Projeto Memórias do Desenvolvimento Solidário
Entrevista de Alemberg Quindins
Entrevistado por Bruna Oliveira (P/1) e Marcelo Justo (P/2)
São Paulo, 13/05/2026
Entrevista n.º: MDS_HV001
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Selma Paiva de Oliveira
Revisada por Bruna Ghirardello
(00:00:19) P/1 - Então, para começar, eu queria que você dissesse o seu nome completo, a data e onde você nasceu.
R - Meu nome é Francisco Alemberg de Souza Lima, conhecido mais por Alemberg Quindins. Nasci no Crato, Ceará, na região do Cariri, em 1964, dia 19 de dezembro.
(00:00:46) P/1 - E por que Alemberg Quindins?
R - Primeiro, Alemberg vem de um... minha mãe assistia novela de rádio e tinha uma novela que tinha um conde com o nome de Conde de Alemberg. (risos) Aí minha mãe achou bonito esse nome e ‘botou’ o nome Alemberg. E uma tia minha deu o nome de Francisco, para ficar aquela devoção de São Francisco. E um tempo a gente montou uma banda por nome Os Meninos dos Quindins. E quando terminou a banda, eu fiquei com esse apelido. Aí as pessoas ficavam chamando: Alemberg. “Que Alemberg?” “Aquele dos Quindins”. Aí ficou Alemberg Quindins. Eu tinha uma pessoa que só chamava Quindins. Então, eu tive que carregar mais essa cruz nas costas (risos) com esse apelido de Quindins. Aí, pronto, eu relaxei e deixei o povo chamando do jeito que eles gostavam de chamar. (risos)
(00:01:55) E me conta como que era o nome dos seus pais.
R - Meu pai [era] Miguel Ferreira Lima, natural de Nova Olinda. Minha mãe, [era] Maria Valdiza de Souza, natural de Assaré.
(00:02:11) P/1 - E como que você os descreveria.
R - Meu pai era uma pessoa formada em Farmácia, era enfermeiro e tinha uma farmácia na cidade de Nova Olinda. Era também um comunicador, porque ele tinha uma amplificadora. E também era dono de um time de futebol. O time de futebol da cidade era dele. (risos) E minha mãe… na época, chamava do lar, mas minha mãe tinha uma sorveteria e essa sorveteria era onde paravam os ônibus da cidade. Quando passavam pela cidade, paravam lá, nessa sorveteria. (risos)
(00:02:53) P/1 - E que sabor de sorvete você mais gostava?
R - O suco de cajá dela era bom. Até hoje ela cozinha, tudo que ela faz é bom. Eu aprendi a cozinhar com ela. (risos) Lá em casa todo mundo gosta de cozinhar, porque minha mãe cozinha muito bem.
(00:03:10) P/1 - E ensinou todo mundo?
R - Ensinou todo mundo. Ensinou pela boca. (risos)
(00:03:16) P/1 - Que é o melhor jeito, né?
R - É. (risos)
(00:03:19) P/1 - E como era o nome do time de futebol do seu pai.
R - Era o Titan Futebol Clube. Eu me criei vendo o Titan jogar.
(00:03:29) P/1 - E você jogava também, ou não?
R - Eu era aquele que entrava com o time. Eu sentava na bola, na hora da foto. E tinha um goleiro por nome de Chico. E ele era tão bom que o apelido dele ficou igual ao meu, Alemberg Quindins. Chico Goleiro. Ele jogava no time da cidade vizinha. E o time do meu pai perdia, porque não tinha um goleiro bom igual aquele. E aí meu pai resolveu montar uma bodega para ele, lá em Nova Olinda e o trouxe para jogar no time dele. E eu ficava a partida de futebol todinha, o povo olhando o jogo e eu olhando o Chico defender bola. Sentava numa pedra de paralelepípedo atrás do gol e ficava vendo. E Chico tinha uma coisa que eu nunca vi um negócio daquele. Até hoje nenhum goleiro fez aquilo, que eu vi. Ele fazia o seguinte: pulava na bola, porque nessa época o goleiro, quando chutava uma bola, ou encaixava ou ia buscar e caía com ela agarrada. Não tinha esse negócio de espalmar, não. Isso aí não era goleiro, não. Quem espalmava bola era bate-roupa. E ele tinha uma coisa que ele deixava a bola passar da linha dele e ia buscar a bola lá atrás, pulando para trás igual um gato. Então, isso aí era uma coisa (risos) que era uma marca registrada dele fazer isso, que a bola passasse dele, para dar aquela emoção. Tipo assim: passou do goleiro é gol, né? Pois ele fazia o contrário. (risos) Ele deixava a bola passar dele e pulava para trás e pegava a bola. Então, com isso eu também me dediquei, desde menino, a jogar no gol. Eu jogava no gol. Eu sempre fui baixinho, goleiro tem que ser alto, né? Mas eu compensava com velocidade e boa colocação, debaixo da trave. Eu sempre estava debaixo da trave, porque a trave era alta. E aí é o seguinte: aí eu fazia isso e tinha uma rapidez, assim, de pular nos pés do atacante e tudo. Então, eu sempre... Chico me inspirou justamente por causa desse time de meu pai. E ele tinha a amplificadora da cidade, era dele. Então, a amplificadora… antes dessa era do rádio, foi a época da amplificadora, que eram aqueles megafones, aqueles fones de latão que ficavam pendurados nos postes. Antigamente os postes da cidade eram de madeira. E normalmente toda cidade do interior tinha aquela configuração: a praça central e ali onde se dava o movimento da juventude. Na época a Nova Olinda não tinha energia, tinha um motor e esse motor funcionava até determinada hora. Então, no sábado e no domingo, meu pai mantinha essa amplificadora tocando música. Então, ficavam na praça os homens sentados, as mulheres circulando e aí tocava a música e os homens faziam o pedido, lá na amplificadora. Aí ‘botava’: “Alguém de calça marrom, com camisa verde, sapato cavalo de aço, (risos) para alguém de vestido branco, com bolinhas vermelhas, essa linda página musical. Aí tocava as músicas: “Receba as flores que lhe dou”. Isso dava os namoros, os casamentos. E meu pai tinha uma coisa, que era assim: altas horas da noite ele ficava ouvindo a BBC de Londres, que ia limpando a transmissão das outras rádios e aí ia ficando, que eram ondas longas, escutando. Então, aquelas músicas que tocava na rádio ele ia buscar comprar o disco. Na época se comparava na Chantecler, em Recife. E aí ele trazia para a amplificadora. Então, a marca registrada da amplificadora dele era ser atualizada em relação à música. Então, eu me criei dentro da discoteca da amplificadora A Voz da Liberdade, vendo essas capas de disco dos Beatles, da Jovem Guarda, da Velha Guarda. Eu adorava olhar capas de disco, porque eram muito bonitas e de estar lá dentro da amplificadora. Então, foi o ambiente que eu me criei, esse: o time de futebol do meu pai, ouvindo música. E ele era um grande estudioso de literatura. Lá em casa tinha a Cesare Cantú, a coleção da História Universal. Então, ele era uma pessoa pesquisadora, que gostava disso aí. Por exemplo: lançou o primeiro relógio com o marcador aqui vermelho. Aí tinha que ter, porque lá em Nova Olinda tinha que ter as coisas atuais. (risos) Foi assim que eu me criei com o meu pai. E minha mãe, o que me marca muito é, assim, na cozinha mesmo, ela fazendo os bolinhos, as coisas para a gente comer. Então, era mais essa pessoa mesmo. Na hora que a fome apertava, tinha uma coisa boa para a gente comer. (risos)
(00:09:22) P/1 - E como que eles se conheceram, você sabe?
R - Eles se conheceram, meu pai já tinha trinta e poucos anos e minha mãe tinha dezoito. Ela foi passear lá em Nova Olinda e ele a achou bonita, pegou e a pediu ao pai dela em casamento. Ela se casou porque o pai disse que tinha que casar. (risos) Ela se casou com ele por conta disso. Não tinha aquela coisa que eles se conhecessem, se apaixonassem. Não. A paixão dele foi pela beleza dela e o pai dela disse que ela tinha que se casar com ele. Naquela época era assim e eles se casaram.
(00:10:08) P/1 - E você chegou a conhecer os seus avós?
R - Os de parte de mãe, sim. Meu avô era militar, ele participou da - morreu com 102 anos - Segunda Guerra Mundial; participou aqui da Guerra do Tenentismo, na década de 1930, aqui em São Paulo e participou da Guerra do Caldeirão também, do Beato Zé Lourenço, que aconteceu na região do Cariri. Então, ele contava essas histórias, dessas façanhas dele.
(00:10:46) P/1 - Tinha alguma história que você lembra até hoje, que ele contou?
R - Ele contou que ele foi a primeira pessoa, quando invadiram o quartel aqui, a entrar no quartel, abriu o portão e entrou junto com a tropa.
(00:11:06) P/1 - E você tem lembranças, assim, deles como avós, desses momentos?
R - Sim, tem. Embora eu tenha conhecido meus avós por parte de mãe porque, por parte de pai, ambos já tinham morrido, eu fui criado, a minha infância, de nove aos dezoito, ali no Parque do Araguaia. Meu pai foi embora em 1974, separou da minha mãe e nós éramos quatro: meu irmão e minhas duas irmãs. Então, as duas meninas ficaram com a mãe e os dois meninos tiveram que seguir o pai. E nós fomos morar em uma localidade com o nome Miranorte, à margem da [rodovia] Belém-Brasília. Hoje é estado do Tocantins. Então nós chegamos ali, era o norte de Goiás e ficava entre o Rio Araguaia e o Rio Tocantins. Então, isso fez com que a gente não convivesse muito tempo na infância com minha mãe, porque eu convivi com minha mãe só até os nove anos de idade. Isso fez com que a gente passasse dez anos também no estado, ali, de Goiás. Vivi, amadureci como jovem ali, no estado de Goiás. Tanto que a cidade que, para mim, é a cidade minha, vamos dizer assim, de origem, é Miranorte, porque foi lá onde comecei a me desenvolver. Até então eu era criança, em Nova Olinda. Eu nasci no Crato, porque todos os filhos tinham que nascer no Crato, porque o Crato, ali na região, era a Vila Real. Então, era a cidade onde estava o Bispado. O Crato foi a primeira cidade no Brasil a se declarar independente de Portugal, no dia 3 de maio de 1817. Então, aderiu à Revolução Pernambucana e o Frei Caneca foi preso lá, no Crato. Então, era uma cidade que tinha uma coisa assim, uma história e meu pai levava para nascer no Crato, porque ali já tinha uma nobreza, (risos) em nascer no Crato. Mas a gente morava em Nova Olinda. Em 1974, nós fomos ali para aquela região. Chegamos no período da Guerrilha do Araguaia. Então, eu me criei criança ali, ouvindo falar da Dina, do Osvaldão, daquela região no Bico do Papagaio.
(00:14:13) P/1 - E você chegou a ver a Guerrilha, algumas das pessoas, ou era só uma conversa que devia ter lá?
R - Era assim: a gente via os soldados passando, indo para a guerrilha. A gente tinha aquela coisa, aquele medo, que as pessoas falavam dos ‘terroristas’. Aí se contavam essas histórias. Tinha uma figura que eu era fã, que se contava muita história dela, que era a Dina. Diziam que era uma mulher que o soldado se tremia de encontrar com ela, porque ela atirava rolando no chão com a metralhadora e era o terror do Exército. A Dina, a gente tinha um fascínio pela lenda da Dina dentro da floresta, na Floresta Amazônica, ali, que pega depois do Rio Araguaia, subindo para o Pará. Depois de muito tempo eu fui, voltei lá, no local onde foi a guerrilha, para saber mais dela, porque eu fiquei assim: aquelas coisas da heroína da infância, para saber sobre ela. E aí soube da pessoa que entregou, como foi a morte dela. Ela morreu grávida. No ato que recebia os víveres de uma pessoa e o Exército apertou, essa pessoa entregou onde é que ela entregava comida a ela, que ela saía dentro da floresta, para receber. E aí eles fizeram emboscada e a pegaram. E no ato que foram matá-la dentro da floresta, que tinha uma coisa que ‘botava’ uma venda, ficava de costa e eles fuzilavam. E ela disse: “Não, eu quero que você tire essa venda do meu rosto e eu quero morrer olhando nos olhos do assassino”. E aí ela foi alvejada e ali mesmo ela foi enterrada, até hoje não se sabe onde é que está o túmulo da Dina, lá. Depois eu fui pesquisar, ela era baiana, era médica e foi para lá, na Guerrilha no Araguaia, naquele tempo que se dizia que a revolução tinha que vir do campo. Então o capitão Lamarca desceu para a Bahia e a Dina, com Osvaldão, foi para o Parque do Araguaia. Então foi essa a infância que eu vivi, ouvindo falar desses personagens, (risos) lá no Goiás. E era interessante que a gente tinha um campinho de futebol que a gente jogava na margem da Belém-Brasília e os caminhões dos soldados passavam para ir para a guerrilha e lá tinha uma coisa que, nesse campinho, tinha uma lagoa. E lá o campo era interessante porque o seguinte: cada gol, o time que fazia gol tinha direito de mergulhar na lagoa, era como que fosse o prêmio. E aí uma coisa que tinha nesse campinho é porque, por ser essa coisa de poder mergulhar na lagoa quando o time fazia o gol, comemorava dentro da lagoa, os meninos jogavam tudo nus. Então, o soldado passava e via aquele monte de meninos jogando pelado, (risos) achava engraçado, dava com a mão, assim. Então, eu me lembro desses detalhes do período da guerrilha, desse local onde a gente chegou. Então lá foi onde eu vivi a minha vida, foi onde eu cresci, entre o Cerrado goiano e a Floresta Amazônica.
(00:18:35) P/2 - O que o seu pai falava da Ditadura Militar, ou da guerrilha? Qual era a posição dele?
R - Era interessante, porque meu pai foi prefeito em Nova Olinda e ele foi prefeito justamente na década de 1970, 1971. E uma coisa também foi o seguinte: que o Exército fez treinamento de guerra lá em Nova Olinda. Eu me lembro, eu criança, indo para uma barraca e meu pai levava junto com o pessoal do Exército, o coronel e tudo e eles fizeram treinamento de sobrevoo soltando bombas, que era justamente para fazer uma demonstração que se pensava em fazer uma base lá, porque o Cariri fica a 700 quilômetros de todo o litoral nordestino. Então, para se fazer uma varredura de lá, a gente diz que todas as praias do nordeste, se a gente sair de manhã, no fim da tarde está lá, porque fica a essa distância. Então, o Exército foi para lá, fez treinamento de guerra. Eu me lembro como hoje: tinha uns que tinham a cabeça pelada e outros que tinham cabelo e aí eles usavam uma fita de uma cor e outra de outra. Então, eles lutavam com bala de festim. E, quando alvejava, aquele do outro grupo era como se fosse uma diminuição, estava morto. Então, ia saindo, até que um vencesse o outro. Então, houve treinamento de guerra lá, para combater, na época, essa coisa do que se chamava os terroristas que era, na realidade, a gente sabe que essas pessoas eram pessoas que estavam combatendo a Ditadura Militar. E aí eu me lembro disso. Eu me lembro até a zoada que as bombas faziam. Quando elas vinham, caíam do avião, elas assobiavam fiiiiiiiiiiii, boom, ficava o terreno preto. E foi pela primeira vez que eu vi um binóculo, porque o coronel lá do Exército ‘botou’ aquele binóculo, para eu ver ali aquela coisa de quem estava longe (risos) que vê perto. Então, meu pai foi um desses prefeitos, justamente na época da Ditadura Militar. Então, eles levavam cobertor, levavam bananinha, aquelas bananinhas que são passas, que a primeira vez que eu comi foi naquela época. Eles levavam também o conjunto, tinha um conjunto em Nova Olinda. Na época se tocava Beatles e o conjunto não tocava Beatles, porque não sabia inglês. Então, eles levaram uma pessoa para ensinar o cantor do conjunto a cantar em inglês, (risos) para poder o povo dançar as músicas dos Beatles no Titan Bar, que era também o nome do time de meu pai, era o clube que se dançava.
(00:21:55) P/1 - Eu queria saber o nome dos seus irmãos e até o momento em que vocês foram divididos, como era a relação?
R - A minha irmã mais velha, a Ana Lúcia, meu irmão José Nilo, depois, aí vem eu e veio mais a minha irmã Maria do Socorro. Meu pai comparava os brinquedos para a gente, minha irmã tinha uma Susi e eu tinha um soldado, o Forte Apache e meu irmão tinha os índios. Meu irmão era mais velho, então ele comandava lá a brincadeira e muitas vezes (risos) queria brigar comigo e minha irmã era defensora disso aí. E Maria do Socorro, minha irmã, ganhou uma galinhazinha, quando baixava, caía um ovinho de dentro da galinha. Então, eram nossos brinquedos e a gente ficava brincando na área, passava o dia brincando. Então, eu me lembro da gente brincando de guisado. Tinha o guisado que a minha irmã fazia o foguinho, as panelinhas de barro e cozinhava arroz. Eu era o filho da brincadeira, porque as meninas brincavam, antigamente, de boneca e tudo e fazia aquela socialização da casa, uma era comadre e tudo e eu entrava na brincadeira como se fosse o filho. E ali eu me criei, brincando com meus irmãos.
(00:23:28) P/1 - E como é que era essa casa? A primeira casa, em Nova Olinda e depois a casa em Goiás.
R - Bem, eu tive pouco tempo de convivência com esse primeiro momento, porque eu já tinha nove anos, mas era uma coisa que era muito boa. Quando meu pai separou de minha mãe eu fiquei sem entender muito do que era aquilo que estava acontecendo. De repente, a gente morava em casa, meu irmão com minha mãe e meu pai, antes de separar, me mandou para o Piauí, para a casa de um primo. Eu fiquei lá de férias e eu me lembro que isso foi na época em que surgiam os Secos & Molhados. A gente escutava aquelas músicas do primeiro disco dos Secos & Molhados e isso marcou muito, porque meu pai me deu um dinheiro (risos) para eu ficar na casa, nas férias, desse primo e eu fiquei e passava um carro cantando aquela música: “Vira, vira, vira homem, vira, vira”. E com uma lata de Vick em cima, que era vendendo Vick VapoRub. Tinha uma lata de Vick em cima do carro, grande. Eu achei aquilo tão bonito, que peguei meu dinheiro das férias, que eu ia lanchar e comprei tudinho da latinha de Vick. Passei as férias cheirando Vick VapoRub. (risos) Quando a gente foi para o Goiás, naquela época, era uma floresta que, depois do Rio Parnaíba, no Piauí, começava a Amazônia, que essa noção de nordeste é uma noção muito equivocada porque, na realidade, o Brasil são biomas. Se o Brasil fosse dividido por biomas você tinha uma ideia melhor formada da cultura do Brasil, mas eu me lembro, assim: conheci os primeiros índios nessa viagem também, que eu tinha muita vontade de conhecer, porque tinha uma cabocla, Cariri, lá no Cariri, que contava as lendas para mim e ela tinha uma estatuetazinha de um índio, que foi feita, um escultor que fez em homenagem à família dela e deu para ela. Ela mostrava a estatuetazinha e contava as lendas. Eu achava aquilo muito bonito. Então, eu tinha vontade de encontrar um índio. E, um dia, nós fomos... nessa viagem a gente dormiu num lugar e lá tinha um indiozinho dormindo numa rede e eu pedi para vê-lo. Foi a primeira vez que eu vi um índio. Mas, naquela época, a gente andava nas estradas do Maranhão, que era tudo de chão e a gente via as tribos, os via já nu, mesmo. E tinha uma coisa que era assim: era uma floresta só, até lá. Então, a gente parava, tomava banho nos igarapés, até chegar no Goiás. Chegamos no Goiás pela cidade de Cristalândia, que era uma cidade que era uma antiga mina de cristal. Tinha as praças, os bancos eram de cristal, o povo ‘botava’ cristal na porta, cristal era uma coisa assim que a gente chutava. E depois nós viemos morar em Miranorte, para o meu pai administrar uma loja de eletrodomésticos. Então, eu passei a minha infância dentro dessa loja de eletrodomésticos: eu, meu pai e meu irmão. Meu pai era o seguinte: eu fui um menino que passei fome, porque nós chegamos lá com o meu pai e o meu pai não tinha condição. Ele saiu de uma situação dessa… é por isso que ele dizia que a pior coisa do mundo é ter sido… porque ele tinha sido prefeito. Metade da cidade era de meu avô, metade da Igreja, lá em Nova Olinda. Daí a Casa Grande. De repente, ele foi para esse lugar, trabalhou de carregador, de chapeado, carregando saco de feijão nas costas, saco de arroz. Trabalhou de auxiliar de pedreiro. Muitas vezes, a gente acordava de manhãzinha e ele dizia que ainda era de madrugada, que ele estava morando de favor num quartinho de uma casa que a pessoa deixou a gente morar. Ele dizia que era muito cedo, porque não tinha café da manhã, não tinha essa coisa. E uma senhora viu que tinha aquelas duas crianças passando necessidade, aí todo dia mandava um litro de leite para a gente beber. E um hotel que se chamava Hotel Deus Dará, era onde paravam os ônibus que vinham de Brasília e de Belém, porque ficava na margem da Belém-Brasília. E lá a gente ia para esse hotel, porque lá é onde a gente via os meninos que passavam, contando as novidades. Passava revólverzinho de espoleta na época, passava gibi. Daí a gente escutava aqueles meninos falando de edifício, de prédio, coisa que as pessoas moravam trepadas umas em cima dos outros, que eram os apartamentos. Então, ali, quando terminava o movimento do hotel, que o povo parava nos ônibus para almoçar, a gente comia o resto de comida que tinha lá. E meu pai foi sempre uma pessoa muito criativa. Então, tinha aquele macarrão lá para duas horas da tarde, que já estava só o óleo e duro, aí ele dizia: “Isso aqui é um macarrão borrachinho, que veio da Itália, importado”. A gente comia aquilo com a coisa como se fosse mesmo um macarrão importado. Quando a gente teve casa que tinha um fogão, todo dia era arroz com ovo. Mas, no domingo, ele preparava a mesa, ‘botava’ uma toalha branca na mesa, servia numa travessa o arroz e ‘botava’ os três ovos, que eram eu, meu irmão e o dele em cima e acendia uma vela e ficava e aquilo, o jantar tinha outro sabor. Então, ele nos ensinou. Quando assisti aquele filme A Vida é Bela, eu digo: “Meu pai era desse jeito aí”. Ele fantasiava as coisas, para a gente não sentir. (risos)
(00:30:55) P/1 - E você sabe por que da mudança para lá? Por que ele decidiu ir?
R - Porque ele queria ir para um lugar que minha mãe não encontrasse a gente. Depois minha mãe veio embora para São Paulo e trabalhou como auxiliar de escola, aqui. Ela se aposentou aqui pelo estado de São Paulo. Depois voltou para o Ceará.
(00:31:30) P/1 - Me conta como foi sua infância. O que você fazia para se divertir?
R - A minha infância foi boa demais. Começa pelo cinema. Nunca tinha entrado no cinema. Entrei pela primeira vez lá em Miranorte. Lá tem um cinema chamado Cine Bandeirante. Esse Cine Bandeirante era um cinema que o dono do cinema era um cearense. Ele foi daqueles primeiros que chegaram lá pelo Goiás, pelo norte de Goiás. Então, ele dizia que esses que chegaram primeiro eram os bandeirantes, porque eram aqueles que foram os primeiros a explorar, essas coisas. Quando cheguei lá, criança, o Cine Bandeirante tinha aquela amplificadora, que tocava as músicas antes de começar o filme, que era o melhor do bang-bang. Tocava aquelas trilhas de Ennio Morricone. Quando terminava, que ia começar o filme, ele tocava o Tema de Lara. Quando ele tocava o Tema de Lara era porque estava na hora da gente ir para o cinema. Meu pai mandava a gente para o cinema no domingo, eu e meu irmão. Ele ‘botava’ a gente no quintal, dava um banho de óleo Johnson 's, que era para amolecer o grude, que ele dizia, depois dava um banho com aquelas buchas do mato, mesmo. Chegava ficava vermelho, de tanto ele esfregar a bucha. Aí a gente ia para o cinema. Ele dava dinheiro para a gente comparar um suspiro para comer e entrar no cinema. O primeiro filme que assisti foi o filme Sansão e Dalila, com Victor Mature. Achei aquilo ali uma coisa encantada, do jeito que é o seguinte: eu entrei, praticamente, dentro da tela. Eu só voltei assim, para dentro de mim, quando apareceu o nome (33:36). Fiquei encantado com aquele cinema, de ver que era possível você viajar no tempo, naquela proporção, daquele tamanho, com aquele som tammm, aquele som alto, aquela trilha sonora. Ave Maria, eu fiquei encantado. Eu disse: “Eu vou fazer cinema também”. Ficavam os meninos assistindo o filme e eu ficava olhando para trás, para ver como é que funcionava. Então, eu via que tinha um buraquinho que saia lá de cima, uma faixa de luz e, nessa faixa de luz, ele saía pequeno, depois ele se abria e se transformava no tamanho da tela. E dava para perceber até a poeirinha, que iluminava. E eu disse: “Ah, então é isso!”. Então, cheguei em casa, peguei uns lapizinhos de tinta, aqueles pilotos, que tinha e comecei a cortar plástico e fazer desenhos. Pegava a lanterna e ‘botava’. Só que eu via que não fazia o mesmo efeito quando eu ‘botava’ a lanterna. Ficava uma coisa assim, borrada na parede. Eu digo: “Não, então aquela luz deve ser uma luz diferente, não é qualquer luz”. Aí eu peguei uma caixa de sapato, ‘botei’ uma manivelazinha, fiz uma manivelazinha e cortava as revistas em quadrinhos, fazia o rolinho, ia passando e na frente aparecia o quadrinho. Só que não deu certo, porque eu tinha que ter duas revistas em quadrinhos para ter a sequência e cada quadrinho era de um tamanho, então ficava vazando o fundo da caixinha. Então, um dia meu pai nos ‘botou’ para lavar um salão que ele tinha construído. A vida já estava melhor, nessa época. Aí eu ‘botei’ um lampião de gás, porque quando os pedreiros terminaram já estava anoitecendo, para lavar o salão. Aí eu percebi que, quando eu me aproximava do lampião, na parede aparecia minha imagem grande, igual apareciam as imagens grandes no cinema. Aí eu digo: “Está aí o cinema. Então é isso”. Antigamente as caixas de cerveja, de refrigerante, eram tudo de madeira, da Brahma, da Antártica. Então, eu peguei uma caixa de cerveja, abri ali, tirei aquela grade do miolo, ‘botei’ um pano e pegava meus bonequinhos, que a gente chamava na época neguinho, que vinham no chiclete, que também a Gulliver lançava esses bonecos que a gente comparava. Eu peguei a lanterna, aí eu os ‘botava’, porque eu notava que, quando o lampião lá mexia, eu mexia sem me mexer. Então, o bonequinho podia se mexer também. Então, se eu ‘botasse’ dois bonequinhos com espada na mão, quando eu mexia aqui a lanterna, eles ficavam lutando. Quando eu ‘botava’ o cavalinho para correr com o índio, com o soldado do Forte Apache, os cavalinhos se mexiam também. Eu digo: “Pronto, o cinema vai ser esse”. Então, comecei a fazer os cartazes do cinema, comecei a decorar no cinema as falas, decorar as trilhas, os efeitos especiais, que fazia com a boca e eu montei o meu cineminha. Então, eu assistia ao filme, meu pai já tinha mais condição, mas tinha criança que não tinha condição de ir para o cinema, então ia para o meu cineminha. E eu tinha aquele cinema e eu cobrava dez palitos de fósforo por entrada. E eu tinha aquela coisa de, assim: sou eu quem sustenta a casa de palito de fósforo. Eu ficava feliz de ver aquelas caixinhas de fósforo todinhas ali em cima do fogão, ali do lado, que ali era um fruto do meu trabalho para casa. Daí eu criei uma editora de revista em quadrinhos, já começava a chegar revista em quadrinhos na banca de revista da rodoviária e eu pegava e criava meus personagens. Então, tinha o Capitão América, eu fazia o gibi do Capitão Argentina. Então tinha os personagens, eu fazia e criava meus personagens. E toda semana, toda segunda-feira eu estava com meus personagens, com os gibizinhos feitos, vendendo na escola. Ali, cada gibi daquele também era dez palitos de fósforo. E eu pegava na última… na capa, contra-capa tinha uma coisa que era assim: os meninos ‘botavam’ o nome, preenchiam, para ganhar uma carteirinha do clube. Na época, existia o clube da Bloch Editora, que a editora era Bloch Ebal e tinha a Vecchi também, que o Vecchi fazia o Tex, o Ken Park, o Zagor. Já a Ebal lançava os personagens da Marvel. Depois da Ebal, veio a Bloch. Então acompanhei todo esse movimento e tinha o Capitão Aza na Editora Bloch. E eu criei a carteirinha também, igual existia a Blochinhos. Até meu irmão tinha carteirinha, eu também tinha carteirinha, a gente escrevia para as revistas aqui em São Paulo e eles mandavam a carteirinha e a gente ‘botava’ fotinho 3x4. Então fiz a carteirinha da minha editora e quem tinha carteirinha pagava só meia no cinema. Então, era lotado de crianças, para assistir meus filmes. Uma vez vi um comentário de uma menina que morava em Goiânia, que na época eu morava lá em Miranorte e ela dizendo que o primeiro cinema que ela foi, foi o meu. Aí percebi que eu pensava na minha cabeça que o cinema só iam os meninos, porque naquela época tinha o Clube do Bolinha e o Clube da Luluzinha, que as meninas brincavam só com as meninas e os meninos só com os meninos. Tinha algumas brincadeiras que se juntavam. Como era uma cidade de crianças na rua brincando, então tinha várias brincadeiras. Então, por exemplo, tinha a brincadeira que os meninos podiam brincar com as meninas, era da Queimada. Era a brincadeira de cair no poço, que era o início dos namoros: “Caí no poço” “Quem te tira?” “Meu bem” “Maçã, pera ou uva”, né? Aí maçã era um abraço… não, maçã era um aperto de mão, pera era um abraço e uva era um beijo no rosto. Eram tudo frutas que as crianças não comiam, naquela época. Era muito difícil comer uma fruta dessas: a maçã, a pera e a uva. A maçã vendia aqueles caminhões, que era a maçã argentina, que a gente cheirava, tinha um cheiro, enrolada num papel lilás. E uva, menino, isso aí era coisa para… a gente só via no filme Sansão e Dalila, Dalila dando para Sansão comer. Aí o seguinte: tinha essas brincadeiras e também fazia uma revista que era inspirada na revista Placar. Então, nós tínhamos os campinhos de futebol nossos, a gente pedia os lotes das pessoas para fazer os campinhos. Aí a gente roçava o lote todinho, a gente arrancava os tocos, tirava as pedras e a gente ia tirar as traves do mato, as forquilhas e o travessão. E ali a gente ia pedir dinheiro no comércio, dois reais de um… na época não era real, era cruzeiro… um cruzeiro de um, outro cruzeiro de outro, numa folha de caderno. Aí a gente comparava as camisas dos times de futebol, na época que eram todas brancas, com emblemazinho: São Paulo, Corinthians, Vasco, Botafogo. Nessa época passava uma revista no cinema, que se chamava Canal 100. No Canal 100, a gente, quando jogava naqueles campinhos, se via naquelas imagens. A gente estava jogando ali, correndo ali, mas era ‘tantanãnãtantantarãrãtantarãrãrãtantarãtarãtantarãntarãtnatarã’ (risos) e a gente jogava naqueles campinhos. A gente tinha outra coisa também: arrecadava dinheiro para tirar foto. A foto era uma coisa muito difícil. Era um trabalho registrar uma foto. E eu criei a Placar, a Placarzinha, que os meninos chamavam, eu cobria toda a cena desportiva. Eu ia nos campinhos e, quando chegava, os meninos já ficavam tudo animados, porque eu estava lá e ia descrever quem deu uma ‘bicicleta’, quem fez a defesa. No meio da revista tinha um pôster e os meninos se informavam para eu fazer o pôster. E começou com os meninos. Depois passaram os adultos também a pedir para eu fazer revistas desportivas, falando do time deles. Então, quando era também na segunda-feira, estava na escola toda a cena desportiva ali, escrita. Isso foi até uma coisa que, mais na frente, quando o Museu do Futebol lançou uma revista recentemente aqui, eles me chamaram para contar essas histórias em relação ao futebol. Eu tenho minhas revistas Placarzinhas ainda. Eu escrevi na década de 1970, depois da Copa, para Pelé, pedindo uma bicicleta e Pelé - minha tia trabalhava nos Correios - não mandou a bicicleta, mas mandou um calhamaço de foto dele para mim, autografada. Mandou essas fotos para mim. (risos) Eu recebi e tem uma carta de minha tia, agora, recentemente, descobri uma carta de minha tia dizendo: “Pelé mandou uma encomenda para você”. Do Correio. Eu tenho a data que Pelé mandou para mim esse material. Quando recebi a Ordem do Mérito Cultural do Brasil, recebi junto com Pelé. Quando fiz minha primeira exposição de artes plásticas, que era sobre o futebol, foi no Museu Pelé, lá em Santos. Então, essa coisa da Placarzinha era uma coisa que a gente ia, escolhia o campo de futebol e cada campo tinha a sua história. Por exemplo: esse campo da valeta, que chamava, era onde a gente tomava banho lá nu, jogava nu. Aí tinha o campo da igreja. O campo da igreja não podia dizer nome feio, porque ficava vizinho da igreja e o padre não gostava. (risos) Então, o padre permitia que se jogasse naquele campo sem dizer nome feio. Agora, o grande campo da nossa vida foi o pé de pequi, que era uma árvore bem grande. No lugar do centro era uma árvore. O goleiro de um lado não via o goleiro do outro lado e tinha que saber jogar no campo. E tinha suas regras próprias: a gente chutava a bola, se batesse numa galha do pé de pequi e desviasse do goleiro, valia o gol, porque bateu no pé e entrou, mas valia o gol. O pé de pequi não tinha aquela coisa de anulou, porque bateu no pé de pequi. O pé de pequi era um jogador dos dois times. Então, foi muito bom isso aí. Me criei. Tinha um rio chamado… que era um afluente do Tocantins, que a gente passava o dia todo dentro desse rio. A gente ia para dentro da floresta, aqueles babaçuais, aquela floresta. A gente ia para a escola, mas nosso amor era esse rio. A gente passava o dia todinho brincando dentro do rio. Chegava em casa, levava uma pisa, porque passava o dia dentro do rio. No outro dia, nós estávamos no rio de novo. Saía da escola direto para o rio. Lá o rio era aquela coisa. A gente subia cinco quilômetros com aquelas câmeras de ar de caminhão. Todo menino tinha uma câmera de ar, porque era assim, a diversão era o rio. A gente descia. Subia de vinte meninos, cada um com a sua câmera de ar. A gente subia pela floresta. Chegava em determinado ponto, ficava a turma todinha com as câmaras de ar ali, dentro da floresta. E a gente ia roubar melancia, ia roubar mamão, tudo quanto era coisa que tinha plantação na beira do rio. E a gente subia. Ficavam uns na beira do rio, um subia e o outro ia roubar, na roça. Aí chegava lá, os cachorros dormindo, lá e tal, aquela coisa. (risos) Aí ia descendo de mão em mão, aí ‘botava’ as melancias dentro da água. Aí a gente, bem devagarzinho, ia nadando nado de cachorro, que é aquele que faz assim, para o dono não perceber. E quando chegava lá na frente, aí os outros estavam tudo esperando a gente. A gente fazia um círculo de câmera de ar e a gente chamava os bois. Aí a gente passava o dia todinho rodeando, porque o rio rodeava a cidade. Aí, de vez em quando, quando a gente tinha fome, pulava dentro do curral, que era onde estavam as melancias, que elas iam boiando no meio. Ali a gente comia palmito. Então, foi assim. A floresta era um supermercado para a gente. Então, minha vida foi muito boa, porque eu cresci dentro da natureza, cresci dentro da floresta. Então, era muito boa a vida da gente lá. Era jogando bola, era tomando banho no rio, era brincando de noite, na rua. Foi uma vida muito marcada pelas histórias que a gente criou. A gente criava. E eu criei a editora, eu criei o cinema. Tinha o futebol de vidrinhos, que eram aqueles vidrinhos de penicilina. A gente fazia os campinhos, jogava com aquelas bolinhas que vinham, dosador de litro de 51, de cachaça 51. Aí ‘botava’ os vidrinhos, pintava as camisas. Tinha torneio de vidrinhos. Era disputadíssimo. E como era que marcava o tempo? A gente cuspia num caco de telha e, quando o cuspe secasse, terminava o tempo. (risos) Era assim, com essas brincadeiras que a gente criou. Então, foi uma vida muito boa. Eu tive uma infância muito boa lá no Goiás. Tanto que os meus amigos, das histórias da gente, até hoje existe um jogo lá, que é o jogo da amizade, que eram aqueles dois times rivais, que todo ano é tradicional. É o jogo mais longevo do estado do Tocantins. Que todo ano meu irmão vem dos Estados Unidos jogar. Eu pego, saio de carro do Ceará, atravesso o Piauí, o Maranhão, para ir jogar lá no Tocantins esse jogo. (risos)
(00:50:49) P/1 - E quando você pensa, por exemplo, como era e como é hoje, quando você vem vindo, o que mudou? Na entrada, na cidade.
R - Mudou muito. A primeira coisa, e isso é lamentável, é que toda aquela floresta foi transformada em soja, na monocultura da soja. Hoje você não vê um passarinho, não vê mais nada. São aquelas fazendas grandiosas, com umas entradas enormes, com a bandeira do Brasil e família não sei o que, pátria e não sei o quê. Então, aquele bioma sumiu todo, aquele bioma que eu me criei. O rio onde eu banhava, lá em Miranorte, hoje o que tem de plantação de abacaxi e o rio virou um lugar que hoje as crianças não tomam mais banho. Acho que isso é lamentável, porque acredito no Brasil como uma terceira via, mas com essa riqueza. O Brasil é um país onde, na maior parte, ainda é pautada pelos seus biomas. Acho que tem algumas coisas... essa vida que tive, ligada a esses biomas, hoje faz com que eu tenha algumas considerações em relação ao que estamos marchando em relação à educação. Sou uma pessoa altamente crítica em relação ao ensino integral. Acho que tem de ser um ensino integrado, porque aquele rio fazia parte do segundo tempo da minha escola. Acho que esse bioma tem de estar integrado na educação, porque, se não, daqui a um tempo a gente não vai ter... como é que vai nascer ecologista nesse país, se a gente passa o dia todinho dentro da escola? O que, na realidade, nós fizemos foi transformar as escolas em presídios e a gente deixou as ruas para o que está aí hoje. Não, as ruas eram das crianças, na época da gente. A gente brincava nas ruas. Começou com o negócio de criança de rua, que eu não entendia aquilo ali: “É porque criança de rua, criança de rua”. Criança de rua teve um tempo que era uma coisa, uma palavra pejorativa. Eu fui a vida todinha criança de rua, porque a rua era nossa, a rua era boa, a rua era das pessoas que queriam brincar, que queriam sentar na calçada para conversar. Eu não entendia aquilo ali. E veio desaguar nessa história do ensino integral. O que é que nós estamos fazendo? Uma grade curricular, as escolas cheias de grades, nós entregamos a rua.
(00:54:13) P/2 - Deixa eu aproveitar, que você estava contando da sua infância super divertida e criativa e cheia de aprendizado e não aparece a escola nessa memória. E a gente sabe do projeto que você faz, onde que a escola é uma coisa muito mais viva e muito mais integrada do que a sala de aula. Então, eu queria te ouvir mais o que foi a escola na sua época, na infância? Ela não aparece, ela é um momento que não é divertido.
R - (risos) A primeira vez que eu... como foi minha iniciação na escola? Começou em Nova Olinda. De Nova Olinda eu fui para o Crato. Quando eu cheguei lá, no Crato, eu fui para fazer... antigamente tinha o primeiro ano fraco e o primeiro ano forte. Você fazia alfabetização, depois tinha o primeiro ano fraco e o primeiro ano forte. Eu fui sair de Nova Olinda para ir para o primeiro ano forte no Crato. Quando eu cheguei lá estava tendo uma aula na escola sobre numeral. A professora colocou algumas garrafinhas de miniatura de Coca-Cola, de Crush, (risos) ali e colocou uma garrafinha maior. Perguntou para mim qual era a maior. Numeral. Eu disse que era a garrafa maior. (risos) Ela disse: ‘Você não dá para ficar no primeiro ano forte, não. Volte para o primeiro ano fraco”. Voltei para o primeiro ano fraco. Cheguei no primeiro ano fraco a professora viu que eu gostava de desenhar, viu que teve um concurso dentro da sala, que eu cantava. Eu subi no palco pela primeira vez para cantar a música Terral de Ednardo na escola, representando a minha classe, a classe ganhou distinção por conta disso. Esse foi o primeiro momento da escola. O segundo momento, que ainda dentro dessa classe a professora passou uma pesquisa no bairro, para fazer uma pesquisa sobre a passagem da era do rádio para a televisão. Estavam surgindo as televisões. As casas que já tinham televisão e as que tinham rádio. Eu achei aquilo ali uma coisa... a professora me pedir aquilo. Fui eu e mais três coleguinhas… mais dois coleguinhas. Era um menino e uma menina. E nós íamos às casas e anotávamos se aquela casa já tinha televisão ou ainda só tinha rádio. O que era que eles escutavam nos programas de rádio, o que eles assistiam na televisão, quando as famílias tinham televisão. Isso me introduziu na pesquisa, o gosto pela pesquisa. Mas você vê que a escola dialogava com o externo de uma forma assim. Essa escola eu gostei. Quando cheguei no Tocantins, já me encontrei com português, com matemática, com geografia. Eu era um péssimo aluno em tudo, menos em história. Eu gostava muito de história. A professora de história não gostava, porque eu não era estudioso e tirava nota boa em história. Eu era um péssimo aluno, não tirava nota boa. Nunca me adaptei. Tinha ano que eu estudava de manhã, eu tinha preguiça de acordar de manhã. Quando era de tarde, eu tinha preguiça de ir no sol quente para a escola. Mas as professoras gostavam tudo de mim, gostavam muito de mim as professoras, porque eu fazia jogral, eu fazia festival. Eu era essa pessoa na escola, só não tirava nota boa. Então, eu aguentei até a oitava série na escola. Quando eu volto à busca de conhecer as coisas, aí é onde vem já a Casa Grande, que praticamente tem essas duas coisas, que é a pesquisa e que é o artístico, o cultural. Basicamente, acho que a Casa Grande foi a escola que eu criei para mim, em extensão à escola. E isso é o seguinte: todo menino que está na Casa Grande tem que estar matriculado. E foi na Casa Grande que eu ganhei notório saber do segundo grau, doutor notório de saber pela Universidade Federal do Ceará e pela Universidade Regional do Cariri. E ganhei também o título de investigador do Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra, em Portugal. Quer dizer: eu ganhei isso fazendo o que eu fazia na escola, não tirando nota. (risos) Então, os meus títulos de doutor vieram não de eu sentar na escola e ficar tirando nota, mas sim daquele fazedor de jogral, daquele fazedor de coisas. Foi quando eu cheguei nos locais onde muita gente chega na escola, sentado na carteira e fazendo isso. Então, graças a Deus, eu consegui. Não mudei. Talvez eu fosse dar muito sofrimento para mim a vida toda dentro de uma escola, porque eu não ficava dentro de uma escola, eu não aguento ficar dentro de uma escola. As coisas, para mim, elas... nunca eu faço uma coisa do mesmo jeito duas vezes. Por isso que eu gosto tanto de Bob Dylan. (risos) Ele nunca canta a mesma música do mesmo jeito. Nunca sobe no palco para cantar a música do mesmo jeito. Porque eu acho interessante que ele diz que as pessoas querem que ele cante como ele gravou. Aquela ali era a interpretação dele naquele dia que ele gravou. Quando ele sobe, cada vez que ele sobe no palco, ele está vivendo um momento diferente e vem um momento diferente. E ele dá aquilo, o diferente que ele é de cada dia. Isso também, não seguindo o que ele faz, não é inspirado nele, mas é da minha natureza também. Eu gosto de fazer as coisas do jeito que eu amanheço o dia. Eu acho que existe mais poesia na vida, quando a gente vive assim. E uma coisa que eu sempre cultivei dentro de mim foi aquele Alemberg da infância mesmo, aquele menino. Eu penso como eu pensava no primeiro pensamento, que eu vi que eu estava pensando em alguma coisa. Então, isso que eu, dentro de mim, é o que eu cultivo. E a Casa Grande tem isso. A Casa Grande é a casa de criança. Eu acho, na realidade, o adulto um traidor. Quando ele se põe no mundo dos adultos, ele trai os sonhos de criança que ele tem. Não dá continuidade àquilo ali. Então, eu vejo que a Casa Grande é essa possibilidade de você dar uma continuidade a um pensamento que nasce na infância e de que a gente nunca pode cortar o laço da gente, da criança, porque o maior desafio de um ser humano é levar esse legado consigo até o último dia da sua vida. É morrer criança. Isso aí é que eu acho que quando a gente sonha ser uma coisa na infância e a gente consegue ser, nunca vai ser um trabalho na vida da gente. Vai ser sempre uma coisa que a gente faz tudo com o maior prazer e o povo ainda paga. (risos)
(01:03:11) P/1 - E você tinha um sonho de criança? De ter alguma coisa específica?
R - Começa pelo sonho mesmo. Quando eu tinha cinco anos de idade, eu tive um sonho. E aquele sonho alinhou minha vida, ao ponto de eu ir na sorveteria de minha mãe, pedir um dinheiro e fui lá num fotógrafo, no dia de feira de lambe-lambe e mandá-lo tirar uma foto, pagar para ele tirar uma foto minha naquele dia, com cinco anos de idade, para eu nunca esquecer aquele sonho. E é a foto que está lá na frente da Casa Grande. Com cinco anos de idade. Naquele sonho ali, para mim, mudou minha vida. E eu nunca mais deixei de sonhar. Eu sou uma pessoa assim, que eu sou muito ligado a sonhos, sabe? Eu sonho andando numa cidade que toda vida que eu sonho eu sei as ruas daquela cidade, eu ando naquela cidade, aquela cidade existe, em algum lugar aquela cidade existe. É um sonho diferente. E muitas ideias eu trouxe desses sonhos. Muitas coisas que eu faço, primeiro eu sonho.(risos) Não é o sonho, sonho. Muitas vezes as pessoas dizem o sonho como uma coisa: o que é que você almeja, né? Não, mas eu sou uma pessoa que sonha mesmo. E quando eu sonho, tem vários tipos de sonho. Tem sonho que você anda mesmo dentro dele. Ele é tridimensional. E as coisas, por exemplo, o Educandário mesmo, que é o vizinho, o prédio vizinho, foi um... aquele prédio eu o vi dentro do sonho. E lá no sonho tinha, na fachada dele tinha uma estrela. Só que o Educandário lá não tinha estrela, estava faltando a estrela. Aí eu coloquei a estrela que estava faltando, que eu vi lá, no sonho. (risos) É uma coisa para mim que, assim, eu... é tanto que é o seguinte: a coisa que eu mais gosto de fazer é... o pessoal ri… é endoscopia, cirurgia, porque eu ‘apago’. Aí eu ‘apago’, mas quando eu vou me deitar, que eu vou dormir, eu continuo ligado em 220.
(01:05:59) P/1 - O que eu queria te perguntar agora é sobre... ah, uma coisa que eu queria te perguntar: quando você contou da banda que você teve, foi na época de Nova Olinda, ou já em Goiás?
R - Foi no Tocantins, foi no Goiás. A gente tinha uma banda e a banda era o seguinte: era uma bandinha de lata. Para dizer o contexto que a banda nasceu, tenho que dizer que existia, na festa do padroeiro, lá em Miranorte, a festa de Santo Antônio. Então, aquelas cidades que vêm da Belém-Brasília, que vêm de Brasília até Belém, têm, primeiramente, uma rua que é a maior rua do mundo, a rua mais extensiva do mundo, que é a Bernardo Sayão. Ela nasce lá em Brasília e termina em Belém. Então, toda cidade que vem na Belém-Brasília, a rua principal é a Bernardo Sayão, que foi o engenheiro da Belém-Brasília, que morreu ao fazer a Belém-Brasília. E, de um lado da Belém-Brasília, quando você vem de Brasília, do lado esquerdo fica o lado que fica o Rio Araguaia. E do lado direito é o Rio Tocantins. Então, a festa do padroeiro, lá em Miranorte, que é Santo Antônio, tinha as barracas de Santo Antônio e na barraca de Santo Antônio tinha o lado do Araguaia e o lado do Tocantins e cada lado apresentava uma miss, que era uma mulher bonita, que quem arrematasse mais frango, os leilões que tinha na barraca, era a miss. A miss era aquela que arrecadasse mais dinheiro. E a gente, menino, copiava isso. Então, tinha duas meninas, que uma era Rita e a Marilane, que moravam vizinhas e elas faziam também a festa na versão das crianças. Era tudo menino e elas eram as misses. Então, naquela época, a gente arrematava também, suspiro, maria-mole, pão, as coisas que elas ‘botavam’ para arrematar. E o dinheiro era selo de cigarro, que era carteira de cigarro, que dobrava a carteira, abria o cigarro. Na época era Hollywood, Minister, LS, as carteiras que tinha. Cada um tinha um valor e aquilo valia como dinheiro mesmo. A gente comparava brinquedo, fazia escambo de revista com o outro, comparava revista em quadrinhos. Tudo era feito. Meu irmão, debaixo da cama dele tinha uma caixa de dinheiro de selo, chamava selo, que era o dinheiro de carteira de cigarro. Pegava a carteira de cigarro, abria e dobrava como se fosse um dinheiro. E tinha isso. Então, a gente arrematava na festa, com dinheiro. Tinha meninos ricos que tinham muito selo. E como era que se adquiria isso? Ora, ia para os postos de gasolina, ia para a rodoviária. Na rodoviária, o povo fumava, os adultos fumavam. Naquela época, se fumava demais. Meu pai fumava uma carteira de cigarro por dia. Então, jogava aquilo, terminava, jogava a carteira, terminava a carteira de cigarro, não tinha mais cigarro, jogava carteirinha fora, a carteira de cigarro. E os meninos pegavam aquelas coisas, aquelas carteiras de cigarro e ali se transformava em dinheiro. Então, a gente arrematava lá. E aí nós criamos um conjunto, para animar a festa. Era eu, meu irmão e um menino que se chamava Zé Carlos. E tinha um irmão dele que se chamava Juarez, que esse era quem mais frequentava meu cinema. É tanto que, quando fui embora, em setenta… oitenta e três, ele continuou o meu cinema lá, fazendo o cineminha que ele via eu fazendo. Ele não perdia um filme. Ele vibrava nas cenas e tudo. Ele era o hold do conjunto, que o irmão dele mais velho tocava no conjunto. Então, tinha a bateriazinha que meu irmão tocava, eu fazia o contrabaixo, ou fazia a guitarra e o Zé Carlos fazia o contrabaixo. E a gente tinha um repertório, tocava um repertório. Naquela época, a gente tocava Pinduca, (risos) aquele do carimbó, tocador e animava a festa das meninas. Então, foi aí que nasceu a nossa bandinha de lata, que tinha um repertório voltado para animar as crianças, fazer a festa das meninas. E era muito legal, porque todo ano também tinha miss do povo adulto. É interessante isso, porque tinha o futebol do povo adulto e tinha o futebol das crianças, tudo tinha uma coisa... de certa forma havia uma influência muito forte das coisas dos adultos nas crianças, nas invenções das crianças, como era o meu cineminha, como era o conjuntinho de lata, como era a festa da miss, das meninas. Naquela época, a gente fazia os brinquedos da gente. Eu vejo até assim: a gente aprendia a consertar os brinquedos da gente. E isso tinha uma coisa... é por isso que as amizades duravam muito, os casamentos duravam muito, porque a gente aprendia a consertar as coisas erradas, a gente não jogava fora. (risos)
(01:12:17) P2 - Quais músicas mais vocês tocavam? Qual era o repertório?
R - A gente tocava essas músicas do Pinduca, a gente tocava coisas que a gente trouxe do Ceará: Ednardo, essas coisas. Agora, teve um grande acontecimento que mudou a nossa vida lá. Foi um menino mais velho, já rapaz, chegando aos 18 anos, enquanto a gente estava nessa idade de 12 anos, 13 anos e ele tocava violão e ele teve uma vivência com alguns padres americanos, numa escola Batista, que passou na cidade vizinha de Miracema. Então, ele aprendeu a cantar inglês. Ele não sabia o que dizia, mas ele aprendeu a pronunciar o que ele ouvia junto com esses padres. E aí ele passou num concurso da Caixa Econômica. Naquela época, quem era bancário era igual um médico. E ele disse: “Agora eu tenho dinheiro para comprar discos”, comparar as coisas que a gente tinha vontade de ter. E ele trabalhou muito essa coletividade da gente. Então, eu me lembro quando ele chegou, pela primeira vez, com Like a Rolling Stones, para mostrar para a gente, tocando no violão e com a capa do disco. E ele disse o seguinte: “Olha esse disco. Eu não sei o que esse cantor está dizendo, mas o que eu acho que ele está dizendo é muito importante para a gente”. (risos) Foi assim que eu fui apresentado a Bob Dylan, lá na floresta. Então, a gente escutava de Bob Dylan a Elomar, a Ednardo, a Fagner, a Belchior, Amado Batista, (risos) a Milionário e Zé Rico, a Trio Parada Dura. Então, a gente escutava tudo isso. A gente escutava Diana Pequeno, Cátia de França, Vital Farias, escutava a Lira Paulistana. A gente escutava tudo isso. Escutava o que tinha, que realmente foi uma fase muito, muito bonita da música popular brasileira. Escutava o Clube da Esquina, escutava todas essas tendências musicais que, na época, estavam nascendo. Você imagina o que é escutar pela primeira vez sendo lançada, Meu Bem Querer, de Djavan, quando Djavan surgiu. Era uma enrolada na cabeça. Aquilo ali deixava a gente atordoado. Nós tivemos o privilégio de ser regado por Paulinho da Viola, por Chico Buarque, por Caetano Veloso, esse povo tudo novo, tudo novo, produzindo coisas. Gal Costa. A primeira vez que eu vi London, London, cantado por Caetano, a primeira vez que eu vi Negro Amor, cantado por Gal Costa. Rapaz, aquilo ali dava uma sensação de que nós seríamos eternos. É tanto que ver essas pessoas morrendo hoje, você diz: “Vocês mentiram para mim, (risos) vocês mentiram para a gente, vocês disseram que não iam abandonar a gente”. Você saber, você ver essas pessoas morrendo. E mais triste é quando você vê essas pessoas com a tendência política totalmente contrária àquilo que foi quando eles surgiram. Eles fizeram a gente acreditar que a gente podia mudar o mundo pela música. Então, ali a gente escutava aqueles... a gente levou para o… aquele disco do Fagner que tem aquela música do Paulinho da Viola: “Olá, como vai?”, já eu me lembro do nome dela, eu era criança, meu pai voltou ao Ceará, para fazer uma visita aniversário do padrinho dele e meu pai me deu um dinheiro para eu comparar um boneco do Incrível Hulk, que eu vi em uma loja. E eu fui com o dinheiro. Sinal fechado o nome da música. Quando eu vou passando eu vejo aquela capa do disco do Fagner. Eu fiquei encantado com aquela capa. Sempre me chamou atenção essa coisa dos sentidos. Antes de eu ler um gibi, até hoje, eu fecho os olhos e quando o abro, ‘pageio’, para sentir o cheiro da tinta fresca. Primeiro eu cheiro, antes de entrar dentro dele. Do livro, qualquer coisa primeiro eu cheiro. O disco, além do cheiro, você passava… quando você o tirava do plástico, se você passasse a mão, os cabelinhos arrepiavam tudinho, assim e levantavam. Então, tinha um ritual. As coisas tinham um ritual. Tudo tinha um ritual. O namoro tinha um ritual. Tudo tinha um ritual. Existia um encanto. Tudo era encantado, porque também eram coisas que encantavam porque, como eu estou lhe dizendo, você ouvir coisas como a gente vê que ainda hoje é o que tem de qualidade, você vê aquilo ali servido quente, como pão de padaria saído quente, com a manteiga derretida em cima. Então, era uma coisa assim... nós fomos muito privilegiados. Minha geração foi muito privilegiada. Você vê Mercedes Sosa, o Kraftwerk, lá na Alemanha, que era o primeiro grupo que vinha com música… escutar Autobahn. Primeira vez que eu escutei Autobahn eu fiquei doido. Enquanto eu não fui na Autobahn lá na Alemanha, eu não sosseguei. Primeiro convite que veio para mim ir para Alemanha, digo: “Vou. Agora é o seguinte: vocês vão me levar para andar na Autobahn”. Eu passei o dia andando na Autobahn e eu vi aquilo ali passando por baixo daquelas passarelas. Você já entra na Autobahn com 180 km. E eu escutei a música. Aquilo ali é fenomenal. Aquilo ali, ver aquilo daqueles caras compondo aquilo. Então, para mim foi assim. A música, para mim, sempre foi… é tanto que é o seguinte: a gente tinha uma namorada, existia uma trilha. A gente fazia fita para dar de presente à namorada. Na época você tinha que ter dois toca-discos, certo? E você dava o play aqui, na fita cassete. Tá. Você dava o play. Aí você ficava aqui com aquela coisinha de soltar, para quando cair, já cair na linha ali, do vinil, né? Ali naquele sulco que começava. Aí você já ficava com a outra música aqui. Você já fazia a pré-seleção todinha aqui, do lado. Aí, quando a música ia terminando, você soltava e a outra já entrava. Aí ficava uma música entrando na outra, na fita cassete. Aquilo a gente escolhia a trilha e dava de presente às meninas. Era dela. Aquilo ali representava o nosso sentimento para ela. Então, assim, a gente dava o coração da gente, de presente, para as pessoas. Foi uma época que a gente estava dando a coisa mais nobre que tinha na gente, que era o sentimento, para as pessoas. Isso aí era o que a gente ‘botava’ também na bandinha de música. Era o que a gente ‘botava’. Eu tinha uma namorada, né? Eu comecei a namorar com ela. A primeira vez que eu a vi foi a primeira vez que meu pai, quando nós chegamos no Goiás, nos levou para missa. Nós íamos passando e ela estava na casa dela, junto com os pais dela, ali na porta, porque o povo de noite ia tudo para porta da rua. O pai sentava na cadeira, os filhos ficavam em volta, os meninos brincando e o pai e a mãe ali. E ele era torcedor do Botafogo, com rádio, escutando o jogo do Botafogo. E eu passei e a vi. Nós começamos a namorar, eu tinha 12 anos, ela tinha 9. Nós terminamos com 18 anos, que eu fui embora. (risos) Então, a gente tinha essas coisas. Então, eu me lembro quando tudo... a gente falava através dessas músicas. Então, eu... os pais dela não queriam, porque eu não tinha emprego, não tinha futuro. (risos) E aí ela... o seguinte: tinha um rapaz que já estava empregado. Primeira coisa: (1:22:20) os pais dela mandaram ela ir embora para Brasília, porque não a queria namorando comigo. E quando a gente foi completando os 16, 14, que a coisa foi ficando mais séria, né? Que a gente já podia namorar mesmo, porque a gente começava ali, pegado na mão, com medo, não sabe? O coração buf, buf. Aquilo era uma tortura, (risos) ter que namorar, a gente gostar de uma pessoa, mas não sabia o que fazer com aquela pessoa, porque a gente achava bonita, a gente gostava, mas tinha uma coisa que se chamava namoro, né? Só que o seguinte: a gente não sabia o que era aquilo, não, o que era namoro, não. A gente gostava era de achar bonita a pessoa, né? E saber que a pessoa achava a gente bonita, aí já era o máximo. Tinha uns meninos que namoravam com umas meninas, no dia que elas sabiam, terminavam com eles. (risos) Ele namorava sozinho, a menina nem sabia que ele estava namorando com ela. (risos) Aí, a mandaram para Brasília, para morar com a irmã mais velha e aí eu montei um bar, isso já com 16, 17 anos e pronto, agora, quando ela chegar, vou pedí-la em casamento. Aí ela chegou. Só que é o seguinte: quando ela entrou no bar, eu me lembro até hoje: me perfumei todinho, minha radiola ficava dentro do guarda-roupa, me vesti com a roupa, beleza, digo: “Hoje vai ser o dia”. Quando ela entrou, entrou de braço dado com outro, que era um amigo meu, que era esse que tinha futuro, que já tinha um Fiat, um Fiatzinho daquele primeiro Fiat que lançaram, era empregado da Tratex, que era uma companhia de fazer asfalto, então essa pessoa tinha mais futuro que eu e realmente tinha. Então, porque tinha emprego e tudo e, rapaz, quando eu vi aquela cena, eu fui para casa, eu tinha um sócio no bar, eu digo: “Ó, toma de conta aí, que eu vou para lá”. E ‘botei’ uma música de Djavan, que é aquela: “O amor é um grande laço, um passo para uma armadilha, o lobo correndo em círculo, para alimentar a matilha”. Aquilo ali marcou a minha vida, naquele momento ali. Mas era uma dor tão forte, que nesse dia eu decidi que eu ia me embora e fui me embora e fui para Marinha de Guerra. No ano seguinte eu me casei, com 18 anos, já no Ceará, com outra pessoa. Então, as coisas tinham música. Eu fui, qual foi a música… depois ela me procurou e disse que ela foi forçada a namorar com essa pessoa, porque a família não queria. E aí eu já tocava violão e eu toquei aquela música de Biafra, Uma Vez e Nunca Mais, para ela. (risos) Então, esse amigo nosso fazia rodas de música e ia trazendo essas músicas. Aquilo que a gente ouvia no disco, ele tocava no violão e aquilo era mágico para nós. Você imagina que a gente ouvia coisas como essa, tocadas, ouvia Beatles, ouvia Lennon e outras coisas. Tinha uma música chamada Ring Ring que ele tocava, começava por ela. Então, a gente tinha… a barreira do idioma já não existia. E nós fomos educados por música. E ele fazia isso: a música de fulano com sicrano, Paula e Bebeto, aquela música. Era aquilo que existia, se fazia música pelo amor das pessoas, a beleza das pessoas. Foi uma época muito mágica e foi isso que eu vivi. Eu acho que talvez a minha utopia venha disso aí.
(01:26:36) P/2 - Alemberg, antes de a Bruna retomar o fio condutor aqui, eu fiquei muito curioso de saber qual era o sonho que você teve aos cinco anos, que você tirou a foto. Você fica à vontade, se quiser compartilhar com a gente esse sonho. Se não quiser também, não tem problema.
R - Interessante! Eu tive esse sonho brincando com uma menina, começava brincando com uma menina, num lugar como essa cidade, num celeiro, como se fosse um celeiro. A gente brincando. E eu brincava com ela - eu vou contar isso aqui a primeira vez (risos) na minha vida, porque também esse sonho teve um recorde - no celeiro e existia um amor naquela brincadeira, quando eu era criança. Me lembro como hoje. Tinha uma casa assim e na frente da casa tinha esse celeiro, que era um lugar onde os animais comiam, guardavam cavalo, tinha boi, essas coisas e a gente brincando em cima daquele feno, brincando, mas a gente rolava ali e existia, assim, como se o mundo não existisse em volta, só a gente. Então, no fim, essa menina foi Rosiane.
(01:28:12) P/1 - Como é que vocês se encontram?
R - Mas, antes de dizer (risos) como é que a gente se encontra, quando Rosiane foi fazer a passagem, eu sonhei nesse mesmo lugar a gente já grande e por aquele sonho eu vi que ali estava chegando o fim. Interessante é que, no segundo sonho, nesse aí, no fim tinha uma trilha sonora e a trilha sonora era cantada por um cantor e eu disse: “Esse cantor nunca gravou essa música, como é que pode ter uma trilha sonora cantada e esse cantor cantou essa música?” Pois você acredita que um dia eu, olhando no YouTube, ele nunca gravou, mas tem ele cantando a música. Cantando numa promoção de Natal, que ele fez uma propaganda cantando a música e eu escutei essa música sem ter escutado, sem saber que existia essa música cantada por ele e isso aí foi uma coisa assim… é tanto que lá na Casa Grande tem um retrato meu com cinco anos e o retrato dela com cinco anos, quando você entra na Casa Grande, porque a casa é uma casa de criança, então ali não foi feita por dois adultos. Nós nunca nos consideramos adultos dentro daquela casa, nunca. A gente sempre se acocorou, para falar com as crianças, lá. Nós nunca falamos em pé com criança nenhuma, lá na Fundação. Então, a gente sempre se acocorou, porque a gente sabe… tem um cantador, chama Dantas Aboiador, lá em Nova Olinda, que ele tem um verso muito bonito de um aboio que ele fez, que eu pedi até ele para gravar e ele gravou lá para a rádio, que no verso ele diz: “A casa que tem criança Deus visita todo dia”. Aí ele vai falando e repete o refrão. E isso é uma coisa verdadeira, sabe? Uma coisa verdadeira. A infância é uma mágica. Eu viajei alguns países do mundo trabalhando com criança, implantando rádio de criança para criança em Angola, em Moçambique e a criança é um país, a criança é igual em todo lugar do mundo. Eu acho que nós estamos devendo muito. Se o mundo fosse trabalhado pensando na criança, seria outro mundo, porque você olha uma criança, assim e você olha para os adultos e diz: “Onde foi que deu errado?” Eu tive agora, depois de 35 anos casado, a Rosiane teve um CA, faleceu, eu passei seis anos viúvo e me casei agora, faz dois, três anos, tenho uma menininha de um ano. Eu digo viúvo ainda, porque lá no documento ‘botaram’ viúvo. Eu achei esse nome tão feio, (risos) mas juridicamente ‘bota’. Eu me lembro da música de Alceu Valença, o ‘lamento noturno do viúvo’, que ele tem uma música que fala disso, falando do pai dele, quando o pai dele morreu, que é:
“Na primeira manhã que te perdi
Acordei mais cansado que sozinho
Como um conde falando aos passarinhos
Como o bumba-meu-boi sem capitão
E gemi como geme o arvoredo
Como a brisa descendo das colinas
Como quem perde o prumo e desatina
Como um sol [na verdade boi] no meio da multidão”
Depois disso aí nasceu minha filha, tem um ano agora, que é Violeta e eu vi pela primeira vez, ali, uma criança nascendo. Entrei dentro da sala de cirurgia, foi uma cirurgia cesárea, quando puxaram de dentro aquele ser vivo, como é que pode? É a primeira coisa, assim. Como é que consegue gerar outra pessoa? Primeira coisa é essa: como é que consegue uma pessoa ter um laboratório de fabricar gente dentro dela? Isso é uma coisa mais divina que eu acho da natureza, é isso. A natureza é feminina. Uma vez um caboclo perguntou pro outro: “Tem aquele ditado que diz assim: ‘Ê mundo velho sem porteira!’” Aí um ator dizendo pro outro: “Não, o mundo tem porteira, sim” “E quem é a porteira do mundo?” Ele disse: “A mulher. Ninguém vem ao mundo se não passar pela mulher”. E aí, quando puxou aquela menina, minha filha, quando eu vi aquele ser humano eu tomei um espanto com aquilo ali, porque na hora, assim, eu vi como é que é um ser tão frágil, o ser mais frágil, o filhote mais frágil dos animais que tem no mundo é o do ser humano e é o único capaz de destruir o planeta. (risos) Então, para mim isso aí foi, sabe assim? E a criança, para mim, é assim: eu acho que, por a gente ter passado por uma criança, que todos nós somos crianças, a gente tem o dever do resto da vida viver em função das crianças. É o dever do adulto viver em função das crianças. Se a gente, metade da vida da gente fosse criança e a outra metade fosse trabalhando pelas crianças o mundo seria diferente. Por isso que lá na Casa Grande tem duas crianças e por que tem duas crianças? Porque esse sonho que eu tive na infância, com cinco anos de idade e que eu tive essa iniciativa de registrar aquele sonho numa fotografia. Então, isso aí é a base da Fundação Casa Grande. É a infância. É uma casa que tem crianças de todas as idades. E uma coisa que eu pedi a Deus foi isso: que eu nunca deixasse de ser criança e o máximo que eu pudesse chegar na fase de adulto é ser besta, porque feliz do mundo que tem lugar para gente besta. Quem está acabando com o mundo são os sabidos. Então, é isso. (risos)
(01:36:11) Você quer me contar como você a encontrou?
R - É o seguinte: quando eu cheguei no Ceará, então eu tinha que passar um ano para terminar o primeiro grau e eu tinha… quando eu saí dessa desilusão amorosa, (risos) eu disse: “Eu quero conhecer o mundo, eu quero sair daqui”, porque a gente ali ficava escutando os carros descendo e subindo a Belém-Brasília e eu dizia: “Meu Deus, o mundo é para lá, o mundo é para cá. O que é que está acontecendo uma hora dessa no mundo?” Eu tinha essa coisa, como se eu não estivesse no mundo. Aliás, a professora dizia: “Olha, nós estamos mais ou menos aqui”. Então, até os 18 anos eu não existia no planeta, porque nós morávamos em um lugar que em mapa nenhum tinha e aí eu tinha vontade de conhecer o mundo e a única forma de a gente conhecer o mundo, que eu achava… de avião não podia ser, para ir pro mundo tem que ir de algum transporte. De jumento não chega nunca e de pés piorou. Então, a única forma que tinha era de navio e, para ir de navio, só anda em cruzeiro quem tem dinheiro, muito, para pagar o ingresso pro show de Roberto Carlos. (risos) Então, eu tinha o seguinte: era navio, então eu tinha que me alistar na Marinha de Guerra e eu fui para me alistar em Natal, na Base Almirante Ary Parreiras, que foi lá onde nasce a história do for all, aquela coisa do forró e onde os americanos vieram construir a Base Almirante Ary Parreiras, para defesa daqui, a história lá da Segunda Guerra Mundial e foi justamente onde eu fui servir a Marinha. Só que, no caminho, eu passei um ano no Ceará, na casa de uma tia, que foi a tia que me criou uma parte da minha infância, de mais ou menos seis até os nove, que foi ela quem me ensinou as boas maneiras, a rezar, a comer sem bater o talher nos dentes, quando acordar escovar os dentes, lavar o rosto, essas coisas que alguém tem que ensinar para gente e aí eu passei por lá, fiquei na casa dela, fui fazer o primeiro grau com muita dificuldade, passei no primeiro grau porque o povo deu as notas também, gostavam de mim, tinha essa (risos) turma da caridade, que eu só tirava no máximo nota R, regular, que antigamente era MF, que era muito fraco; F, que era fraco; regular, que era mais ou menos, dava para passar; aí bom; muito bom e ótimo, essas eram as notas e aí o máximo que eu chegava era no R. Com R se passava no ‘sinal amarelo’ e aí eu fiquei lá durante um ano, fazendo isso e eu tocava violão e minha tia disse: “Eu vou - você fica tocando violão aqui - levar você para tocar na igreja. Tem umas meninas lá que tocam na igreja, para você acompanhar”. Eu fui, foi a primeira vez que eu a vi. Aí eu fui acompanhá-la na igreja, só que o violão dela era ligado no som e o meu não era, eu desisti, eu fui-me embora, ela nem notou que eu estava acompanhando-a. Aí apareceu um festival de música e eu compus uma música para voz dela, porque quando… a casa da minha tia ficava com o quintal virado para amplificadora da igreja, então eu escutava a missa todinha, que era a missa que ela cantava, mais uma amiga dela e por aquele timbre de voz eu copiei, eu fiz uma música para participar do festival, aí a convidei para cantar comigo e ela aceitou cantar comigo. Não houve o festival, o festival acabou, não teve a continuidade para essa música, mas aconteceu outro festival e ela veio cantar com a gente, aí foi criada a Banda Os Meninos dos Quindins, que ela fazia parte, que eram todos músicos remanescentes da banda municipal da cidade e a gente ensaiava as músicas, compunha as músicas e aí eu a convidei e a gente ficou andando um com o outro e gostou de andar um com o outro, gostou de estar perto. Tinha dia que ela ia lá… eu ia deixá-la na casa dela, aí elas iam me deixar em casa, eu ia deixar na casa dela. Eu comecei a notar que nossa amizade tinha que entrar na noite e para entrar na noite só entrava na noite se fosse namorado e a gente nem namorado é. E aí, um dia eu estava… vizinha à casa de minha tia morava um ex-padre, que tinha deixado a batina para casar com uma senhora por nome de Gorete e ele criava, adotou várias crianças. Ele era um padre, se não me engano, polonês e aí eu fui lá, minha tia pediu para eu ir lá deixar uma coisa e eu fui, fui com ela. A gente não namorava, não. A gente só era parceiro de música. E aí, quando chegou lá, a Gorete disse: “Mas vocês são um casalzinho tão bonitinho, por que vocês não se casam?” Aí eu fiquei constrangido de dizer que não queria casar com ela e eu disse: “Eu me caso”. Aí ela, quando viu eu dizendo que me casava, também para não me desgostar, disse: “Eu me caso também”. Aí o ex-padre foi procurar o bispo, para dizer uma justificativa, porque primeiro se casava no civil, depois casava no religioso e ali estava uma situação que o primeiro casamento que vinha era o religioso, porque era um ex-padre e ele foi falar com o bispo e a gente não podia casar no civil, porque o cartório que casava no civil era da avó dela e, para casar, tinha que a família saber e nós tínhamos 18 anos. Aí o seguinte: tem uma alternativa, casar escondido. E qual era a justificativa? A justificativa que dizia, (risos) naquela época, que ‘esse rapaz mexeu com essa moça’. (risos) Não tinha nada de mexido, não. (risos). A gente namorava. Aí o seguinte: nós fomos casar três cidades depois da nossa, que era para ninguém saber. Chego eu na igreja com uma calça jeans e uma camisa de Che Guevara e ela trouxe um vestidinhozinho, que era o vestido que ela vestiu no dia da formatura da mãe dela e levou o vestido dentro de um saco, para mãe não desconfiar que ela ia casar. Nós fomos. Chegamos lá, uma vergonha, porque aquele povo que estava tudo na cura e tudo sabendo dessa conversa e não tinha tido nada entre a gente, mas estava ali como quem fosse o povo: “Xiiiiiii, olha, aquele ali vai se casar, porque aquele rapaz mexeu com aquela moça”. (risos) Aí nós fomos chegando lá, o padre suado, quando nós chegamos no pé do altar só estava eu, ela e o casal, que era a Gorete e o ex-padre, que se chamava Peter. Aí o padre disse… antes de perguntar qualquer coisa, não tinha marcha nupcial, não tinha nada. Chegamos lá, no pé do padre, tipo assim: “Vamos logo, que eu tenho outras coisas para fazer lá na cura”. Aí o padre disse: “Você bebe? Eu disse: “Bebo, não”, que era bebida alcoólica. Aí eu disse assim: “Vez por outra, que eu nunca gostei de beber”. Eu bebia um copo de cerveja, uma coisa. Eu disse: “Eu bebo”. Ele disse: “Pois então tem que ir lá no altar, ali num santo que tinha do lado direito, para rezar não sei quantas Aves Marias, Pais Nossos, não sei o quê”. E aí lá vai eu rezar, para voltar para aquele momento. Dois momentos que o ‘cabra’ na hora sua, quando vai casar, é no momento que diz: “Tem alguém aqui que seja contra esse casamento?” (risos) Eu fiquei de olho nas janelas tudinho, para ver se entrava algum parente dela para dizer assim: “Eu sou contra esse casamento”. Essa parte passou. Agora, onde o ‘sapato aperta’ é: “Na saúde e na doença; na alegria e na tristeza…”, meu amigo, essa hora o negócio, para quem leva a coisa sério! Então, o seguinte: nós casamos, ela voltou para casa da mãe dela, eu voltei para casa da minha tia. Naquele tempo não tinha nem onde a gente ter a lua de mel, primeiro porque era escondido, segundo porque não existia. Então, eu fui-me embora para Marinha. Cumpri o compromisso que eu vinha lá do Goiás e ela ficou lá e um dia a irmã dela estava na casa de uma vizinha por nome Dona Edite, que ‘botava’ baralho, essa mulher e, no baralho, deu que tinha casado uma pessoa na casa da irmã dela lá, na casa dela e a irmã dela disse: “Não, não casou, não”. A Dona Edite: “Eu vou botar o baralho de novo. Casou, sim”. ‘Botou’ três vezes o baralho, deu que tinha casado. A irmã dela chegou lá na casa da mãe dela e disse: “Mamãe, o baralho de Dona Edite, ali, deu que casou uma pessoa aqui em casa” “Que história é essa?” “Casou uma pessoa aqui em casa” Quem era que tinha idade de casar? A irmã dela era uma menina, tinha um irmão que era uma criança, só tinha ela. Aí, quando ela chegou em casa, mais tarde, a mãe dela perguntou - eu já estava na Marinha: “Rosiane, tu se casou, minha filha? Ela tomou um susto, achou que vazou, ela disse: “Casei, mamãe” “Com quem, minha filha? Pelo amor de Deus, me diga”. Aí ela disse. “Tu é doida? Aquele homem passou aqui, foi-se embora para Marinha, tu casou com ele. E se ele não voltar mais?” E outra coisa: o namorado dela estava passando férias em Recife, quando chegou e foi buscá-la eu me casei. Que história é essa? Depois de um ano eu voltei para assumir o casamento. Olhe, essa cena lá da igreja… porque quando ela fez a passagem, ela fez a passagem dentro de casa. Eu montei um home care dentro de casa e ela pediu para ir morrer em casa. Na hora que ela estava fazendo a passagem, eu segurado aqui, na mão dela, que ela deu o último suspiro, aquela cena da igreja veio todinha na minha cabeça: “Na saúde e na doença…”, aquelas palavras vieram assim, parecia que eu estava escutando o padre. Eu digo: “Tirei meu diploma”. Eu sou uma pessoa que eu tenho diploma de casado. Por quê? Porque eu cumpri minha palavra com aquele homem, com aquele padre. Então, foi assim a história da gente. (risos) E, assim, quando eu voltei da Marinha a gente passou dez anos fazendo pesquisa de campo, indo atrás dessas lendas que eu escutava daquela cabocla, quando era criança.
(01:49:29) P/1 - E o que que ela contava para você, quando você era pequeno?
R - Ela contava as lendas dos índios, a cabocla e quando eu fui criar… aí eu passei dez anos fazendo música com Rosiane, pesquisa da geografia sonora da Chapada do Araripe. A gente começou a andar pela Chapada e a gente começou a descobrir cavernas com pintura rupestre, sítios mitológicos, sítios arqueológicos, as lendas mesmo da Chapada contadas pelas pessoas mais antigas, desvendando o mapeamento, que aquilo ali era uma aldeia, que aquela pedra era uma pedra encantada, porque aquilo ali era a Pedra da Coruja, a coruja era um deus totem dos Cariris. Ali a Mãe D'água, que é a rainha das águas, dos rios, que era quem simbolizava a vida naquela região de agruras. A água tem um poder e tem uma simbologia muito forte para representar a significância da vida naquele lugar, tanto para os animais, como para as plantas, como para moldar a geografia local e essa geografia constituiu os territórios geológicos que a gente começou a configurar e então foi se levantando um mundo pré-histórico da humanidade diante dos olhos da gente e eu comecei a sonhar também andando em lugar, que depois me encontrava com esses lugares. E aí o seguinte: nós começamos a fazer música, construir instrumentos feitos de barro, de pedra, que desse a sonoridade daquele lugar, a geografia sonora dos lugares e aí começamos a fazer música nesse sentido, começamos a participar de festivais e todo festival que a gente ganhava, comprava livro, comparava disco e as pessoas onde a gente passava fazendo pesquisa doavam pedras que eram líticos, que eram machados ritualísticas, peças de pedra que eram tanto utilitários domésticos, como ritualísticos, era cerâmica. Iam dizendo, contando histórias para gente e a gente foi fazendo uma arqueologia da mitologia e a gente foi descobrindo esse universo e aí virou nossa música. Nós passávamos seis meses pesquisando, seis meses viajando pelo Brasil, tocando e a gente pegava o dinheiro das premiações e ‘botava’ no banco e naquela época o juro rendia, dava para gente viver e a gente vivia de música e a gente chegou a um ponto de ir conhecendo coisas, então a gente passava pelos festivais. Existia um caminho nos festivais. A gente saía do Canta Cariri, lá no Cariri; ia para o Festival de Música de Teresina; de lá ia pro Imperatriz, no Maranhão; de Imperatriz a gente subia para o Festival de Conceição do Araguaia, no Pará, na margem do Rio Araguaia; depois subia pro Festival de Marabá; de Marabá nós subíamos para Serra dos Carajás; de Serra dos Carajás voltava, tinha o Festival de Porto Nacional, já no Tocantins; depois a gente subia pro Festival de Inhumas, em Goiás; depois tinha Avaré, em São Paulo; de Avaré nós subíamos para o Festival de Boa Esperança, em Minas Gerais; de Boa Esperança a gente ia à Clevelândia e Pato Branco no Paraná e Maringá. Depois o Musicanto no Rio Grande do Sul e em Santa Rosa tinha um festival. Esse era o caminho dos festivais. Andava aquele monte de artista participando desses festivais, a gente se encontrava e essas premiações nós fomos transformando nisso e aí transformando em disco e conhecendo os espaços culturais e a gente sonhava ter um espaço e a gente sentia uma coisa também, que era assim: se os cariris, esses lugares, essas lendas estavam nos dando aquilo, nós tínhamos que dar uma devolutiva para esse povo. Então, era como se a gente sentisse assim: que eles abriram um mundo encantado para gente, para dar à gente todo aquele conteúdo, todo aquele universo, mas ele dizia: “Nós queremos que vocês nos tragam de volta”. E aí foi quando eu restaurei a casa de meu avô e transformei essa casa, que era a Casa Grande da Fazenda Tapera, que deu origem ao município de Nova Olinda e transformamos no Memorial do Homem Kariri, por isso o nome Fundação Casa Grande Memorial do Homem Kariri e lá a gente abria e as crianças de invadiram e aí houve essa revolução das crianças, de ir para lá brincar de pinhão, brincar de bola de gude, brincar de pipa, brincar de boneca, as meninas brincavam de (01:55:05). Então, virou a casa das crianças e aí elas foram se fazendo diretoras, foram se fazendo e a gente foi ensinando música, ensinando contação de história, ensinando as lendas que a gente ouvia e se transformou isso aí na Casa Grande. E isso foi assim a nossa história. Então, eu e Rosiane nos colocamos a serviço disso aí, de uma casa. Eu assisti… uma vez eu lendo O Edifício, de Will Eisner e é mais ou menos aquilo ali. Se você lê o quadrinho, a HQ de Will Eisner, O Edifício, depois você percebe que aquelas pessoas e aquelas histórias é tudo com fantasma. Na realidade o personagem é o edifício e a Casa Grande é esse edifício. Então, nós, de 1717 para cá somos mais uns que estão passando por aquela casa. Na realidade ela tem um olho que tudo vê e ela sorri para gente. Quantas crianças já brincaram naquela calçada! Então, a gente aprendeu, com isso, que cultura não é uma coisa do ser humano. Cultura é uma coisa da energia do lugar. E a gente vai vendo, quando a gente trabalha a cultura não para as pessoas, mas para formar a energia do lugar, a gente começa a ver que nesse lugar existem os personagens e existem os atores. Muda os atores, mas os personagens permanecem. Se você pegar as crianças daquela época que nós começamos, em 1992, as crianças de hoje são do mesmo jeito, eles ocupam papéis de personagens: é o câmera, é o fotógrafo, é o contador de história, é o recepcionista. São esses personagens que pertencem à natureza. E isso, quando você vai buscar na pesquisa, na antropologia, você vê isso. Eu comecei a fazer pesquisa de visitar rezadeira, curador. Isso são frutos científicos da floresta. O ser humano recebe isso. Quando não existia médico, não existia isso, a natureza fazia seres humanos, dava dons, dava esses atributos às pessoas. Eu conheci uma rezadeira dentro da floresta, a duzentos e cinquenta quilômetros de Belém. Eu estava na floresta e eu vi uma senhora, eu estava com fome e ali é uma região que tem próximo ao mar, mas também dentro da floresta, que as pessoas têm o hábito de comer camarão com farinha e as melhores farinhas do Brasil estão no Pará, ali é uma riqueza de farinha, de técnica de farinha. Você passa dias comendo só farinha diferente. E aí eu vi essa senhora, eu a achei diferente, porque quando você começa a afinar seu olho primeiro para a floresta, se você procurar uma planta na floresta você entra dentro dela, anda, anda, anda, anda quilômetros, quando você encontrar a primeira você vai ver que está dentro do reinado daquela planta e faz tempo que você está caminhando e não a via. Mas por quê? Porque a íris do seu olho, como a íris dessa câmara, fica zum, zum, zum, zum, acostumando à luminosidade da floresta. Quando você encontra, que ela bateu o branco, (risos) aí você passa a ver tudo na luz da floresta, você passa a ver aquilo ali em quantidade e aí o seguinte: eu conversando com ela, aí você começa também a ver esses personagens, as pessoas que são diferentes, certo? Que não vivem externamente, vivem internamente. E aí eu vi essa velhinha, conversando com ela e ela disse que era rezadeira. Eu perguntei: “Vem cá, como foi que a senhora recebeu?”, porque eu já tinha ouvido outras histórias, como de Dona Antônia lá na Chapada do Araripe. Ela disse: “Olha, eu era garota ainda, tinha 15 anos quando eu estava lavando roupa na beira do Igarapé, minha mãe mandou eu lavar uma trouxa de roupa, eu estava lavando sozinha, quando se levantou de dentro da água uma imagem de água como se fosse uma mulher e ela disse que eu tinha o dom e que eu podia escolher se eu queria ser parteira, ou se eu queria ser rezadeira. Como eu tinha medo de sangue eu escolhi ser rezadeira e foi ela quem me deu esse poder da reza”. Dona Toinha, lá da Chapada do Araripe, que era parteira, recebeu, ela chamava, se apresentou para ela o que ela chamava de alma vaqueira. Apareceu uma mulher e um homem, como se fosse uma enfermeira e um médico e ela fazia parto, ainda menina e eles ficavam do lado dizendo: “O menino está laçado, você tem que fazer isso. Ele está atravessado”, como era que fazia. Então, a natureza do planeta primeiro vem a lenda, depois é que vem o mito, a gente aprende o contrário: que vem o mito e o mito gera lenda, é ‘conversa furada’. Nós moramos num planeta vivo, que se renova com glaciações e interglaciações. Ele é vivo, ele faz o continente através das placas tectônicas ser um só, como já foi Gondwana e divide como nós estamos vendo hoje: um mora na América do Sul, outro na África, outro na América do Norte, ou na Europa. Então, a terra tem sua história. Nós somos os últimos habitantes do planeta e eu volto lá para o parque de minha menina com um ano. A sensação que dá é que nós viemos do outro planeta para cá, porque nós somos os únicos que tem proposta de destruição desse planeta, nenhum tem. O jabuti não tem, a onça não tem, nenhum bicho que está aqui. E esse mundo já foi habitado só por peixe, esse mundo foi só habitado por árvores, foi só por anfíbios. Se a gente chegasse aqui vindo de fora em determinada época desse planeta a gente: “Esse planeta só tem anfíbios; esse planeta, os habitantes deles são árvores”. Agora, impressionante o papel do mar é o mesmo papel do útero (risos) no planeta. Sempre que precisou a vida veio da água, porque a água não é desse planeta. (risos) Então, o que acontece? Isso aí é uma coisa, quando a gente começa a ver isso a gente começa a ver o seguinte: que o único que se divide também é o ser humano, o homem. O homem se divide e tem essa lógica de se dividir em raça, em povo, em coisa. Eu acho isso a maior incompetência da inteligência humana. Por quê? Porque a gente, nós somos uma espécie (risos) aqui na Terra. Nós somos uma espécie. Não precisa de subdivisão. Nós somos já divididos pela natureza como uma espécie, com esse potencial e com o dom de uma inteligência que a gente pode, é capaz de viver nesse planeta sendo uma coisa ou sendo outra. Então, por isso que na Fundação a gente trabalha as crianças com essa mentalidade. Isso é o melhor remédio que tem para o preconceito. Isso é o melhor remédio que tem para que a gente não se divida por crenças, não se divida por cores, não se divida por nada, por níveis sociais. Qual é a diferença de uma onça para outra? Pela característica de ser a onça preta, a onça pintada, de ser a onça que mora em cima do morro ou que mora na maloca, lá embaixo. Então, é isso que eu acho: que a gente perde muito tempo com essas coisas. No entanto, a gente podia ter uma reflexão maior a partir do princípio de onde a gente vive, que é o planeta que ele é que é a lenda, (risos) com todos esses seres vivos aqui em cima, está entendendo? Então, por isso que eu acho que antes de um sítio arqueológico ser arqueológico ele é um sítio mitológico, porque se habita um lugar por ser sagrado, porque o lugar mais profundo da espiritualidade do homem é o sagrado: “Meu bem querer é segredo e é sagrado, está sacramentado em meu coração”. Eu acho uma das frases mais lindas da música brasileira isso aí, o sacrário. Então, essa frase, para mim, é uma das coisas mais belas que a música brasileira produziu em termos de poesia, isso aí. Aí vem a geografia sonora: “De onde é que vem o baião? Vem debaixo do barro do chão. De onde é que vem o xote e o xaxado?” Essa música do Gilberto Gil é um tratado geológico da geografia musical brasileira. Você pega a música, a obra de Luiz Gonzaga… Luiz Gonzaga foi o antropólogo da música do nordeste. Eu não o considero só um músico. Olha só! A gente sabe que tem uma história, que essa é verídica, de que tem um satélite que foi lançado, que esse satélite viaja, foi lançado para se houvesse um contato fora as pessoas saberem como é a vida aqui na Terra e, dentro desse satélite, tem um disco e dentro desse disco tem uma música dos Beatles. Você sabe disso, né? Então, vamos imaginar que o planeta se acabou e de repente arqueólogos de outro mundo vieram aqui e encontraram o disco de Luiz Gonzaga. Vamos pegar a música Xanduzinha: “O caboclo Marcolino tinha oito bois zebus”. Eu vou ter esse disco como quem fosse aquelas pinturas rupestres que a gente não identifica o que eles querem dizer. “O caboclo Marcolino tinha oito bois zebus”. Esse povo que viveu aqui já criava gado e quem tinha oito bois zebus era rico, era da camada da casta social elevada, rica. “Uma casa com varanda, dando pro norte e pro sul”. Isso é arquitetura, a relação da morada com o sol. O nordestino arma a rede num horário… a casa é avarandada, porque ele arma a rede do lado da sombra e ele faz a casa virada pros pontos de circulação do sol. “Uma casa com varanda, dando pro norte e pro sul”, certo? Por isso que a varanda, esse povo já tinha essa relação da arquitetura ligada ao movimento do sol. “Caboclo Marcolino tinha oito bois zebus
Uma casa com varanda, dando pro norte e pro sul
Seu paiol estava cheinho de feijão e de andu”.
Esse povo já não era mais nômade, eles já tinham dominado a agricultura, era caçador e coletor. (risos) “Sem contar com mais uns cobres lá no fundo do baú”. Ou seja, eles já tinham moeda. Então, se você for encontrar a música, for ver a obra de Luiz Gonzaga, Sabiá, Assum Preto é ornitologia. Então, você vê a riqueza da música brasileira, como a música brasileira é pautada pelo bioma, pelas curvas. O que tem de curvas e pôr do sol e serra na música mineira! Então, isso aí é que eu acho a beleza do ser humano. Eu acho que a arte com essas coisas do rezador tem ligação direta com essa natureza divina, que é a lenda do planeta e nós só somos parabolicamará, (risos) que a gente capta e repassa para os outros.
(02:10:59) P/1 - Eu queria saber se tem alguma história dessa época que você passou viajando, fazendo as pesquisas junto com a Rosiane.
R - Sim.
(02:11:10) P/1 - Se tem uma história que foi marcante para você.
R - Sim, tem várias histórias. Tanto tem histórias da viagem do festival, como também histórias da pesquisa, em si.
(02:11:21) P/1 - Me conta uma de cada.
R - Pronto, eu vou contar a primeira que é a Anauá, que é um local que se chama Anauá, que é um local que tem uma mãe d'água e que, na margem dessa mãe d'água, em pedras do rio tem gravuras rupestres e esse lugar eu sonhei com esse lugar antes de ir lá. Quando eu cheguei nele, a pressa de chegar lá eu saí correndo por dentro do rio, porque era cheio de pedras grandes e eu saí correndo naquela coisa de: eu estou indo, então eu vou chegar lá e cheguei lá nesse local e lá ainda hoje existe esse lugar, por nome de Anauá. Então, isso aí é aquela coisa da íris que eu falei do olho, que você vai chegando, você vai ficando com intimidade tão grande com esses locais e com uma familiaridade com essa linguagem, que você passa a existir uma ligação espiritual mesmo com esses lugares, dentro daquilo que eu falei, que foi nos dado, aberto um portal para gente entrar, para gente trazer essas coisas de dentro dele para fora e materializar uma instituição para trabalhar com essa infância, voltada para isso. E as outras coisas foram de viagem mesmo, que a gente viajou, de música. Festival de música instrumental de Maringá. Mandamos… naquela época você mandava dez letras datilografadas, porque os jurados eram dez pessoas para julgar letra, música, interpretação e ainda tinha arranjo. Então, nós mandamos… e gravava uma fita cassete. Como o festival que nós escrevemos era de música instrumental, nós mandamos só a fita cassete para Maringá. Quando veio a classificação nós não acreditamos, porque a gente fez com a cabaça esticada, três cordas da cabaça, porque nós fizemos a música inspirada no som de uma caverna e é uma caverna que tem uma lenda que você entra por debaixo da Chapada do Araripe e vai sair no Pernambuco. Existem lendas, no Brasil, de caminhos subterrâneos que esses povos se comunicavam, entrava num canto e saía no outro. E essa música falava disso. Então, na cena acontecia o seguinte: uma criança indígena, nesse período da pré-história, aqui do lado da avó dela, dessa criança, estava fazendo um fogo e fazendo uma comida para neta na boca dessa caverna. Então, a criança olha e diz, pergunta: “Dera oin, dera oie. O que é essa caverna?” para a avó. A avó responde: “(02:15:02) Isso é um caminho dos nossos antepassados”. E no que ela vai falando a avó olhando para neta, a neta olha para floresta por trás da avó e vai saindo um cortejo com um andor e em cima desse andor vem o pajé e eles entram, cantando a música dentro da caverna: “Dera oin, dera oie (02:15:36)” e o som vai sumindo, sumindo, sumindo, sumindo e a criança faz assim e a avó dá aquela risadinha, como quem ela (risos) ela vê aquela imagem. E nós levamos isso pro Festival de Maringá. Chegamos lá com duas pedras, uma cabaça e esse negócio. Quando foi para passagem de som deu logo uma briga, porque o cara do som disse: “Eu não consigo microfonar isso” e o dono do som veio e disse: “Não, pode deixar aqui”. Eu disse: “Se você não quiser microfonar pode deixar, nós viemos aqui foi cantar, já estamos aqui, a gente canta sem microfone, sem som, sem nada. Desligue tudo, que a gente veio fazer foi esse ritual aqui”. Aí eu não acreditava que aquela música fosse classificada em lugar nenhum. Depois eu vim entender que foi classificada, porque lá existe uma colonização japonesa e os ‘caras’ se identificaram com aqueles instrumentos rústicos japoneses, que a música japonesa tem esse som minimalista: temmmmm tommmm uhuuuuuuu prim. É uma coisa assim que o compromisso é com o som, não é com a música. Aí, no primeiro dia era MPB, no segundo dia instrumental. Aí, primeiro dia MPB teve, aí classificava parece que era quatro, que ia para final no domingo. Aí vinha o segundo dia, que era sábado, apresentava todos e classificavam quatro. Nós subindo com dois surrões daquela mala de guarda-rapadura, com um tapete de couro, colocamos ali na frente, o povo sem entender o que era aquilo, tiramos as pedras de dentro da cabaça, baixamos a cabeça um pro outro, ninguém olhou para ninguém e eu disse: “Ou a gente aqui vai levar uma vaia do tamanho do mundo ou a gente ganha esse festival”. Aí começamos: din dun, din dun, din dun, din dun, din dun, din dun. Tinha um instrumento que eu fiz, que era eu quem fazia os instrumentos, que tinha uma gaita de boca. Sabe aquelas gaitas de boca que faz ton ron ron? A gente botava na cabaça e fazia ten bon ten, tem bon ten, ten don don don don don don don don don don don don don don don don don don don don. Aí eu pegava a corda do instrumento, que era uma cabaça grande, com a boca aqui eu fiz uma haste de maniçoba aqui, que é uma madeira muito leve, que faz colher de pau, para não pesar e as três cordas de viola ficavam suspensas, como se o som, as cordas estivessem no ar, não estivessem segurando em nada, que era o som da caverna, quando o vento batia na caverna, que era um som de sol, a nota sol: din don, din don, din don, din don, don don dun, don don dun, dom don dun, don don dun (02:19:21) din don dun dun dun dun dun dun e as pedras, daqui a pouco tchá, tchá, tchá. Eu esperei a vaia, não teve. Nós de olhos fechados. Rapaz, aconteceu uma coisa pior que a vaia, que foi o seguinte: o povo foi sumindo e saiu, o povo foi todo mundo lá, tocou a hora de comer uma pipoca lá fora, uma coisa assim, eu disse: “Eu vou dar uma brechada aqui no olho”. Quando eu olhei de lado estava o jurado em pé, em cima da cadeira e a plateia toda em pé, em cima da cadeira. O povo se levantou. Não ficaram no chão, não. Eu acho que os jurados, quando subiram nas cadeiras, o povo subiu também nas cadeiras. Eu disse: “Ganhamos o festival”. E, realmente, quando terminou a apresentação os jurados se reuniram com os ‘caras’ do instrumental que estavam lá e unanimemente os jurados e o povo que estava concorrendo disse: “O primeiro lugar é deles”. Não houve final e o prêmio de melhor arranjo eles passaram também para gente, que era de MPB. Menino, a gente ganhou tanto dinheiro, que esse dinheiro nós compramos uma moto, uma DT 180 (risos) e essa moto foi o transporte que a gente fazia as pesquisas nossas. Então, isso foi uma experiência para nós muito marcante, do tipo de música que a gente fazia, que não tinha compromisso nenhum.
Nós conseguimos...aí nós fizemos o show A Lenda, depois disso, com os meninos já da Casa Grande, que já era uma orquestra, cada menino executando um tipo de instrumento desses que eu fabricava e a gente cantava e cantava as histórias da lenda, mas a gente não quis gravar, porque o show tinha que ser assim, para ficar na memória das pessoas, como se fosse uma lenda. E que, se fosse gravado, teria que ser gravado por um menino, interpretando o que ele viveu com a gente naquela época. E foi gravado, depois que Rosiane fez a passagem, conseguimos gravar um vinil.
Existe esse vinil, que se chama A Lenda e esse vinil é uma interpretação do que foi A Lenda e eu fiz vinil porque, primeiramente, o culto ao vinil. Segundo, porque eu não quero nem todo mundo escutando a música da gente. A música da gente é uma música ritualística, é uma música para você chegar, colocar, criar uma paisagem sonora.
(02:22:37) P/1 - Eu queria que você contasse um pouco como que se tornou um museu a fundação, se é de imediato, se isso vem depois, como que se torna?
R - Eu considero a Casa Grande como o primeiro museu orgânico nosso, porque ele nasce de uma forma orgânica, nasce com as crianças. A gente coloca primeiro ali, nas paredes, fotos de locais mitológicos, de cavernas com pintura rupestre. Depois a gente coloca nas bandejas esses utensílios que nos foram doados pelas pessoas que a gente visitou, nesses locais. E depois as crianças vieram desenhar o que é cada peça, como se fosse uma história em quadrinhos, a sinalização é feita por desenho das crianças. Então, ela nasce, a Casa Grande e a gente a restaurou a partir dos pedreiros que tinha antigamente, que tinham derrubado alguns casarões. Então, se eles derrubaram, eles sabem construir. Eles vieram, reconstruíram a casa. Estava em ruína, tinha tijolos, paredes caídas e nós pegamos aqueles tijolos, colocamos novamente no lugar, respeitando o lugar dele. O piso, que era feito de ladrilho, de tijolinhos, que é um tijolinho quadrado, que antigamente esse piso era feito quando fazia caeira, que é a caeira que queima o tijolo maciço, em cima eles queimavam o tijolinho quadrado, que era do piso, porque ele juntava aquilo com o esterco animal e ‘botava’ em cima, porque não podia receber o fogo igual o tijolo, que ele era mais fininho, senão ele rachava e tinha essa química que eles faziam para ficar, não quebrar com a intensidade do fogo. Então, a gente trouxe novamente essa técnica de pessoas que ainda sabiam fazer isso, pessoas mais velhas, eles fizeram novamente o tijolo, voltou-se a fazer tijolo novamente de piso desse jeito, a gente reconstituiu o piso aproveitando o que tinha, respeitando a casa, como se pedisse licença para entrar. Porque quando a gente entrou na casa pela primeira vez, que era a casa do meu avô, que estava em ruína, que não se acabou porque tinha um tio que morava lá dentro e esse tio era meio um ermitão, ele dizia discípulo de Diógenes da Macedônia, ele só andava a pé, só vestia branco e ele foi quem deu o toque de muitas coisas que existiam de caverna, de coisa, para mim, porque ele só andava no mato assim, desse jeito. Quando ele pegou a parte da herança dele, ele comparava caderno e lápis e andava no sertão, ensinando poesia parnasiana para as crianças, que é Olavo Bilac, essas poesias parnasianas. Ele recitava O Navio Negreiro, recitava Iracema de Zé de Alencar, Augusto dos Anjos, então ele era uma biblioteca de poesia parnasiana. Ele morava lá, numa ruína e não deixava que as pessoas derribassem, porque inclusive foi cotada para ser comparada, para ser a prefeitura e ia derribar a casa que deu origem à cidade. E ele, nessa doidura dele, conseguiu preservar a casa. Eu pedi a casa a todos os tios, aí nos doaram a casa, então nós tivemos aquele respeito. Quando Rosiane foi entrando, porque a casa era mal assombrada, o povo via um frade andando lá, duas pessoas receberam em sonho a botija, que tem uma lenda de uma botija. Vocês sabem o que é uma botija? A botija é o seguinte: antigamente, por conta do cangaço, dos cangaceiros, o povo mais velho não tinha banco e enterrava dinheiro, enterrava moeda de prata, moeda de ouro, colar de prata, a riqueza era enterrada no lugar. Então, normalmente, enterrava debaixo de uma pedra, em um lugar marcante, debaixo de uma grande árvore. Então, se chamava botija. Isso é botija de (02:27:36). Existe a lenda da botija. E o seguinte: quem morre e tem uma botija enterrada, a alma não se salva. A alma fica aparecendo para as pessoas, para desenterrar aquela botija, que é para a alma se salvar.
Aí o seguinte: ela aparece três vezes, nas horas mortas. O que são as horas mortas? As horas mortas são horas que ficam entre um dia e outro e o seguinte: é como se abrisse uma fenda no tempo, que é uma hora que existe dentro da hora de passagem, que naquela hora a pessoa se movimenta de uma forma invisível. Se tiver um grilo cantando, ele cala, some o som, o som para e o ar fica rarefeito. Então, como na Casa Grande tem uma botija, então a pessoa se hospeda na casa e recebe o som, três vezes, daquela alma. Na primeira vez ela mostra tudo como é. Na segunda vez também, a pessoa não pode falar e na terceira também. Depois ele vai sozinho, leva água benta, leva um rosário, um terço, aí chega lá, reza, é cavando e rezando. No que ele está cavando, vai aparecendo marmota de todo jeito. Bota do olhos de fogo, de gente sem cabeça, marmota de todo jeito, para ver se a pessoa desiste. Aí a alma mostra ali o que tem, que tem um colar de ouro e tudo. Lá na Casa Grande tem moeda de prata, tem um colar, porque uma das pessoas ainda é viva, que sonhou com a botija. Ainda é viva, só que ela não tirou. Se a pessoa contar a botija e for tirar a botija, contou e foi tirar a botija, quando cavar, que encontrar, só tem carvão. Ali significa que a alma foi para o inferno. (risos) Então, é o seguinte: a botija, aí a pessoa vai cavar. Quando a pessoa arranca aquela botija, tem que se mudar da cidade, não pode mais morar ali. Essa lenda é uma lenda conhecidíssima no nordeste, da botija. Todos esses mitos a gente conservou, da casa: a lenda da botija; do frade, que era o frade que passa pela Casa Grande e pede hospedagem. Ele é quem dá o nome de Nova Olinda, que é para lembrar que ele veio do Colégio de Olinda, passando em (02:30:32), pede hospedagem na casa, não é dado. Quando é o povoadinho que tem, as pessoas vêm pedir à ele para celebrar uma missa e dá um nome novo à cidade, porque o nome Tapera do povoado é um nome que quer dizer casa velha abandonada. Ele pede hospedagem na Casa Grande e a pessoa que mora lá, o morador, não dá hospedagem. Ele reza a missa, dá o nome de Nova Olinda para a cidade, para tirar esse nome Tapera, mas ele joga uma maldição: “Tapera foi e Tapera há de ser, até sua quinta geração”. E aí esse frade vivia, as pessoas viam esse Frade andando lá. Aparecia a botija. Então, a casa tinha uma história particular dela, isso é fenomenal, porque ela tinha uma personalidade. As pessoas tinham medo e por isso que estava em ruína lá e era um lugar mal-assombrado. Então, o seguinte: com a restauração da casa, se cumpriu a quinta geração. A cidade era já cheia de ruína, não ia para frente. Depois da restauração da Casa Grande, a cidade se desenvolveu, passou a ser o pólo ali do Cariri (02:31:51). E aí é o seguinte: a gente restaura todas essas histórias dentro da casa, traz para dentro, restaura a casa com esses elementos, reconstitui tudo isso, para a gente realmente criar esse Memorial do Homem Kariri, que abriga todas as histórias em torno da casa.
(02:32:19) P/1 - Eu queria saber de onde que vêm as crianças.
R - As crianças vêm das pontas de rua de Nova Olinda, que estavam brincando na rua, que quando a gente abriu a casa, começaram a olhar pela fresta da casa mal-assombrada aquelas duas pessoas arrumando a casa. A casa que era mal-assombrada foi restaurada e estava de volta e eles viram e foram lá, curiar. A gente arrumando a casa e aqueles meninos olhando pelas frestas da janela, pela da porta e, quando a gente abria a porta, corriam tudinho, rindo. Aí eu disse: “Rapaz, esses meninos não vão deixar nós trabalharmos, não”. Vamos fazer o seguinte: fizemos uma panela de chá de cidreira, comparamos pacote de bolacha. “Vamos dar bolacha e chá para esses meninos e pronto, eles deixam a gente em paz”. Quando foi no outro dia, nós fizemos isso, uma panela de chá. Quando os meninos foram correr: “Não, venha cá e tal, entra aí”. Demos chá para os meninos, com bolacha. Quando foi no outro dia, dobrou o número de meninos. (risos) Eu digo: “A experiência não deu certo, não”. E esses meninos vieram e assumiram a casa. Então, tinha menino que tinha o dom de liderança, de liderar as brincadeiras. Aquele ali nós demos a ele o título de diretor de cultura. O menino que organizava, chegava lá, antes de brincar, pegava uma vassoura, varria, organizava. Quando tinha uma lâmpada queimada: “A lâmpada queimou”, nós demos o título de diretor de manutenção. E o menino que viu a gente explicando as coisas para quem chegava, quando nós começamos a ver, ele estava explicando as coisas para as pessoas que chegavam lá. Diretor de pesquisa. Esses foram os primeiros três diretores. A gente tinha duzentos reais para manter a casa durante o mês. Era sempre uma pessoa que ficava olhando o menino, um adulto, porque se chegasse uma pessoa de fora, um promotor, uma autoridade, tinha ali um documento, um CPF (risos) e cem reais para pagar a conta de energia. Os meninos, por conta própria, foram lá na empresa de eletricidade, para saber quanto custava um quilowatt. Aí eles olhavam o contador e administravam os cem reais. Os cem reais eram entregues a eles, para eles pagarem a conta de luz. Agora eles eram responsáveis, para não gastar o tanto de energia a mais de cem reais. Eles controlavam lá, no contador de luz. Daí nasceu a gestão financeira da fundação. Durante quatro anos, nós fomos mantidos por esses duzentos reais. Água, os meninos faziam um rodízio, traziam as latas de água de casa, jogavam a água na casa, que era o tijolinho e varriam. Porque primeiro joga a água e depois varre, para não levantar poeira, porque senão, se for varrer, sujava os expositores. E a gente passava cinco dias no Crato, eu morava com Rosiane no Crato e ia sábado e domingo. Então, as pessoas diziam assim: “Alemberg, por que você fez isso aqui na Casa Grande? Rosiane, vocês fizeram isso? Pela presença de vocês?” “Não, não foi a nossa presença que fez aquilo ali, foi a ausência”. A Casa Grande nasceu de nossa ausência porque, com nossa ausência, as crianças puderam experimentar serem os administradores da casa. E nasceu uma instituição diferenciada, que era uma instituição toda gerenciada por crianças. Você não vai encontrar isso em lugar nenhum do mundo. Eu fui fazer uma fala lá em Pontedera, na Toscana, na Itália, eu tive que enfrentar uma psicóloga, porque uma mulher veio ‘com um quente e dois fervendo’: “Por que a gente deixava as crianças sós dentro dessa casa, umas com as outras, que uma podia fazer isso, podia não sei o quê”. Foi preciso eu ir atrás de uma amiga minha que era psicóloga e dizer: “Não, tem uma psicóloga” “Ah, sim, agora sim”. A gente tinha uma coisa, que era assim: mãe não se mete em briga de filho, ele se resolve”. Porque era danado para o seguinte: o menino brigava, a mãe se metia, se intrigava uma das outras e era mágoa mesmo, o menino queria ‘desintrigar’, a mãe não deixava. (risos) Está entendendo? Então, as crianças eram quem… outra coisa, teve uma ideia? Teve. Administra essa ideia. Ninguém tinha ideia para os outros administrar. Não. A partir de que eu tinha aquela ideia, a minha, eu seria o condutor dessa ideia. Então, foi assim que a gente foi fazendo a administração das crianças terem uma eficácia dentro da Fundação. Então, a chave era entregue à eles, eles abriam a casa todo dia, abriam, varriam, limpavam, iam brincar o dia todinho. E aí aconteceu a casa de hoje e aí foi onde aprendi essa coisa dos personagens e dos atores, que virou uma cultura. Hoje os meninos, do mesmo jeito, são de 1992 para cá. Outra coisa que eu aprendi também com isso, foi o que é geração e o que é ciclo. A geração tinha casa que tinha quatro filhos, um mais novo, outro, outro, outro, outro, outro, outro, cada um uma escadinha. Então, na outra casa tinha quatro. Esse brincava com essa geração, esse brincava com essa geração, esse brincava com a geração, esse brincava com a geração. Cada um era uma geração. E esse menino ficava dentro da Casa Grande. Quando é que completava um ciclo? Quando esses meninos já eram casados, já tinham seu trabalho e já eram os filhos dele lá dentro da casa completava um ciclo. Isso aí. Então, a gente foi aprendendo coisas assim da lógica, mesmo, antropológica do lugar, das pessoas. A gente deixou que a gente fosse conduzido pela natureza do lugar. Para a gente ver que povo era aquele, que lugar era aquele, que é essa coisa da lenda do lugar. Então, a gente trabalhou muito com isso. O líder tem que olhar o talento das pessoas. Uma vez uma pessoa disse uma frase para mim, que eu comprovei lá: “Se o discípulo não superar o mestre, o mestre fracassou”. (risos) Porque a coisa mais difícil que tem é isso, é a sucessão. Outra coisa também é que a gente tinha que ter uma instituição leve, porque a gente serviria de exemplo para outras cidades pequenininhas como aquela, que não tem oportunidade de ter. Porque quando se fala em museu, se fala nessas coisas, sempre vem pelo público e aquilo é uma coisa cara. Outra coisa é que museu, que estou falando dentro do museu, não é a pergunta sua. Outra coisa é que o museu não é um lugar de contar histórias, é um lugar de conversar histórias. Quando o museu é um lugar que conversa histórias, ele é vivo. Quando ele conta uma história, ele já nasce morto, porque é a versão de quem o criou e quem o inaugurou. Quando a gente deixa, a gente só dá o mote e deixa que as conversas circulem ali dentro, ele é sempre vivo. Porque as versões, dependendo, como eu estava falando da música de Dylan, ela é cantada de uma forma diferente a cada dia. E a gente tem que, igual aquela música, deixar a luz do céu entrar. Então, a gente tem que ter isso. Então, eu vi logo que a gente tinha que ser um museu barato, para servir de exemplo para os outros. E todo lugar tem sua história. Tem aquele lugar que aqui não aconteceu, não passou Dom Pedro I, aqui não nasceu um artista famoso, nada. Mas ali tem a enxada de ‘seu’ João agricultor, que foi um grande agricultor, que era uma pessoa simples. Tem a máquina de costura de Dona Mariinha, que era quem fazia as roupas de festa das mulheres todinhas do povoado, da vila. Isso é a história do lugar. Todo lugar tem sua história. Então, daí nascem os museus orgânicos na Casa dos Mestres. E um museu orgânico nasce, ele se muda, ele morre e ele ressuscita. (risos)
(02:42:35) P/2 - Alemberg, e tem algum projeto para a permanência dessas crianças que viram jovens e depois adultos, permanecerem ali, naquele local, no território, de geração de trabalho e renda?
R - Sim.
(02:42:52) P/2 - Porque você fala que, quando vocês reformam a casa, se fecha um ciclo e a cidade começa a se desenvolver. Então, como que se gera trabalho e renda para essas crianças?
R - Uma das coisas, primeiro, é o seguinte: são as pessoas, outra coisa é a instituição. A gente adotou duas coisas: a instituição, a gente administrar como time de futebol. Primeira coisa: ela tem que ser barata, para ter sustentabilidade, porque sustentabilidade não é muito dinheiro, não, é você viver com o que tem, aprender a viver com o que tem. Você tem que caber dentro do seu salário. (risos) A gente adotou como time de futebol. Primeira coisa: a sustentabilidade da fundação, que é o plano básico da fundação, que hoje está em 120 reais por mês. Não, por ano. A Casa Grande custa 15 mil reais por mês. É cento e cinquenta mil… é 15 mil vezes 12. Dá quanto? Eu não sei, porque a tabuada foi a coisa que nesse dia eu faltei.
Mas quem está ouvindo é melhor de matemática que nós tudinhos aqui. Então, é o seguinte: isso é o que custa a Casa Grande por ano. Certo? A gente custa 15 mil reais por mês, x12.
(02:44:32) P/1 - 180, acho.
R - É. A gente tinha que ser barato, para dar essa possibilidade também, acessibilidade àquilo que a gente tem, os outros também vislumbrarem ter. E isso estaria ligado à visibilidade, como time de futebol aqui, a marca minha ligada a essa instituição. Daí nós teríamos que trabalhar a visibilidade da casa. A Casa Grande começa a ser visitada por pessoas. Uma visitação entre cinquenta a setenta mil turistas por ano visitando a casa. Então, isso tinha que... as pessoas queriam se hospedar, nós criamos as pousadas domiciliares das mães. Queriam comer, nós criamos os restaurantes das mães. Queriam levar alguma lembrança, nós criamos a lojinha das mães. Então, nós criamos um, vamos dizer assim, equipamento onde todas essas rendas que fossem, seriam das famílias, porque as famílias iriam também defender a casa, porque aquilo ali, o ‘bolo’ era repartido por todos. A Casa Grande não recebe nem um por cento da renda que gera. Certo? Que a renda que gera é gerada pelas próprias famílias. As pousadas domiciliares, os restaurantes, os cafés, a lojinha. E os jovens, crescendo, iam montar suas microempresas, que é o programa ia montar suas MEIs. Quando eles chegam à idade de montar a MEI, eles têm as MEIs. Então, eles passam brincando de fotografia, brincando de ler, brincando de... isso é brincadeira. Eles vão melhorando o conteúdo. Então, é o seguinte: quando eles crescem, eles montam a produtora de vídeo, a agência de turismo, a empresa que constrói os museus orgânicos. São empresas que nasceram dentro da fundação, junto com as empresas das mães. Daí vem... a fundação só tem duas metas. Meta um: manter as portas abertas. Meta dois: não deixar fechar. Tudo que mantiver aberto e não fecha é porque dá certo. Então, ser barata, ser em conta e ter essa rede de sustentabilidade como um ‘bolo’ que todos têm uma fatia dele. E dentro desse ‘bolo’, em relação às mães, ser um tipo de coisa, de economia, de que não nasça uma coisa como a cobiça, coisas como inveja, não deixar nascer essas coisas. É tanto que, quando você se hospeda numa pousada, que tem o rodízio das pousadas, chega um e se hospeda nessa. O outro que chegar já se hospeda na pousada dois, o outro chegar na três, o outro na quatro, o outro na quinta. Quando chega uma mãe nova para montar uma pousada nova, as mães mesmo decidem que vai ter um período que só ela vai receber, que é para ela comparar o frigobar dela, a cama dela. Está entendendo? Auxiliando nesse sentido. Existe isso, reuniões na fundação, deles. O slogan da Casa Grande é: “Cresça, que a Casa Grande cresce com você”.
(02:48:38) P/2 - Mas chega a ter uma associação das mães, dessas pousadas?
R - A gente tentou, primeiramente, uma cooperativa, só que o sistema de cooperativismo era muito pesado. Existia um sistema jurídico muito pesado no Brasil. A gente deixou e elas têm... o Júnior, que tem a empresa de turismo dele, é quem administra isso. Ele não tem pousada, mas tem as pousadas das mães. Ele não tem carro para ir buscar no aeroporto, mas existe a associação dos topiqueiros de Nova Olinda. Tudo isso é terceirizado. Tudo é montado para ser leve. Funcionário na Fundação não tem, porque todos ganham. Todos ganham. Cada um tira seu sustento de dentro da Fundação. O que é que a gente paga por mês? A gente paga contador e uma assessoria jurídica, de mil reais por mês. Contador a gente paga seiscentos reais por mês. É uma instituição bem leve. A primeira vez que a gente começou a ter contato com instituições aqui de São Paulo, que foram nos incentivar, como a Ashoka, como a Avina, como o Instituto Ayrton Senna, que foi o nosso primeiro grande parceiro, foi o Instituto Ayrton Senna. Quando o Instituto Ayrton Senna investia na criatividade do brasileiro, depois partiu mais para uma linha de educação, coisa assim. Nós fomos parceiros durante dois anos do Instituto Ayrton Senna. Na época, o instituto nos ensinou palavras como sistematizar, que a gente não sabia o que era isso; consolidar... isso é palavra que veio da lua. (risos) É outro idioma. Está entendendo? A gente aprendeu com isso. A gente foi aprendendo isso e foi socializando com as mães, socializando nessa coletividade. É como se fosse um navio. Sabe aquele navio cheio de barquinhos de salva-vidas em volta? Esses barquinhos de salva-vidas são as MEIs e o navio é a Casa Grande. Quando você vê as barquinhas junto do navio ancorado, você não vê a barquinha, você diz que aquilo é o navio. Quando você vê a barquinha lá no meio do mar, você não diz que aquilo é o navio, aquilo é a barquinha. Mas ambos fazem parte de uma coisa só. Então, a gestão da Casa Grande é uma gestão leve. Por isso que a gente tem uma gestão que, na maioria das instituições que a gente passou, viu surgir na época lá, a gente pode dizer que é uma instituição, mas isso foi uma coisa nossa mesmo, porque o que a gente queria era servir de exemplo para outros lugares terem também essa possibilidade de ter coisas nesse nível. Esse foi o nosso desafio e que vem sendo até hoje. Mas que essas mães vêm... é muito bacana você ver pessoas chegarem, histórias de vida da fundação. Merivan, que é da cozinha, foi uma pessoa que terminou o noivado e o noivo não admitiu e deu mais de 15 facadas nela, para matar. Ela escapou disso. Ela chegou, depois conseguiu sobreviver, se casou, o marido deixou, teve dois filhos, chegou lá com um na barriga e outro na mão. Chegou lá na Casa Grande para pedir uma oportunidade. Eu digo: “Toma essa cozinha, faça seu restaurante e cresça na vida”. Hoje o filho dela tem uma gráfica rápida, ela está muito bem, tem umas duas casas para alugar, vive bem, feliz lá no restaurante dela. Eu digo: “Cresça, que a Casa Grande cresce com você”. Recentemente uma mãe chegou lá agoniada, porque o marido vinha embora para São Paulo, porque não estava conseguindo mais sustentar a família lá. Eu dei o Novo Olinda Café Cultural para eles tomarem lá. Eu tive um irmão que veio da Itália e montou lá uma casa de massas de qualidade primeira. Eles aprenderam com ele e eu mandei chamar o pai e a mãe de Ana Luiza. Eu disse: “Pronto, vamos tomar conta disso”. Na hora, os olhos da mulher se encheu d’água, porque só ela sabe o que é criar uma filha com um pai longe, não é só o dinheiro. Então, esses meninos, o Júnior montou o projeto de turismo da Casa Grande.
Hoje nós recebemos cinco escolas de São Paulo por mês lá, na fundação. São escolas que a mensalidade é 15 mil. As melhores escolas de São Paulo passam pela Casa Grande. Vão para lá, que está acontecendo agora uma vivência lá. Os meninos vão conviver com nossos meninos, fazendo rádio, fazendo podcast, tocando, viver a Fundação. Teve caso de escolas que foram que os filhos, depois que passaram lá pela Casa Grande, voltaram em casa, voltaram para casa aqui em São Paulo, quando levantava arrumava a cama, deixava a cama arrumada, ajudando os pais. Teve deles que foram filhos até de donos de escola que, quando voltaram, passaram a entrar na administração da escola da família. Quer dizer: isso aí é uma coisa que, para nós, acho que é esse o papel da gente. O papel da gente é isso aí. Eu não gosto muito dessa ideia de replicar as coisas. Eu gosto das coisas de você fazer uma coisa original, autêntica, que aquilo influencie, de certa forma, as pessoas, de uma forma boa, dentro do que ele está vendo e a aplicabilidade onde ele mora.
(02:56:21) P/2 - Mas aí você está falando de não replicar, mas ser de exemplo e ter um custo pequeno, para poder outros se inspirarem no que vocês fazem.
R - Sim.
(02:56:35) P/2 - E tem uma coisa muito importante que você trouxe e que atravessa tudo o que você faz, que é a gente valorizar a criança e seguir a criança e que o mundo seria melhor se a criança sempre tivesse essa centralidade. Você acha que isso que você faz poderia ser um projeto de país, um outro projeto de desenvolvimento desse país?
R - Eu acho que sim. é por isso que eu falo com uma autoridade que eu acho que eu tenho pela prática, de que nós temos que repensar o ensino integral nesse país. Nós temos que repensar isso aí. Nós temos que pensar o ensino integrado. Olha, você imagine se eu, um período, estou na escola. Casa Grande vive isso, você tem que estar matriculado na escola, para estar lá. E no outro período, eu escolho fazer parte do reisado de meu avô. E o reisado de meu avô ser chancelado pelo Ministério da Cultura, como um ponto de educação. Então, meu avô apresenta que aquele projeto e a educação vêm e vê que aquele projeto vem de um ciclo, de um ciclo de reis, que chega no Brasil, que tem uma história e essa história ultrapassa o oceano, se instala aqui e que esses mestres mantêm esses saberes e fazeres da cultura e que é importante isso para a educação do país. E que eu vou lá e aprendo. Não é questão de eu passar quatro horas no avô. Não. Uma hora que eu passo fazendo aquilo, já é uma hora. Tem doses homeopáticas que superam um meio de alopatia. Então, que fossem pontos de educação, que a Casa Grande serve como um ponto de educação. O problema é que nós pautamos a educação do Brasil vinculado à política e ao financeiro. E isso não tem nada a ver com a educação. (risos) Tem nada a ver com a educação. Educação é educação. Aquela coisa que eu falei das peneiras do meu pai, que eu falei para vocês. Eu falei aqui, que eu fiz uma fala ontem, falei disso, como foi que meu pai educou com as três peneiras. Então, meu pai conversava comigo três coisas. Primeiro, a construção do templo de Salomão, a importância da arquitetura na formação, do ambiente que você está, o ambiente que você constrói, o ponto, as linhas e o ambiente é muito importante para entrar na sua cabeça a formação. Num lugar belo, poético, lindo as conversas fluem. Você vai lá na casa de Frida e Diego Rivera, você vê que eles construíram ambientes para surgir conversas diferentes. Ele pode pegar esse grupo que nós estamos aqui. Isso aqui, nessa sala, é uma conversa. Se a gente for lá para o jardim, a conversa já é outra. Já nasce com outras pinceladas de matizes diferentes de cores na cabeça de todos nós. A segunda coisa: a Biblioteca de Alexandria, a importância da profundidade do conteúdo. E aí é onde vem aquilo que a gente está falando da música, da qualidade. Você nota que o Brasil está doente pela música que está fazendo hoje. Qual é a geografia que você vê no Brasil, a arquitetura dessa doença? Você anda no Brasil, quando você vai chegar em uma cidadezinha pequena, a primeira coisa que você vê é um lixão. Depois você vê um motel na entrada e outro na saída e dentro só é bar e farmácia. Isso é um indicador de que o povo brasileiro está doente. Quando a gente criou esse negócio de menino de rua, era um protótipo para vir essa educação integral. Então, a educação tem que ser integrada. Se eu tenho uma mãe d'água lá, que é um lugar no Rio, que tem um bioma, que é um viveiro daquele bioma de plantas, de árvores, de frutas, de animais, em cima de uma geologia do Período Cretáceo, isso é uma grande sala de aula. Se eu transformo isso onde meus alunos vão viver isso aí, eu protejo o lugar. Nós temos que... a educação tem que derribar os muros, tirar as grades e o Brasil tem que ser um país educador. Seus biomas, sua geografia, seus territórios, é isso que nós temos que invadir. “Nós viemos invadir sua praia”. Então, esse conteúdo está no Brasil. Você entra na Floresta Amazônica, você vê a diversidade de plantas, a diversidade de som de pássaros. Quando destruíram o Maranhão, entrando ali com soja, aquela coisa: “As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”. Então, cadê as aves que aqui gorjeiam? O que foi que destruímos de espécies, animais, aqueles animais dentro do bioma, que terminam na doença das pessoas. As pessoas estão doentes. As instituições, com suas metas e suas estatísticas, estão adoecendo as pessoas. Então, como eu estava dizendo, a arquitetura, a construção do Templo de Salomão, a arquitetura, o espaço para a formação, a profundidade do conteúdo, a biblioteca profunda e mitológica, (risos) o que se perdeu de conhecimento quando tocou fogo, quando ela pegou fogo. E isso eu via muito. Meu pai, na sala principal, não tinha um barman, tinha uma biblioteca. Como faz diferença! Um livro, uma biblioteca com conteúdo... hoje em dia as pessoas estão com esse negócio digital, estão doando os livros para as coisas. Olha, aquilo ali tem uma energia. Mesmo que você não acesse, o conhecimento gera uma energia no ambiente. Ele gera uma energia. Então, a profundidade de conteúdo era a segunda coisa que ele trazia, com esse parâmetro da Biblioteca de Alexandria. E a terceira coisa era a escola filosófica grega, que era essa coisa do conhecimento dentro da arquitetura, aí é onde entra a construção da palavra e das relações humanas. E da concepção de conceitos, de transformação e de uma leitura de tudo isso. E aí entra o ser humano. Foi assim que meu pai me educou. E a Casa Grande tem esses três pilares. A Casa Grande não é uma escola. A Casa Grande é um espaço. É diferente. A Casa Grande não tem pedagogia, ela tem vivência. Então, essa é a filosofia nossa, de construir uma coisa dessa forma. E quando a gente constrói dessa forma, as coisas ficam mais baratas, incide no financeiro. Nós estamos vivendo um momento em que o mundo está passando por um balanço. Walter Smetak foi um gringo que viveu (risos) na Bahia e que inspirou, inclusive, o Uakti, aquele grupo Uakti. E ele dizia que a música não está aqui nesse planeta, nesse plano, para diversão, para divertir as pessoas. O papel da música é equilibrar o planeta. E existe uma historinha oriental, que é aquele rei que saía visitando o reinado dele. Ele tinha um instrumento e afinava o instrumento dele. Era afinado na Casa Real.
E, quando ele queria saber como estava a harmonia no reinado dele, ele saía vendo a afinação, se continuava afinado pela Casa Real. É a música brasileira hoje. É o que a gente viu, o que a gente vê isso na política. A qualidade política desse país acabou. Os estadistas, acabou a escola de homens públicos. O que é que nós temos hoje? É acesso, é like, é seguidor. Esses dias eu estava em Nova Olinda, um vereador veio dizer que fulano falou um negócio lá na Câmara, uma coisa besteira, que foram não sei quantas pessoas lá curtindo. Então, cadê os projetos? Por isso que acho que a gente tem que construir uma escola integrada. Integrada com esse bioma, integrada com a cultura local. E a pessoa diz assim: “Vamos fazer cultura na escola”. Eu não acredito. Eu não acredito por quê? Porque é o seguinte: eu vi momentos de aproximação do ministério. O MEC esquece que o C que tem lá é de cultura. Ministério da Educação e Cultura, (risos) o MEC. Tem gente que não sabe disso aí. No dia que nós tivermos o Ministério da Cultura e Educação, esse país vai para a frente, porque se adotou uma lógica de avaliar a educação, uma lógica surreal. Você chega numa cidade que é dez em educação e você vê poluição sonora, facção criminosa tomando conta. Onde é que está a educação desse povo? Eu achei interessante, fiz até uma foto ali do banheiro, (risos) que é a forma que vocês colocam ali. Não deixe marca. É igual um crime, não deixe marca aqui. É isso que eu acho. Olha, chegou a ponto da cultura dizer para a educação que ela era o primo rico e a cultura era o primo pobre. As escolas não são feitas para fazer cultura. Por quê? Porque atualmente até a função do arquiteto está indo se embora e quem está fazendo escola é engenheiro. Então, você faz um auditório que não tem acústica, não tem pé direito para entrar as artes lá dentro. O artista tem que ir onde o povo está, mas onde o povo está tem que ter estrutura para receber o artista. Esqueceram de completar essa parte. Então, a gente precisa fazer com que as escolas caibam cultura. Aí larga dois horários os meninos. Está adoecendo o professor, está adoecendo o aluno. E agora inventaram o sábado, que é um sábado que também conta. E os meninos... olha, eu vou dizer um exemplo: nós não temos criança a semana toda na Casa Grande. As crianças ficam presas com os professores em uma escola mal feita, sem atrativo nenhum, com professores que estão adoecendo, porque não tem conteúdo bastante para dar um dia todo. Então é aí onde eu acho que o diálogo não deve ser assim. A educação... sabe como é que está essa conversa? A Educação passou para o Ministério da Cultura não sei quantos milhões de reais, para vocês fazerem isso. A questão não é financeira. Não é isso. A questão é outra. É outro tipo de assimilação. É o que precisa. Você imagine que aqui nós precisamos... se uma pessoa que estudou acústica aqui, o piso, tudo, as câmaras, para fazer uma coisa de qualidade, passa por isso aí. Então, a escola não está preparada para isso. A educação virou uma plataforma política. E a educação tem que estar longe disso. É para educar o povo. É para o povo ser educado. Aquilo ali tudinho é para o povo ser educado. Eu digo para meus filhos, quando começou a surgir cartazes: primeiro lugar no vestibular não sei o que, primeiro não sei o que. Eu disse: “Eu não quero vocês em primeiro em nada. Eu quero vocês no meio da fila, porque quem está no meio da fila vê quem está na frente e quem está atrás”. Essa história de primeiro, meu amigo, é que está aí a situação. Eu acho que minha fala em relação a isso é educação integrada. E que a cultura seja isso para a gente resgatar os biomas, para que a gente possa resgatar esses mestres que estão aí repassando, onde eu possa escolher que eu, no segundo período, queira aprender um pouco com essas pessoas. E aí vai chegar naquela pessoa. Teve um tempo aí que se chegou próximo, mas era assim: na escola quem ganhava era o monitor. O monitor ganhava na escola para levar os alunos para ir visitar o mestre. O mestre tinha que ficar lá na casa dele, esperando. Aí tomava o tempo dele, quem ganhava era o monitor. Não, quem tem que ganhar é o mestre. Se a Fundação Casa Grande é cheia de alunos lá, então é o seguinte: esse repasse tem que ser para a Casa Grande, você está entendendo? Para trabalhar esses alunos. Também sou contra esse negócio de estar dando dinheiro para menino, para gente. Não. É mais uma educação. O valor é o saber. Porque senão desvia isso aí. Desvia.
(03:14:06) P/2 - E a alimentação, Alemberg? Vocês têm uma preocupação com isso, de onde vem a comida que vai servir nas pousadas? Como é feita? Porque a cultura perpassa isso também, valorizar…
R - Isso aí também a gente pensou. Tem um ditado que é assim: chegou um visitante, a pessoa: “Aumenta a água do feijão”. (risos) Ninguém queria criar nenhuma pousada que criasse alimentos que aquela família não come no dia a dia, só faz aumentar a água do feijão. Se eu estou lhe recebendo na minha casa, eu como o quê? Um bife com arroz, com não sei o quê. Então, seja bem-vindo à minha mesa. É isso que nós comemos. Porque assim a gente sabe o que é que come uma pessoa que vive naquela… nós não estamos fazendo imersão social? Estamos fazendo imersão social. Para que mentir? Então, isso aí. Os meninos vão comer na casa de vocês. É ótimo quando a gente tem lá comida para distribuir. É como se fosse uma celebração. Vai tudinho lá, come junto na mesa e tudo, mas o lugar de comer é na casa de vocês. Assim como eu detestava essa coisa de quando era Natal ou nessas festas, meu pai vir com roupa para mim, com essas coisas. Não, meu amigo, eu disse para uma enfermeira lá no hotel ou no hospital, quando a Rosiane estava internada lá: “Olha, dê brinquedo para suas filhas. A infância precisa de alimentar de brinquedo. Roupa, essas coisas é obrigação dos pais. Isso não é presente, não.” A gente tem que fazer com que as crianças brinquem. Quando a gente faz com que as crianças brinquem, é como se a gente estivesse aguando as raízes da árvore e ela vai. Volto mais uma vez a uma música de Bob Dylan, Forever Young, que ele fala que as suas raízes sejam profundas, para quando os ventos da mudança passarem, você puder suportar. Nós passamos por uma pandemia agora, recentemente. A gente sabe o que é isso aí. Recentemente a gente passou por uma coisa que a gente sabe que muita gente não teve volta. Teve gente que morreu, mas teve gente que pirou. Você está entendendo? Uma das coisas que os meninos se admiram lá, quando muitos meninos vão, é porque todo menino, hoje em dia, ninguém sabe viver mais sem um psicólogo. Essa coisa da gente fortalecer as raízes da gente, para a gente ser forte, para quando as pessoas precisarem um pouco da fortaleza da gente, a gente está próximo, não terceirizar. Você está entendendo? A gente nasceu foi para aguentar essas mudanças, essas coisas. Por isso que a gente nasceu com inteligência. Uma vez eu fui fazer uma fala em Ouro Preto. Aí o rapaz… você sabe que se for falar em Ouro Preto, você vai baixar no aeroporto de Belo Horizonte. Vem alguém lhe buscar de carro. E aí sim veio um rapaz, ele era um motorista e ele disse, eu conversando com ele, eu perguntei se ele era só motorista, ele disse que tinha um sitiozinho e que nesse sítio ele criava cobra, para extrair o veneno cadastrado com o Instituto Butantan.
Ele falou isso. Eu disse: “Rapaz, eu tenho uma curiosidade: quando eu era menino, lá no Goiás, a gente sabia de uma história que tinha um ditado, que é assim: “É igual o filho de cobra, se cria largado”. E o que a gente sabia, que era essa comparação, era porque quando a cobra ‘botava’ os ovinhos dela, que chocava, ela comia as cobras e as que escapavam era que corria dela”. Disse: “Não, não é isso não. O que a cobra faz? Ela pega, engole as cobrinhas e sai num raio de cinquenta quilômetros, ‘botando’ um casalzinho: um macho e uma fêmea, um macho e uma fêmea, um macho e uma fêmea. Por quê? Porque no HD dela, ela sabe que o planeta vive de glaciação, interglaciação e ela quer garantir a espécie dela para a próxima interglaciação, quando a glaciação vier, porque ela sabe que vem”. Olha só! Então, a gente também, dentro da gente, vive de glaciação, interglaciação. A gente tem que estar preparado para as glaciações dentro da gente. Eu, quando a Rosiane fez a passagem, meu amigo, quase morro. Eu não estava preparado para a minha vida se dividir em outro capítulo que não fosse com ela. Eu ‘perdi o chão’. Eu vivia andando pelo mundo, igual aquele filme Paris,Texas. E quando eu não estava andando pelo mundo, eu estava andando dentro de mim. O médico disse: “Alemberg, eu sei da ligação que você tem com a Rosiane, se você precisar de calmante, essas coisas, para você tomar, pode ir lá em casa, que eu lhe dou. Eu tenho muita amostra grátis”. Eu disse para mim: “Não, essa dor é minha. Eu vou saber até onde vai esse buraco, porque eu tenho dois filhos para criar e eles vão precisar de um pai forte”.
Então, eu fui lá, meu amigo, onde deu na pedra. Cada vez mais que doía, mais eu cavucava, para ver até onde a dor ia. Sem tomar nada. Hoje eu sei o que é uma dor dessa. Assim como eu vim com minha mulher, andando de hospital em hospital, seis anos, eu não vi um homem andando com sua mulher. Só era mulher. As acompanhantes eram tudo mulheres, mesmo sendo homem que estava. Outra coisa: você via que a maioria dos maridos abandonava as mulheres, quando tinham câncer. Você está entendendo? Então, a gente nasce para adquirir essas… as dores vêm para a gente rir com força. Então, essas coisas eu acho muito importantes dentro de uma vivência, sabe? Uma vivência da gente estar preparado para essas mudanças. E a gente... porque essas coisas todinhas de cultura, dessas coisas que a gente vive, na realidade, é só um subterfúgio para a gente trabalhar o ser humano. A gente vê isso aí. A gente vê as pessoas, como essa mulher que levou 15 facadas do marido e que hoje está lá, superando. Está comigo. Ela entende a minha linguagem. Ela sabe a minha dor. E quando eu me deparei com essa dor, do tamanho dela, eu me lembrei de uma música de Ednardo, que se chama Flora, que diz assim: “Essa dor que eu sinto agora é uma dor que não tem nome”. (risos) E assim como aquela coisa que eu me lembrei da fala do padre: “Na saúde, na coisa…”, também hoje eu tenho... eu passei por essa dor. Eu sei quando uma pessoa sente uma dor dessa. Eu sei o que ela está sentindo. E eu acho que uma das coisas mais bonitas no ser humano é a capacidade de sentir a dor do outro. Por isso que eu estou lá, na fronteira. Não tem aquele filme Dança com Lobos, aquele caboclo que vai lá para a fronteira do oeste montar aquela coisa? Ali é a Casa Grande. Eu estou na fronteira entre a ciência e o matuto. E qual foi a língua que eu escolhi? Foi a da criança. Porque a língua da criança, o doutor e o matuto entendem, porque todos os dois foram crianças. Então, é isso. (risos)
(03:23:26) P/1 - Você teve dois filhos com Rosiane, antes de Violeta.
R - E tem duas netas. E eu sei o que é a viuvez também, porque eu esperei passar a dor e eu me senti preparado para abrir novamente minha vida, para escrever um outro capítulo, com outra pessoa. E eu pedi à Rosiane, a única coisa que eu pedi a ela, no meu coração, onde ela estivesse, é o seguinte: se fosse de eu ter uma pessoa, que fosse um presente dela. E se eu fosse ter uma pessoa, que essa pessoa casasse com nossa história e que ela se desse bem com meus filhos, porque a gente não nasceu para viver. A gente nasceu para contar a história. Agora, para contar a história, você tem que viver. (risos)
(03:24:36) P/1 - Qual é o nome delas?
R - Das meninas? Eu tenho duas netas. Eu tenho dois filhos, Pedro e Ian. Ian, em Cariri, quer dizer pedra, pedra encantada. E Pedro quer dizer também pedra. E Ana, que Ana vem de água. E (03:25:01), que é o segundo nome, quer dizer inverno. Água transbordando em rio. E eu tenho minhas duas netas: Ana Rosa, que é o nome de Rosiane ao contrário. E tenho Maria Júlia, que é o nome da avó de Rosiane, que era a pessoa que ela mais gostava nesse mundo. Se inspirava era na avó dela. E minha menina, minha esposa, se chama Neyce. E minha filha se chama Violeta, que é em homenagem à Violeta Arraes, que era uma grande amiga minha.
(03:25:39) P/1 - E como foi se tornar pai essas três vezes? O que você sentiu?
R - Ah, é bom demais. É tanto que quando eu me casei de novo, eu comecei pelo pai, novamente. A função de pai é uma força. A palavra pai é uma força. A palavra mãe é uma força. A palavra filho é uma força. Então, a primeira coisa: a gente só sabe o que é o que foi ser um filho quando a gente é pai. Quando a gente é pai, a gente sabe como foi o que o pai da gente passou com a gente. (risos) E a palavra mãe é uma palavra... tem outra música de Djavan que fala disso, que é assim: “Feito mãe, vendo o filho com os olhos na estrada”. E tem uma coisa muito bonita nessa coisa, que uma vez eu ouvi uma fala, que é assim: “O que mais dói em uma mãe” - eu vi isso quando a Rosiane estava para fazer a passagem e deixar os filhos dela - “não é ir embora e deixar os filhos. É saber que ninguém vai amar aquele filho como ela amou”. Eu vi isso claramente nela, que o câncer dela era para ser em dois anos, no máximo. Ela conseguiu adiar para seis, porque eram duas coisas: ela queria terminar a tese dela de doutoranda de arqueologia social inclusiva, porque foi uma meta que ela fez e queria ver os filhos maiores, para suportar, compreender a partida dela. Isso ela conseguiu. Isso aí foi uma coisa que eu nunca a vi gemer, reclamar da vida. Então, isso aí, para mim, foi um exemplo e foi muito bom para mim, porque eu passei a ter um padrão de companheira na minha vida, saber o que é uma companheira. Eu, quando era criança, tinha muita admiração da mulher. Eu era homem e via as mulheres, tinha vontade de se aproximar, para conversar com elas, para saber da espécie minha que bicho era aquele. Eu tinha vontade de se aproximar das meninas, para conversar, saber como que elas pensavam, como elas (03:28:42), mas a gente não podia, porque os irmãos não deixavam, nem os pais delas. Quando eu tive Rosiane, eu casei com Rosiane donzela ainda, não sabia o que era. E eu vivi todas essas fases, a gente casou garoto, a gente se descobriu um ao outro, descobriu o que era o mundo feminino, o mundo masculino. Eu descobri que não era o que... a verdade não era o que eu tocava, mas era o que refletia do que eu toquei. Eu descobri que… com ela eu aprendi que nós, homens, só temos o botão do liga e desliga, que a mulher tem o grave, o médio, o agudo, (risos) o equalizador, tem tudo isso. Então, é uma visão muito mais ampliada do amor, do que a forma simplista que o homem tem do amor. Isso aí foi uma coisa que, para mim, foi uma escola. E eu para ela, fui também uma escola. Para mim ela foi uma professora. Para ela, eu fui um professor para ela. E a gente sempre se colocou no lugar de aluno, por isso que nosso casamento durou 35 anos, porque eu sempre estava de lado de minha professora e eu a admirava. E da mesma forma ela. Então, eu nunca li... tem três títulos de livro que eu nunca li, porque eu nunca quis passar do título. O primeiro foi As Mil e Uma Noites. Eu não sei do que se trata, mas eu sei que para você transformar a sua vida com outra pessoa em mil e uma noites, você tem que contar muita história e ouvir muita história. O segundo foi O Homem que Calculava. (risos) A gente calcular as coisas antes de fazer. E o terceiro é O Menino do Dedo Verde. Eu ganhei de presente os três livros, mas é guardado, eu não leio. Que é essa coisa de você tocar as coisas e elas fazerem diferença a seu toque. Então, para mim as coisas funcionam muito de uma forma ritualística. Quando eu venho do aeroporto para cá, eu estou cumprindo um ritual. Quando eu estou aqui com vocês, eu estou cumprindo um ritual. Minha vida é essa. Eu gosto muito de viajar, gosto de conhecer as pessoas. Eu não sou de ler. Eu não gosto de ler, não. Eu gosto de viver, de ir nos cantos, conversar com as pessoas, ver as experiências das pessoas, para tirar minhas conclusões. Quando eu fui para a África, eu desci lá e a primeira coisa quando eu desci do avião, olhei logo e já vi a estrela Dalva e digo: “Aqui tem céu”. Aí vi as águas: “Aqui tem água, tem tudo que tem”. Agora eu quero saber como esse povo se relaciona com esses elementos. E aí, ‘em terra de sapo, de cócoras com ele’. Então, eu sigo muito as coisas dessa forma.
(03:32:25) P/1 - Eu queria perguntar como você conheceu a Neyce.
R - Mais outra história. (risos) Eu conheci a Neyce na pandemia. Esse dia eu estava contando essa história e a pessoa disse: “Os amores de pandemia”. Não teve esse também, né? (risos) É o seguinte: ela trabalhava num museu em Sobral, num museu chamado Casa do Capitão-Mor. E ela ficou incumbida de fazer uma live comigo. E ela entrou nas conversas da live, vamos fazer a live, que dia vai ser e tal, preparou essa live, terminou no meio da live, dessas histórias, a mandaram vir de volta, que ela estava na casa dos pais dela, para voltar a assumir o trabalho, porque teve um período que mandou todo mundo para casa, não foi? Aí, eu, quando era marinheiro, tinha dois livros de cabeceira e esse eu tinha porque é o seguinte: porque era de Khalil Gibran, que é As Ninfas do Vale e O Profeta. Porque em Natal, na época, ainda que Câmara Cascudo era vivo, era em 1984, andou aquele Mansour Chalitta, que era um ‘cara’ que traduzia os livros daqui, de São Paulo e lançou uma coleção que tinha e eu tive esses dois livros, eu sempre tinha vontade de ter essa coleção. Coincidiu que ela gostava muito de Khalil Gibran. E como eu não li o resto dos livros que eu tinha preguiça de ler, então ficou nesses dois livros. E eu ia lendo em dose homeopática o livro, lá na Marinha. Aí, sabe o que foi que eu fiz? Eu peguei, fui na Estante Virtual, no Mercado Livre, saí catando toda aquela coleção, que foi lançada naquele período de 1984. Comprei, ‘botei’ dentro de uma caixa e mandei para a casa dela. E de noite ela ficava lendo os livros para mim, até eu dormir. E aí começou uma amizade bem bacana. Quando liberou para a gente sair, eu fiquei incumbido pelo Sesc de identificar museus orgânicos na Serra da Ibiapaba. Aí eu me lembrei dela, que morava no caminho para ir para a Serra da Ibiapaba, em Sobral, a convidei para identificar onde estavam esses potenciais, para eu ir lá, visitar e ela fazer o relatório. Que também, para eu escrever, para mim é um ‘parto’. Aí eu a chamei, aí fui. Ela identificou e tudo. Aí ficou eu indo e ela fazendo o relatório. Nesse trabalho, a gente se afeiçoou e resolveu se casar. Aí eu fiz todo o ritual: fui visitar os pais dela, eu, 61 [anos]. (risos) Eu não tinha passado por isso com a Rosiane, de pedir mão em casamento. ‘Cara’, eu tive que passar por isso, com 61 anos, ir conhecer a família, levá-la para conhecer a minha família, noivar, pedir em casamento com o pai, chegar lá e dizer: “Estou querendo casar com sua filha”. Casar na igreja, entrar com aquela coisa todinha, com aqueles meninos na frente, com as alianças. O padre, na hora do beijo, não queria que a gente desse o beijo. Ainda teve uma briga dela, lá, no altar, que ela. “Não, tem que ter o beijo” “Não, já passou a hora do beijo” “Não, a hora do beijo é agora”. O padre: “Você quer saber mais do que eu, que sou o padre?” (risos) E a gente casou. E foi legal, porque é o seguinte: é uma pessoa que veio por esse caminho que eu disse, como se fosse um presente. Porque uma das preocupações que eu tinha é por conta da presença de Rosiane, tão grande na minha vida, na Casa Grande, na minha casa, uma pessoa se sentir intimidada ou mal por estar. Não, mas graças a Deus foi um presente. Eu estou, vou fazer 62 anos. Eu sei que o caminho da vida é um caminho que, estatisticamente, está mais perto de eu ir, de que ela, que está com 38 anos. Então, embora eu tenha nascido no mesmo ano, no mesmo dia de Rosiane e ela foi primeiro, né? Ou seja, ela era mais velha que eu, se for por essa lógica, né? (risos) Então, eu quis ter uma filha, porque vai ser a companhia dela a filha. Eu pensei assim: se for um filho, vai ser pelo meu deleite, de ter aquela coisa de ter um filho homem nessa idade da vida. Se vier uma filha, é porque vai ser a companhia dela no futuro, né? Dela ter aquela pessoa, aquela amiga para conversar, sabe? Fiquei muito feliz quando veio a filha. Estou, assim, bem feliz de ser, por esse pensamento, sabe, dela ter uma companheira, porque eu vi também isso aí, que isso aí vem dessa coisa, dessa experiência nos hospitais, como as mulheres são mais presentes, né? Eu tenho uma filha mais velha, com trinta anos, que é a Ana. Eu tenho Neyce, tenho duas netas e Violeta. Então, eu estou bem assistido. No final da minha vida, uma ruma de mulher em volta de mim. (risos)
(03:39:14) P/1 - Sabe o que eu queria saber, antes da gente ir para o final, para as perguntas finais? Você contou que, no começo, quando o seu pai se mudou, era para sua mãe não encontrar você.
R - Sim.
(03:39:26) P/1 - Em algum momento você chega a reencontrar sua mãe?
R - Ah, sim. Eu ficava com o seguinte: eu me acostumei a viver sem mãe. Mesmo minha mãe ter voltado para o Ceará, eu não visitava minha mãe. Eu não tinha nenhuma ligação com minha mãe, porque na nossa cabeça ficou aquela coisa de que a culpa era da mãe. Como foi que eu resolvi isso, na minha cabeça? Eu pensei assim: fui lá no futuro e vi, assim, no dia que minha mãe morresse, tinha o caixão ali na sala. Eu ia chegar, quantos passos tinha da porta de entrada até o caixão? O que eu ia dizer para mim? Porque ela ainda viva e eu não a procurei. Eu disse: “Não, eu vou mudar essa história lá (risos) no capítulo 35, eu vou mudar”, está entendendo? Me aproximei de minha mãe. Meu irmão construiu uma casa para ela no sítio onde ela foi criada, na fazenda do meu avô, lá no Assaré. Eu comprei uma viola de dez cordas, aprendi a tocar. Construí um quarto lá, para mim e eu vou passar dias com ela, ouvindo a história dela, tocando viola para ela, que ela adora, cantando com ela, torrando café com ela, tomando café, criando galinha, comendo as galinhas. E eu consegui tirar esse futuro nefasto da minha vida. Eu me poupei de um pensamento que eu não tinha firmeza no futuro, de como é que eu ia passar o resto da vida me cobrando. Aí eu vou para lá. Sabe como foi que eu cheguei à casa dela? Eu pintei uma tela de uma história. Na hora que tiver o barulhinho, na hora que tu for mixar, tu toca um pandeiro, como se fosse uma trilha sonora. (risos) Minha mãe, quando eu nasci, com uma semana nascida, eu tive um problema no pâncreas. Tudo que eu comia, passava e eu não absorvia. Então eu fui definhando, definhando, definhando, que eu fiquei só o couro e o osso. Então, eu já estava fadado. O médico que ela levou disse que de cem escapava um. E ela ficou com aquele filho, vendo o filho definhar e meu pai, como na farmácia era coisa, aplicava a injeção nela de calmante, de coisa assim, para quando eu morresse, ela não dá um escândalo. E um dia, de madrugada, eu já estava assim, quase só já nos finalmentes, (risos) passou uma procissão na porta lá de casa, com uma santa, que eles iam ‘botar’ numa gruta. Aí ela disse: “O que é? Que zoada é essa, aí fora?” Aí o povo disse: “Não, é uma santinha que estão levando, para ‘botar’ numa gruta”. Aí ela foi lá na porta comigo, segurou nos braços e levantou e disse: “Nossa Senhora, se eu não posso criar, a Senhora crie por mim”. Aí entregou. Aí o seguinte: meu pai, nesse mesmo dia, lendo um livro, viu que, se pegasse a goiaba, batesse a goiaba, tirasse a casca todinha da goiaba e só aquele sumo desse, era bom para o pâncreas. Quando ele me deu a goiaba, quando foi no final da tarde, eu já comecei a funcionar o intestino. Aí ela tomou isso como um milagre e fez uma promessa de me levar até a gruta de pé. Aí o que foi que eu fiz? Eu pintei essa tela dela, de uma tela da procissão passando e ela, uma mulher, numa janela, com a criança assim e fiz um poema. Eu o tenho, até, aqui. E o ‘botei’ de trás da tela e eu entrei na casa dela com essa tela e esse poema.
(03:44:59) P/1 - E como foi?
R - Ah, está sendo ótimo, né? Porque eu sou responsável de comparar o milho para dar para as galinhas e ela dar de comer às galinhas. Ela fica o tempo todinho dizendo: “Alemberg, onde é que tu está? Quando é que você vem?” Aí eu vou para lá. É bom demais, né? Eu já tinha esquecido… a gente criou meio assim, embrutecido, sabe? Eu, nos primeiros anos de casamento, tive assim: eu era bruto. Eu não sabia lidar. Não sabia lidar com mulher, não sabia. Porque a gente, meu pai, quando nós fomos embora, no caminho ele parou no igarapé e ele comunicou para mim que estava separando de minha mãe. Eu não sabia que eu estava no Piauí, né? Ele passou por lá, pegou e ele deu uma pisa de cipó e disse: “Olha, é o seguinte, eu vou dizer uma coisa para vocês: eu me separei da mãe de vocês e eu não quero de forma nenhuma que vocês chorem com saudade. Vocês têm que ser homens. Daqui para frente, a missão vai ser dura, que é só eu, você e seu irmão. E eu não quero que vocês chorem com saudade”. E aí a gente aproveitava, quando a gente brincava, brigava, eu e meu irmão e tudo, aí meu pai muitas vezes dava uma pisa na gente, a gente aproveitava a pisa para chorar, com saudade (risos) da mãe.
(03:47:04) P/1 - O que é importante para você, hoje?
R - O que é que é importante para mim? É cumprir essa missão, de ver a Casa Grande, os meninos levarem à frente a casa, de ver Violeta e Neyce serem amigas, de ver minhas netas e a mãe delas. Dar continuidade à nossa morada de conteúdo, que é a nossa casa. Ela tem uma pizzaria. Eu levei um amigo meu aqui de São Paulo, aquela Pizzaria Vila Milagro, que tinha aqui na Vila Madalena, era dele, do Fefê. Fefê foi lá, ensinou desde fazer o forno até a técnica de fazer a pizza no metro e tudo. Ela tem lá, é uma das pizzas melhores que se come e que as pessoas estão lá. Ela está com o restaurante dela, criando as filhas dela. De ser uma pessoa que não envergonha as minhas netas, de ser um exemplo.
(03:48:23) P/1 - A próxima pergunta é se você tem sonhos, mas você me contou que tem. Tem desejos, além do sonho?
R - Meu desejo é esse que eu falei, com minhas filhas. E o sonho, ainda hoje eu ando dentro dele. Até um dia eu me encontrar com ele. Porque eu sei que ele tem um lugar de onde ele está vindo. E eu quero entrar pela porta da frente. (risos)
(03:48:57) P/1 - Tem alguma história que eu não perguntei, que você queira contar?
R - Tem muitas, mas eu acho que elas vêm de acordo com momentos e tudo e essas são as que estão vindo aqui, agora. Mas isso dá para ter uma ideia disso que eu estou dizendo, que a gente não nasce para viver, a gente nasce para contar histórias. E agora: para contar histórias, a gente tem que viver. E eu estar vivendo esse capítulo novo na minha vida é uma coisa que eu venho pensando a cada dia. Como é que vai ser o final? O que é que eu posso fazer mais? Eu vejo que está se aproximando um mundo muito difícil para as pessoas que vão viver daqui para frente. A gente está vendo como é que está, o mundo não está para pinscher, está para rottweiler e doberman. Certo? A gente vê, assim, como é que vai ser duas coisas, né? Que eu vejo que o mundo está modificando, porque duas coisas: estão tirando as florestas de cima do chão e, no que vai tirando as florestas, o encanto vai se retirando da terra.
E estão tirando a inocência das crianças. E, quando se tira a inocência da criança, também vai se tirando a bondade do planeta. Então, um mundo sem encanto e sem bondade, eu fico assim, sabe, pensando que mundo minhas netas vão viver? Que mundo minha filha vai viver? Eu me preocupo.
(03:51:10) P/1 - Quer deixar alguma mensagem?
R - A mensagem é: vamos trabalhar, (risos) para a gente não ver esse povo sofrendo, né? Vamos trabalhar, vamos procurar se juntar, vamos procurar fazer as coisas com honestidade, com simplicidade, fazer as coisas para que a gente não custe tão caro, a gente não esteja precisando trabalhar para ter dinheiro, para comprar felicidade, né? Que a gente possa ter isso de uma forma como é o ar, espontâneo. Eu acredito muito. Se eu não acreditasse, eu não estava com aquelas portas abertas. Então, eu acredito nisso, eu acho que a Casa Grande é um ponto de uma lamparina acesa, sabe, que está trabalhando para isso. Eu acho que é isso. Eu acho que o meu trabalho do dia a dia é para que o mundo possa apreciar a beleza, apreciar a poesia. Não é a poesia de ler, mas é o seu mundo, sabe? Que as pessoas possam ter o prazer da amizade e quando vê o outro, aquilo ali ser uma coisa grande, um encontro que seja grande. Eu acho que só vale a pena se for assim. Eu me sacrifiquei esses dias para ir lá, em Ouro Preto, em uma vaga entre uma coisa e outra, porque eu queria voltar para Ouro Preto, para ver amigos meus que já estão numa idade de oitenta e tantos anos, de ver as pessoas no lugar, fazendo uma coisa bacana. Então, passo por aqui. É uma alegria estar aqui hoje, porque quando nós começamos, em 1992, aqui esse trabalho começou em 1991, praticamente nós somos da mesma época de construção de um mundo que vinha, o que se pensava a respeito de ONG, o que se pensava a respeito de líder comunitário, de empreendedor social. A gente tinha um sonho, tinha um pensamento. Então, isso aqui vem de uma mesma época da Casa Grande, da época que a gente sonhou isso aqui. Nós lá, vocês aqui sonharam. Tem uma música do Oliveira de Panelas, que diz que ‘do amor que nasceu de nós dois, que nasça [outros] grandes amores depois’. Então, esses lugares aqui são lugares para se construir esses amores que vêm nascendo depois. Então, para mim, eu sempre ouvia falar do Museu da Pessoa, encontrava as pessoas, conversava e tudo, mas eu nunca tinha vindo aqui. Então, vir aqui para mim, é simbólico, é um ganho na minha vida eu saber que existe esse lugar. Onde eu estiver, agora eu tenho a imagem daqui. Por isso que a Casa Grande tem uma imagem, é muito importante que as instituições tenham cara, tenham lugar, que é outra palavra forte: lugar. Então, para mim, eu fico muito feliz de vir aqui. Hoje eu posso dizer na minha história de vida que andei no Museu da Pessoa, que passei por isso aqui, que é o ritual de vocês, que é entrevistar pessoas. E eu fico sabendo que, no futuro, um neto, um bisneto, se quiser ver o depoimento meu, está aqui. Então, vocês nasceram com esse dom, com essa visão de deixar a palavra para o futuro. É como se isso aqui é uma Arca de Noé. ‘Botar’ um casal de cada bicho aqui dentro, para quando o mar baixar, (risos) as pessoas saberem os bichos que tinham. Então, eu considero isso: essas instituições que são feitas por pessoas que tiveram insight de iluminações, que estava faltando aquilo ali. Então, para mim, ser uma dessas pessoas que deixa o depoimento aqui, para mim é grande honra, eu fiz parte dessa história também. Então, eu fico muito feliz com essa inclusão. Eu dormi ontem dentro de um carro, dormi um pedaço dentro do avião, dormi aqui um pedacinho do Uber, estou aqui, até pensei: “Meu Deus, será que eu vou render alguma coisa?” Mas quando a gente sentou aqui, que conversou, porque aqui é um lugar de conversa, a energia das conversas dos outros se apresenta aqui e dá essa força, dá uma recarga de pilha na gente. Para mim, eu fico muito feliz de também entronizar minha fala aqui com vocês e de agora em diante fazer parte dessas tantas mil entrevistas que vocês deram. Não é de fazer parte de um projeto específico de cinco entrevistas, não. É de participar desse cenário maior, que é o coração de vocês. O coração de vocês é o registro da palavra. Tem aquela música que diz: “Diga a palavra que nunca foi dita”. (risos) Então, acho que fazer parte disso aqui, para mim, é uma grande honra. Graças a Deus! E quando eu digo que minha mãe me entregou à Nossa Senhora, eu vejo que isso aqui faz parte dessa entrega. Então, eu tenho mais é que me esforçar, para atender as pessoas, todas as pessoas. Eu não faço cerimônia de jeito nenhum de atender, só se no dia eu já tiver marcado outra coisa, que eu não posso faltar ao compromisso com a pessoa. Mas eu faço de tudo para estar em todo lugar que as pessoas me convidarem para ir, eu vou. Jamais, jamais eu pergunto quanto é que eu vou ganhar. Jamais. Assim como eu falo essa coisa do estudo, para mim o valor é isso aqui. Você está entendendo? Para mim o valor é isso aqui. Fazer parte disso aqui, lá na frente, no futuro, daqui a trinta, cinquenta anos, o que eu ganhei se acabou, gastou, não tem valor nenhum. Agora, a minha fala, quem pegar essa fita aqui e ver, esse é o valor. Você está compreendendo? Esse é o valor. É por isso que lá na Fundação a gente trabalhou isso, das pessoas ganharem pelo seu valor, por aquilo que faz e nunca esperar da Fundação. Porque o da Fundação é essa oportunidade de ter uma porta. Vocês estão aqui no sudeste, as coisas são… a oportunidade está mais na porta de vocês. Mas, para quem vive num lugar daquele, a gente tem que andar léguas tiranas para ser visto. Então, isso é uma coisa que eu tenho o dever, de atender os convites para as pessoas que procurarem a Fundação, para dizer sobre a Fundação, que existe. E isso eu trabalho com cada menino da Fundação. Então, é isso.
(03:59:39) P/1 - Em nome do Museu da Pessoa, em meu nome, do Instituto Paul Singer, do Marcelo [Justo] , do Ali e do Vitor, eu agradeço muito por esse momento que, quando a gente fala no museu, a gente fala que aqui é um espaço, para nós, para Karen, para Rosana, um espaço sagrado de ouvir. Então, eu agradeço muito por esse momento que eu considero sagrado de ter participado. Muito obrigada.
R - “É segredo e é sagrado e está sacramentado em nossos corações”. (risos) Obrigado.
(04:00:17) P/1 - Que lindo! Muito obrigada.
R - Obrigado.
[Fim da Entrevista]
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