Projeto Heliópolis dos Sonhos
Realização Instituto Museu da Pessoa.net
Entrevista de Maria Diva de Souza
Entrevistada por Renato e Renata
São Paulo, 7 de maio de 2005
Código: HEL_CB004
Transcrito por Ana Gabriela Zangari Dompieri
Revisado por Raphaela Dos Santos Rei
P/1 — Bom, você podia começar falando o seu nome e o local e a data do seu nascimento?
R — Maria Diva Souza Silva, nasci na Paraíba, e data de nascimento, 26 de março de 1952.
P/1 — Qual cidade da Paraíba?
R — Serra Grande.
P/1 — Que recordações você tem dessa cidade, assim?
R — Saudade do meu pai e de minha mãe, que ainda hoje moram lá, e eu gosto muito de lá.
P/1 — E o que você fazia na sua adolescência?
R — Estudava e trabalhava na roça.
P/1 — Mas e um... O que você gostou, assim, na sua adolescência, o que que te marcou na sua adolescência?
R — A liberdade lá do Nordeste que a gente pode andar a cavalo, passear, brincar e ser livre.
P/1 — E como é que eram esses passeios assim?
R — Andando pelas roças, pelos campos, aprendendo a andar a cavalo, amansando burro...
P/1 — Amansando?
R — Sim.
P/1 — E o que que te marcou, assim, nesse amansar, nesse cavalgar?
R — Os tombos que eu levava quando tava cavalgando! Marcou muito, que eu passei uns seis meses sem poder montar, que estava machucada.
P/1 — Fora os cavalos, como é que a senhora se divertia?
R — Que eu me divertia? Com estilingue matando os "passinhos", essas coisas [risos].
P/1 — Os passarinhos?
R — Sim.
P/1 — E tinha muito lá?
R — Demais. Tem bastante.
P/1 — E a senhora sempre morou aqui em Heliópolis?
R — Não, tá com 18 anos que eu tô morando aqui em Heliópolis.
P/1 — E por que que você veio morar aqui?
R — A dificuldade de emprego. Lá no Nordeste só tem a roça e aqui tem emprego.
P/1 — Aí você veio pra...
Continuar leitura
Projeto Heliópolis dos Sonhos
Realização Instituto Museu da Pessoa.net
Entrevista de Maria Diva de Souza
Entrevistada por Renato e Renata
São Paulo, 7 de maio de 2005
Código: HEL_CB004
Transcrito por Ana Gabriela Zangari Dompieri
Revisado por Raphaela Dos Santos Rei
P/1 — Bom, você podia começar falando o seu nome e o local e a data do seu nascimento?
R — Maria Diva Souza Silva, nasci na Paraíba, e data de nascimento, 26 de março de 1952.
P/1 — Qual cidade da Paraíba?
R — Serra Grande.
P/1 — Que recordações você tem dessa cidade, assim?
R — Saudade do meu pai e de minha mãe, que ainda hoje moram lá, e eu gosto muito de lá.
P/1 — E o que você fazia na sua adolescência?
R — Estudava e trabalhava na roça.
P/1 — Mas e um... O que você gostou, assim, na sua adolescência, o que que te marcou na sua adolescência?
R — A liberdade lá do Nordeste que a gente pode andar a cavalo, passear, brincar e ser livre.
P/1 — E como é que eram esses passeios assim?
R — Andando pelas roças, pelos campos, aprendendo a andar a cavalo, amansando burro...
P/1 — Amansando?
R — Sim.
P/1 — E o que que te marcou, assim, nesse amansar, nesse cavalgar?
R — Os tombos que eu levava quando tava cavalgando! Marcou muito, que eu passei uns seis meses sem poder montar, que estava machucada.
P/1 — Fora os cavalos, como é que a senhora se divertia?
R — Que eu me divertia? Com estilingue matando os "passinhos", essas coisas [risos].
P/1 — Os passarinhos?
R — Sim.
P/1 — E tinha muito lá?
R — Demais. Tem bastante.
P/1 — E a senhora sempre morou aqui em Heliópolis?
R — Não, tá com 18 anos que eu tô morando aqui em Heliópolis.
P/1 — E por que que você veio morar aqui?
R — A dificuldade de emprego. Lá no Nordeste só tem a roça e aqui tem emprego.
P/1 — Aí você veio pra cá só por causa do emprego...
R — Só por causa do emprego
P/1 — Não tinha familiares?
R — Não tinha. Vim só pra conhecer e arrumar um emprego.
P/1 — E como você descobriu Heliópolis?
R — Porque foi um primo meu que morou aqui em Heliópolis, foi passear lá e falou: "O canto melhor que tem pra pessoa chegar e se acomodar é Heliópolis”.
P/1 — Por que que a senhora (____?) daqui da comunidade?
R — Eu participo de várias coisas, eu acompanho a moradia, a educação, saúde. E sou a coordenadora da lavanderia comunitária, né, que eu trabalho com duas mil famílias.
P/1 — Qual é o seu trabalho na lavanderia? Como é que faz?
R — De coordenadora, é pra fazer o agendamento e ver como é que tá o funcionamento da lavanderia.
P/1 — E a senhora se diverte lá nessa lavanderia?
R — É tudo! Lá foi onde eu aprendi mais a viver, que lá se diverte. Vem de tudo, você conhece de tudo, alí é um aprendizado e tanto.
P/1 — Que que te marcou aqui na comunidade?
R — A violência só.
P/1 — E um fato bom?
R — Fato bom? A facilidade que você tem de sobreviver aqui, que até procurando papelão, qualquer coisa, um pai de família sustenta uma família aqui. E isso foi tudo.
P/1 — E a sua família, o que eles acham?
R — Da minha família? Eles gostaram, que aqui foi onde todos cresceram e estudaram e todos têm emprego.
P/1 — E eles também participam da comunidade?
R — Não, todos trabalham fora.
P/1 — Só a senhora que...
R — Só eu que faço parte da comunidade, porque a coisa que eu mais gosto, que acho mais importante é ajudar a comunidade, os jovens, adolescentes, o público todo.
P/1 — E como é que a senhora ficou sabendo do evento?
R — Daqui? Porque eu faço parte daqui. Eu sou a vice-presidente da Sociedade Amigos aqui.
P/1 — É?
R — Uhum.
P/1 — E como a senhora trabalha na Sociedade Amigos?
R — Ajudando os jovens e adolescentes. Eu converso com cada um uma maneira de viver, como tem que permanecer em Heliópolis, tirar das ruas... Eu trabalho assim, meu trabalho é esse.
P/1 — Foi assim que você criou seus filhos?
R — Foi assim que eu criei oito filhos, graças a Deus, todos trabalham e eu tenho esse emprego e eu consegui assim.
P/1 — E fala um pouco deles.
R — O Pedro, o mais velho, com 17 anos já tava empregado, trabalhando e é o gerente de uma empresa, ___. E os outros todos têm primeiro e segundo graus completos e todos trabalham. Três são gerentes, um é numa loja de foto, um, numa fábrica de sapatos, e outro, na loja de roupas. Foi assim que eu criei todos os meus filhos.
P/2 — E a senhora teve alguma dificuldade na criação dos seus filhos, já que a gente vive numa comunidade que tem violência?
R — Tive dificuldade sim, que eu não queria que eles se envolvessem no mundo das drogas. E isso era uma dificuldade, que eu queria saber passo a passo aonde eles iam e qual era o colega deles, ou a colega, ou a amizade que eles tinham. Isso foi uma dificuldade e tanto, que eu sempre trabalhei direto e eu queria saber todas as amizades dos meus filhos. Isso eu sofri muito.
P/1 — E o seu marido, assim?
R — Meu marido me deixou... Tá com 17 anos que ele me largou. Mora na Bahia com outra. Criei meus oito filhos só.
P/1 — Só?
R — Eu e Deus… Uhum.
P/1 — E tem mulher? Filha mulher... Ou só homem?
R — São quatro filhas mulheres e quatro filhos homens.
P/1 — E o que que elas acham do seu trabalho na comunidade?
R — Elas são muito orgulhosas, elas falam assim: "Mãe, eu gostaria muito de ter a coragem que a senhora tem de trabalhar na comunidade, justo em Heliópolis, da maneira que a senhora trabalha. A senhora sabe lutar com todo tipo de pessoas e tem orgulho de estar lá. Eu não teria essa coragem que a senhora tem". É isso, que elas se sentem orgulhosas de mim.
P/1 — E o que que a senhora tem pra nos falar do projeto? Acrescentar alguma coisa?
R — Nosso projeto, o que eu queria acrescentar, sim, gostaria que fosse feito era mais a área de lazer e esporte pros jovens e adolescentes, que nós vemos na rua. Eles sempre terem uma ocupação. Se os que vão pra escola e têm aquele horário livre, que eles ficam na rua, as crianças de menor, que não conseguem emprego, ter um espaço pra eles ficarem lá dentro. E nossos espaços aqui tão sendo muito poucos.
P/1 — E como a senhora ajudaria a fazer esses espaços?
R — Eu sinto, assim, nós precisamos formar uma comissão e ir lá nos grandes, nas prefeituras, nas lideranças maiores, que só nós da comunidade, só falando uma só pessoa não consegue, mas a gente formando um grupinho junto, nós conseguimos.
P/1 — E do nosso projeto?
R — Eu gostaria que ficasse sempre acontecendo, que é muito valioso a gente mostrar nossos projetos que tem aqui em Heliópolis lá fora. Se vocês vêm e ficam plantando o evento, pelo menos de seis em seis meses aqui, pra nós é tudo.
P/1 — E pra gente que participa, assim, que que a senhora acha que a gente tem que fazer pra melhorar um pouco a comunidade?
R — O que vocês têm que fazer é não abandonar o trabalho de vocês e trabalhar com força, esperança e amor e fazer tudo sempre pra ajudar os mais humildes, os mais pobres. E aí que vocês crescem.
P/1 — E a senhora podia falar uma frase com a qual a senhora se identifica?
R — Identifica pra mim? É o amor e paz na vida de cada um. Só isso.
P/1 — Muito obrigado pela sua entrevista...
P/2 — Obrigada.
P/2 — Parabéns pela sua história de vida e... obrigado.
R — Obrigada a vocês.
P/2 — Muito bom, viu?
---FIM DA ENTREVISTA---
Recolher