A CASA DA MINHA AVÓ A casa da minha avó paterna sempre foi o nosso porto seguro e para os vizinhos um tipo de exílio, por quê? Quando tinha alguma briga na casa de alguma comadre, adivinha para onde ela ia: para casa da Dirce do Artur Cardoso; e lá ficavam acampadas até fazerem as pazes, minha avó conciliando é claro. Fui a primeira neta , então já viu, muito paparicada. Mas não mimada, meu tio passava de caminhão na minha casa, na 6ª feira, me colocava na boleia e lá ia eu para a casa da minha avó passar o final de semana. Detalhe eu não tinha nem um ano quando essa aventura começou. Quando não era meu tio que me buscava em casa era meu avô, ele saía do trabalho e vinha pela linha do trem a pé para economizar, depois íamos de carona de caminhão com o dono do cartório. É claro que eu não lembro disso , essa é a memória da minha mãe. Quando minha avó mudou para perto de casa eu tinha 3 anos, mas trouxe na bagagem toda suas histórias e costumes. Festas familiares com muita comida, agregados, fogueira ... Nem pensar de fazer festa em outro lugar, para ela era uma grande ofensa. Quando minha mãe começou a trabalhar ficamos com ela, eu e meu irmão; ela já criava minhas 3 primas então éramos 5 sobre sua responsabilidade. Ela cuidava de tudo e nos deu as primeiras responsabilidades: deveres escolares, uniformes, trabalhos, nos ensinou o caminho da Biblioteca Municipal Padre Anchieta, ficava lá sentada, observando , ou conversando com os funcionários enquanto pesquisávamos ou fazíamos leituras, fazia isso sempre até que teve confiança de nos deixar ir sozinhos. Quando crescemos nos acompanhava as matinês(menores de 18 anos não entravam na danceteria a noite de jeito nenhum), já que nossos pais não nos deixava ir sozinhas, fazia ‘Festas de Garagem’ (sem garagem), nos ensinou a receber os colegas e participava (sempre alguém colocava uma música que ela gostava e a tirava para...
Continuar leitura
A CASA DA MINHA AVÓ A casa da minha avó paterna sempre foi o nosso porto seguro e para os vizinhos um tipo de exílio, por quê? Quando tinha alguma briga na casa de alguma comadre, adivinha para onde ela ia: para casa da Dirce do Artur Cardoso; e lá ficavam acampadas até fazerem as pazes, minha avó conciliando é claro. Fui a primeira neta , então já viu, muito paparicada. Mas não mimada, meu tio passava de caminhão na minha casa, na 6ª feira, me colocava na boleia e lá ia eu para a casa da minha avó passar o final de semana. Detalhe eu não tinha nem um ano quando essa aventura começou. Quando não era meu tio que me buscava em casa era meu avô, ele saía do trabalho e vinha pela linha do trem a pé para economizar, depois íamos de carona de caminhão com o dono do cartório. É claro que eu não lembro disso , essa é a memória da minha mãe. Quando minha avó mudou para perto de casa eu tinha 3 anos, mas trouxe na bagagem toda suas histórias e costumes. Festas familiares com muita comida, agregados, fogueira ... Nem pensar de fazer festa em outro lugar, para ela era uma grande ofensa. Quando minha mãe começou a trabalhar ficamos com ela, eu e meu irmão; ela já criava minhas 3 primas então éramos 5 sobre sua responsabilidade. Ela cuidava de tudo e nos deu as primeiras responsabilidades: deveres escolares, uniformes, trabalhos, nos ensinou o caminho da Biblioteca Municipal Padre Anchieta, ficava lá sentada, observando , ou conversando com os funcionários enquanto pesquisávamos ou fazíamos leituras, fazia isso sempre até que teve confiança de nos deixar ir sozinhos. Quando crescemos nos acompanhava as matinês(menores de 18 anos não entravam na danceteria a noite de jeito nenhum), já que nossos pais não nos deixava ir sozinhas, fazia ‘Festas de Garagem’ (sem garagem), nos ensinou a receber os colegas e participava (sempre alguém colocava uma música que ela gostava e a tirava para dançar), vigiando e sendo querida por todos. Nós crescemos, as festas acabaram, pois cada um tem o seu percurso a fazer: trabalho, família, a distância dificulta as reuniões de família, a tristeza e saudade dos filhos que se foram tiraram a vontade de fazer festas, mas a casa da minha avó está lá, pronta para nos receber, para dar um colo ou um puxão de orelhas: um Porto Seguro. Você deve estar pensando o que a foto tem a ver com a história? Bom antigamente, ali não existia uma ponte, ela foi construída no final da década de 60 ; ali tinha uma vila, a Vila do Rio Abaixo. Embaixo, bem embaixo dessa ponte está a casa da minha avó, a casa onde eu nasci. De lá guardo uma foto em monóculo sentada sobre uma pilha de madeiras no meio da obra e uma lembrança muito vaga do meu avô mandando o cachorro pegar uma galinha para o almoço. Quando fecho os olhos vejo: ele apontando para a galinha e dando a ordem para o cachorro ‘pega aquela’ e ele entrando feito doido no galinheiro direto atrás da indicada, fazendo o maior salseiro mas sem tocar em nenhuma outra e trazendo-a todo satisfeito para o meu avô já sabendo que iria ser elogiado. Embaixo dessa ponte, dessa água toda que forma a Represa do Sistema Cantareira, em Mairiporã jaz duas vilas inteiras e muitas histórias. Dizem que até lobisomem morava lá POIE Márcia Elaine de Freitas
Recolher