Uma das muitas memórias afetivas que trago de minha infância no interior do Rio Grande do Sul é o que descrevo hoje como uma não intencional lição de inclusão e democracia.
Na antevéspera de Natal, entre o final dos anos cinquenta e início dos sessenta, nossa chácara na periferia de Cruz Alta transformava-se. Ali, montávamos uma pequena fábrica de biscoitos, resgatando tradições europeias que se fundiam às nossas próprias — e não menos importantes — raízes familiares.
Tudo começava com uma bacia de massa doce, perfumada com muita erva-doce, que era separada em porções para moldar e “esculpir” as peças. Minha mãe e a Dinha — nossa segunda mãe, babá e avó, o exemplo mais lindo de humildade e pureza que a vida me deu — eram as mestras dessa oficina, com quem tive a honra de conviver e aprender.
Em meio a risadas e carinhas sujas de farinha, surgiam os “cajus”: pequenos pedaços de massa que, após dois cortes laterais, tomavam a forma de vírgulas. Essa era a produção principal, tarefa dos adultos. Enquanto isso, eu e minha irmã Beth dávamos vazão à criatividade, moldando bichinhos da chácara — galinhas, coelhos, cachorros, vaquinhas — e, eventualmente, algum personagem histórico, como o chapéu de Napoleão ou o próprio Papai Noel.
Após assados, os biscoitos mergulhavam em uma calda saturada de açúcar e secavam ao vento até branquearem. Chegava, então, a hora da montagem: fazíamos envelopes de papel de pão, selados com cola de amido, e embalávamos dezenas de porções para serem distribuídas ali mesmo à nossa vizinhança.
Ao entardecer, nossa casa tornava-se o ponto de encontro. Recebíamos o Seu Nenê e a Aurora (minha mãe de leite) com seus cinco filhos; a família do Seu Ataídes e Dona Neusa, cujas filhas eram as grandes amigas de minha irmã; e a Dona Geni, mãe solo da Gecy e do José, meu melhor amigo. Juntavam-se também nossos avós: Vô Alfredo e sua dedicada governanta, Adelaide...
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Uma das muitas memórias afetivas que trago de minha infância no interior do Rio Grande do Sul é o que descrevo hoje como uma não intencional lição de inclusão e democracia.
Na antevéspera de Natal, entre o final dos anos cinquenta e início dos sessenta, nossa chácara na periferia de Cruz Alta transformava-se. Ali, montávamos uma pequena fábrica de biscoitos, resgatando tradições europeias que se fundiam às nossas próprias — e não menos importantes — raízes familiares.
Tudo começava com uma bacia de massa doce, perfumada com muita erva-doce, que era separada em porções para moldar e “esculpir” as peças. Minha mãe e a Dinha — nossa segunda mãe, babá e avó, o exemplo mais lindo de humildade e pureza que a vida me deu — eram as mestras dessa oficina, com quem tive a honra de conviver e aprender.
Em meio a risadas e carinhas sujas de farinha, surgiam os “cajus”: pequenos pedaços de massa que, após dois cortes laterais, tomavam a forma de vírgulas. Essa era a produção principal, tarefa dos adultos. Enquanto isso, eu e minha irmã Beth dávamos vazão à criatividade, moldando bichinhos da chácara — galinhas, coelhos, cachorros, vaquinhas — e, eventualmente, algum personagem histórico, como o chapéu de Napoleão ou o próprio Papai Noel.
Após assados, os biscoitos mergulhavam em uma calda saturada de açúcar e secavam ao vento até branquearem. Chegava, então, a hora da montagem: fazíamos envelopes de papel de pão, selados com cola de amido, e embalávamos dezenas de porções para serem distribuídas ali mesmo à nossa vizinhança.
Ao entardecer, nossa casa tornava-se o ponto de encontro. Recebíamos o Seu Nenê e a Aurora (minha mãe de leite) com seus cinco filhos; a família do Seu Ataídes e Dona Neusa, cujas filhas eram as grandes amigas de minha irmã; e a Dona Geni, mãe solo da Gecy e do José, meu melhor amigo. Juntavam-se também nossos avós: Vô Alfredo e sua dedicada governanta, Adelaide Domansky, com os tios e primos por parte de pai tia Hildegaard Lucy a tia Mausinha e sua filhinha Ingelori; e meus avós maternos, Oswaldo e Isaura, acompanhados de meus tios Maria Theresa, Regina e Rogério.
Nossa árvore com sua velinhas espiraladas de Natal brilhava, então, para duas celebrações. A primeira acontecia com esses vizinhos e amigos, onde os pacotinhos mágicos eram entregues e prontamente devorados por nós, crianças, entre correrias pelo quintal da chácara. Só mais tarde, em um segundo momento mais íntimo, ceávamos em família.
Hoje, mais de sessenta anos depois, revisito aquele olhar de encantamento. Revejo os olhos que brilhavam na expectativa daquela pequena surpresa açucarada, destinada a vidas tão duras de crianças pobres do interior deste imenso país. Era uma pobreza vivida com dignidade, atenuada pelo instante lúdico de um biscoito feito com carinho, liberdade e, acima de tudo, afeto.
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