FIQUE A GOSTO
Andrade Jorge
Década de sessenta, bons tempos aqueles, lembro da minha adolescência, morava em Jundiaí, no bairro Barreira, pra ser mais exato na rua da Abolição, número 341, bem ao lado da linha dos trens da Cia Paulista de Estrada de Ferro, onde meu velho trabalhava, ele era o Porteiro na passagem de nível, atravessava a rua e já estava no serviço. Na época, eu fazia parte de uma turminha, a turma do time da Prudentina, depois virou a turma do Pelé, mais tarde turma do Barreirinha (mas o pessoal não deixava de falar que era a turma do Pelé). Antes de morar na rua da Abolição, morava na rua Prudente de Morais, numa casinha de fundos, na casa da frente morava o amigo Jesualdo (Jeso). Esse tempo, era tempo de alegria, nossas brincadeiras na esquina da rua Prudente com a Benjamim, não havia os perigos nas ruas como hoje, não tinha o risco de assaltos, mas, também, era todo mundo duro, nosso traje: calção (tinha uns que usava o famoso \\\"carção, que a mãe fazia do pano do saco de trigo), camiseta, chinelo de dedo (havaiana), ou descalço, que era mais comum, hoje o moleque anda de celular na mão, tênis da hora, boné de marca, aí os nóias aproveitam.
Eu tinha uma irmã, morena trigueira, bonita, alta, ela passava na rua os homens mexiam mesmo, e era um tal de “psiu”, “fiu, fiu”, “você é linda”, “quer namorar comigo” Eu levaria você para casa.\\\", “boneca”, e por aí vai. Ela era mais velha do que eu, seis anos, nessa época, não gostava de andar muito com ela na rua, justamente por causa dessas cantadas. Convém explicar, que nós éramos, digo éramos porque ela já nos deixou, irmãos por parte de mãe (dona Alice), o pai dela faleceu, e anos depois a mãe casou com meu pai, que pôr uma dessas coincidência da vida, tinha o mesmo nome que o pai dela Benedito. Então, do primeiro casamento minha mãe teve dois filhos Ademilde (irmã) e Cidão (irmão que morava com minha avó na cidade de Nova...
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Andrade Jorge
Década de sessenta, bons tempos aqueles, lembro da minha adolescência, morava em Jundiaí, no bairro Barreira, pra ser mais exato na rua da Abolição, número 341, bem ao lado da linha dos trens da Cia Paulista de Estrada de Ferro, onde meu velho trabalhava, ele era o Porteiro na passagem de nível, atravessava a rua e já estava no serviço. Na época, eu fazia parte de uma turminha, a turma do time da Prudentina, depois virou a turma do Pelé, mais tarde turma do Barreirinha (mas o pessoal não deixava de falar que era a turma do Pelé). Antes de morar na rua da Abolição, morava na rua Prudente de Morais, numa casinha de fundos, na casa da frente morava o amigo Jesualdo (Jeso). Esse tempo, era tempo de alegria, nossas brincadeiras na esquina da rua Prudente com a Benjamim, não havia os perigos nas ruas como hoje, não tinha o risco de assaltos, mas, também, era todo mundo duro, nosso traje: calção (tinha uns que usava o famoso \\\"carção, que a mãe fazia do pano do saco de trigo), camiseta, chinelo de dedo (havaiana), ou descalço, que era mais comum, hoje o moleque anda de celular na mão, tênis da hora, boné de marca, aí os nóias aproveitam.
Eu tinha uma irmã, morena trigueira, bonita, alta, ela passava na rua os homens mexiam mesmo, e era um tal de “psiu”, “fiu, fiu”, “você é linda”, “quer namorar comigo” Eu levaria você para casa.\\\", “boneca”, e por aí vai. Ela era mais velha do que eu, seis anos, nessa época, não gostava de andar muito com ela na rua, justamente por causa dessas cantadas. Convém explicar, que nós éramos, digo éramos porque ela já nos deixou, irmãos por parte de mãe (dona Alice), o pai dela faleceu, e anos depois a mãe casou com meu pai, que pôr uma dessas coincidência da vida, tinha o mesmo nome que o pai dela Benedito. Então, do primeiro casamento minha mãe teve dois filhos Ademilde (irmã) e Cidão (irmão que morava com minha avó na cidade de Nova Odessa), do segundo casamento eu era o único, o caçula (ser caçula tem suas vantagens, quando ia numa loja comprar roupas, primeiro para quem? claro para o menininho da mamãe), ela me chamava de neguinho, fui crescendo virou Nego, depois a molecada da turma ou da escola, zuaram e arranjaram um monte de apelidos, era Índio, Charuto, e apelido só pega quando você estrila, e na escola vieram com Corvo, eu estrilei. Pronto! pegou.
Quando uns amigos iam me chamar em casa pelo apelido de Corvo, nossa! a velha Alice metia a boca, dizia ela \\\"aqui não tem corvo nenhum, ta pensando o que?\\\" Eles pediam desculpas, e tudo bem. Chamar de Nego ela tolerava, afinal foi ela mesma que colocou.
Mas, eu dizia dos meus irmãos, e a Ademilde (que recebeu o apelido de Mide) quando moça, era espeta (não no mau sentido), gostava de se arrumar, sair com amigas, eu estava com onze ou doze anos, e quando ela saia de casa para encontrar com amigas, minha mãe cismada, falava para segui-la, e la ia eu de “Agente Secreto”.
Da CIA KGB? Não! era da ADA (Agência Dona Alice). Na volta dona Alice queria relatório. Entretanto, tenho que confessar, essa perigosa profissão de “Agente Secreto”, que no meu caso era “Cagoete” mesmo, tremendo X-9, mas, como negar o serviço, quando o Chefe é sua mãe? Então eu ia. Sinceramente, eu não levava o menor jeito para esse negócio de perseguição, porque você tem que ter as técnicas de seguir de longe, e saber não ser visto, eu fazia tudo errado, seguia de perto, e meu cabeção estava sempre descoberto. Claro, antes de chegar onde ela ia, já tinha me visto, mas ela continuava como se não soubesse. Ela pra judiar de mim, andava, andava, andava, caramba me deixava todo estropiado de cansado, às vezes ela entrava numa Igreja, oportunidade para descansar. Certa feita demorou muito, entrei na Igreja para conferir, aí eu percebi que tinha uma saída lateral.... Retornei à base (casa) e meu relatório: “Ela foi na missa”.
O tempo passou, minha irmã acabou arranjando um namorado, ele tinha uma lambreta, e quem tinha uma lambreta na época, era filho de papai, riquinho, play boy. E de fato o rapaz era de uma família conceituada na cidade, anos depois um tio dele chegou a ser Prefeito de Jundiaí, ela apresentou o jovem aos meus pais, e ele seguiu o protocolo da época, pediu autorização para namorar, e inclusive visita-la em casa, que era um sinal de boas intenções, comparecia toda quarta-feira, e aos sábados e domingos. O namoro era na sala de estar (também só tinha uma sala mesmo), os dois sentados no sofá, às vezes às oito e meia da noite, o rapaz começava a se despedir pra ir embora, porque namorar com o pai ou mãe da namorada sentada na sala também, devia ser um saco, só podia dar uns amassos, quando ela o acompanhava ao portão, então meu pai dizia
─ É cedo, fique a gosto.
Ele agradecia, mas ia embora mesmo, então, minha mãe pra arreliar meu pai, dizia: Di (como ela chamava o pai)
─ Nós estamos em maio, quer dizer que o rapaz pode ficar até agosto?
E caia na risada, e o velho Didi vendo que não tinha saída, não perdia a pose, caia no riso também, era uma “risadaria” só.
Era um tempo bom... e só para registrar a Mide não casou com o rapaz da lambreta.
- FIM
2ª HISTÓRIA
CIDÃO
Por Andrade Jorge
Na roda dos amigos comuns, se eu apresentar o nome Aparecido Andrade Mario, provavelmente ninguém vai dizer quem é, mas se eu falar Cidão, aí é festa, cada um tem uma estória.
Cidão foi meu irmão, meu herói, já não está entre nós.
A minha saudosa mãe, dona Alice, foi casada duas vezes, o primeiro casamento foi com Benedito Mario, em Campinas, nasceram Ademilde Andrade Mario e Aparecido Andrade Mario, tempos depois o marido dela veio a falecer, e dona Alice ficou viúva nova ainda. O tempo passou, a vida continuou, minha mãe trabalhava num Hotel como cozinheira em Campinas, o meu irmão foi morar em Nova Odessa com a Vó Lídia. Minha irmã ficou com ela.
Sobre o Hotel, certa ocasião, eu já adulto, ela nos contou que a cozinha do hotel já havia encerrado a atividade, quando entrou um cliente, e queria comer pimentão recheado com carne moída. O garçom levou o pedido pra cozinha, para as providencias, tratava-se de um pedido simples, se a cozinha tivesse o dito pimentão, o que fazer? uma das cozinheiras (acho mesmo que foi minha mãe) lembrou que jogaram alguns pimentões no latão do lixo da cozinha, não tiveram dúvidas reviraram, e acharam alguns pimentões, pegaram o de melhor estado, e a água lava tudo, e o pimentão recheado foi delicioso para a mesa do cliente.
Continuando, Dona Alice conheceu uma família em Jundiaí, e meu pai “Seo” Didi (apelido do pai), era amigo desse pessoal, e certo dia convidaram minha mãe para almoçar lá num domingo, e conheceu meu pai (acho mesmo que isso foi arranjado). Algum tempo depois se casaram, pôr ironia do destino também se chamava Benedito, então, ela enviuvou do Benedito Mario e casou com o Benedito Jorge (mas esse nome também tem estória), só pra situar. Um ano depois eu nasci, e ela me apelidou de Neguinho. Então, eu tinha dois irmãos por parte de mãe, Ademilde, que apelidaram de Mide, e Aparecido, que virou Cido e com o tempo Cidão, porque ele espichou muito. Ela deixou o Hotel em Campinas, e foi morar com meu pai em Jundiaí, minha irmã junto, mas o menino Aparecido, preferiu continuar morando com a Vó em Nova Odessa. E vida que segue. Meus pais estavam sempre visitando o menino na casa da Vó Lídia, eu não lembro esse período, porque era nenê de colo. A partir dos 5/6 anos já tenho lembrança do Cidão, meu irmão gigante.
Tempo que passa, minha mãe ficou doente do pulmão e foi internada em Campos do Jordão, meu pai não tinha condições de cuidar de mim e minha irmã, porque trabalhava o dia todo, então, ela foi morar em Santos com uma tia de nome Ondina, e eu em Nova Odessa, com um tio Dito. Aí que conheci de fato o meu irmão Cidão.
Meu tio tinha uma carroça que era puxada pelo Jau, um burro amarronzado, ele fazia carretos com a carroça, transportando pequenas peças pela cidade, com o tempo o tio deu essa incumbência ao meu irmão Cidão, e eu ficava feliz quando ele me chamava para ir junto fazer um carreto. Andar de carroça era um barato.
Certa ocasião, meu irmão pegou um serviço que era levar umas peças de sanitário de louça de uma vila para outra longe do centro, inclusive tinha que cruzar as linhas do trem da Cia. Paulista (naquela época havia trens para todo interior paulista), numa passagem de nível, meu irmão me chamou, e mais que depressa já estava sentado na boleia da carroça. Ajudei conforme minhas forças permitia, no carregamento das peças na carroça com todo cuidado, e o Cidão guiando o burro, e seguia incentivando o animal
─ “ooô Jaú vamô!”
com rédea curta pra ir devagar. Chegamos na tal passagem de nível dos trilhos do trem da Paulista, estávamos bem no meio dos trilhos, quando um arreio do varão da carroça arrebentou; imediatamente meu irmão freou o Jau pelo bridão, que estancou no lugar. Carroça, eu, Cidão, Jaú, carga, tudo em cima do trilho, o irmão pulou da carroça para fazer uma avaliação da avaria. Primeira coisa a fazer, descarregar as peças do sanitário, depois tirar o arreio do Jau e consertar. Meu irmão foi rápido, e já estávamos na fase de recarregar as peças do sanitário, quando ouvimos um apito alerta da máquina do trem de carga, que seguia para alto interior. Fiquei segurando a corda do Jaú e o Cidão acelerando na arrumação da carga, mas com cuidado pois tratava-se de louça. Já estávamos avistando o trem, o Cidão apavorado, e eu numa fase acima do apavorado, mas não abandonei meu posto. O Maquinista do trem apitando freneticamente, ao mesmo tempo tentando diminuir a velocidade; até que o irmão pulou na boleia da carroça, segurou as rédeas e “Vai Jau”, “Vai Jaú”, nessa hora foi preciso contar com a extrema boa vontade do burro, porque do nada ele poderia empacar, aí seria uma tragédia. mas, o Jaú entendeu a situação e movimentou-se, puxando a carroça com cuidado, para não quebrar nada. Ufa! O Cidão e o Jaú conseguiram! Eu já estava do outro lado dos trilhos só aguardando, o trem, não demorou, e a máquina passou bufando fumaça pra todo lado, e o maquinista com a cara de poucos amigos, e o olho arreganhado.
Entregamos a carga, tudo nos conformes, nada quebrado, nem trincado. Depois rimos muito do acontecido.
O tempo passou, cresci, o Cidão continuou lá com a Vó, e cada vez mais conhecido na cidade.
Ele gostava de jogar futebol, e com aquela estatura foi ser goleiro, e dos bons, tempos mais tarde chegamos a jogar juntos, mas em matéria de esporte tem uma passagem engraçada, eu morando em Jundiaí também jogava futebol de campo e futebol de salão, e o irmão arranjou um jogo do nosso time de salão contra um clube Lítero de Nova Odessa. Eu devia ter 16/17 anos. Viajamos de trem, saindo a 8 horas, duas horas depois estávamos na cidade para o jogo. O clube ficava pertinho da estação ferroviária,
La estava o Cidão para nos recepcionar. O clube estava lotado para assistir aquela porfia intermunicipal, havia, inclusive, muitas garotas no público. Nosso time Carlos goleiro, os dois alas eu e Alemão, ataque Beto e Tição (Jamil). Eu e Alemão, era bola ou “balim”, se passasse por mim vinha o Alemão e arregaçava, e era só vaia, acontece que o Beto era o bonitinho do time, quando ele pegava na bola as meninas aplaudiam, e gritavam “lindo” “lindo”, mas se fosse eu ou Alemão era vaia “uuuuuuuu” “ feio, feio”. O jogo foi transcorrendo assim. Naquela época eu usava barba, terminou o primeiro tempo, estava se dirigindo ao nosso vestiário, escutei alguém que vinha atrás de mim dizendo:
─ “’vamô’ fazer essa barba no dente”, deixa terminar o jogo.
De repente quem chegou ao lado do cara que queria fazer minha barba? Sim o Cidão, e o cara vira para ele diz
─ Não é isso “memo” Cidão? “Vamô” fazer a barba desse “preiboi” no dente, vem em nossa cidade, e acha que é o ‘bão’.
Eu continuei andando, mas fiquei aliviado quando ouvi o cara dizer o nome Cidão, e escutei o mano dizer:
─ Você sabe quem é o cara que você quer fazer a barba no dente?
─ Ô Cidão sei la, nem quero saber
─ Esse cara aí é meu irmão! Vai lá fazer a barba dele, vai!
─ Ô Cidão ‘descurpa’ aí era brincadeira, seu irmão joga bem hein! e saiu vazado.
Houveram outras situações que ele me salvou e também os amigos de Jundiaí.
Cidão o Rei de Nova Odessa, fez muitas peripécias, muitas boas, outras nem tanto, mas seguiu a vida, casou, teve uma filha, separou da mulher, voltou anos mais tarde, e ao lado dela e filha (Benê e Maria Alice), morando em Sumaré, encerrou a vida de aventuras, e como dizia nossa mãe “sossegou o pito”. Faz alguns anos que ele partiu para a vida eterna.
Para contar toda trajetória de Cidão, é preciso sentar porque é filme de longa metragem, ora você vai rir, ora chorar. Até breve irmão.
FIM
3ª HISTÓRIA
BENEDITO JORGE (SAUDADE)
Andrade Jorge
São Paulo, 26 de maio de 1986, era um domingo, manhã com aquele friozinho do outono nos seus dias finais, o sol dando as caras timidamente, a família Andrade Jorge reunida na casa da minha irmã Ademilde (+) pois o nosso patriarca Benedito Jorge, ferroviário aposentado, corintiano, jogador de truco, apreciador de um trago, íntegro, honestíssimo, homem que podemos chamar de “boa gente”, estava enfermo, sem forças para sair de seu leito. Entre 9 e 10 horas o velho Didi, seu apelido carinhoso, sentiu-se mal, respirava com muita dificuldade, meu irmão Cidão (+) rapidamente carregou-o em seus braços até o carro e seguimos para o hospital do Tatuapé. Deu a entrada e o colocaram numa maca no corredor do pronto socorro, e ali ficou o resto da manhã apenas com um soro, a tarde se acabando, não aguentei o descaso, reclamamos com o médico do plantão, e ele simplesmente disse que estava medicado, só isso. Solicitei, então, liberá-lo, pois iria colocá-lo num apartamento particular, não tinha convênio, para um melhor acompanhamento, o médico me fez assinar um termo de responsabilidade. Subiram o velho pelo elevador, e o colocaram na cama do dito apartamento, ele queria ir ao banheiro, apoiou-se em mim e fomos, ainda brinquei “abrir a braguilha tudo bem, mas não vou pegar na sua pingola” ele riu baixinho, voltando pra cama disse pra ficar bom logo porque a copa do mundo de 1986 iria iniciar no dia 31, há cinco dias, portanto. Ele olhou-me com ar denotando certa tristeza e disse “não sei não fio”. Respondi de pronto – que isso pai, vamos assistir juntos! Ajeitei ele na cama e fui assinar os papéis da internação. Nestes momentos você assina o que colocar à sua frente. Estava no meio das papeladas quando surge minha irmã – “vem logo que o pai não ta bom” larguei tudo e fui, entrei no quarto correndo, ele na cama, com os olhos semicerrados, passei a mão naqueles cabelos brancos como a neve, falei “pai, pai, sou eu!” Ele abriu os olhos e disse baixinho “eu sei”. Nisso entrou a tropa dos salvadores da pátria, liderados por aquele medico do plantão do pronto socorro, tirou-nos do quarto e iniciaram os primeiros procedimentos, vi quando o levaram para a UTI.
Ficamos sentados na sala de espera uma infinidade de tempo, quando aquele medico passou por nós, minha irmã disse – “aí doutor foi negligência ou não foi?” ele ouviu e voltou e com o dedo em riste falou “escuta aqui minha senhora”, não completou a frase porque levantei-me da cadeira pronto para partir pra ignorância, nestas horas você fica cego. Meu irmão, era maior e mais forte que eu, segurou-me e disse sensatamente “não faça isso, você vai perder a razão”. O Médico virou no pé e sumiu, não sem antes eu dizer que iria representar contra ele no CRM. O pessoal da recepção orientou-nos a ir embora, pois qualquer novidade avisaria por telefone.
Na madrugada do dia 27 telefonaram pra dizer que Benedito Jorge, o “seo” Didi, Porteiro da passagem de nível das linhas de trem da Cia. Paulista de Estradas de Ferro em Jundiaí, partira para eternidade. Até breve pai!
Ainda naquela madrugada um tio veio avisar minha mãe, que um irmão dela também falecera em outro hospital em São Paulo.
27/05/2022
N.A. Meu pai, na Companhia Paulista de Estrada de Ferro, foi registrado como “Benedicto Jorge 1º”.
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25/01/2022
20/08/2024
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Autor Andrade Jorge, Poeta/Escritor, Membro da Academia Nacional de Letras do Portal do Poeta Brasileiro e Academia Saltense de Letras, e irmão caçula do Cidão.
4ª HISTÓRIA
E AÍ COROA?
Por Andrade Jorge
Já cantava Almir que “ando devagar porque já tive pressa ...” essa música faz refletir o nosso proceder, a caminhada até os dias de hoje, penso que a pressa foi própria da inexperiência, da juventude conquistadora, andei sem tempo, atravessei rios e mares sem saber nadar, fui levado pela correnteza, não sabia de porto seguro para parar. Muitas vezes consegue-se um tudo do nada, edifica-se no vento, derrama suor alicerceando em terreno arenoso, é o mundo em ebulição, a cabeça no frescor da manhã com mil, planos. A juventude espiritual e corporal fornece a base para o tudo posso, na vontade e a gana do progresso material, mas o tempo galopando nas vinte oito mil e oitocentas piscadas que piscamos por dia, sem perceber, por isso que se diz “num piscar de olho acontece muita coisa” e muita coisa fica para trás. A pressa em ser e ter, muitas vezes não carrega a base, que sustentará os passos vida afora, muitos dizem, quando jovens estamos carregando a reserva de experiência e conhecimento para o futuro, mas a velocidade desse mundo frenético, é impiedoso. Mudanças a todo instante, ontem datilografava numa máquina oliveti ou remington manual, depois a elétrica, um avanço de tecnologia, e dá-lhe “asdfg, asdfg”, hoje digitamos num teclado sofisticado, a letra surge numa televisão, que chamamos de monitor, tudo aconteceu num “piscar de zoio”, agora digitamos num computador de mão, o celular.
Cantava Rauzito: “tudo isso acontecendo eu aqui na praça dando milho aos pombos (Zé Geraldo)” acho que eu estava la na praça sentado também, só não vi o Seixas, o fato é que ao sentar na praça pisquei tanto na vida, que a velhice girou na velocidade dos 1600 km por hora, que gira o nosso planeta. Nesse giro cadê o aludido conhecimento? Esperam dos meus cabelos brancos profundas elucubrações, não tenho soluções para as teorias, também espero muitas explicações, que os outros acham que eu as tenho. A minha cabeça esteve muito ocupada em viver, e pensava, que quando a velhice chegasse muita razão e sabedoria estariam acumuladas, e, na matéria do amor seria o mestre. Ela chegou, e sinto que meus conhecimentos são insuficientes, acho que ainda sou aquele menino passarinho que o Vieira falou. A idade não dá o título de Doutor Vida.
Que mundo é esse? Ninguém dança mais de rosto colado! Zanzei tanto, que o único título que ganhei é o de ser “coroa! pelo menos é o que a molecada diz “E aí coroa?”. Um dia outro jovem falará para esse, a mesma coisa ”e aí coroa?”
É a vida que anda, “e o tempo não para “(Cazuza).
5ª HISTÓRIA
DONA ALICE
Este ano a comemoração do dia das Mães será diferente, menos comercial mais afetivo, não se verá aquele bando de gente correndo para os shoppings da vida, em busca de um presente, normalmente de última hora. Mas, não é o presente comprado, embrulhado em papel bonito, que ela quer, elas querem somente, de seus filhos, a lembrança que existem durante o ano inteiro. Digo isso, mas, também, comprei presentes para minha mãe de última hora, quando ela era viva.
Infelizmente, Dona Alice Andrade Jorge não se encontra mais fisicamente entre nós, já faz um bom tempo, não sei a data, sei a data de quando ela estreou na vida, 26 de junho de 1918, essa data foi a mais importante, porque nasceu a “minha Mãe”.”
Ao falar dela quero homenagear todas as mães do mundo, porque essas mulheres somente mudam de endereço, e nacionalidade, porque a essência materna é a mesma, aqui ou no Nepal. No reino animal, também, observamos o desvelo e o carinho instintivo, que as fêmeas cuidam de suas crias, como relatam, desde o princípio dos tempos.
Quero contar algumas passagens da minha criação, onde a sabedoria da dona Alice foi preponderante no alicerçamento, na base da personalidade do menino, que inexoravelmente se tornaria um adulto.
Já escrevi uma crônica, cujo título é “A Tabua”, mas resumidamente contarei. Eu tinha uns dez anos, mais ou menos, morávamos numa casinha de fundos, e o menino que morava na casa da frente era meu amigo desde nascimento, ele nasceu apenas três meses antes; pois bem, brincávamos todos os dias no quintal, que era grande, mas a minha mãe, deixava brincar um pouco na rua, também, com os outros amiguinhos, e certo dia chegamos com uma tábua no quintal, eu na frente segurando uma ponta e o amigo atrás segurando a outra ponta. Minha mãe, da janela da nossa casa, viu aquela cena, e imediatamente chegou em nós, e perguntou pra mim, que era seu filho
─ Pode me dizer de onde é essa tábua? Respondi de imediato
─ Ah mãe! ganhamos do pedreiro, ali da construção na rua que desce. (referia-me a rua Benjamin Constant).
─ Ganharam é? Então pega a tábua e vamos lá falar com o pedreiro. Ficamos gelados.
E lá fomos nós, eu segurando a ponta da frente, e o amigo a ponta de trás, e minha mãe seguindo.
Chegamos na obra, e ela mandou bater palma pra chamar o pedreiro, o homem veio,
─ Boa tarde moço, o senhor deu essa tábua para essas crianças? O pedreiro olhou para nossas carinhas de anjos arrependidos, e disse que nem tinha visto, mas era tábua velha, não ia ser usada mesmo, podia ficar com eles.
Com olhar severo, ela mandou devolver, e pedir desculpas ao homem, por pegar coisa que não era nossa; assim fizemos. Ela não encostou um dedo em mim, provavelmente me deu um castigo, mas não lembro, só lembro da vergonha.
Outro caso marcante na minha memória, a minha idade girava em torno de onze, doze anos, fui com minha madrinha, acompanha-la à noite entregar roupa, que ela passava pra fora. Junto com meu amigo (o mesmo da tábua) e o irmão dele, que era mais velho que nós. Na volta desviamos o caminho da madrinha, mãe deles, e ao passar por um clube no centro da cidade, vimos um portão lateral aberto, entramos para dar uma espiada, o clube era dos ricos da cidade. Perto do portão tinha muitas garrafas vazias, que o irmão do meu amigo começou a pegar e nos incentivou a pegar algumas também, dizia ele para vender no ferro velho. Seguimos pra casa com aquelas garrafas, numa praça fomos abordados por um homem, que dizia ser Comissário de Menores, sem a presença de um adulto, a madrinha tinha voltado por outro caminho, e com aquelas garrafas na mão, ele quis saber de onde era.
Um disse, achamos ali no mato, o outro, foi a avó que deu, pronto, a casa caiu. Eu e meu amigo saímos em desabalada carreira, enquanto o irmão dele ficou lá se explicando. Algum tempo depois, ele apareceu branco, amarelo, azul. Disse que tinha despistado o homem. Eu já não morava mais na casinha dos fundos, portanto, tinha que sair e ir para minha casa, duas ruas abaixo. Esperei um pouco, e fui. Não vi ninguém na rua. Cheguei em casa esbaforido, minha mãe nada disse, porque sabia onde eu estava. Deitei.
Não passou cinco minutos, ouço palmas no portão da nossa casa, a pessoa entrou e bateu na porta da sala. Era ele, o Comissário de Menores. Cumprimentos de praxe, e perguntou se ali morava um menino moreninho, e descreveu até como estava trajado, minha mãe disse é meu filho. Ela me chamava de Nego.
─ Nego, venha cá.
É esse menino? Ele disse que sim, e explicou os fatos. Inclusive, que estava junto com outro mais velho. O homem agradeceu atenção e foi embora.
Meu pai levantou-se da cama, pensei, agora a porca torce o rabo.
O olhar de minha mãe era de muita frustração, não bateu em mim, nem meu pai, levei uma reprimenda severa.
O terceiro caso, eu tinha treze para catorze anos, graças à minha irmã, fui trabalhar como office boy no escritório de uma advogada, no centro da cidade, o dinheiro que recebia no final do mês, entregava para a mãe, certo dia, fora da época de pagamento, apareci em casa com um saquinho de papel com ameixas pretas, que eu gostava muito, e que havia comprado num armazém perto do escritório. Minha mãe já perguntou o que era, e com qual dinheiro comprei aquilo. Informei que havia ganho uma gorjeta da advogada, então, passei no armazém e comprei. Ela nada disse.
No dia seguinte, saindo para ir ao escritório, ela toda arrumada diz que ia comigo. E foi.
Chegando ao escritório, foi logo perguntando à advogada se ela havia dado algum dinheiro para mim, a doutora confirmou, e minha mãe, ainda disse ─ ─ Eu sabia, mas queria ter certeza mesmo. E foi embora.
Estes três caso, para explicar a sabedoria da dona Alice, hoje tenho setenta anos, e estou contando fatos que se passaram há sessenta anos, talvez se ela tivesse dado uma boa surra, no primeiro e segundo caso, não estaria contando essas passagens hoje, porque certamente teria esquecido. Mas, lição de moral não se esquece.
A forma que ela encontrou para ensinar ao filho dela o conceito de honestidade, e o discernimento para os caminhos do bem, empiricamente, porque não era tão letrada assim, não possuía título de faculdade, mas possuía o doutorado da universidade da vida, e posso dizer mãe querida, a sua sabedoria fez de mim um Homem. Ensinou-me o refinamento da educação familiar, para saber entrar e sair de qualquer lugar, para se comportar perante os mais velhos, para respeitar tios, tias, avos, se ainda fossem vivos estaria pedindo benção; direcionou-me a ter o sustento espiritual nas missas, nas catequeses, na primeira comunhão, na crisma. Ensinou-me a conhecer a Palavra, para estar pronto a escolher a ramificação que bem desejasse.
Mas, não pensem que dona Alice era tão maleável assim, quando precisava dar uns “catiripapos” por coisa de moleque, ela soltava o que tinha na mão. Uma vez correu atrás de mim no quintal, e lá nos fundos havia um pé de mangueira, subi no último galho, ela arranjou um bambu e tentava me “chuchar”, sorte que o bambu era pequeno.
Ao escrever este texto, mãe, lembrei-me que nunca em minha vida, até hoje, escrevi uma poesia pra você, a não ser aquela que você pediu para apresentar no dia das mães, na Igreja que frequentava, era Brasil para Cristo, eu escrevi, fui e apresentei lá perante a igreja. Mas esse texto foi perdido na estrada da vida. Fico imaginando seu orgulho enquanto eu lia à frente dos fiéis. Eu tinha quatorze anos. Por falar em escrever poesias, um dom que herdei, mas não sabia como e nem porquê, quando já adulto dona Alice numa conversa, que lembrava fatos passados, contou-me que quando colocava-me para dormir era comum ler umas estorinhas da revista Luluzinha e Bolinha, que ela ganhava de amigas, acontece que em muitas oportunidades terminava a revista e eu ainda estava acordado, e eu pedia mais estorinhas, ela pacientemente abria a revista novamente, e lia uma nova estória que não existia, ela inventava! Naquele dia entendi de quem recebi o dom de escrever poesias e contos. Ah! Mãezinha até isso você me deu...
Hoje escrevo, como se fosse a primeira poesia, só pra você.
08/05/2021
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Mãe, estes dias aqui estão sendo de muita provação, a humanidade está reaprendendo ser humana, se o flagelo espreita, a natureza está mais bela. Espero que você goste e entenda, claro que vai entender, o sentido do meu verso.
Você é Regina mãe, que veio ao mundo como
ALICE (SAUDADE)
As palavras são diminutas para expressar,
um oceano é pouco, talvez um universo,
um infinito pra não se acabar
mas é pouco pra dizer seu nome num verso.
O homem deixara pai e mãe, diz a Sagrada Escritura,
Porque assim a filha será mãe, e o filho a continuidade da raiz,
Mas a doação do bem maior, vem dessa criatura,
Que doa a vida num sopro, mesmo com as forças por um triz.
Mãe! Perdoa-me pelo bem que deixei de fazer,
Ainda me falta refúgio, o abrigo de seus braços,
Ainda sou aquele menino querendo voar
E cruzar esse céu, para aquecer-me com teus abraços.
Benção Mãe, do Seu filho, Nego, Neguinho, Andrade Jorge
Ah! Fala pro pai, e a todos, que pedi a benção.
09/05/2020
6ª HISTÓRIA
NOSSO CINEMA
Estávamos na década de sessenta, e a faixa de idade da turminha não variava muito, todos entre 12 a 14 anos, nosso bairro era próximo ao centro da cidade, mas naquela época parecia muito longe, um dos passatempos preferido da molecada era assistir o seriado “Capitão 7” no canal Sete, o problema era ninguém tinha aparelho de televisão, então o negócio era assistir no bar do Seo Zezinho, mas ele não gostava muito porque os moleques não compravam nada, a turma também ia no Cine Ideal as terças-feira assistir outro seriado, lá se fizesse bagunça durante o filme o lanterninha tirava os moleques e aplicava uma suspensão, tipo ficar impedido de entrar no cinema por um período. Uma vez saiu a turma toda no meio do filme, eu no meio.
Entre os nossos amigos havia o Benedito, que a turma chamava de Dito, na verdade ele estava mais para um conhecido do que participante da nossa turma; o Dito não jogava bola, não participava das nossas brincadeiras diárias na esquininha (esquina da rua Prudente de Morais com a Benjamin Constant), na verdade nem sabíamos direito qual a casa que o Dito morava, mas tinha uma coisa que ele era craque: desenho ─ ele era um artista. Certo dia numa reunião das lideranças do nosso grupo, eu no meio, alguém falou que o Dito era muito inteligente, e que sabia como fazer um filme de cinema caseiro, convocamos o dito cujo (não aguentei o trocadilho) para uma reunião, e ele confirmou e disse como seria. O enredo do filme seria dele, e também faria a sequência, desenhada em rolo de papel manteiga, também conhecido por papel vegetal, com tinta nanquim. Material necessário, além do rolinho de papel manteiga, uma caixa de sapato, uma lente, uma lâmpada com o bocal e fio para ligar na tomada, dois suportes para a fita do filme. Na parte da frente da caixa de sapato haveria uma abertura em círculo, onde era colocado a lente de aumento, no meio da caixa uma abertura dos dois lados, onde o rolo do filme rodaria de um lado para outro, na parte de traz outra abertura em formato de círculo onde seria colocado o bocal da lâmpada a qual seria ligada na tomada 110 volts. A luz da lâmpada iluminava o rolo de desenho que era refletido na lente de aumento e projetava os desenhos numa parede branca. Assim, o Dito era o professor Pardal, o Diretor, o projetista, era o tudo, a nós cabia encontrar um local perfeito, com espaço para a molecada sentar e assistir o filme. Mas, para entrar no salãozinho e assistir o filme, tinha que pagar ingresso, afinal tínhamos que cobrir as despesas de produção, e ainda sobrar uns trocados para a divisão entre aqueles que tiveram a ideia, eu no meio, e o artista que era o Dito. As sessões passaram a ser bem divulgadas entre a molecada, até assistentes de outros bairros compareciam para os filmes sessão livre. Com o tempo alguém teve a ideia de fazer filmes mais picantes, tipo aqueles proibidos, filme pornô mesmo, consultamos o diretor Dito, ele concordou e passou a produzir filmes desse naipe. Claro o ingresso aumentou de preço, a frequência também, então, aumentamos para duas sessões, notamos que caberia um serviço de bar, para quem esperava a próxima sessão, era pirulito, limonada, paçoquinha, lucro certo. Tudo corria bem, até o dia que o pai do menino que cedia um quartinho para as sessões cinematográficas, resolveu aparecer sem prévio aviso, justo no dia da sessão pornô. A nossa indústria cinematográfica terminou naquele fatídico dia, a sala de projeção foi interditada, o amigo levou uns pescoções do pai, e la se foi a caixa de sapato, lente, lâmpada, rolo de filmes, tudo confiscado pela censura, sofremos grande prejuízo, o fato que inviabilizou a vontade de reabrirmos o cine em outro lugar, mesmo porque todos os pais e mamães ficaram sabendo do ocorrido.
Foi bom e lucrativo enquanto durou. O Dito, Produtor, Diretor, depois disso sumiu do mapa.
Início 07/10/23 - Término22/11/23
7ª HISTÓRIA
O DIA QUE DORMI NO PONTO
Dizem que quem dorme no ponto é motorista de taxi, pode ser, mas não são os únicos, existem outras situações também.
Depois que tirei meu cartão de idoso ando de graça nos ônibus, trem, metrô, e acho mesmo que deveria ter gratuidade até em viagens aéreas, ou pelo menos desconto. Nessa hora o idoso sente um orgulho, é como se fosse uma autoridade dando uma “carteirada”, passa e não paga nada. Entramos no veículo e tem até assento prioritário, se bem que sempre tem uns engraçadinhos mais novos que sentam e fingem que estão dormindo, mas, comigo o espertinho se dá mal, porque eu “acordo” o cidadão, e solicito o assento.
Locomovendo nesses veículos públicos de massa, buzão do Zé povinho mesmo, metrô, ou o trem cata louco, isso mesmo porque pra andar nesses trens de sampa tem que ser doido, então, noto que muitas pessoas dormem durante o trajeto, claro estão cansadas do trampo ou da balada, sei lá, mas o fato é que acordam exatamente na estação ou parada que vai descer. Não sei como, mas acordam. Parece que é uma máquina programada, que calcula distância, duração, e tempo de parada durante o percurso. Eu não consigo, só durmo mesmo se for viajar de uma cidade para outra, porque quando chegar à rodoviária do destino, se estiver dormindo o “motor” acorda a gente.
Mas, em coletivo urbano dormi duas vezes , a primeira quando morava em Jundiaí, trabalhava em São Paulo, e numa sexta-feira voltei de trem (os trens ainda circulavam pelo interior), cheguei à Estação Ferroviária, peguei o ônibus, que iria para o bairro que eu morava, pois passava no centro da cidade, onde eu desceria, porque iria num jantar dançante, mas, cochilei, e fui parar no ponto final, ou seja, no bairro onde morava. Voltei com o mesmo ônibus na mesma intenção, ou seja, descer no centro da cidade. Novamente cochilei, e acordei de onde sai, na Estação Ferroviária. Provavelmente fui alvo de gozação na roda dos cobradores e motoristas. Resolvi, então, ir a pé da estação ferroviária até o centro da cidade, para ter certeza que não cochilaria.
A segunda vez aconteceu quando morava na cidade de Porto Alegre/RS, após o trabalho fui a um happy hour, o bate papo estava “tava bão tche”, que a hora passou num piscar “d’oio”, liguei para casa avisando que chegaria mais tarde, pois estava conversando com um amigo comum ao casal, e que fazia tempo que não o encontrava. Em Porto Alegre, após a meia noite, os ônibus ainda continuam circulando, mas, somente de hora em hora. Na roda de amigos é aquela coisa, você olha no relógio e diz – está na minha hora – aí os amigos dizem: saideira então! E o papo continua a rolar, você volta a olhar o relógio, e avisa: “Xiii perdi a hora do ônibus de novo!! “. Novamente os amigos, principalmente os solteiros, mandam a famosa saideira (de novo). E de saideira em saideira, perdi até o da meia noite, esperei o ônibus da uma hora da madruga. Esse não perdi, porém, adivinha? Cochilei no coletivo, isso mesmo, e fui parar no ponto final, viajei mais de uma hora dentro daquele ônibus. Eram duas e meia, o motorista me avisou que o próximo sairia às três horas da madruga.
O pessoal que iriam para os respectivos serviços, já estavam entrando e tomando assento no ônibus, para mais um dia de labuta, e eu nem havia chegado em casa ainda.
Embarquei, começou a chover, pelo menos agora não dormi no trajeto, desci na parada perto da minha casa, era quase quatro da matina, e tome chuva na cabeça!
Entrei em casa, claro a mulher acordou, contudo, fui logo dizendo – “não diga nada, amanhã explico tudo....” Para completar a desgraça, esqueci minha pochete no ônibus. Recuperei depois, ainda bem.
FIM
04/02/2017
Término 09/02/2024
8ª história
O GOL NO POSTE
Por Andrade Jorge
Nestes dias pós falecimento do Rei do futebol Pelé, algumas lembranças antigas rondam a cabeça da gente, uma delas eram os alto-falantes, que eram instalados em postes de praças e jardins, que as empresas de som divulgavam músicas, notícias e anúncios, e também retransmitiam jogos de futebol de alguma rádio. Veio a calhar uma matéria do Blog do amigo Prof. Vivaldo José Breternitz sobre esse mesmo assunto, citando inclusive a reclamação formal de um vereador da cidade sobre o volume desses alto-falantes.
Mas, voltando as minhas lembranças, no ano de 1962, era um adolescente de 12 anos de idade, o Brasil disputava a Copa do Mundo de futebol no Chile, defendendo o título que houvera vencido em 1958, onde surgiu um tal Pelé. Estávamos no dia 17 de junho de 1962, um domingo, eu voltava pra casa após ter ido na matiné do cine Ipiranga, na rua Barão de Jundiaí, centro de Jundiaí, cidade onde morava, era por volta das 4 da tarde, passando pela Praça onde tinha o prédio da cadeia pública, antigo Largo da Cadeia Velha, Praça Tibúrcio Estevam de Siqueira, atual praça do Fórum Dr. Adriano de Oliveira, havia um aparelho de som num poste, que estava retransmitindo o jogo final do Brasil X Tchecoslováquia, lembro que parei com meus amigos, por algum tempo na praça, para ouvir um pouco do jogo, estava no segundo tempo, Pelé não estava jogando, pois havia se contundido num do jogo da primeira fase, de repente um ataque da seleção canarinho, e o “speaker” (locutor) grita goooooll do Brasil, Vavá aos 35 minutos ampliava para 3 X 1 (placar final), logo terminou o jogo, foi uma gritaria só, Brasil campeão, Bi campeão.
Todos nós morávamos no bairro da Barreira, estávamos pertos de casa, o restante do nosso trajeto foi uma folia, o povo saindo às ruas comemorando a vitória.
É Pelé, você me fez lembrar essa passagem, que estava escondida na lembrança do adolescente. Obrigado Rei.
9ª HISTÓRIA
FESTAS DE FINAL DE ANO COM A VÓ LÍDIA
Por Andrade Jorge
Década de sessenta, lembro com saudade das festas de final de ano na casa da minha querida avó Lídia, na cidade de Nova Odessa, região da grande Campinas. Vó Lídia, uma cearense de firmeza de caráter, não era rica, mas conhecida e querida em toda cidade, nunca quis deixar sua casa, para morar com alguma filha, ou filho, convite não faltava, mas preferia morar sozinha, cuidando de sua horta, galinheiro, plantações. Para a comemoração do Natal e ano novo as minhas tias de São Paulo, Santos, os tios que moravam na própria cidade e nós de Jundiaí, tínhamos destino certo, viajando de carro, ônibus, ou trem. A casa da Vó tinha 2 quartos, sala grande, cozinha, o banheiro era fora, ela tinha o quarto dela e dormia numa cama de casal, com colchão de palha, quando o dia raiava, aqueles que estavam dormindo em outros cômodos, ao acordar corriam para o quarto da vó, quem acordava primeiro garantia uma vaga ao lado dela, as tias, primas, primos, e eu também, disputava um pedacinho no colchão de palha, e a resenha de “causos” passados era garantia de boas risadas, e a minha avó ali no centro da cama aninhando filhas, netos, e rindo aos borbotões. Por volta de 8 horas da manhã, alguém lembrava do café, era hora da dispersão. A casa da vó tinha um fogão a lenha, quem já comeu um arroz com feijão, feito no fogo a lenha sabe o quanto é gostoso, fora da casa havia o forno de barro, onde ela fazia os pães caseiros, bolos, assava carnes também. Ela tinha uns utensílios, que naquela época já eram antigos, tais como moedor de carne, ferro a brasa de passar roupas, e outros.
O quintal era muito grande com várias árvores frutíferas, laranjeira, bananeira, mangueira, jabuticabeira, goiabeira, abacateiro, que nos presenteava com uma sombrinha, que aliviava o calor. Nova Odessa era uma cidade, que no verão parecia que o sol ficava só naquele pedaço. Eu conhecia bem, pois morei um ano na cidade, com a família do meu tio, quando minha mãe precisou ficar internada por dois anos num hospital em Campos do Jordão.
Nos anos seguintes a festança era a mesma, tudo em torno da saudosa Vó Lídia, ela aglutinava toda família, e não acontecia nenhuma desavença, ou discussão, era alegria o dia inteiro, principalmente por parte de duas tias, Ondina, que era chamada de Mina e Marcília, que não sei por qual cargas d’água apelidada de Bento, era uma “rinchaiada” só, como dizia minha mãe.
Hoje em dia, nesta época, com a proximidade das festas de Natal e Ano Novo, essas lembranças bailam em minha mente, sinto alegria em relembrar dos anos dourados, mas também, uma tristeza, porque com a partida da avó querida, para outro plano, esses encontros terminaram. Atualmente cada segmento da nossa família comemora com os seus, até aconteceram algumas reuniões em finais de ano, por iniciativa da atual mais antiga da família, que carinhosamente chamamos de Matriarca, minha prima, que mora numa chácara em Pedro de Toledo, pertinho da litorânea Peruíbe, ela conseguiu juntar parte da família por alguns anos, e a reunião era em sua chácara. Entretanto, já não estamos mais na década de sessenta, setenta, quando os valores eram outros, havia uma real alegria em estar junto a família (tios (as), primos (as), mãe, pai, avó), na passagem das festas natalina e ano novo. Hoje em dia é muito difícil reunir todos, ou parte, dos membros de uma família para um evento assim.
Há uma passagem na Bíblia em Gênesis 2:24 que diz que “o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne... “.
Então, formam outra família, e assim sucessivamente, e passa a reunir-se com sua unidade de família, e não tendo mais a grande aglutinadora que conseguia chamar todas subfamílias para a raiz, as grandes festanças vão se acabando.
Contudo, a minha saudade não se acaba.
Feliz Natal Vó Lídia, onde quer que esteja. Um dia estaremos todos juntos novamente.
24/12/2023
10ª HISTÓRIA
PERIPÉCIAS COM A MAGRELA
Autor: Andrade Jorge
De Leonardo da Vinci ao Barão Karl von Drais, que inventaram um estranho veículo de transporte, que foi sendo modificado, mexe aqui, mexe ali, melhora lá, até chegar à bicicleta que hoje em dia virou artigo de luxo.
No meu tempo o apelido era “Magrela”, mas agora chamam de “bike” porque em inglês fica mais bonito, e os brasileiros mais novos adoram falar palavras de um idioma que nem dominam.
Quando eu era adolescente, isso na década de 60, meu pai comprou-me uma bicicleta usada, mas estava em muito bom estado, era uma Mercswiss azul, pneu balão, andei muito com ela, eu ia de bicicleta para o colégio em Jundiaí, primeiro estudei no GEVA que ficava ao lado da Estação Ferroviária, escola estadual, portanto, gratuita, mas com uma severa regra, se repetisse por dois anos tinha que sair da escola, não me esforcei o suficiente, tive que sair. Fui para o Colégio Padre Anchieta, uma escola particular, também ia de bicicleta.
Quando estudava no primeiro colégio citado, houve um dia que estava atrasado, estava dando um pau na magrela para chegar na hora, passou por mim um caminhão carregado, não estava muito acelerado, então resolvi pegar carona, segurei na carroceria do bruto, agora sim iria chegar a tempo, entretanto, o motorista enxergou-me pelo retrovisor, deu um balanço na carroceria, la foi eu, bicicleta, material escolar, tudo pro chão. E como desgraça pouco é bobagem, na noite anterior havia chovido e rente a sarjeta aquela pocinha de água barrenta, e essa água pintou meu uniforme, minha magrela toda torta, guidão, aro. Voltei pra casa todo desenchavido. A única coisa que minha mãe perguntou foi “você se machucou?”. Não, nem um arranhão.
A segunda peripécia foi quando mudei de escola, conforme relatei, a frente do colégio era cercado por mureta baixa, que propiciava aos alunos sentarem à sombra que as árvores faziam, e num certo dia la ia eu todo garboso na minha azul Mercswiss, pneu balão, toda brilhante porque havia lavada e passado uma cera, ao se aproximar observei uma garotas sentadas na dita mureta, e eu impecável no meu fardamento, calça bege, camisa branca, ambas peças bem passadas pela dona Alice, saudosa mãe, e sabe como é galinho novo quer se mostrar, para impressionar tirei a mão do guidão, só movimentando os pedais, aproximei em frente onde as garotas estavam sentadas, e foi aí que o mundo caiu. A rua não era asfaltada, o calçamento era com os macadame, apelidado de “macaco” e tinha uma porção de areia bem naquele lugar, a roda deslizou e la foi eu, bicicleta, minha vaidade, a vergonha, tudo pro chão, e as meninas como não poderia ser diferente “racharam o bico” de rir. O duro não é cair, e sim levantar. Mas, continuei andar de magrela, sem exibições.
Alguns anos se passaram, meu irmão, mais velho, veio morar com a gente em Jundiaí, ele por ter uma boa estatura (quase 1,90) era não só o meu salvador de encrencas como da nossa turma, ele tinha emprestado uma bicicleta para dar umas voltas, encontrei com ele na esquina de uma rua, que era a que normalmente usava para ir ao centro da cidade, e vice versa, pra ir subia, pra voltar descia a rua, e era uma baita descida. Ele estava voltando também, me deu carona na bicicleta, não tinha bagageiro na traseira, ele falou senta no guidão, aceitei, ia com a cabeça um pouco de lado para ele enxergar a frente. Conforme ia descendo o “ladeirão” a bicicleta ganhava velocidade, ele segurando no freio manual, na metade da descida ele grita no meu ouvido
– Tô sem breque! E logo a frente havia uma rua para cruzar, rua essa bem movimentada, e eu sentado no guidão. Roguei a todos os Santos, pedi até pra quem não era Santo, apelei para o filho do Homem, e até pra Mãe Dele, cruzamos a rua feito bala, mas dai pra frente a inclinação da descida ia amansando, e ele com o pé no pneu foi controlando, até parar. Sou moreno, mas estava bem amarelo, e eu não podia xingar muito ele porque a mãe era a mesma. Falando em mãe, ninguém contou sobre a descida maluca que fiz sentado no guidão. Meu irmão era grandão, mas tinha medo da dona Alice, eu então ...
Hoje em dia nem de bicicleta ando mais.
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04/08/24
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