A chegada na Terra Prometida
O trem vinha cheio demais para o tamanho dos sonhos que carregava.
Homens, mulheres, crianças, sacolas de pano, malas amarradas com corda, galinhas dentro de caixas improvisadas. Tudo se misturava no mesmo vagão. O cheiro de poeira, ferro quente e comida guardada se espalhava pelo ar.
Eu era pequena demais para entender o que estava acontecendo, mas grande o suficiente para perceber que algo importante estava sendo decidido ali.
Sentada perto das malas, eu ouvia meus avós conversarem em voz baixa. Eles falavam como quem conta dinheiro antes mesmo de recebê-lo.
— Leivina, pensa bem… — disse meu avô João, coçando o queixo. — Lá no Paraná é diferente. O povo fala que tem serviço pra todo mundo.
Minha avó respondeu depois de um pequeno silêncio. — Se for como o Ambrósio falou, João… já ajuda demais.
O nome de Ambrósio aparecia sempre nas conversas daquele trem.
Ele tinha surgido, diziam, quase como um mensageiro de notícias boas. Ninguém sabia muito bem de onde tinha vindo. Só que um dia apareceu na venda de Simão, lá nas Pedras, contando das terras do Paraná. á.
— Terra boa. Terra preta — ele dizia. — Quem tiver braço pra trabalhar não passa fome.
Meu avô continuou fazendo contas imaginárias.
— Olha só… nós tudo trabalhando… eu, você, os meninos… depois as meninas crescendo… em pouco tempo dá pra guardar dinheiro. Minha avó suspirou, olhando pela janela.
— Quem sabe comprar um pedaço de terra nosso. — É isso que eu penso — respondeu ele. — Terra nossa. Ninguém manda. A gente planta e colhe.
Eu não entendia direito o peso daquela conversa. Para mim, aquilo parecia mais uma história que os adultos contavam. Mas não eram só meus avós que falavam disso. O vagão inteiro parecia fazer o mesmo cálculo. Um homem mais adiante comentou com outro:
— Lá no Paraná dizem que a lavoura precisa de gente. Café, milho… tudo...
Continuar leitura
A chegada na Terra Prometida
O trem vinha cheio demais para o tamanho dos sonhos que carregava.
Homens, mulheres, crianças, sacolas de pano, malas amarradas com corda, galinhas dentro de caixas improvisadas. Tudo se misturava no mesmo vagão. O cheiro de poeira, ferro quente e comida guardada se espalhava pelo ar.
Eu era pequena demais para entender o que estava acontecendo, mas grande o suficiente para perceber que algo importante estava sendo decidido ali.
Sentada perto das malas, eu ouvia meus avós conversarem em voz baixa. Eles falavam como quem conta dinheiro antes mesmo de recebê-lo.
— Leivina, pensa bem… — disse meu avô João, coçando o queixo. — Lá no Paraná é diferente. O povo fala que tem serviço pra todo mundo.
Minha avó respondeu depois de um pequeno silêncio. — Se for como o Ambrósio falou, João… já ajuda demais.
O nome de Ambrósio aparecia sempre nas conversas daquele trem.
Ele tinha surgido, diziam, quase como um mensageiro de notícias boas. Ninguém sabia muito bem de onde tinha vindo. Só que um dia apareceu na venda de Simão, lá nas Pedras, contando das terras do Paraná. á.
— Terra boa. Terra preta — ele dizia. — Quem tiver braço pra trabalhar não passa fome.
Meu avô continuou fazendo contas imaginárias.
— Olha só… nós tudo trabalhando… eu, você, os meninos… depois as meninas crescendo… em pouco tempo dá pra guardar dinheiro. Minha avó suspirou, olhando pela janela.
— Quem sabe comprar um pedaço de terra nosso. — É isso que eu penso — respondeu ele. — Terra nossa. Ninguém manda. A gente planta e colhe.
Eu não entendia direito o peso daquela conversa. Para mim, aquilo parecia mais uma história que os adultos contavam. Mas não eram só meus avós que falavam disso. O vagão inteiro parecia fazer o mesmo cálculo. Um homem mais adiante comentou com outro:
— Lá no Paraná dizem que a lavoura precisa de gente. Café, milho… tudo cresce.
O outro respondeu animado: — Aqui a gente trabalha pra dono de terra. Lá, quem sabe a gente vira dono. Uma mulher, apertando o filho contra o peito, entrou na conversa:
— Meu cunhado foi primeiro. Mandou notícia dizendo que já tá empregado na fazenda. Diz que serviço não falta. Alguém completou do fundo do vagão: — É a tal da Fazenda Ouro Branco. Falam que é grande que só vendo. Quando ouvi aquele nome, meus avós se entreolharam.
— É lá que o Jovino está — disse minha avó. Jovino era filho deles. Tinha ido antes.
— Pois é — respondeu meu avô. — Se ele aguentou, a gente aguenta também.
O trem diminuiu a velocidade e parou numa estação pequena, perdida no meio do caminho.
As pessoas aproveitaram a parada como se fosse um pequeno descanso da esperança. Malas se abriram. Sacolas também. Minha mãe tirou um embrulho de pano. Era farofa.
Já fazia três dias que aquela farofa tinha sido preparada. Mesmo assim, quando ela distribuiu um pouco para cada um de nós, parecia a melhor comida do mundo.
Comíamos com as mãos, sentados no banco duro do vagão. Para nós, crianças, aquilo era uma aventura: - trem, as pessoas, a viagem longa… tudo parecia parte de uma grande brincadeira.
Enquanto mastigávamos, os adultos continuavam falando sobre o futuro.
Sobre as lavouras. Sobre as casas que um dia teriam. Sobre as terras que ainda nem existiam em suas mãos. Eu olhava tudo em silêncio. Naquele momento, ninguém ali imaginava que o Paraná guardava muito mais do que promessas. Muito mais. E foi só quando o trem começou a diminuir a velocidade pela última vez que meu avô disse algo que eu nunca esqueci: "Chegamos."
Mas o que ninguém sabia ainda…
Era que chegar não significava encontrar a terra prometida.
Às vezes, significava apenas começar a luta.
Recolher