JANELA DO LADO DE DENTRO
(Onde o arco-íris da infância encontra o silêncio da maturidade.)
Sentada na minha cadeira de balanço e absorta no celular, ruminando minha mente, que entre um suspiro e outro inspira um pensamento, uma reflexão — e assim vou compondo meus versos, os meus pedaços de mim... Ao mesmo tempo, observo o vapor do café subir e se dissipar, perdendo-se no ar como tantas promessas que ouvi ao longo dos anos.
Do outro lado, no quarto, meu filho — hoje adulto, às vezes de sorriso solto, outras fechado, entre algumas estereotipias que trouxe da infância e que permanecem até hoje. Com fones de ouvido, navega no computador para ouvir Jota Quest (Além do Horizonte), que, por ironia do destino, é a música de que ele mais gosta. O silêncio e esse transe dele são o meu barulho interno.
Lembro-me de quando o diagnóstico era uma urgência colorida. Naquela época, a gente corria. Era eu e minha cunhada, também madrinha dele. Batíamos em portas de clínicas como se fôssemos derrubá-las no ombro. Havia uma "luta desenfreada", uma pressa de quem acredita que o arco-íris da infância esconde a cura ou, no mínimo, o acolhimento. Nutríamos a doce ilusão de que o tempo seria um aliado, um corretor de rotas. Mas o tempo, esse mudo implacável, só nos calejou.
Até que, aos 9 anos, veio o diagnóstico que nos deixou sem chão. As portas que antes se abriam para a criança "especial" foram se fechando uma a uma conforme a barba dele crescia. O governo silenciou, as redes de apoio minguaram e o mundo, lá fora, parece ter sofrido uma amnésia coletiva. É como se o autismo tivesse um prazo de validade social que vence aos dezoito anos. Depois disso, o que sobra é o esquecimento.
Hoje, meu horizonte encolheu. Ele não está mais além do arco-íris; ele cabe na moldura da minha janela. Às vezes, eu a escancaro. São os "momentos de oásis", quando a luz entra e o dia flui sem sobressaltos. Mas há dias em que a...
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JANELA DO LADO DE DENTRO
(Onde o arco-íris da infância encontra o silêncio da maturidade.)
Sentada na minha cadeira de balanço e absorta no celular, ruminando minha mente, que entre um suspiro e outro inspira um pensamento, uma reflexão — e assim vou compondo meus versos, os meus pedaços de mim... Ao mesmo tempo, observo o vapor do café subir e se dissipar, perdendo-se no ar como tantas promessas que ouvi ao longo dos anos.
Do outro lado, no quarto, meu filho — hoje adulto, às vezes de sorriso solto, outras fechado, entre algumas estereotipias que trouxe da infância e que permanecem até hoje. Com fones de ouvido, navega no computador para ouvir Jota Quest (Além do Horizonte), que, por ironia do destino, é a música de que ele mais gosta. O silêncio e esse transe dele são o meu barulho interno.
Lembro-me de quando o diagnóstico era uma urgência colorida. Naquela época, a gente corria. Era eu e minha cunhada, também madrinha dele. Batíamos em portas de clínicas como se fôssemos derrubá-las no ombro. Havia uma "luta desenfreada", uma pressa de quem acredita que o arco-íris da infância esconde a cura ou, no mínimo, o acolhimento. Nutríamos a doce ilusão de que o tempo seria um aliado, um corretor de rotas. Mas o tempo, esse mudo implacável, só nos calejou.
Até que, aos 9 anos, veio o diagnóstico que nos deixou sem chão. As portas que antes se abriam para a criança "especial" foram se fechando uma a uma conforme a barba dele crescia. O governo silenciou, as redes de apoio minguaram e o mundo, lá fora, parece ter sofrido uma amnésia coletiva. É como se o autismo tivesse um prazo de validade social que vence aos dezoito anos. Depois disso, o que sobra é o esquecimento.
Hoje, meu horizonte encolheu. Ele não está mais além do arco-íris; ele cabe na moldura da minha janela. Às vezes, eu a escancaro. São os "momentos de oásis", quando a luz entra e o dia flui sem sobressaltos. Mas há dias em que a tempestade das crises se arma no céu dele, e eu a fecho com tanta força que minha alma também se enclausura, projetando em mim o que o mundo decidiu ignorar. O autismo não termina na infância, mas o olhar das pessoas, infelizmente, parece ter se encerrado ali, naquela foto antiga de uma criança que o mundo esqueceu de ver crescer e que virou apenas uma sombra oscilante.
Hoje, eu e meu marido já não temos o vigor de quando nosso filho era pequeno. Seguimos pisando em ovos, é verdade, mas com os pés firmes no chão da realidade. No silêncio desse público adulto que a sociedade insiste em ignorar, o acolhimento da APAE e de sua equipe pedagógica funciona como um porto seguro, onde meu filho deixa de ser uma sombra para ser, simplesmente, ele mesmo.
Deus é o nosso farol, e essa rede de apoio é a mão que segura a nossa quando o cansaço pesa. O arco-íris da infância pode não ter escondido a cura, mas hoje eu sei que ele revelou algo muito mais precioso: a nossa coragem de continuar.
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