Eu me chamo Camila e nasci na Região Norte do Brasil. Desde quando eu me entendo por gente minha mãe é empregada doméstica, mas agora ela se tornou diarista. O meu pai biológico era pedreiro.
Minha mãe sempre trabalhou, o primeiro emprego da minha mãe foi numa pizzaria, ela trabalhava a noite e o salário que ela ganhava não dava para sustentar todos nós, por isso ela sempre tirava uma diária para o dia. Fui responsável em criar meus irmãos desde muito pequena. Tanto que eu me queimei várias vezes no fogão, queimei meu cabelo, porque eu que fazia a comida.
Acho que desde os seis anos eu já tinha responsabilidades, já tinha tarefas, já fazia as coisas, mas quando fiquei sozinha em casa mesmo foi quando completei oito anos de idade. Era eu e meu irmão mais velho, mas as responsabilidades de mulher era comigo. Tinha uma irmã caçula, eu que cuidava, carregava no colo. E tinha também as outras pequeninhas que já andavam, mesmo assim eu cuidava.
Meu pai, além de ser pedreiro, era alcoólatra. Ele amava muito a gente, mas não respeitava minha mãe, havia muitos conflitos entre os dois. Além da minha mãe ter que trabalhar, quando ela chegava ele queria saber a justificativa de onde ela estava, começava a agredir, às vezes não permitia ela ir trabalhar e, por conta de confusões, ele não permitia. Laços familiares com meu pai eram grandes. Ele gostava muito da gente, mas não cuidava, não trazia nada, apenas gostava. Demonstrava carinho de vez em quando, mas não era um pai presente, não criou, não educou, não cuidou.
Eu acho que quando eu entrei no Projeto ViraVida, quando fizeram a entrevista comigo, um dos motivos que me levou a entrar no projeto foi eu não gostar muito de falar da minha infância, porque quando falo em relação ao meu pai... Foi um dos maiores traumas que eu tive na minha vida. Então quando ele chegava do trabalho, que ele batia na porta e quem abria a porta era eu, porque minha mãe não estava em...
Continuar leituraEu me chamo Camila e nasci na Região Norte do Brasil. Desde quando eu me entendo por gente minha mãe é empregada doméstica, mas agora ela se tornou diarista. O meu pai biológico era pedreiro.
Minha mãe sempre trabalhou, o primeiro emprego da minha mãe foi numa pizzaria, ela trabalhava a noite e o salário que ela ganhava não dava para sustentar todos nós, por isso ela sempre tirava uma diária para o dia. Fui responsável em criar meus irmãos desde muito pequena. Tanto que eu me queimei várias vezes no fogão, queimei meu cabelo, porque eu que fazia a comida.
Acho que desde os seis anos eu já tinha responsabilidades, já tinha tarefas, já fazia as coisas, mas quando fiquei sozinha em casa mesmo foi quando completei oito anos de idade. Era eu e meu irmão mais velho, mas as responsabilidades de mulher era comigo. Tinha uma irmã caçula, eu que cuidava, carregava no colo. E tinha também as outras pequeninhas que já andavam, mesmo assim eu cuidava.
Meu pai, além de ser pedreiro, era alcoólatra. Ele amava muito a gente, mas não respeitava minha mãe, havia muitos conflitos entre os dois. Além da minha mãe ter que trabalhar, quando ela chegava ele queria saber a justificativa de onde ela estava, começava a agredir, às vezes não permitia ela ir trabalhar e, por conta de confusões, ele não permitia. Laços familiares com meu pai eram grandes. Ele gostava muito da gente, mas não cuidava, não trazia nada, apenas gostava. Demonstrava carinho de vez em quando, mas não era um pai presente, não criou, não educou, não cuidou.
Eu acho que quando eu entrei no Projeto ViraVida, quando fizeram a entrevista comigo, um dos motivos que me levou a entrar no projeto foi eu não gostar muito de falar da minha infância, porque quando falo em relação ao meu pai... Foi um dos maiores traumas que eu tive na minha vida. Então quando ele chegava do trabalho, que ele batia na porta e quem abria a porta era eu, porque minha mãe não estava em casa, era um silêncio que pairava pelo fato: “Tu não faz nada de errado, não aborrece”, porque tinha que fazer de tudo para acalmar, para não causar algum tipo de irritação, ela vinha descontar na minha mãe, ele não descontava na gente, não batia na gente, ele batia na minha mãe. Qualquer motivo: “Tu não sabe educar teus filhos, tu vive ausente”, mas nunca brigava com a minha mãe sóbrio, toda vez era alcoolizado. Então nunca foi um sentimento bom, sempre um sentimento muito ruim quando ele chegava em casa. Triste em ver a minha mãe, sabendo que quem ia pagar por tudo era ela.
Eu digo que eu sempre fui adulta, porque eu sempre acordei às cinco horas da manhã quando eu era pequena para cuidar dos meus irmãos mais novos, porque quando acordavam já tinha que fazer leite. Fazer não, porque minha mãe deixava tudo pronto, por que eu sou atrapalhada, me queimava, queimava meus irmãos, então ela deixava tudo feito, eu ia e pegava. Começa chorar um aqui, um aqui, eu já ia cuidar deles. Então nunca tive infância, nessa época sempre cuidei dos meus irmãos. E o tempinho que eu tinha quando minha mãe chegava, quando ela estava de folga, era o tempo que eu ia brincar, ia bater na casa de uma amiga para brincar de casinha. Então eu tive responsabilidades muito grandes e isso me frustra pelo fato de querer fazer hoje o que eu não fiz quando eu era pequena. Tenho atitudes, de criança hoje, porque não fazia quando eu era menor. Então isso é muito preocupante. Eu brinco na chuva, de futebol, adoro criança. Eu levo jeito com criança. Antes deu entrar no ViraVida eu era babá, e era muito cogitada aqui na rua, pelas pessoas, porque eu sei cuidar muito bem de criança. Uma das coisas que também faço muito são as minhas piadinhas, minhas brincadeiras, o jeito como eu toco nas pessoas. O que eu não fiz eu faço agora, não estou morta, eu faço.
Os meus irmãos não respeitam, nunca respeitavam. Vivíamos brigando quando cresceram, quando eram pequenininhos dava conta, mas quando eles começaram a crescer, a ter responsabilidade, conhecer a rua, porque não tinha ninguém para cuidar. O mundo criou eles, o mundo me criou. Cada um de nós resolveu fazer uma coisa diferente. Então o mundo criou a gente. A gente vivia brigando, já nos cortamos um ao outro, fomos parar no hospital, porque ninguém se respeitava, ninguém tinha educação.
Havia uma cobrança muito grande quando eu era pequena, porque a responsabilidade de tudo o que acontecia na minha casa era minha. Eu sofria muito com isso.
Meu pai viveu nessa casa até quando eu tinha uns dezoito anos, foi quando minha mãe conheceu meu padrasto. Durante um tempo ele ficou vindo aqui em casa querendo voltar para minha mãe, mas não deu certo. Ele faleceu de cirrose. Quando ele morreu eu senti uma mistura de sentimentos. Um alívio pela dor que ele causou na minha mãe, ela não merecia, e a tristeza dele não ter sido para mim o que eu esperava.
Eu sempre estudei, eu sempre fui muito estudiosa. Minha mãe sempre nos colocou em escolas. Ela chegava, olhava os cadernos, perguntava, eu sempre tive que assistir as aulas, eu ia para escola e o tempo que eu tinha para estudar era o tempo que ela chegava. Era o tempo que os meninos iam para rua, eu ficava dentro de casa arrumando as coisas, às vezes eu começava a ler, estudar. Eu não estudava muito não, porque eu não tinha tempo, mas eu estudava o suficiente, principalmente na escola que eu tive ótimos professores quando eu era pequena, me incentivaram, conheciam a minha história, conheciam a minha casa, na escola eles ficavam muito no meu pé, porque não sei o que eles viam em mim que diziam que eu tinha futuro, que eu era muito inteligente. Todos os meus irmãos iam na escola comigo, menos a caçula.
Gostava de Português, pelo fato da professora ser uma professora muito boa, muito cuidadosa, muito atenciosa com cada aluno, gostava por conta da literatura. Ela inventava muitas coisas para ter o hábito de ler. Ela era muito criativa, mesmo com as dificuldades da escola ela inventava, eu achava isso bacana, ela tirar do nada, até dos materiais recicláveis, ideias para nós termos vontade, incentivo da leitura, do Português, das histórias. Ela foi uma pessoa que me ensinou a sonhar. Eu não gostava: “Sonhar é para quem tem direito ao sonho, eu não tenho. Eu vivo uma realidade totalmente diferente daquilo que a senhora me mostra”, ela falou: “Não!”. Ela incentivava, contava histórias, dizia que a gente tinha que ter esse direito ao sonho. Eu falei: “Isso não é para mim”.
Não era muito de sonhar não, era muito mais de olho aberto mesmo. Só comecei a sonhar, a querer as coisas, com meus quinze anos de idade. Depois de quinze anos de idade eu comecei a perceber um pouco mais, ter essa vontade de ficar sonhando, deitar na cama e ficar imaginando as coisas que eu podia ter. Quando era pequena, não. Nem televisão assistia, então não tinha como saber o que era realidade de fora e o que eu poderia ter fora. Não sonhava não.
Sempre faltou coisas na minha casa. Fomos uma família muito humilde, da mamãe chegar a pegar e levar para pedirmos na porta dos outros porque não tinha condições. Eu era muito religiosa, “Então persevera, persevera que um dia tu alcança”. Eu não sentia, eu nunca fui de muitos sentimentos. Tiraram até isso de mim, que eu nunca fui de muitos sentimentos, sou de ver a realidade do que eu vivo.
Isso não aconteceu muitas vezes, foi só mesmo quando não tinha mais para onde ir, eram crianças pequeninas, irmãos pequenos, eram de leite, não tinha como mais, minha mãe olhava e não tinha mais jeito. Então fomos na porta de vizinhas, pedia pelo menos para os filhos pequenos: “Me ajude e tal”, eu lembro muito bem disso.
Eu trabalhava, meu irmão trabalhava, qualquer coisa que vizinho pedia para fazer, eu fazia. Enquanto minha mãe trabalhava, estava fora, se algum vizinho pedia para fazer alguma coisa fazíamos por dinheiro, então onde nós morávamos existia muitas árvores, tinha muitas plantas, muitas frutas, muitos vizinhos viviam de vender frutas. Então eu vivia no mato. E onde nós vivíamos tinha um senhor que criava bois, alguns animais, quando eles matavam davam para gente também, alguns vizinhos ajudavam.
O que eu menos gostava de fazer era lavar louça, porque quando eu era pequena eu tive um grande problema intestinal, eu não podia ver aquela gordura de panela que eu vomitava. Ela achava que era frescura. Acho que eu não engordo pelo fato deu ter tido essa doença por muito tempo e minha mãe achava que era frescura minha. Então vivia vomitando, sentia dores de barriga a madrugada toda e por ser humilde e não ter condições de ir ao hospital, ela me deixava com dor. Eu ficava lá, ela achava que era porque eu comia muita fruta fora, ela ficava brigando: “Eu te falava para tu não comer isso, para tu não comer aquilo”, então eu dizia: “Mas eu não comi isso!”, ela falava que eu comia essas frutas e por isso que eu sentia essas dores. Quando eu completei acho que uns nove, dez anos de idade foi que a mamãe descobriu que eu estava com uma doença horrível no estômago, estava quase para falecer de tão magrinha que eu estava. Foi quando ela resolveu me tratar. Passei acho que uns seis meses de tratamento para conseguir me restabelecer novamente.
O que eu mais gostava acho que era isso, o cuidar das criança. Eu lavava roupa para fora, eu capinava quintal. Tinha um refeitório perto da minha casa, eu lavava algumas louças, tinha muita louça, mesmo não gostando eu tinha que fazer, mas eu ganhava muito pouco por causa disso, mas aquele dinheiro era muito para mim. Tudo que eu ganhava eu dava pra minha mãe, não comprava nada.
Eu não entendia. Acho que pelo fato de eu não ter conhecimento, viver sempre aquela vida, para mim estava certo aquilo, não me revoltei com a situação deu ter que ficar tomando conta dos meus irmãos e não ter tempo pra brincar. A vida era assim: nascer, cuidar dos meus irmãos, que é minha família, temos que ajudar, e até eu completar meus quatorze anos de idade aquilo estava certo. Eu vivia para minha casa. Aos quatorze anos nasceu a Camila que eu sou hoje, uma menina que não escuta muito fácil, a pessoa fala, tem que me explicar direito, o porque aquilo está acontecendo, porque quer aquilo, tem que me convencer daquilo, porque isso está certo para ti e pra mim não está. Criei uma revolta na minha casa. Minha mãe conheceu a verdadeira Camila, eu saí de casa, eu brigada com minha mãe, ela começou a me bater mais ainda do que quando eu era pequena, porque já começava a indagar, a perguntar. Foi mais difícil ainda, foi quando sofri mais ainda para te falar a verdade.
Minha mãe me batia, eu acho que por ela passar o que ela passava ao lado do meu pai, ela queria descontar em alguém e qualquer coisa que a gente fazia era… Partia para cima e principalmente de mim e do meu irmão mais velho pelo fato de sermos exemplos. Porque ela vem de uma família de interior onde irmão mais velho predomina, e tem que dar o exemplo.
Aos quatorze anos eu saí de casa porque eu arrumei um namorado, ele tinha dezoito anos. Quando meu pai morava em casa eu nem pensava em namorar, porque o meu pai era muito rígido. Depois de quatorze anos eu conheci um rapaz, namorei com ele. Minha mãe não gostava pelo fato de eu gostar demais dele e deixei de fazer algumas coisas na minha casa, vivia mais para ele, porque ele começou a me mostrar algumas coisas de fora que eu nem fazia ideia que existia, como por exemplo, comidas diferentes, lugares diferente, bebidas diferentes, roupas diferentes, tudo o que eu nunca tive. Lazer diferente. Ele que me levou para conhecer a praia que eu não sabia o que era uma praia, eu não sabia.
Fiquei muito iludida com aquilo, fiquei feliz. Não quis largar dele. Começaram as brigas com a minha mãe. As discussões foram grandes, foi uma época que ela brigou comigo. A briga era feia dentro da minha casa porque ela falava muito mal dele, eu não gostava. Algumas coisas que ela falava era verdade mesmo, mas outras coisas não eram. Eu me aborreci, ela me bateu e eu falei que nunca mais ia voltar para casa. Primeiro que ela me humilhava demais, ela me humilhava com algumas coisas que ela, às vezes, tinha razão.
Ele me apresentou pizza, por exemplo. Fiquei deslumbrada por isso, eu só ouvia falar, quando eu vi fiquei muito feliz. Lasanha, uma vez que ele me levou para comer. O dia que ele me levou ao shopping, eu conheci o shopping, fiquei deslumbrada e me levou para comer lasanha. Refrigerante! Coisas simples, muito simples que muitas pessoas usufruem, e que não percebem que pessoas ficam muito felizes em ver aquilo. E eu tentava fazer o máximo para que ele não percebesse que eu estava deslumbrada com aquilo. Umas coisas simples, para muitas pessoas são coisas simples, para mim é uma coisa demais.
O nosso relacionamento era bom, muito bom. Começamos a se desentender no final do nosso namoro, acho que pela pressão da minha mãe e porque também ele começou a beber, conheceu novos amigos. Também acho que pela idade, ele era novo, eu também era nova. Ele conheceu novos amigos, começou a beber, começou a ficar mais distante. Eu também estava em outra fase, conheci outras pessoas que começaram a conversar comigo em relação à outra vida e resolvi mudar. Deixei ele. E quando a gente terminou me tornei mais madura, fiquei muito feliz, livre, eu me senti muito livre.
Eu comecei a trabalhar com coisas mais sérias. Comecei a vender coisas, minha mãe começou a me emprestar dinheiro, eu começava a vender roupa, vender cosmético, vender bijuteria. Eu entrava em convênio com algumas amigas, tudo que era tipo de faxina eu fazia. Eu era muito masculina, tudo que envolvia trabalhos para homem eu fazia, lavar caixa d’água, pintar parede, capinar quintal, carregar entulho, tudo que era de homem eu fazia, mesmo moça. Tudo que envolvesse dinheiro eu fazia. Eu pagava cursos com meu dinheiro, eu começava a comprar as minhas coisas. Comecei a ser completamente independente da minha mãe para tudo. Desde quando eu comecei a trabalhar, com os meus quinze anos, eu nunca mais pedi nada a minha mãe, nada. Com essa independência eu me senti muito livre. Falar, ela ter que me escutar. Olhar para ela e dizer que eu não preciso mais. Quando eu era muito pequena eu dava tudo à ela.
Quando deixei meu namorado, eu conheci uma outra pessoa, anos depois. Ela não gostava, de novo da mesma pessoa. Parece que ela não gosta que eu esteja com alguém, acho que… Não sei se ela se preocupa ou é alguma coisa que ela tem. Ela não gostava. Ela achava muito novo. “Ele é muito novo para ti, não sei o que, vai te empatar”. Foi quando ela descobriu, a minha irmã foi falar para ela que tinha visto ele não sei com quem. Ela não gostava. Quem tinha que se morder [regionalismo: ficar brava] era eu, quem se mordia era ela. Falei: “Mãe, não se meta na minha vida”, foi isso que falei a ela, foi por isso que ela me bateu. “Não se meta na minha vida que quem manda na minha vida sou eu”. Ela não gostou. Ela me deu três tapas e eu não chorei. Eu falei: “A senhora acabou? Valeu pelo presente.” Foi nesse dia que eu saí de casa. Passei um mês fora, só não passei mais porque ela foi me buscar. Estava arrependida e foi me buscar, me pediu perdão.
Hoje eu sou voluntária e multiplicadora do movimento República de Emaús. Movimento muito presente aqui no bairro, das comunidades que trabalham com criança e adolescente contra a exploração sexual. Eu trabalho mais voltado às crianças. Eu dou aula de lazer, ajudo no que estiver precisando, agora que eu estou desempregada eu estou indo direto. É isso que eu faço por enquanto.
Resolvi participar dessa instituição porque eu achei muito… É um espelho, onde eu me encontrei. É minha casa aqui. Eles falam tudo o que acontece na minha realidade. Eu preciso de uma pessoa que me fale coisas diferentes, me fale coisas que eu nunca escutei e foi isso que eu encontrei com esse educador, ele me falava coisas que eu nunca tinha escutado de ninguém, e nem na igreja. Na igreja falavam: “Não, tem que aceitar tua mãe”. Eles falavam: “Não, isso não está certo, isso está errado. Não pode fazer isso, teu pai não pode fazer isso, tu não pode mais passar por isso”. Eu achava muito bacana. Fiquei lá um bom tempo.
Nunca cheguei a fazer algum trabalho, receber alguma coisa em troca de sexo, mas muitas vezes já fui convidada por caras. Quando eu saía me abordavam na rua. Já fui aliciada por uma senhora, que ela veio aqui em casa quando estávamos passando por uma necessidade muito grande, conversou com a minha mãe, perguntou se a minha mãe não queria dar uma das filhas dela. Minha mãe disse que nunca. Passava fome, mas que esse tipo de coisa ela não fazia.
Quando eu era menor eu cheguei a ver homens que gostavam de ficar se exibindo para as meninas. Tinha um policial militar que fazia isso, um pastor fazia isso. Eu era muito pequena, não entendia. “Vamos ver ali. Olha lá!”. Eles sabiam que estávamos olhando, eles ficavam se exibindo. Eu contei para minha mãe, mas minha mãe não fez nada. Quando eles me convidaram eu fui lá ver.
Aí através dessa ONG eu conheci o Projeto ViraVida. De lá eles me encaminharam para lá até os meus dezoito anos. Eu saí com dezoito anos, essa é a idade limite para ficar lá. Mesmo assim eu saí antes porque eu não ganhava nada lá. Então eu passava basicamente o dia inteiro, a manhã toda ou a tarde toda. Sofria necessidades aqui dentro, necessidades pessoais, não tinha dinheiro, minha mãe também não, queria comprar as coisas, ela não tinha. Eu saí da instituição, arrumei um trabalho como babá na casa de uma senhora. Falei pro meu educador que não ia mais voltar. Ele falou: “Não, tenha mais paciência, vamos arrumar uma coisa para você”. Mas eu falei assim: “Mas o movimento não trabalha para empregabilidade aqui dentro. Como você vai arrumar alguma coisa?”, “Não, mesmo que eu faça pessoalmente, que eu fale com alguém e tal, mas fica um pouco mais”. Eu falei: “Não posso”. Foi quando eu arrumei emprego como babá, saí. Veio essa luz do Projeto ViraVida, eu não acreditei. Eu não acreditei, não saí do meu emprego. Eles foram no meu trabalho me buscar. Eu falei: “Não, já participei de vários projetos”. Onde se inscrevia que o governo fazia, que ia pagar bolsa, eu estava lá. Então já participei de vários projetos, por isso que até falei nos depoimentos no ViraVida que não ia acreditar que esse projeto ia mudar minha vida, por isso que eu nem fiz questão de participar. Ninguém fez questão de participar. Na realidade se tu conversar com os adolescentes e jovens que participaram do projeto de início, ninguém acreditou: “Ah, é mais um projeto. Vão nos enganar, depois não vão pagar mais nada e o curso não vai concluir”, normalmente é assim. Foi o que eu pensei também: “Não vou largar o meu emprego aqui, estou fixa, já ganho um dinheirinho mensalmente, para ir à um projeto”. Foi quando foram na minha casa, falaram: “Vamos embora participar, vamos dar essa chance”. Eu fiquei cabreira, falei assim: “Não, será?”, resolvi sair do meu emprego e fui.
Quando eu cheguei eu não gostei de primeira, deles falarem da minha vida. “Ah, vamos passar por um processo seletivo, você tem que falar da tua vida”. Ah, não gostei, achei muito, “Ah, vou fazer um curso profissionalizante e ainda vou ter que falar da minha vida? Da minha infância? Coisas pessoais minhas?”, não gostei. Pedi para a equipe me explicar porque eu estava fazendo aquilo. Explicaram-me: “O processo seletivo envolve a gente saber se você está no perfil do programa e do projeto”. Ela me explicou e eu comecei a falar. Ela me perguntou muito sobre a minha infância, o foco na minha infância, se eu já sofri exploração sexual. Ela pediu para eu fazer uma redação em trinta linhas, em relação à minha infância também. Foi triste, eu nunca tinha falado da minha infância, faz muito tempo, eu achei meio estranho. Não gostei muito não, chorei muito porque ela focava muito onde eu não gostava de falar e eu chorei bastante.
Digamos que eu sofria exploração sexual. Não foi nada muito sério. Foi apenas convites. Nunca aceitei nada, mas se fosse por muita necessidade, eu acho que sim, acho que muitas meninas fazem isso por muita necessidade mesmo. E eu não fiz isso, acho que pelo amparo da minha mãe até e eu saberia muito bem que isso ia além do meu pudor, da minha essência, envolver o meu corpo para isso, para ganhar dinheiro. Não achava muito certo.
O início do Projeto ViraVida foi difícil, olhar para muitas pessoas que eu não conhecia, e começaram a falar do projeto... Sentamos na aula inaugural e começamos a escrever. No primeiro dia da aula foi quando eu percebi que o projeto era bom. Vi naquele monte de gente. “Vamos falar um pouco de vocês, se apresentem”. Eu, como gosto muito de falar, fui logo vista, porque não gostava de injustiça. Era um projeto que lidava com jovens, via muita coisa errada, comecei a falar. Eu acho que eu fui muito vista pelo projeto por conta disso, das coisas que eu falava lá dentro e incomodava muita gente. Eu gostei, fiquei muito feliz por conta da bolsa, ajudar minha mãe, comprei minhas coisas, objetos que eu tinha muita vontade de ter. Comprei uma televisão. Meu primeiro objeto que eu comprei foi minha televisão. Meu celular foi depois. A única coisa que eu queria mesmo era uma televisão, eu comprei uma televisão de primeira, a vista, pequena ainda. Depois eu comprei uma maior. Fui comprando objetos, minha mãe ficou muito feliz. Eu fui referência para minha comunidade. Mas eu sofri muito preconceito, porque o projeto tem um perfil. Então as pessoas ficavam dizendo várias coisas ao meu respeito. “Ah, não se aproxima dela porque ela é uma ex-presidiária”, ou “ela era prostituta”, essas coisas entre outras. Muitos jovens não se aproximavam de mim, pensava que eu fosse prostituta ou ex-presidiária, mas foi muito bacana.
O curso que eu fiz foi Operador de Computador, eu não sei como te explicar. Foi a melhor coisa que pôde ter acontecido na minha vida naquele momento. Conheci muita gente, muitos amigos. O Projeto ViraVida, acho que para cada jovem vai ter um significado. Para mim foi o significado de amizade, de afeto. Até hoje eu tenho vínculos com todos os alunos do Projeto ViraVida. Os professores foram maravilhosos, tanto aqueles do curso profissionalizante, quanto aqueles que davam aula de Português, Matemática e Cidadania. Foram professores que se preocupavam, que perguntavam se estava tudo bem. A diversidade dos jovens era meio complicada, brigávamos muito, especialmente eu, brigava muito. Era muito conflito, muita briga, era jovem querendo ser melhor do que o outro. Nunca rolou agressão física, mas bate boca na aula era muito grande.
O projeto também falava muito da família, mudou um pouco o meu comportamento com a minha mãe. Eu tenho um pouco mais de paciência com ela. Devido a ela ter outra criação, ela não soube muito bem me criar. Hoje é uma convivência muito boa na minha casa, não há muita briga, muito difícil brigarmos. Hoje eu me considero uma mulher, não sou mais uma menina, não sou mais uma moleca, sou uma mulher. Sou independente. Eu gosto de mim mesma. Eu me vejo, em primeiro lugar, para depois olhar e amar um outro homem, por exemplo. Eu sou muito humilde, eu sou solidária demais. Eu sempre estou ali para ajudar o próximo, sou muito amiga. Nesse projeto eu ganhei uma pessoa muito importante na minha vida que está comigo até hoje, que foi um grande amigo. Quando eu estava muito triste pensando em desistir do projeto, porque eu sofria muito com algumas coisas. Eu tive um problema muito grande de saúde quando eu estava no Projeto ViraVida, até uma das coordenadoras do projeto soube o que era. Ela teve que me ajudar porque senão eu tinha que desistir. Ela também me ajudou, estamos até hoje aí na luta. Me considero muito mais livre ainda. É igual o símbolo da borboleta. Para o projeto é o símbolo ideal mesmo, porque nos sentimos bem livres, à vontade, disposto, com atitude. Não sou uma mulher parada. Eles transformam jovens estagnados em jovens mais participativos, sabendo que eles podem acreditar naquilo que realmente querem, ter sonhos. Falavam muito em sonhos. Então hoje eu sonho bastante com muitas coisas que eu quero, sou ambiciosa.
Quando acabou o projeto eu tirei uns dias de lazer para mim, mas graças a Deus não demorou muito, eu fui logo contratada. Mas foi complicado uma coisa, eu senti falta de algumas coisas que tinha no projeto, como pessoas para conversar. Tem alguma dificuldade, vai e conversa com a coordenação. Quando eles soltaram a gente, foi preocupante e eu me sentia segura, mas em momentos que eu queria uma luz: “Ai, o que eu faço?”, eu não tinha isso. Eu tinha que me virar sozinha, saber lidar. Primeiro porque a empresa que fomos, é uma empresa de peso. Uma empresa que sugou muito de todos, mas foi um trabalho muito bom. Aprendi muita coisa nessa empresa. Estou muito feliz pela oportunidade que me deram porque de lá eu posso trabalhar em qualquer lugar que eu dou conta. Eu só senti essa ausência da coordenação, das coisas que eu tinha antes e que na empresa não tinha.
Eu tinha muita vontade de ir em busca da minha felicidade. Eu dizia para mim mesma, quando eu olhava no espelho, que eu não era feliz, que eu não sabia nem o que era isso. Se eu sorria, era apenas porque aquilo era engraçado, não era felicidade. Nunca sonhei pela felicidade. E quando eu me olho no espelho, hoje eu me vejo uma mulher feliz, uma família feliz, uma mulher… Eu não sou completa porque falta muita coisa. Apenas gosto do que eu vejo. Vejo uma mulher feliz, uma mulher decidida, uma mulher que não permite mais que ninguém force ela a fazer algo que ela não queira, uma mulher que sabe o que quer. É isso que eu vejo quando me olho no espelho. O que ainda me falta é mais conhecimento, falta eu conhecer outros lugares, falta eu conhecer outras pessoas, falta eu ajudar muita gente, eu fazer uma faculdade de Direito. Eu pretendo ser dona do meu próprio negócio, não pretendo trabalhar pra ninguém. Por enquanto eu vou fazer isso, mas não é o que eu quero. Quero ser dependente eterna da minha empresa e dona do meu próprio negócio. Falta minha faculdade, falta minha família, quero ter filhos, quero ter o meu marido, senão fico sozinha mesmo. Acho que é mais ou menos isso, por enquanto.
Meu maior sonho é ver minha família toda reunida de novo, toda, na mesma casa, mesmo que seja para um almoço, para um jantar, um final de semana, umas férias. Antes do meu pai falecer, minha família se desbandou toda, nunca parou a família toda em casa. Todos foram embora, não voltam mais. Nunca tem mais a família toda. Quando vem um, sai outro, nunca tão todos no mesmo lugar.
Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.
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