A INCONTESTÁVEL E LÓGICA SABEDORIA DOS 10 ANOS
O compromisso diário matinal de G. era buscar o leite que a sua família consumia, a umas 4 quadras da sua casa.
Em menos de 20 minutos conseguia ir e voltar.
Matinal também era a obrigação de ir para a escola, no terceiro ano do Grupo Escolar da cidade.
Mas além de os locais de um e outro serem em direções opostas da sua casa havia também uma grande distância entre uma e outra em relação à boa vontade quanto a cumprir essas obrigações.
Tinha dias que G. preferia cem vezes buscar o leite do que ir à escola.
Detestava ter que ficar a manhã inteira numa sala de aula.
Mas G. aceitava que um dos sacrifícios que o mundo lhe impunha era frequentar a escola e se resignava. Quase sempre.
Porém assim como alguém levanta indisposto, G. também acordava achando que aquele não era um dia de aceitar esse sacrifício.
O segredo para fugir dele residia no tempo que gastaria para buscar o leite.
Os horários entre os dois compromissos eram muito próximos, portanto, uma demora considerável no término do primeiro conseguiria impedir o outro, pensava G.
O primeiro era buscar o leite, e o outro era a escola.
Um atraso na primeira missão o ajudaria a não ter que enfrentar a seguinte.
Só que esses atrasos, nunca acidentais e sempre planejados e provocados, despertariam muita atenção se fossem repetidos demais.
Embora sem uma regularidade, na média uma ou duas vezes por mês o esquema era acionado.
A frequência não era programada, dependia da disposição diária de G. em querer ir à escola ou não.
Qualquer suspeita de que a sabotagem intencional na busca de um simples litro de leite a 400 metros de casa estaria sendo a desculpa para não ir à aula poderia comprometer todo esse esquema daí em diante, que já tinha dado certo antes muitas vezes.
Usar esse artifício era a única forma de conseguir fugir da aula, já que apenas se recusar a ir não era uma opção.
O possível plano...
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A INCONTESTÁVEL E LÓGICA SABEDORIA DOS 10 ANOS
O compromisso diário matinal de G. era buscar o leite que a sua família consumia, a umas 4 quadras da sua casa.
Em menos de 20 minutos conseguia ir e voltar.
Matinal também era a obrigação de ir para a escola, no terceiro ano do Grupo Escolar da cidade.
Mas além de os locais de um e outro serem em direções opostas da sua casa havia também uma grande distância entre uma e outra em relação à boa vontade quanto a cumprir essas obrigações.
Tinha dias que G. preferia cem vezes buscar o leite do que ir à escola.
Detestava ter que ficar a manhã inteira numa sala de aula.
Mas G. aceitava que um dos sacrifícios que o mundo lhe impunha era frequentar a escola e se resignava. Quase sempre.
Porém assim como alguém levanta indisposto, G. também acordava achando que aquele não era um dia de aceitar esse sacrifício.
O segredo para fugir dele residia no tempo que gastaria para buscar o leite.
Os horários entre os dois compromissos eram muito próximos, portanto, uma demora considerável no término do primeiro conseguiria impedir o outro, pensava G.
O primeiro era buscar o leite, e o outro era a escola.
Um atraso na primeira missão o ajudaria a não ter que enfrentar a seguinte.
Só que esses atrasos, nunca acidentais e sempre planejados e provocados, despertariam muita atenção se fossem repetidos demais.
Embora sem uma regularidade, na média uma ou duas vezes por mês o esquema era acionado.
A frequência não era programada, dependia da disposição diária de G. em querer ir à escola ou não.
Qualquer suspeita de que a sabotagem intencional na busca de um simples litro de leite a 400 metros de casa estaria sendo a desculpa para não ir à aula poderia comprometer todo esse esquema daí em diante, que já tinha dado certo antes muitas vezes.
Usar esse artifício era a única forma de conseguir fugir da aula, já que apenas se recusar a ir não era uma opção.
O possível plano B para obter tal resultado era alegar estar doente, mas o risco de ser levado à Farmácia da Dona R., bem pertinho de casa, no outro lado da rua, era enorme.
Talvez lhe dessem algum remédio amargo e, o pior dos piores, até mesmo uma abominável injeção na bunda, cuja ideia lhe causava pânico.
Sem contar que, “doente”, teria que ficar o dia todo em casa, não haveria vantagem alguma em ter faltado à aula.
Pensando bem, seria pior, já que da escola ao meio dia estava liberado.
Melhor esquecer a ideia de adoecer.
Uma ameaça ao seu plano principal, ou melhor, considerando as alternativas, o único, é que, descoberto, poderiam incumbir o outro irmão mais novo para buscar o leite, e aí acabaria para sempre a desculpa de não ir à aula. Preocupante.
Mas o irmão era muito novo, talvez achassem temeroso atribuir-lhe tamanha responsabilidade.
Porém de pais que não gostam que filhos deixem de ir à aula tudo se poderia esperar, até mesmo obrigar o coitado do filho pequeno a um trabalho de tamanha grandeza e responsabilidade.
Era só perceberem que isso era a causa das justificativas para faltar a escola e achariam algum jeito de acabar com o esquema, isso era certo.
Claro que não havia qualquer dificuldade em buscar esse leite.
Era só levantar daquela cama fofa de colchão de palha de milho, comer com colher de sopa no prato fundo os pedaços do pão feito em casa mergulhados no leite misturado com chá de erva mate que a mãe fazia e estava sempre quente no fogão de lenha, botar a vasilha vazia numa sacola, trazê-la cheia da casa da Dona H., entregar para a mãe, pegar sua pasta de couro, daquelas que se carregava na mão como se fosse uma maleta tipo 007 - só que não era nada parecida com uma dessas, que na época não tinham inventado - e ir para a escola. Tudo muito simples.
Essa pasta quase todos os alunos tinham. Mochila de levar nas costas é outra invenção moderna.
A mesma pasta já tinha frequentado a escola por muitos anos, nas mãos dos irmãos que passaram lá antes, suas costuras estavam velhas, as tiras de fechá-la quase rasgando, as fivelas de metal já enferrujando ficavam frouxas nos buracos alargados, o couro surrado tinha rachaduras de muito tempo de uso, com a pintura preta, só por fora, desbotada e arranhada, mas era com ela que tinha que ir carregando seus apetrechos, porque era a única disponível. A outra opção seria levar tudo nas mãos.
O Grupo Escolar ficava um pouco mais longe, mas caminhando normalmente em 15 minutos chegaria lá com folga, entraria sem atropelos na fila, obrigatória na hora da entrada, os mais baixos na frente, talvez até sobrasse tempo para chutar alguma bola no pátio ou botar a conversa em dia com os amigos, a menos que estivesse chovendo, aí não tinha fila e ia direto para dentro, porque o local onde os alunos se alinhavam para entrar nas salas era externo e descoberto.
Quando havia a decisão de não querer ir à aula os cálculos eram meticulosamente reconfirmados para que nada desse errado.
A escolha do dia para ativar o plano já era tomada quando G. acordava.
E quando ele decidia que aquele era o dia, fazia de tudo para conseguir. O plano tinha várias etapas, seguir cada uma delas era fundamental.
Começava por atrasar na hora de levantar, enrolando na cama, que ficava no sobrado, até a mãe perceber que não tinha descido a escada e chamar. Depois ganharia mais um tempo com o prato de sopa de pão, alegando que o chá estava quente, e finalmente a demora no trajeto do leite, bingo, plano bem sucedido.
Meio caminho andado para não ir à aula naquele dia. Caminho que devia ser percorrido bem lentamente, por sinal.
Quando voltasse diria que não dava mais para entrar na escola naquele horário porque ficou muito tarde e nem daria ouvidos à mãe sobre poder tentar ir mesmo assim. Argumentava que não o deixaram entrar na sala.
Quanto mais demorasse levantar, buscar o leite e voltar, maior a chance de sucesso no seu objetivo daquele dia. Esse era o resumo do plano.
Uma das técnicas principais era retornar com o leite colocando um pé na frente do outro pela calçada, bem lentamente.
Andava pela sua borda externa para não atrapalhar quem vinha atrás, como se a estivesse medindo e contando cada passo, embora algumas vezes não houvesse calçada e tinha que caminhar na terra, mas isso não atrapalhava a aparente medição.
Algumas vezes até voltava um pouco parecendo ter errado a contagem, mas era porque se deu conta de que estava indo muito rápido e chegaria cedo demais em casa.
Fazer isso com a técnica correta era garantia de chegar atrasado em casa.
E não ir à aula.
Ainda não tinham inventado câmeras de vigilância nas ruas, muito menos GPS, então jamais haveria provas do que acontecia naquelas 4 quadras da rua principal da cidade.
A menos que algum morador desse trecho denunciasse aquele comportamento estranho. Mas quem iria se preocupar com uma inocente criança andando na calçada lentamente carregando um litro de leite para a sua casa? Tinham mais coisas para fazer, mesmo que fosse nada.
Se perguntassem porque tanta demora a desculpa já estava pronta.
Diria que Dona H. é que atrasou na entrega do leite.
O leite era tirado das vacas um pouco longe, atravessando a rua na frente da Casa do Seu B., marido dela, caminhava uns 20 minutos e tinha que cruzar um potreiro grande, até o estábulo, quase nas barrancas do Rio Taquari, e vá que uma vaca tivesse fugido ou estivesse indócil para ser ordenhada, isso poderia causar a demora do leite. O que, infelizmente, nunca acontecia.
Na verdade, antes mesmo de G. acordar a vasilha do leite já estava à disposição enfileirada com as dos outros fregueses no alto da escada de 3 degraus que dava acesso pelos fundos da casa para a cozinha da Dona H., que sempre madrugava para ordenhar as vacas.
O raciocínio para não ser necessário ir à escola era simples: se em todos os anos até ali G. era o primeiro da turma, comprovação solenemente feita na presença de quase todos os pais da cidade quando havia a entrega dos boletins no fim do ano no Salão Paroquial, para que tanto sacrifício em ficar fechado todas as manhãs numa sala ouvindo a professora falar o que ele já tinha entendido nos primeiros minutos? Era monótono esperar toda a explicação novamente para muitos que não tinham compreendido a matéria, além de algumas que não interessavam. O turno escolar poderia ser de uma hora no máximo, e já seria demais. Mas durava quatro. Desperdício de tempo.
Isso o convencia de que não estava fazendo nada errado em não querer ir sempre para escola. Só que ninguém o compreendia.
A certeza de que não “rodaria” no fim do ano – que era o pavor de todos - o deixava sem qualquer remorso ou preocupação. Nem sequer estudava em casa como a professora mandava, só fazia o tema obrigatório para não levar bronca, mas mesmo assim era sempre o primeiro da classe. Então para que ir todo dia?
Numa dessas vezes em que o plano de não ir à aula mais uma vez estava dando certo, seu irmão mais velho, que trabalhava no banco, naquele dia ainda não tinha saído para o serviço.
Ao ver o que estava acontecendo, pegou G. pelo braço e levou-o para conversar no lado de fora da casa, o velho papo sobre não faltar à aula, blábláblá.
Depois de ouvir com impaciência os vários argumentos, que na verdade entravam por um ouvido e saíam pelo outro, G., ou Guaitica, esse era o seu apelido, resolveu usar a grande experiência e sabedoria acumulada que os seus longos 10 anos de vida já tinham lhe proporcionado e acabar aquele sermão inútil e desnecessário, fulminando o irmão com o mortal argumento que ele sabia seria um arrasa quarteirão na conversa e encerraria o assunto, não permitindo qualquer resposta, ao mesmo tempo que acrescentava uma cara de vítima injustiçada ao pronunciar a frase.
“Se eu já sei ler e escrever, porque ainda preciso ir à aula?”
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