1990 – O ano que mudou a minha vida. Roberto Ferrari
O ano de 1990 começou bem com a posse do presidente Collor, eleito por maioria esmagadora de votos e com a mudança da fábrica de São Paulo para Santana de Parnaíba.
No mês de fevereiro aproveitei para viajar para Florianópolis e descansar antes da montagem da fábrica nova.
A viagem foi maravilhosa e fui com a Pri e mais um casal. Conhecemos praias do Sul da ilha e outros locais que não havíamos ido das vezes anteriores.
Passamos dez dias na Ilha da Magia e na volta estava pronto para montar a indústria e começar a trabalhar, mas nem eu e nem ninguém estava preparado para o Plano Collor. No dia do anúncio estava assistindo um show do Barão Vermelho e me senti tão mal que sai na metade do show.
O plano consistia no confisco de todo o dinheiro das pessoas, deixando uma quantia mínima disponível. O país entrou em parafuso, pessoas ficaram pobres da noite para o dia. Muita gente que havia vendido seu imóvel e aplicado o dinheiro ficou sem moradia, o clima era de revolta.
Eu fiquei sem condições de instalar minha fábrica, fato que me deixou muito tenso. Passei o restante de março buscando alternativas e em abril comecei a dar aulas particulares para pagar minhas despesas pessoais. O mês de abril foi muito estressante, mas precisei aprender a desenvolver um autocontrole para superar as dificuldades sem perder a calma.
Devido a frustação de não poder montar a fábrica, meu estado de cansaço mental e ansiedade era grande e na madrugada do meu aniversário, dia 23, sofri um acidente quando voltava para a casa do meu pai.
Não sei se vocês acreditam, mas eu tive um aviso uma semana antes quando passava pela Avenida do Jockey Clube e uma prostituta colidiu com o retrovisor do meu carro.
Naquele dia fatídico acordei cedo, dei aulas particulares e á noite fui a uma festa de aniversário em Jundiaí. Não bebi nada e estava muito preocupado com meu futuro. Como seria minha vida?...
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1990 – O ano que mudou a minha vida. Roberto Ferrari
O ano de 1990 começou bem com a posse do presidente Collor, eleito por maioria esmagadora de votos e com a mudança da fábrica de São Paulo para Santana de Parnaíba.
No mês de fevereiro aproveitei para viajar para Florianópolis e descansar antes da montagem da fábrica nova.
A viagem foi maravilhosa e fui com a Pri e mais um casal. Conhecemos praias do Sul da ilha e outros locais que não havíamos ido das vezes anteriores.
Passamos dez dias na Ilha da Magia e na volta estava pronto para montar a indústria e começar a trabalhar, mas nem eu e nem ninguém estava preparado para o Plano Collor. No dia do anúncio estava assistindo um show do Barão Vermelho e me senti tão mal que sai na metade do show.
O plano consistia no confisco de todo o dinheiro das pessoas, deixando uma quantia mínima disponível. O país entrou em parafuso, pessoas ficaram pobres da noite para o dia. Muita gente que havia vendido seu imóvel e aplicado o dinheiro ficou sem moradia, o clima era de revolta.
Eu fiquei sem condições de instalar minha fábrica, fato que me deixou muito tenso. Passei o restante de março buscando alternativas e em abril comecei a dar aulas particulares para pagar minhas despesas pessoais. O mês de abril foi muito estressante, mas precisei aprender a desenvolver um autocontrole para superar as dificuldades sem perder a calma.
Devido a frustação de não poder montar a fábrica, meu estado de cansaço mental e ansiedade era grande e na madrugada do meu aniversário, dia 23, sofri um acidente quando voltava para a casa do meu pai.
Não sei se vocês acreditam, mas eu tive um aviso uma semana antes quando passava pela Avenida do Jockey Clube e uma prostituta colidiu com o retrovisor do meu carro.
Naquele dia fatídico acordei cedo, dei aulas particulares e á noite fui a uma festa de aniversário em Jundiaí. Não bebi nada e estava muito preocupado com meu futuro. Como seria minha vida? Como conseguiria casar?
Estas e outras questões polvilhavam meu pensamento e toda a situação me deixava muito triste. A Pri sempre me apoiava e incentivava dizendo que tudo acabaria bem. Por volta de meia noite fomos embora e eu cochilei duas vezes, mas a Pri percebeu e ficou conversando comigo. Quando chegamos a casa dela, ela me disse para dormir lá, mas eu falei que queria dormir na minha casa e fui embora.
Assim que entrei na Avenida do Jockey Clube percebi que estava com sono e então liguei o som e abri os vidros do carro. Quando acordei estava no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas e já eram quatro horas da manhã.
A minha primeira reação foi a de perguntar onde eu estava e recebi como resposta outra pergunta: Você não sabe? Um dos médicos me perguntou.
- O que aconteceu? Eu perguntei
- Você dormiu no volante e bateu em uma arvore, o médico respondeu.
- Vocês cortaram a minha roupa! Vocês estão loucos? Eu falei
Depois de algumas perguntas para checar se eu não tinha tido nenhum problema cerebral um dos médicos falou:
-Agora que sabemos que sua cabeça está em ordem vamos cuidar do resto.
Naquele momento percebi que tudo havia mudado em frações de segundo e mal sabia que meu sofrimento e a luta para me recuperar seriam grandes e só estavam começando. Um dos médicos fez uma abertura na minha barriga sem anestesia e colocou um canudo por onde era colocado soro. Este procedimento foi feito para verificar se eu estava com hemorragia capsular, ou seja, dentro dos órgãos. Depois deste procedimento um ortopedista japonês se aproximou de mim e disse que iria doer muito, mas que precisava mexer na minha perna e então eu disse:
- Não vou deixar!
- Então levanta daí e me impede, ele respondeu.
Eu nem imaginava o estado em que me encontrava e tentei me mexer, mas obviamente não consegui. Quando ele ajeitou minha perna eu gritei de dor e xinguei muito o médico.
Meu braço direito ficou tão inchado depois da fratura que eu não conseguia enxergar o médico ao meu lado.
Depois destes procedimentos fui colocado em uma maca no Pronto Socorro. Eu estava com muita dor e cada vez que precisavam me remover para exames eu gritava pedindo para tomarem cuidado. Devido a suspeita de hemorragia fiquei uma semana no Pronto Socorro sem poder comer ou ingerir líquidos para que a possibilidade de hemorragia fosse descartada.
Eu havia combinado com a Pri de ir a casa de dois amigos nossos no domingo e como não apareci, ela ficou preocupada e ligou para mim e quem atendeu foi meu pai que quis evitar que ela fosse ao hospital, mas devido a pressão feita por ela acabou falando que eu havia sofrido um acidente e estava nas Clinicas.
Assim que ela desligou foi direto para o hospital e lá meus irmãos e meus pais quiseram impedi-la de me ver e meu tio Alencar vendo como ela estava triste conseguiu que ela entrasse no PS. Não sei como ela conseguiu, mas a Pri ficou lá dentro uma semana, até que eu fosse removido para a enfermaria.
Nesta semana em fiquei no PS do meu lado esquerdo ficou uma pessoa que tinha tomado um tiro na cabeça e do lado direito na maca atrás da divisão de madeira, ficou um homem com ulcera perfurada e os dois gritavam o tempo todo dizendo que iam morrer. Foi uma tortura psicológica, horrível.
Vale a pena dizer que o apelido do PS das Clinicas era Vietnam.
Durante o período em que fiquei na enfermaria sofri várias cirurgias e foi descoberto que meu pé direito havia tido muitas fraturas nos dedos (artelhos) e que a cabeça destes ossos havia quebrado em muitos pedaços.
Quando cheguei no PS os médicos precisaram recuperar minha pressão sanguínea e para fizeram um corte no meu braço esquerdo e bombearam manualmente três ou quatro litros de soro e após este procedimento foi colocado um cateter para manter a veia aberta. Só que este cateter pode ficar no máximo uma semana e após este prazo precisa ser trocado. O meu levou mais tempo que isso e estava infeccionado. Um médico, o Dr. Felipe, foi trocar o cateter na enfermaria e neste dia estavam lá minha irmã e a Pri. Quando ele puxou, as duas desmaiaram. O Dr. Felipe resolveu colocar o novo cateter em outro lugar e me disse:
- Não vai doer nada. Este procedimento foi desenvolvido na guerra do Vietnam e colocou o cateter pelo meu pescoço, na carótida.
A primeira cirurgia que sofri foi a da perna esquerda e do tornozelo esquerdo. Coloquei uma placa com sete pinos e dei um laço no tornozelo, tendo a minha perna imobilizada. A segunda foi a do braço direito que sofreu uma redução cirúrgica com a colocação de um colete de gesso devido a uma fratura do cotovelo.
Depois de colocar o colete achei que ia morrer, foi horrível quando me colocaram na cama. Precisei acostumar com aquele gesso e deixar de lado a sensação de dificuldade respiratória, que na verdade era só mental.
Quando o osso do braço quebrou ele contundiu meu nervo radial, o que me impedia de abrir a mão naturalmente. Para este tipo de contusão não existe cirurgia reparadora e foi colocado sobre o gesso uma armação com elásticos e couro para encaixar os dedos. Este aparelho chamado de banjo permitia que eu abrisse e fechasse a mão para tentar recuperar o nervo radial. Quando o médico instalou o banjo me disse:
- Nunca vi ninguém recuperar o nervo radial.
- Isto porque não conhece o Roberto Ferrari, eu respondi.
Após uma semana na Enfermaria, fui transferido para um quarto individual que estava sendo testado pelo hospital e fiquei lá quinze dias. O médico que me atendeu no hospital, o Dr Egydio, acabou se tornando padrinho do meu primeiro casamento.
Após este período no hospital fui para a casa do meu pai em uma cama hospitalar até agosto.
Este tempo todo foi de reflexão sobre a minha vida e cheguei à conclusão que nunca devemos perder a esperança por mais difícil que a situação esteja.
Eu estava muito preocupado com minha mão e fazia a fisioterapia constantemente. Como forma de incentivo pedi que me alugassem um filme antigo com o Marlon Brando, onde ele teve sua mão direita quebrada e se utilizou de um artifício semelhante ao meu para recuperar o movimento. Pratiquei tanto que precisei fazer muitas trocas de elásticos no aparelho.
Depois de um mês voltei as Clínicas para retirar o banjo e quando o médico se mostrou surpreso com a minha recuperação, disse a ele:
- Não falei que você não conhecia o Roberto Ferrari. Sou muito determinado e consegui. Agora quero doar este aparelho para a fisioterapia e ajudar outras pessoas (precisei comprar o aparelho).
Meu ânimo aumentou com a restauração dos movimentos da mão direita e continuei mentalizando energias positivas e mantendo o bom humor.
A Pri esteve comigo todos os dias, independente do clima adverso que reinava contra ela.
Sempre admirei a determinação dela e pude ver que o amor supera qualquer barreira. Depois de quatro meses do meu acidente retirei todo o gesso dos meus membros. Lembro que a primeira sensação foi a de insegurança, pois com o passar do tempo parecia que aquele gesso fazia parte de mim. A outra emoção foi a de ver a rua novamente, pois as minhas locomoções foram feitas de ambulância. Andei em todos os tipos de ambulância.
Eu mal sabia que meu sofrimento não havia acabado e que agora viria a etapa mais dura: a fisioterapia.
Iniciei a minha recuperação no mês de agosto na clínica do Dr Egydio com uma pessoa especial a fisioterapeuta Marta, que foi a pessoa responsável pela minha reabilitação.
Foi preciso muita determinação e resistência à dor para conseguir vencer esta etapa. O esforço era diário na clínica e em casa também. Lembro que quando minha mãe foi me buscar no primeiro dia eu estava com a camisa molhada de suor de tanta dor que senti.
A vontade de reconquistar meus movimentos para voltar a ser independente foi infinitamente maior que a dor que eu sentia.
Vou citar o caso do meu cotovelo, pois segundo o médico eu ficaria com uma limitação severa que me impediria de fazer muitas coisas. Eu não podia aceitar tal fato e lutei muito, a tal ponto de andar carregando uma pasta de executivo cheia de pedras para forçar a abertura do meu cotovelo. Obtive pleno sucesso e foquei com uma limitação que não me impede de nada.
Por isso digo que em certos momentos da vida precisamos usar a criatividade aliada a determinação para atingir o sucesso
Minha vida até parecia o filme “Rocky, Um Lutador”, pois eu brigava com meu corpo todos os dias. E digo que o importante na vida é o quanto você aguenta apanhar da vida e a cada queda se levantar e poder dizer: Se eu sonho e quero então eu consigo com determinação, trabalho e disciplina.
Neste longo período de recuperação, precisei travar outra batalha e desta vez foi com meu pai para abrir a fábrica. Não fosse a minha irmã e minha mãe insistir que a fábrica precisava ser aberta, pois ele havia me prometido diversas vezes, não sei o que teria acontecido.
No final de 1990, meu irmão Rodrigo se casou e fui padrinho no sacrifício, pois meu pé direito estava péssimo tanto que foi operado no mês de dezembro.
Sofri ao longo de sete anos quinze cirurgias no pé, na perna, no braço e na coluna, todas devidas ao acidente que sofri e ainda hoje carrego sequelas deste momento crucial da minha vida.
Aprendi que em vez de reclamar devemos lutar e agradecer a Deus por termos condições de nos recuperarmos, pois se olharmos ao nosso redor veremos gente em situação muito pior.
Posso concluir que para atingirmos o sucesso precisamos:
• Sermos resilientes
• Determinados
• Persistentes
• Acreditar em nós mesmos
• Amar o que fazemos e a vida
• Sempre manter o bom humor e o pensamento positivo.
Digo ainda que uma das coisas mais importantes é o entendimento da vida e dos fatos que nos acontecem, aceitando os desafios e obstáculos e os encarando como oportunidades de atingir o sucesso.
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