P - Cardoso, quero que você comece me dizendo seu nome completo, a data e o local de nascimento. R - É, o nome é José Cardoso, nasci em 22 de outubro de 1953, na cidade mineira chamada Itumirim. P - Itumirim. Você falou que você foi muito cedo pra Bahia, né? R - É, em seguida era as andanças, pela profissão do meu pai, e em seguida nós voltamos para a Bahia e a identidade cultural ficou toda cá no Nordeste, mesmo. Só fiz nas... P - Seu pai... ô, desculpa. R - Só fiz nascer, mesmo, em Itumirim, só. P - E seu pai era o que? R - Meu pai era mecânico de caminhão, era tratorista, mecânico de máquinas pesadas. Quando tinha obras, na época da construção da Acesita, da Belgo Mineira. Então, nessa época, ele estava trabalhando no estado de Minas Gerais. E, por coincidência, minha mãe foi fazer uma visita, e ela teve parto lá, não sei porque. Calhou que eu nasci lá. P - E aí você foi pra Bahia, onde? R - Nós viemos pra cidade de Salvador, mesmo, que a minha mãe é natural do estado da Bahia. P - Ah, tá. R - Onde toda a raiz da nossa família foi plantada lá na Bahia. P - E seus... R - E em Pernambuco, que o meu pai saiu pernambucano. P - Seu pai é pernambucano e sua mãe... R - E minha mãe era baiana. P - Entendi. E aí vocês foram pra Salvador e seu pai trabalhava no quê? Como é quer era? R - Meu pai era mecânico de caminhão, motorista, caminhoneiro, carreteiro, né? P - Você tinha quantos irmãos? R - Só eu e a Joselita. P - Você e a Joselita. R - Só eu e a Joselita. P - E você freqüentou a escola? R - Freqüentei, completei o ginasial e dei início ao colegial. Foi quando o meu pai veio a falecer e aí tivemos que parar de estudar. P - Que que aconteceu? Seu pai... R - É meu pai, minha mãe tinha falecido um ano antes. E eu acho que era a nossa base, ainda hoje, até pela estrutura familiar, né? E, quando aconteceu o falecimento da minha mãe por...
Continuar leituraP - Cardoso, quero que você comece me dizendo seu nome completo, a data e o local de nascimento. R - É, o nome é José Cardoso, nasci em 22 de outubro de 1953, na cidade mineira chamada Itumirim. P - Itumirim. Você falou que você foi muito cedo pra Bahia, né? R - É, em seguida era as andanças, pela profissão do meu pai, e em seguida nós voltamos para a Bahia e a identidade cultural ficou toda cá no Nordeste, mesmo. Só fiz nas... P - Seu pai... ô, desculpa. R - Só fiz nascer, mesmo, em Itumirim, só. P - E seu pai era o que? R - Meu pai era mecânico de caminhão, era tratorista, mecânico de máquinas pesadas. Quando tinha obras, na época da construção da Acesita, da Belgo Mineira. Então, nessa época, ele estava trabalhando no estado de Minas Gerais. E, por coincidência, minha mãe foi fazer uma visita, e ela teve parto lá, não sei porque. Calhou que eu nasci lá. P - E aí você foi pra Bahia, onde? R - Nós viemos pra cidade de Salvador, mesmo, que a minha mãe é natural do estado da Bahia. P - Ah, tá. R - Onde toda a raiz da nossa família foi plantada lá na Bahia. P - E seus... R - E em Pernambuco, que o meu pai saiu pernambucano. P - Seu pai é pernambucano e sua mãe... R - E minha mãe era baiana. P - Entendi. E aí vocês foram pra Salvador e seu pai trabalhava no quê? Como é quer era? R - Meu pai era mecânico de caminhão, motorista, caminhoneiro, carreteiro, né? P - Você tinha quantos irmãos? R - Só eu e a Joselita. P - Você e a Joselita. R - Só eu e a Joselita. P - E você freqüentou a escola? R - Freqüentei, completei o ginasial e dei início ao colegial. Foi quando o meu pai veio a falecer e aí tivemos que parar de estudar. P - Que que aconteceu? Seu pai... R - É meu pai, minha mãe tinha falecido um ano antes. E eu acho que era a nossa base, ainda hoje, até pela estrutura familiar, né? E, quando aconteceu o falecimento da minha mãe por enfarto, é... acho que desgosto dele, mesmo, né, de perder, aí eu acredito que isso levou ele começar a beber mais até do que devia. E mesmo com todo o pedido meu e de Joselita, pra que a gente pudesse segurar a barra. Mas, a inexperiência minha e dela, ainda, na vida, não tinha ainda um respaldo, assim, de experiência, aí uma conseqüência dessa bebida dele, ele veio a contrair cirrose. E acabou falecendo. P - E você tinha quantos anos? R - Eu estava com uma faixa de 17, mais ou menos, por aí. P - E aí vocês continuaram em Salvador? R - Continuamos morando em Salvador, mesmo. P - E você fazia o que pra sobreviver? R - Nessa época, só fazia estudar, né, que o grande sonho dele era nos formar. Eu, engenharia mecânica, e ela, não sei em quê, mas era o sonho ver os dois filhos formados. E aí, vimos, por a conseqüência de vida, a coisa desmantelar da noite pro dia. E aí, onde eu fiquei numa situação, com ela mais nova do que eu pra criar, pra terminar. Entre a mendicância, né, a caridade alheia, ou parentes, ou talvez até cair na marginalidade, que você fica pedido num momento desse. Mas, devido a essa estrutura familiar, estava dando início, já tinha pouco tempo, talvez, de início o lixão. Já estava esse contexto de catação, de, de, de, alguns lixões, aí foi o que eu achei pra sobreviver e sustentá-la automaticamente, né? P - Como é que você achou, como é que você descobriu o lixão? R - A gente morava perto de um. Estava dando início a um perto, e aí pra ali é um passo, né? Então fomos se embora e comecei a batalhar a vida, daí comecei a tirar o sustento. P - Você ia sozinho? R - Ia sozinho. Porque ela era muito mais nova do que eu. E não queria permitir que ela fosse. Mesmo com toda a inexperiência, aquele momento não estava preparado, mas acho que a própria vida às vezes nos forma. Às vezes tem a formatura de faculdade, mas tem a formatura principal, que é da vida, do mundo, né? E aí, comecei a batalhar no lixão. Mesmo não querendo aceitar aquela realidade. Achava que aquilo era um castigo, que aquilo não era pra mim, reclamando da vida, mas só tinha ali, naquele momento, aquilo. Então, por opção, tinha que escolher. Então, a melhor seria trabalhar com dignidade, então escolhi a dignidade, mesmo sendo um trabalho subumano e degradante, mas pelo menos eu tinha a dignidade de estar trabalhando e ganhando meu sustento, com meu próprio suor, de forma honesta e sem mendicância, sem pedir nada a ninguém. P - E como era o dia-a-dia no lixão? R - Duro, né? Como é até hoje ainda, pra muitos. P - Mas qual que era o cotidiano? Você acordava... R - Levantava de manhã, ia lá pro lixão. Fazia a primeira catação que é, às vezes, o horário que os carro estão chegando. Tem que levantar 4 da manhã, porque é o respaldo da noite, né? Fazia a primeira catação, guardava o material pra vender. Vendia sempre a sucateiro. P - Sucateiro. R - Era muito mínimo, só dava mesmo pra, pra não passar fome, mesmo, né? Mas também não tinha uma vida... decente. E isso, pra gente, marcou muito, por quê? Porque tinha uma vida estabilizada e da noite podia a gente se viu numa realidade totalmente diferente, tanto pra mim, como pra ela, né? P - E aí, você levava o dinheiro pra casa e vocês...? R - Era só pra mim e ela. Continuava morando na mesma casa e o tempo foi passando, aí em seguida, ela veio pra dentro do lixão também. Eu me afastei do lixão pra poder ir trabalhar, essas coisas. Mas, sempre acontecia, eu perdia o emprego, opção seria voltar pro lixão. P - Que outras profissões você teve? R - Eu trabalhei com transportadora. Eu comecei como ajudante, depois fui a arrumador, depois a conferente. Trabalhava um ano todo, dois, por [causa de] uma crise, uma coisa e outra, perdia o emprego. Tinha que voltar pra rua. P - E isso foi até quando, isso, aí vocês continuaram a catar? R - É, isso aí, quando foi na faixa do ano de 1978, por aí, já com a revolta da vida, mesmo. Isso endurece, até, a pessoa, modifica um pouco a pessoa. Mesmo com toda a estrutura familiar, toda a base que minha mãe, meu pai me deixou. Mas você tem que se adaptar a um mundo novo, a uma nova realidade. Aí foi quando, eu trabalhando na transportadora, eu migrei pra Pernambuco, trabalhando na transportadora, né? Precisava, eles estavam fundando uma filial nova no estado de Recife. Como já conhecia Recife, pela origem, de meu pai ter alguns parentes, e eu fui pra lá. Só que quando chegamos lá, houve um problema que tinha que se, que... morar no galpão, que não tinha conhecimento nenhum, né? E trabalhando e em seguida perdi o trabalho. Não sei porque, por azar novamente, vim a perder o trabalho. E não achei a casa desses parentes. Foi aí que eu me transformei. Eu tive que morar, pelo menos, uns meses. Morei, pelo menos, uma faixa de uns 3 meses na rua. Foi aí que eu tomei contato com a catação de rua. Eu tinha experiência de lixão. Não conhecia a rua. Então tive que tornar a me adaptar a uma nova realidade, construir uma nova, vamos supor assim, um aprendizado, né, de rua, que é outro contexto. P - Como que é? R - É... é a rua, o trabalhador que trabalha na rua, ele trabalha com material mais limpo. Mas, se ele não é, se ele não tem moradia, se ele é morador de rua, a dificuldade é maior ainda. Por que? Porque você está exposto a tudo. Você está exposto até à fragilidade pessoal, exposto ao convite do traficante, do assaltante que está em volta de ti ali. Tem que se defender de tudo isso. É matar um leão por dia pra sobreviver. É uma realidade totalmente cruel. E daí nós começamos a... P - Já aconteceu alguma coisa, assim, que te marcou? R - Já. Já, já. É, por minha formação moral, eu não aceitava, nunca usei drogas, e não aceitava algumas coisas. E até tive que defender companheiros de algumas coisas e terminei sendo marcado, né?Aí ficou um período que eu tinha cinco pontos de dormida, pra não morrer. Então, eu tinha que enganar o cara, né? Eu dormia hoje aqui, se no outro dia ele me procurava aqui, eu estava no outro. Isso aí, mas graças a Deus, teve um certo período que, através até de um companheiro meu aí, achar a casa de alguns parentes em Olinda. E daí, foi quando eu comecei a estruturar a vida. Já em Pernambuco, fazendo totalmente uma outra, refazendo totalmente a vida, puxando carroça, mesmo. E aí foi que eu, com o apoio desses parentes, eu fui estruturando, estruturando. Mas aí já tinha perdido o elo com minha irmã. P - Por que? O que que aconteceu? R - Todo contato, perdi documentos. Tive que fazer a vida totalmente de novo. Aí ficamos anos, ficamos mais de 14, de 15 anos sem se ver. Eu não sabia o que se passava na Bahia. Não conseguia voltar, né? E ela não conseguia me encontrar. E aí casei. P - Como você conheceu sua mulher? R - Conheci trabalhando, né? Passando um, e aí encontrei esses parentes. Trabalhava e à noite voltava pra casa, já tinha um pouso certo, né? Já estava voltando a resgatar, novamente, a dignidade, já tinha um pouso certo, aí voltava, conheci ela e nos casamos. Depois em seguida que eu casei, eu fui à Bahia. Arranjei emprego em Pernambuco, trabalhei um certo período e fui à Bahia com ela, pra tentar encontrar a família. Aí ela tinha mudado o lugar que morava. Aí ficou tudo perdido. Aí se tornou que o elo estava cortado, né? Aí... P - E o que que você fez pra procurar, você foi...? R - Procurei em alguns lugares. Mas devido à experiência, ainda inexperiente ainda aí, não consegui achar e retornei pra Pernambuco. Aí morei 2 anos, ainda, na Bahia, trabalhando. Foi quando nasceu os dois, meus dois primeiros filhos, que hoje um tem 23 anos, chama-se André, e o Adriano, com 22. Em seguida, voltamos, problemas familiares aqui. Aí eu tive que retornar, não consegui achá-la. E aí, tocou o barco. Mais outro período distante um do outro. Quando que, continuei a trabalhar, um ano empregado, depois voltava pra rua, pra carroça. E aí comecei isso. Aí vêm as crises de desemprego no país, a idade vai chegando, você já não tem um, uma certa formação, que não consegui terminar totalmente os estudos. Aí vai dificultando as coisas, aí eu fiz a opção de, que ali, a carroça, ia me dar meu sustento. E aí, fui batalhando a vida e hoje já tenho meus quatro filhos criados. P - Seus filhos nunca foram pro lixão? Ou foram? Ou pra rua catar, como é que é? R - Não, pra rua, pra lixão, não, né? P - Pro lixão, não. R - Não. O segundo, o Adriano, hoje é catador. P - Ele é catador também? R - Ele é catador comigo. Porque ele teve que, criou a família dele e, por falta de emprego, teve que ir pra rua também para que pudesse sustentar a família dele. P - Seguiu o pai. R - Porque ele teve, criou a família dele e, por falta de emprego, ele teve que vir pra rua também, pra que pudesse sustentar a família dele. P - Ele tem... R - Hoje ele é catador também. P - Ele tem filhos, também? R - Tem uma filha. P - Uma filha. E aí, hoje, vocês moram aonde? R - Eu moro em Recife, moro em Olinda, na cidade de Olinda. P - E como foi que você encontrou sua irmã? R - Eu encontrei através do movimento. P - Como que foi o dia? Me conta. R - É, quando teve o primeiro congresso em Brasília, eu não pude ir, eu não fui. É, até pelo endurecimento da vida, naquele primeiro momento, não acreditei. E via o país, Brasil, eu vivi quase toda a ditadura. Então não acreditava que, talvez, hoje pudesse ter um governo popular no Brasil e tal. Naquela época não conseguia nem vislumbrar isso, né? Aí sempre aquela questão de política no Brasil e o povo passando, até, a desacreditar nas coisas. E não acreditava em nada, achava que o que viesse de governo ou de coisa, não servia. Aí fui convidado, mas eu por opção não poderia ir. E aí fiquei, não quis participar do congresso. Congresso, esse, que o Erick Soares, que foi a liderança que saiu de Pernambuco, muitos, muitos não, a grande maioria, nesse contexto de catador, conhece. E ela foi já, ela continuou a vida dela no lixão. Então ela foi pra ele, para o congresso, onde ela encontrou Erick e como começaram a conversar com os companheiro, como nós fazemos nesses congressos aqui... P - Faz quanto tempo esse congresso? R - O congresso de Brasília foi em 2001. Em junho de 2001. E aí foi que ela disse que tinha um irmão em Pernambuco e tal, tal. E como carroceiro ficou mais fácil ele me achar, né? P - Ele que foi atrás de você? R - É, aí começou. Tinha que participar, às vezes, de alguma reunião, eu sempre era chamado, às vezes a gente ia pra saber o que era. E numa dessas ocasiões, eu travei conhecimento com ele. Foi quando ele viu o nome, aí ele ligou a coisa, foi, perguntou e disse que tinha sim, tal. Ele me convidou pra entrar no movimento, a princípio eu não quis entrar, né? E aí ele ligou pra ela e disse: "achei teu irmão." Aí, ele construiu o encontro estadual em 2003. Ele já tinha me convidado, mas eu não aceitei, continuei na rua. Então, ele chegou e ligou e me deu um telefone. Disse: "ó, ligue pra esse telefone pra tu falar com tua irmã."Aí eu liguei, quando eu liguei ela me atendeu, né? Aí... P/1, P - E como foi? R - Ah, (suspiro), não dá nem pra... (pausa). Pra lembrar assim... P - Fica à vontade. R - ...a emoção, a alegria, que foi quando ela ligou pra mim, dizendo que ainda estava dentro do lixão, e eu já numa forma até, talvez, até melhorada. Isso pra mim foi alegria, mas mesmo tristeza, porque eu não estava lá perto dela compartilhando, tentando ajudar como foi início de tudo. Aí foi quando teve o congresso. E aí ela veio a Recife pra participar do nosso, do Congresso Estadual de Catadores, e ele pediu a mim que fosse buscá-la na rodoviária. Aí nós estamos hoje caminhando juntos P - Como é que foi isso, o encontro? R - Ah, foi muito bom, né? Acho que não dá nem pra falar, acho que... P - Muita emoção, né? R - É. Foi três dias que passamos junto lá, mas foi como se estivesse junto a vida toda, né? Resgatamos toda a história nossa. Foi quando ela conheceu os sobrinhos, que não conhecia, né? P - E aí você entrou pro movimento? R - Aí eu entrei pro movimento. Aí só ia eu, tinha em Arcoverde. P - Te convenceu o encontro. R - Foi. P - Foi ela que te convenceu a entrar? R - É. E aí, começamos a... a trabalhar em conjunto, né? Foi quando veio um outro baque que foi a perca do companheiro. Em fevereiro, ele veio a falecer e eu assumi. Aí, esse contexto de movimento, eu tive que aprender meio que na porrada, né? Daí vim tocando o barco, aí, com a rapaziada aí. P - Porque ele faleceu e você teve que...? R - Eu tive que assumir, que eu saí em Arcoverde como titular da Comissão Estadual, e trabalharia nós dois em parceria. E aí com o falecimento, eu tive que assumir, meio que na porrada, mesmo. P - Ah, você era o, era, era o Erick que faleceu. R - Não, o Erick faleceu, né? Então o Erick que era... P - Então, o Erick faleceu e você teve que... R - Tive que assumir o lugar dele. E Erick já, nessa época já era referência aqui no Brasil. Era referência pra todos esses companheiros que hoje estão aí, tocando o barco, mais na frente. O que ele fazia, tudo isso, era o Erick. Era o Erick que caminhava mais lá à frente. Grande maioria dessas conquista aí, é herança de Erick. P - Entendi. R - E foi Erick que fez isso também, esse resgate de vida entre minha irmã e eu. E por isso que às vezes eu me emociono quando eu lembro, que ontem eu estava ali, quando foi a abertura, e quando nós participamos da abertura aí, eu via ele no palco. Ele baixinho, gordinho, que a gente brincava muito. E eu não consegui nem ver a abertura, saí foi lá pra fora. Que eu devo uma boa parte do resgate da minha vida à força, coragem e abnegação dele, como lutador, como guerreiro do movimento nacional. E por aí é que eu comecei acreditar mais e aí, até por uma questão de justiça, de ter que estava assumindo uma responsabilidade dele. E aí vou tocando o barco. Hoje isso aqui é como se fosse a minha segunda pele. Onde se eu ver um companheiro injustiçado, se eu vou, se eu não puder... no pau não vou, porque a nossa formação não permite e até minha formação, minha base familiar. Mas aí vou trabalhar, procurar aprender, trabalhar com inteligência pra poder defender esse catador que estiver na rua. Pra evitar, até, que passem o que eu passei na vida. Muitos que estão chegando ainda aí, que estão na rua sofrendo, pra ver se acaba com esse sofrimento de lixão, de estar pisando dentro de lixão, que é a pior coisa da vida. E muitos que estão morando na rua, que acabem, que acabe com esse negócio, equalize essa situação social do país, pra ver se tira essas pessoas da rua, que não é coisa boa, não. Está bom? P - E aí , você, só mais uma pergunta, você entrou pra cooperativa e teve que substituir o Erick... R - É. Aí, depois de Arcoverde eu já comecei a me entregar ao grupo e já comecei a trabalhar na cooperativa. P - E quais são, pra você o que que é mais difícil, assim, qual é o seu trabalho como... R - Como cooperado? P - É. R - Eu continuo na rua com a carroça. P - Mas, tem um trabalho a mais de chamar outras pessoas? R - É, tem um trabalho a mais porque eu tenho o trabalho da articulação, né? Eu, que eu trabalho, eu sou catador do centro da cidade, pronto. Porque eu sou catador de centro da cidade? Porque quando eu vim pro Recife e não achei os parentes, eu tive que ser morador de rua, e morava no centro da cidade. Então tive que aprender esse contexto. Então, eu sou catador de centro. Banco, loja, essas coisas toda. E continuei, hoje ainda trabalho na cidade. Então essa cooperativa nossa é do centro da cidade. P - E é muito difícil convencer outros catadores a fazer parte do movimento? R - Hoje está mais fácil até, viu? Porque devido a algumas conquistas do movimento, hoje está se tornando até mais fácil, no sentido de organização. Hoje a gente trabalha com uma certa facilidade. Hoje eu passo na rua, eles que me procuram, pedindo que arrume galpão, carroça pra que eles possam se organizar. É outra dor, porque às vezes você não tem o cacife financeiro pra fazer, você depende de organizações, de junções de governo e às vezes você não consegue fazer isso. Se a gente, como catador tivesse, assim, uma estrutura que pudesse captar até recursos, pra fazer, acho que até faria até melhor, que a gente fazia com o coração, a gente fazia com alma, né? P - E qual seu sonho pro movimento? R - O meu sonho é, eu sei que um dia a idade pesa, vai ter um dia que eu vou ter que largar a carroça, né? Então, por isso que às vezes eu peço aos companheiros que se organizem, que pra não acontecer o que aconteceu com o Erick, né? Que faleceu e não teve um INSS pra cobrir a família. Onde hoje a mãe dele está aqui no congresso, que veio junto comigo. E nós que fazemos o movimento, eu que faço o Movimento Nacional de Catadores em Pernambuco, a gente procura trabalho junto com elas, dando apoio. Pra quê? Pra que essas duas crianças que ficou órfã tenha um respaldo melhor, e não venham sofrer o que sofreu o Erick Soares, o que sofreu o José Cardoso, o que sofreu a Joselita, o que sofreu demais companheiros aí desse Brasil. Acho que seria conseguir políticas públicas, mesmo, de forma séria. Quer dizer, fica aquele coisinha: "não, vamos fazer, vamos fazer." Que hoje ainda tem aquele negocinho: "ó, o coitadinho catador, coitadinho." Tem que acabar com essa história de coitadinho. Tem que fazer a gente gerar renda, mesmo, de verdade. Saber fazer os trabalhos, nós sabemos, fizemos isso a vida toda. E na hora da maior dificuldade, às vezes até sozinho, a gente soube superar todas as dificuldades da vida. Por que não saber administrar uma cooperativa? Então, o governo e entidades, que não tem que ficar com esse negócio de, de hoje, amanhã, não. É fazer a coisa acontecer de fato e de verdade, mesmo. Fazer inclusão social mesmo. Que às vezes o pessoal pensa que inclusão social é uma cesta básica, um programa social, mas isso não complementa. Inclusão social é poder botar os filhos na escola, é poder ter dignidade e ganhar o seu próprio sustento, é não estar pedindo nada a alguém, né? Em alguns momentos da minha vida, eu tive às vezes até que pedir, mesmo. Eu fazia, ou pedia ou roubava. Então a minha formação nunca pendeu pra esse lado. Às vezes ou era obrigado a jogar a vergonha de lado e ter até que fazer isso. Que não tem coisa pior do que pedir. Às vezes tem pessoas que vê um cidadão, uma pessoa na rua, pessoal tem mania de chamar de mendigo. Eu não chamo, pra mim é cidadão. Porque eu sempre fui cidadão, mesmo quando passei um período na rua. Não foi muito tempo, mas o pouco que eu passei, eu vi que não é brincadeira, não. Então eu percebi, nunca chamo de mendigo, pra mim é um cidadão igual qualquer outro. E estender a mão, eu acho que não tem momento pior do que quando ele estende a mão, porque ele sabe que pode vir um não ali, e a coisa que dói, que machuca pra caramba. Hoje o pessoal fala muito em discriminação, que até pelo contexto social do país, discriminação racial. Pior discriminação hoje é a social, que hoje nós estamos, negros, brancos, índios, jogados no mesmo patamar. Exclusão social. Na mesma condição social: miséria, lixão. Hoje as grandes senzalas do sistema são os lixão da vida, aí. Então era isso que o governo teria que fazer de forma até emergencial, de pancada, mesmo. Extinção dos lixões, aterro sanitário, implantação de coleta seletiva, financiamento de cooperativa de catadores, que é uma forma de diminuir a marginalidade, que, assim, fórmula está aí, que sempre simples, não tem que inventar a roda, é só fazer ela girar. Eu, que sou leigo, consigo. Não consegui uma formação, mas consigo ver as coisas dessa forma. Como hoje os empresários estão vendo a reciclagem aí e se equipando com carros, com viaturas aí, e competindo com o catador. Então, é porque é viável. Então, é só o governo tocar o barco que a gente, o resto a gente faz, que a gente sabe fazer. P - É mesmo. Muito bom, obrigada. Você quer dizer mais alguma coisa que eu não tenha perguntado? R - Não, acho que não. Não. P - Muito boa sua história. R - Foi bom demais, obrigado. P - Muito bom seu depoimento. Muito obrigada.
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