Projeto Diversidade Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Mestre Quino
Entrevistado por Sofia Tapajós, Flávia dos Santos e Mariana Albuquerque dos Santos
Córrego do Alexandre, 22 de março de 2026
Código: DCC_HV012
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Seu Quino, qual o seu nome e quando o senhor nasceu?
R – Meu nome é Aquimino do Santo. Eu nasci 7 de março de 1955.
P/1 – O senhor nasceu onde?
R – Aqui, no Córrego do Alexandre.
‘
P/1 – E qual o nome dos seus pais?
R – Marcelino Joaquim do Santo e Laudemira do Santo.
P/1 – Os seus pais, eles faziam o quê?
R – Era pescador e agricultor.
P/1 – Era onde? Aqui?
R – É, tudo no Córrego do Alexandre.
P/2 – Que lembranças você tem deles?
R – Ah, várias.
P/2 – Pode falar um pouquinho pra gente?
R – Posso. Uma das que mais me deixou em lembrança, de mamãe todas e dele também, né? Mas, dele, a que mais me deixou em lembrança é de não ter aprendido mais as coisas com ele. Ele sabia muita coisa, ele sempre me falava. Aí, eu dizia que ia ali só pra poder não ouvir, achava que ele tava conversando demais, enganando eu mesmo, achando que tava enganando ele. Isso aí eu me arrependo muito. Nem só com ele, com muitos outros mais velhos que conversavam as coisas comigo, eu não dava muita atenção, não sabia que era tão precioso igual é hoje. Isso aí eu tenho muita lembrança dele. E o maior trabalho que ele fazia, que ensinava a gente pra sempre viver assim, tranquilo no meio de gente. Isso aí é uma lembrança boa e uma recordação muito linda que ele deixou pra gente e a gente faz até hoje.
P/1 – E da sua mãe? Fala um pouquinho sobre ela.
R – Ela era uma pessoa muito boa, muito maravilhosa, né? Que todos os ensinamentos ela tinha. Você sabe como é que é mãe. Mãe, qualquer coisa, papai brigava com a gente, ela dizia que a gente tava errado, ela entrava pelo meio pra defender. E era assim, era... A...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Mestre Quino
Entrevistado por Sofia Tapajós, Flávia dos Santos e Mariana Albuquerque dos Santos
Córrego do Alexandre, 22 de março de 2026
Código: DCC_HV012
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Seu Quino, qual o seu nome e quando o senhor nasceu?
R – Meu nome é Aquimino do Santo. Eu nasci 7 de março de 1955.
P/1 – O senhor nasceu onde?
R – Aqui, no Córrego do Alexandre.
‘
P/1 – E qual o nome dos seus pais?
R – Marcelino Joaquim do Santo e Laudemira do Santo.
P/1 – Os seus pais, eles faziam o quê?
R – Era pescador e agricultor.
P/1 – Era onde? Aqui?
R – É, tudo no Córrego do Alexandre.
P/2 – Que lembranças você tem deles?
R – Ah, várias.
P/2 – Pode falar um pouquinho pra gente?
R – Posso. Uma das que mais me deixou em lembrança, de mamãe todas e dele também, né? Mas, dele, a que mais me deixou em lembrança é de não ter aprendido mais as coisas com ele. Ele sabia muita coisa, ele sempre me falava. Aí, eu dizia que ia ali só pra poder não ouvir, achava que ele tava conversando demais, enganando eu mesmo, achando que tava enganando ele. Isso aí eu me arrependo muito. Nem só com ele, com muitos outros mais velhos que conversavam as coisas comigo, eu não dava muita atenção, não sabia que era tão precioso igual é hoje. Isso aí eu tenho muita lembrança dele. E o maior trabalho que ele fazia, que ensinava a gente pra sempre viver assim, tranquilo no meio de gente. Isso aí é uma lembrança boa e uma recordação muito linda que ele deixou pra gente e a gente faz até hoje.
P/1 – E da sua mãe? Fala um pouquinho sobre ela.
R – Ela era uma pessoa muito boa, muito maravilhosa, né? Que todos os ensinamentos ela tinha. Você sabe como é que é mãe. Mãe, qualquer coisa, papai brigava com a gente, ela dizia que a gente tava errado, ela entrava pelo meio pra defender. E era assim, era... A gente já foi pegar, a gente corria ali, voltava e ela não fazia nada. Mas papai não, se ele dissesse que ia pegar, podia até esperar logo que a surra era menor. Então, assim, nós tomamos medo. Mas tudo isso eu agradeço a eles.
P/1 – E seus pais eram daqui mesmo?
R – É. Mamãe era lá de Joerana e papai era lá do Córrego Fundo, ali atrás de Roda d'Água. Mas era desses meio mesmo, por aqui.
P/1 – E o senhor tem quantos irmãos?
R – Dez. Nove, com eu, faz dez. Filhos do casal são oito. E papai de umas pernadas por fora aí tem dois filhos por fora. Vem onze, porque Badino ali, eu considero ele como irmão meu e como pai de criação. Que ele veio lá pra casa com uma raba de tudo desse tamanzinho e ajudou papai acabar de criar nós. Todo lugar que nós estamos, ele está junto com nós. Papai já foi, mamãe se foi e ele nunca abandonou nós pra nada. Tudo que nós faz, ele está junto com nós. Então, eu considero ele como um irmão de criação e um pai. Ele vem ser onze, mas filho do casal é dez, é nove, é oito. E papai teve dois por fora.
P/1 – E todos eles moraram e moram aqui na comunidade?
R – Só dois que nunca morou aqui, que é os dois mais novos que papai teve por fora. Agora, os outros tudo moraram aí na comunidade e alguns moram ainda. Um mora em São Mateus e dois moram em Santana.
P/1 – E o senhor estudou onde?
R – Em Santana. Até a quarta série, primária. O nome do colégio lá era... Ah, esqueci como é que era.
P/1 – Qual lembrança que o senhor tem da escola?
R – A escola era muito boa. Eu sempre... As professoras gostavam muito de mim, que eu gostava muito dela. Eu respeitava muito que eu ia pra escola aprender. Papai dizia que a gente não brigasse na escola, que se brigasse na escola ia tomar uma surra em casa, porque a gente foi pra escola pra estudar. Então, nós estudávamos, nós respeitávamos muito a professora. A professora gostava muito de eu e eu gostava dela. Uma vivência muito linda e maravilhosa eu tenho das minhas professoras.
P/1 – Tem alguma especial que te marcou?
R – É... Eu tinha um monte de professora. Eu lembro da primeira professora, ela já é falecida. O nome dela era Adozina. Ela era muito legal comigo. Ela que me ensinou tudo de ler, né? Ela me ensinou a ler. Começou do be a bá até tudo. E depois eu andei estudando uns dias à noite. O nome da professora era Elisabete também. Acho que ela não é viva ainda, essa professora. E teve mais outras, mas todas as professoras pra mim eram muito legais comigo. Eu gostava muito delas.
P/1 – E como o senhor ia pra escola lá em Santana?
R – A pé. Daí de casa, todo dia ia a pé pra lá. Nunca teve condução nenhuma pra ir pra escola, nem bicicleta. Naquele tempo, era o que tinha. Era o que tinha, não, alguém tinha. Não era todo mundo que tinha bicicleta, mas eu ia de bicicleta, a pé, quando eu ia
P/1 – O senhor estudou até quantos anos? Qual série?
R – Até a quarta série, primária. Naquele ano, tinha primeiro ano, segundo, terceiro e quarto. Aí, no quarto ano, era só em Santana que eles dava essa aula. E do quinto ano em diante, já era lá na Barra. Em Santana, não tinha. Por isso que _______, quando chegou o quarto ano, meus irmãos todos estudaram o quarto ano, porque dali tinha que passar pra Barra. Nós não tínhamos como estudar na Barra. Por isso, nós estudamos até a quarta série.
P/1 – Qual é a profissão do senhor?
R – A minha profissão é pescador, mas já trabalhei em muitas outras coisas, né? A profissão mesmo que eu sou apresentado é como pescador.
P/1 – E o seu ofício de pesca você aprendeu com quem?
R – Com papai e com a natureza.
P/1 – E você pesca como?
R – É com tarrafa, com rede, com pulsar, quando vou pescar siri. Entendeu? Mas eu já pesquei muito de tarrafa. Eu nunca pesquei de linha. Agora, eu não jogo mais tarrafa não, mas de rede eu ainda pesco ainda, toda vez. Tapasteiro no mangue, tinha de primeiro, agora não existe mais isso. É pescado.
P/2 – Como que é pescar de tarrafa?
R – Pescar de tarrafa é fazer e jogar. Joga ela, dá 10, 20 lance pra acertar um peixe. Tem vez que dá os lances todos e acerta. É um tipo uma sorte pra acertar peixe.
P/1 – Qual era a base da alimentação da sua família?
R – A base como você falou?
P/1 – O senhor pescava. Era o principal alimento?
R – Era. A gente tinha porco, tinha galinha. Naquele tempo, caçava também. Entendeu? Era isso aí, essa base aí. Arroz, feijão e farinha.
P/1 – E hoje?
R – Hoje, continua a mesma coisa. Só não tem caça. Não caça mais peixe, galinha. Hoje, com todas as coisas mais difíceis, é muito mais fácil pra a comida. Todo canto que você vai, você acha.
P/1 – E a farinha? Era produzida aqui?
R – Era produzida. A gente produzia farinha também e comprava, mas mais era produzida nós. Mas depois de muito tempo, que o papai já teve casa de farinha, depois que não teve mais, que abandonou, aí foi... Aí a gente ficou comprando farinha, até hoje compra.
P/2 – E aí, quando você era criança, além da escola, o que você fazia pra se divertir?
R – Era jogar bola e pescar. A diversão era essa.
P/2 – E com quem você jogava bola?
R – Jogava com meus irmãos em casa. Depois, ia pra Santana, jogar bola em Santana. Era assim, a diversão era essa. Muito legal. Jogar pião, bola de vidro, aquele tal de bioquê, não sei se você conhece aquilo. Fazia com pilha. Alguém aí não conhece? Fazia com pilha, cortava uma pilha grande, tirava aquela massa dela todinha, enfiava uma linha por aqui assim, amarrava um pau e ficava assim, jogando pra acertar. A pilha rodava e acertava na cabeça daquele pauzinho que a gente tava na mão. Chamava de bioquê. Aquilo vendia, depois vendiam também aquilo na feira, essas coisas, achavam. Então, brincava com aquilo.
P/1 – E quais eram os principais costumes da sua família? O que mais vocês faziam? O que era a cultura da família?
R – Nós tirava capim pra vender. Não sei se você sabe, capim faz colchão. Tirava aquilo. Pocava lenha, vendia lenha. Na Barra, Santana, não tinha. Pescava siri. Pegava caranguejo, fazia alguma roça também, fazia as rocinhas da gente. Era isso, a nossa vivência era assim.
P/1 – O que vocês plantavam na roça?
R – Plantava tudo, mandioca, feijão, abóbora, melancia, tudo. Tudo que era de roça a gente plantava. Arroz. Nós mesmos não fazia, não. O papai que fazia roça de arroz, nós plantava.
P/1 – E pra se divertir, o que vocês faziam na comunidade?
R – Ah, sempre tinha um forró. Era só o que tinha. Naquele tempo, não tinha negócio de trio elétrico na Barra, não tinha casa de show na Barra, em Santana, a moda que tem hoje. Naquele tempo, era só os forrós da roça mesmo.
R/1 – Como era esse forró?
R – O forró era tocado de sanfona, ali, na Água Boa, tinha um Mario. Qualquer um daqueles que morava ali na Água Boa, sempre fazia. Era Mario, China, Roxo, Duquinha, o Sr. Florentino, o pai de Beto, o Coxê, ele fazia esses forrós. Aí chamava, aí mandava convidar papai, com as meninas. Onde tinha menina, era o que o maior dono da casa chamava. Era pra poder ir, as mulheres pra poder dançar. Aí ia lá. E era tudo a pé, andava nesses caminhos tudo a pé. Não tinha bicicleta, não tinha carro, não tinha nada pra atrapalhar. Era direto. Quantas vezes nós fomos, saia daí de casa, de tardezinha, e ficava escurecendo. Andava lá pelo Beto, lá pelo Coxê, lá na Água Boa, nesses cantos, tudo aí, atrás de forró. Era isso. Eu mesmo quase não dançava, não. A menina que se divertia.
P/1 – Você tocava alguma coisa?
R – Bem pouco. Batia pandeiro. Aí, depois de muito tempo, eu comecei a tocar sanfona.
P/1 – E o senhor tem alguma música de forró da época dos bailes?
R – É, porque naquela época, sempre era cantado mais aquelas músicas que aquele pessoal antigo cantava. Aí tinha aquelas músicas dele. E o forró, a moda se torna hoje um forró sapezeiro, é porque as pessoas que cantavam tiravam versos. Aí a outra pessoa já emendava aquele verso e ia até lá longe. Era mais versos assim de forró. A moda... Tem uns versos que esse falava assim (entrevistado canta): “Minha mãe, quando eu morrer me enterra em seu terreiro. Minha mãe, quando eu morrer me enterra em seu terreiro. Deixa o meu braço de fora pegado no meu pandeiro. Deixa o meu braço de fora pegado no meu pandeiro”. O Liar cantava assim (entrevistado canta): “Minha mãe, quando eu morrer me enterra no Chapadão. Minha mãe, quando eu morrer me enterra no Chapadão, deixa meu braço de fora, com meu pandeiro na mão, deixa meu braço de fora, com meu pandeiro na mão”. Aí, eu ia emendando (entrevistado canta): “Eu e meu companheiro parecem ser dois irmãos, eu e meu…”. Aí falava o nome da pessoa, vamos falar assim (entrevistado canta): “Eu mais Flávia parecem ser dois irmãos, eu me chamo Quebra Seca, e Flávia arranca morão, eu me chamo Quebra Seca, e Flávia arranca morão”. Aí Flávia continuava assim (entrevistado canta): “Você disse que não vinha, eu também não disse não, se não souber dizer verso, sai da roda os empurrão, se não souber dizer verso, sai da roda os empurrão”. Era assim, falava esse verso aí, quanta vez a pessoa cantava um verso, aí a pessoa cantava o pé quebrado, tal do pé quebrado aí que dizia assim (entrevistado canta): “Se não souber dizer verso, sai da roda os empurrão”. Se a pessoa cantasse um verso assim, maltratando a pessoa, a outra pessoa dizia (entrevistado canta): “Se quiser cantar comigo, lava a boca com sabão, se quiser cantar comigo, lava a boca com sabão. Se não lavar bem lavado, comigo não canta não. Se não lavar bem lavado, comigo não canta não”. Era quando a pessoa falava um verso que ele via que estava maltratando, que existia muito isso, entendeu? Era assim, era só esses versos assim que tinha, aí todo mundo embolava, que era um tocando sanfona, às vezes, era um que pegava um prato pra fazer pandeiro, pegava colher, batiando a colher, pegava panela, naquele tempo quase não tinha pandeiro, não tinha essas coisas. Aí era só pegar, qualquer uma coisa que pegava na frente, já fazia de um pandeiro, a sanfona que era mais diferente. Aí quando ia assim, que tinha esse forró, essa peseira assim, aí todo mundo que tinha sanfona levava, ficava três, quatro sanfonas assim. Quem quisesse tocar pegava e tocava, um tocava um bocado, outro tocava outro, e aquilo era até o dia amanhecer.
P/1 – E esse forró é de que época, assim?
R – Ah, esse forró é do tempo que eu era criança, eu tinha uns dez anos por aí, já ia esses forrós, sessenta anos atrás.
P/3 – Qual instrumento que o senhor toca?
R – Eu toco sanfona, viola, violão, pandeiro, reco-reco. Qualquer um que bater na minha mão faço zuado.
P/1 – E qual é a diferença do forró antigo para o forró do sapezeiro hoje?
R – A diferença que tem do forró de sapezeiro hoje é que você pega a sanfona pra tocar o forró de sapezeiro, você é difícil achar a pessoa pra cantar. Essa é a diferença, e essa diferença é muito grande. Aqui, até no tempo que eu comecei a tocar, a fazer forró de sapezeiro, quem tinha aqui? Era Miltinho, finado Miltinho, morreu, acabou, Berto, não está morto, mas graças a Deus está vivo, mas também não canta mais, não toca, era eles que faziam. Pegavam a sanfona assim, era todo mundo, aquele pessoal antigo, tudo, pegava no pandeiro, talvez nem todos eles sabiam tocar sanfona, mas o pandeiro todo mundo sabia. Aí, dois, três que tocavam sanfona, faziam festa a noite inteira. Hoje em dia, a diferença que tem, por aqui que eu vejo, que sabe como é esse forró de sapezeiro, sou eu mesmo. Eu toco e canto, mas Toninho, os outros meninos aí, tudo ajudam a cantar, mas não sabem emendar um verso acima, emendar um no outro, entendeu? A diferença que tem é só nessa aí.
P/1 – Além do forró de sapezeiro, o senhor participa de algum outro grupo?
R – Eu? É… de Ticumbi, Ticumbi eu até parei agora esse ano, mas participo ainda que eu que tiro o Ticumbi, faço as embaixadas, e toco o rei de boi e participo do Jongo.
P/2 – Qual a importância dessas manifestações para o senhor?
R – As importâncias são muito boas. É boa, porque a gente, assim, a maneira que eu sei um pouquinho de cada coisa, eu tenho que fazer e dar influência aos outros pra fazer, porque senão acaba, acaba e acaba tudo, porque está se acabando isso aí. Aí eu tenho essa influência. Eu parei de brincar como secretário, eu coloquei meu neto no meu lugar, coloquei ele ainda com eu podendo fazer alguma coisa, né, pra ir ajudando ele pra poder continuar esse lado aí. Ele entrou na brincadeira com seis anos, ninguém chamou ele, ele mesmo foi. Quando o compadre Teto batia o apito pra começar os ensaios, ele era o primeiro a levantar, ficava aquele toquinho de gente lá na ponta do... Ele já sabia que ele ia ficar lá atrás, mas ele ficava sozinho, em pé, aquele toquinho no meio da casa. Aí foi até que o compadre Teto botou e ele ficou. Dessa brincadeira, ele já cantou como contra-guia, ele já fez o papel de secretário, já fez o papel de rei e agora ele está fazendo o papel de secretário no meu lugar. É Miguel.
P/1 – E a transmissão de saber das sanfonas, você está transmitindo para um, para outro?
R – Eu já lutei com eles todos aí, mas ninguém pega. Só fala “Eu não sei” e também não pega pra ver se faz alguma coisa. Douglas, mesmo esse dia, tinha que falar pra nós “Tem que aprender isso aí, senão vai acabar”. Porque vai mesmo, porque você roda por aqui, você não tem rei, eu tô com vocês, você não tem rei, é a maior luta pra achar uma pessoa pra tocar o rei dele. Você acha uma pessoa, mas só sai nas Barreiras que tem, uns dois, três pessoas que tocam a sanfona. Por aqui, nessa beirada aqui, só quem toca aqui um pouco a sanfona é eu e Jorge lá no Paraíso. Você roda por aqui, você não vê ninguém mais que pega a sanfona, que toca nada. Depois que eu, mais Jorge, ir embora, de sanfona por aqui, nesses meios aqui, acaba.
P/2 – E com quem você aprendeu a tocar a sanfona?
R – Eu aprendi praticamente com a natureza. O papai tocava um pouco, mas eu não aprendi com ele. Eu aprendi assim, eu pegava a sanfona, ficava sozinho, sozinho, e depois eu fui treinando. Violão, toco um pouco de violão. Eu não aprendi com ninguém. Viola, eu não aprendi com ninguém. Eu aprendi sozinho mesmo, com a minha vontade de aprender.
P/2 – E o Ticumbi também você aprendeu com quem?
R – Também eu falo pra você que foi a natureza, porque o Ticumbi... desde criança eu acompanhei Ticumbi, mas nunca eu tinha intenção de brincar, nunca, acompanhava pra onde o Ticumbi ia e eu estava junto, mas eu não ligava pra brincar e papai brincava. Aí quando chegou um dia lá na Barra, o compare Teto me chamou. Aí eu nem pensei, eu pensei que não era nem eu, eu estava em pé junto com o seu Bibi. Aí ele me chamou e eu falei pro seu Bibi assim: “Ele está chamando o senhor”. Ele falou: “Não, você mesmo”. Aí eu fui e ele falou: “Você entra no lugar”. O papai já estava ficando deficiente da vista. Aí ele falou: “Você fica no lugar de Assidinho”. Eu falei: “Ah, e o Teto?”. Nesse tempo, não era seu Teto ainda. Depois que ele morreu, ele já era casado, mas depois ele batizou o meu menino, que é Etinho. Ele foi lá pra cima ser compadre, mas daí ele chamou ele de seu Teto. Aí ele falou: “Ah, eu não fico não no lugar do papai”. “Não, você fica. Eu te ensino e tal”. Eu fiquei naquilo assim, eu vi. Eu cheguei lá em casa, aí eu falei com o pessoal, mamãe, Ladinha, todo mundo estava lá em casa. Eu falei: “Olha, eu vou entrar no Ticumbi no lugar do papai”. Aí ele falou: “Ah, não está vendo que você não vai entrar? Não está vendo que você não garante ficar no lugar do Assidinho?”. Aí eu fiquei assim, eu falei: “Ah, pois agora eu vou ficar, pra vocês ver que eu também garanto”. A primeira pessoa que soube que eu ia ficar no Ticumbi foi o seu Rogério, que eles lutavam pra eu não poder ficar. Aí eu fui e falei pro seu Rogério que eu ia ficar. Aí o senhor Rogério veio direto e falou pro meu compare Teto. Aí pronto, foi aquela alegria pra eles. Aí eu fiquei, eles me ensinavam uma coisa, aí eu fui aprendendo. Quando chegou, por fim, que o compare Teto viu que eu sabia que ele, mais de 60 anos na frente do Ticumbi, aí ele queria deixar o Ticumbi com uma pessoa. Aí ele lutou com eu pra ficar tomando conta do Ticumbi. Aí eu falei: “Ah, compare Teto, isso aí eu não vou fazer não. Rapaz, eu não vou ficar, porque eu não sei labotar com gente. Se eu for brincar no Ticumbi, o Ticumbi tem que ser feito do jeito que é o Ticumbi, mas muita gente vai querer fazer do jeito que eles querem fazer, e eu não vou fazer não”. E outra, porque eu não cantava. Eu não era Congo. Se eu fosse Congo, daria pra eu ficar. Eu era secretário, eu tinha que tirar o Ticumbi e passar pros Congo cantar. Eu não queria isso, porque eu sabia, eu pensei que eles não iam querer. E ficou. Aí ele bolou, bolou. Aí ele chegou um tempo aí, ele atestando o pessoal, ele falou assim: “Olha, quando nós vamos começar o ensaio, agora nós viemos de Itaúnas, nós vamos começar o ensaio agora, eu quero que cada um Congo tire uma marcha pra mim”. Aí eu tirei uma marcha. Aí eu perguntei a ele e tudo que eu tirava eu ia lá, ele era meu professor. Eu até corrigi minhas marchas, minhas coisas que eu tirava. Ele falou: “É essa mesmo”. Aí eu fui lá, ele falou: “Olha, compadre, eu já tirei o Ticumbi, mas eu vou botar essa volta do Ticumbi do que o senhor tirou”. “Tá, tudo bem”. Aí foi. Quando chegou no dia do ensaio, ele começou aí e perguntou, eu falei: “Cadê? Eu pedi que cada um tirasse uma marcha. Cadê? Quem tirou?”. Aí todo mundo ficou quieto. Ninguém falou nada. Aí ele falou: “Cadê a marcha que ninguém tirou?”. Aí eu falei: “Não, compadre, eu tirei”. Aí ele falou: “Não, mas o senhor não é Congo”. Aí eu também fiquei quieto, porque não era Congo mesmo, era secretário. Ele tinha pedido os Congo. Aí tá, ele cantou a brincadeira, botou essa marcha que eu tirei e aí depois ele falou pra mim: “Compadre, eu tô dizendo, o senhor que tem que ficar tomando conta do Ticumbi”. Eu falei: “Mas como eu vou ficar tomando conta do Ticumbi?”. Aí ele viu que eu não ficava mesmo e passou pro Berto, pro Berto tomar conta do Ticumbi. Ele sabia que não estava dando pra ele mais, pro Berto ficar. Aí o Berto também não quis, não queria, não queria, não queria. Aí quando chegou um dia lá na casa, na casa de Jonas, aí ele falou: “Quem é que vai ficar tomando conta do Ticumbi?”. Pediu o Berto de novo, aí Berto: “Não, eu não vou ficar, não”. Aí eu fui e falei pra ele assim, pro Berto assim, eu falei: “Berto, ele não quer que você fica? Você fica que eu te ajudo, pra você fazer”, porque eu sabia que eu sabia tirar o Ticumbi, né? Eu já tinha tirado o Ticumbi, só não tinha passado pro compadre Teto ainda, mas eu já tinha. Aí ele ficou assim, ficou assim, aí Berto foi, ficou tomando conta do Ticumbi. Quer dizer, o compadre Teto levou tanto tempo na frente do Ticumbi, ele morreu e ninguém, e quem está tomando conta do Ticumbi, não disse a ele “Eu vou tomar conta do Ticumbi”, porque Berto ficou tomando conta do Ticumbi, ele foi e passou o Ticumbi, porque eu pedi a Berto pra ficar, né? Aí ele foi e passou o Ticumbi pra Berto. Aí Berto pá, adoeceu também, aí ficou, eu tiro o Ticumbi e passo pra Pintinho. Entendeu? Quer dizer, ninguém disse a ele que ia ficar no lugar dele, nós ficamos, graças a Deus. Tô fazendo tudo pra poder não deixar cair, mas dizer a ele diretamente assim “Eu vou ficar”, ele não disse. Ele chegou um dia lá na casa de Douglas, ele chegou, depois que ele pediu a eu, eu falei que não queria, pediu a Berto pra ficar, aí ele foi e falou assim: “Tô vendo, o Ticumbi vai acabar, não vai ter jeito”. Ele sabia que ninguém queria, quem ele achava que poderia ficar tomando conta só dizia a ele que não, aí ele falou isso. Mas depois, graças a Deus, tá aí, ele partiu. Eu não fiquei? Eu lutando com o Pintinho, tiro o Ticumbi, passo pra ele, ele tem boa vontade de aprender também, aí eu já passo pra ele, passo pra Juvan, aí estão cantando direitinho.
P/1 – E o pai do senhor também era do Ticumbi?
R – Era. Meu pai era… ele era Congo, depois ele entrou pra o secretário, ele entrou pro secretário no lugar do pai dele. Não tem aquela embaixada que eu falo?
P/1 – Fala aí para a gente.
R – (entrevistado recita um poema) “Eu vou dizer pra quem não sabe os passados dessa espada. Essa espada, lindo povo, era do meu tataravô, morreu há 300 anos e ficou pro meu bisavô. Meu bisavô também se foi, passou pro meu avô, meu avô foi convocado por Ticumbi do senhor. Então, ficou pro meu pai, e meu pai muito lutou, venceu batalha sangrenta até quando Deus chamou. Então, passou pro mestre, o mestre pra mim passou, pra mim fazer igual ele, seja aqui, seja acolá, seja em que lugar que eu for. Eu vencer todas as batalhas por ordem do Criador. Tudo que essa espada fez, faz e vai fazer, São Benedito está perto. Eu lutei enquanto pude, indo agora pra adiante, quem vai lutar é meu neto”. Aí eu passei a espada pra Miguel. É Miguel mesmo. Tem mais coisa dessa embaixada aí, mas eu só falo esse pedaço aí pra ver que era do passado, do avô e do papai, veio pro pai de papai, do pai de papai veio pra ele, que essa espada vem rolando assim. Eu tenho duas espadas. Tem uma que era de papai mesmo, que ele deu pra mim. O seu Rogério que me passou, nesse tempo ele fez eu chorar, nesse dia, porque papai tinha falado com ele, quando ele falecesse, que era pra ele passar a espada pra mim, e eu não sabia disso. Aí lá na casa de Gonçalo, papai morto dentro do caixão, ele chegou e falou assim: “Roda pra lá, pro lado de lá”, e eu rodei, não sabia o que era. Aí ele pegou a espada e passou assim pra mim, por cima do caixão do papai, e falou: “Essa aqui é sua e ele falou que é pra você ficar”. Ela está lá em casa e essa outra que brinca é do Ticumbi mesmo. Eu já saí, aí passei pra Miguel, quando Miguel sair, vai passar pra o outro secretário, aquela espada é do Ticumbi. Agora eu tenho duas, uma é minha mesmo, porque foi doada de meu pai pra mim.
P/1 – E o Ticumbi, você sabe quantos anos assim tem o Ticumbi?
R – Ah, menina, não sei não. Eu só sei que tem muita quantidade de anos, que o Ticumbi foi… Você sabe da história do Ticumbi, como é que foi? Sabe?
P/2 – Conta pra a gente. A gente quer ouvir.
R – Então, é bom contar, porque eu também não sei se foi isso mesmo. A que eu sei, foi Silvestre Nagô, que foi um rei alforriado, um escravo alforriado, e ele tinha licença pra fazer festa pra os outros escravos. Aí ele fazia. Aí ele foi e fez o Ticumbi. Arrumou a viola, os dois reis, que os reis brigam por conta de negócio de… vamos dizer partido, os reis brigam. Aí, dois reis, dois secretários e o violeiro, né? Até tem essa história, é parecida mesmo, que quando o rei de Congo fala assim: “Você só pode fazer festa depois que eu te batizar”. Porque dizer, na língua do Ticumbi, é batizar, mas na língua das histórias mesmo é alforriar, porque ele fala assim que ele não pode levar essa língua, porque ele não é alforriado. Mas ele fala batizado, mas não é batizado, é alforriado. Aí você vê que ele ajoelha, aí o rei de Congo vai e batiza ele. Aí ele fala: “Se levanta, rei de Congo, que você já está, rei de bamba, que você já está batizado”. Mas no caso, se fosse naquela época, era alforriado. Agora, você tem um lugar ao meu lado. Aí ele é alforriado também. Aí ele começa a festa, ele é que vai fazer a festa, né, entendeu? Mas foi compadre Silvestre Nagô que inventou. Eu não sei nem das contas do tempo. Foi no tempo do cativeiro mesmo que fez essa… pra alegrar. Por isso eu falo, a gente brinca, não é pra São Bendito que a gente brinca. A gente é um devoto de São Bendito, mas a gente brinca pro pessoal que está assistindo, porque São Bendito, ele é... Assim a história que eu sei, tá? Ele é um mestre, porque ele também era cativo. Ele foi escravizado também. Ele foi escravizado e como ele virou santo, aí botou o Ticumbi pra ele ser o advogado do Ticumbi. Ele ser o mandante do Ticumbi, entendeu? E a gente brinca pra ele assim, né? Mas a gente brinca pra fazer alegria pra quem está assistindo, pra a alegria dos escravos. Aqui é o Ticumbi, porque o Ticumbi, quem vê pensa que a guerra começa quando bate espada, mas não é. O começo da guerra não é aquela. O começo da guerra é na hora da corrida de contra-guia, entendeu? Que os guias param. Ali aquele pessoal todo do Ticumbi ali só tem a favor do rei de Congo, só o secretário dele, o violeiro e o porto-sandate e o contra-guia dele. Só quatro pessoas que tem a favor dele. Os outros é tudo do secretário de rei de bamba, porque não é batizado ainda. Que na hora que começa a guerra, que eles falam assim (entrevistado canta): “Abre praça, rei da povo, que nós queremos passar. Abre praça, rei do povo, que nós queremos passar. Seu devoto quer saber, São Benedito, onde está. Seu devoto quer saber, São Benedito, onde está”. O guia pra desse lado, o contra-guia para. Só fica o contra-guia com os Congos brincando ali, brincando. Aí começa então, depois da guerra que entra os contra-guia de novo, depois que ele é batizado. Aí faz a guerra, ajoelha. Aí depois que ajoelha que ele manda: “Agora, você pode fazer a festa”. Aí faz a festa.
P/1 – E quando é que começa a festa de São Benedito pelo Ticumbi?
R – Olha, eu começo a festa no começo do ensaio, né? Então, quando o compadre Teto começou, ele começava em outubro. Quando ele começou acertando uma, acertando outra ali, era em outubro. Aí depois que ele tinha o time dele já acertado, ele passou pra novembro, depois do dia de Finado. O primeiro sábado, depois do dia de Finado, é que ele começava os ensaios, porque ele já estava com o time dele pronto. Ele dava três, quatro ensaios e todo mundo já estava preparado. Mas, agora, nós estamos começando bem antes, porque nem guia, nem ninguém está preparado, né? Mas não começa ali em... antes de outubro, um mês antes de outubro, nem lembro…
P/1 – Setembro.
R – Setembro. Acho que ano passado nós começamos em setembro, setembro, outubro. Aí dá um ensaio hoje, outra manhã, e termina em Itaúna e ninguém está certo.
P/1 – E como que são os ensaios?
R – Como assim?
P/1 – Onde que é? Como que é?
R – De primeiro, os ensaios eram nas casas, nas comunidades. Aí depois, em 1984, que o Chico Donato fez esse palanque ali, fez um palanque lá no Berto. Isso fez em Itaúna também, foi em 1984. Aí começam os ensaios lá no Berto pra treinar. Depois que os Congos estão treinados, aí sai pras comunidades. E quando não sai, fica toda a vida lá no Berto. Começa assim, começa e vai até o ensaio geral. No ensaio geral já está tudo... Tem que estar todo mundo preparado pra ninguém ensinar nada a ninguém.
P/1 – E os dias dos ensaios é quando?
R – É sempre dia de sábado. Só muda no dia o ensaio geral, porque o ensaio geral é dia 30 de dezembro. Pode dar sábado, pode dar domingo, pode dar que dia for. É dia 30, 30 de dezembro é dia do ensaio geral, que é pra 31 subir pra as Barreiras e dia 1° fazer a festa na barra.
P/2 – Mestre Quino, queria te perguntar, qual que é a lembrança mais antiga que você tem do Ticumbi? O que você lembra?
R – Eu tenho muita lembrança. Eu tenho... Aliás, já tenho um bocado. Essa parte que eu fazia, que agora Miguel faz, que Toninho faz, que o Totonho faz, que ia ser rei e secretário. Uma vez, quando o Ticumbi era com o compadre Teto, ficou sem essas quatro figuras, que era Binote, era o rei de Coxi, que era o rei de bamba, e Miúdo era o rei de Congo, era o rei de papai. Essas duas pessoas morreram, e papai, Miúdo e Coxi ficaram sem poder brincar, já bem debilitados da vista. Aí ficou, nós fomos pras Barreiras. Aí quando chegou lá, isso é uma das lembranças que eu nunca esqueço. Chegamos lá nas Barreiras, e aí Maria, que era a guardiã de São Bendito, lá nas Barreiras, falou: “Ah, seu Teto, eu gosto muito de ver as figuras”. Mas seu Teto não tinha nenhuma figura. Aí seu Teto não gostou daquilo, chamou o pessoal e foi embora, nem almoçamos naquele dia. E eu não brincava ainda, não. Aí veio embora, porque não tinha figura. E outra foi logo assim que eu entrei, que quando entrou eu e Berto, pra ser dois secretários. Papai, Coxi, que era secretário também, aí ficou como rei. Coxi ficou como rei de bamba, e papai ficou como rei de Congo. Aí nós entramos, eu, filho de papai, e Berto, filho de Coxi, entramos pra ser secretário deles dois, porque eles não tinham rei. Aí nós fomos nas Barreiras. Quando chegamos nas Barreiras, eu esqueci da minha camisa, eu esqueci da minha camisa. Aí, quando chegou lá, fiquei com o maior medo de Berto tirar a embaixada comigo. Eu vestia a camisa de Berto, Berto tinha duas. Por sorte, ele tinha levado duas camisas, e eu não levei foi nenhuma. Aí nós fomos, eu fico assim, e ele, algum dia, algum dia não, naquele dia mesmo, né, ele fazer a embaixada, porque eu não tinha tido camisa. Isso é uma lembrança.
P/1 – Nós estávamos falando de Ticumbi, né, da memória um pouco do Ticumbi. Então, o senhor conta pra gente como que é o ensaio geral, como que é o cortejo de parto.
R – O ensaio geral, como eu falei, dia 30 de dezembro, porque é sempre na beira do rio, porque aí todo mundo vai embarcar no barco aqui pra ir pra as Barreiras. Vem o pessoal de lá da barca, encontra aqui e vai pra as Barreiras pra apanhar o pessoal lá e apanhar o seu Benedito de lá das Barreiras pra vir em cortejo aí. Aí toda vida é na beira do rio por conta que se for lá pra dentro, manda ele lá na BR, pra lá, pra cá e tal. Então, papai sempre fazia esse ensaio. Todo ano era na casa dele. Aí depois que o Badino casou, fez a casa dele ali, fez aqueles palanques ali, Badino casinha e sai ali fazer aqueles palanques de palha, essas coisas. O ensaio geral era ali na casa dele. Aí quando ele ficou debilitado, que não deu mais pra ele, aí ele deixou essa missão pra eu, pra Beatriz e Badino. Aí cada ano é na casa de um. Esse ano foi lá na minha casa. Esse ano que vem agora é ali na casa de Badino. Aí outro ano já vai ser lá na casa de Beatriz. Depois, o Badino, de Beatriz vem assim. Enquanto nós tiver vida, fica rodando só aqui pela beira do rio. Aí tem que ir nas Barreiras. Por que vai nas Barreiras? Porque, quando o homem achou vontade de Cairu, que achou o São Benedito lá no Córrego Fundo, aí trouxe e deu pro seu Cassimiro, que era um antigo morador das Barreiras, patriarca antigo das Barreiras, aí deu pra ele. Aí o ensaio geral foi lá nas Barreiras. Aí o ensaio geral sendo nas Barreiras, aí de lá o são Benedito veio pra Barra. Aí na Barra fazia três festas de são Benedito. Era pra São Benedito das Piabas e São Benedito Mestre das Barreiras. E tinha um em Santana também. O pessoal fazia um ensaio ali em Santana e vinha o ensaio lá na boca do rio de Santana com outro são Benedito que vinha de Santana. Aí vinha o pessoal das Barreiras, quem chegasse primeiro ali na boca do rio de Santana esperava um outro pra chegar os dois juntos lá na Barra, pra de lá encontrar o padroeiro, e aí cada um dia era uma festa pra um são Benedito desse. E dia 2, 3 de janeiro São Benedito das Piabas volta pras Barreiras.
P/1 – Aqui, em Conceição da Barra, só tem um grupo de Ticumbi?
R – Não.
P/1 – Aqui, em Conceição da Barra, na sede?
R – Na sede é, mas tem os outros lá em Itaúna.
P/1 – Recentemente, tinha um ponto de memória sobre a história do Ticumbi em uma escola em Conceição da Barra. Houve um evento em que um diretor que veio de fora retirou toda a história, os artefatos, as coisas que as crianças tinham e acabou jogando aquilo no lixo. Como o senhor interpreta isso?
R – Eu interpreto atitude de ignorância dele. Eu, pra falar a verdade, não sei nem quem é o culpado. Se é ele ou se é os mandantes da Barra, porque eu acho que ele não veio de lá do Rio de Janeiro, chegou aí na Barra e fez isso sem que tivesse autorização do prefeito, desse pessoal que manda na Barra, né? Porque sabe que aqui na Barra é uma cidade folclórica, né? Essas brincadeira tudo. E lá tinha essa sala lá no Marovelo que era do finado Teto, tinha tudo. Não era só do Ticumbi, tinha de rei, tinha dessas coisas, tudo tinha lá. Aí ele chegou e limpou tudo e jogou fora e ficou por isso mesmo. Eu não sei dizer nem de quem foi. Eu sei que de um lado é ignorância, né? Agora, quem é o culpado, eu não sei quem é.
P/1 – O senhor citou muito o mestre Terto. Como que foi o início da sua relação com ele, de amizade construída? Fala um pouquinho pra gente.
R – Essa amizade é muito grande. Como eu falei que desde criança, quando ele começou a ser mestre do Ticumbi, eu não era nascido, eu não era nascido ainda. Ele começou a ser mestre do Ticumbi em 54. Eu nasci em 55. Eles foram em São Paulo, né? Papai foi pra lá, acho que foi em maio, acho que eles foram em São Paulo, não sei. Um dia desse, eu não sei. Foram quatro centenário em São Paulo. Aí foi em março, eu nasci, em 55. Então daí, depois que eu cresci mais um pouco, eu comecei a ver o Ticumbi, não era ele que era o mestre. O mestre era o seu Bernardo de Pedro, lá de Santana. Ele que era o mestre do Ticumbi. Acho que foi uns três anos por aí. Aí depois o Ticumbi deu uns dois anos, três anos parado. Aí compadre Teto voltou de novo. A desde toda a vida eu acompanhei. Toda a vida eu acompanhava, assim, ele. Eu tomava bênção dele. Seu Teto, seu Teto, era seu Teto que eu falava. Aí depois que ele batizou meu filho, que nós passamos a ser compadre Teto. Mas toda a vida eu acompanhei ele. Eu tenho uma amizade muito boa com ele. Ele era, depois que eu comecei a brincar em Ticumbi, tirar as coisas, embaixada, essas coisas aí, ele era o meu professor, que todas que eu tirava, eu levava pra ele, pra ele corrigir. Ele falava: “Não, tá boa”. Todas elas que eu tirava, ele corrigia pra mim. Eu não fazia assim e ia pra lá apresentar de gaiato, não. Ele já tinha, dizia que tava boa e pronto, ficava naquilo mesmo. Talvez ele tirava alguma embaixada, eu falava: “Compadre, conserta aí o que o senhor acha que precisa colocar aí”. Aí eu fazia. Era assim. Tinha uma relação muito boa com ele, que era assim que ele queria, porque queria que eu ficasse como mestre de Ticumbi e eu não quis, pra poder não mexer com gente.
P/3 – E essa memória que a Mariana falou da escola, o Ticumbi, o senhor que fez o verso do Ticumbi sobre a escola, desse ano.
R – Esse ano? Não.
P/1 – A última apresentação.
P/3 – Não, ele fala da escola, do prefeito, desse ato lá na escola.
R – Foi a Roda Grande, você fala?
P/3 – Isso.
R – Foi eu que fiz. Foi eu mais Pintinho, eu mais Pintinho que fizemos. Ele perguntou, aí nós fizemos. Qual foi mesmo? Eu esqueci. Tantas que eu...
P/1 – Professor, diretor, ensino errado.
R – Ah, não. Essa aí quem fez foi o Tiago. Tiago, sobrinho de Jonas. Eu tinha tirado uma, uma Roda Grande, e ele... Aí o Tiago tirou essa aí. Foi ele, foi o Tiago que tirou essa aí. O professor ensinou errado com permissão do prefeito. Que eu acredito que foi, sim, porque não é possível. O cara vem de lá do Rio e chega aí bagunçar o negócio de tantos anos que tem. Aí eu acredito que não foi ele sozinho. Eu acho, não sei.
P/2 – Queria voltar um pouco, assim, na sua juventude. O que você fazia pra se divertir?
R – Jogar bola e pescar. Jogar bola de vida, jogar peão, fazer perna de pau. É brincadeira mesmo.
P/2 – Então, seu Quino, voltando um pouco mais, assim, pra sua vida. Você é casado há quantos anos?
R – Há uns 40 anos.
P/2 – E como que você conheceu a sua esposa?
R – Forró.
P/2 – Você lembra do dia?
R – Lembro do dia e hora. Ali no Morro da Onça. Ela é lá de São Mateus, ela é litorânea, né? Sai da universidade ali, assim. Eles têm terra lá. Aí eu fui daqui pra lá, pra esse forró. Ela veio de lá pra cá. Ela, a irmã dela e o irmão, vieram a pé nessa estrada de chão aí pra aquele forró ali. Aí chegou lá, nos encontramos e estamos juntos até hoje, foi o tal do amor à primeira vista.
P/2 – E você lembra o dia do seu casamento?
R – Foi no dia do... Nós ficamos juntos, ficamos juntos. Acho que foi no dia do... Acho que foi em 80. Acho que foi... Eu acho que foi em 80. Foi em 1980, eu acho. Eu tenho no documento, mas eu acredito que foi isso, 1980. Foi lá, encostado, nós estávamos ali, lá no seu Euclídio, que era ali. Teve um ensaio geral lá. Aí nós... Aí foi no dia do casamento. No casamento, nós vinhamos direto pra lá, pro ensaio. E nesse tempo, ele ainda não brincava ainda. Também não tinha Ticumbi, não. Só acompanhava assim.
P/2 – E você tem filhos?
R – Temos. Nós temos cinco. Quatro homens e uma mulher.
P/2 – E como você se sentiu quando você virou pai?
R – Eu me senti tranquilo. Gostei. Graças a Deus, eu sou muito feliz com meus filhos. Eu acredito que eles são comigo também. São muito educados pra mim, graças a Deus. É uma benção que eu peço a Deus em ter eles, entendeu? Eles são muito legais comigo. Adoro eles.
P/2 – Você tem alguma lembrança de quando eles eram crianças? Alguma história?
52:30 – Ai, muita. Uma lembrança... Uma lembrança grande de Etinho. Primeiro, Deus, né, e segundo seu Durval, ali de Santana, e terceiro, um homem que não sei se vocês já viram falar, mas talvez Flávia já ouviu falar, em Zé Brinco. Já ouviu falar Zé Brinco? O farmacêutico de São Mateus? Não era do seu tempo, não. Você é bem mais nova. Esse menino adoeceu, adoeceu, adoeceu. Ele tinha dois anos, um ano e pouco. Isso aqui era mais grosso que ele, só tinha cabeça. Nesse tempo, eu estava trabalhando na Disa. A Elizabeth ia todo dia pra aqui, pra Barra, contra a água de bote, levava ele no colo. Só ela sozinha e Deus, remando, e com um guarda-chuva por dentro do vestido pra tampar ele com aquele saco de osso no colo. Levava na Barra, vinha e tava do mesmo jeito. Levava, vinha e estava do mesmo jeito. Aí quando chegou um dia, eu saltei lá em Santana, nós pegada a bicicleta. Eu falando seu Durval dele, né, aí seu Durval falou assim: “Rapaz, pra que você não leva esse menino lá no Zé Brinco? Zé Brinco é um farmacêutico muito entendido”. Aí eu falei: “Rapaz, sabe que eu vou mesmo?”, porque foi coisa de Deus, não é de outro, não, porque por mim ele já estava desesperançado. Eu perguntei pra minhas irmãs, elas falaram assim: “Ah, não, às vezes ele vive”, mas mentira, ele já estava desesperançado por todos nós, até pelos médicos, porque o médico dava remédio a ele, era mesmo que nada. Aí levei ele lá, de manhã cedinho, eu cheguei em São Mateus, a Zé Brinco estava atendendo uma outra pessoa, e eu toco aquele bolinho de osso no colo. Aí ele chegou e abriu o olho de Etinho assim, ó. Ele falou: “Vish, o que está matando esse menino é anemia”, ele falou, “O remédio está aqui”. Um tal de Rarical no remédio, Rarical com vitamina. Era um remédio no vidrinho assim, igual um leite, branquinho. “Você leva ele, dá duas colheres por dia”. Mas, gente, se vocês nunca viram falar de um milagre foi aquilo ali. Nós começamos a dar esse remédio a Etinho. A Etinho foi vigorando, foi vigorando. O que Etinho comia já ficava no estômago, que nada ficava, nada ficava, que hoje está Etinho certinho, que vocês vê aí, forte, tá aquele rapaz. Só Deus pra ter salvado ele. E esse farmacêutico lá em São Mateus e esse Zé Brinco, porque me falou pra levar ele lá. Foi verdade. Então, mais de mais graças a Deus, eles são muito educados comigo.
P/2 – Nessa época, você falou que você trabalhava onde?
R – Na Disa. Isso era 82, 82, 83, por aí. Logo que começou a Disa. Você sabe a Disa que vem? É perto de Flávia, ali. Nós começamos aquilo ali, estava tudo assim, estava no chão, não tinha nada. Nós chegamos lá pra descarregar, descarregar aquela serragem, aquele negócio que vinha, colocar no lugar. Nós fomos e saímos de lá com aquilo moendo, fazia 120 litros de álcool por dia. O açúcar eu já tinha saído, eu enjoei de lá. Um serviço tão bom pra mim que eu não fazia nada. Primeiro, eu comecei assim, descarregando caminhão. Depois, eu fui trabalhar no meu almoxarifado, fiquei um bocado de tempo no almoxarifado. Aí o senhor Renato falava que, quando começássemos, eu ia tomar conta na caldeira. Aí fiquei lá, mas na caldeira lá, é automático. Você só trabalha quando começa a funcionar, depois que começa a funcionar, você joga no automático e pronto. Fica só olhando o automático trabalhar. Você não pode sair daí de perto, porque pode dar um problema e a caldeira não pode ficar sem água. E era assim. Eu enjoei daquilo, enjoei de ir. Primeiro, vinha a carne buscar nós aqui, depois, parou de vir, aí eu saí também da Disa, depois a Disa acabou também. Mas foi isso mesmo que você me perguntou?
P/2 – Foi.
P/3 – Depois que o senhor saiu da Disa, o senhor foi trabalhar com o quê?
R – Com pescaria. Eu saí de lá, antes de eu ir pra lá, eu já era pescador. Depois que eu saí de lá, eu só voltei na Disa uma vez. Isso tem 30 anos já, sabia? 30 anos. Só voltei na Disa uma vez, que eu fui levar a Daiane lá pra levar um currículo. Nem lá dentro eu não entrei. Eu fiquei na porta ali, a Daiane levou o currículo ali. Não que eu fale mal da Disa, a Disa me ajudou muito. Eu enjoei de ficar lá e saí, mas não tem nada pra falar contra ela não. Ela me ajudou bastante, Graças a Deus. Aí fui ser pescador, já era pescador mesmo. Nunca mais dei um pé pra ninguém. Só pescaria mesmo.
P/1 – E os seus filhos também têm o mesmo ofício do senhor? Pesca, festeja?
R – Ele pesca, pesca, festeja, trabalha fora. Etinho já trabalhou lá pra Volta Redonda, pra esses cantos lá, Etinho já trabalhou. Etinho já foi rei do ticubim. Ronaldo também já foi secretário, né, e o Gilvan brinca, o Leandro brinca, brincou e agora brinca de novo, o Miguel brinca, fez tudo só. E Etinho pegou o lugar de mamãe, que mamãe era festeira do Ticumbi. Aí Etinho ficou. Etinho que é o festeiro agora. Todo ano Etinho que dá almoço pessoal do Ticumbi, ele ficou nesse lugar, o lugar da avó dele.
P/2 – Você pode falar um pouco mais assim do que é cada função do Ticumbi?
R – De quem?
P/2 – Tem os Congos, qual que é a função do Congo, dos Reis?
R – Tem o porta _____, que é o primeiro, que vai na frente, todo lugar que vai o porta _____ vai na frente. Aí atrás dele vai o violeiro, atrás do violeiro é o guia e o ajudante dele, que o guia é um de um lado e o outro é o ajudante dele. E atrás do guia vai o contra-guia e o ajudante do contra-guia, que dá o nome também de contra-guia. Mas o contra-guia mesmo é, vamos supor, Pintinho é o guia e Romaro é o ajudante dele, é guia também. Mas Romaro não é o guia no nome na brincadeira, porque Pintinho que tira, Pintinho canta e Romaro acompanha ele. Gilvan é contra-guia, né, e Adilson de tio Floro é ajudante de Gilvan, mas Gilvan é que canta, Adilson não canta primeiro que é Gilvan. Gilvan canta e Adilson acompanha ele. Aí vem o primeiro Congo, tem o primeiro Congo e tem o ajudante do primeiro Congo, que é também um primeiro Congo, né? Vocês estão entendendo o que eu tô falando, né? Mas tem uma pessoa que canta primeiro, chegou na boca da viola pra cantar, tem aquela pessoa que canta primeiro. Esse aí dá o nome do primeiro Congo, o outro é primeiro Congo, mas já espera o outro cantar. Ele só canta quando talvez dá aquele branco que o primeiro Congo esquece, ele já sabe o que vai cantar, ele canta e o outro já pega, pronto. Quem está ali por fora nem viu o que é o mesmo pra cantar que cantou. Aí tem o segundo Congo, tem o terceiro e tem o derradeiro Congo, que é aquelas pessoas que ficam lá atrás, aqueles Congos que ficam lá atrás. Mas todos eles têm a mesma importância, todos eles têm que cantar direito e bonitinho. Os derradeiros Congos têm que cantar bem igual aos primeiros, que é aquele pessoal que fica lá atrás que vai ouvir quem está lá pra trás, os Congos que estão lá atrás. Quem está lá na frente ouve quem está lá na frente, quem tá lá atrás ouve quem está lá atrás e é assim. E tem as figuras, as figuras é o rei, os dois reis e os dois secretários. Tem o rei de Congo, que no caso, no Ticumbi aí é Jonas, o rei de Congo. Eu era o secretário dele e agora eu saí. Está Miguel no meu lugar e Toninho, e Totonho é o secretário de Toninho. Na hora que começa a brincadeira aqui, o rei de... Não vai ser ele, não sei, tô falando dele porque é o atual agora, Jonas. Aí ele manda o secretário dele lá dar um recado, o outro secretário, aí o secretário já recebe o recado, aí passa pro o rei dele e o rei dele faz o que tem que falar. E é assim, é dois reis e dois secretários. Tem o rei secretário de rei de bamba e o rei de Congo, que é como eu falei no começo ali. O rei de bamba é aquele pessoal tudo que está naquela brincadeira ali é tudo a favor dele. O rei de Congo, que é o batizado, que a festa só pode ser feita depois que passa por ele, mas só tem a favor dele só o guia, o contra-guia, o violeiro e o porta estandarte e o secretário dele.
P/1 – E as vestes?
R – Tudo branco e tem o saiote, vermelho, com a sainha de renda por cima e as fitas. É a fita azul e vermelha. Se eu tô com a fita azul virada pra cá, você, todos eles, a fita é tudo virada pra um lado só. Não tem negócio de eu estar com a fita azul desse lado, aí você já tá com a vermelha. É todo mundo de um lado só. Se você virou de um lado, fita azul de um lado, fita vermelha de outro. Isso aí é pra todo mundo.
P/1 – Na cabeça?
R – Um chapéu enfeitado.
P/1 – Quem é que cuida das roupas, das indumentárias de vocês?
R – As indumentárias, quem cuida é… a nossa Elisabeth que cuida. Agora, as dos outros, eu acho que é cada um, não sei como é que eles cuidam não, mas agora a nossa Elisabeth que cuida todinha [pássaros cantam]. Aquela cesta ali, aquele monte de gente, já teve sete pessoas do nosso grupo, tudo pra a Elisabeth cuidar, tudo coisa branca. Roupa, sapato, tudo branco. Sapato, tudo um tipo só, tudo um tipo só. Não tem negócio de um vestido de sapato preto, outro de sapato branco. É tudo a mesma cor.
P/2 – Mestre Quino, você comentou também que participa do Jongo, né? Como que você entrou no Jongo?
R – Eu entrei no Jongo como... Eu sou o vice, eu sou o vice de Douglas. Douglas é o mestre do guia do Jongo e eu sou o vice dele, mas eu bato reco-reco, eu tiro as músicas. Muitas músicas do Jongo ali, eu que tiro, do nosso Jongo, eu que tiro, eu tiro e passo pra eles, eles cantam. E quando vai ter um encontro assim, eles logo me ligam pra mim pra me tirar a música. Aí eu tiro, mando pra eles e pegam.
P/2 – Tem alguma música que você tirou que você gosta muito e queira cantar pra a gente?
R – Ah, tem um bocado. Assim como tem um encontro esses dias, tempos atrás, teve um encontro lá, veio um bocado de gente, aí eu tiro assim (entrevistado canta): “De coração aberto estamos todos reunidos, esperando os devoto da Senhora Aparecida. De coração aberto estamos todos reunidos, esperando os devotos da Senhora Aparecida”. Tem outro que canta assim (entrevistado canta): “A fumaça está subindo, meus pecados estão levando. Quanto mais tu me despreza, mais Deus está me abençoando. A fumaça está subindo, meus pecados estão levando. Quanto mais tu me despreza, mais Deus está me abençoando”. Assim, se você vai fazer uma apresentação lá nas Barreiras, aí você vai ter que tirar uma música de chegada lá pras Barreiras. Você vai lá na casa de Flávia e tirar uma música de chegada lá pra a casa de Flávia. É isso aí.
P/2 – E o que você sente quando você está tocando o Jongo?
R – Ah, só alegria. Eu gosto de ver as mulheres sacudir o esqueleto, jogar a saia pra lá e pra cá. E toco o rei também.
P/2 – Como que é o rei?
R – Como que é como?
P/2 – Pode falar um pouco sobre?
R – É, então, aí você falou assim, como que é, eu não sei.
P/1 – Como que é o grupo? O grupo, a organização?
R – A organização é quase tipo a organização do Ticumbi mesmo, né? Mas só é que o rei é tocador de sanfona e é bem diferente o rei, porque o Ticumbi são 12 pessoas, todas as seis grupos que tem, vão os 12 cantar os versos deles lá na frente da viola. E o rei não, o rei é como o guia canta e quem estiver pra trás, se quiser responder, responde. Se não quiser, só fica fazendo zoada e pronto, é aquilo mesmo ali. E a sanfona tem que tocar. A diferença que tem é só essa. O rei é mais fácil só por isso. O Ticumbi é mais difícil, porque todo mundo que entra no Ticumbi, ele tem que ter dois versos pra cantar. É o verso da subida de Congo e o verso do Ticumbi. Tem que ter esses dois. Cada uma dupla daquela tem dois versos pra cantar. Todas as apresentações a gente tem que cantar.
P/2 – E como que você entrou no rei?
R – Falta de sanfoneiro. Aí eles me chamaram pra ir tocar lá. “Vem que não tem, não tem”. E eu fui e toquei. Eu já toquei pra Nilo, já toquei pra Antônio Conceição, já toquei pra Lucas, lá em Itaúnas. De vez em quando eu toco rei, mas eu não sou de rei. Agora eu não sou de ninguém, não sou nem de rei, nem Ticumbi, nem de nada. Eu só entro assim pra destampar buraco.
P/1 – Os nomes iguais os nomes dos grupos, sempre é o nome de um santo?
R – É, sempre é nome de santo. Como o rei, que eu acho que é só o santo do rei mesmo, que eu ouvi falar mesmo. Agora o Jongo que muda a moda. Tem Jongo de Maria Amélia, que é a Nossa Senhora Santana. Tem de Tatu, que é São Barto. Tem aqui de casa, que é a Nossa Senhora Aparecida. Lá nas Barreiras, é São Benedito das Piabas. É assim, vai mudando os nomes. O rei de Santa Clara, como é que é? Santa Clara, né?
P/1 – Santa Clara e lá São Sebastião.
R – São Sebastião. Mas o quê? O Jongo?
P/1 – O Jongo.
R – Ah, o Jongo. Ah, tá. São Sebastião é o nome dele.
P/1 – São Benedito.
R – Ah, São Benedito, né? Santa Isabel é quem lá?
P/1 – Era o de São Cabloquinho.
R – Ah, tá.
P/1 – E agora eles estão lá na comunidade perto do assentamento, naquela igrejinha que tem lá.
R – Ah, tá.
P/1 – As meninas fazem um grupo que junta o pessoal de Itaúnas pra dar volume lá também.
R – Ah, tá. Tá bom.
P/3 – O senhor sabe por que é o nome do santo?
R – Costuma ser uma devoção, né? A pessoa faz devoção com aquele santo, aí vai e tira o... Faz o Jongo, aí coloca o nome, porque sempre tem que ter o nome do santo, né? Aí coloca o nome. O que eu sei nessa parte é isso aí.
P/2 – Mestre Quino, o que você acha que o Ticumbi te ensinou?
R – O Ticumbi me ensinou um bocado de coisa, principalmente, tirar música, né, através do Ticumbi, porque o Ticumbi é umas músicas e não é só uma, não. Pro Ticumbi você tem que tirar doze músicas e todas com atenção no que você está falando ou uma coisa que você sabe que vai acontecer, ou uma coisa que já aconteceu. Você tem que introduzir aquilo ali pra colocar no Ticumbi, entendeu? E outra, tem que colocar o som, porque cada um ano muda o som. Como assim? Em 2018, o Ticumbi que o compadre Teto tirou, em 2018, era assim (entrevistado canta): “Meu bom Jesus de Nazaré, Deus eterno e verdadeiro. Meu bom Jesus de Nazaré, Deus eterno e verdadeiro. Jesus é o rei da glória, Salvador do mundo inteiro. Jesus mais São Benedito é o nosso padroeiro. Jesus mais São Benedito é o nosso padroeiro”. Isso é a “Marcha de entrada”, o nome dessa música, que cada uma dentro dessas doze músicas, cada uma tem um nome. Essa aí é a “Marcha de entrada”. E a última que compadre Teto tirou, que é a “Marcha de entrada” era assim (entrevistado canta): “Mas por que, meu santo, as festas não estão agora como era de primeiro? Mas por que, meu santo, as festas não estão agora como era de primeiro? Vamos louvar São Benedito e Jesus Cristo, que é o nosso Deus verdadeiro. Vamos louvar São Benedito e Jesus Cristo, que é o nosso Deus verdadeiro”. Isso aí foi a última marcha que o compadre Teto tirou. Isso foi em 2019. E tem outra, todas essas marchas que eu cantei, que é a “Marcha de entrada”, o som dela é de ladainha. Aquela ladainha que por aqui ninguém reza mais. Só Tonha lá em São Mateus E Jurema ali canta um pouquinho, mas não é bem nesse som, que é a ladainha da roça, como se fala. O som dessa que eu cantei aí é o som de um bendito, que toda ladainha tem bendito. Então, tem o bendito de São Antônio, bendito de... Desculpa que eu tomei [entrevistado pigarreia]. Ai. Bendito de Nossa Senhora de Aparecida, de São Berto, tem que tirar, tem que procurar um som desse aí pra colocar nisso aí. Então, não é fácil pra fazer. Essa lembrança é a coisa boa que me ajudou no Ticumbi e ser mais conhecido com embaixada, com essas coisas aí.
P/2 – E hoje qual que é o seu cotidiano?
R – Cotidiano de...
P/2 – Seu dia a dia, o que você faz?
R – Ah, eu dou uma pescada, fico descansando, consertando rede. E eu ia pra feira, agora não vou mais, que a Etinho vende o peixe aí pelas essas roças, esses cantos aí, o peixe nós pega. Ele vende, mas de primeira eu ia, toda sexta-feira eu ia pra feira. Aí ele começou a vender o peixe, eu falei: “Melhor ainda”. Cada vez Deus está me ajudando mais, que eu não preciso sair pra feira, essas coisas, e ele mesmo põe aí e vende. Estou tranquilo. Fico lá com minha velhinha lá em casa.
P/1 – O senhor tem algum sonho ainda pra realizar?
R – Eu acho que... eu acho que não.
P/1 – Já fez tudo?
R – Eu não fiz tudo, porque a gente não faz tudo, né, entendeu? Eu penso assim, mas assim nos... Assim de sonho mesmo, eu não penso nada não. Só fico tranquilo mesmo, graças a Deus, entendeu? Eu tenho sonho, mas agora só pra meus filhos mesmo. Penso neles, que eu já até falei pra eles, agora tô falando pra vocês, eu já disse: “Eu não vou... Tudo que vocês quiserem fazer, que eu puder ajudar, vocês podem me pedir que eu ajudo. Eu só não vou partir na frente, entendeu? Se quiser alguma coisa, se quiser comprar alguma coisa, se ver que eu posso fazer, me chama que eu ajudo. Agora, eu partir na frente pra comprar, pra deixar aí pra poder depois, quando eu morrer, vocês estar brigando, não”. Eu falo pra cada um ser ter o seu, é isso que eu falo pra eles. Eles concordam, entendeu?
P/2 – E qual o seu sonho para o Ticumbi?
R – É, menina, ficar até viver os meninos tudo brincando e entenderem direitinho, pra quando dizer assim, é o Ticumbi, é o Ticumbi ali. Todo mundo parar e ver e saber que tem atenção. Eles imaginavam tanto que a moda de compadre Teto mesmo falou, né, o Ticumbi vai acabar, porque quem ele queria que ficasse na frente não ficou. E agora quem está vendo isso é eu, entendeu? Eu imagino acontecer isso, porque esse pessoal todo aí que brinca no Ticumbi, eles não sabem tirar o Ticumbi e tem que tirar o Ticumbi. Você canta um verso agora, vão chegar daqui a pouco e já esqueceram, já não sabem mais. Você tem que escrever ele pra você, e reparando o que faz, o que acontece pra poder tirar o Ticumbi, que não é uma coisa assim, você pegou e tirou uma coisa qualquer. Ticumbi é uma coisa tirada qualquer. A moda eu vejo o rei aí, esse pessoal cantando, todo mundo cantando a mesma coisa, o mesmo verso, e não é assim. Cada ano você tem que tirar uma coisa diferente e que seja compatível com o que está cantando. Então, é um montueiro de coisinha que tem que parar e pensar. É só isso aí, mas o resto eu acredito que vai tudo bem.
P/2 – O que você achou de contar a sua história?
R – Eu achei legal. Eu fiz um livro mais Jeferson, entendeu? Porque eu chamei Jeferson pra fazer. “Jeferson, você que faz entrevista, faz essas coisas por aí, entendeu? Eu queria escrever um livro que é pra mim deixar aí, pra neto meu, neto seu, filho, essas coisas aí ver, pra não ficar perdido o que eu sei, igual os que papai ficou, porque papai sabia de muita coisa”. Você vê, papai sabia de muita coisa, compadre Teto sabia de muita coisa que ficou perdido. Não tem as coisas que hoje eu vejo vocês gravando, fazendo entrevista, fazendo essas coisas, naquele tempo não tinha isso. Fazia alguma coisa, mas era... Papai, coitado, não fazia. Não tinha essas pessoas, não tinha essa tecnologia que tem hoje pra fazer. Então, eu agradeço muito, sempre eu faço, gente me entrevista assim, eu falo isso aí. Aí eu fui e chamei Jeferson. Aí Jeferson falou assim: “Rapaz, fazer livro dá muita luta”. Você sabe que Deus é Deus. Um dia eu tava no rio pescando, nem pensava mais nisso, com um pouco o celular tocou. Era Jeferson me falando que tinha a Débora lá de São Paulo, que era a colega dele, e ela era escritora de livro, falando sobre o Ticumbi, essas coisas aqui. Aí ele lembrou de eu. Aí foi veio, em 2017, nós começamos a fazer esse livro. Eles ficaram uns 15 dias lá em casa, nós lutando, eu vinha aqui na beira do rio, entrevistava um, entrevistava outro, até que saiu isso aí, a brecha. E ainda não é o que eu queria, contar a minha história, não ficou contada igual eu. Agora sempre nessas outras entrevistas que eu tenho, eu conto alguma coisa, mas ainda não... Vai ficar bastante coisa gravada aí pros outros verem, mas eu vou ficar mais contente que não ficou igual. Eu sei que as coisas que o papai sabia não ficou gravado, entendeu? É isso aí. Então, eu tô adorando.
P/2 – Tem mais alguma coisa que você queira deixar registrada?
R – Aí, olha aqui, pergunta aí pra ver se eu alembro.
P/2 – O que você acha que é mais importante, assim, pra que seus filhos, seus netos saibam sobre você?
R – Esses dias mesmo eu estava falando com o Etinho, que eu falei com ele: “É, rapaz, é bom que vocês aprendam tocar sanfona, aprendam alguma coisa, bater um pandeiro, cantar, tirar alguma coisa, que cante, que saiba, pra poder ficar gravada aí. Se quiser de alguma coisa, me pergunta, que se eu puder fazer, aí eu faço”. Mas ainda não começaram, não tiveram iniciativa, não sei quando vai ter, eu queria que eles aprendessem. Eu digo pra eles: “Vocês não deixem perder igual…”. Inclusive, quando nós fomos na Festa da Palavra, aqui em Itaúnas, ano passado, Cabloquinho indicou um homem lá, que eu não sei nem de onde é que é, ele falou: “Você vai lá, você vai encontrar com o Quino lá, que ele sabe de muita coisa”. Esse homem me procurou lá, ele estava conversando, não estava me entrevistando não, ele me achou lá, estava eu e estava o Etinho, aí nós conversemos tanto, aí ele falou pra o Etinho, falou: “Rapaz, pelo amor de Deus, você aprende pelo menos 30% do que o seu pai sabe, você aprende com ele, que eu também perdi de aprender com meu pai. Você tem essa chance aí”. É a mesma coisa que eu estava dizendo, é a mesma coisa que eu falo, que eu perdi de aprender com meu pai, entendeu? Não sei o que eu pensava, não acreditava que eu aprendia, mas graças a Deus, eu sempre tenho aquela visão na frente, assim, de ver, eu faço Ticumbi agora, ninguém me ensinou a fazer, só Deus mesmo me ensinou. Eu faço, porque eu vi o que o compadre Teto fazia, daquilo que ele fazia, eu fui fazendo sozinho que faço, aí agora eu faço todos, entendeu? E não tem dúvida pra fazer. É isso aí. Aprendendo de memória mesmo, mas memória não é todo mundo que tem pra fazer essas coisas não.
P/2 – Você falou que teve muita coisa que você não aprendeu com seu pai, mas teve algum ensinamento que ele deixou que você queria compartilhar?
P/1 – O que ele fazia que você gostaria de ter aprendido?
R – O que ele fazia, eu aprendi depois, é o que eu falo. Eu aprendi muita coisa, como pescar, algum tipo de jeito de pescar que ele tinha, na hora que eu tava com ele, eu não ligava, mas depois eu vi que o que ele estava fazendo estava certo, era aquilo mesmo que tinha que fazer. Aí eu fui aprendendo com o tempo, e eu sozinho mesmo, mas tem mais coisas que ele falava que eu não ligava pra acreditar. Sei lá o que eu pensava, mas é isso aí, que é a moda que eu tô falando, do Ticumbi. Quando o compadre, olha que chance perdida, o compadre Teto falou pra mim: “O senhor venha aqui em casa”, ele já estava bem nas últimas já, mas ninguém sabia que ele estava assim, ele falou: “O senhor venha aqui em casa que eu vou te ensinar um bocado de coisas sobre o Ticumbi”. Eu não fui, menina, eu não fui, já pensou do jeito que ele queria que eu tomasse conta de Ticumbi, quantas coisas boas ele ia me ensinar, ele não me ensinou, eu perdi. Isso é uma das coisas grandes que eu perdi, foi isso aí. Passou dois meses por aí, compadre Jonas me liga que ele partiu. É mole o negócio desse? Não pode ser.
P/2 – Tem mais alguma coisa que você queira falar?
R – Não, eu não lembro nunca. tem tanta coisa que eu nem tô lembrando. Faz a pergunta você, pra ver se eu lembro.
P/1 – Não, pra nós está tranquilo. Eu quero perguntar, lembrei da pergunta.
R – Se eu souber, eu respondo.
P/1 – A gente estava falando daquele espaço ali. O senhor tem a lembrança daquele espaço, quando foi construído?
R – Isso foi em 84, foi no tempo que Chico Donato era prefeito. Você falar ali de São Benito, da Casa Branca? Isso foi em 84.
P/1 – E ali era o quê?
R – Ali era o galpão, que a gente fazia o ensaio geral, o ensaio geral ali, já havia algum encontro que o Ticumbi tinha vinha pra ali, ali o ensaio geral. O ______ tinha a barraquinha dele ali, a casinha dele ali, aí então fazia aquele palanque de palha pra fazer os ensaios gerais. Aí com o tempo que Chico Donato veio e fez um palanque ali, fez pra ali, fez um em Itaúna, fez no Tião de Velho ali, entendeu? Foi em 84 que foi feito aquilo ali.
P/1 – O senhor tem alguma lembrança boa dali?
R – Ah, eu me lembro quando fazia muita festa ali, fazia arruaça ali. Tempo de seu Rogério, era novo, o Maciel de Aguiar, todo mundo vinha, todo mundo pra ali, seu Hermógenes, todo mundo vinha pra ali, pra aquilo ali, fazia zoada ali dentro.
P/1 – Você não teve contato com o senhor Hermógenes?
R – Sim, sim.
P/1 – Fala aí um pouquinho.
R – Não, o contato que eu tinha com ele, ele sempre que eu falava ali: “Mestre”, “Ah, rapaz, não é eu que sou seu mestre, não”. Ele foi um dos primeiros, o seu Hermógenes, você fala? Não, o seu Hermógenes, eu não tive muito contato com ele. Eu entendi que você falou seu Rogério.
P/1 – Pode ser.
R – O seu Rogério que eu tive contato com ele bastante. Ele falou: “Você que é meu mestre”, porque ele foi a primeira pessoa que eu disse “Vou ficar no Ticumbi”, foi seu Rogério, entendeu? Ele saiu, foi lá na feira, que ele falou pra compadre Teto e eu peguei ele com muita saúde. Eu não tive muito, o seu Hermógenes, eu não tive muito contato com ele não. Eu tenho uma embaixada de seu Hermógenes, que o compadre Teto escreveu pra mim, né, pra mim acabar de concluir ela. Aí eu fiz.
P/1 – Você lembra dela?
R – Um pouco. Vai falar?
P/1 – Sim.
R – Eu começo ela assim (entrevistado recita embaixada): “Nós somos quatro alunos de nível superior, que temos nosso diploma dado por um professor. Alguém está perguntando quem foi esse professor. De fato, ele já se foi. Mas seu nome está fluindo. O professor de quem falo, era meu querido pai, que se chamava Celino. E tem mais uma, que talvez você não sabia. É do grande Hermógenes Lima da Fonseca, que o Ticumbi aplaudia. No dia 15 de 5 de 1916, ele nasceu nas Peroba. Em Vitória, se formou. E lá tirou seu diploma de vassalo e professor. Ele conhecia Jongo, alado, rei de boi e pastorinha. Davam as voltas na capoeira, e falar em Ticumbi era o prazer que ele tinha. No dia 12 de 12 de 1996, ele escutou uma voz e viu que o caso era sério. Era Deus que lhe chamava. Ele passou seu comando por seu amigo Rogério. Rogério era um grande homem, honesto e lutador. Já foi ministro da Fazenda, mas sempre está junto com nós e de folclore ele conhece, porque Jesus lhe ensinou”. No dia 15 de 5 de 1916, Hermógenes nasceu e no dia 12 de 12 de 1996, ele morreu. Ele ia fazer 100 anos. Ele morreu. Aí o compadre Teto foi escrever umas coisas assim e me deu pra mim fazer. O que eu falo (entrevistado recita embaixada): “Nós somos quatro alunos de nível superior, que temos nosso diploma dado por um professor”. O que eu falo isso é porque eu tô falando de eu, Jonas, Totonho e Toninho, porque papai que foi o nosso professor. Eu era secretário de papai. Depois, Jonas entrou no lugar de papai. Eu fui secretário de Jonas e Toninho, mas Totonho também, aprenderam com ele, com papai. Então, é o que eu falo (entrevistado recita embaixada): “Nós somos quatro alunos de nível superior, que temos nosso diploma dado por um professor”. Com certeza, eu falo assim: “De um professor. Quem é esse professor?”. Aí eu aqui, eu mesmo na minha memória respondo (entrevistado recita embaixada): “De fato, ele já se foi, mas seu nome está fluindo. O professor de quem falo era meu querido pai, que se chamava Celino”. Isso aí.
P/2 – E esse espaço aqui que a gente está fazendo a entrevista, o que é?
R – Isso aqui é o espaço do bar Beira Rio. Aqui, esse espaço aqui, isso era tipo um curral. Esse pessoal lá de dentro, a gente fala lá de dentro, pessoal de Água Boa, esses canto tudo que vinham pra cá, que vinham aqui pro mangue, pra pegar caranguejo, pescar siri, pra pescar. Eles vinham tudo de lá, e os animais deles ficavam amarrados aí. Aí isso aí foi um sapé de pouco tempo pra cá, e Etinho resolveu fazer o bar ali e fez ali, mas isso aqui não era limpo assim não. Aí limpou assim pra poder receber o pessoal.
P/2 – E a paisagem mudou muito?
R – Não, não mudou muito. Só clareou mais aqui, porque limpou aqui, né, que isso aqui era tudo uma matinha. Aí limpou, mas deixou os matos em pé, mas sempre a paisagem foi assim.
P/2 – Vocês têm mais alguma coisa?
R – Não, só se eu responder. Se eu não respondi bem...
P/2 – Eu vou agradecer muito seu tempo, sua presença.
P/1 – E sua sabedoria.
P/2 – Sua sabedoria, verdade. Pode cortar. Obrigada.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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