Meu pai e seus 17 irmãos nasceram em vários lugares do Brasil, uns em Muriaé, RJ outros no Paraná e outros em Cafelândia, SP.
O pai era o caçula dos homens, nasceu em 1950. Era loirinho.
A vó era analfabeta e teve vários registros de nascimento com nomes diferentes. Não conheci o vô mais meu pai dizia que ele bebia muito aguardente.
O vô e a vó nunca casaram e viveram em várias fazendas como trabalhadores rurais numa vida muito miserável. Comiam pasta de fubá e derivados do fubá todo dia. O pai contou que estudou até segunda série e levava polenta numa lata enferrujada de manteiga a escola e que uma professora ficou comovida e passou um ano levando lanche pra ele.
Os irmãos do pai foram na maioria homens muito violentos e alguns assassinos, e muitos irmãos e irmãs suicidas se mataram.
O pai viveu vida louca na capital de São Paulo, passou fome, arrumou bons empregos mas não permanecia, era membro de igreja evangélica e essa o enlouqueceu. Entre idas e vindas na igreja oscilava entre super crente e vida boemia em bares. Alcoólatra e depressivo arrumava muita confusão, numa dessas, em frente ao bar da casa onde morávamos foi assassinado aos 44 anos.
Eu estava grávida de 7 meses, e as últimas palavras que meu pai disse antes de sair de casa aquele dia foi sobre dar uma pulseirinha para a neta e pronunciou seu nome no diminutivo.
Ele morreu em dezembro no mesmo ano em que faleceu Airton Senna e meu avô materno seis meses antes. Sepultamos meu pai junto ao meu avô pois ele o amava muito.
A história de meu pai envolve Questão Social, saude mental, crenças alienantes, auto destruição, violência doméstica, pobreza extrema e alguns momentos felizes.