Meu nome é Magno, e hoje escolhi contar a história do meu tio Carlos — um homem negro, nordestino, nascido na década de 1960 em uma pequena cidade do interior da Bahia. Sua trajetória me ensinou muito sobre o que é viver sob o peso de um sistema que, muitas vezes, escolhe quem vai ter oportunidades e quem será silenciado.
Desde jovem, Carlos enfrentou olhares desconfiados — fosse na escola, quando questionavam sua inteligência; ou no mercado de trabalho, quando viam sua cor antes mesmo de ouvirem suas ideias. Um dos episódios mais marcantes que ele me contou foi quando tentou uma vaga como técnico em uma empresa de refrigeração. Com experiência prática de anos, ele era claramente o mais preparado entre os candidatos. Mesmo assim, foi preterido por um jovem branco, recém-formado, sem vivência nenhuma no setor. O motivo nunca foi dito, mas Carlos sabia. E eu também.
Essas marcas atravessam não só ele, mas a nossa família. Cresci observando como minha mãe, mulher negra de pele clara, era tratada de forma diferente da minha avó, que tinha traços mais evidentes da ancestralidade africana. As duas trabalhavam em casas de família, mas apenas uma delas era chamada de \\\"funcionária\\\"; a outra, \\\"a faxineira\\\".
Hoje, trabalhando com HVAC e automação, percebo o quanto o ambiente técnico-industrial ainda é pouco representativo. São raros os profissionais negros em cargos de coordenação, e mais ainda as mulheres negras. Já presenciei falas preconceituosas sendo normalizadas em oficinas e navios, quase sempre camufladas de \\\"brincadeiras\\\".
Mas não é só denúncia. É também resistência. Eu vejo esperança nas histórias que conto em treinamentos, nas portas que ajudo a abrir para outros jovens negros que sonham em entrar nesse mercado. E vejo, acima de tudo, o poder de uma história bem contada.
Ao compartilhar a vivência do meu tio Carlos, compartilho também um pedaço de mim — e da nossa luta diária para...
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Meu nome é Magno, e hoje escolhi contar a história do meu tio Carlos — um homem negro, nordestino, nascido na década de 1960 em uma pequena cidade do interior da Bahia. Sua trajetória me ensinou muito sobre o que é viver sob o peso de um sistema que, muitas vezes, escolhe quem vai ter oportunidades e quem será silenciado.
Desde jovem, Carlos enfrentou olhares desconfiados — fosse na escola, quando questionavam sua inteligência; ou no mercado de trabalho, quando viam sua cor antes mesmo de ouvirem suas ideias. Um dos episódios mais marcantes que ele me contou foi quando tentou uma vaga como técnico em uma empresa de refrigeração. Com experiência prática de anos, ele era claramente o mais preparado entre os candidatos. Mesmo assim, foi preterido por um jovem branco, recém-formado, sem vivência nenhuma no setor. O motivo nunca foi dito, mas Carlos sabia. E eu também.
Essas marcas atravessam não só ele, mas a nossa família. Cresci observando como minha mãe, mulher negra de pele clara, era tratada de forma diferente da minha avó, que tinha traços mais evidentes da ancestralidade africana. As duas trabalhavam em casas de família, mas apenas uma delas era chamada de \\\"funcionária\\\"; a outra, \\\"a faxineira\\\".
Hoje, trabalhando com HVAC e automação, percebo o quanto o ambiente técnico-industrial ainda é pouco representativo. São raros os profissionais negros em cargos de coordenação, e mais ainda as mulheres negras. Já presenciei falas preconceituosas sendo normalizadas em oficinas e navios, quase sempre camufladas de \\\"brincadeiras\\\".
Mas não é só denúncia. É também resistência. Eu vejo esperança nas histórias que conto em treinamentos, nas portas que ajudo a abrir para outros jovens negros que sonham em entrar nesse mercado. E vejo, acima de tudo, o poder de uma história bem contada.
Ao compartilhar a vivência do meu tio Carlos, compartilho também um pedaço de mim — e da nossa luta diária para transformar o que ainda é estrutural em algo superado, com justiça, equidade e voz.
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