Projeto Memória e Migração
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de José Lorber Rolnik e Farid Belaciano Lorber Rolnik
São Paulo, 7 de dezembro de 1991
Código: MM_HV006
Transcrito por Beatriz Mesalira Alves
P/1 – Museu da Pessoa. 7 de dezembro de 1991. Casal Rolnik. Por favor, eu gostaria que cada um dissesse o seu nome completo.
.
R/1 – José Lorber Rolnik.
R/2 – O meu é Farid Belaciano Lorber Rolnik.
P/1 – Por favor, o lugar onde vocês nasceram.
.
R/1 – Eu sou nascido em São Paulo, capital.
R/2 – Eu nasci no Líbano, em Beirute.
P/1 – Farid, quando foi que você veio pro Brasil?
.
R/2 – Nós viemos em abril de 1957, do Líbano diretamente pro Rio de Janeiro.
P/1 – Certo. Vocês saíram por quê?
.
R/2 – Porque meus pais acharam que aqui no Brasil nós teríamos mais chances de ter uma vida um pouco melhor do que no Líbano. Como realmente aconteceu, né? Por ser um país em guerra e tudo mais. E porque o meu pai tinha família aqui também.
P/1 – Certo. José, os seus pais são imigrantes. Eles vieram de onde e por quê?
R/1 – Meus pais vieram da Polônia, fugidos da Segunda Guerra Mundial.
P/1 – Certo. No caso, você conhece a origem do seu nome?
R/1 – Meu nome tem um misto alemão e polonês. O “Lorber” significa loureiro...
P/1 – Loureiro?
R/1 – Louro, loureiro. E o “Rolnik” seria um agricultor, trabalhador da terra.
P/1 – Certo. Farid, seu nome, você tem ideia da origem?
R/2 – Não. Eu só sei que o nome veio de Portugal, né. Mas realmente não sei exatamente o que significa. Só sei que veio de lá.
P/1 – Certo. E quais costumes vocês mantêm e procuram preservar dentro de casa? Que a família manteve.
R/1 – Esses costumes são os costumes que nós trouxemos de ____, de origem judaica. E procura-se manter e passar a tradição de geração em geração aos filhos.
R/2 – Basicamente as festas judaicas, né?
P/1 –...
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Projeto Memória e Migração
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de José Lorber Rolnik e Farid Belaciano Lorber Rolnik
São Paulo, 7 de dezembro de 1991
Código: MM_HV006
Transcrito por Beatriz Mesalira Alves
P/1 – Museu da Pessoa. 7 de dezembro de 1991. Casal Rolnik. Por favor, eu gostaria que cada um dissesse o seu nome completo.
.
R/1 – José Lorber Rolnik.
R/2 – O meu é Farid Belaciano Lorber Rolnik.
P/1 – Por favor, o lugar onde vocês nasceram.
.
R/1 – Eu sou nascido em São Paulo, capital.
R/2 – Eu nasci no Líbano, em Beirute.
P/1 – Farid, quando foi que você veio pro Brasil?
.
R/2 – Nós viemos em abril de 1957, do Líbano diretamente pro Rio de Janeiro.
P/1 – Certo. Vocês saíram por quê?
.
R/2 – Porque meus pais acharam que aqui no Brasil nós teríamos mais chances de ter uma vida um pouco melhor do que no Líbano. Como realmente aconteceu, né? Por ser um país em guerra e tudo mais. E porque o meu pai tinha família aqui também.
P/1 – Certo. José, os seus pais são imigrantes. Eles vieram de onde e por quê?
R/1 – Meus pais vieram da Polônia, fugidos da Segunda Guerra Mundial.
P/1 – Certo. No caso, você conhece a origem do seu nome?
R/1 – Meu nome tem um misto alemão e polonês. O “Lorber” significa loureiro...
P/1 – Loureiro?
R/1 – Louro, loureiro. E o “Rolnik” seria um agricultor, trabalhador da terra.
P/1 – Certo. Farid, seu nome, você tem ideia da origem?
R/2 – Não. Eu só sei que o nome veio de Portugal, né. Mas realmente não sei exatamente o que significa. Só sei que veio de lá.
P/1 – Certo. E quais costumes vocês mantêm e procuram preservar dentro de casa? Que a família manteve.
R/1 – Esses costumes são os costumes que nós trouxemos de ____, de origem judaica. E procura-se manter e passar a tradição de geração em geração aos filhos.
R/2 – Basicamente as festas judaicas, né?
P/1 – Certo. Gostaria que um de vocês me dissesse, descrevesse uma dessas festas.
R/1 – São várias. Nós temos a Páscoa, que são sete dias em que se deixa de comer todo e qualquer alimento fermentado. Existe a Semana das Cabanas, em que se procura durante oito dias fazer todas as refeições dentro dessas cabanas. Nós estamos passando hoje o penúltimo dia da Festa das Luzes, uma tradição que remonta a mais ou menos 2500 anos atrás da destruição do templo pros gregos. Conta-se que houve um milagre de um mínimo de óleo que havia para acender e esse óleo durou oito dias, a quantidade suficiente para se preparar um novo óleo. Então a isso se traduz hoje em dia e a cada um dos oito dias se acende uma vela ou uma chama a mais em recordação ao milagre ocorrido naquela época.
P/1 – Certo. Vocês continuam estudando as tradições? Vocês continuam mantendo o vínculo?
R/1 – Sem dúvida.
P/1 – Certo. Como foi o tratamento que vocês receberam dos pais de vocês? Eles incentivaram vocês a uma profissão? Eles incentivaram fazer uma atividade diferente da que vocês têm hoje em dia? Como foi isso?
R/2 – No meu caso meus pais sempre fizeram muita questão que os filhos todos se formassem, fizessem uma faculdade. E realmente todos nós em casa somos formados. Cada um tem a sua profissão e a minha, pelo menos, eu sigo até hoje. Eu sou professora e eu levo o que eu realmente gosto.
R/1 – No nosso caso não foi muito diferente, embora, como eu contei aqui, são imigrantes que vieram fugidos da guerra e praticamente chegaram no Brasil vindo de outros países que não os receberam bem e que vieram praticamente com nada no bolso e reconstruíram suas vidas aqui nesse país, no Brasil, e puderam tentar fazer o melhor deles dando educação e estimulando que os filhos estudassem. Eu tenho dois irmãos que hoje são jornalistas e eu sou médico e todos nós tivemos a chance de poder estudar.
P/1 – Certo. Você poderia me traçar um pouco a trajetória dos seus pais, a saída deles da Polônia? Dizer onde eles moravam, onde nasceram e a trajetória até o Brasil?
R/1 – Eu posso tentar reorganizar aqui, né, mas... [risos]. Meus pais são oriundos de duas cidades próximas, duas aldeias próximas na Polônia. Uma é inclusive tradicionalmente conhecida como a “Portugal da Polônia”, é uma cidade chamada Hel e que se contam muitas piadas a respeito dos habitantes dessa cidade, como nós hoje fazemos aqui dos portugueses, né [risos]. E a outra é de uma aldeia próxima, 10, 12 km, ____. Nós falamos 10, 12 km lá, hoje isso não é mais uma distância. Durante o Pacto de Ribbentrop, se não me falha a memória, de não angariação entre alemães e russos, houve uma invasão por parte dos alemães em cima da Polônia e todos os judeus que moravam na faixa de fronteira próxima da Rússia pensaram que na Rússia estariam mais garantidos, pelo menos na sua sobrevivência, e fugiram. Isso aconteceu com meus pais. A permanência deles na Rússia não demonstrou bem isso: foram tão perseguidos ou mais perseguidos do que pelos próprios nazistas. Eles ainda tiveram a oportunidade de escapar algumas vezes de execuções coletivas, voltaram pra Polônia e de lá começaram uma peregrinação passando por alguns países da Europa. Passaram a ter a ideia de vir pra América do Sul, ficaram na Bolívia durante algum tempo. Bolívia-Buenos Aires e de Buenos Aires estabeleceram-se em São Paulo.
P/1 – Certo. Farid, os seus pais, você, toda sua família veio junto, né? Seus pais e seus irmãos. Vocês vieram diretamente...
R/2 – Sim. Direto. Foi, tipo, Beirute-Rio de Janeiro, passando por algumas cidades da Europa de navio e quase um mês de viagem. Mas foi direto porque os parentes do meu pai moram no Rio, né. Então nós viemos diretamente pro Rio. Teve os altos e baixos, né [risos].
P/1 – Certo. E a sua mudança pra São Paulo? Vocês gostam de São Paulo?
R/2 – Sim. Nós, antes de virmos pra São Paulo, nós moramos no Paraná. Nos casamos no Rio, fomos morar sete anos no Paraná e faz sete anos que moramos aqui em São Paulo. Sem dúvida nenhuma, Rio e São Paulo, pra mim, são os melhores lugares do Brasil [risos].
P/1 – E ____, o que vocês acharam da exposição? Vocês gostaram?
R/2 – Eu não tive a oportunidade de conhecer a do Rio, que eu soube que foi muito boa, muito completa. Eu vim ver só essa aqui, mas estou muito contente, acho que foi assim... tá muito bonita, apesar de ser um pouco mais restrita que a do Rio. Mas tá muito bonita.
P/1 – Se vocês fossem emigrar hoje, vocês iriam pra onde? Tem alguma ideia, algum desejo?
R/1 – Olha, é muito difícil de responder isso. Nós estamos vivendo hoje em 1991, final de 1991, uma crise no nosso país, mas, ainda assim, o país sobrevive apesar de tudo e nós fazemos parte do conjunto que leva esse país pra frente.
R/2 – Eu sairia de São Paulo pra ir pra São Paulo mesmo [risos]. Não iria pra outro lugar não. Só trocaria São Paulo pelo Rio, mais nada. Só isso?
P/1 – Só isso. Obrigada.
R/1 – Eu que agradeço.
R/2 – Obrigada.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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