Nos anos 2000, ainda quando meus avós (por parte de mãe) eram vivos, eu ia com frequência para a casa deles, principalmente, durante a semana. Era chegar a noite e, já me aprontava para ir visitá-los para jantarmos juntos. E nestes dias, guardo minhas melhores memórias de uma vida inteira e que saudade eu sinto.
Nestas noites, meu avô sempre gostava de me impressionar e sempre fazia novinha, algo que consegui me apaixonar, era a canjiquinha que só ele sabia fazer. Talvez, era algum ingrediente especial. Talvez, era só o amor que de tão imenso fez o sabor ser especial. Eu não resistia, e sempre tomava vários pratos de canjiquinha.
Não somente durante a semana, mas, todos os outros dias, era uma festa com meu avô. Ele era presente, carinhoso, sempre chegava de surpresa na nossa casa levando muitos doces e balas para mim, além de sempre me contar histórias e me chamar pelo meu nome no diminutivo, mas de uma forma diferente e doce. Consigo ainda me lembrar com exatidão da voz dele me chamando, do cheiro dele (me lembro de um cheiro de uma pessoa por décadas), da forma como ele almoçava e de como ele era adorado por todos.
Infelizmente, como diz o poeta “os bons morrem jovens” e foi assim. Tive meu avô apenas até os meus dez anos, mas, foram dez anos cheios de memórias que guardarei por toda vida e uma nostalgia de uma receita que jamais voltei a experimentar.
Logo após sua partida, como a criança que era, fiquei muito triste. Foi a primeira perda em minha vida, uma perda que realmente senti e, um dia antes, sonhei que ela aconteceria. Ele já estava no hospital e no sonho se despediu de mim (mas isso é assunto para outro momento). Enfim, essa perda mexeu muito com minhas emoções e aquela receita de canjiquinha era a nossa maior ligação.
Desde então, senti que voltar a tomá-la seria como trair meu avô, seria como cortar nosso elo e por isso, como a criança que era, não aceitei de mais ninguém. Confesso que de tanta...
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Nos anos 2000, ainda quando meus avós (por parte de mãe) eram vivos, eu ia com frequência para a casa deles, principalmente, durante a semana. Era chegar a noite e, já me aprontava para ir visitá-los para jantarmos juntos. E nestes dias, guardo minhas melhores memórias de uma vida inteira e que saudade eu sinto.
Nestas noites, meu avô sempre gostava de me impressionar e sempre fazia novinha, algo que consegui me apaixonar, era a canjiquinha que só ele sabia fazer. Talvez, era algum ingrediente especial. Talvez, era só o amor que de tão imenso fez o sabor ser especial. Eu não resistia, e sempre tomava vários pratos de canjiquinha.
Não somente durante a semana, mas, todos os outros dias, era uma festa com meu avô. Ele era presente, carinhoso, sempre chegava de surpresa na nossa casa levando muitos doces e balas para mim, além de sempre me contar histórias e me chamar pelo meu nome no diminutivo, mas de uma forma diferente e doce. Consigo ainda me lembrar com exatidão da voz dele me chamando, do cheiro dele (me lembro de um cheiro de uma pessoa por décadas), da forma como ele almoçava e de como ele era adorado por todos.
Infelizmente, como diz o poeta “os bons morrem jovens” e foi assim. Tive meu avô apenas até os meus dez anos, mas, foram dez anos cheios de memórias que guardarei por toda vida e uma nostalgia de uma receita que jamais voltei a experimentar.
Logo após sua partida, como a criança que era, fiquei muito triste. Foi a primeira perda em minha vida, uma perda que realmente senti e, um dia antes, sonhei que ela aconteceria. Ele já estava no hospital e no sonho se despediu de mim (mas isso é assunto para outro momento). Enfim, essa perda mexeu muito com minhas emoções e aquela receita de canjiquinha era a nossa maior ligação.
Desde então, senti que voltar a tomá-la seria como trair meu avô, seria como cortar nosso elo e por isso, como a criança que era, não aceitei de mais ninguém. Confesso que de tanta insistência, até tentei experimentar a da minha avó tadinha, mas não senti gosto algum. Me lembro que senti gosto puro de água, foi assustador como meu paladar sumiu naquele dia. Enquanto todos amavam o prato, eu não senti nada.
Este momento foi como sentir novamente a perda do meu avô, era como se eu estivesse dizendo para mim mesma: “Ele nunca mais fará a canjiquinha novamente”. E que dor eu senti e ainda sinto, por não o ter conosco, mas, hoje, a dor é da saudade e da nostalgia.
Embora eu quisesse muito trazer a receita para vocês, não poderia. Qualquer receita de canjiquinha que eu trouxesse seria uma farsa, já que não seria a dele e, se eu não posso experimentar, tampouco, poderia descrever. Como eu disse acima, talvez o ingrediente secreto realmente fosse só o amor que nos unia mesmo.
Independente disso, ainda estou por aqui vô, sem conseguir tomar canjiquinha, sem conseguir sentir o cheiro de uma e sem ter nenhuma vontade também. Confesso que a vontade só passou depois de anos.
Estava pensando ao escrever este texto sobre a força de uma pessoa em nossa vida e, como ela é capaz de mudar o nosso presente e o nosso futuro. Meu avô fez parte de apenas dez anos da minha vida, mas, me lembro dele nos últimos vinte e três anos somados a esses dez, como se ele ainda estivesse aqui, sempre que vejo alguém falando de canjiquinha ou quando vou comprar balas ou quando vejo alguém sorrindo com um avô. Me desculpem, mas a gargalhada do meu avô era impossível ter outra igual!
Enfim, por hoje, ficarei por aqui, já estou em lágrimas e, são muitas coisas que vou me lembrando enquanto escrevo essas palavras. Espero que por aí, você também tenha uma receita que marcou sua vida e se também não conseguir provar mais, como eu, guarde na memória sobre a importância dela e tente reconstruir novas memórias.
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