Era um dia frio, muito frio para o início da primavera. A cidade ressentida se encolhia, e as pessoas se fechavam mais em seus casacos e guarda chuvas, protegendo-se da friagem e da maluquice do tempo. O metrô estava vazio, especialmente se levarmos em conta o trecho Vila Mariana-Sé, sempre lotado naquele horário.
Acomodei-me em um assento e fiquei curtindo o conforto e o calor do vagão. No banco cinza, aquele reservado para os idosos, bem na minha frente, uma velhinha japonesa dobrava com cuidado um pedaço de papel, e chamou minha atenção. Olhei-a por uns segundos e ela retribuiu o olhar. Desviei os olhos, embaraçada, e em seguida ela, com um sorriso, acenou com a mão, fazendo sinal para que eu sentasse ao seu lado. Fui. Ela me perguntou se eu conhecia o origami. Disse que sim. Ela fez com habilidade uma pomba com o papel dobrado, e disse:
– Vou dar a você a pomba da paz, porque São Paulo precisa muito de paz.
Mandou que eu abrisse a mão e me entregou solenemente, dizendo pra eu pendurar a pombinha na janela, que assim o vento ia entrar e espalhar a paz pela casa.
Contou-me que tinha 81 anos e morava com o filho. Trabalhava como voluntária numa creche em Campo Limpo, onde ensinava as crianças a fazer origami. Seu olhar alegre e aguçado demonstrava uma energia incompatível com seu pequeno corpo encarquilhado e curvado – um metro e quarenta e no máximo 40 quilos
Despediu-se desejando-me um lindo e feliz dia, e dizendo seu nome: “Eu sou Rute”.
Dizendo isso, pegou a bengala e rapidamente saiu do trem, deixando em mim a certeza de que eu teria, sim, um dia muito feliz e com muita paz
