NOS TEMPOS DA DITADURA
Dia 02 de janeiro de 1972.
Ao amanhecer daquele dia, deixei a cidade de Jales, interior do Estado de São Paulo, região de São José Rio Preto e rumei com destino a Capital Paulista, de carona com um amigo em um fusquinha, enfrentando mais ou menos dez horas de viagem, com intenção de continuar meus estudos. Havia terminado o segundo ano do Curso Colegial e também havia sido expulso da escola em que eu estudava, o Instituto de Educação Estadual Dr. Euplhy Jales. Minha expulsão do Colégio Estadual se deu por rebeldia, pois naquela época, os jovens e estudantes, além de rebeldes, eram muito mais politizados que os jovens de hoje, se interessavam por política e tinham muita ideologia. A gente era totalmente contra a ditadura militar. Os jovens da época curtiam as músicas de protesto do Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, etc. Curtiam também as peças teatrais com referências à liberdade, além de participarem dos protestos contra a ditadura militar que assolava o Brasil daquela época.
Eu, por exemplo, participei de vários grupos de jograis que eram formados na Escola. Participei, também, de alguns grupos teatrais, também formados na Escola. Um deles foi Morte e Vida Severina, de autoria de João Cabral de Melo Neto e música de Chico Buarque de Hollanda, espetáculo este, produzido e dirigido pelo Professor de Português do Euplhy Jales, Manoel José Cardoso.
Lembro-me também de uma peça teatral escrita pelo Professor Manoel José Cardoso, que se chamava “O Decisivo Momento.” Esta peça, que apresentamos no final do ano de 1968, era bastante subversiva para a época. Se fosse encaminhada à censura militar prévia daqueles tempos, com certeza seria censurada e seu autor seria punido severamente pela Ditadura Militar. Veja o trecho de uma das músicas que eram cantadas durante a apresentação: “Disparam fortes fuzis, espocam zunindo balas, sorrisos que se acabam vidas que...
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Dia 02 de janeiro de 1972.
Ao amanhecer daquele dia, deixei a cidade de Jales, interior do Estado de São Paulo, região de São José Rio Preto e rumei com destino a Capital Paulista, de carona com um amigo em um fusquinha, enfrentando mais ou menos dez horas de viagem, com intenção de continuar meus estudos. Havia terminado o segundo ano do Curso Colegial e também havia sido expulso da escola em que eu estudava, o Instituto de Educação Estadual Dr. Euplhy Jales. Minha expulsão do Colégio Estadual se deu por rebeldia, pois naquela época, os jovens e estudantes, além de rebeldes, eram muito mais politizados que os jovens de hoje, se interessavam por política e tinham muita ideologia. A gente era totalmente contra a ditadura militar. Os jovens da época curtiam as músicas de protesto do Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, etc. Curtiam também as peças teatrais com referências à liberdade, além de participarem dos protestos contra a ditadura militar que assolava o Brasil daquela época.
Eu, por exemplo, participei de vários grupos de jograis que eram formados na Escola. Participei, também, de alguns grupos teatrais, também formados na Escola. Um deles foi Morte e Vida Severina, de autoria de João Cabral de Melo Neto e música de Chico Buarque de Hollanda, espetáculo este, produzido e dirigido pelo Professor de Português do Euplhy Jales, Manoel José Cardoso.
Lembro-me também de uma peça teatral escrita pelo Professor Manoel José Cardoso, que se chamava “O Decisivo Momento.” Esta peça, que apresentamos no final do ano de 1968, era bastante subversiva para a época. Se fosse encaminhada à censura militar prévia daqueles tempos, com certeza seria censurada e seu autor seria punido severamente pela Ditadura Militar. Veja o trecho de uma das músicas que eram cantadas durante a apresentação: “Disparam fortes fuzis, espocam zunindo balas, sorrisos que se acabam vidas que murcham em flor. Uns que se perdem em riquezas, outros que nada tem, palavrórios sem sentido, ninguém entende ninguém. Nosso mundo é um caos, perdeu-se a noção do bem.” A peça foi encenada sem passar pela censura, pois caso contrário o autor e os atores poderiam até ser processados e presos pela ditadura.
Até então, trabalhava na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (Correio). Pedi demissão do emprego, vendi uma bicicleta que usava para meus deslocamentos na cidade de Jales, tal como ir ao Colégio, trabalhar e para alguns pequenos passeios em rios e cachoeiras da região. Com o dinheiro de minha rescisão contratual com os Correios e o arrecadado com a venda da bicicleta, rumei para a Capital Paulista a fim de tentar progredir na vida. Lembro-me bem que, quando disse a meu Pai que iria para São Paulo, ele assim me disse:
- Pode ir, mas não conte comigo financeiramente, pois você sabe que não tenho como lhe enviar dinheiro.
A situação financeira do meu pai não era nada boa naquela época. Trabalhava de empregado/vendedor de doces da empresa Ailiram de Marília, que por sinal o nome da empresa é Marília ao contrário, e a grana era bastante curta.
- Aqui em casa, você tem cama para dormir, roupa limpa e passada, comida para comer e o carinho de sua família. Saindo de casa, você deverá se virar sozinho.
Eu disse:
- Pode deixar, eu me viro.
Além de mim, minha mãe e quatro irmãs, uma mais velha que eu, a Cleuza, depois de mim a Cida, a Celia e a Sandra, meu pai criou também uma irmã dele, a Beth, mais ou menos da mesma idade de minha irmã Cleuza. Naquela época nenhum de nós, a não ser meu Pai e minha Mãe, trabalhavam para o sustento da família. Todos os filhos, apenas estudavam.
Chegando a São Paulo, fui morar na Casa do Estudante de Jales. Uma casa grande, situada na Rua Senador Felício dos Santos, no bairro da Aclimação, perto do Hospital Modelo da Rua Tamandaré. A estrutura funcional da Casa do Estudante de Jales havia sido montada pela Prefeitura Municipal daquela cidade para abrigar os estudantes que saiam de Jales rumo a São Paulo para prosseguirem seus estudos e também em busca de melhores oportunidades de trabalho. Quando lá cheguei, em 02 de janeiro de 1972, a Casa era administrada pelo jalesense Duílio Molina, que alugava quartos aos estudantes. Muitos estudantes de Jales procuravam a Casa para morar até arrumar um emprego e até outro lugar para morar.
Depois de me acomodar na Casa do Estudante, comecei a procurar um emprego, o que não demorou muito. No dia primeiro de fevereiro de 1972, com um salário de Cr$ 295,00 (duzentos e noventa e cinco cruzeiros), comecei a trabalhar como escriturário no Banco Nacional de Minas Gerais S.A., na Avenida Paulista, número 2166, na esquina com a Rua Augusta. Comecei trabalhando no Setor de Cobrança. O Chefe de Serviço do setor era o Lázaro, um cara bastante competente com quem me dava muito bem. Trabalhavam comigo no setor, o Martins, o Felipe, o Douglas, o Puga e outros que os nomes fogem da minha memória.
Naquela época, acabei levando o Martins e o Felipe para morarem na Casa do Estudante de Jales, pois os mesmos haviam chegado há pouco tempo em São Paulo, o Martins vindo da cidade de São Carlos e o Felipe de Herculândia, ambas no interior do estado, e ainda não haviam arrumado um lugar definitivo para morar.
Consegui me matricular no terceiro ano do Curso Colegial do Colégio São Joaquim, um Colégio estadual muito antigo, que ficava na rua com o mesmo nome do Colégio, no Bairro da Liberdade. No final do primeiro semestre, fiquei sabendo que em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, tinha um colégio, chamado São José, que você não precisava freqüentar as aulas regularmente, bastava fazer as provas no final de cada bimestre e pagar as mensalidades em dia. Fui até Ribeirão Preto, efetuei minha transferência do Colégio São Joaquim para o São José e me matriculei no Cursinho Objetivo (preparatório para vestibulares) na Avenida Paulista n. 900, prédio da Rede Gazeta de Rádio e Televisão. Era um meio de ganhar tempo, pois ao invés de freqüentar aulas regularmente no colegial, já estava fazendo o cursinho, ganhando pelo menos seis meses.
Não demorou muito tempo e fui promovido a Caixa Executivo no Banco Nacional. Continuei trabalhando na Agência da Avenida Paulista esquina com Rua Augusta. No início de 1973, tirei férias e fui passear em Jales. Quando retornei das férias, a Casa do Estudante de Jales havia sido extinta e cada um dos moradores foi obrigado a procurar outro lugar para morar. Fui morar com o Martins, que trabalhava comigo no Banco Nacional, na casa de uma Tia dele na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, endereço este provisório, até achar outro lugar para morar. Moramos lá por dois meses, depois, juntamente com mais cinco amigos, alugamos um apartamento no Bairro Paraiso. Neste retorno das férias, fui convidado a exercer a função de Auxiliar de Tesoureiro na Agência do Banco Nacional da Avenida Angélica. A Tesoureira era uma amiga que tinha trabalhado comigo na Avenida Paulista, a Gleuza. Uma baixinha muito competente e boa amizade, e que na época, era namorada de um grande amigo meu, o Rommel Mysmicht, que também era funcionário do Banco Nacional à época.
A Agência era localizada na Avenida Angélica esquina com a Rua Alagoas, na Praça Buenos Aires no Bairro de Higienópolis, um local bastante elitizado. A Agência do Banco era a responsável pelo pagamento dos salários dos funcionários da Rede Globo de Televisão que tinha a sua sede muito próxima da Agência do Banco.
Na função de auxiliar de tesoureiro, eram frequentes minhas idas à Rede Globo para recolher depósitos, impostos, taxas e recolhimentos em geral. Era também, muito comum, cruzar com artistas da Globo, tanto na Agência do Banco como nos corredores da emissora quando de minhas idas a serviço, no canal de televisão.
Era também comum, num acordo, entre eu e a Gleuza, tesoureira da agência, recolher um depósito, aos domingos, do movimento do Super Mercado São João, localizado na Rua Alagoas, na Praça Buenos Aires, aproximadamente a cinquenta metros da Agência do Banco Nacional. Sempre que estava disponível nos finais de semana, quando não ia acampar na Praia de Iporanga ou na Prainha Branca, no Guarujá, ou quando não tinha jogo do Corinthians no Pacaembu, havia um acordo com a Gleuza de ir recolher o depósito do Supermercado, cada domingo em um horário diferente, previamente estabelecido, sempre após o horário do almoço dominical. Sempre que não tinha outros compromissos de final de semana, eu ia, juntamente com a Gleuza, recolher o depósito do Supermercado aos domingos. Para isso ganhava uma graninha extra que sempre ajudava no orçamento mensal na hora de pagar as mensalidades do cursinho pré-vestibular, as despesas do apartamento, das passagens dos ônibus para ir trabalhar, dos lanches noturnos, pois quase nunca tinha janta e para algumas eventualidades extras que surgiam fora do orçamento mensal do ordenado de auxiliar de tesouraria no banco.
Num certo domingo, reunimos alguns amigos no apartamento n. 14, onde morava na Rua Paraíso, n. 513, e começamos a jogar baralho. Naquela época eram freqüentes os jogos de caixeta que sempre realizávamos aos finais de semana, as vezes virávamos a noite jogando baralho, pois era um divertimento, um passatempo barato e não estávamos correndo riscos nas ruas perigosas de São Paulo. .
Naquele dia, por volta das dezesseis horas, lembrei-me que havia combinado com a Gleuza, tesoureira da agência do Banco Nacional onde trabalhávamos, de ir recolher o depósito do supermercado que estava marcado para aquele domingo por volta das quatorze horas.
Como já havia passado um bom tempo do horário previsto para me encontrar com a Gleuza e que se eu me deslocasse de ônibus do Bairro Paraíso até Higienópolis iria demorar muito a chegar, me dirigi ao Kinka, o único amigo que morava comigo e que tinha carro, um fusca branco ano 1966, que, aliás, havia sido comprado do Sobral que também trabalhava comigo no Banco Nacional, compra esta, por mim intermediada, solicitando que me emprestasse o carro para ir até ao banco, o que não foi negado por ele, pois éramos grandes amigos.
Ao passar pela sala do apartamento, já de saída, lá estava outro amigo que morava junto, ouvindo música. Era o Felipe, apelido, Zinho. Estava com uma camiseta velha, até desgastada que usava pra dormir, uma calça de moletom e chinelos havaianas. Convidei-o a ir junto comigo até o banco e que voltaríamos logo.
Subimos a Rua Paraiso, pegamos Bernardino de Campos, atravessamos a Praça Oswaldo Cruz e depois a Avenida Paulista do início ao Fim. Depois de atravessar a Rua da Consolação descemos a Rua Angélica ate a Praça Buenos Aires onde ficava a Agência do Banco.
Qual não foi minha surpresa ao chegar à agência do Banco Nacional havia uma viatura da polícia civil, o Sr. João, dono do Supermercado, a Gleuza, tesoureira do Banco e alguns policiais.
Ao estacionar o fusca e descer ao encontro das pessoas que ali estavam, imaginei que algo de errado estava acontecendo. Foi aí que a Gleuza me disse que havia me esperado até àquela hora e como eu não apareci, resolveu recolher o depósito no Supermercado, e acompanhada do Sr. João, dono do mesmo, levar o dinheiro até o Banco que ficava a cerca de cinquenta metros um do outro, só que entre os dois havia uma banca de revistas e ao passarem pela banca, foram abordados por um elemento armado com uma pistola que se apoderou da sacola com o dinheiro que estava sendo levado ao Banco.
Ao me aproximar, a Gleuza disse aos policiais:
- Este é o funcionário do Banco que deveria de ter vindo para me acompanhar no recolhimento do depósito do Supermercado.
O policial que parecia ser o chefe dos demais se virou pra mim e disse que deveria acompanhá-los até a quinta Delegacia. Foi quando eu, em toda minha inocência disse ao mesmo:
- Um minutinho só que vou avisar meu amigo que está no carro para me aguardar.
O policial, que na verdade era o Delegado, disse-me:
- Pode chamar seu amigo, ele também vai para a Delegacia.
O policial disse então:
- O dois vão conosco na viatura. Tranque o carro que ele vai ficar aí.
Rumamos para a Quinta Delegacia no Bairro de Higienópolis. Lá chegando, fomos um a um sendo chamados para prestar depoimento perante o Doutor Delegado e o Escrivão de Polícia. Todos foram ouvidos isoladamente sem que um soubesse o que o outro havia declarado.
Ao chegar minha vez de ser ouvido, fui chamado ao Gabinete do Delegado e aí começou o interrogatório. A primeira pergunta que o Delegado me fez foi a seguinte:
- Por que você não compareceu no horário marcado para o recolhimento do depósito do supermercado?
Eu respondi que havia me esquecido do horário, pois cada domingo a gente combinava um horário diferente e naquele dia, lembrei-me somente duas horas após o horário combinado. Respondi também que havia me entretido jogando baralho com os amigos e que por isso havia me esquecido da hora combinada.
O Doutor Delegado me perguntou também com quem eu morava. Disse que dividia um apartamento com alguns amigos. Ele quis saber e o nome e apelido de cada um dos amigos que moravam comigo.
Comecei a relatar:
Moram comigo o Paulo Roberto Gonçalves, apelido Paulinho; Akikazo Igarashi, apelido Kinka; Luiz de Souza Martins Júnior, apelido Martins; Amado Leão Xavier, apelido Baiano; Luiz Marques Ramires, apelido Feijão e Felipe Alonso Bernal Salvador, apelido Zinho.
Depois de mais algumas perguntas ele me disse que por hora estava liberado, mas que aguardasse na sala ao lado onde se encontravam a Gleuza, o Sr. João e o Zinho, além de alguns policiais.
Já passava das oito horas da noite do domingo quando o Delegado adentrou a sala e disse que era preciso que todos fossem encaminhado à OBAN (Organização Bandeirantes), órgão do DOI-Codi que cuidava de atentados à Segurança Nacional e assalto a Banco naquela época, na grande maioria era para financiar principalmente os subversivos e terroristas, além daqueles que lutavam contra a ditadura militar.
Mais uma vez na minha inocência, disse ao Delegado:
- Doutor, acredito que eu e meu amigo Zinho não precisamos ir, pois já dissemos tudo que tínhamos a dizer.
O Delegado virou pra mim e disse:
- Como não precisam ir, vocês dois são os principais suspeitos do assalto.
Fomos colocados novamente em uma viatura da Polícia Civil e encaminhados até a Rua Tutóia, no Ibirapuera, onde ficava a Sede do DOI-Codi, a OBAN, centro do exército na Zona Sul de São Paulo e que era dirigido pelo General Brilhante Ustra. O local foi usado pelos militares na ditadura (1964-1985) para prender e torturar opositores do regime. O DOI-Codi de São Paulo fez centenas de vítimas (mortos e torturados), entre elas o jornalista Vladimir Herzog, assassinado no local em 1975.
Ao chegarmos ao portão de entrada, o motorista da viatura tocou três vezes a buzina e aguardou a abertura do portão. Atrás deste, ao se abrir, alguns policiais armados com fuzis e metralhadoras fizeram a escolta da entrada da viatura.
Fomos encaminhados para uma grande sala, o Sr. João, dono do Supermercado, a Gleuza, Tesoureira do Banco, eu e meu amigo Zinho, além de vários policiais. Todos se acomodaram, com exceção de alguns policiais, todos muito fortes, com músculos avantajados que chegavam a assustar pelos seus tamanhos e físicos que ficaram de pé atrás das nossas cadeiras.
Novamente foram feitas várias perguntas a todos os envolvidos no caso, tais como: como tinha acontecido o assalto, quanto tinha sido roubado, etc.
Depois de algum tempo, aquele que parecia ser o chefe deles, acho eu que era o General Ustra, disse aos fortíssimos policiais que se encontravam de pé estrategicamente colocados na sala:
- Cada um pega um e leva lá pra cima.
Aí eu pensei com meus botões: é agora. Vão nos torturar.
Ao subirmos uma escada, caímos em outra grande sala, onde pude vislumbrar alguns cavaletes de madeira, que eram usados para torturar com o famoso pau de arara, grandes holofotes, estranhas cadeiras e outros materiais usados para torturar os opositores do regime.
O policial que me acompanhou, levou-me para uma sala pequena, toda revestida com material que é usado para acústica em estúdios de emissoras de Rádio, com uma escrivaninha, uma cadeira de cada lado, em cima da mesa um gravador de rolo da marca AKAI e um microfone que foram ligados antes de iniciarem as perguntas. Ao sentarmos o policial me perguntou se eu aceitava um café, ao qual recusei. Pensei comigo, sei lá o que ele vai colocar neste café pra eu tomar.
Depois de ter recusado o café o policial começou o interrogatório. Outra vez as mesmas perguntas. Onde eu estava? Porque não tinha comparecido no horário combinado? Com quem eu estava? O que estava fazendo? Fui respondendo pergunta por pergunta. Disse que estava no apartamento com alguns amigos jogando baralho e que havia me esquecido do horário e que, quando lembrei, corri até ao Banco para me certificar se o depósito já havia sido feito ou não, e que ao chegar fui informado pela Gleuza que havia acontecido um assalto.
O policial do DOI-Codi repetiu a pergunta que o Delegado havia feito lá na quinta Delegacia:
- Me dê os nomes e apelidos das pessoas que moram com você.
Repeti:
- Moram comigo o Paulo Roberto Gonçalves, apelido Paulinho; Akikazo Igarashi, apelido Kinka; Luiz de Souza Martins Júnior, apelido Martins; Amado Leão Xavier, apelido Baiano; Luiz Marques Ramires, apelido Feijão e Felipe Alonso Bernal Salvador, apelido Zinho.
O policial me disse:
Porra, você mora com uma quadrilha, heim?
Em seguida ele pediu que eu aguardasse um pouco. Saiu da sala e retornou com dois enormes volumes que pareciam dois grandes livros, mas na verdade eram dois álbuns de fotografias de marginais. Botou os dois álbuns em minha frente e disse-me:
- Dê uma olhada nestas fotografias, vê se consegue encontrar alguns dos seus amigos entre os constantes destes álbuns.
Fui obrigado a folhear os dois álbuns e ao final disse ao policial que não reconhecia ninguém dentre as pessoas ali fotografadas.
Depois de muitas outras perguntas, fomos dispensados. Isso já passava da meia noite. O pessoal do DOI-Codi percebeu que eu e meu amigo não tínhamos nada a ver com o assalto.
Os amigos que moravam com a gente, bastante preocupados com a demora no retorno, saíram à nossa procura. Foram a Delegacias, Hospitais e nada de nos encontrar.
Na segunda-feira, logo pela manhã, ao chegar à agência do Banco Nacional, já se encontravam no prédio, três Auditores do Banco. Fomos chamados até a Gerência, a Gleuza e eu, para prestarmos esclarecimentos do fato ocorrido no dia anterior, e novamente começou a saraivada de perguntas. Onde eu estava, por que não compareci no horário combinado, etc. e tal. Tudo que eu já havia respondido na polícia e na OBAN (DOI-Codi).
Mas uma vez, como já havia acontecido na polícia e no DOI-Codi, os Auditores do Banco notaram que eu e meu amigo Zinho, nada tínhamos a ver com a história do roubo.
O tempo passou, continuei com meu emprego e meu cargo Banco.
A única coisa que sei é que quando terminou todo o pesadelo e eu acordei, foi cair a ficha e bater o medo que tive depois do acontecido.
Passado alguns anos, prestei concurso para ingresso no Banco do Brasil, onde tomei posse na cidade de Cascavel no Estado do Paraná. Depois de andar por várias cidades, ocupando os mais diversos cargos comissionados no Banco do Brasil, aposentei-me como Gerente de Agência no ano de 2002.
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