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Personagem: Anônimo
Por: Oliver Van Sluys Menck, 3 de junho de 2024

“Foi muito bom, nossa! [...] Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado.”

Esta história contém:

“Foi muito bom, nossa! [...] Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado.”

Entrevistada: A. F., mulher, 61 anos, moradora antiga em São Sebastião do Monte Verde (Lima Duarte/MG).

Gravação: entrevista de 1h 20min realizada dia 08/09/2022 na Fazenda Aliança da Mantiqueira (Lima Duarte/MG).

Entrevistador: Oliver Van Sluys Menck (O. M.)

O. M. – Hoje é dia 8 de setembro, vamos começar a entrevista com dona A. F. Primeiro de tudo queria te agradecer muito por colaborar com a pesquisa! Antes de começar, queria pedir para você se apresentar.

A. F. – Meu nome é A. F., fui nascida e criada no município de Lima Duarte, aqui nessa fazenda mesmo. Saí daqui com 17 anos, pra casar. Está bom?

O. M. – Vamos começar por esse começo. A senhora nasceu aqui mesmo, na Fazenda Aliança da Mantiqueira?

A. F. – Nasci, só que não foi nessa casa, foi em outra casa, aqui perto. Depois, acho que eu devia estar com uns cinco anos… Meu pai fez essa casa aqui! A outra casa já acabou. Era uma casa de capim, de barro, aquelas casas antigas. Para essa casa ele comprou tijolo, telha, veio tudo de Juiz de Fora, mas passando em Rio Preto. De Rio Preto para cá veio em lombo de burro! Não veio de caminhão, não tinha estrada de carro… Veio pela serra de Três Cruzes, por ali, Conceição… Saiu ali, nessa ponte que tem na estrada. Eu devia ter uns seis anos e pouco, mas eu lembro! Lembro dos pedreiros que trabalharam aqui, até que já faleceram…

O. M. – A senhora tinha quantos irmãos?

A. F. – Onze irmãos. Nasceram todos aqui, nessa outra casa que a gente tinha. Só uma caçula que nasceu em Monte Verde, ali no povoado. Ali onde é do L. A., era do meu pai a casa lá.

O. M. – Nessa mudança de casa, a família de vocês já estava melhorando de vida, em termos de renda?

A. F. – Já estava melhorando sim! Meu pai vendia candeia! Podia vender, na época, né? Pra fazer mourão… Vendeu mato pra fazer carvão, também. Podia vender, antigamente… Hoje tem que preservar. Ele era o dono da fazenda. Ele vendeu pra outras...

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Vala de caminho cavaleiro

Dados da imagem

Período:
28/06/2022

Local:
Brasil / Minas Gerais / Santa Bárbara Do Monte Verde

Imagem de:

História:
“Foi muito bom, nossa! [...] Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado.”

Crédito:
Menck, O. V. S. 2023. "Não mutilem o que já existe

Palavras-chave:
parque estadual serra negra da mantiqueira, rede de trilhas, memórias rurais, caminhos antigos, tropas de burro, paleoterritório de circulação

"Nasci [aqui], só que não foi nessa casa, foi em outra casa, aqui perto. Depois, acho que eu devia estar com uns cinco anos… Meu pai fez essa casa aqui! A outra casa já acabou. Era uma casa de capim, de barro, aquelas casas antigas. Para essa casa ele comprou tijolo, telha, veio tudo de Juiz de Fora, mas passando em Rio Preto. De Rio Preto para cá veio em lombo de burro! Não veio de caminhão, não tinha estrada de carro… Veio pela serra de Três Cruzes, por ali, Conceição… Saiu ali, nessa ponte que tem na estrada. Eu devia ter uns seis anos e pouco, mas eu lembro!"

Forno de carvão

Dados da imagem

Período:
08/09/2022

Local:
Brasil / Minas Gerais / Lima Duarte

Imagem de:

História:
“Foi muito bom, nossa! [...] Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado.”

Crédito:
Menck, O. V. S. 2023. "Não mutilem o que já existe

Palavras-chave:
parque estadual serra negra da mantiqueira, modernização do espaço rural, paleoterritórios de carvoeiros, memórias rurais

"Meu pai vendia candeia! Podia vender, na época, né? Pra fazer mourão… Vendeu mato pra fazer carvão, também. Podia vender, antigamente […] Era forno feito de tijolo. Aqueles fornos redondos… Aqui ainda acha buraco dos fornos de antigamente. Meu marido mesmo disse que tem, que já viu uma porção! Eu não vi mais… Mas eu lembro… Era um forno, tipo Fusca, redondo e tinha portinha de pôr a lenha […] Mas foi só uma época que ele vendeu os matos aqui! Tirou carvão, vendia candeia… Depois, parou de vender, não podia mais… Eu acho que foi pra preservar… Igual palmito! Tinha muito palmito, tirava de vez em quando, pra gente comer… Mas não cortava muito! Agora acabou, o pessoal cortou muito […] Tem bastante, mas como era antigamente, não tem não! Madeiras de lei, meu pai ficava deixando virar árvore […] Mas as grandes mesmo, eles cortaram… Agora o mato cresceu mais! Quando eu era criança tinha mais pasto, é verdade. Mas aqui tinha muito mato também. E tem, até hoje. Muito mato mesmo! Aonde ele vendeu pra fazer carvão, já cresceu de novo. É tudo mato!"

Trilhas da Serra de Lima Duarte

Dados da imagem

Período:
12/09/2021

Local:
Brasil / Minas Gerais / Lima Duarte

Imagem de:

História:
“Foi muito bom, nossa! [...] Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado.”

Crédito:
Menck, O. V. S. 2023. "Não mutilem o que já existe

Palavras-chave:
parque estadual serra negra da mantiqueira, rede de trilhas, paleoterritório de circulação, serra de lima duarte, memórias rurais, modernização dos caminhos

"Lima Duarte a gente ia a pé também, porque não tinha estrada de carro. A gente tinha que sair daqui, gastava umas… quatro horas a pé. Pra lá, a gente passava por aquela serra onde tem a cachoeira do Arco-Íris. Não tem uma serra, que vira ali? Então, a gente entrava ali e saía lá perto da Vila Seca mesmo. […] Teve vez de passar carro ali, mas foi muito difícil! Eu lembro de uma vez que teve uma missa em Monte Verde. A gente nem sabia o que era carro! Não conhecia, foi criada aqui, não sabia de nada… Aí veio o padre num jipe, passou por essa serra. De jipe deu pra passar! Ainda falou que quem quisesse conhecer, quem nunca tinha visto um carro podia ir lá! E nós não sabíamos, não conhecíamos mesmo! Eu era criança, devia ter uns cinco, seis anos, mais ou menos… A gente ficou muito feliz! E com medo! A gente falava: 'É perigoso o carro bater na gente! A gente tem que ter cuidado.' [risada]… Mas foi muito bom!"

Arbustal rupestre

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Período:
30/11/2021

Local:
Brasil / Minas Gerais / Lima Duarte

Imagem de:

História:
“Foi muito bom, nossa! [...] Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado.”

Crédito:
Menck, O. V. S. 2023. "Não mutilem o que já existe

Palavras-chave:
parque estadual serra negra da mantiqueira, memórias rurais, vegetação rupestre, turismo, usos tradicionais de áreas protegidas

"Algumas vezes a gente passeava na serra… Quando a gente era jovem e não tinha nada pra gente fazer, no domingo, a gente ia muito! Nessa nossa serra, ali pra cima, na areia branca, a gente andava muito! […] Buscava lugar bonito, areia branca, plantas bonitas! Era assim que a gente ia. Eu acho a orquídea bonita! A gente tinha muito aqui, minha mãe tinha um jardim enorme! Tinha muita planta… Nossa! [...] [Eu] Ia com todos meus irmãos, minhas irmãs… A gente saía e fazia tipo piquenique!"

Brincadeiras no moinho d'água

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Período:
08/09/2022

Local:
Brasil / Minas Gerais / Lima Duarte

Imagem de:

História:
“Foi muito bom, nossa! [...] Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado.”

Crédito:
Menck, O. V. S. 2023. "Não mutilem o que já existe

Palavras-chave:
parque estadual serra negra da mantiqueira, memórias rurais, lazeres de antigamente, turismo em áreas protegidas, usos tradicionais da biodiversidade

"Me lembro que um dia eu e as minhas irmãs estávamos nadando, perto do moinho d’água, de moer fubá, aí veio uma cobra atrás da minha irmã: a gente ficou apavorada! Gritando que era pra sair, senão a cobra ia pegar! A gente gritou tanto, que a cobra ficou com medo e sumiu! [risada] Foi embora! Sempre eu lembro de umas histórias assim… Ficava muita água, ali onde tem a piscina agora. A gente punha cumbuca debaixo do braço – aquelas abóboras d’água, cabaça – para não afundar. Era bem isso que a gente fazia…"

Plantas medicinais

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Período:
14/11/2021

Local:
Brasil / Minas Gerais / Lima Duarte

Imagem de:

História:
“Foi muito bom, nossa! [...] Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado.”

Crédito:
Menck, O. V. S. 2023. "Não mutilem o que já existe

Palavras-chave:
usos tradicionais da biodiversidade, parque estadual serra negra da mantiqueira, memórias rurais, plantas medicinais, conhecimento tradicional

"Arnica da serra! É um remédio muito bom, mesmo. É melhor do que a arnica que vende… Tem bastante planta pra usar… Tem muito da pata de vaca, melão de São Caetano… Aprendi com minha avó. A gente foi criado sem ir no médico. Era planta só que a gente usava. Tem boldo, tem o mentrasto, que eles falam ‘São João’, tem vários nomes… É uma florzinha branquinha, parece até arroz. Tem muita planta…"

Capela para Nossa Senhora de Aparecida

Dados da imagem

Período:
08/09/2022

Local:
Brasil / Minas Gerais / Lima Duarte

Imagem de:

História:
“Foi muito bom, nossa! [...] Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado.”

Crédito:
Menck, O. V. S. 2023. "Não mutilem o que já existe

Palavras-chave:
parque estadual serra negra da mantiqueira, nossa senhora de aparecida, memórias rurais, história familiar, catolicismo popular, catolicismo santeiro

"O ano passado até a gente fez a capelinha, colocou Nossa Senhora, que meu pai é muito devoto de Nossa Senhora de Aparecida, né? Aí, dia 12 de outubro do ano passado a gente queria reunir todo mundo, pelo menos os irmãos… A minha mãe era viva ainda o ano passado… Mas acabou que choveu muito! Estava chovendo muito e acabou vindo só seis irmãos. Minha mãe nem veio… Ela acabou falecendo em março, nem chegou a ver a capelinha. Ela faleceu dia 18 de março, ia fazer 91 anos dia 19 de março. No dia do sepultamento dela, a família quase toda estava reunida, acabou de jantar e saiu… Aí [meu filho] sentiu um cheiro muito forte de lavanda! Ele sentiu aquele cheiro forte de lavanda, e não foi só ele, foi a minha nora e o meu marido também! Ele pegou e falou assim: 'Vou olhar ali na capelinha. Deve ser a esposa do [meu irmão] que pôs alguma lavanda ali'… Não tinha colocado nada! Então, eu acho que a minha mãe veio nos visitar, ela e meu pai… Eu acredito nisso, sim! Depois que ele me contou, eu chorei toda vida… Aquilo me arrepiava toda! Foi ela que veio visitar, sim, com certeza! Mas eu queria muito que ela tivesse vindo no dia que a gente fez a celebração… Ela já tinha Alzheimer. Eu, às vezes, a trazia pra passear aqui, pra ficar comigo […] Chegava aqui e conhecia, lembrava de tudo! Falava: 'Ali tinha um moinho, eu vinha trazer milho pra moer'… E tinha mesmo!"

Complementos

Esta entrevista foi realizada no contexto de uma pesquisa junto ao Programa de Pós-Graduação Profissional Biodiversidade em Unidades de Conservação oferecido pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Acessar

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