Eu sou uma ex-interna. Como diz o Chico, nós nos conhecemos: foi por “jesuscidência”. Eu fui na Funap, que é um órgão que significa Fundação para o Preso. Já estava de liberdade e fui procurar um emprego nesse órgão e o projeto Arte que Liberta estava precisando de uma vendedora pra estar no lugar do Charles quando ele saísse de férias. E eu estava lá no lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa. Aí marcamos uma entrevista, conversei com eles e comecei a trabalhar no Projeto. Entrei no projeto assim, não falava nem “oi”. Aí fiquei um tempo com eles, eu tenho um filhinho de três anos. O meu filho adoeceu, saí do projeto, mas assim sempre em contato com eles, mas o que mais me chamou atenção no Projeto foi o que? Eu estive lá dentro (da prisão). Eu sei o que as pessoas passam lá dentro. Eu saí, eu sei o que eu passei pra estar assim. Estar aqui, bem, estar bem estruturada com a minha família, com o meu serviço. Então eu sei, porque eu podia muito bem virar as costas depois que o meu filho adoeceu e falar “não, eu vou atrás de outro trabalho porque não é o que eu quero. Eu quero me livrar desse mundo”. Só que pra que tampar os olhos, né? A realidade está ali todo dia. Então eles sempre me chamando. Tinha alguma coisa pra fazer: “Elaine vem”. E eu ia. E sempre com contato, com contato e até que um dia Maitê que é presidente da ONG, falou: “traz a sua carteira que agora você vai ficar”. E foi assim, sem ter vaga pra mim. Não tinha uma vaga pra mim, só que a intenção deles era o que? De poder estar me resgatando. Não que, hoje eu tenho a cabeça mais certa. Então jamais eu ia voltar, porque eu fui pra cadeia porque eu fiz, entendeu? Eu fiz, eu aprontei muito, se for contar as histórias aqui nós vamos ficar horas e horas. Então aprontei e eu fui pra cadeira e fiquei dez anos presa, saí, tive o meu filho, hoje eu tenho o meu marido, tenho o meu filho, tenho o serviço no Projeto Arte que Liberta....
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Eu sou uma ex-interna. Como diz o Chico, nós nos conhecemos: foi por “jesuscidência”. Eu fui na Funap, que é um órgão que significa Fundação para o Preso. Já estava de liberdade e fui procurar um emprego nesse órgão e o projeto Arte que Liberta estava precisando de uma vendedora pra estar no lugar do Charles quando ele saísse de férias. E eu estava lá no lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa. Aí marcamos uma entrevista, conversei com eles e comecei a trabalhar no Projeto. Entrei no projeto assim, não falava nem “oi”. Aí fiquei um tempo com eles, eu tenho um filhinho de três anos. O meu filho adoeceu, saí do projeto, mas assim sempre em contato com eles, mas o que mais me chamou atenção no Projeto foi o que? Eu estive lá dentro (da prisão). Eu sei o que as pessoas passam lá dentro. Eu saí, eu sei o que eu passei pra estar assim. Estar aqui, bem, estar bem estruturada com a minha família, com o meu serviço. Então eu sei, porque eu podia muito bem virar as costas depois que o meu filho adoeceu e falar “não, eu vou atrás de outro trabalho porque não é o que eu quero. Eu quero me livrar desse mundo”. Só que pra que tampar os olhos, né? A realidade está ali todo dia. Então eles sempre me chamando. Tinha alguma coisa pra fazer: “Elaine vem”. E eu ia. E sempre com contato, com contato e até que um dia Maitê que é presidente da ONG, falou: “traz a sua carteira que agora você vai ficar”. E foi assim, sem ter vaga pra mim. Não tinha uma vaga pra mim, só que a intenção deles era o que? De poder estar me resgatando. Não que, hoje eu tenho a cabeça mais certa. Então jamais eu ia voltar, porque eu fui pra cadeia porque eu fiz, entendeu? Eu fiz, eu aprontei muito, se for contar as histórias aqui nós vamos ficar horas e horas. Então aprontei e eu fui pra cadeira e fiquei dez anos presa, saí, tive o meu filho, hoje eu tenho o meu marido, tenho o meu filho, tenho o serviço no Projeto Arte que Liberta. Estou trabalhando como vendedora. Acho que estou me saindo muito bem, há um ano atrás, do que eu era para o que eu sou agora. Se fosse há um ano atrás eu não estaria aqui. “Eu não vou”.
Já sou até atriz, faço teatro. Então é assim: eu trabalho no Projeto Arte que Liberta porque eu sei da necessidade daqueles que estão lá dentro e daqueles que vão sair. E eu sei que o projeto está lutando pra que? Pra resgatar aquelas pessoas que estão lá dentro, porque lá dentro a gente não tem uma estrutura. Tudo bem, a gente trabalha, só que e daí? A gente trabalha lá dentro. Você saiu a pessoa que te deu serviço lá dentro vira as costas. Tanto que eu cheguei a pedir, porque eu fiquei três anos trabalhando numa firma só. Eu falei “quando eu sair tem um servicinho pra mim lá?”, “Não A gente só trabalha aqui dentro”, no Arte que Liberta eles ensinam alguma coisa que eu posso estar produzindo aqui fora, eles podem estar produzindo aqui fora. Então eu sei que muitos deles e delas vão entrar dentro de uma penitenciária e vão sair com uma profissão, vão poder falar “eu sei fazer isso, eu tenho aqui esse histórico, esse currículo”. Então o projeto é magnífico e é por isso que eu estou nele, vou continuar nele. E é isso aí.
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