Entrevistada: A. F., mulher, 61 anos, moradora antiga em São Sebastião do Monte Verde (Lima Duarte/MG).
Gravação: entrevista de 1h 20min realizada dia 08/09/2022 na Fazenda Aliança da Mantiqueira (Lima Duarte/MG).
Entrevistador: Oliver Van Sluys Menck (O. M.)
O. M. – Hoje é dia 8 de setembro, vamos começar a entrevista com dona A. F. Primeiro de tudo queria te agradecer muito por colaborar com a pesquisa! Antes de começar, queria pedir para você se apresentar.
A. F. – Meu nome é A. F., fui nascida e criada no município de Lima Duarte, aqui nessa fazenda mesmo. Saí daqui com 17 anos, pra casar. Está bom?
O. M. – Vamos começar por esse começo. A senhora nasceu aqui mesmo, na Fazenda Aliança da Mantiqueira?
A. F. – Nasci, só que não foi nessa casa, foi em outra casa, aqui perto. Depois, acho que eu devia estar com uns cinco anos… Meu pai fez essa casa aqui! A outra casa já acabou. Era uma casa de capim, de barro, aquelas casas antigas. Para essa casa ele comprou tijolo, telha, veio tudo de Juiz de Fora, mas passando em Rio Preto. De Rio Preto para cá veio em lombo de burro! Não veio de caminhão, não tinha estrada de carro… Veio pela serra de Três Cruzes, por ali, Conceição… Saiu ali, nessa ponte que tem na estrada. Eu devia ter uns seis anos e pouco, mas eu lembro! Lembro dos pedreiros que trabalharam aqui, até que já faleceram…
O. M. – A senhora tinha quantos irmãos?
A. F. – Onze irmãos. Nasceram todos aqui, nessa outra casa que a gente tinha. Só uma caçula que nasceu em Monte Verde, ali no povoado. Ali onde é do L. A., era do meu pai a casa lá.
O. M. – Nessa mudança de casa, a família de vocês já estava melhorando de vida, em termos de renda?
A. F. – Já estava melhorando sim! Meu pai vendia candeia! Podia vender, na época, né? Pra fazer mourão… Vendeu mato pra fazer carvão, também. Podia vender, antigamente… Hoje tem que preservar. Ele era o dono da fazenda. Ele vendeu pra outras...
Continuar leituraEntrevistada: A. F., mulher, 61 anos, moradora antiga em São Sebastião do Monte Verde (Lima Duarte/MG).
Gravação: entrevista de 1h 20min realizada dia 08/09/2022 na Fazenda Aliança da Mantiqueira (Lima Duarte/MG).
Entrevistador: Oliver Van Sluys Menck (O. M.)
O. M. – Hoje é dia 8 de setembro, vamos começar a entrevista com dona A. F. Primeiro de tudo queria te agradecer muito por colaborar com a pesquisa! Antes de começar, queria pedir para você se apresentar.
A. F. – Meu nome é A. F., fui nascida e criada no município de Lima Duarte, aqui nessa fazenda mesmo. Saí daqui com 17 anos, pra casar. Está bom?
O. M. – Vamos começar por esse começo. A senhora nasceu aqui mesmo, na Fazenda Aliança da Mantiqueira?
A. F. – Nasci, só que não foi nessa casa, foi em outra casa, aqui perto. Depois, acho que eu devia estar com uns cinco anos… Meu pai fez essa casa aqui! A outra casa já acabou. Era uma casa de capim, de barro, aquelas casas antigas. Para essa casa ele comprou tijolo, telha, veio tudo de Juiz de Fora, mas passando em Rio Preto. De Rio Preto para cá veio em lombo de burro! Não veio de caminhão, não tinha estrada de carro… Veio pela serra de Três Cruzes, por ali, Conceição… Saiu ali, nessa ponte que tem na estrada. Eu devia ter uns seis anos e pouco, mas eu lembro! Lembro dos pedreiros que trabalharam aqui, até que já faleceram…
O. M. – A senhora tinha quantos irmãos?
A. F. – Onze irmãos. Nasceram todos aqui, nessa outra casa que a gente tinha. Só uma caçula que nasceu em Monte Verde, ali no povoado. Ali onde é do L. A., era do meu pai a casa lá.
O. M. – Nessa mudança de casa, a família de vocês já estava melhorando de vida, em termos de renda?
A. F. – Já estava melhorando sim! Meu pai vendia candeia! Podia vender, na época, né? Pra fazer mourão… Vendeu mato pra fazer carvão, também. Podia vender, antigamente… Hoje tem que preservar. Ele era o dono da fazenda. Ele vendeu pra outras pessoas, de Juiz de Fora até… Trabalhando aqui era só a família. A gente ajudou muito ele! Eram só dois filhos homens e nove mulheres. Então, todo mundo ajudava! Plantava. A gente colhia de tudo aqui! Ia na venda comprar só alguma coisa: só um sal, querosene… Não tinha luz também!
O. M. – A família do seu pai e da sua mãe já eram daqui?
A. F. – Já. Meus avós eram daqui. Meu avô, pai do meu pai, foi dono de muitas terras aqui! E tinha o pai da minha mãe, a mãe dela também foi nascida aqui perto… Foi toda a família daqui! Dos meus avós, só o pai do meu pai que eu não conheci, que ele morreu muito novo, com 55 anos. Aí eu acho que eu nem tinha nascido ainda não. Mas os outros eu conheci!
O. M. – Então, vocês iam pra Monte Verde, ou pra Lima Duarte?
A. F. – Ia muito em Monte Verde! Quando tinha missa, festa, a gente ia. Estudou lá, ia a pé daqui lá. Lima Duarte a gente ia a pé também, porque não tinha estrada de carro. A gente tinha que sair daqui, gastava umas… quatro horas a pé. Pra lá, a gente passava por aquela serra onde tem a cachoeira do Arco-Íris. Não tem uma serra, que vira ali? Então, a gente entrava ali e saía lá perto da Vila Seca mesmo. Ali onde tem uma curva? A gente saía perto daquela curva, onde de vez em quando acontece acidente…
O. M. – Eu tenho umas fotos de umas trilhas dessa Serra de Lima Duarte… Essa daqui é o calçamento da trilha e essa de uma bica que tinha no alto da “Trilha da Calçada”. A senhora lembra disso?
A. F. – Não lembro, não… Deixa eu pôr os óculos, pra eu ver direito… Então, não lembro não. Nunca passei ali! A gente saía ali no Arco-Íris mesmo. Subia aquela serra e saía lá perto da Vila Seca, naquela curva. Só passava cavaleiro, gente a pé, não tinha quem cuidava não. Não precisava! Não passava máquina pra limpar nem nada… Era só mesmo um trilho! Depois que fizeram a estrada de carro, que passou pro Grotão…
O. M. – Será que com o parque as trilhas vão ficar muito diferentes?
A. F. – Eu acredito que vão. Vão limpar mais as trilhas, com certeza! Vai ter que fazer manutenção direto. Ou não. Não sei se pode fazer isso… Isso das fotos deve ser há uns duzentos anos atrás! Porque eu não lembro do meu pai falar de fazer essas coisas… Isso aí eu acho que deve ser muito tempo, mesmo. Mais antigamente, mesmo… Meu pai falava que aqueles valos eram do tempo dos escravos. Não foi feito na nossa época não. Então, com certeza, essas coisas devem ser do tempo dos escravos!
O. M. – O pessoal que foi filho, neto dos escravizados moram aqui na Serra Negra?
A. F. – Isso aí eu não sei te responder. Eu sei que a minha avó, a mãe da minha mãe, ela tinha sangue de índio. Inclusive, uma prima tem o cabelo bem pretinho mesmo, parece um pouco com índio… Elas contavam histórias, não sei se era minha bisavó que era filha de índio. Então, isso aí eu sei. A minha mãe era a mais velha, morreu com 91. Então, quer dizer que a minha avó, se estivesse aqui, já estava com cento e vinte. A bisavó deve ser uns cento e cinquenta anos, mesmo… Agora, pela serra, teve vez de passar carro ali, mas foi muito difícil! Eu lembro de uma vez que teve uma missa em Monte Verde. A gente nem sabia o que era carro! Não conhecia, foi criada aqui, não sabia de nada… Aí veio o padre num jipe, passou por essa serra. De jipe deu pra passar! Ainda falou que quem quisesse conhecer, quem nunca tinha visto um carro podia ir lá! E nós não sabíamos, não conhecíamos mesmo! Eu era criança, devia ter uns cinco, seis anos, mais ou menos… A gente ficou muito feliz! E com medo! A gente falava: “É perigoso o carro bater na gente! A gente tem que ter cuidado.” [risada]… Mas foi muito bom! Depois, a gente começou a conhecer mais… Meus irmãos começaram a estudar em Lima Duarte, a gente ia com eles. Aqui estudava todo mundo junto, porque era uma professora só pra dar aula pro primeiro, segundo e terceiro. Daí, quem estudou em Lima Duarte, quem fez a quarta série, foram só dois: o F. F. e a D. F. A gente não tinha onde ficar todo mundo lá. Se fosse pra casa da minha avó, não tinha como. Eles ficaram na casa de um tio. Ele também tinha 12 filhos, ainda acolheu mais dois pra poderem estudar. Ficaram dois anos, eu acho… Depois eles estudaram mais. Meu irmão estudou mais, fez supletivo, fez alguma coisa… Ele já foi prefeito acho que dois mandatos até. Foi quando meu pai morreu, tem 11 ou 12 anos… O meu avô gostava muito de política. O pai da minha mãe, nossa senhora! Gostava muito, falava muito, mas nunca foi nada não… Aí esse meu irmão puxou ele. Eles até se parecem muito.
O. M. – Voltando nessa época da escola, já tinha essa estrada de Lima Duarte pra Juiz de Fora? Já tinha bastante carro ali?
A. F. – Tinha, mas não era muito não. Não era igual hoje! De jeito nenhum! Já tinha carro, mas não tinha a rua calçada… Era só mesmo de terra. Muito pouca casa. E a minha avó morava lá no Salto, naquela estrada que vai pra Ibitipoca. A gente ainda ia a pé até lá pra ficar na casa dela! Saía daqui e ia pra minha avó. Às vezes, meu pai ia de cavalo, mas aí trocava, a gente andava um pouco com o cavalo também. Era assim, era a mãe do meu pai. Ela chegou a morar lá, porque depois que o meu avô adoeceu eles mudaram pra ficar perto, pra ele cuidar da saúde. Porque lá era pertinho da cidade…
O. M. – Como era o Monte Verde e as fazendas da região, nessa época? Com o que o pessoal mexia?
A. F. – A gente trabalhava na roça, mais. Era só isso. Trocava serviço! Igual meu pai, às vezes, vinha o vizinho, trabalhava pra ele, depois ele ia e trabalhava pro vizinho. Antigamente fazia assim. E tinha bastante morador, bastante mesmo. Tinha colono, tinha dono das terras mesmo… Tinha muito morador aqui, antigamente, mais do que hoje… Os antigos mesmo foram embora, aí entrou mais gente de fora. Eu não sei se foi dificuldade, acho que sim… Meu pai mesmo vendeu aqui tem quanto tempo? Tem uns 44 anos mais ou menos… Porque nós já temos quatro anos que voltamos! Ele vendeu, nós já tínhamos casado. Só tinham só três filhas que faltavam casar, então ele achou que ia ficar muito sozinho aqui… Resolveu vender e vendeu mesmo, tinha só uma irmã caçula que estava aqui! Só ele e a minha mãe e ela. Aí ele ficou preocupado de ficar sozinho, longe, ele vendeu.
O. M. – Como é que era essa pressão pra mulher casar nessa época?
A. F. – Era normal! Só o namoro da gente não era igual hoje! Era assim: só podia sair com o namorado se estivesse com o pai e mãe, não podia sair sozinha… Eu mesma casei com 17 anos. Foram três irmãs que casaram todas num ano: eu, a D. F. e a M. F. M. F. casou em abril, a D. F. em julho e eu em setembro. Então, nós fizemos preparação junto… Tinha que fazer preparação, antigamente… Mas era assim: o namorado vinha na casa da gente, a gente não podia sentar perto. O namoro era muito diferente de hoje, muito mesmo! Só podia assim: paquerar de longe. Se começasse a namorar… O namoro de antigamente nem na mão a gente podia pegar! Às vezes eu falo isso pros meus filhos e eles acham que é mentira: “Não! Isso não existia, não! É mentira!”, mas era assim… Cada família era de um jeito, não eram todas… Meu pai e minha mãe eram muito enjoados mesmo! Não deixavam sair junto com namorado, isso de jeito nenhum! Tinha que estar sempre junto! Eu namorei um ano e meio, eu acho. Comecei a namorar com 15 anos, com 17 eu casei. Foi pouco tempo. Tem 43 anos… Dia 23 de setembro, agora, vou fazer 44 anos de casada! Saí daqui, dessa casa mesmo! Meu marido teve que pedir em casamento! Ficamos noivos, usamos aliança… A gente fazia só um almoço, antigamente. Não fazia festa não! Porque a família era muito grande, a despesa era muito grande. Então fazia um almoço só pros vizinhos, pros convidados… Fazia o almoço antes, depois ia lá em Lima Duarte, casava… Aí, quando eu casei, já tinha estrada de carro, a gente andou de carro. Já era assim.
O. M. – Tem uma outra foto aqui de um forno de carvão. O carvão que vocês tiravam era nesse sistema também?
A. F. – Era forno feito de tijolo. Aqueles fornos redondos… Aqui ainda acha buraco dos fornos de antigamente. Meu marido mesmo disse que tem, que já viu uma porção! Eu não vi mais… Mas eu lembro… Era um forno, tipo Fusca, redondo e tinha portinha de pôr a lenha… Mas era pra cima do chão, de tijolo. Eles faziam um buraco e depois cobria ele de tijolo… Mas foi só uma época que ele vendeu os matos aqui! Tirou carvão, vendia candeia… Depois, parou de vender, não podia mais… Eu acho que foi pra preservar… Igual palmito! Tinha muito palmito, tirava de vez em quando, pra gente comer… Mas não cortava muito! Agora acabou, o pessoal cortou muito… Mas tem muito ainda! Aqui ainda acha muito! Tem bastante, mas como era antigamente, não tem não! Madeiras de lei, meu pai ficava deixando virar árvore… Você já viu essa que dá rolha de cortiça? Aqui tem. Mas as grandes mesmo, eles cortaram… Agora o mato cresceu mais! Quando eu era criança tinha mais pasto, é verdade. Mas aqui tinha muito mato também. E tem, até hoje. Muito mato mesmo! Aonde ele vendeu pra fazer carvão, já cresceu de novo. É tudo mato!
O. M. – A senhora já entrou pra serra?
A. F. – Algumas vezes a gente passeava na serra… Quando a gente era jovem e não tinha nada pra gente fazer, no domingo, a gente ia muito! Nessa nossa serra, ali pra cima, na areia branca, a gente andava muito! Só passear. Mas nesses lugares mais longe a gente não ia não! Ia só mais perto… Buscava lugar bonito, areia branca, plantas bonitas! Era assim que a gente ia. Eu acho a orquídea bonita! A gente tinha muito aqui, minha mãe tinha um jardim enorme! Tinha muita planta… Nossa! Nessas matas da gente também tem muita…
O. M. – Você lembra da primeira vez que você foi na serra?
A. F. – Não lembro não… Tinha uns dez anos… Ia com todos meus irmãos, minhas irmãs… A gente saía e fazia tipo piquenique! Eu lembro que dava muita enchente também… Tinha moinho d’água aqui, de moer fubá também. Me lembro que um dia eu e as minhas irmãs estávamos nadando, perto do moinho d’água, de moer fubá, aí veio uma cobra atrás da minha irmã: a gente ficou apavorada! Gritando que era pra sair, senão a cobra ia pegar! A gente gritou tanto, que a cobra ficou com medo e sumiu! [risada] Foi embora! Sempre eu lembro de umas histórias assim… Ficava muita água, ali onde tem a piscina agora. A gente punha cumbuca debaixo do braço – aquelas abóboras d’água, cabaça – para não afundar. Era bem isso que a gente fazia… Não lembro de encontrar gente, não… A única coisa que a gente via era uns macaquinhos, aqueles sauás, miquinhos, uns bichos que não tinham perigo… Sauá tinha muito, aqui. Eles gritavam muito de manhã, nessa época. Agora nem ouve mais. Eu acho que por causa da febre amarela, acabou um pouco… Quando deu a febre amarela eu estava morando em Valença. Eu morei vinte anos lá. Casei e morei em Lima Duarte, uns vinte anos mais ou menos. Lima Duarte e redondezas, vários lugares ali… Nós compramos um sítio nas Perobas, moramos lá, alugamos a terra onde é a cachoeira do… como é que chama? Cachoeira do Sossego! A gente morou também. A gente morou em um monte de lugar. Depois que nós fomos pra Valença, ficamos vinte anos. Um pessoal que morava lá chamou a gente pra fazer uma sociedade, tirar leite de meia, sabe? E a gente foi pra essa fazenda pra meu marido tirar leite. Aí, não deu certo! A gente acabou vendendo um sítio que tinha aqui e comprou lá, montamos o sítio pra nós. Ficamos lá uns vinte anos. Trabalhamos muito. Sempre na roça! Os filhos todos também ajudaram muito a gente! O mais velho, o do meio e minha filha também! O S. F. estava com 11 anos… Mas os meninos ajudaram muito! Nossa, a gente deve muito a eles! Tinha uma represa lá que o S. F. criou peixe, tilápia, a gente vendia. Ele fez faculdade vendendo peixe. Isso aí ajudou ele muito… Formou, estudou! Graças a Deus! Passou muito aperto no início, mas agora a gente tem que agradecer muito, porque ele está bem. Graças a Deus! Todos os dois. A minha filha também está tranquila.
O. M. – Como a senhora vê o turismo chegando nessa região que a senhora cresceu?
A. F. – Eu acho muito bom, vai melhorar muito pra quem mora aqui. Eu acho que vai, sim! Pros mais novos! Pra nós já não… Eu e meu marido, às vezes a gente nem vê! Mas pro pessoal mais novo daqui eu sinto que vai ser muito bom, que vai melhorar o lugar… Às vezes tem bastante gente contra. Eu até conheço gente que é muito contra, acha que vai atrapalhar muito, que não vai poder nem tocar gado na estrada mais… Às vezes, o pessoal ficava debatendo, mas briga não teve, não. A gente sempre foi a favor de ter o parque. Aqui vem turista também, a gente aluga aquela casinha. Vem gente do Rio, Belo Horizonte, esse pessoal que às vezes vem de todo lugar. Vem de longe… E vem de perto também! Igual de Valença vem muita gente. Muita gente conhecida. Gente de lá adora vir pra cá, ficar aqui… Fizeram até festa junina já na casinha! Eles vem pra conhecer a fazenda aqui… O parque parece que está meio parado ainda, por enquanto… Depois da pandemia, então! Estava bem animado, mas daí parece que deu uma parada…
O. M. – Você já usou essas trilhas na serra por conta de alguma festa?
A. F. – Eu nunca cheguei a ir não. As minhas irmãs eu lembro delas irem, que elas tinham amigas que moravam nas Três Cruzes, perto de Conceição. Meu irmão foi com elas, de cavalo. Eu era mais nova e não fui. As mais velhas que foram com os meus irmãos… Sozinhas, só elas, não iam de jeito nenhum! Nem nada, não iam mesmo! Meu pai não deixava, achava que podia encontrar com algum estranho na estrada. Então, iam com meus irmãos que já eram rapazes. Mas eu casei nova também… Baile, mesmo, eu fui só em um! Foi onde, gente? Pra cima do Monte Verde, ali… Eu já estava namorando com meu marido e acho que tinha uns oito dias, só, que eu tinha começado a namorá-lo. Aí foi meu pai, minha mãe, as irmãs moças… Mas só que a gente foi, ficou até meia-noite e veio embora. Era esses bailes de antigamente, com sanfona, dançava, tinha muita gente. Tudo com muito respeito. Fazia quitanda pra servir pro pessoal, tudo de graça… Não tinha bar, venda, tudo, igual hoje. Antigamente não… Folia de Reis tinha também. Era muito bonita a Folia de Reis, nossa! Mas antigamente não gravava nada. Tem foto, só. Tinha, eu não sei com quem ficou as fotos da minha mãe. Meu pai saiu com a Folia de Reis aqui, a chegada foi em Monte Verde, não cobrava de ninguém. Eram 12 dias que saíam na Folia de Reis, saía de Lima Duarte, vinha aqui, depois voltava, tinha muito! Na época que a gente era criança todo ano tinha Folia de Reis. Agora acabou. O pessoal foi mudando, morreram os antigos que faziam a Folia, e os mais novos não pegaram pra continuar. Até foi acabando antes da gente casar, há uns quarenta anos. Hoje não tem mais… Tinha gente que dava até bezerro, galinha, um monte de coisa, tudo pra festa: pra chegada e pro baile também. Nossa, era muito bom! Dava pousada pro pessoal que estava na Folia. Era bastante gente, mas tudo gente conhecida, gente vizinha. A gente tinha um ranchão aqui de fora, aí fez chegada de Reis também… Tinha a festa de São Sebastião também. Dia 20 de janeiro, ia muita gente. Tinha missa de vez em quando… O S. F. fala que tinha vontade de começar a fazer de novo a Folia de Reis. Mas é complicado, porque as pessoas que faziam já morreram, não sei se vai encontrar uns mais novos que consigam fazer… Eu lembro também da gruta que a gente ia, ali na ponte… A única que a gente ia era ali, até escondidos da minha mãe. Mãe nem sabia! A gente era bem nova ainda, ia pra casa da minha avó e passava lá, pra ver se tinha alguma coisa. Às vezes tinham espingardas dependuradas de caçador. Deixavam lá…
O. M. – Você considera a serra daqui muito diferente das de Valença?
A. F. – Lá eu nem ia em serra, nem fiquei conhecendo quase nada. Conservatória, eu só fui um dia depois que eu mudei pra cá. E a gente morou bem perto! Eu acho aqui muito mais bonito. Eu gosto mais daqui mesmo… O lugar aqui é todo mais bonito. A serra aqui é muito bonita, as matas… Essas areias brancas não tem lá… Candeia não tem lá…
O. M. – Eu tenho umas fotos aqui do alto da serra… Era esse passeio que vocês buscavam?
A. F. – Coisa mais linda! Muito bonito, mesmo. Era pra ver essas coisas bonitas, sim. Cactos a gente via muito. Achava a coisa mais linda! Essa planta aqui… Meu Deus, pra me lembrar o nome! Eu até tinha no álcool, é remédio isso aqui. Como chama, gente? Arnica da serra! É um remédio muito bom, mesmo. É melhor do que a arnica que vende… Tem bastante planta pra usar… Tem muito da pata de vaca, melão de São Caetano… Aprendi com minha avó. A gente foi criado sem ir no médico. Era planta só que a gente usava. Tem boldo, tem o mentrasto, que eles falam ‘São João’, tem vários nomes… É uma florzinha branquinha, parece até arroz. Tem muita planta… Aqui tem. Na serra era só a arnica. O S. F. até plantou um pé de arnica, mas eu acho que até morreu…
O. M. – E quando vocês iam buscar, vocês usavam esse caminho que vira pra Três Cruzes?
A. F. – Não. Naquela serra ali que você está vendo já tem. Ali, onde tem aquela areia branca… A gente ia muito ali… Hoje eu tenho até vontade de ir lá, depois que a gente voltou, mas vai ter que pedir pro dono, pra saber se pode. Antigamente não tinha que pedir, não. Ia passear de domingo… Meu pai tocava gado. Quando vendia, levava, tocava pra lá… Ele contava muita história de quando era mais novo, que levava daqui pra Valença, Vassouras… Tinha que dormir na estrada, quando viajava com o pai dele, tinha que fazer comida, armar a barraca na estrada…
O. M. – A. F., onde é a Serra Negra da Mantiqueira?
A. F. – Aqui, na redondeza toda. Pega Funil, chega até perto de Olaria… Era Serra Negra só, não lembro de ser da Mantiqueira… Pode ser que às vezes já tinha esse nome, antigamente, só que a gente não lembra. Depois ficou muito tempo fora, aí…
O. M. – Eu acho que esse ‘da Mantiqueira’, é porque em Minas Gerais tem outro parque estadual que chama ‘Serra Negra’…
A. F. – Ah, então é! Por isso que a gente pôs o nome aqui também! Aqui era Fazenda Monte Verde, mas só que tem outra ali, que chama Fazenda Monte Verde, aí vai ficar duas, perto, né? A gente pôs Fazenda Aliança da Mantiqueira… Depois que a gente comprou, a aliança da família que se uniu pra comprar e Mantiqueira por causa da serra da Mantiqueira. Foi muito bom, nossa! Pra minha família toda! Pros meus irmãos todos. Nossa, ficaram muito felizes de voltar aqui! Poder chegar e encontrar de volta onde a gente foi criado. Às vezes as minhas irmãs chegam, choram toda vida, demoram pra entrar dentro de casa, só olhando. Nossa! Vendo as coisas todas aí. O ano passado até a gente fez a capelinha, colocou Nossa Senhora, que meu pai é muito devoto de Nossa Senhora de Aparecida, né? Aí, dia 12 de outubro do ano passado a gente queria reunir todo mundo, pelo menos os irmãos… A minha mãe era viva ainda o ano passado… Mas acabou que choveu muito! Estava chovendo muito e acabou vindo só seis irmãos. Minha mãe nem veio… Ela acabou falecendo em março, nem chegou a ver a capelinha. Ela faleceu dia 18 de março, ia fazer 91 anos dia 19 de março. No dia do sepultamento dela, a família quase toda estava reunida, acabou de jantar e saiu… Aí o S. F. sentiu um cheiro muito forte de lavanda! Ele sentiu aquele cheiro forte de lavanda, e não foi só ele, foi a minha nora e o meu marido também! Ele pegou e falou assim: “Vou olhar ali na capelinha. Deve ser a esposa do S. G. que pôs alguma lavanda ali”… Não tinha colocado nada! Então, eu acho que a minha mãe veio nos visitar, ela e meu pai… Eu acredito nisso, sim! Depois que ele me contou, eu chorei toda vida… Aquilo me arrepiava toda! Foi ela que veio visitar, sim, com certeza! Mas eu queria muito que ela tivesse vindo no dia que a gente fez a celebração… Ela já tinha Alzheimer. Eu, às vezes, a trazia pra passear aqui, pra ficar comigo… Cada semana uma das filhas ficava. E mesmo ela tendo Alzheimer, chegava aqui e conhecia, lembrava de tudo! Falava: “Ali tinha um moinho, eu vinha trazer milho pra moer”… E tinha mesmo, onde é a piscina hoje. Minha mãe só faleceu porque ela caiu… Assim, do nada! Ela estava indo pra sala, andando normal, quando ela caiu. O médico fala que ela quebrou, por isso que ela caiu. Mas não teve como fazer a cirurgia… Durou acho que 15 dias, tentou fazer a cirurgia, mas não teve jeito… Deus sabe! Depois disso, o S. F. trouxe aqueles beijinhos, pra gente plantar na capela, está bonitinho…
O. M. – Nem sei como continuar… Quando a senhora era criança, tinha uma capela de Nossa Senhora aqui?
A. F. – Não tinha capelinha, tinha um oratório… Tem até hoje o oratório no quarto, aonde já ficava a santinha no tempo do meu pai… Quando minha mãe faleceu, eu falei: “Eu vou levar Nossa Senhora pra ficar no lugarzinho que ficava antigamente”… Ficava ali.
O. M. – Eu tenho foto aqui daquela gruta com Nossa Senhora, e essa é perto de Três Cruzes.
A. F. – A gruta da santinha é muito bonita! Mas essa outra eu nunca tinha visto não… Então, você é devoto de Nossa Senhora?
O. M. – Eu não, pra falar a verdade… Mas reparei que a maioria das santas aqui são Nossa Senhora? A senhora sabe se alguma dessas plantas tem algum sentido religioso?
A. F. – Não… Essas plantas aqui também não conheço como que chama. Aqui tinha muita planta quando nós fomos criados…
O. M. – A. F., os caminhos da Serra Negra, a senhora imagina quem abriu eles pela primeira vez?
A. F. – Não. Isso aí só pessoal mais antigo mesmo pra saber! Mesmo eles eu acho que já tinha antes…
O. M. – E a senhora imagina quem vai herdar esses caminhos?
A. F. – Eu acho que é o Estado mesmo. Vai fazer parte do parque, com certeza!
O. M. – Pra você, o que é uma trilha?
A. F. – Eu acho que é um lugar que as pessoas passam, pra conhecer outros lugares… Dentro da mata, cachoeira…
O. M. – Quando você era jovem, vocês falavam que vocês estavam indo pra ‘trilha’?
A. F. – Não tinha nada disso quando a gente era jovem, não. A gente, mas não tinha esse negócio de ‘trilha’, não. Chegou agora.
O. M. – Dona A. F., o que você pensa de ligar tradição, trilha e turismo?
A. F. – Eu acho que isso tudo dá certo, todos os três. A pessoa conhecer a tradição daqui, de antigamente, e as trilhas, pra vir mais turismo pra cá. Isso aí vai ser muito bom! A maioria dá valor! Quem vem aqui, é porque gosta da roça, do lugar. Aqui, até agora, o pessoal que vem é um pessoal que respeita muito! Isso aí é verdade, mesmo o pessoal que veio e fez festa junina, não cortou um pé de planta! Nada, não estragou nada!
O. M. – A festa junina foi parecida com as festas que você lembra de criança?
A. F. – Quando a gente era criança não existia festa junina, não! O que faz parte da tradição aqui era a Folia de Reis, a festa de São Sebastião… Isso aí faz parte, muito.
O. M. – E pra você, o que não pode mudar aqui na Serra Negra e nos caminhos dela?
A. F. – Eu acho que não pode mudar a tradição. Isso tem de continuar!
O. M. – E como a senhora imagina a Serra Negra daqui a 20 anos?
A. F. – Daqui a 20 anos, vai estar bem mais movimentado! Às vezes a gente nem está aqui mais pra ver… Eu acho que vai mudar muita coisa… Vai ter muito mais movimento, mais gente, mais pousadas… É o que a gente espera, né? Que venha e que respeite!
O. M. – A. F., o que você achou da entrevista?
A. F. – Foi legal. Se precisar fazer mais alguma pergunta, o dia que precisar, pode ser…
O. M. – Tem mais algum causo que você quer contar?
A. F. – Não. Agora até que não…
O. M. – Então eu agradeço muito, muito obrigado!
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