Projeto Diversidade Cultural Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Gil Mendes
Entrevistado por Diwarian Pego e Sofia Tapajós
Vitória, 18 de junho de 2026
Código: DCC_HV025
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Entrevista de Gilberto Mendes Coelho. Entrevistado por Diwarian Pego e Sofia Tapajós. Vitória, 18 de junho de 2026. Projeto Diversidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV025.
P/2 – Olá, bom dia. Primeiramente, eu gostaria que você falasse o seu nome completo, o seu nome artístico, o ano em que você nasceu e o local em que você nasceu.
R – Bom dia. Meu nome completo é Gilberto Mendes Coelho. Eu adoto o nome artístico de Gil Mendes. Eu nasci em Vitória, na Santa Casa, no ano de 1962.
P/2 – Eu gostaria que você falasse um pouco sobre sua família, se você tem irmãos, o nome dos seus pais…
R – Eu sou filho de Olival Coelho e filho de Altamira Mendes Coelho. Tenho mais sete irmãos, cinco irmãs e mais um irmão. Na verdade, tem mais seis, né? E eu, que sou esse sétimo. Minha família é de Cariacica. Meu pai é da região de Roda d'Água, na verdade, do Encantado, que é depois de Roda d'Água. Minha mãe tem uma família que vem de Guarapari, de Amarelos. Eles se encontraram em Cariacica. Então, o primeiro local onde eu residi foi em Jardim América. Meu nascimento foi um evento meio tumultuado, porque até então minhas duas irmãs, mais velhas que eu, tinha nascido de parteira e eu ia nascer de parteira também. Só que a coisa deu uma complicação e aí, precisei vir para o hospital. Eu sou o primeiro da minha família a nascer em um hospital, que foi a Santa Casa. Tem uma história que eu acho muito bacana, que minha mãe contava, né? Depois de muitas horas de parto, ela já estava cansada, eu nasci e eu não chorei. E ela achava que eu estava morto, ela falava isso, né? Então, foi a assistência de uma enfermeira, que depois de muito tempo eu chorei e tal. E eu gosto...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Gil Mendes
Entrevistado por Diwarian Pego e Sofia Tapajós
Vitória, 18 de junho de 2026
Código: DCC_HV025
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Entrevista de Gilberto Mendes Coelho. Entrevistado por Diwarian Pego e Sofia Tapajós. Vitória, 18 de junho de 2026. Projeto Diversidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV025.
P/2 – Olá, bom dia. Primeiramente, eu gostaria que você falasse o seu nome completo, o seu nome artístico, o ano em que você nasceu e o local em que você nasceu.
R – Bom dia. Meu nome completo é Gilberto Mendes Coelho. Eu adoto o nome artístico de Gil Mendes. Eu nasci em Vitória, na Santa Casa, no ano de 1962.
P/2 – Eu gostaria que você falasse um pouco sobre sua família, se você tem irmãos, o nome dos seus pais…
R – Eu sou filho de Olival Coelho e filho de Altamira Mendes Coelho. Tenho mais sete irmãos, cinco irmãs e mais um irmão. Na verdade, tem mais seis, né? E eu, que sou esse sétimo. Minha família é de Cariacica. Meu pai é da região de Roda d'Água, na verdade, do Encantado, que é depois de Roda d'Água. Minha mãe tem uma família que vem de Guarapari, de Amarelos. Eles se encontraram em Cariacica. Então, o primeiro local onde eu residi foi em Jardim América. Meu nascimento foi um evento meio tumultuado, porque até então minhas duas irmãs, mais velhas que eu, tinha nascido de parteira e eu ia nascer de parteira também. Só que a coisa deu uma complicação e aí, precisei vir para o hospital. Eu sou o primeiro da minha família a nascer em um hospital, que foi a Santa Casa. Tem uma história que eu acho muito bacana, que minha mãe contava, né? Depois de muitas horas de parto, ela já estava cansada, eu nasci e eu não chorei. E ela achava que eu estava morto, ela falava isso, né? Então, foi a assistência de uma enfermeira, que depois de muito tempo eu chorei e tal. E eu gosto dessa história.
P/2 – E seus pais, eles trabalhavam com o quê?
R – Minha mãe era doméstica, né? Minha mãe foi uma pessoa que trabalhou há muito tempo na Santa Casa, mas que, quando casou, eles fizeram um acordo para ela não trabalhar mais. Meu pai era um funcionário da Vale do Rio Doce. Eles não tinham... A instrução deles era até a quarta série primária.
P/2 – E essa infância com os seus irmãos? Como foi? Você brincava?
R – Eu brincava muito. Foi uma infância de muito movimento. Muito movimento mesmo. Com seis anos, nós mudamos de Jardim América para o que na época se chamava Piranema, né. É aquela região de Cariacica, próximo de Novo Brasil, Roda d'Água. Quando nos mudamos para lá, nós tínhamos um quintal grande. Era área rural na época ainda. Então, ali o vizinho mais próximo estava muito distante. Foi uma infância, assim, de brincar muito, de andar muito de bicicleta, de subir em árvore, de jogar muito futebol, de brincar de tudo.
P/1 – Você tinha alguma brincadeira favorita?
R – Eu jogava muito futebol, mas, na verdade, era muita coisa e subir em árvore era outra coisa também comum da minha infância.
P/1 – Você tinha alguma árvore favorita no quintal?
R – Não tinha. Eram todas [risos]. Eram todas, mas eu lembro que tinha um cajueiro, que hoje em dia não existe mais no nosso quintal, era bacana porque era um cajueiro alto. Eu, inclusive, uma vez fiquei... Esse cajueiro tem história. Uma vez eu subi e não soube descer. E aí, meu tio, que morava perto, teve que vir com a escada e me tirar de cima. Uma outra história foi que eu estava em um balanço, nesse mesmo cajueiro, e esse balanço quebrou. Quando ele quebrou eu bati com o cóccix no chão e fiquei um tempo sem falar. Foi engraçado essa sequência, porque nós tínhamos uma pessoa especial na família e ela já fez um alarde, falou que eu tinha morrido e que aí veio vizinho. E foi engraçado, assim, no final.
P/1 – Roda d’Água é um espaço que tem bastante cultura. Na sua infância, você participava, sua família participava de espaços culturais ali?
R – Minha família, principalmente minha mãe, era uma família muito ligada à religião católica. Tanto que a comunidade, esse lugar que hoje foi rebatizado de Novo Horizonte, né, a primeira igreja começou no quintal lá de casa. Construíram uma edificação, onde hoje é a garagem da residência, e construíram essa edificação. E lá passou a funcionar a primeira igreja. Depois conseguiram um terreno em frente e essa igreja foi transferida para esse terreno. Mas, até então, era isso. Eu sempre tive essa ligação com a cultura popular, né? Perto da minha casa tinha a banda de Congo de Piranema, que era do Seu Antero. E eu enlouquecia quando ouvia. Era uma coisa que me chamava muito. Tinha umas festas que tinha uma senhora chamada dona Lourdes, que ela fazia na comunidade de Piranema. Era um teatro cantado. Eu nunca participei, mas minha irmã participava sempre. Ela fazia algumas cenas desse teatro. E era um teatro todo cantado. Inclusive, já conversei com o filho dela, a gente tem muita vontade de retomar isso, né? Porque eu nunca mais ouvi, eu não vejo isso. E aí, eu tinha esse interesse muito pelas bandas de Congo, porque você tinha a banda de Congo de Piranema, você tinha a banda de Congo de Boa Vista, você tinha a banda de Congo de Roda d'Água, mas eu só vou chegar mais perto disso um tempo depois.
P/1 – Você lembra como você se sentia quando via o Congo? A banda de Congo?
R – Eu pulsava junto com o Congo, porque era tambor, né? E o tambor sempre me chamou. O tambor me chama e é forte para mim. E também, assim, foi uma infância de muita relação com essa dança que acontece no salão, os bailes, né? Eu me lembro que tinha um vizinho, seu Moacir, ele tocava sanfona e, de vez em quando, ele fazia uns bailes na residência dele. Ele tocava essa sanfona. Todo mundo ia e dançava, né? Eu era criança ainda. E eram comuns os bailes naquela região. Então, a gente ia, dançava de par, dançava sozinho. Existia essa relação também. E meu pai adorava dançar.
P/2 – E você consegue descrever um pouco mais sobre esses bailes?
R – Eram bailes que tinham uma relação meio familiar, né? Porque, lógico, era vizinho, era família. E aí, era assim, vamos na casa da minha tia Lodi, que ficava onde hoje é Nova Campo Grande. A gente ia para esse baile. E aí, a gente já tinha... Eu dançava muito com a minha prima, a gente dançava. Tinha essa coisa de os adultos, tinham as crianças. Acontecia na casa desse vizinho, que era o seu Moacir, que tinha uma sanfona. Era uma época onde tocava The Fevers, tocava Renato e Seus Blue Caps. Era uma coisa assim.
P/2 – E falando ainda sobre a sua infância, quem era você na escola?
R – Eu era um garoto muito tímido, muito. Era aquele que chegava calado e saía mudo. Mas eu adorava estudar, assim. Eu sempre tive essa relação com o estudo, com o conhecimento. Eu gostava muito de ir para a escola, mas era aquela coisa, né? Eu chegava, era minha carteira, era um recreio mais na minha. Era essa relação.
P/2 – E você tinha uma matéria preferida?
R – Não tinha. Eu gostava de tudo. Eu gostava de tudo, mas a História sempre... Na verdade, no ensino, que hoje é o ensino fundamental, a gente não tinha a História, né? Mas depois a História me pegou muito.
P/2 – E tem algum professor que te marcou, que você lembra até hoje?
R – É engraçado, eu não lembro o nome de nenhum professor. Tinha uma professora, que era professora de Ciências, ela me marcou muito, mas eu não lembro o nome dela. Os nomes vão fugindo. E é isso, assim… Meus professores foram muito importantes, mas é engraçado que eu não tenho registros de nome.
P/1 – Nessa época, você tinha alguma ideia do que você queria ser quando crescer?
R – Tem uma coisa, que foram as comunidades eclesiais de base. Meu pai era muito ligado… Meu pai era muito ligado às associações de moradores. E, na década de 70, eu acho que eu tinha 10, 11 anos, acho que, inclusive, por causa disso, lá em casa ficaram hospedados um chileno e um pernambucano. Eu acredito que isso tenha sido em consequência dessa questão da ditadura no Brasil, da questão no Chile também. Nunca investiguei a fundo isso depois. É engraçado… Mas eu lembro desse chileno me perguntando uma vez o que eu queria ser com 11 anos. E eu falei que eu queria ser bailarino. É um registro que eu tenho dessa época, mas, depois, eu quis ser um monte de coisa, né? Eu queria trabalhar com desenho, que era uma coisa que me chamava muito também a atenção. Eu não sabia para onde ir. Quando, na época, eu descobri a escola técnica, que na época era a escola técnica, né? Hoje, é o IFES [Instituto Federal do Espírito Santo]. E eu resolvi que eu ia fazer edificações. Passei para o IFES e fiz edificações. E, a partir daí, a tendência natural seria, que era o sonho do meu pai também, seria ou eu fazer... E eu falava que eu ia entrar na faculdade, né? Era ou fazer ou Engenharia ou Arquitetura, mas aí foi quando eu descobri que as humanas e as artes eram o que me chamava. E, quando eu faço a opção de fazer um curso superior, eu vou para o curso de Comunicação Social. Eu fiz dois anos de Comunicação Social na UFES [Universidade Federal do Espírito Santo]. Foi quando eu descobri que existia o curso superior de dança lá na Faculdade Federal da Bahia. Eu falei: “Eu vou fazer esse curso”. Eu não conhecia Salvador, não conhecia a Bahia, não conhecia nada. Eu só conversei com minha mãe e falei: “Ó, eu vou”. Precisei fazer um outro vestibular lá, uma semana de teste de aptidão que existia na época e depois o vestibular. E aí, quando eu passei, eu fui para Salvador e fiquei lá, fiz a graduação e a especialização. Então, eu morei durante seis anos em Salvador, entre a graduação e a especialização.
P/1 – Voltando bastante aí, por que que com 11 anos você queria ser bailarino?
R – Eu amava dança, amava dançar. Os bailes já me pegavam nesse sentido, né? E quando eu via alguma coisa de dança, eu ficava encantado. Eu ficava encantado. E olha que era uma época que na minha casa não tinha nem luz elétrica! Então, por exemplo, se eu via televisão, é porque eu ia na casa da minha tia, Jardim América, e a gente via aquela televisão ainda preta e branca. E aí, quando eu via coisas de dança, eu ficava encantado. Muito encantado. E assim, é daí que nasce essa minha relação, né? São os bailes e é essa relação de ver alguma coisa na TV também.
P/2 – E como foi a reação da sua família quando você escolheu fazer dança?
R – Eu conversei com minha mãe. Aí, minha mãe falou o seguinte: “Tá bom, mas você falou que você é jornalista, você já está, né, na metade. E você acha que esse curso vai dar dinheiro?”. Eu falei: “Olha, não importa”. Eu falei assim: “Eu estou indo. Eu vou encontrar um caminho”. E aí, foi tudo bem. Minha família sempre foi tranquila em relação às minhas escolhas. Inclusive, eu consegui fazer esse curso muito por causa da minha família, porque meu pai era o meu apoio, né, o meu apoio financeiro. Quando eu fui para Salvador, não conhecia nada, não conhecia ninguém. Me disseram que eu não teria direito à residência universitária, porque eu não era da Bahia. Na época existia isso. Então, eu fiquei um ano morando em pensão. E, como eu morava em pensão, eu precisava pagar essa pensão. A faculdade não me dava muito tempo para poder me dedicar a um trabalho, né? Eu trabalhava, eu procurava trabalhos, mas quem me ajudava nisso era meu pai, que me mandava um dinheiro que era difícil, porque demorava, porque havia Correios. Eu tinha que retirar esse dinheiro da agência que ficava na Cidade Baixa. Era uma saga assim, né? E, nesse período também, eu me virava. O primeiro trabalho com dança que eu tive foi dançando em um restaurante, para turista, porque eu falava que precisava trabalhar. Uma amiga, na época, me indicou: “Eles estão precisando de alguém para dançar”. Aí, era um show que eles faziam para turista, que era com danças de Orixás e foi o meu primeiro trabalho dançando nesse restaurante. Era uma dureza. Porque esse show começava, se a previsão era 11 horas da noite, 11 horas da noite não começava. Então, às vezes, eu chegava em casa, pegava um ônibus, que era perto do centro de convenções, na Boca do Rio, em Salvador. Eu morava no Canela. Então, eu chegava em casa, às vezes, 3, 4 horas da manhã e eu tinha aula de preparação física às 7h20. Mas era tranquilo.
P/1 – E a sua chegada em Salvador, como foi para você as pessoas, a cultura? Você sentiu alguma diferença daqui de Vitória?
R – Eu senti muita diferença. Salvador, no início, era um estranhamento total. Eu acho que fiquei um ano, um ano e meio nesse estranhamento, porque era muito diferente culturalmente, né? Muito, muito diferente. Então, acho que foi meu período de adaptação. E, depois desse período, eu virei baiano. Foi uma relação de amor muito forte assim. Tanto que nem os baianos acreditavam que eu não era baiano. Até porque eu tinha sotaque também de baiano, porque eu incorporei isso tudo, né? E eu era muito integrado à cidade, às coisas todas de Salvador. Amo, amo muito.
P/2 – E como foi a UFBA [Universidade Federal da Bahia]?
R – A UFBA foi minha grande casa, né? Logo que eu cheguei, a faculdade de dança era no Terreiro de Jesus, ali no Centro Histórico, no Pelourinho, onde era a antiga faculdade de medicina. Era um prédio lindo, maravilhoso, de onde você também via a Bahia de Todos os Santos. Eram salas imensas de prédios antigos, né? E ali foi, de fato, onde eu me encontro com o meu corpo de maneira verdadeira. É onde eu começo a entender mais integralmente quem eu era, como eu me movia, como eu me movo e entender que eu poderia estar no mundo, produzir e ser através da arte e através da dança.
P/2 – A gente falou da época de quando você era criança e na escola você era uma criança mais tímida. Você se via essa criança tímida também?
R – Eu sempre fui tímido. Eu não sou de falar muito. Eu sempre fui do movimento, desse movimento corporal. E a fala sempre foi menos, né? Hoje, eu falo mais. Eu sempre fui dessa timidez, mas eu sempre me relacionei através do movimento. Tanto que quando eu cheguei em Salvador, eu já fui convidado para integrar um grupo. Tinha uma ex-aluna que tinha um grupo, Ana Baldini, era o grupo Prisma. E aí, eu já entro nesse grupo, né? Era muito intenso, porque as aulas eram todas as manhãs. A gente já emendava. A hora de almoço era a hora do ensaio. E às vezes tinha aula à tarde, às vezes tinha outros grupos à tarde. Mas era muito bom. Era muito gostoso.
P/2 – Para entrar na faculdade de dança, você falou que fazia um teste de aptidão? Como foi para você fazer esse teste? Como foi a forma de preparo?
R – Então, eu comecei a fazer dança tarde. Depois dos 20 anos, com 20 e tantos anos. Na época em que eu estava fazendo o cursinho pré-vestibular, eu falava desse meu amor pela dança. Aí, uma amiga minha, a Bete Malé, falou que tinha uma escola aqui, que era na Rua Sete: “Tem uma escola aqui, e eu vou te levar lá”. E ela me levou. A partir desse incentivo, eu comecei a fazer dança em uma escola que tinha, chamada Alice Gasparini. Eu entrei de cabeça. Logo depois, eu entrei na faculdade, né? Então, eu tentava conciliar trabalho, porque eu trabalhava como desenhista… Trabalho e a faculdade e a dança. Então, eu fazia poucas vezes, mas aí eu comecei na UFES a fazer aula também com a professora, que era a professora Fátima Sonegheti. Eu fazia todas as oficinas, os workshops que apareciam. Fiz algumas aulas da Lenira Borges, mas era pouco. E nesse teste, essa semana intensa, eu não tinha essa vivência, né, como Salvador, que tem uma faculdade de dança que é de 1956. A galera de lá tinha. Eu era um inexperiente. Então, tem uma professora, chamada Marli Sarmento, que falou: “Olha, eu vi esse potencial em você e eu insisti para que você ficasse”. Acho que meio que eu não ia ficar por essa inexperiência e ela insistiu e foi bacana, porque depois eu me encontro muito. A própria escola reconhece a minha evolução ali dentro. E foi bacana.
P/1 – E aí, nessa época da faculdade em Salvador, o que você fazia para se divertir no seu tempo livre?
R – Eu ia para o Pelourinho. Eu ia para o Pelourinho. Era uma época em que o Olodum ensaiava ali no Largo do Jorge Amado. Então, todo final de semana eu estava lá no meio. Era muito engraçado, porque era muita gente e era movimento intenso, né? De vez em quando tinha uns tiros ali. Aí, você só se movimentava um pouco e voltava. Era assim. E eu procurava o máximo também para interagir com as pessoas, nesse sentido de estar me reproduzindo. Então, isso era uma forma de divertimento também.
P/1 – E aí, depois que você terminou a faculdade, você foi fazer especialização?
R – Eu já emendei, né? Na minha época de faculdade, eu sempre participei dos trabalhos. Sempre era convidado para dançar com quem estava fazendo a pós-graduação. Eu já falei: “Não, vou emendar”. E já emendei. Quando eu cheguei no final da especialização, eu senti que o meu tempo em Salvador já tinha dado, porque eu pensava assim, em Salvador, já tem muita gente que faz dança, já tem muita gente atuando. Eu pensava em Vitória, e eu falei: “Bem, eu acho que existe um mercado que eu possa atuar em Vitória”. Foi quando eu resolvi voltar. Finalzinho mesmo de 1993, né? Foi quando eu concluí a pós, e aí eu resolvi voltar.
P/2 – E como foi seu retorno para cá?
R – Foi bom. Foi muito bom. Eu tenho uma amiga chamada Ariane Meirelles. A Ariane sempre foi uma amiga muito bacana, né? Uma referência, porque, na década de 1980, eu frequentava o CECUN, que é o Centro de Estudos de Cultura Negra. E aí, eu vi a Ariane, uma menina assim, ela saía das reuniões, às vezes mais cedo, e aí eu descobri que ela saía para fazer dança afro na Lenira Borges. Isso me encantava. Quando eu fui para Salvador, a Ariane ia muito a Salvador, e a gente trocava muito. No meu retorno, ela falou assim: “Gil, tem a FAFI [Escola Técnica de Teatro, Música e Dança] que está funcionando, tem cursos de dança e tal”. Ela falou assim: “Ah, seria bom”, e o NegraÔ ensaia lá. Eu ia para fazer, ela me convidou para fazer trabalhos com o NegraÔ. Eu falei que eu não ia fazer parte do grupo, porque eu tinha outros interesses. Mentira, eu fiquei no grupo anos e estou até hoje. O administrador na época, que era o Luiz Cláudio Gobbi, eu conversei com ele: “Ah, traz seu currículo”. Quando eu entreguei o currículo, ele falou: “Você vai trabalhar aqui”. E aí, em fevereiro de 1994, eu já estava trabalhando lá. Então, foi esse primeiro lugar que me acolheu. Eu me sentia muito bem ali, porque era uma escola de arte, né? Então, era um ambiente perfeito para mim.
P/2 – E conta um pouquinho desse grupo que você faz parte.
R – Então, o NegraÔ é um grupo de dança afro-brasileira. Ele é de 1991. O NegraÔ fez 35 anos agora. Noventa e um? É 91 mesmo, gente. Acho que estou certo. Ele fez 35 anos, e nós comemoramos no Teatro Carlos Gomes. Nessa época, eu morava em Salvador, mas, por essa relação com a Ariane, ela falou: “Gil, a gente está querendo fazer um espetáculo e a gente está querendo indicação de uma pessoa”. Eu indiquei um amigo meu, Paco Gomes, que já coreografava. E, quando ele veio para coreografar, ele falou: “Gil, você vai como meu assistente”. E aí, eu venho para Vitória, em 91, para fazer esse trabalho, que chamava O Baxirê. Eu faço esse trabalho juntamente com o Paco, e depois eu retorno para Salvador, né, para a minha vida acadêmica. Então, essa é a minha primeira relação com o NegraÔ. Depois, quando eu retorno definitivamente para Vitória, a Ariane me convida, eu falo: “Tudo bem, Ariane, então, eu vou fazer”. Eu sempre tive essa relação com a dança afro, né? A faculdade não era a faculdade que privilegiava isso, ela era a dança moderna, a dança contemporânea, eu me apaixonei também por isso. E aí, eu fui para trabalhar com o NegraÔ e falei: “Olha, eu faço uma proposta assim também”. Só que eu fui ficando, fui sendo seduzido ali, né, por aquele grupo e trabalhando como coreógrafo. A gente fez muito trabalho. Em 1995, a gente já tinha feito um trabalho e a gente escreveu esse trabalho para um festival no México e a gente foi selecionado. Então, em novembro, a gente já estava indo para o México com trabalhos para participar desse festival. Depois disso, esse trabalho rendeu convite para a gente ir para o Equador também, dançar em outro festival. A gente tinha uma atividade bem tensa dentro do NegraÔ. Mas o que é bacana falar é que o NegraÔ era um grupo de dança, mas trabalhando em uma causa que era a causa negra. Então, ele tinha uma atuação muito mais ampla, né? Não era só um grupo de apresentação, não era só um grupo de espetáculo, ele era um grupo que atua até hoje junto a comunidades, com formações. E é isso que me deixa ficar no NegraÔ, porque é essa atuação do grupo e o que ele faz também.
P/1 – Você falou que, quando você retornou para o Espírito Santo, você entrou na FAFI. Quando você estava na faculdade, você pensava em ser professor?
R – É engraçado. Eu sempre pensei em dançar. Aí, existiam duas habilitações na época em que eu entrei no curso de dança da UFBA e eu entrei na habilitação de bailarino profissional. Só que, no meio do curso, eu já estava perto dos 30 anos e falei: “Eu acho que preciso buscar um outro caminho”. Mudei para o curso de licenciatura. Achei uma escolha acertada, né? Porque daí eu vi ampliar o meu campo de atuação na dança. E, na verdade, eu sobrevivo mais como professor hoje em dia do que como coreógrafo. Bailarino, já me aposentei há bastante tempo, mas atuo muito como coreógrafo. Então, assim, sou coreógrafo, preparador corporal para peças de teatro. Mas é o professor que mantém a minha subsistência.
P/1 – E você, que já foi aluno de várias professoras, como se enxerga como professor agora?
R – Eu procuro entender meus alunos. Eu procuro me colocar no lugar deles, né? Tem um episódio de um ex-aluno que fez parte de um grupo e que hoje tem um grupo nos Estados Unidos, lá em Minnesota, que é o Marciano Silva. Ele falou assim: “Gil, teve uma época que eu quase desisti de dançar, porque você me exigia tanto”. Lógico, quando você quer que a pessoa cresça, você vai exigir. Aí, eu parei para pensar naquilo e falei: “Gente, olha que coisa louca. De que forma a gente tem que exigir?” Mas eu nunca fui dessa exigência, mas com ele eu fazia isso. Não entendo. Eu me policiei muito em relação a isso e tentei entender quais são as demandas dos meus alunos, né? Até porque eu tinha uma série de questões também com meus professores. Então, eu sempre quis me colocar nesse lugar: Como seria eu ali nesse lugar?
P/1 – Você falou um pouco dessas viagens. Como você se sentiu viajando para dançar?
R – Ah, viagem é sempre bom, né? Viagem é sempre bom. Eu amo viajar. A gente tem um episódio recente também de viagens com o NegraÔ, porque a gente foi selecionado pelo projeto do Sesc [Serviço Social do Comércio], o Palco Giratório. Então, a gente viajou diversas cidades do Brasil agora, né? Nós fomos desde o Nordeste, o Sudeste, o Sul. Não fomos para o Norte e para o Centro-Oeste. Mas, assim, essas viagens foram muito bacanas. Quando nós fomos para o México, primeiro que nós ficamos na Polícia Federal de lá, e a gente achando que era tudo bem. Na verdade, eu acho que eles estavam pensando que a gente queria atravessar a fronteira, né? E a gente só foi entender isso depois, porque a gente já estava lá em grupo. Só que a gente tinha um contato da irmã do cônsul, que foi quem nos falou desse festival. A gente ligou, ela nos adotou, nos deixou inicialmente na casa dela. Quando a gente se apresentou nesse festival, a gente recebeu convite e nós ficamos mais um mês. A gente ia ficar uma semana, nós ficamos um mês no México participando desse festival. Na verdade, dançando, circulamos na cidade dançando. E foi muito bacana, muito bacana mesmo. Isso nos rendeu de conhecer outras pessoas que vieram outros convites. Sempre foi uma troca muito bacana, né? Até porque a dança afro-brasileira, ela tinha um interesse grande. Tanto que eu fui convidado para dar uma oficina. Tanto lá quanto no Equador também. Então, rolava esse intercâmbio bacana. E a mesma coisa, a gente tem algumas viagens ali com o NegraÔ, também com outros grupos, porque eu não trabalho só com o NegraÔ. A gente trabalha com muitos grupos aqui em Vitória. Mas acho que com o NegraÔ foram as mais bacanas. Tanto essas... A gente foi para Salvador também, apresentou lá no Teatro Gregório de Matos, dentro do estado Espírito Santo também. E acho que são momentos de pensar assim: olha, meu trabalho está circulando, porque a gente quer que o nosso trabalho seja visto, né? Que o nosso trabalho circule, que o nosso trabalho chegue às pessoas. Então, eu me realizo muito nas viagens.
P/1 – O que você sentia quando estava dançando no NegraÔ?
R – Eu não dancei no NegraÔ. Eu dancei uma vez no NegraÔ. Eu dançava muito em Salvador. E o palco, para mim, era um lugar de tudo assim. Era o lugar da vida. Eu sempre gostei muito de dançar, de estar no palco, que é o que não acontece hoje. Eu comecei a trabalhar muito aqui, quando eu vim para Vitória, como professor e como coreógrafo, como preparador corporal. E aí, eu fui deixando de dançar. Logo quando eu cheguei, eu participei de um grupo de dança contemporânea chamado Avivá. E a gente se divertia muito, porque nós éramos três pessoas que gostávamos da alegria e do deboche. Então, a gente fazia umas coisas meio engraçadas, a gente gostava de coisas leves. Fui para um outro lugar, de tudo que eu já tinha trabalhado, mas eu fui deixando de dançar. O lugar do palco deixou de ser o meu lugar, tanto que hoje é meio estranho para mim. Eu preparo as pessoas para o palco, eu trabalho como é estar no palco, mas quando eu fico ali nessa posição, é estranho, porque eu perdi essa rotina. Porque acho que é um trabalho de rotina também, de exercícios diários, né? Então, isso eu perdi.
P/2 – E enquanto professor, como você se sente quando vê os seus alunos dançando ao redor do mundo?
R – Acho que a gente trabalha para isso, né? A gente trabalha para ver esse trabalho evoluindo, para ver as pessoas indo além do que você já propôs, do que você já fez. Eu acho que é isso. Aí, você fala assim: “Poxa, esse era o objetivo do trabalho”. Ver que o outro foi, que o outro voou, que o outro realizou, que o outro está fazendo, né? Que esse trabalho não morreu aqui, não acabou aqui, que ele continua e que ele vai continuar.
P/2 – E a dança é uma arte de presença, né? Enquanto pessoa negra, como você via a graduação, o espaço do mercado de trabalho e a sua presença?
R – Salvador é uma cidade negra, né? Salvador é uma cidade negra. Então, você chega em Salvador, você já se sente pertencente, mas, ao mesmo tempo, traz uma série de outras questões. Eu me questionava muito em relação às oportunidades dentro da própria cidade, que é a cidade mais negra fora de África, né? A cidade mais negra do Brasil e não só do Brasil. Então, via muitas limitações também. E minha opção, desde sempre, foi trabalhar mesmo essa identificação de corpo negro, de identidade negra na dança. Tanto que o meu trabalho de conclusão na especialização, eu chamava “Contrastes e Contradições da Identidade Cultural”. Eu não lembro direito esse título, mas eu abordava exatamente isso, né? De como os espaços eram limitados, de como nossos corpos eram impedidos de acessar determinados espaços, de estar em determinados lugares, porque, apesar de se beber muito na cultura afro-brasileira, o protagonismo, às vezes, não era nosso. Então, minha luta sempre foi nesse sentido também, de pensar como dar protagonismo para nós, quanto corpo negro.
P/1 – Você está falando sobre o grupo que você faz parte, vocês trazem isso da dança afro. E eu gostaria que você falasse sobre a pesquisa de vocês, de onde vem essa aula.
R – Eu vou falar um pouco das minhas referências e aí eu vou chegar ao grupo, né, às referências do grupo. Eu tive essa oportunidade de viver em Salvador e uma das minhas escolhas foi exatamente por causa da dança afro. Então tive a oportunidade de viver com grandes mestres lá na Bahia. Mestre King, que era uma grande referência. Eu tinha aula de danças populares, onde a dança afro estava inserida na faculdade. Tinha um grupo de pesquisa em dança afro na faculdade, chamado Odundê. E esse grupo era muito atuante ali, né? Então, eu procurava beber o máximo e eu pesquisei sobre esse grupo também, já fiz um trabalho de pesquisa muito forte sobre ele. Onde tinha dança afro em Salvador, eu estava presente. E aí, eu acompanhei também o ressurgimento do balé folclórico da Bahia. Na época, eles abriam as aulas, né? Eu fazia aula direto para o balé folclórico da Bahia. Na época da Rosângela Silvestre, que hoje nem mora no Brasil mais, mas que criou uma técnica toda dela. Então, se Mestre King é uma grande referência, a Rosângela Silvestre, o balé folclórico da Bahia, o grupo Odundê, Edileusa, todas as integrantes daquele grupo e toda essa dança. E tem uma outra grande referência, que é a referência do grupo, né? Porque a Ariane é formada por essa escola, que é a Mercedes Baptista, né? A Mercedes Baptista foi a primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Isso na década de 1950. Aí, a gente tem essa referência, e é uma pessoa que criou uma metodologia, um modo de ensino da dança afro, aqui no Rio de Janeiro. Então, eu vivo muito dessa escola também, e o NegraÔ basicamente é essa base. Só que quando eu venho para o NegraÔ, eu também trago essas referências. Agora, o grupo vai se reorganizando a partir das pessoas que vêm chegando, né? Porque a gente vai dialogando também muito com os corpos que chegam e com essas referências que vêm. Hoje, além dessa base, que está muito focada em Mercedes Baptista, muita gente das danças urbanas, que também são danças negras, já passaram pelo grupo, integram e integraram. Então, tudo isso vai somando essa linguagem que o NegraÔ hoje trabalha.
P/1 – E aí, eu queria que você falasse um pouco desse espaço que a gente está, onde a gente está, o que ele significa para você.
R – MUCANE [Museu Capixaba do Negro]. Primeiro, acho que é uma casa nossa, não é uma casa minha, que é o Museu Capixaba do Negro, que é uma luta de reconhecimento de espaços, de ocupação muito grande. Eu conheci a pessoa que lutou muito, né, que não é viva mais. Eu a conheci pessoalmente. O NegraÔ ocupa, acho que a partir de 1995, 1996, ele passou a ocupar esse espaço. Quando ainda não existia esse anexo que nós estamos aqui, existia o prédio antigo, e era um outro acesso, né? A gente ocupava uma sala de cima desse prédio, que era uma sala grande. Então, nós ficávamos o sábado todo aqui, com um aulão aberto à comunidade. Nós chegávamos aqui, que era um espaço meio abandonado, não era abandonado, porque já era um Museu Capixaba do Negro. Mas nós chegávamos aqui, nós pegávamos balde, panos, nós limpávamos o chão, recebíamos as pessoas, fazíamos aula com uma sala lotada. Era muita gente dentro daquela sala, era uma energia maravilhosa. Eu acho que essa ocupação é muito importante, né? Era o NegraÔ, era o Grupo de Capoeira, era o Zuilto, com o trabalho de cerâmica dele. Eram algumas das pessoas que ocupavam esse espaço e que foram resistência para que esse espaço esteja aqui até hoje. Eu vejo essa importância, né? Eu acho que nós ocupamos, enquanto grupo, enquanto coletivo. Então, eu acho que é um espaço que a gente pode chamar de nosso e que é um espaço que a gente tem que lutar para que ele exista, para que ele resista, porque nós precisamos disso, de ter uma casa e que seja a casa que a gente fala que é uma casa que tenha uma representatividade para nós, né? E tem muitas ameaças aí que querem acabar.
P/1 – Falou um pouco daquele espaço também do palco. Teve algum outro espaço, algum outro lugar que você trabalhou, que teve que trabalhar, com a dança?
R – Eu trabalho há 32 anos no espaço que é a FAFI. A FAFI foi o primeiro lugar que me acolheu. Eu tenho um amor muito grande porque foi onde eu vi a possibilidade de eu atuar da maneira que eu queria, né, enquanto professor, enquanto artista, é uma escola de arte. Hoje é a Escola de Teatro, Dança e Música. Quando eu entrei, era uma escola de arte. Enquanto escola de arte, eu estava podendo conviver no meio de artistas, né? Artistas diversos. Estava podendo conviver com o pessoal do teatro, o pessoal da música, o pessoal da dança, o pessoal da literatura, o pessoal do cinema. Então, é esse espaço que eu podia, de fato, me sentir artista. Eu não queria me sentir só professor. Eu queria me sentir artista. Ali também foi onde a gente pôde construir esse sonho de escola, né? Vitória tinha o que se chamava de Academias de Dança. Hoje, acho que todo mundo denomina escola. Mas, ali, a gente começou a construir um projeto de escola. Tanto que é a partir dos cursos livres, das oficinas, que, em 1998, a gente vai implementar o primeiro curso de qualificação profissional em teatro e em dança. Quer dizer, em uma cidade que não tem ainda, até hoje, faculdade de dança, faculdade de teatro, talvez a única capital do Brasil que ainda não tenha, né? É triste isso. Mas a gente tem a FAFI que oferece uma formação. Isso me deixa feliz, me deixa feliz entender que eu fiz parte dessa construção também, né? E depois a gente consegue, em 2014, o reconhecimento do curso técnico de teatro e de dança. É um espaço onde eu me sinto professor e me sinto artista. Mas, assim, existem outros espaços que não são espaços propriamente físicos, mas que são espaços de trabalho, que são os grupos, que não têm uma sede, mas que têm os trabalhos. Eu trabalhei com muita gente. Trabalhei e trabalho, com muita gente de teatro, né? Quando eu vim para Vitória, eu trabalhei com o César Huapaya em um projeto que foi O Fausto. O Fausto foi um trabalho em que ele uniu teatro e vídeo. E nesse projeto, que demorou um tempo grande de construção, eu inclusive participei, atuando no vídeo. Foi um trabalho que circulou um bocado. Viajou muito. Chegou a ir para a Alemanha. Isso rendeu depois o mestrado e doutorado dele. Mas trabalhei também muito com José Luiz Gobi. Muitos grupos de teatro aqui. Muitos, muito mesmo. Faço muita preparação corporal. Então esses espaços são espaços que eu me contento. Muitos grupos de dança, além do NegraÔ. A Homem Companhia de Dança, que é uma proposta do Elídio Neto e que, na verdade, é um grupo que nasceu na varanda da minha casa. Tem uma trajetória também muito bonita, que a gente vai, de poder viajar também, de poder ter um reconhecimento grande pelo trabalho. E aí, como eu sou um aquariano meio inquieto. Às vezes, eu não paro muito nos lugares. Então, eu vou para outros grupos. Já trabalhei com muitos grupos de dança aqui. Depois, eu participei de outra companhia, que é a In Pares Cia de Dança. E na In Pares eu tenho oportunidade de fazer muitos trabalhos. A gente chegou a ter uma sede, ali no Edifício Michelini, em frente à Costa Pereira. Esse grupo me faz chegar, inclusive, até ao cinema, né? Porque é um trabalho que a gente faz, que é o Inabitáveis. O Bardot, um cara que trabalha com cinema, ele depois, participando na produção desse espetáculo, propõe fazer um filme. E o filme se chama Inabitáveis também. Inclusive, ele me homenageia e tudo, mas, a partir desse contato que ele tem com esse trabalho de dança, ele tem a inspiração para fazer isso. E assim eu vou trabalhando sempre com muitos grupos, né, na formação de novos artistas. E é isso. São os espaços que eu vou ocupando.
P/1 – Gil, o que a dança te ensinou?
R – A dança me ensinou a ser mais eu, né? A entender o meu espaço no mundo, a entender a minha contribuição para o mundo. A dança me ensinou a ser uma voz mais ativa, a ser um corpo mais presente. Quer dizer, a dança me ensinou tudo. A sobreviver. É isso.
P/2 – E a sua família? Eles te viram apresentar? E se te viram, como foi para você?
R – Minha família não tem essa relação com as artes muito, né? Hoje, eu tenho uma sobrinha-neta que está fazendo dança. A mãe dela fez dança e era muito boa. Eu tenho outra sobrinha também que fez, mas é uma família que não tem muito essa relação com a arte. Eu sou aquele que, desde o princípio, já manifestava esse desejo, né? Minha mãe participou uma vez. Sempre foram apoiantes, sempre estiveram ali, sempre apoiaram, mas nunca foram de ir ao teatro. Eu tenho uma irmã que sempre vai. Eles participam muito em um apoio à distância. Algumas pessoas vão, né? Essa é minha sobrinha, essa minha irmã, algumas pessoas que vão esporadicamente, mas o apoio está ali o tempo todo.
P/1 – E hoje, como é o seu dia a dia?
R – Meu dia a dia hoje, eu dou aula, né? Fui fazendo opções. Eu já dei muitas aulas, gente. Já viajei para o interior para dar aula em Cachoeiro. Eu dei aula na Faculdade de Santa Tereza durante muito tempo e eu fui ficando cansado, né? Eu entrei em um mestrado na UFF [Universidade Federal Fluminense]. Depois de um ano eu estava exausto e não consegui mais. Porque eu tinha de viajar o tempo todo. Era aqui dentro do Espírito Santo, era para fora. E era para tudo quanto era lugar. E aí, eu fui assim, eu fui... Depois que meu pai morreu, eu tive que cuidar mais da minha mãe. Fui fazendo umas escolhas, né? E aí, eu falei: “Eu não vou trabalhar mais pela manhã”. Essas foram as escolhas. Eu não trabalho assim, né, regularmente, mas eu trabalho quando eu tenho convites para fazer coreografias ou preparação. Minha vida hoje é dar aula. Eu dou aula à tarde e à noite na FAFI. Oss ensaios, né? Que eu estou nos ensaios. Tem a (inaudível) que eu trabalho hoje. Então, por exemplo, sempre que vai ter espetáculos estou em ensaios. Pela manhã ou aos sábados. O NegraÔ eu ensaio regularmente aos sábados, à tarde. E essa é a minha vida. E aí, é meu samba na Zilda no final de semana.
P/1 – Você costuma ir muito na Zilda?
R – Eu moro do lado. Eu moro do lado da Zilda. Então, eu sou figurinha fácil ali.
P/2 – E o que aquele espaço ali da Zilda significa para você?
R – Ali, é um espaço... Para mim, o samba é a minha outra casa, né? É um espaço de encontro de pessoas que estão felizes, que estão trocando, que estão se divertindo, mas ao mesmo tempo estão... Eu acho que é uma atitude política, né? Que estar junto no samba é de uma representatividade muito forte. Então, representa tudo isso para mim. É resistência.
P/1 – E você tem planos, sonhos para o futuro?
R – Eu tenho um sonho grandíssimo: me aposentar ano que vem [risos]. Eu tenho, assim, eu sempre gostei de viajar. Eu amo viajar. E eu não tenho feito isso há muito tempo, né? Eu quero me aposentar, porque eu estou cansado. Estou muito cansado. Desde que eu voltei para Vitória, são 30 e tantos anos trabalhando ininterruptamente e não me dando muito tempo. Então, eu quero me permitir ir pesquisando de uma maneira mais tranquila. Ir para lugares, me demorar um tempo nesses lugares, ficar e conhecer, eu sou muito apaixonado pelas culturas, pelos lugares diversos. E esse é o meu grande plano.
P/1 – Você tem algum sonho para a dança no futuro?
R – Não. Para a dança eu não faço planos. Eu quero só poder assistir muita dança, poder ver as pessoas que eu ajudei a formar, produzindo. E é isso, eu quero estar sossegadinho no meu canto.
P/2 – E como você vê a dança, o samba, por exemplo, e essa diferença com a dança técnica, que traz isso de… uma coisa mais marcada, assim? Então, como você diferencia um samba que você está, ou samba ou alguma outra dança que você se sente mais livre e outro que você precisa seguir uma regra?
R – Na dança popular, na dança livre, eu acho que tem muita vida, tem muita pulsão, tem muita pulsação, tem muita verdade, que é uma coisa que às vezes falta na dança cênica. Às vezes as pessoas são muito técnicas e elas não se permitem vivenciar de fato aquilo. Elas não se permitem mergulhar nas suas pesquisas para demonstrar essa verdade no palco. Eu vivo muito essa dança, né, essa dança do dia a dia, porque eu acho que é a dança da verdade. Eu acho que é a dança da pulsão verdadeira, né? E eu acho que todo mundo tinha de beber muito nisso aí. Todo artista tinha de estar nesse lugar, porque eu acho que é de onde sempre veio o novo. Porque é ali que nascem realmente as coisas novas, os impulsos de criação novos.
P/2 – E a sua criança de 11 anos que já queria fazer dança. Você hoje enxerga que você entregou para essa criança?
R – Eu acho que é além do que eu imaginava, né? Eu não tenho muita noção do que eu fui fazendo, mas eu sempre fui fazendo, porque eu gosto de fazer. Então, hoje eu fico olhando e falo assim: “eu já passei por tantos lugares e isso foi a dança que me proporcionou.” Eu já estive com tantas pessoas, né? Eu já fiz tanta coisa diferente. Eu já deixei tanto registro que isso vai muito além daquilo que eu imaginava, o que essa criança de 11 anos poderia ter imaginado.
P/1 – O que você achou de contar a sua história hoje?
R – Ah, é bom. É muito bom poder contar a história, porque, primeiro, os registros são coisas importantes, e eu acho que quando a gente tem a oportunidade de contar a própria história, não é o outro, né? Não é o olhar do outro, sou eu falando e é bacana. Porque nossa história sempre foi escrita por outros. E a gente poder falar, e a gente poder registrar, muda tudo.
P/2 – E uma mensagem que você deixaria para crianças que querem dançar, jovens que querem dançar, o que você deixaria?
R – Primeiro, dance muito. Depois, movimente-se muito, sem medo de movimentar. Porque eu acho que tudo contribui, né? A criança do movimento que eu fui me permitiu me tornar bailarino, mesmo depois dos 20 anos. Um bailarino muito ativo, um bailarino com potencial. E outra, diferente da minha época, hoje a gente tem muita oportunidade. Muitas, né? Porque eu não tinha praticamente nenhuma. Então, assim, corre atrás desses espaços que oferecem essas oportunidades. Hoje eu vejo, que além das escolas, tem espaços, tipo CRJs [Centros de Referência das Juventudes] aqui, tem espaços que oferecem, que são espaços de convivência, que oferecem essas vivências. E aí, é escolher esses lugares, é escolher seus pares, seus parceiros, e praticar, porque, primeiro, além de ser uma coisa que para a saúde do seu corpo é boa, seu corpo e aí seu corpo e sua mente, né? Acho que faz toda a diferença na vida da gente.
P/1 – Faltou alguma coisa da sua história que você queira registrar?
R – Ah, que eu não lembro, não. Vocês têm que me provocar [risos]. É isso.
P/1 – Obrigada.
R – Obrigado a vocês.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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