P1 - Marcelo, você pode começar dizendo o seu nome completo, data e local de nascimento. R - Marcelo Ricart Alves Monteiro, dia em 22 de junho de 74. Nasci na cidade de Lavras da Mangabeira, Ceará. P1 - O que você faz hoje? R - Eu sou catador. P1 - E como você começou a catar? R - Eu comecei a catar material quando eu cheguei com 12 anos em Brasília. Comecei com a catar material reciclável, comecei com latinha e ferro. Com o passar do tempo, foi aumentando a venda dos produtos aí começamos com outros materiais. Hoje trabalhamos com todos os materiais recicláveis, só não trabalhamos com concreto, mas o resto do material, trabalhamos com todos. P1 - E por que você foi para a Brasília? R - Porque... porque... tem que falar tudo? P1 - Fala o que você quiser. P2 - Fala o que você quiser. R - É porque quando eu tinha 12 anos, a minha mãe era da Força Sindical e foi assassinada na época do regime. Então a minha família toda fugia do regime militar. E eu me perdi dos meus pais, do meu pai, porque minha mãe tinha sido assassinada. E como eu me perdi do meu pai, um caminhoneiro me trouxe para Brasília. Só que ele me trouxe dizendo que eu ia morar na casa dele, só que quando chegou em Brasília, ele me soltou na rua. Aí eu comecei a andar e conheci alguns filhos de catadores e eles me levaram para o barraco deles, nessa época eram uns 10 barracos. E a mãe desses meninos me pegou e acabou de me criar. Só que lá nós vivíamos em área pública e de 15 em 15 dias, 20 em 20 dias, vinha a ordem de desocupação. Nós não desocupávamos a área porque não tínhamos para onde ir aí vinha o órgão de vigilância da terra e quebrava todos os nossos barracos, prendia os animais, que a gente coletava material. Aí eu comecei a arrumar confusão com policial, com fiscal, tentando defender o grupo de 10 catadores. Quando eu vim perceber, eu já tinha em volta de mim um grupo de 240 catadores. P1 - Nossa. R - Hoje já são 17 anos que...
Continuar leituraP1 - Marcelo, você pode começar dizendo o seu nome completo, data e local de nascimento. R - Marcelo Ricart Alves Monteiro, dia em 22 de junho de 74. Nasci na cidade de Lavras da Mangabeira, Ceará. P1 - O que você faz hoje? R - Eu sou catador. P1 - E como você começou a catar? R - Eu comecei a catar material quando eu cheguei com 12 anos em Brasília. Comecei com a catar material reciclável, comecei com latinha e ferro. Com o passar do tempo, foi aumentando a venda dos produtos aí começamos com outros materiais. Hoje trabalhamos com todos os materiais recicláveis, só não trabalhamos com concreto, mas o resto do material, trabalhamos com todos. P1 - E por que você foi para a Brasília? R - Porque... porque... tem que falar tudo? P1 - Fala o que você quiser. P2 - Fala o que você quiser. R - É porque quando eu tinha 12 anos, a minha mãe era da Força Sindical e foi assassinada na época do regime. Então a minha família toda fugia do regime militar. E eu me perdi dos meus pais, do meu pai, porque minha mãe tinha sido assassinada. E como eu me perdi do meu pai, um caminhoneiro me trouxe para Brasília. Só que ele me trouxe dizendo que eu ia morar na casa dele, só que quando chegou em Brasília, ele me soltou na rua. Aí eu comecei a andar e conheci alguns filhos de catadores e eles me levaram para o barraco deles, nessa época eram uns 10 barracos. E a mãe desses meninos me pegou e acabou de me criar. Só que lá nós vivíamos em área pública e de 15 em 15 dias, 20 em 20 dias, vinha a ordem de desocupação. Nós não desocupávamos a área porque não tínhamos para onde ir aí vinha o órgão de vigilância da terra e quebrava todos os nossos barracos, prendia os animais, que a gente coletava material. Aí eu comecei a arrumar confusão com policial, com fiscal, tentando defender o grupo de 10 catadores. Quando eu vim perceber, eu já tinha em volta de mim um grupo de 240 catadores. P1 - Nossa. R - Hoje já são 17 anos que estou nesse local, hoje são 1500 catadores. Sempre o que eu fiz foi catar material de reciclagem, nunca trabalhei em outro serviço. Em 2002 - buscando sempre melhoria para nós, catadores - eu resolvi constituir a cooperativa de reciclagem, a Coopativa. Aí os catadores não sabiam nem o que era cooperativa em Brasília de catadores. Muitos deles não tinham idéia do que era uma cooperativa. Aí eu chamei eles para duas ou três reuniões. Eles queriam mas não queriam, aquele negócio: achavam que uma cooperativa ia tirar alguma coisa deles, do pouco que eles ganhavam. E a minha esperança era isso, era a cooperativa para mudar a minha vida e a deles. Eu digo: "Meu Deus, como é que eu vou fazer? Para esses catadores ajudar a construir essa cooperativa? Porque é a única solução da nossa vida, nós não tem outra solução só como catador simplesmente, nós não temos nada que representa a gente, pra gente ter algum nome que representasse.". Aí eu sei que eu não agüentava mais, era muita ação, gera muitos catadores em volta de mim e era muita ação lá do governo contra nós. Chegou até um momento de nós fechar um terminal da Petrobrás e pôr fogo no terminal. Ai foi que os ataques foi mais intenso. Um dia eu chego lá tentando resolver a solução pros catadores, eu chego e tinha mulher e criança algemados nas árvores, pelos policiais. Algemaram para poder quebrar as coisas deles. Muitas das vezes eles carregavam as coisas, alimentos, essas coisas, levavam. Deixavam eles sem nada. Não é "levavam", carregavam televisão, tudo o que a gente tinha. Aí eu sei que eu desesperado procurei a Central dos Trabalhadores em Brasília para me ajudar. Era época das eleições e ela disse que ia me ajudar mas não ajudou, tava interessado é no voto dos catadores. Quando eu desconfiei, não deixei mais eles entrarem no local onde nós estava, o grupo de catadores. Foi passando, passando, quando foi em 14 de julho, eu não tinha mais o que fazer, contratei um contador e busquei informações lá no CDE e preparei uma ata e estatuto dessa cooperativa, só o resumo mesmo. Levei para dentro do cerrado, chamei todos os catadores. Eles achavam que era uma fria. Até aquelas pessoas que me criaram, que terminaram de me criar, me chamavam de louco, ficou contra mim, todos eles. Outros diziam que eu era um ladrão, que eu ia roubar eles, que eles tinham criado uma cobra para morder eles. E eu fiquei desesperado, não sabia como fazer, se ia continuava para frente ou não. Aí eu sei que chegou o momento mesmo que juntei 20 catadores, puxei pelo braço e disse: "Ó, roubar eu não vou roubar de vocês, que vocês são a minha família. Pôr na fria eu não vou. Só quero que vocês assinem esta ata e este estatuto para construir essa cooperativa. Assine. Como diretor, vocês também diretor, vocês também como conselho fiscal e o resto para completar os 20 para construir essa cooperativa, que nem sócio da cooperativa, basta 20 pessoas. Os que iam entrar como diretor disseram: "Nós assina como diretor, só que nós não assumimos responsabilidade nenhuma. Você vai ter que correr atrás sozinho, você vai ter que se virar sozinho. Se der resultado, tudo bem; se não der, é só a sua responsabilidade.". Aí eu topei, sabendo que era um risco muito grande, era uma loucura. A cooperativa foi constituída em 14 de julho de 2002 e eu tentei buscar apoio junto ao governo. Passou 10 meses, montei a primeira parceria com o governo do Distrito Federal. Quando montei a primeira parceria com a cooperativa constituída, uma das parcerias era a entrega... A entrega, não. Nós estávamos já comprando um lote de quatro mil metros quadrados, por um programa de geração de renda e emprego. Aí os catadores já estavam mais ligados à cooperativa porque algumas batalhas a gente já tinha ganhado na Justiça e tudo, através da cooperativa. Aí a gente preparou o projeto de viabilidade econômica da cooperativa no SEBRAE [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] - busquei parceria com o SEBRAE - e pelo projeto e parceria a gente chegou a mostrar que a gente tinha condição de pagar esse terreno de quatro mil metros quadrados. Até o governo diz, das 10 cooperativas do Distrito Federal, a Coopativa é a mais ousada que tem, porque nenhuma se atreveu a comprar um lote de quatro mil metros quadrados, nem de dois mil porque não tinha condição de pagar. E a gente, que mal estava se estruturando, desafiou o governo e mostrou que queria comprar. O governo ofereceu o lote de graça, nós não aceitamos, nós dissemos que queríamos comprado. Quando faltavam menos de 12 horas para entrega do lote para a gente - que lá tem a empresa imobiliária do Distrito Federal que se chama Terracap, que é do governo federal e do governo do Distrito Federal - eles tinham montado um projeto todo por trás da cooperativa sem ninguém saber e jogou na mídia que a cooperativa era coordenadora de um projeto que se chamava Central Empreendimento. Tudo bem, até aí eu estava calado. Era um projeto lá que tava só usando o nome da cooperativa, eu tava ficando calado. Mas quando eu descobri que nós estávamos pagando um terreno de quatro mil metros quadrados e só íamos poder funcionar em dois mil metros [porque] dois mil metros iam ser para beneficiar o próprio governo com esse projeto. Ia ter um evento muito grande lá, o governo tinha articulado tudo, ia ter o Presidente da República, todo mundo lá. Aí eu disse que não, que não aceitava os dois mil metros quadrados e nem aceitava mais os quatro mil metros quadrados e não queria mais aquele terreno de jeito nenhum, que o que eu queria era acabar com o evento, que eu ia conseguir o terreno mas não daquele jeito, com o nosso suor e o nosso trabalho, sem o governo interferir na nossa cooperativa. Aí começou uma briga da cooperativa junto ao governo, a briga da cooperativa era batendo de frente com o governo. Na verdade, os catadores se aproximaram todos de mim no momento que eles viram que eu precisei do apoio deles, aí era catadores junto com a cooperativa e governo batendo de frente, um querendo mostrar mais força do que o outro. Até que chegou o momento que o governo federal sentiu que a cooperativa era mais forte do que ele, que estava embargando todos os projetos deles na Justiça, tanto a projetos que referia a catador que via que tinha tramóia no meio, qualquer projeto com coleta seletiva, nós estávamos embargando na Justiça. Embargando, embargando. Aí o governo viu que não agüentava mais, aí baixou, não mexeu mais com os catadores da Coopativa. Aí veio uma briga minha com um banco de Brasília, o BRB porque o governo ia lá, desestruturava as cooperativas todinha, quebrava. Aí no outro dia o BRB ia lá com os agentes financeiros e emprestavam dinheiro para a gente reconstruir dinovo. E isso foi cinco vezes. Quando foi na sexta vez, eu pensei: "Eu vou fazer um empréstimo hoje mas eu vou fazer dobrando duas vezes ao valor do que a gente sempre faz. Dessa vez eu não pago, dessa vez quem vai pagar vai ser o próprio governo para ele aprender, ele destruiu.". Eu fiz o empréstimo, quando chegou o dia de pagar eu fui lá no banco e disse: "A partir de hoje, eu não devo nada para o banco e eu não quero ver o nome da cooperativa em SPC, em nada. Se vocês botar, eu entro com um processo porque vocês destroem e querem que a gente perde dinheiro e a gente vá lá e trabalhe dinovo e pague pra vocês quebrar [a gente] dinovo. Então a partir de hoje eu não devo nada para o Distrito Federal.". Aí começou uma briga minha com o BRB, na Justiça e tudo, para não pagar. Aí conheci o doutor Sérgio Bueno que é do Ministério da Cidade e faz parte do Fórum de Cidadania e a Denires, da Cáritas do DF. E ela me chamou para uma reunião no Fórum de Cidadania, isso tudo no mesmo dia. Aí eu digo: "Eu vou.". Cheguei lá, muito desconfiado, como já tava com medo do que vinha acontecendo. Aí eles perguntaram se eu queria fazer parte do Fórum de Cidadania e tudo e eu digo: "Olha, eu estou cansado de tanto ladrão. Se vocês forem mais uma turma de ladrão, longe de mim. Eu não quero ladrão perto de mim.". E arrumei uma briga danada lá dentro da reunião e tudo, disse que não queria saber de ladrão. E fui embora. Não demorou uma semana, eles me localiza, vai atrás de mim: "Você tem que vir pro Fórum.". Eu digo: "Eu não vou pro Fórum. Vocês querem é alguma coisa através da cooperativa para beneficiar vocês.". Voltaram para trás, botei tudo para correr lá da cooperativa. Não foi três dias, voltaram dinovo. Eu falei: "Que porra de insistência.". (risos) "Pior do que eu." - eu pensei, né? - "Eu vou voltar nesse Fórum.". Fui na primeira reunião, briguei, discuti. Fui na segunda, uma mulher lá da UnB [Universidade de Brasília] veio falar mal de catador. Eu derrubei a mesa, quebrei um bocado de copo, o Sérgio Bueno: "É assim que se faz.". No lugar de ele me criticar, ele disse: "É assim que se faz. Na outra vez, quebre mais.", desse jeito. Ele queria o quê? Se chegar a mim, para poder eu saber o que era o Fórum primeiro. Outra vez, outra mulher, quebrei um bocado de copo, quebro um bocado de cadeira lá dentro da sala, derrubo outro bocado de mesa e quebro a porta e saio. Era assim as minhas brigas com eles lá. A Denise vem, no lugar dela falar que nem o Sérgio Bueno, me chama lá na Cáritas e quase me dá uma surra. Eu digo: "Então essa é das boa.". Aí foi aquele negócio, foi passando o tempo, fui indo para reunião, fui indo para reunião... Hoje eu não quebro mais nada dentro do Fórum, não. Hoje é o nosso ponto de referência: Fórum e Cidadania - DF, é aquela base, aquela estrutura que a gente tem. Aí o que aconteceu? Quando o Fórum começou lá, eram três cooperativas: uma chamava Sem Dimensão; a outra, é uma associação, a Ambiente, que é no lixão estrutural; e a outra é a Cortrap [Cooperativa de Reciclagem, Trabalho e Produção], que é uma vizinha a gente e que hoje já está no terreno dela. Ta num terreno meio irregular mas o governo não mexe com ela porque eles entraram lá na marra, na luta, na briga e tomaram o terreno do governo. Aí entrou a Coopativa e fez quatro. Quando a Coopativa entrou, a Sem Dimensão teve que se afastar um tempo porque tava em fase de mudança, de um terreno para outro que tinha sido construída - essa foi a primeira cooperativa de catadores do Distrito Federal, a Sem Dimensão - aí a Sem Dimensão tava em fase de mudança, pediu afastamento do Fórum para enquanto fizesse a mudança. Ficou a Coopativa, a Ambiente e a Cortrap, três cooperativas. Tivemos uma reunião do Fórum e resolvemos que queríamos mais cooperativas e mais associações dentro do Fórum de Cidadania, que nós queríamos, já começamos a querer mandar mais um pouco, né? Querer ter autonomia, eram três cooperativas e nós achamos pouco. Nós queríamos buscar mais cooperativas para nossa autonomia ser maior diante dos técnicos que tinha lá dentro do Fórum, o nosso voto de decisão ser maior do que eles, para sempre as nossas decisões ganharem. Juntamos as três cooperativas e conversamos com os apoios e fizemos um rodízio dentro do DF todinho e no entorno, de Goiás, em volta de Goiás para localizar todas as cooperativas em volta. Dessa localização, partindo disso que nós fizemos, hoje nós estamos em 10 cooperativas dentro do Fórum de Cidadania. Tem todos os órgãos do governo federal dentro do Fórum de Cidadania, temos Ministério Público, IBAMA [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], de tudo um pouco. Agora há um ano e pouco - nós não tínhamos acordo nenhum com o governo do Distrito Federal - conseguimos marcar uma reunião com a vice-governadora do Distrito Federal porque com o governador mesmo, nada. Quando marcamos a primeira reunião, eu acho que falei tanto tanto e tanto do estado mesmo de miséria que a mulher chorou. Foi tão grande o apelo que eu fiz para essa mulher que na saída (eu já atrás de convencer ela), eu disse: "Mas me diga uma coisa: nós estamos tentando abrir a porta com a senhora. Se nós abrir, a senhora vai fechar essa porta para nós?". Aí ela olhou para mim e disse: "A partir de hoje essa porta aqui desse meu gabinete vai ser sempre aberta para o catador. Não tem reunião com secretário, não tem reunião com governo nenhum, não tem reunião com empresário nenhum que barra o catador de entrar na minha sala. O acesso do catador lá da entrada até a minha sala é livre.". E cumpriu a promessa dela, a vice-governadora cumpriu. Lá nós entra livre, que nem nas nossas cooperativas. Quando a gente chega lá, o segurança vai barrar na nossa frente: "Não, eu sou catador.", "Não, então pode entrar.", a gente já sobe na sala dela, ela pode estar em reunião, o que for, ela abre e vai lá atender a gente e tá cumprindo todas as regras, o que ela prometeu. Quando ela aproveita a chance - ela faz igual à princesa Isabel fazia com Dom Pedro - que o governador tá viajando pra fora, que ela tá assumindo o cargo dele, ela assina lei, assina decreto, assina projeto, entrega terreno para nós. Eu sei que num dia só ela faz um montão de coisa. Eu sei que semana passada ele viajou, ela aproveitou e assinou uma lei que todos os lixos dos prédios que pertença ao Distrito Federal seja todos encaminhados para as cooperativas de catadores. Que nós temos lá uma mapeação de cada área onde cada uma pega material. Às vezes nós estamos colados uma na outra, uma pega no Plano Piloto e a outra pega vizinha ao Plano Piloto, mas nunca pegamos na mesma área uma da outra. Nós temos a mapeação mas não em documento, na cabeça, é código de catador para catador. Ela aproveitou e assinou esse decreto. Na hora que ela assinou, quem tinha fax na cooperativa, ia mandando por fax. Quem não tinha, ela ligando e mandando a gente procurar o fax mais perto para ela mandar a lei para nós vermos, a lei em vigor. Outro dia o governador viajou, ela aproveitou e chamou nós tudo, foi na Terracap e convenceu a presidente da Terracap (que era a empresa imobiliária) a abrir quadras - nunca existiu quadras em Brasília - para entregar o lote de cada uma das cooperativas. A Coopativa, que é a que eu sou presidente, o lote abrigava quatro mil metros quadrados aí eu olhei para ela e disse: "Eram quatro mil metros quadrados que eu queria, vieram me dar o calote, o povo lá que é secretário." Ela apurou e afastou o secretário. "O lote que eu pedi de compra, era de quatro mil metros quadrados. Como vieram me dar dois mil metros, eu não quero mais quatro mil metros, eu quero é cinco mil metros quadrados.". Ela olhou para mim e disse: "Eu não vou dar também o que você quer, não. Eu vou dar cinco mil e quinhentos metros quadrados.", desse jeito. Ela querendo ser mais forte do que eu, né? Mais brava. (risos). Aí eu fiquei quieto, né? P3 - Como é o nome dela? R - Maria de Lourdes Abadia. Ela disse: "Eu não vou fazer do jeito que você quer, não. Eu vou fazer do meu jeito." Eu lembro bem do jeito que ela falou: "Eu vou dar é cinco mil e quinhentos metros.". Eu digo: "Ah, assim tá bom.". Hoje, no Natal, ela fez um rodízio em todas as cooperativas para participar da festa. Que lá nós temos a tradição que não fazemos festa para adultos no Natal, faz só para as crianças. Ela disse que a festa mais bonita e organizada que teve foi a da Coopativa. E a festa da Coopativa, a parte de dentro foi organizada tudo por criança. Eu andei atrás só de bolo, refrigerante, brinquedo, essas coisas fora. Dentro da cooperativa, foi tudo organizado por crianças. As crianças organizaram melhor do que nós, adultos. Elas organizaram o circo-escola (que nós temos bem grande lá, que chama Escola Cidadã), os adultos só fez armar o circo, elas organizaram tudo debaixo do circo, isolaram toda a área onde ia ter a festa, isolaram onde ia entrar o povo. Formaram uma coisa que eu nunca consegui formar dentro da cooperativa: as crianças formaram um grupo de 42 homens, formaram um grupo de segurança dentro da cooperativa nesse dia para proteger elas mesmas, foi com crachá e tudo. (risos) Eu digo: "Pronto, agora eu posso viajar sossegado que eu tenho quem administra a cooperativa.". (risos). Isso emocionou todo o governo do Distrito Federal. Tem uma seguradora do Banco do Brasil que se chama Aliança do Brasil que tava lá, que eu fiz o convite para eles já atrás de convencer eles a montar parceria mas eu tinha a idéia de parceria uma coisinha besta, só o jaleco da cooperativa. Quando eles viram, eles caíram já de pranto: "Para esses meninos, não vamos dar só o jaleco. Para esses meninos aqui, você pode arrumar um terreno que nós vamos construir a creche para eles. Eles é especial.". Eu, como não sou besta, vou pegar parte dos cinco mil e quinhentos metros quadrados - mil e quinhentos metros - para construir a creche de primeiro e segundo andar, o que vai dar três mil metros quadrados. O dinheiro não vai sair do meu bolso, é deles, né? Eles vão oferecer, tem que aproveitar. Aí hoje, assim, nós estamos uma maravilha em Brasília. Nós fomos reconhecidos há muito tempo pelo governo federal - mas o governo federal não faz muita coisa, não. Só reconhece, né? Mas o que a gente precisa mesmo é terreno, estrutura e educação, né? Boa qualidade de vida. O governo federal diz que reconhece mas não faz nada. Aí nós estamos reconhecidos pelo governo do Distrito Federal, o governo local. Tá faltando só chegar agora o mês de fevereiro (porque que quase todos os órgãos saem de férias, de recesso) aí passar o carnaval para fazer a entrega. Nós já temos terreno entregue. Nós já sabemos todos onde é, bonitinho. Só falta mesmo a entrega do documento para oficializar e a gente poder, com o documento, buscar as parcerias e construir. Aí ela disse: "Eu não vou mais vender terreno para você. Se você quiser, é dado.". Eu digo: "Eu não quero nada, não. Eu não quero, eu quero é comprado.". Ela disse: "Olha, o dinheiro que você vai gastar com esse terreno, para ir pagando prestação mês a mês, pega e compra um caminhão e vai pagando a prestação que é muito mais melhor.". Aí eu fui e pensei uma semana, liguei para ela e disse: "Pois tá bom, vou aceitar o terreno de graça.". Aí aceitei e acabou a confusão do terreno. E aí, como nós, os catadores, a gente mora numa grande invasão e isso é um.. um grande cerrado. Sabe o que é cerrado? Vocês sabem? O cerrado de Brasília? P1 - Aham. R - É um grande cerrado, são dois quilômetros de cerrado em extensão que nós ocupa. Lá nós não temos, nós não tínhamos, não podíamos... Quer dizer, energia nós temos a famosa gambiarra. Vocês sabem o que é gambiarra, né? Aquela energia que a gente vai lá e rouba do poste? P1 - Aham. R - Nós tínhamos a famosa gambiarra só que a nossa não era roubada, não. Porque lá tem uma pista chamada Via Estrutural e essa rede de energia subia para essa pista para acender as luzes de cima então a energia é paga pelo GDF [Governo do Distrito Federal]. A gente ficava vendo a pista e fizemos a instalação por baixo e lacramos com cimento. Então um dia chegou a empresa que controla a energia para arrancar nossos fios. Nós ligamos para a vice-governadora porque ela deu tudo, o celular dela e tudo, qualquer coisa que acontece, a gente tem que ligar para ela de imediato e ela resolve. Aí eu liguei para ela e disse: "Olha, a CEB [Companhia Energética de Brasília] tá aqui para tirar nossos fios de energia.". "Onde é que tá?". "A energia tá por debaixo da Via Estrutural que nós pegamos dos postes do GDF.". Ela disse: "Quem paga é o GDF?". Eu disse: "É.". Ela disse: "Diga a eles que aguardem cinco minutos.". Quando foi menos de cinco minutos, chegou lá um dos secretários dela pedindo para deixar a luz que a luz nossa não era roubada, que era paga pelo GDF, Hoje nós conseguimos uma caixa dágua de 20 mil litros. A gente tava com dificuldade: como abastecer essa caixa? Nós não sabíamos nem como abastecer."Nós vamos ter que comprar água todos os dias?". Isso porque... quando nós arranjamos essa caixa... Porque toda a nossa vida nós bebemos e tomávamos banho de água contaminada de esgoto, pegava nos córregos, contaminado. Aí eu cheguei e falei para ela e ela disse: "Eu vou arrumar a água.". Aí a empresa lá de água, vai lá toda semana e enche a caixa. De terça e de sexta, quarenta mil litros por semana. Aí o povo vai lá, pega em tambores e armazena nos barracos. Aí a semana passada ela ligou pra mim e perguntou: "Marcelo, aí tem muito menino fora da escola?". Eu digo: "Tem quase tudo.". Aí ela chamou a Secretaria de Educação e pediu para ir lá matricular todos os meninos. A Secretaria de Educação foi lá, matriculou de cinco anos para frente, porque de quatro anos não aceita. Aí eu fui e liguei para ela, dizendo que tinha muitos de quatro anos fora da escola. Ela pediu para a Secretaria abrir uma exceção e pôr todos de quatro anos na escola. Hoje eu tô aqui no evento e ela liga para mim: "Marcelo" - que eu entreguei a lista dos meninos para ela e ela foi falar com a Secretaria lá e não sei como foi e deu fé que tinha um fora da escola. Eu acho que escapou na hora de matricular. Ou não tava lá dentro ou a mãe não quis ir, eu sei que escapou. Ela me ligou aqui: "Marcelo, tem um menino fora da escola.". E eu digo: "Como é o nome dele?". Quando ela falou o nome dele: "Ah, eu sei onde ele mora.". Aí eu já ensinei: "É local fulano de tal.". Essa hora tão lá, a Secretaria da Educação, caçando esse menino. Quer dizer, hoje nós temos tudo mas não é porque a vice-governadora é boazinha, não. Não é porque o povo do Distrito Federal é bonzinho, não. Nós conseguimos isso sabe por que? Luta, de verdade. Luta, organização e união de catadores. Quando tem um problema lá com uma cooperativa, se junta todas as 10 para resolver o problema daquela lá. Ela não é boazinha, ela não é nossa fada-madrinha. Não. Eu fosse sozinho, eu não conseguiria nada, é porque nós somos muitos. Ela é a vice-governadora, ela precisa de voto e ela viu a quantidade de gente que é todos unido e organizado. Ela não é boazinha, não. Cada um faz a coisa por interesse. Ela faz porque viu o número de gente que a gente tem, o quanto somos muitos, o quanto somos valiosos para ela. Porque nós temos valor pra ela, então ela está investindo o que puder nos catadores. Os catadores são muito em Brasília. Ela sabe que mexeu com um catador, mexeu com todos do Distrito Federal e isso quando a gente não dá uma ligadinha em volta para eles vir também e reclamar, para fazer confusão maior. E o que eu tenho a dizer é isso. Nossa vida hoje é uma maravilha, graças ao Fórum de Cidadania e também não esquecendo que nós temos lá uma ONG que se chama Movimento Nacional Meninos e Meninas de Rua e tem o Movimento lá do DF. E esse Movimento é o grande articulador das cooperativas que mantém elas unidas e incentiva a gente. Antes da gente ter esses apoios, ela incentivava a gente, organizava a gente e quando o governo vinha e batia de frente com a gente, mesmo sendo só uma cooperativa solta no meio de todas, sem a gente ter ligação uma com a outra, ela ia lá, organizava manifestação e desembestava em carroça lá para frente do Palácio Buriti, fechava, não deixava ninguém entrar nem sair. Essa ONG, aí eu digo: essa ONG é a nossa mãe, a nossa madrinha, é tudo. Essa ONG é o nosso lar. É aquela ONG que trabalha com as crianças, pondo criança na escola, educando, tirando das ruas. Mas o que ela fez? Ela usou uma estratégia. Foi trabalhar com adulto, pai do menino, para poder chegar até o menino, nas cooperativas. Trabalha lá com o adulto, organiza o adulto, o catador. Quando ta chegando na organização do catador, os meninos tão tudo na escola, na creche, nos programas sociais. E isso os pais não chegam nem a perceber se a gente não chegar e falar: "Ó, a meta foi cumprida.". Muitas vezes ela chega ao final do trabalho dela, essa ONG, e a gente nem percebe. Ela diz: "O final do meu trabalho chegou. Vocês tão todos organizados, trabalhando, não precisam mais da ONG.". Tem que se retirar para ir para outra. Cooperativa lá chora, se esperneia a presidência, se esperneia catador. Não sai, não. Da Cortrap lá, elas tentaram sair. "Você é tudo para nós.", que é quem representa a ONG lá. Ela diz: "Eu vou ficar enquanto amiga, mas como parceira, já chegou o momento. Vocês já tem tudo. Já tem creche, tem escola, tem tudo. Já tão organizado, já tão conseguindo andar com as pernas de vocês. Agora a vida é de vocês.". Um dia desses, ela tava anunciando na Coopativa dizendo que ia sair. Eu digo: "Nem pensar. Nem em sonho". Se são os parceiros mais importantes que a gente tem Isso é um crime quase duplo. Ó, São três mulheres e um homem que fazem todo esse trabalho com essas cooperativas do Distrito Federal dessa ONG que é o nosso lar. Tem o Rodrigo que, além de ser o educador dessa ONG, é o nosso secretário-executivo no Fórum de Cidadania. Pra nós segurar ele mais perto da gente, ele encontrou tempo como secretário-executivo. (risos) Tem a esposa dele, a Sílvia, que é a motorista da Kombi, que roda tudo quanto é buraco com a gente. E tem a Eliena, que é a educadora geral, que toma conta dos educadores, que é aquela que dá a ordem: "Tem que fazer, vocês vão ter que fazer, um vai para lá, outro para ali". E é a generalzão, quando o bicho ta pegando lá, os catadores tão se matando, brigando, de faca, de pau. Porque catador briga um com outro, né? Ninguém de fora mexe, não. Mas eles mesmos brigam, nós quando tamos junto, brigamos. Você encosta nesses dormitórios aí, quase todo dia tem briga e no final, quando vamos dormir, estamos todo mundo junto, conversando. Nós já brigamos com São Paulo, Rio de Janeiro, com gente de um bocado de lugar. Quando é no final, estamos todo mundo junto conversando, ninguém entende nada o que aconteceu. Porque catador é assim. Aí ela chega lá no meio: "Pode parar briga aqui. Pode parar.". Empurra para um lado, empurra para o outro, bota para sentar e "Vamos conversar. É assim que se conversa.". Muitas vezes catador puxou revólver na frente dela e ela disse que ficava com as pernas tremendo e sentava para disfarçar, dando uma de durona. (risos) Essa é a nossa mãezona, né? E a outra é a Sueli, essa não vai para o campo que nem as outras. Essa é a parte daquela que fica para administrar os problemas dentro do movimento, fazer ofício, fazer projeto, essas coisas. É a do computador. Nós chamamos "a do computador.". (risos) Essa é enjoada. Você vai falar uma coisinha errada, ela: "Vocês só ficam ligando aqui para perturbar, deixa eu fazer o meu trabalho.". E eu, como sou nojento, digo: "Mas você não trabalha, não, Sueli.". E ela: "Trabalho não? E os projetos que eu faço?" e aquela briga, né? Para zoar. É o nosso lar, é a nossa casa. A ONG no ano passado teve que fechar as duas portas porque não tinha nenhum projeto, não tinha dinheiro para manter ela aberta. O que foi que ela fez? Reuniram todo o quadro de funcionários, ficaram mais de seis meses abrindo as portas, trabalhando de graça. Para ir para casa era pedindo favor um para o outro, um amigo pedindo ao outro. Para ganhar dinheiro para sustentar a casa, tinha que ser em meio período, fazendo alguma coisa, algum outro trabalho, até a ONG se reerguer dinovo. Porque investiu o ano todinho no catador e não fez os projetos para manter ela, né? Lacrou as portas. Aí essa aí eu digo: "É a nossa casa.". Essa daí faz sem nenhum interesse. Faz por interesse, sim, de ver as crianças todas nos programas sociais e as famílias organizadas. Aí eu tenho muito que falar. E a minha vida é essa, né? Eu sou feliz fazendo o que faço. E me orgulho do que sou, sou catador e vou morrer catador, se Deus quiser e o Nosso Senhor. E no dia que eu morrer, a coisa que eu mais sonhava era ver um monte de catador andando atrás de mim no enterro, coisa que eu não vou nunca, né? (risos) P1 - (risos) Muito bom, muito boa a sua história. R - O que eu vou dizer para vocês é o que eu sempre digo para os catadores lá no Distrito Federal, sempre que a gente tá reunido, eu falo para eles. Eles dizem que eu sou durão, eu tenho o apelido de ditador. Mas não é, é porque eu mantenho a ordem. Eu sou bonzinho, mas eu gosto de manter a ordem. A Coopativa hoje, vá um chegar lá e dizer para um catador, de todos os que estão lá hoje, em torno dos 1500: "Você não pertence a essa cooperativa.". Eles te cobrem no pau. Um dia eu fiz um teste com um lá, o mais nojento que tinha, que brigava comigo dizendo que eu ia sair da cooperativa, que eu ia levar um tiro. Ele disse: "Cadê o meu crachá?". E eu digo: "Você não tem crachá, você está excluído da cooperativa.". Meu amigo, esse homem veio em cima de mim, foi para me matar. Eu digo: "Eu tô é brincando, eu tô é brincando, eu tô é brincando.". A Eliena já disse: "Marcelo, você tem uma cooperativa de ouro. Porque você fez com que o povo te amasse tanto quanto você ama ele.". Eu digo: "É a minha família.". Porque eu chorava de desgosto quando via eles me chamar de ladrão, dizendo que eu queria roubar eles. Eu chorava. Hoje em dia, é a coisa que eu mais tenho orgulho na minha vida. A minha vida. Tenho um ditado que eu digo, é esse: viva com o povo, não para o povo. Mas eu vivi muitos anos para o povo, para os meus catadores, eu vivia para eles, eu entreguei a minha vida para eles. Eu não sabia o que era diversão, eu não sabia o que era nada. Era resolver problema de catador e ir pro meu barraquinho, resolver problema de catador e ir pro meu barraquinho. Aí eu comecei a me juntar com eles. Ia para copa, para rio, para forró e nós começávamos a beber, vinha uma penca de lá para cá tudo bêbado, caindo. Os que não agüentava chegar em casa, os outros traziam. Aí eles perguntaram um dia para mim: "Marcelo, tu mudou tanto, por quê? Tu não andava em festa, tu não bebia.". Eu digo: "Porque vocês me ensinaram que a gente nunca deve viver para o povo mas sim viver com o povo. E eu estou vivendo com vocês. Eu não vou viver para vocês para morrer e vocês viverem.". "Mas por que você diz isso?". Eu digo: "Porque vocês me fizeram assim, me criaram para eu, hoje, eu estar representado vocês em qualquer lugar. E eu quero representar vocês hoje e amanhã e durante muitos anos. Do jeito que eu estava fazendo, tava errado. Eu tava morrendo pouco a pouco e vocês tavam continuando a viver. E o que é mais importante para mim é porque o que eu faço para vocês não é só por amor, não. Eu faço porque o que eu estou fazendo para vocês, eu estou fazendo para mim mesmo. Se vocês tão ficando com uma vida boa, eu tô tendo a minha vida boa também. Não é só por amor.". O que digo por amor mesmo que eu faço, que eu gosto de fazer porque o trabalho todo que eu faço na cooperativa é voluntário, eu não tenho remuneração nenhuma, vindo diretamente do catador. A minha remuneração é eu sair na rua hoje e coletar material e juntar para vender. Caso contrário, eu não tenho renda nenhuma. Às vezes, eles até reclamam mas eu digo: "Não, mas essa é a minha meta, tem que ser assim, eu gosto que seja assim.". Quando eu não tenho para onde tirar nada, eu vou lá nos meus conhecidos, ou vou nos catadores: "Meu Deus, tô precisando de tanto e tanto. Me arruma aí?". "Ah, Marcelo, tu vai trabalhar?". Digo: "Eu mesmo, não Quero ser que nem o Lula Quero viver de doação." (risos) E vou enrolando a vida, né? Mas o importante é que quem me chamava de louco naquela época, todos, tanto os catadores como os de fora, todo mundo que me conhecia dizia que eu era louco. Eles diziam: "Eu tinha suspeito que tu era louco, mas agora eu tenho certeza que tu é louco. Eu tenho certeza que isso não vai dar certo porque construir uma cooperativa, puxar os catadores e falar para assinar ata e estatuto sem reunião, sem nada, sem ninguém concordar e chegar ao nível que chegou hoje, uma das mais fortes do Distrito Federal e no nível mais organizado que ta.". É muita luta, né? Só que tem muita gente que não entende. Para qualquer outra pessoa que chegar lá e fazer isso, ia ser difícil organizar, ia ser muito difícil. Mas mesmo eles me xingando, brigando comigo, tinha a confiança porque eles me conheceram com 12 anos de idade, né? Era um montão de ano já. Eles tinham já uma certa confiança e desconfiança. Isso tudo era mais fácil para mim, além da briga deles, eu tinha aquela ligação com eles todos, era a minha família. Ali eu vivia e vivo até hoje, aquela ligação. Hoje em dia não tem o que falar do catador. Hoje em dia o catador quer saber de terreno para trabalhar, de casa para morar e não se fala mais em catador não querer saber de cooperativa. Quando vem um novo catador de fora e quer entrar na cooperativa, eles quer brigam: "Não, Marcelo, a cooperativa é nossa.". Eu digo: "Não, a cooperativa é de nós todos. Vocês parem de ser egoísta.". Eu tenho um negócio que no Natal, eu sou o único presidente de cooperativa no Distrito Federal que consegue arrecadar quase todas as cestas básicas dentro do Distrito Federal para os catadores. Esse ano nós batemos o recorde. Ano passado foi só duas mil cestas. Aí dessas duas mil cestas, eu entreguei mil e quinhentas para os catadores da cooperativa e o resto repassei para outra cooperativa, a Cortrap de Cataguazes, para as famílias lá, o que sobrou. Esse ano eu bati o recorde, todo mundo diz que eu sou o mendigão, o mendigão mais rápido que tem porque eu saio pegando todos os órgãos do governo federal e entro no Natal sem Fome e vou juntando tudo. Esse ano eu bati o recorde de cinco mil cestas. Cinco mil cestas para mil e quinhentos catadores, eu tive que repassar para mais duas cooperativas. Então eu consegui beneficiar três cooperativas. Brinquedos, lá são 180 crianças. Foi dois mil brinquedos para as crianças lá. Foi a melhor festinha para crianças, o melhor Natal que eu passei lá, é uma tradição que eu tenho, de correr atrás de cestas para o Natal. Quando chega o mês de dezembro, eles já começam: "E as cestas, Marcelo? Tá atrás?". E eu digo: "Não vou, não. Esse ano eu não vou atrás.". Às vezes, sem querer: "Ô Marcelo, você não vai pegar cesta esse ano, não?". Eu digo: "Ah, tem? Tem quanto?". "Tem 60.", "Tem 30.". Eu digo: "Ah, eu quero.". Esse ano que eu peguei cinco mil cestas, era o ano que eu não ia pegar cestas, eu digo: "Eu não atrás de cestas, não. Trabalho danado.". Aí começa, um liga: "Marcelo, tu não vai pegar uma cestinha aqui?", "Não vai pegar outra ali?", um comerciante e outro e outro e vai, algum órgão do governo, né? Eu digo: "Ô tentação". (risos) Aí eu começo a correria, vou juntando, vou juntando. A única coisa que o Fórum de Cidadania - DF e os apoiadores discutem muito comigo é que eles querem me mudar porque eu sou assim: eu vou, negocio, negocio, negocio com o governo. Vou, tento fazer o governo ficar com o coração mole, tento, tento. Aí a última opção é eu fazer um escândalo bem grande para ver se eles ficam com vergonha no meio do povo. Que eu tento, tento. Eu tenho duas opções, né? Levar pelo lado do coração, da emoção, da razão. Quando não vai, eu passo para o lado do escândalo. Aí com o escândalo, eu resolvo. E dizem: "Marcelo, tu tem que mudar.". Aï eu olho para eles lá, o Sérgio Bueno, o povo das ONGs e digo: "Olha, eu sou uma pessoa que nasci da natureza, eu sou indomesticável. Ninguém nunca vai me domesticar. Então deixa eu ser do jeito que eu sou? Eu sou feliz do jeito que eu sou, eu consigo do jeito que eu sou e todos gostam de mim do jeito que eu sou.". Porque quando eu chego, se eu vejo primeiro secretário, assessor, ministro, essas coisas, se eu ver eles primeiro, eles não lacram a porta, não. Mas se eles ver eu antes de eu ver eles, eles correm, fecham a porta e se esconde no banheiro. Para não me atender. Mas quando eu vejo eles primeiro, eles não fecham a porta porque sabem que se eu ver e eles fecharem, eu derrubo a porta. (risos) E para gente conseguir as coisas, não é só a gente chegar também... Teve dias de eu sair 8 da manhã lá da cooperativa e sentar num órgão daquele do governo e ficar até 5 horas, 6 horas da tarde lá sentado para um me receber, no castigo mesmo. Agüentando até a última, entendeu? Aí o cara quando já tá assim bem cansado, resolve passar para o escândalo, né? No Ministério da Cidade, esse dia, tinha o Crédito Solidário. Eu entrei com toda a documentação, tudo certinho, protocolei e foi reprovado por um erro deles lá no preenchimento de uma ficha que era eles que tinham que preencher. Aí tudo bem, eu digo: "Ainda tenho o direito de entrar com o recurso, não vou fazer escândalo agora.". Entro com o recurso, não deixo nem eles preencherem a ficha, digo: "Eu quero preencher a ficha." - porque é sempre uma moça lá que escreve - "Não, não pode.". Aí eu digo: "Então preenche na minha frente, eu quero ver.". Com vinte dias, eu vou lá e digo: "E aí? Como é que tá o recurso?". "Ah, foi reprovado por um erro nosso.". Menina, quando disse isso, eu comecei a fazer escândalo, comecei a ligar para televisão, para jornal, tem lá um jornal chamado Correio Braziliense que basta eu ligar já sabem que é escândalo, algum coisa do governo, vem correndo. Tem a TV Record lá de Brasília, que quando eu ligo lá para a moça lá que toma conta do setor de reportagens, ela já manda repórter correndo porque já sabe que o escândalo é grande. Aí foi repórter querendo entrar no Ministério, querendo saber o que tava acontecendo: em menos de meia hora eles deram uma ajeitada no documento e disseram: "Não, a cooperativa foi complementada.". Aí eu recebi 40 casas. Agora repara o meu escândalo, por quê? A Coopativa, eu precisava de 60 casas, 60 créditos para construir casas para os catadores, eles abriram o crédito de 40 casas. Só que eu tinha feito o protocolo e combinado com uma outra cooperativa que não tinha ainda os documentos em ordem que o que saísse era metade da Coopativa e metade dessa cooperativa. Aí o que eu fiz? Tava fazendo escândalo e quando saiu, eu liguei para moça e disse: "Antonia, a Cataguazes tem 20 casas.". "Só 20?", eu digo: "Só 20, metade para Coopativa e metade para a Cataguazes.". Ela achou pouco, aí eu digo: "Não, então a Cataguazes tem 30 casas e a Coopativa tem 10.". Porque eu sei que eu sou mais fácil de arrumar, porque eu sou cara-de-pau, né? Aí nós estamos esperando sair de férias para liberar os créditos para a construção das casinhas. Nós já temos o arquiteto que vai construir a planta das casinhas e.. voltando um pouco na cooperativa, que eu gosto de falar... Ó, vocês tem que mandar eu parar, viu? P1 - Não, fica à vontade (risos) R - Falar na cooperativa, agora nós só precisamos do documento do terreno, já temos o financiamento da Fundação para construir um galpão de mil metros quadrados. Só que os coitados ainda não sabe. Que eles perguntaram: "Marcelo, quantos metros quadrados o galpão?", e eu disse: "É mil metros.". E eles estão por fora. Eu pedi para o arquiteto da Caixa fazer o projeto de um galpão de mil metros. Mas é mil embaixo e mil em cima e os coitados tão achando que vão ser mil metros, mas vão ser dois mil metros, para economizar o terreno. Aí nós recebemos também um caminhão pela Fundação Banco do Brasil. Pelo governo do Distrito Federal teve um projeto que junto com o Fórum de Cidadania fez um projeto que era para pegar recursos do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Social] que só pegava se fosse através do governo do Distrito Federal. Então o Fórum de Cidadania fez todo o projeto e o governo assinou, como se fosse dele. E foi aprovado já. Esse projeto é a estrutura completa de todas as 10 cooperativas. Então daqui para o fim do ano, todas as 10 já estão com toda a estrutura necessária para estar funcionando normalmente com prensa, balança e caminhão. E nisso aí a mulher vai se candidatar, né? E tava pensando nisso, que nós vamos tudo votar nela. Mas deixa a bichinha, né? A bichinha é boa também, tá ajudando, de certa forma. E acho que eu vou encerrar por aqui, já tô suadinho... (risos) senão chega hoje, chega amanhã e aparece muita história para contar... P1 - (risos) Tá bom... R - Não tá bom, não. Vou falar, tem mais uma coisa para falar: tem a outra cooperativa, a Cortrap que foi um exemplo que ela foi criada dentro de um cerrado, nasceu dentro de um cerrado e se tornou uma cooperativa que tem tanta autonomia que ela se construiu parte dela, quase toda, por recursos dos próprios catadores. Isso é que é bonito Se eu não falar isso aí e eles olhar lá, eles me mata (risos) P1 - (risos) Tá bom, então... R - E encerrei. (risos) P1 - Muito boa a sua entrevista. Se lembrar de mais histórias, volta aqui. P2 - Ótima. R - Não, não faz isso, não (risos) Tem uns meninos da cooperativa lá loucos para subir e achando que vocês não recebem eles. Para contar histórias. P1 - Ah, não. P2 - Claro que recebe. R - Então vou trazer eles. P1 - Pode trazer.
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