Eu não menti para você, quando a gente se casou.” Ele disse: “Ah, eu achei que você tinha dito por dizer, mas que você deixaria tudo por mim”. Eu disse: “Não. Eu lutei demais para conseguir essa carreira e eu não vou abandoná-la, mesmo com risco de tudo.” Aí quase nos separamos e depois achamos de novo um modus vivendi, de conviver em ponte aérea, e assim foi por 25 anos. Até quando eu fui para Zurique, que eu acho, coitado, que ele já não aguentou mais essa vida de tanta ponte aérea. E aí nós nos separamos, mas nós nunca nos divorciamos. Mantivemos uma relação cordial, de amizade, mas estávamos fisicamente separados. Ele ficou no Equador e aí foi o período em que eu pude novamente abraçar postos mais longínquos, porque enquanto eu fui casada, eu servi no Paraguai, na Argentina e no Equador. Mas depois que eu me separei... Eu estive também na Nicarágua, como embaixadora, foi meu primeiro posto de embaixadora, e a Nicarágua era muito perto de Quito, então ele vinha também. Mas depois eu fui para Zurique e aí em Zurique foi que veio a crise e nós nos separamos. Depois eu fui para o Vietnã, eu já podia voltar para a Ásia de novo, porque já não tinha essa preocupação de estar perto do Equador para ele poder vir e eu poder ir.
01:55:36
P1 – Conte sobre essas experiências suas chefiando chancelarias? A primeira foi na Nicarágua...
R – ...depois foi o consulado em Zurique e finalmente a embaixada, no Vietnã. Foram três postos bem diferentes. Eu fui promovida a embaixadora pelo ministro Paulo Renato [Souza]. Eu não contei o detalhe, quando eu terminei meu posto, foi o quê…
P1 – Em 1999?
R – É, porque quando eu voltei para Brasília, eu estava em Quito. O meu sonho era chefiar o Departamento das Américas, porque eu tinha feito postos no Paraguai, no Equador, na Argentina, e eu me sentia preparada para chefiar o Departamento das Américas. E eu recebi esse convite para ser chefe do Departamento das Américas. Hoje, vou dizer uma coisa que eu nunca disse a ninguém, porque tem muita gente no Itamaraty que se pergunta o porquê de eu não ter chefiado o Departamento das Américas e porque eu fui para o Ministério da Educação. Eu saí do Itamaraty [por] um período e estive seis anos como chefe da assessoria internacional do Ministério da Educação. Eu recebi esse convite, mas fui vetada para o Departamento das Américas e para outros sete, oito convites para departamentos do Itamaraty. Não vou dar nomes, mas essas recusas aconteceram só porque eu tive a ousadia de apontar para um determinado chefe certas coisas que eu achei que estavam erradas, de acordo com o manual de serviço. Eu ouvi dele, inclusive: “Se isso aqui transpirar, eu acabo com você.” E efetivamente, a coisa não transpirou, mas ele nunca me perdoou. E quando o meu decreto para ser chefe do Departamento das Américas estava para ser assinado, eu não tive aquela sorte que a vida inteira eu tive de ter aquela mão amiga que me propiciou as coisas. Eu tive uma mão inimiga. Esse cara estava no gabinete do ministro. E como eu sei disso? Porque a mão amiga foi um colega que estava lá e me telefonou para avisar que os meus papéis não iam ser assinados, por causa de uma fofoca que foi feita e eu não consegui esse departamento nem nenhum outro que me foi oferecido. E aí o Ivan de Oliveira Canabrava [secretário-geral do Itamaraty de 1999 a 2001], um grande amigo que já morreu também, me disse: “Vitoria, uma vez eu tive em situação similar, de ter um chefe que não simpatiza com você ou tem uma rusga, que foi o que aconteceu. Saia do Itamaraty”. Nesse momento, a Heloísa Vilhena está saindo do gabinete do Paulo Renato Souza [ministro da Educação de 1995 a 2002]: “Vou conseguir para você ir para o Ministério da Educação.” E assim foi. Eu fui assessora do Paulo Renato Souza, em que pese o fato de o embaixador [Luiz Felipe] Lampreia, que era o chanceler, achar que eu não ficaria lá nem seis dias. Eu fiquei seis anos.
Eu estive com Paulo Renato Souza, com Cristovam Buarque e com Tarso Genro, em três gestões completamente diferentes, mas onde eu aprendi muito sobre educação e os meus contatos, sobretudo na Argentina, me ajudaram muito para trabalhar no Mercosul Educacional. Porque, naquela época, a gente estava tentando compatibilizar regras para facilitar intercâmbios e transferências. Eu me lembro, por exemplo, do meu filho maior, que teve durante anos um problema escolar, porque a lei na Argentina diz que quando você completa sete anos depois de julho, você não pode estar no primeiro ano, você tem que estar no segundo. Então, meu filho nunca fez o primeiro ano primário, ele foi mandado [do jardim] da infância para o segundo ano. E ele ficou com uma lacuna brutal, que me obrigou a pagar professores particulares. E ele teve dificuldade de acompanhamento, inclusive, por causa de uma lei ridícula que gere a inclusão da criança na escola pela idade e não pela capacidade que ela tem. Então eu trabalhei muito nessas coisas no Mercosul Educacional, e os meus contatos no meu período de Argentina certamente foram úteis, como os meus contatos no meu período de Paraguai também foram muito úteis, porque tudo era Mercosul Educacional. De modo que foi um período em que nós pudemos fazer muitas coisas. Eu fui promovida a embaixadora pelo Paulo Renato Souza e eu sempre digo que a promoção a embaixador, claro, me deu uma alegria muito grande, porque é a culminação da sua carreira. É uma carreira muito competitiva e o desejo de todos é chegar ao topo. Sendo mulher, e pelas dificuldades que enfrentei, me fazia sentir ainda mais feliz de ter logrado o topo da carreira. Mas ao mesmo tempo em que eu senti essa alegria imensa de ter chegado ao topo, eu senti uma certa decepção de ter tido uma promoção não pela Casa a que eu pertencia. Foi feita pelo ministro Paulo Renato Souza. E é inacreditável, porque sempre tenho aquele amigo no lugar que comentou as coisas. Porque a carreira é muito política. Então, nas promoções, sobretudo do alto escalão, sempre contam os “pistolões”, vamos dizer, em linguagem vulgar. Aquele cara poderoso que fala por você. E entrou nessa competição gente que tinha conhecimentos muito poderosos. Porque como você entra em aposentadoria por idade, em cada nível da carreira – e eu não tinha ainda sessenta anos –, se você chega aos sessenta e não é promovido a embaixador, você não consegue mais ascender. E eu tinha acho que 57 ou 58 anos, então eu ainda poderia esperar uns dois, três anos pela promoção. Não era a minha última oportunidade. Mas eu fiquei zangadíssima com essa história, eu fui avisada por um colega que estava na Presidência de que tinha entrado gente poderosa e que a minha promoção não iria sair. E aí eu utilizei um colega que era chefe da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], o Abílio Baeta [Neves], para falar, porque eu fiquei com vergonha. No Itamaraty é uma praxe que quando você vai ser promovido, o seu chefe direto peça por você. Ou seja, diz que está satisfeito com o seu trabalho, faça uma apresentação. E o Paulo Renato tinha feito isso. Então, quando eu fui avisada que eu não iria, eu achei que eu não iria falar novamente com o Paulo Renato, porque não me sentia confortável. Então, esse colega do MEC falou com o Paulo Renato, que falou com o Fernando Henrique [Cardoso], e a minha promoção, apesar dos vários candidatos fortes, prevaleceu e eu consegui ser promovida a ministra de primeira classe. Mas certamente fiquei com uma certa tristeza de que a iniciativa para eu ser ministra de primeira classe tenha sido do ministro Paulo Renato Souza, que gostava de mim como assessora e que me apoiou nessa gestão.
Fiquei no Ministério da Educação, como eu mencionei, nas gestões de três ministros diferentes. Quando eu fui promovida pelo Paulo Renato Souza, estava acabando o governo do Fernando Henrique Cardoso. Eu tinha pensado em ir para a Costa Rica, porque era perto. Mas não consegui ir à Costa Rica, porque havia um outro colega, que era chefe de gabinete do ministro. Todos os documentos subiram para remoção e o meu não foi. Eu disse com a maior simplicidade: “Mas por que não?” Ele respondeu: “Porque eu guardei a Costa Rica de fallback position para mim, caso eu não conseguisse o posto na Europa que eu queria.” Ele tinha uma posição de relevo na Casa naquela época e fez isso. Então, eu não fui para a Costa Rica, fiquei no ministério [da Educação] durante a gestão do Cristovam Buarque e depois na gestão do Tarso Genro. E no momento que eu quis sair, havia muito pouca disponibilidade de postos para movimentação. E uma amiga minha disse: “Vitoria, por que você não sai?” Eu digo: “Não saio, simplesmente porque eu não consigo um posto”. E ela falou com o chefe da administração que disse: “Olha, o único posto que vai vagar por agora é a Nicarágua”. Aí eu disse: “Tá ok, eu aceito a Nicarágua, também já não aguento mais estar no Brasil, já estou com as finanças curtas. Vou para Nicarágua!” Aí começa o empacotamento para Nicarágua e você não sabe o que me aconteceu. A gente faz sempre um exame de saúde completíssimo antes de partir. E eu fiz todos os exames, mas deixei a mamografia para o final e eu descobri que tinha um câncer. Aí eu não pude partir para a Nicarágua, porque a Nicarágua não tinha tratamento para câncer naquela época. Eu teria que voar da Nicarágua para os Estados Unidos para fazer a quimioterapia, então eu fiquei. Foi um rebuliço na minha vida, porque os meus filhos tinham feito vestibular, tinham passado na UnB [Universidade de Brasília], na PUC Rio e no IESB [Instituto de Educação Superior de Brasília]. Optaram pela PUC Rio, aí eu estava negociando um apartamento para eles, com empregada, ia alugar uma garagem e tinha matriculado na PUC, para eles irem e eu ia embora para a Nicarágua. Quando eu descobri que eu estou com câncer, eu disse: “Meu filho, a sua mãe estava negociando apartamento, garagem, carro, empregada, com base no salário no exterior. Agora, eu não tenho salário no exterior e, para completar, não sei nem quanto tempo de vida eu tenho, porque não está muito claro.” Ele disse: “Mãe, a gente não quer ficar longe de você numa situação dessa. Nós vamos para a UnB”. Todos os dois estão formados pela UnB. Então, foi desfeito tudo o que já tinha sido feito no Rio de Janeiro, eu fiquei seis meses em Brasília com a minha casa inteirinha empacotada para partir, quando eu fiz esse exame. E fiz toda a quimioterapia aqui, depois fui para São Paulo, fiz radioterapia e seis meses se passaram. A Nicarágua ficou com serviços provisórios até eu poder chegar. Como a quimioterapia era caríssima, era um tratamento novo que tinha, eu não estava conseguindo pagar e aí a administração disse: “Não, você vai para a Nicarágua, assume o posto lá e depois avisa que não pode ficar e volta para o Brasil.” E eu ficaria com a possibilidade do salário de lá pagando o meu tratamento. Então, eu consegui. O chefe de protocolo do Henrique Bolaños, que era o presidente da Nicarágua, tinha sido embaixador da Nicarágua no Brasil. E eu, no MEC [Ministério da Educação], o ajudei muitas vezes em coisas que ele precisou. Quando eu cheguei na Nicarágua, esse homem fez com que eu apresentasse credenciais em 24 horas. Realmente facilitou a minha vida para absolutamente tudo. Eu terminei de fazer o tratamento, no dia que eu acabei a última quimioterapia, eu enfiei uma peruca, porque eu estava sem cabelo, e voei para a Nicarágua e assumi o meu posto. Apresentei credenciais de peruca e como você passa em revista pela tropa, fiquei morrendo de medo que o vento soprasse e meu cabelo voasse. Mas deu tudo certo. Eu cheguei na Nicarágua em um período que foi muito interessante, porque nós estávamos às vésperas de completar 100 anos do estabelecimento de relações diplomáticas com os países do Istmo [Centro-Americano]. Nós estabelecemos legações com os países do Istmo em 1906. E quem assinou esse decreto foi o Barão do Rio Branco, que, naquela época, deve ter achado que as relações com o Istmo Centro-Americano seriam importantes para o Brasil, tanto que abriu essas embaixadas todas em cadeia, menos Belize. Mas acontece que essa área se tornou uma área de grande dominação norte-americana. Tanto que quando houve a Revolução Sandinista, os interesses americanos nessa área eram tão grandes que o Brasil realmente nunca procurou uma posição de mais proeminência, a um ponto que em cem anos de relações diplomáticas, momento em que eu cheguei, tinha havido duas visitas de presidentes centro-americanos ao Brasil e três brasileiras, no âmbito de organismo internacional, aos países centro-americanos. Então, em cem anos, duas visitas de um lado e três do outro, e um comércio que era muito desfavorável para os países do Istmo, porque a gente produz as mesmas coisas, os mesmos produtos agrícolas. Então a balança comercial era muito favorável ao Brasil, que também não era uma coisa muito positiva na relação bilateral. Quando houve a Revolução Sandinista e interesses do Daniel Ortega [presidente da Nicarágua] pendendo mais para o lado socialista, apareceu uma oportunidade de cooperação com as Forças Armadas, que existe até hoje, de intercâmbio entre militares e, aos poucos, o comércio cresceu um pouco. Logo na época em que eu cheguei, havia uma cooperação na área de coordenação para candidaturas. Porque, por exemplo, vão apresentar um brasileiro para ser presidente, o chefe da OMC [Organização Mundial do Comércio], ou um cargo na Organização Mundial de Saúde, ou para assumir um cargo no Pnud [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento]. Então, os países se coordenam geralmente por blocos geográficos para conseguir votos para eleger o seu candidato. A gente sempre fez essa coordenação com a Nicarágua, historicamente, e a gente se coordenava também para equilíbrio de preços de café, porque a Nicarágua também era produtora. Mas, fora isso, não havia nada. Quando eu cheguei, só tinha isso. Mas eu tive a sorte de conseguir uma visita de Estado do [Luiz Inácio] Lula [da Silva] à Nicarágua, quando eu estava lá. Eu acho que nessa visita do Lula foram assinados mais acordos bilaterais do que todos os que foram assinados nos cem anos anteriores. Lula prometeu muita cooperação com a Nicarágua. No período que eu estava lá, eu pude receber várias missões da Agência Brasileira de Cooperação, que foram para lá. De modo que quando eu parti da Nicarágua, o relacionamento bilateral tinha se adensado.
Eu peguei dois momentos na Nicarágua. Porque eu cheguei com o Henrique Bolaños, que era um governo liberal conservador. Era uma época em que todos os ministros de Estado tinham sido pessoas banidas da Nicarágua durante a Revolução Sandinista. Eram pessoas todas do mundo, falavam línguas estrangeiras, muito cultos. A representação latino-americana era muito pequena no país. Então, eles nos convidavam, por exemplo, todo sábado e domingo para irmos em um churrasquinho na casa deles, tomar banho de piscina. Então, a gente tinha informação muito densa sobre o país, porque os ministros conversavam muito com a gente. O próprio Presidente da República fazia isso, foi um período muito interessante com o Bolaños. Aí veio Ortega, já foi diferente no relacionamento, mas existia a afinidade Lula-Ortega. E essa afinidade entre os presidentes levou com que o Lula viesse à Nicarágua, assinasse aquele mar de acordos, o que deu certa densidade à relação bilateral. E eu saí, então, da Nicarágua para ser cônsul em Zurique.
Foi a minha primeira experiência como cônsul. Eu confesso que eu sempre fugi dos consulados, porque o Itamaraty teve épocas em que as duas carreiras eram fundidas e épocas em que a carreira consular e a diplomática eram completamente separadas. Hoje elas são fundidas, isto é, um embaixador pode ser cônsul-geral e pode ser embaixador em uma embaixada. Mas como o trabalho no consulado é muito mais notarial, no fundo, de emissão de passaportes, de vistos, registros de casamento, nascimento, heranças e todos esses atos jurídicos que regem a vida de uma pessoa, foi muito adensado a partir de 2008, justamente a época em que eu estava chegando, com uma orientação do Itamaraty de [dar] maior apoio às comunidades brasileiras no exterior. Porque quando eu servi no Japão, por exemplo, há cinquenta anos, não existia brasileiro lá praticamente. Hoje tem uma comunidade imensa. É menor hoje, porque muita gente voltou, mas existe uma comunidade brasileira fora muito grande. Em Zurique existia uma comunidade gigante, só que com uma característica muito peculiar. Além dos brasileiros que foram buscando, por exemplo, fazer um pé de meia, se empregando em ofertas de trabalho especializadas, havia um grupo de mulheres que também casou com empresários suíços e foi para lá. A gente tinha um grupo imenso de mulheres, que foram atraídas por ofertas de trabalho, como babá, empregada doméstica, pequeno secretariado e, na verdade, quando elas chegavam lá, elas caíam numa rede gigantesca de prostituição. Elas eram quase todas aqui dessa área de Goiás, selecionadas por cadeias de suíços que se dedicavam aos negócios da prostituição. Aqui eles ofereciam essas oportunidades de trabalho; quando chegavam lá, eles confiscavam os passaportes dessas senhoras e as colocavam na prostituição. Com o dinheiro recebido, elas tinham que pagar a passagem que as levou até a Suíça e todas as demais despesas de manutenção. Eu atendi nesse período muitas mulheres que foram levadas ao consulado pelos clientes suíços. Era uma situação pior, porque era facilitada pelo governo suíço, que dava para essas mulheres, que eram supostas babás, secretárias e empregadas domésticas, um visto que chamava “visto de dançarina”, que tinha o dobro da validade de um visto que seria dado para um brasileiro comum. Então, foram muitos problemas para repatriar essas mulheres para o Brasil, muito trabalho junto à polícia local para tentar resolver esses problemas. Porque lá também tem um problema muito grande de tráfico de drogas, no caso os homens que estão em tráfico de drogas. Então, era um trabalho pesado. Tem uma rua em Zurique, que se chama Langstrasse. A Langstrasse é a rua [na verdade, trata-se de um bairro] da prostituição. Naquela época, 90% eram brasileiras. Então, era um trabalho pesado, que eu acho que exigia também do cônsul um conhecimento de psicologia, que a gente não está preparada para lidar. Por isso que eu sempre defendi a designação de psicólogos na assessoria dos consulados, para apoiar esses casos piores. Muitos casos de pedofilia também, porque a lei suíça permite a vinda dos filhos. Por exemplo, uma brasileira que já foi casada, está separada e tem quatro filhos, ela vem para a Suíça, às vezes casada com um suíço – porque são inúmeros os casos de suíços que se casam com brasileiras para fazê-las de empregada. Elas vêm para cuidar da mãe, do pai velho, da casa, da comida, da cozinha, de tudo, torna-se uma empregada de luxo e ainda resolvem seu problema sexual, porque não precisa estar procurando uma mulher por aí. Tem a brasileira, que é a empregada de luxo, que cuida de absolutamente tudo e ainda não recebe facilidade, nem salário nenhum. E muitas delas, exploradas dessa maneira, procuravam o consulado, porque elas queriam fugir. A lei permite que os filhos dos casamentos anteriores venham. E a quantidade de pedofilia na Suíça, de abuso dos filhos dessas brasileiras, você não pode calcular. Então, eu estou para dizer que no meu período no consulado em Zurique, acho que fiz muita coisa pela comunidade que estava lá, mas acho que, para mim, foi como um murro na cara, porque eu entrei em contato com uma realidade que eu não imaginei encontrar naquela grandeza, ver tanta gente nesse campo.
Em Zurique, além da comunidade que enfrentava os problemas que eu descrevi, você tinha também a área da comunidade brasileira organizada, que trabalhava para o bem-estar dessas pessoas, inclusive dessas mulheres que eram levadas para o caminho da prostituição. Havia uma entidade com a qual eu mantinha muitas interlocuções, que se chamava Cebrac [Centro Brasileiro de Ação Cultural], que tinha biblioteca, videoteca, um trabalho de psicólogos para as pessoas que chegavam, ajudava para a melhor integração na cidade, ensino do idioma local a essas pessoas, promoção do ensino de português em escolas suíças, para que as crianças brasileiras possam também aprender o português. Essas senhoras – muitas delas, inclusive, casadas com empresários suíços – foram transferidas para a Suíça e formaram um grupo de apoio a esses outros brasileiros que chegaram depois e que enfrentavam tantos problemas. Paralelamente, o Itamaraty reforçou a área de apoio ao brasileiro no exterior, criando as conferências de brasileiros no mundo, criou as cartilhas alertando para os perigos que estão envolvidos em uma mudança ou na aceitação de um emprego que é oferecido no exterior. Então, essa malha de proteção realmente melhorou muito quando eu estava saindo de Zurique, em 2012, e fui para o Vietnã. De modo que hoje, eu suponho, tantos anos passados, essa rede de proteção ao brasileiro tenha se solidificado. Mas, na minha época, ainda era frágil o sistema de apoio, porque foi uma migração muito grande de brasileiros para todas as partes. As nossas estruturas não estavam preparadas para esse apoio, até porque os brasileiros quando mudam para o exterior, acham que todo o apoio tem que ser dado pelo Brasil. Desde escola à obtenção da carteira de motorista deles no país onde eles se encontram e coisas do gênero, que eles solicitam ao consulado. E se esquecem que quem optou por outras condições de vida foram elas e não nós. Então, a gente procura fazer o máximo que pode, mas há que se respeitar as limitações, às vezes, que as estruturas governamentais têm.
02:23:07
P1 – Depois disso você vai assumir um outro posto, no Vietnã. Como foi essa experiência?
R – O Vietnã foi uma oferta sem opções, que me foi feita pelo ministro Antônio Aguiar Patriota. Mas eu não titubeei em aceitar, em que pese que muitos colegas meus terem me perguntado o que eu tinha feito para ser mandada para tão longe. Mas eu me lembrei que eu tinha sido felicíssima no Japão, me lembrei também que o Vietnã estava atravessando uma fase extraordinária, porque ele tinha entrado nos Tigres Asiáticos, era um país que estava se desenvolvendo muito. E realmente o que eu pensei ao aceitar se confirmou quando eu cheguei lá. Porque o Vietnã via no Brasil um parceiro especial, porque nós não estávamos envolvidos nos problemas que derivam das desavenças que existem ali no Mar do Sul da China. O Brasil, apesar da distância e de certo desconhecimento mútuo, podia se afigurar como um fornecedor fortíssimo em matérias-primas para o Vietnã e eles tinham muita vontade de adensar essa cooperação. Foi a época em que a gente aparecia como a sexta economia do mundo e eles estavam, assim, impactados por essa notícia. E ao chegar no Vietnã, eu apresentei credenciais tão rapidamente quanto eu apresentei na Nicarágua. Você sabe que eu desci do avião e tinha uma pessoa do protocolo no aeroporto e disse a mim que eu iria apresentar credenciais. No dia seguinte, eu pisei na Embaixada do Brasil, depois de apresentar credenciais. Do hotel, eu apresentei credenciais e fui para a residência brasileira. Essa pressa vietnamita derivava do fato que eles queriam mandar, inicialmente, o presidente da república em uma visita de Estado ao Brasil. E como nós éramos a sexta economia mundial, eles subiram de status e iam mandar, então, o chefe do Partido Comunista – porque o Vietnã, ao contrário da China, tem duas figuras: o presidente e o secretário-geral do Partido Comunista, que está acima. Na China é uma figura só, o secretário-geral do Partido Comunista é o presidente da República. Então, no Vietnã, eles iam mandar o chefão do Partido Comunista, a mais alta autoridade vietnamita. E por que eu friso isso? Porque no Vietnã eu vivi – e é pena que essas coisas estejam embargadas e vocês só possam saber quando essas coisas forem desembargadas –, mas lá eu vivi a pior crise diplomática de todos os meus 50 anos de carreira. Por quê? Esse chefão do Partido Comunista, acompanhado de numerosos ministros de Estado, os maiores empresários do Vietnã, os diretores e presidentes das universidades vietnamitas, ou seja, um avião completinho, com 180 pessoas, visitaria o Brasil e a ideia era estabelecer numerosos acordos e uma parceria estratégica entre os dois países. Parceria que foi assinada o ano passado, dez anos depois que eu saí do Vietnã, dez anos depois da crise provocada no governo Dilma Rousseff. Eu confesso que eu quase pedi demissão, porque, afinal, eu era a representante da Presidência da República. Mas o fato é que, só resumindo, porque não posso contar detalhes, esse avião que já tinha saído do Vietnã com toda essa gente, fez escala em Cuba e foi mandado voltar a partir de Cuba. O governo brasileiro decidiu não receber a delegação, não me pergunte as razões, vocês vão saber oportunamente quando esses arquivos forem abertos. Mas eu fiquei chocada. Então, o que eu fiz? Era meu último posto. Meus dois últimos anos de carreira. Politicamente, eu estava de pescoço cortado. Então, eu concentrei a minha atividade em aumentar o comércio bilateral, o que efetivamente ocorreu; relações culturais, levei muita coisa para o Vietnã, porque nessa época a gente completou 25 anos do estabelecimento de relações diplomáticas, então nós fizemos uma festa maravilhosa. Eu trouxe músicos do Brasil para lá e foi uma festa extremamente bonita. E eu concentrei na cooperação educacional. A gente tem no Vietnã o maior programa de estudantes de português que existe na Ásia, com um grupo de pelo menos duzentos alunos anuais. É uma cooperação lusíada-brasileira, não é só brasileira, porque há muitos professores de origem portuguesa também, que ensinam não só a língua, mas literatura. Eu me juntei com os embaixadores de Angola, São Tomé e Príncipe e Moçambique, que eram os países de língua portuguesa que tinham representação lá e, nós fazíamos muitas reuniões em conjunto, apoiávamos esse curso de português também na universidade. Nós promovemos jogos de futebol entre os alunos, filmes, enfim, foi uma relação muito positiva nesse âmbito social, cultural, de ensino da língua e de comércio e investimento. Porque você sabe, essa parte econômica, apesar das dificuldades políticas, ela nunca para. O que vige é o poder do dinheiro e das trocas, e isso efetivamente ocorreu e o comércio cresceu. Mas quando eu me despedi, me receberam o primeiro-ministro, o Presidente da República e o chanceler. Mas o chefe do Partido Comunista não me recebeu, porque foi o cara que foi ferido. Todo embaixador ao final de missão recebe uma condecoração do governo local, mas eu não pude receber a condecoração, sendo eu a representante da então presidente da república, diante dos acontecimentos que ocorreram. Mas vou mostrar depois a gentileza local, porque eles me deram a medalha da amizade Brasil-Vietnã e me deram uma primeira página de jornal com um apanhado do que tinha sido feito nesse período. E o chanceler me disse: “Embaixadora, eu hoje tenho claro o que efetivamente ocorreu e quero lhe dizer que bom que eu tive aqui no Vietnã uma embaixadora sênior, que soube navegar por águas tão revoltas. De modo que hoje, com as coisas esclarecidas, você leve para o seu país a mensagem de que nós queremos continuar amigos do Brasil e queremos adensar o relacionamento bilateral.” Coisa que ocorreu lentamente nesses dez anos em que eu estive aposentada e a parceria estratégica aconteceu finalmente no ano passado [2024]. Eu tenho um colega que me jogou o memorando que foi assinado e eu disse: “Pois é, eu estava justamente pensando que dez anos se passaram para cristalizar aquilo que eu poderia ter cristalizado durante a minha gestão, mas que infelizmente não foi possível.” E assim se concluiu a minha carreira diplomática no Vietnã, mas eu recebi das autoridades locais muitas manifestações de apreço e de carinho. Eles compreenderam, afinal, a problemática da alta cúpula política. Aliás, provocado pela então presidente. Eu também tive um caso similar na Nicarágua. O Itamaraty costuma dizer aos diplomatas que ações que envolvem o governo, elas devem ser canalizadas pela embaixada. Então, eu descubro que tem uma grande missão do álcool, era na época da diplomacia do álcool, que vinha visitar o Brasil. Missão que já estava toda financiada por organismos internacionais. E os carros já estavam alugados, os hotéis reservados. Aí eu topo com o ministro da Agricultura nicaraguense. Disse: “Ministro, eu acabei de tomar conhecimento que tem uma missão nicaraguense que vai ao Brasil. Olha, eu quero colocar a embaixada à sua disposição, para o que o senhor precisar. Seria ótimo que pudesse ser canalizada pela área governamental.” O ministro bota tudo no canal do governo. A dona Dilma Rousseff resolveu fazer uma avaliação das missões de álcool, porque estava uma bagunça muito grande no Brasil, excesso de missões, estava atrapalhado, segundo a informação que eu recebi. E a missão foi suspensa. O ministro, as organizações internacionais e os integrantes da missão falavam comigo da mesma maneira que falaram. “Embaixadora, a senhora tem noção do dinheiro que nós estamos perdendo? Por favor, senhora, faça alguma coisa para que essa missão se realize.” E eu não pude fazer absolutamente nada, porque era uma determinação presidencial. Mas eu fiquei tão chocada, tão chocada quando eu falei com o ministro da Agricultura, que ele notou o meu embaraço. Você acredita que no dia seguinte, tinha em cima de minha mesa um buquê de flores espetacular. Aí eu fui ver quem foi aquele admirador que me mandou aquela coisa toda especial. Era um cartão do ministro da Agricultura dizendo para mim: “Embaixadora, não se preocupe, nós políticos somos assim mesmo”. Quer dizer, quando vem um interesse maior, não importa quanto dano você provoque. É isso mesmo, isso aconteceu na Nicarágua e aconteceu depois no Vietnã em proporções muito, muito maiores, que quase estraga a relação bilateral. E que volta ao patamar que eu desejei na época que eu estive lá, em 2012, dez anos depois, em 2022, 2023.
02:34:27
P1 – Você acompanhou muitas situações, do início da sua carreira até o final. Como viu a participação das mulheres no Itamaraty?
R – Eu acho que a participação das mulheres cresceu muito, sobretudo a partir de 2014, quando um grupo de mulheres entregou ao ministro de Estado uma carta com um elenco de solicitações, que vão desde, por exemplo, a criação de uma sala de aleitamento materno no Itamaraty, de um horário especial para uma mãe que tem necessidades, cumpridas as exigências das 40 horas semanais, mas com horários que possam ser flexíveis. Hoje em dia você tem a AMDB, que é a Associação de Mulheres Diplomatas do Brasil, que são extremamente ativas. Elas têm trabalhado muito na questão de promoções e remoções, porque se você olhar o espectro de como estão distribuídas as mulheres no Itamaraty, você verá que tem uma variedade muito grande de lotações, sem discriminação em diferentes áreas, nos patamares mais baixos da carreira, quando você é secretário. Mas na medida em que você passa a ser chefia, a sua possibilidade de lotação nesses lugares se reduz brutalmente. Então, você tem muito poucas mulheres com cargos de chefia. Hoje já mudou. Você tem mulheres chefes de departamento, mulheres chefiando divisão, mas esses cargos, na minha época, eram pouquíssimas as mulheres que conseguiam chefiar divisão ou chefiar departamento e mesmo chefiar embaixada. Quando eu assumi, fui a oitava embaixadora a ser promovida, tinha cinco mulheres somente que estavam ocupando cargos no exterior e todos eles em postos menores, no Caribe. A grande demanda das mulheres hoje é o seguinte: se eu sou ótima para chefiar uma embaixada na África, que é onde se concentra a grande quantidade de mulheres chefes de posto, eu também sou apta a chefiar Londres, Paris ou Nova York. Porque aqui, na que eu chamo “linha Elizabeth Arden”, a mulher também não pode servir. Embaixadas com mais de dez diplomatas, que são consideradas grandes embaixadas, são uns 23 postos, você tem muito poucas mulheres chefiando. Aqui e ali você teve mulheres chefiando, mas elas ainda são poucas. Hoje, com o trabalho incessante da Associação de Mulheres Diplomatas do Brasil, você tem mulheres chefiando postos importantes na América do Sul, na Europa, embora você tenha ainda uma concentração de mulheres em postos menores. Mas eu acho que as mulheres vêm conquistando um espaço. Não diria que é um caminho realmente fácil. Às vezes, inclusive, elas são consideradas pelos homens impertinentes porque, vamos dizer assim, a demanda é repetitiva e, às vezes, agressivamente colocada. Mas esse é o caminho que foi encontrado para que novas vias sejam abertas às mulheres.
02:38:33
P1 – Você falou muito dos seus filhos, que te acompanharam ao longo da carreira. Diga o nome deles e o que cada um hoje faz.
R – Olha, eu tenho dois filhos que nasceram... Durante três meses no ano, eles têm a mesma idade. Foi uma diferença mínima entre as duas gestações. O mais velho chama-se Miguel Alejandro Cleaver Guerreiro – Alejandro por causa do meu marido. Esse ano ele fez quarenta anos. O menor, que tem nove meses a menos, é Paulo Frank – que era o nome do meu pai – Cleaver Guerreiro. Ambos estudaram Economia e fizeram um concurso para o Ministério da Indústria e Comércio. Um trabalha na área internacional, com muita interface com o Itamaraty, inclusive muitas vezes viaja com os colegas; e o outro trabalha mais na parte de importação, exportação, estatísticas, essas coisas. O meu menor fez o concurso para o Itamaraty, eu o incentivei muito, eu queria que um seguisse os meus passos. O Paulo fez o concurso e não passou por um décimo. O mais inacreditável foi que o que o derrubou foi a prova de inglês e ele fala muito melhor que eu. Ele era o melhor aluno de inglês do curso preparatório e tinha um rapaz que a professora disse que não passaria. Este menino passou muito bem e o Paulo perdeu o ponto. A professora ficou revoltada e fez um recurso. O Itamaraty, a pessoa que corrigiu, disse que efetivamente não estava errado, mas não era isso que queria. O fato é que a nota baixa em Inglês baixou a média geral dele e ele ficou por um décimo em uma colocação que não tinha possibilidade de aproveitar por um décimo, porque não tinha mais vaga no Instituto Rio Branco. Aí eu falei: “Olha, a mamãe está no exterior, eu sei que não se passa da primeira vez, eu tenho condição de bancar os professores todos que você precisa mais um ano. Faça...” E ele disse: “Olha, mãe, eu não quero mais estar nas suas costas.” Ele tinha passado em segundo lugar no concurso [para o ministério da] Indústria e Comércio e fez paulatinamente. “Eu vou para a Indústria e Comércio. Se daqui a um ano, eu achar que meu o asfalto está baratinho, vou tentar o concurso.” Um ano depois ele disse para mim: “Mãe, olha, eu cheguei à conclusão que eu não sou tão competitivo quanto você. Número dois, eu vi ao longo da vida as suas angústias com remoção, com promoção, a criação dos filhos. Eu lá no Ministério da Indústria e Comércio tenho promoções que são feitas por tempo de serviço, elas vêm naturalmente.” Tanto que ele tem doze anos de carreira e já está no topo da carreira, já ganha mais que a minha aposentadoria. E ele está feliz, eu digo: “Meu filho, o que a sua mãe quer é que você seja feliz. Então, não é pelo fato de você não seguir o Itamaraty que eu vou ficar triste. Eu quero ver vocês realizados, homens realizados e felizes. Se você está contente, eu também estou.” Eu gostaria que um tivesse seguido o meu caminho, mas não seguiram. Já a minha irmã tem um filho, dos três que ela tem, dois meninos e uma menina. O Leonardo foi um dos embaixadores mais jovens da carreira, ele tem 50 anos agora e é cônsul-geral em Munique, já é embaixador. Pelo menos um da família seguiu os passos, para a felicidade do meu cunhado.
02:42:20
P1 – Para encerrar: na sua visão, qual é a importância de um projeto de memória sobre a diplomacia brasileira?
R – Quando esse projeto me foi proposto, eu confesso que achei muito interessante, porque eu acho que vai deixar para as novas gerações um depoimento da evolução da carreira, das dificuldades, das facilidades que um diplomata tem. E acho que conta também um pouco da história do Brasil, na medida em que as relações externas são uma parte importante da área governamental. E a vida de cada um vai mostrar como essas relações evoluíram com o tempo, que problemáticas ocorreram – e são muitas. Eu testemunhei tantas outras coisas que eu podia falar mais outras três horas. Acho um projeto muito interessante e importante, realmente. E para nós, pessoalmente, fica a satisfação de que a sua passagem pelo Itamaraty também não ficou em branco, ficou registrada em algum lugar.
02:43:36
P1 – Essa oportunidade do registro da sua história é um registro, também. sobre a história contemporânea recente do Brasil.
R – É, sem dúvida, porque cada país oferece uma conjuntura diferente. Em cada momento você está sendo um agente do Estado, porque eu sempre digo: nós não somos agentes de governo, nós somos agentes de Estado. Você não representa governos, os governos são passageiros. Mas o país permanece. Então, o Itamaraty sempre teve algo muito importante, que é uma coerência nas posições que assumiu, salvo alguns resvalos que às vezes ocorrem por força de circunstâncias externas que não tem como você contornar. Mas, efetivamente, o Itamaraty sempre foi muito fiel à história. Por exemplo, é dos poucos ministérios que mantém um sistema de arquivo perfeito. Então você pode, por exemplo, estando em uma negociação internacional, buscar o que é que o Brasil defendeu sobre esse tema dez anos atrás. Porque eu servi em outros ministérios e vi como é. Você procura o que o Brasil defendeu na gestão anterior e você não sabe, porque não tem papel nenhum. O Itamaraty tem tudo absolutamente registrado. Uma evolução histórica perfeita, não só das posições que o Brasil assumiu, mas também da evolução dos países onde sucessivos representantes diplomáticos trabalharam. Isso ajuda muito você manter uma coerência nas posições que o Brasil assume. Eu acho isso uma coisa muito importante. O Itamaraty também tem coisas que a juventude não gosta. Quando presidi a Associação de Diplomatas Brasileiros, eu tentei montar uma equipe jovem, porque eu acho que a minha geração já viveu o que tinha que viver e as minhas demandas já estão para trás. Agora você tem que trabalhar e tentar atender os anseios das gerações novas, com os problemas que as gerações novas enfrentam. Então a minha equipe todinha foi montada de praticamente secretários e jovens que me ajudaram muitíssimo a ver o Novo Itamaraty. E tem uma coisa que eles não gostam e que eu sempre achei que era uma coisa que ajuda o bom encaminhamento da rotina diplomática, que é a hierarquia. No Itamaraty, a gente tem uma hierarquia muito parecida com a dos militares. É claro que de repente você tem problemas como os que eu enfrentei e contei, por exemplo. De uma hierarquia em que o cara que está embaixo está vendo as coisas que não estão muito certas e você tem que ser fiel aos seus valores e defender o que você acredita. De modo que tem coisas que me aconteceram, que me prejudicaram, mas que eu não me arrependo nem um pouco, porque eu fui fiel às coisas em que eu acredito. Acho que a hierarquia ajuda as coisas a fluírem bem, salvo quando você tem um superior hierárquico que realmente não é o mais adequado. Mas eu diria que a média do Itamaraty tinha um relacionamento hierárquico bom, não só entre diplomatas, mas também com o pessoal de apoio, os oficiais e assistentes de chancelaria.
02:47:19
P1 – Vitoria, eu acho que assim a gente pode encerrar, mas queria agradecer muito a sua entrevista, você ter compartilhado um pouco da sua história. Vou deixar um último espaço, se você quiser falar alguma coisa que você queria ter falado e sentiu que ainda não teve oportunidade, algo que você queira acrescentar?
R – Não, eu acho que a gente conversou bastante, foi bastante completa, cobriu minha carreira quase toda, acho que só não cobrimos um serviço provisório que eu fiz no Irã, na época do Xá [Mohammad Reza Pahlavi], em 1975, que foi uma história louca, porque eu fui tirada de Londres para Teerã, para ajudar o embaixador em uma grande feira comercial que estava ocorrendo. Só o Brasil e os Estados Unidos tinham um pavilhão inflável, com ar-condicionado maravilhoso dentro. Só que o nosso ar-condicionado pifou. E não tinha técnico. Eu não sei se era a Alcântara Machado, que era uma daquelas grandes empresas que prestavam assessoria ao Brasil nessas feiras comerciais. E eu estava desesperada, porque a coisa ia inaugurar e a gente não tinha pavilhão. Aí aparece uma pessoa na embaixada e um funcionário do consulado, do setor de consulado, diz assim: “Secretária, tem um japonês que está pedindo para a gente renovar o passaporte. Eu digo: “Japonês?” Aí eu vou e era um brasileiro, nissei, que era funcionário da empresa e o visto dele, o passaporte estava vencido, e ele queria um novo passaporte. [Aí eu falo para ele assim:] “Olha, eu vou lhe dar um novo passaporte, mas antes o senhor vai fazer uma coisinha para mim. O senhor vai lá no local da feira e vai botar o aparelho de ar-condicionado para funcionar e um balão para inflar. Do contrário, a minha vinda aqui terá sido uma catástrofe.” Ao final saiu tudo bem, ele consertou o pavilhão e ganhou um novo passaporte.
02:49:25
P1 – Bem, acho que com essa história a gente termina aqui.
R – Terminamos aqui. Eu agradeço a vocês também e a paciência de escutar tanta coisa...
P1 – Nada, a senhora teve a paciência...
R – Eu gostei de ter tido a oportunidade de tentar me recordar da vida passada e da carreira que eu tive, da qual eu certamente não me arrependo. Eu acho que se a gente pudesse reencarnar e escolher de novo uma profissão, eu voltaria a ser diplomata, porque foi uma carreira que me deu inúmeras oportunidades, não só de aprender, como de conhecer e de viver experiências que como uma pessoa comum eu nunca teria experimentado. Então, foi muito bom mesmo.
FIM DA ENTREVISTA
Recolher