Eu sou um ex-interno. Eu conheci o projeto Arte que Liberta de uma maneira bastante feliz. Eu estava passando por uma fase na minha vida que todo interno deseja: na fase de ir embora. Mas tinha o outro lado também que houve uma certa barreira na minha vida. O próprio sistema penitenciário dificultou. Omitiu a minha ida pra ir embora e eu estava andando meio angustiado. A cabeça começou a pensar tudo aquilo que eu não pensava. E aí eu conheci um jovem, Anilton, ele trabalha num projeto e ele me fez um convite, que o projeto estava precisando de pessoas pra trabalhar pelo período de alguns dias e aí me convidou. Eu falei “rapaz, eu não vou não”. Eu já pintava uns quadrozinhos, mas eu falei “não vou sair daqui e ir pra lá só pra trabalhar alguns dias”. E aí conversamos com uma pessoa que coordenava um trabalho também social dentro do presídio que era o irmão Aílton Epifânia e ela falou: “não rapaz, vá. Bom”. Estava lá. “tá bom”. Fui. Cheguei no Projeto Arte que Liberta pra trabalhar por esses dias, alguns dias, até o final do ano e lá foi quando eu conheci o Chico Maia, a sua esposa. E o que mais me chamou atenção é que eu não conversava da minha vida particular e nem do meu problema, o porquê eu fui preso. E lá tinha uma mesa, uma bancada bastante grande assim, a gente estava fazendo umas velinhas flutuantes. Estava a cunhada do Chico Maia, estava a Cátia e a Dona Zezé que é sogra dele também. E aí eu conversando elas me perguntaram. “eu não vejo que o irmão cometeu crime nenhum”. Naquele momento que ela falou isso algo me pegou. Aí simplesmente eu conversei com elas de uma maneira que eu nunca tinha parado pra conversar nem com a minha própria família. Me abri com eles de uma maneira tremenda e aquilo foi saindo de dentro de mim, foi saindo. Então pra mim aquele momento ali foi algo que me marcou, porque pra mim era muito difícil falar do meu problema. Aquele dia exclusivamente me marcou porque eu pude...
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Eu sou um ex-interno. Eu conheci o projeto Arte que Liberta de uma maneira bastante feliz. Eu estava passando por uma fase na minha vida que todo interno deseja: na fase de ir embora. Mas tinha o outro lado também que houve uma certa barreira na minha vida. O próprio sistema penitenciário dificultou. Omitiu a minha ida pra ir embora e eu estava andando meio angustiado. A cabeça começou a pensar tudo aquilo que eu não pensava. E aí eu conheci um jovem, Anilton, ele trabalha num projeto e ele me fez um convite, que o projeto estava precisando de pessoas pra trabalhar pelo período de alguns dias e aí me convidou. Eu falei “rapaz, eu não vou não”. Eu já pintava uns quadrozinhos, mas eu falei “não vou sair daqui e ir pra lá só pra trabalhar alguns dias”. E aí conversamos com uma pessoa que coordenava um trabalho também social dentro do presídio que era o irmão Aílton Epifânia e ela falou: “não rapaz, vá. Bom”. Estava lá. “tá bom”. Fui. Cheguei no Projeto Arte que Liberta pra trabalhar por esses dias, alguns dias, até o final do ano e lá foi quando eu conheci o Chico Maia, a sua esposa. E o que mais me chamou atenção é que eu não conversava da minha vida particular e nem do meu problema, o porquê eu fui preso. E lá tinha uma mesa, uma bancada bastante grande assim, a gente estava fazendo umas velinhas flutuantes. Estava a cunhada do Chico Maia, estava a Cátia e a Dona Zezé que é sogra dele também. E aí eu conversando elas me perguntaram. “eu não vejo que o irmão cometeu crime nenhum”. Naquele momento que ela falou isso algo me pegou. Aí simplesmente eu conversei com elas de uma maneira que eu nunca tinha parado pra conversar nem com a minha própria família. Me abri com eles de uma maneira tremenda e aquilo foi saindo de dentro de mim, foi saindo. Então pra mim aquele momento ali foi algo que me marcou, porque pra mim era muito difícil falar do meu problema. Aquele dia exclusivamente me marcou porque eu pude abrir o meu coração, pude contar pra alguém o porque eu fui parar naquele lugar e a partir daquele dia a minha vida mudou. Nossa, eu conheci outros internos que eu não conhecia. Conheci essa pessoa que é o Chico Maia, eu sou suspeito pra falar de Chico Maia.
Foi pessoas que chegaram na minha vida realmente no momento que eu estava precisando, nesse momento que estava chegando na reta final e eu não sabia o que ia acontecer na minha vida a partir do momento que eu colocasse os meus pés pra fora daquele lugar. Na minha mente passava muita, digamos assim, “abobrinha”, de sair e querer pagar na mesma moeda aquilo que fizeram comigo e Deus, ele coloca as pessoas certas em nossas vidas e colocou Chico Maia com a sua família na minha. E ele sempre tinha um cuidado de sentar comigo e “olha, a vida é assim e assim. Lá fora está assim, está dessa maneira”. Então aquilo começou a me trazer um meio de tirar aquilo da minha mente. Me ensinou algumas profissões. Isso tudo foi durante esse “preparamento” de saída, foi mudando realmente a minha vida. Então eu digo que naquele dia o Arte que Liberta marcou realmente a minha vida. Marcou tanto que hoje eu estou aqui conversando com vocês. Já vou fazer quatro anos no Arte que Liberta. Passei um período trabalhando lá dentro, saí, continuei trabalhando fora do projeto e hoje, se eu não me engano, eu fui um dos primeiros a trabalhar no Projeto.
O primeiro a trabalhar no projeto e a sair do presídio. E isso realmente marcou a minha vida. Eu ganho pelo que eu faço, amo o que eu faço porque eu não estou no Arte que Liberta porque eu ganho dinheiro, mas eu sou remunerado pelo que eu faço e pelo que eu gosto de fazer. Eu me sinto bem de trabalhar no Arte que Liberta porque eu estou podendo mostrar para as pessoas que realmente existe recuperação. Porque as pessoas não querem saber o que você fez . Se foi pra dentro de um presídio você carrega uma marca. Existe um carimbo em você. Passou lá dentro é um ex-presidiário. As pessoas não querem saber, mas muitos que estão lá dentro tem que acreditar que a vida pode mudar além do que as pessoas pensam. Então isso foi que marcou a minha vida no Projeto Arte que Liberta: saber que eu criei auto-estima e que outras pessoas me estimularam a sair e a não desistir.
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