Cariri
Segundo me contou havia nascido em uma região pobre no Ceará, tinha do casamento paterno uma dúzia de irmãos e irmãs, eram tantos que não saberia dizer o nome de todos, até porque a maioria se tratava por apelidos ou curtas alcunhas, já que o pai tinha verdadeiro tesão por nomes combinados ou de muitas letras.
Ele – o pai, cuidava de duas famílias, uma em cada cidade, na primeira trabalhava cultivando, e na outra vendendo frutas e legumes, isso quando o tempo seco permitia ou quando a chuva em demasia não levava toda a produção e a paciência muito curta do velho Rosmarinho.
Nunca soube ao certo, mas com certeza podia adivinhar que lá na outra família também deveria ter mais uma dúzia de irmãos.
Nas horas adversas, o Senhor de várias crianças virava bicho e ninguém escapava de agressões e palavras ofensivas, se e quando em alguma praça ou cultivo sobrava alguma coisa para a venda ele era um pouco mais manso e batia menos porque dedicava o maior tempo em salvar o que sobrara e deixava com certeza a mulher em paz.
Nos finais de semana era sagrado exigir a melhor roupa, aquela que possuía o mais apurado vinco e ir tomar uns goles e passar a mão na bunda das meninas em algum bar ou mesmo nas casas de prostituição que sempre estavam cheias em épocas de boa colheita.
As esposas sempre cuidavam para que a roupa exigida estivesse dentro do melhor aceitável e fingiam não saber onde os maridos se metiam, se em bares ou bordeis.
As mulheres ditas oficiais, mesmo quando não casadas em cartório ficavam quietas para não perder o homem e o sustento que eles produziam.
As meninas procuravam algum ser disposto a bancá-las financeiramente até que pudessem se transformar em propriedade de alguém. As prostitutas que já haviam desistido de procurar seu sonhado “coronel” lutavam agora tão somente pelo pão de cada dia para si e para os pobres rebentos que haviam posto no mundo.
O velho pai em certa ocasião havia vindo para...
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Segundo me contou havia nascido em uma região pobre no Ceará, tinha do casamento paterno uma dúzia de irmãos e irmãs, eram tantos que não saberia dizer o nome de todos, até porque a maioria se tratava por apelidos ou curtas alcunhas, já que o pai tinha verdadeiro tesão por nomes combinados ou de muitas letras.
Ele – o pai, cuidava de duas famílias, uma em cada cidade, na primeira trabalhava cultivando, e na outra vendendo frutas e legumes, isso quando o tempo seco permitia ou quando a chuva em demasia não levava toda a produção e a paciência muito curta do velho Rosmarinho.
Nunca soube ao certo, mas com certeza podia adivinhar que lá na outra família também deveria ter mais uma dúzia de irmãos.
Nas horas adversas, o Senhor de várias crianças virava bicho e ninguém escapava de agressões e palavras ofensivas, se e quando em alguma praça ou cultivo sobrava alguma coisa para a venda ele era um pouco mais manso e batia menos porque dedicava o maior tempo em salvar o que sobrara e deixava com certeza a mulher em paz.
Nos finais de semana era sagrado exigir a melhor roupa, aquela que possuía o mais apurado vinco e ir tomar uns goles e passar a mão na bunda das meninas em algum bar ou mesmo nas casas de prostituição que sempre estavam cheias em épocas de boa colheita.
As esposas sempre cuidavam para que a roupa exigida estivesse dentro do melhor aceitável e fingiam não saber onde os maridos se metiam, se em bares ou bordeis.
As mulheres ditas oficiais, mesmo quando não casadas em cartório ficavam quietas para não perder o homem e o sustento que eles produziam.
As meninas procuravam algum ser disposto a bancá-las financeiramente até que pudessem se transformar em propriedade de alguém. As prostitutas que já haviam desistido de procurar seu sonhado “coronel” lutavam agora tão somente pelo pão de cada dia para si e para os pobres rebentos que haviam posto no mundo.
O velho pai em certa ocasião havia vindo para o Rio de Janeiro onde trabalhara de início e construções como auxiliar de obra e depois como Mestre. Pela primeira vez teve a carteira de trabalho assinada e um salário que embora fosse alto para os padrões que conhecia não dava para nada já que sempre tinha que enviar “algum” para que as mulheres pudessem criar os filhos gerados e não se aventurassem em vir para a cidade grande como ele ousou fazer.
E aqui então misturados aos conterrâneos podia falar de saudade daqueles tempos lembrados como se fossem muito bons e que só tivesse vivido coisas boas. Mas, trabalhou duro e conseguiu juntar um dinheirinho para mudar de vida comprando um velho e caído automóvel que transformou em taxi tão logo pode adquirir uma permissão junto a Prefeitura.
Aqui pelo nome esdrúxulo para os padrões cariocas os amigos passaram a chama-lo de “Seu” Cariri e assim ficou conhecido. Quando deu por si estava quase casando novamente, prestes a ser obrigado a ter que sustentar uma terceira família.
Assustado com o que parecia ser uma nova obrigação, já que aqui a nova noiva exigia um casamento com “papel passado” o que lhe traria uma responsabilidade maior. Aqui ela não toleraria idas para os bares e zonas de baixo meretrício como era praxe em sua cidade natal.
O nascimento de um filho com certeza iria gerar problemas e pensões em caso de abandono podendo leva-lo até para a cadeia como ele ouviu em relatos dos amigos que havia feito nesta nova cidade.
Bolou então um plano para poder voltar para a cidade de origem de uma forma que julgassem estar ele bem de vida e em boa situação financeira.
Usando o seu próprio nome em alguns casos e em outros o nome da futura noiva, tendo como desculpa que casaria tão logo estivesse com uma casa montada de tudo que fosse necessário para uma vida a dois tranquila, começou comprando uma geladeira, depois um fogão de última geração, moveis e bens de toda sorte e foi guardando em um espaço que havia conseguido com um amigo de trabalho.
Passou a acumular carnês e a paga-los dentro das possibilidades, hora atrasando alguns e hora atrasando outros para poder adquirir o mais rápido possível tudo que imaginava ser necessário para viver e impressionar os amigos na terra natal.
Quando a noiva começou a pressioná-lo para o casamento, elaborando as festas e a escolha da Igreja, querendo inclusive que ele dissesse o nome da cidade de seus pais para elaboração dos convites, ele percebeu que era a hora de tirar o time de campo e ir embora de vez.
Através de um anúncio visto em um jornal, ele procurou o proprietário de um caminhão desses que pudesse suportar a vida e as estradas no interior e fez uma oferta para a compra do veículo. Assim, com o consentimento do dono do auto de carga fez um empréstimo tipo credito direto ao consumidor, colocando como garantia seu nome como comprador, da noiva de fiadora, além do próprio veículo em garantia para financiamento, que para todos os efeitos se pagaria com os trabalhos conseguidos.
Vendeu o velho carro e a autonomia concedida pela Prefeitura, queria chegar com um bom dinheiro no bolso para mostrar fartura e de posse do caminhão colocou tudo que havia comprado e que estava guardado na casa daquele que seria o futuro padrinho onde as notas fiscais chegavam e a esposa ou madrinha assinava o recebimento incluindo os carnês e as cobranças e dizendo estar indo para a nova casa que havia alugado em um subúrbio da cidade, colocou na boleia todas as compras feitas nos últimos meses e rumou, isso sim, de volta para a cidade onde deixara os filhos do primeiro casamento e a esposa.
Chegando na cidade foi recebido pela primeira família como aquele que havia conquistado, considerando que todos por aqui, no Sul e Sudeste eram muito preguiçosos e que ele havia feito fortuna com muito trabalho e esforço.
Rapidamente colocou o veículo a serviço da Prefeitura e começou a melhorar de vida podendo sustentar decentemente as duas famílias e dentro dos padrões que eles se sentissem satisfeitos. Era agora o “Doutor Rosmarinho” cobrando os serviços da cidade e dos membros que quisessem seus préstimos.
O filho de “Seu Cariri” então deslumbrado com as conquistas do pai resolveu que viria para o Rio de Janeiro e que nunca voltaria, mandando buscar a mãe para morar ao seu lado, tirando-a daquela vida ingrata e dura do sertão nordestino.
Aprendeu como ajudante do pai fazendo transportes de cargas pelo interior em meio a estradas terríveis e esburacadas a dirigir e a fazer todo tipo de entrega nas fazendas e sítios levando e trazendo aquilo que era pago e foi juntando algumas gorjetas que os contratantes quase sempre davam ao menino que mesmo franzino demonstrava possuir muita força.
Todos os irmãos tiveram a chance de trabalhar, alguns como ele aproveitaram, outros rejeitaram o esforço e as meninas com certeza aguardariam crescer para viver a vida que as aguardava.
Semianalfabeto, frequentara a grupo escolar completando um primário sem muitas perspectivas, porem suficiente para cobrir as necessidades básicas de entendimento. Teve o orgulho de participar do chamaram ser o casamento de sua irmã mais velha que sendo empregada doméstica em um sitio havia conquistado o coração de um moço que se apaixonou pela menina, colocando a mulher para fora de casa amancebando-se e dando a ela o título de Patroa. Cruel é a vida onde a lei não consegue chegar.
Trabalhando então ao lado do pai, participando das entregas e da vida diária de um ajudante de caminhoneiro aprendeu a dirigir e manobrar aquela imensa carroça movida a diesel, podendo em pouco tempo ter a carteira de condutor, ajudado pelo pai que já não era mais tão duro e grosso com a família, parecendo ter sido domesticado no sul do país.
Ao ver que possuía uma quantia que julgava razoável resolveu partir e despedindo-se de todos pôs o pé no mundo.
Uma longa e cansativa viagem iria abocanhar parte de dinheiro juntado com tanto esforço. Primeiro até Fortaleza, a capital, de lá para Salvador na Bahia e depois uma viagem de quatro dias até a Rodoviária Novo Rio.
Chegando e lembrando as estórias contadas pelo pai, procurou um abrigo em uma casa para migrantes nordestino onde poderia desembolsar pouco dinheiro até conseguir trabalho. Estas casas eram dirigidas por pessoas que vieram também do Nordeste em busca de novas oportunidades e contavam com pastores cristãos e padres católicos que lhes davam orientações, em alguns casos até os convenciam a voltar explicando as agruras que teriam que passar destruindo muitos sonhos assim que desembarcavam.
Haviam casos em épocas especificas que eles bancavam a volta do retirante desolado, que não tiveram a oportunidade de fazer amigos e que por indigência acabavam vivendo em uma miséria maior do que estavam acostumados no agreste.
Bom, em seu primeiro dia, pela disposição apresentada, tendo seus documentos em bom estado e até carteira de motorista, foi convidado a participar de um grupo que trabalharia em um Lava-Jato aos pés do morro da Mangueira, junto a algumas empresas que possuíam funcionários que levavam seus carros de médio porte para limpeza externa e interna.
Seu trabalho braçal consistia em ajudar seus companheiros a higienizar os veículos com agua roubada de um hidrante clandestino, passar pano dentro do veículo e manobrar os carros quando o proprietário não podia acompanhar a execução dos serviços.
Nesta lide fez amizades, ganhava um salário menor do que era declarado pelo patrão sem nenhum direito trabalhista, vivia basicamente das gratificações recebidas, que eram maiores quando os senhores por motivo que não lhe interessava pediam para levar o carro até o trabalho. Um curto pedaço mais que gerava sempre uma boa compensação. Não tinha nenhum problema com o que fazia, mas queria mais e destacava-se pela educação e presteza.
A Policia Militar não pagava nada, porém trazia os carros para limpeza que não poderia ser feita no pátio do Quartel, quase sempre em dias que se seguiam a muita chuva, e os funcionários encarregados da faxina não davam conta do serviço.
Um certo dia um dos diretores de empresa próxima, ao receber o carro como pedido, e na entrega das chaves, disse ao jovem que sempre via sorridente e disposto a ajudar que havia uma vaga para ajudante de cozinha e limpeza em um restaurante na zona sul onde também era sócio.
- Menino, não sei seu nome, como você se chama?
Ele envergonhado disse: - meu nome de batismo é Hadelíbio César, mas pode me chamar como todos me conhecem, Cariri.
- Por que Cariri?
- Sempre que conversamos lá no posto, surgem estórias engraçadas e conto algumas que vivi na minha terra, então eles passaram a me chamar de Cariri. É só zoação!
- Ok. Cariri. Vá amanhã de manhã procurar meu amigo que gerencia um restaurante em Ipanema e leve este cartão de apresentação, ele está precisando muito de alguém para trabalhar como ajudante de cozinha e acho que você vai gostar. Vou avisá-lo de sua chegada.
Passou então para ele o cartão e uma boa gorjeta para as passagens que precisaria comprar dizendo: - Boa Sorte! Se depois precisar de alguma coisa me fale, posso lhe ajudar com alguma roupa.
Ele voltou todo animado para o serviço e passou o resto do dia trabalhando e sonhando com a nova vida.
No dia seguinte avisou que não iria trabalhar no Lava Jato e foi procurar o tal restaurante que seria seu novo emprego.
Ao chegar na porta do estabelecimento que ainda se encontrava fechado para o público, ficou algum tempo admirando a fachada do prédio e imaginando como as pessoas podiam viver em lugares tão altos em janelas que iam de acima do restaurante até o infinito.
Na calçada, mesas e cadeiras amontoadas e pessoas limpando e jogando água, os homens carregando as cadeiras e uma jovem passando pano, secando, limpando e fazendo brilhar os móveis.
Pela porta entreaberta via movimento semelhante no lado interno com pessoas rindo e trabalhando sob as ordens de alguém que parecia ser o Chefe. Seu coração estava disparado e esperançoso com a nova vida.
Acima da porta um letreiro colorido em losangos brilhantes dizia: - Arlercchino Gastronomia & Requinte Gourmet
Andou um pouco para cada lado da portaria do prédio, foi até a praia ao ver que a rua era transversal a Avenida de onde descera do ônibus e que de onde estava virando o rosto podia ver e sentir a brisa que trazia o cheirinho de oceano. Com certeza podia jurar que poetas e cancioneiros de sua terra ficariam muito mais inspirados se algum dia conhecessem esse lugar.
Ao ver aquele areal branco e marcado com os pés das pessoas, pensou que seria um crime pisar neste lugar tão santo!
Ao ver o mar mesmo de longe, imaginou que um dia poderia pagar com o dinheiro que ganharia a oportunidade de entrar naquelas águas tão limpas que faziam um barulho estranho. As águas levantam-se e caiam na areia molhada, fazendo o mesmo que as outras que já haviam caído e recuado, não deixando que aquele mundão d’agua acabasse.
Deu-se conta do tempo e voltou rápido para entrar no Restaurante. Encontrou a menina que limpava as cadeiras e mesas e perguntou: - como posso falar com o “Seu” Haroldo? Mostrando o cartão que lhe havia sido entregue.
A menina sorriu e disse: - Bom dia! Qual o seu nome? Ele encabulado respondeu: - Cariri, e o seu qual é!
- Francisca, mas o pessoal me chama de “China”.
Pegou o cartão na mão do rapaz e sumiu subindo uma escada nos fundos do restaurante. Demorou alguns instantes e voltou dizendo: - aguarde um tanto, o “doutor” Haroldo vai vir conversar com você.
Cariri então sentou-se em uma cadeira já limpa e ficou admirando um quadro de um imenso pavão de cor meio azulado que reinava em cores maravilhosas em uma das paredes. A pessoa demorava um pouco para descer as escadas, Cariri que não gostava de ficar parado, tomou a iniciativa e começou a ajudar a menina China recolocando no lugar as cadeiras e mesas que ela limpava, e assim foram surpreendidos pelo senhor Haroldo que ao vê-lo nesse trabalho sorriu e disse: - Cariri, o meu amigo falou de você, e falou muito bem! Acho que ele não exagerou, você é um cara esperto e espero contar com sua ajuda. Estava empregado.
Assim foi encaminhado ao Setor de Pessoal para as formalidades e documentação sendo avisado que teria um uniforme para vestir deixando suas roupas em um armário coletivo, que receberia as chaves do seu escaninho. Ouviu da necessidade de manter o local e seu uniforme muito limpo, que seu Chefe lhe seria apresentado no dia seguinte, que seu horário começaria sempre as oito da manhã podendo ser liberado as 18 horas, menos aos sábados, domingos e feriados quando a casa sempre requeria a participação de todos. Sendo as horas a mais compensadas em outros dias da semana quando fosse possível.
No início em trabalhos de limpeza e de ajudante da cozinha colocava toda atenção no recolhimento e separação de lixos orgânicos e limpeza dos talheres, secando pratos colocando tudo em condições de uso novamente. Separava e lavava as frutas para que o Bartender pudesse preparar drinks e maravilhas de degustação antes, durante e após os pratos do cardápio.
Descascava, cortava, ralava e manejava grãos e óleos para que os cozinheiros pudessem ter tudo a tempo e hora cumprindo as orientações de Dona Esther a nutricionista a quem todos obedeciam e procuravam agradar.
E assim conhecendo o dia a dia estava aprendendo a trabalhar em equipe e a utilização correta de cada equipamento disponível foi sendo pouco a pouco direcionado para a área de sushis e comidas japonesas, chineses, aprendendo com outros que haviam seguido o mesmo caminho a preparar os pratos orientais.
Assim nascia mais um japadeste (profissional nordestino especializado em comidas exóticas). Aprendeu a cortar, enrolar dispor em pratos. Com quimono branco e faixa vermelha na cabeça, ar compenetrado de profissional do ramo passou a preparar e decorar pratos sugestivos. Em pouco tempo participava do rateio das gorjetas diárias e ganhava um status de Sushiman preparando pratos tradicionais das culinárias do oriente.
Descobriu que do salário baixo podia enviar parte para a mãe e seus irmãos sobrando toda a renda extra para sua própria vida de rapaz solteiro. Alugou uma vaga perto do local de trabalho e as segundas feiras participava do torneio de futebol pelo time do Restaurante. Esses jogos começavam após as três da manhã com o fechamento do expediente de vários estabelecimentos e promoviam um congraçamento entre todos os profissionais jovens que vindos do interior buscavam uma posição neste mundo de alimentação para o público em geral.
Desde o primeiro dia sentiu uma certa simpatia pela menina Francisca que como os outros a tratava por “China” descobriu que ela também mandava um dinheiro para a mãe e seus irmãos em Juazeiro, conversavam muito sobre a vida em terras nordestinas e seus deslumbramentos quando chegaram no Rio de Janeiro.
Das confidencias e das perspectivas de vida foi surgindo uma grande amizade e sempre se procuravam para conversar. China fazia a faxina nos dias de semana com outros funcionários e quando estava no plantão mantinha limpo o banheiro masculino e o feminino. Sempre torciam para que a folga da semana fosse coincidente, quando ficavam muitos dias sem poder trocar ideias e fazer planos pediam ao gerente da casa que desse um jeitinho para que pudessem se ver fora do ambiente de trabalho.
Em pouco tempo começaram a unir planos e trocar confidencias, tendo o apoio e a torcida de todos, deste o diretor até os colegas de trabalho. Em dias de futebol de areia nas praias de Ipanema ela comparecia para ver e conversar com o agora namorado.
Não tinham grandes oportunidades de conhecer e passear pela cidade, era uma vida dura de trabalho com os horários mais estapafúrdios que se podia imaginar. Quando em feriados ou dias não uteis era dia em que mais trabalhavam e o tempo parecia voar.
Sendo um restaurante para classe média alta possuía um cardápio variado de muito bom gosto em um ambiente de classe sendo uma verdadeira mina de gorjetas para aqueles que ali trabalhavam. Os funcionários dividiam entre si sempre as sextas feiras os recebimentos, sendo que a proporcionalidade maior caia para o pessoal da cozinha, depois garçons e por último a limpeza. E assim todos se beneficiavam buscando dar o melhor atendimento possível.
Existia um pessoal mais fora desta categoria interna, composta por guardadores de automóveis que nem vínculo trabalhista possuíam, mas que também se esmeravam no atendimento, uma vez que verdadeiros carrões sob guarda exigiam presteza e cuidado para com o cliente. Eles formavam um grupo muito fechado que impedia a entrada de novos manobristas evitando que a divisão se tornasse menor.
Neste último grupo existia um rapaz que era muito amigo de Cariri e sempre estavam juntos no futebol de areia, o nome dele era Teobaldo, a galera chamava ele de “Téo” ou quando queria zoar o chamava de “Baldo”. Ele não dava a mínima, até achava engraçado dizendo que ‘Baldo” hoje não veio procurem o “Téo”, mas não deixavam o serviço cair, porque o cliente que sai satisfeito do Restaurante vai voltar e com uma boa gorjeta.
Em uma dessas conversas e vendo que Cariri esteva se preparando para casar, Téo disse que ele estava “comendo mosca” porque trabalhando como Uber ou dirigindo um Táxi ele, o Cariri, ganharia muito mais podendo ver a mulher todos os dias e sem as obrigações de cumprir plantões tão sacrificantes. Que os carros que dirigia para os “bacanas” eram espetaculares e não aquelas carroças caindo aos pedaços que ele dirigia na Mangueira.
E em várias oportunidades Téo disse isso, e foi minando a resistência de Cariri que já via com bons olhos essa oportunidade.
Para conhecer um pouco mais Teobaldo, Cariri me contou que Téo quando tinha aproximadamente uns seis anos, vivia nas areias da praia de Ipanema, e alguns moleques maiores resolveram tomar uma bicicleta de um garoto lourinho que em sábados alternados passeava acompanhado de um moço de meia idade e que este sempre estava no telefone celular conversando com alguém, deixando de prestar atenção em seu filho e na bike.
Assim o líder do grupo um molecote de uns dezesseis anos aproveitando um descuido paterno puxou assunto com o garoto e o desafiou a correr montado mais do que ele a pé, vencendo aquele que chegasse primeiro no canal que divide o bairro entre Ipanema e Leblon. O garoto animado pelo desafio aceitou e partiu para derrotar aquele pobre arrogante.
Quatro adolescentes e o menino Téo, partiram na frente sem qualquer desconfiança daquele que seria a vítima. O pai preocupado em falar e dar explicações ao telefone, em nenhum momento percebera qualquer movimento e nem viu quando foi dada a largada ao som de 1, 2, 3 já ...
Ao chegar no canal o garoto se viu cercado pelos meninos que exigiam a bike sob ameaça de levar uma surra ali mesmo. Ele apavorado procurou o pai e percebeu que não tinha mais como vê-lo e obter o socorro necessário. Ao ver chegando aquele que o desafiara teve um vislumbre de que teria a ajuda que tanto necessitava. Doce engano, aquele que se fizera seu amigo disse:
- Corre daqui branco babaca ou vamos chutar essa bunda até que ela fique bem vermelhinha e apetitosa.
O garoto percebeu que havia perdido a bicicleta e que teria que voltar correndo e chorando a procura do papaizinho. As pessoas que passavam olhavam a cena percebendo o que deveria estar acontecendo, mas ninguém iria se envolver e ser agredido por pivetes que nada tem a perder e que se arvoram em justiceiros sociais.
Dali partiram para vender o “ganho” repartir a grana e dar a cada um a parcela que coubesse para fazer a noite ser melhor com a namoradinha, com drogas ou qualquer outro destino que fosse possível.
Como não conseguiram vender a bicicleta resolveram deixa-la com Téo Preto como eles o chamavam até que encontrassem um possível comprador. Naquele grupo apenas Teobaldo não possuía família e não tinha que dar satisfação a ninguém da má conduta e de onde havia surgido aquele “camelo”.
Encostaram a “magrela” na pedra da calçada e cobriram com uma lona velha encarregando Téo tomar conta para que ela fosse encontrada no dia seguinte ou até que alguém pudesse compra-la.
O que eles nem suspeitavam é que o pai do franguinho fosse policial ligado a Delegacia de combate ao tráfico e com uma rede muito grande de amigos e informantes.
Assim, o policial deu 24 horas para que a bike fosse encontrada sob pena de transformar em um inferno a vida daqueles marginais da área que acostumados a uma vida tranquila alimentavam o vício dos garotinhos de família naquele perímetro.
Movimentaram então todos os informantes e marginais e rapidamente encontraram a bicicleta e pegaram Téo Preto. Amarraram ele, tendo um dos pedais como se tivesse sentado e depois de uma surra obrigaram-no a entregar todos os participantes que foram sendo capturados um a um, torturados para aprender a não efetuar assaltos naquela área e devolveram ao legitimo proprietário a tal bike, objeto de desejo daquela galera.
Téo então, bem machucado ficou perambulando pela areia com sangue pelo rosto, nas mãos e marcas no corpo de chutes e pontapés levados. As pessoas se afastavam entendo que ali estava um garoto abandonado, sem rumo e maltrapilho, sem saber dos acontecimentos anteriores.
Téo, em dado momento chorando e sentindo muita dor viu na areia uma moeda de 10 centavos muito suja e preta de tal forma que não podia vislumbrar a imagem frontal. Ao ver que no verso havia o número, sua mente infantil o levou a imaginar ser o número da camisa da seleção brasileira de futebol e que ele sendo um pequeno jogador das areias tinha como pai aquele atleta. Imediatamente deixou-se levar que sendo aquela a fotografia de seu pai que jamais conhecera.
Mais alguns passos e brilhou no meio da areia branca uma imagem em massa colorida de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Maria do mesmo tamanho da moeda. Imediatamente sua mente sofrida identificou aquela como sendo foto de sua mãezinha e assim juntou as imagens colocando no ponto onde dormia as figuras paterna e materna em busca de proteção e cura.
Assim, chorando e adorando ele adormeceu pedindo que sua vida fosse mudada. Ao acordar, ficou feliz em ver que parte das dores havia ido embora e que as fotos de pai e mãe ainda velavam por ele.
Um Senhor aproximou-se e vendo aquela sofrida criança perguntou: - Ei, menino! Quer ganhar uns trocados, você tem alguém que possa ajudar ou pedir ajuda?
Ele apontou para a moldura colada na pedra do asfalto e disse: - meu pai e minha mãe estão comigo.
O moço então falou, vem comigo, tenho um restaurante aqui perto e gostaria de lhe oferecer um prato com comida para você, seu pai e sua mãe. Aquelas palavras soaram como música e ele seguiu aquele que seria para sempre seu benfeitor. Transformando sua vida, dando além da comida um lugar onde pudesse colocar as imagens que encontrara em meio a tanto sofrimento.
Daí aprendera a dirigir fazendo amizade com os manobristas do restaurante, jogando futebol pela madrugada nas areias de Ipanema defendendo como seu pai a camisa número 10 nas cores do Restaurante do Sr. Haroldo, seu benfeitor, amigo e conselheiro.
Assim ele conhecera o jovem Cariri com quem fez amizade e parceria nas areias da praia.
O velho Cariri havia falado que fizera fortuna com um velho carro, o que praticamente corroborava essas palavras. E assim foi por um verão inteiro. Cariri conversou com China sobre a possibilidade, porém, ela reticente dizia que não se importava em trabalhar e que eles estavam ganhando um bom dinheiro. Ela deixou claro que não pretendia parar de fazer suas funções e de enviar para a mãe e irmãos aquele dinheiro mensal que ela sabia ser importante para a família.
O tempo passando, eles vivendo da melhor forma possível, sonhando e fazendo planos. Alugaram um apartamento em Copacabana e começaram a mobília-lo sem pressa, preparando para o casamento. Os amigos se cotizaram para compra de uma televisão de grande tamanho, os patrões compraram a geladeira e assim as coisas seguiam seu curso.
Mas os conselhos do amigo começaram a martelar na cabeça de Cariri, ele começou a ver anúncios de carros, em princípio carros pequenos para uso do casal quando em dias de folga, porém, com o dinheiro na conta da poupança e o incentivo da galera e o desejo de uma nova vida, os padrões começaram a subir e em pouco tempo já procurava automóveis de quatro portas com ar condicionado.
China como gostava que a chamassem era uma menina morena de cabelos negros, em um corpo pequeno, parecia desenvolver uma força e uma disposição muito grande para qualquer tarefa, as clientes femininas viam nela tudo aquilo que jamais seriam caso precisassem lutar para sobreviver. As mais antigas sempre que vinham a presenteavam com perfumes, vestidos usados em bom estado e muitos sapatos. Ela sempre repassava para o pessoal da cozinha quando não tinha interesse naquela prenda ou quando o tamanho era incompatível com o tamanho dela.
Muito bonita atrás daquele uniforme de fim de semana e feriados, esmerava-se para dar conforto e bem-estar as freguesas. Os homens não a notavam muito, passando desapercebida para aqueles que ela julgava que seriam tão bonitos como artistas de cinema.
Aquelas freguesas mais assíduas quando não traziam presentes faziam questão de agradecer a limpeza e o bom atendimento com gorjetas que ela incorporava na caixinha geral para que pudesse participar dos rateios semanais. Uma vez ou outra era o homem, talvez namorado ou marido que incentivado pela mulher lhe proporcionava um bom regalo, assim todos sempre ganhavam pelo bom atendimento que o estabelecimento oferecia.
Quando começaram os primeiros boatos do casamento entre China e Cariri, as pessoas começaram a reforçar as gorjetas e então os funcionários passaram a destinar uma parcela significativa para a caixinha que chamavam de lua de mel, guardando uma quantia que destinaria os pombinhos para algum lugar longe do ambiente de trabalho. Porém, eles apenas queriam ir até Fortaleza passear como turistas e de lá visitar cada cidade onde seus parentes seriam apresentados a cada um deles como marido e mulher.
O apartamento alugado então passou a receber os móveis e os aparelhos que ganhavam de presente de amigos e clientes do restaurante e onde eles faziam visitas regulares para organizar e colocar tudo em ordem, complementando aquilo que porventura estivesse faltando. E assim seguia a vida sem pressa do jovem casal.
Uma determinada semana em que comemoravam um ano entre namoro e noivado resolveram fazer mais uma visita ao local levando alguns objetos que haviam ganhado, aproveitando a coincidência de folga de meio de semana.
Marcaram então o encontro para pegar no local de trabalho as tralhas e foram leva-las ao apartamento tão bem cuidado dos agora noivos.
Colocaram as peças no chão e foram admirar mais uma vez aquilo que estavam construindo com tanto amor e carinho. De frente para a Avenida, o apartamento de sala e quarto, possuía um lavabo, um banheiro, além de área de serviço, varanda, sendo muito bem arejado. Bem localizado no posto quatro em frente ao antigo Mercadinho Azul, hoje uma dessas lojas de departamento tinha sua principal portaria, toda em mármore bem ao lado de um dos mais conhecidos restaurantes de classe média da época, o Spaghettilândia, lugar onde as pessoas dos escritórios do bairro quase sempre almoçavam e jantavam, fazendo com que sempre tivesse um bom movimento fazendo um grande fluxo de pessoas pelo local.
Naquele ponto existiam vários cinemas que principalmente nos fins de semana exibiam suas estreias provocando um movimento muito grande e tornando o bairro um ir e vir constante alongando o dia. Para a esquerda tínhamos o Cinema Metro, o mais requintado, quase ao lado na mesma calçada tínhamos o Art Palácio, quase em frente ao nosso edifício, ao lado do Mercadinho Azul tínhamos o Cine Copacabana. Hoje todos esses cinemas já não mais existem, foram transformados em grandes lojas de departamento. Aquele que mais frequentávamos na verdade por que tinha a sessão da meia-noite era o Cine Roxy.
Caminhavam um pouco mais para chegar a esse cinema, porém, era bem divertido ver as grandes pré-estreias que lá eram bem divulgadas durante a semana anterior provocando a curiosidade das pessoas.
Hoje lembram de três passagens que marcaram presença naquele cinema que hoje é uma casa de shows e espetáculos ao vivo com artistas populares a preço nem tanto.
Na primeira dessas passagens, um mexicano desesperado sendo perseguido por malfeitores dispostos a mata-lo, bate à porta de uma humilde choupana gritando: - ABRE LA PUERTA! ABRE LA PUERTA! Em letras garrafais no rodapé da tela enquanto com punhos cerrados batia com força sem trégua na já mambembe porta da casa. Um camarada engraçadinho na plateia do cinema grita bem alto provocando uma comoção de risadas na plateia: - “NÃO PUEDO ESTOI CAGANDO”. As risadas foram tão altas e inesperadas que as luzes foram acessas interrompendo a projeção e provocando imediatamente a maior vaia no cinema.
Na segunda passagem, uma mulher lindíssima com olhos azuis, cabelos divinamente loiros e uma cinturinha de formiga, caminha apressada em busca de um abrigo, sendo perseguida por um maníaco assassino, tendo ao fundo uma daquelas músicas que provocam suspense e comoção. Em dado momento, mesmo correndo ela olha para trás buscando ver onde estava seu algoz, sendo que em segundos antes alguém grita da plateia: EI! PIRANHA! Outra chuva de risadas interrompendo a projeção com as luzes acessas no cinema.
E a terceira delas, alguém usando uma daquelas antigas japonas de lã grossa que se usava no inverno quente do Rio de Janeiro, transpassada com quatro botões dourados, levou para o segundo piso do cinema uma galinha e no meio do filme a soltou do balcão jogando-a para o salão de baixo provocando uma correria e o desespero dos conhecidos como “lanterninhas” que eram os encarregados de levar o cinéfilo ao lugar disponível quando ele se atrasava na chegada. Naquela época entrava-se no cinema em qualquer horário podendo inclusive ver o mesmo filme várias vezes se assim se desejasse. Luzes foram acessas e o pandemônio instalou-se em grande escala dentro do cinema.
Bom, diversas vezes foram ao cinema para ver as estreias e normalmente essas coisas não aconteciam, mas essas passagens aqui narradas, tenham sido engraçadas no momento, formaram a memória do jovem casal.
Depois de arrumarem as coisas em seus devidos lugares e tendo mais uma vez admirado a obra que estavam realizando com troca de encanamento de agua e gás do apartamento tornando-o mais habitável, resolveram descansar para sair mais tarde para fazer um lanche no Cirandinha, restaurante ao lado das Lojas Barbosa Freitas que ficava na esquina da Rua Santa Clara.
Deitaram e dormiram um sono gostoso, ao acordar surpresos ficaram ao se descobrir ao lado um do outro e na inocência da juventude beijaram-se.
Um fogo avassalador tomou conta daqueles corpos jovens e sedentos, e o desejo de um pelo outro fez o resto.
Claro que aquela ideia já se desenhava na mente das duas crianças e com certeza faltava um rastilho para incendiar e dar início ao que se anunciava.
Enfim o grande dia, programaram o casamento para uma segunda feira, neste dia de pouco movimento os patrões podiam reservar um espaço dentro do restaurante para receber os clientes convidados que participaram da “vaquinha” e os amigos do casal.
Ali então realizou-se as cerimonias civis e religiosas sob a benção dos presentes e da direção da Casa. Nenhum dos noivos possuía parente para estar no dia do casamento, de origem humilde alguns nem ficariam sabendo que houvera um casório se eles não se dispusessem a apresentar-se depois do evento.
E assim foi realizado tendo a noiva ganhado de presente um lindo vestido de noiva, oferta de uma jovem Senhora de abastada condição, que havia também contraído núpcias em passado muito recente.
O salão que normalmente já possuía uma decoração requintada recebeu alguns toques e retoques para que fosse transformado em um santuário. Mesas e cadeiras dispostas possibilitavam a visão de todos os convidados centrados no casal que hora transformavam em juras de amor as promessas de fidelidade e respeito eterno. Flores coloridas enchiam o ambiente de carinho e demonstravam a admiração dos sócios do estabelecimento pelos noivos.
Os companheiros de serviço esmeravam-se no atendimento dos demais convidados, afinal eles também eram convidados e tinham o direito de acompanhar todo o cerimonial que se fazia necessário. Uma segunda feira de festa que por muito tempo foi lembrada no bairro de Ipanema elevando o nome da casa comercial.
A noiva chegou em um magnifico carro sedan dourado, cedido por empresário frequentador do restaurante disposto a mostrar a todos os demais que possuía maquinas lindíssimas para satisfação de todas os sonhos daqueles que estavam presente à festa.
O noivo em um perfeito smoking preto e gravata borboleta mal podia conter-se, ansioso estava para ver a noiva prometida, sendo as alianças trazidas pelo sócio mais velho e sua esposa como um símbolo da admiração pelos jovens nubentes.
Então sob a música tocada por um jovem com trajes medievais em um clarim potente, ela, a noiva adentrou sozinha na igreja sendo aplaudida por todos os convidados no momento em que segurou a mão do homem amado. Cessando então a valsa nupcial e dando início as boas vindas proferidas pelo Padre encarregado da cerimônia religiosa.
Após o que, finda a missa rezada m prol da felicidade não só da dupla mais estendendo-se a todos os presentes uma grande mesa com rendas e flores veio trazida pelos amigos do trabalho para que assinassem o livro do cartório oficializando a cerimonia tendo como padrinhos todos aqueles que presenciaram e colaboraram com a festa.
A festa que se seguiu foi digna dos grandes nomes do meio artístico ou mesmo do esporte. Um conjunto animava a galera, intervalado com DJ de renome e no final com samba das grandes escolas do Rio de Janeiro relembraram os sucessos da década de ouro dos desfiles na Sapucaí. Nunca, em tempo algum uma festa tornou-se tão falada sendo os noivos festejados e lembrados por um bom tempo.
Como haviam combinado, o dinheiro arrecadado serviu para efetuar um grande passeio a terra natal de ambos, incluindo aqui aquela tradicional venda de gravata que cortada em pequenos pedaços produziu uma renda realmente volumosa que permitiu a viagem em grande estilo dos jovens.
Em Fortaleza o casal ficou na praia de Iracema, bem próximo da estátua que dá nome ao local, onde uma imensa índia faz um esforço para dar ao arco a forma de utilização em batalhas ou caças necessárias a manutenção da família.
Era urgente visitar o Beach Park, fruto dos sonhos dos interioranos que como eles sonhavam em conhecer as delicias e atrações cantadas em prosa e verso como descomunal e cujo poder aquisitivo sempre seria impossível para aquela gente. Era tirar muitas fotos para levar para a família e amigos nas cidades que fossem visitar.
O que não faltava eram atrações para curtir aquilo que a memória afetiva há muito tempo vislumbrava, praias, restaurantes, brinquedos para jovens e casais em lua de mel. Tudo era um sonho que se realizava. Ele poderia lembrar de um show onde um clone do saudoso Luiz Gonzaga entrava no restaurante com seu violão cantando Asa Branca e com gibão de couro apresentou entre as mesas dos turistas que aplaudiam, diversas outras canções que faziam sucesso em todo o país.
Era para o casal uma visão do paraíso, podendo ver e tocar aquilo que a vida sofrida deixava saber, mas não permitia desfrutar.
Ali então durante quatro dias se sentiram Reis e puderam gozar as maravilhas de ser do Nordeste.
Partiram para suas cidades, primeiro para conhecer e apresentar aos pais dela e seus irmãos o noivo que conhecera no Rio de Janeiro e que agora seu marido.
Entraram em Juazeiro do Norte e foram para a Paroquia de Nossa Senhora das Dores onde marcado com antecedência puderam estar todos os familiares de Francisca – a China, rezar uma missa de agradecimento e rever aquelas pessoas que fora obrigada pela vida dura a deixar para trás.
Muitas casas para visitar, irmãos, tios e tias para abraçar, sobrinhos para conhecer e promessas para pagar e fazer para aquele povo humilde, que mesmo querendo muito, não poderia ajudar da maneira que gostaria de realizar.
Depois de muito choro recheado de alegria, recordações e descobertas era hora de partir para a cidade do noivo. Não tão distante como imaginavam, mas que a vida não facilitara o encontro, deixando para o Rio, em Ipanema a milhares de quilômetros a oportunidade de aceitar que o destino assim os apresentasse.
Estavam agora em Antonina do Norte, terra de seus pais e irmãos, lugar onde o velho Rosmarinho ainda dava as ordens, trabalhando para a Prefeitura, carregando material e ajudando nas obras da cidade, onde ele já não dependente do incerto tempo e das temperaturas locais produzia com outros caminhões de menor porte o trabalho que sustentava a família oficial e aquela que em Araripe todos sabiam existir mais que não ousavam falar na frente do patriarca.
Marcaram então na praça da Prefeitura da cidade ao redor da estátua de Santo Antônio de formas que todos pudessem estar lá no horário combinado e em procissão pudessem ir à Igreja para os agradecimentos de saúde, paz e bem-aventurança aos noivos.
A Senhora Mãe de todos os filhos, ainda vivos e trabalhando com o pai ajudando no progresso da cidade. Haviam construído bancos de cimento na mesma praça, onde de um lado se via o nome da empresa patrocinadora e do outro o nome do benfeitor e idealizador, preconizando que em breve seria ele, candidato à Prefeitura local - Senhor Doutor Rosmarinho Anacleto Perfeito.
Mais uma vez, muito choro de alegria, recordações e promessas de apoio as pretensões do pai e em romaria seguiram para a Igreja da mesma praça onde o Padre João Verde apoiador do então futuro candidato rezou missa especial para família e seus seguidores políticos.
Desdobraram-se em visitas aos familiares, participaram de festas, eventos e quermesses que enalteciam as prerrogativas e intenções políticas do velho agricultor agora funcionário da Prefeitura e candidato a supremo mandatário na região.
E estava na hora de voltar para o Rio de Janeiro, para a nova casa, ou apartamento no Edifício Urussanga onde haviam construído o ninho de amor.
Ao desembarcar no Aeroporto do Galeão, ele observou o ir e vir de motoristas de carros particulares no afã de identificar e levar os passageiros que chegavam. Os motoristas portavam placas com nome para identificação dos passageiros e isso fez com que ele ficasse admirado da engenhosidade e presteza na realização da tarefa. Os profissionais na maioria em terno e gravata passavam a ideia de pessoa distinta e simpática.
O casal então dirigiu-se a um ponto de embarque de taxi e na cabeça do jovem ficou a imagem de que ele poderia também estar pegando seus passageiros e levando-os ao destino programado.
Cariri lembrou das palavras do amigo que enaltecia a profissão de motorista em carros particulares e começou ali mesmo a desenhar em sua mente a compra do carro e o atendimento que poderia oferecer a seus futuros clientes.
Perdera então a vontade de servir em restaurante as comidas japonesas que aprendera a fazer e arrumar em pratos coloridos e apetitosos. Aquilo que era um trabalhar tranquilo e delicado transformara-se em um fardo para carregar durante a tarde-noite e as madrugadas.
China continuava em sua lide diária de faxina e atendimento as madames acumulando simpatias com as clientes da casa.
Nas horas de descanso Cariri gostava de folhear anúncios de carros de luxo para o exercício da profissão que pretendia abarcar em breve.
Procurava se informar com pessoas que já trabalhavam no ramo e as informações vinham sempre carregadas de entusiasmo favorecendo a formação de ideias sempre favoráveis a nova profissão.
Os dias passando e Cariri cada vez menos entusiasmado com a profissão de Sushiman e daí para o esquecimento das coisas conseguidas, das amizades feitas e das realizações formou-se a ingratidão não reconhecida e o desejo de traçar novos caminhos.
Das conversas com Chica ficavam apenas as contradições e aborrecimentos, já que cada vez mais ele via com bons olhos a nova vida que poderia estar levando. Com certeza, recebimento maiores e uma vida cheia de novidades diárias. Chegou a sonhar com a esposa em casa cuidando dos filhos, tal qual sua mãe fazia vivendo exclusivamente para os filhos e para aquele homem que a tirara de uma vida com certeza miserável e sofrida.
Nestas horas podemos avaliar quanto vale a presença ou mesmo a ausência de um pai. Aquele herói que fabricamos sem que o mesmo tenha feito nada para conseguir tal título.
Me lembrei de uma frase ouvida ainda criança que moldara para sempre minha vida. Uma ocasião tive uma atitude rude com minha mãe que me chamara a atenção por uma falta cometida e ela justificou chamando-me a atenção dizendo: - Você é igualzinho a seu pai...não tem jeito, filho de peixe peixinho é....
Na cabeça dela, isso seria uma correção para os acontecimentos, porém, na minha, essa frase funcionou como um incentivo sabendo-se que esse seria o ideal a ser conseguido; ser igual ao velho pai. E assim, um sorriso disfarçado se fez presente nos lábios daquele eu menino.
Idealizara então um determinado tipo de veículo que acompanhando os conselhos do amigo Teobaldo certamente facilitaria a procura dos clientes em atendimento.
O carro um Sedan preto com bancos de couro também da mesma cor, grande e largo para que coubesse quatro passageiros confortavelmente sentados.
Idealizara um serviço de bordo como haviam visto em filmes e no atendimento presenciado nas noites de dias da semana em jantares de negócios que sempre ocorriam no Restaurante com jornais, balas e drops para agradar a clientela.
Enfim comprara o carro ideal e saía com Francisca para uns finais de semana buscando familiarizar-se com o veículo e com a forma ideal de atendimento e presteza.
Quando se julgou apto a iniciar o serviço, vinculou-se a uma organização de carros de serviço em aplicativos e decidiu que começaria essa nova lida em horários alternativos nas folgas semanais.
Assim fez e tudo parecia maravilhoso, já não havia mais mal humor ou cansaço. As coisas pareciam se encaixar e o entrar de serviços e solicitações de atendimento cada vez mais pareciam mostrar uma nova e promissora carreira. Afinal seu velho pai, saíra do interior pobre e cheio de problemas e voltara carregado de bens, pudera até comprar um caminhão que mudara não só sua vida, como a vida de seus filhos e da mulher, dando-lhes uma nova e grande casa.
Assim se passaram vários meses até que o cansaço o chamasse para uma decisão de vida, tendo que optar por uma das profissões e dispondo-se a abandonar a outra, uma encruzilhada de escolha marcada, tendo-a já efetuado em seu coração, faltando-lhe apenas a coragem de decidir em definitivo que vida queria levar.
Ainda contra a nova vida, Chica enciumada procurava dissuadi-lo, mas não encontrava argumentos sólidos já que tão somente via barreiras de não ter mais ao seu lado no dia a dia da labuta a presença do homem que a conquistara.
Carro novo, aquele cheirinho peculiar próprio, as novidades da nova vida, as conversas com os passageiros sempre educados, cheirosos e bem vestidos, tudo fazia crer haver descoberto uma nova vida.
Resolvera então pedir demissão do emprego de Sushiman para dedicar-se exclusivamente ao que considerava sua definitiva existência. A mulher, os amigos de labuta, a turma do futebol, quase todos procuraram fazê-lo desistir da ideia, porém a falta de argumento da galera impressionantemente o empurrava cada vez mais para a nova vida.
Procurou então seu patrão, aquele mesmo que o admitira no passado ao ver tamanha desenvoltura e expos aquilo que agora almejava.
“Seu” Haroldo ouviu o jovem, ponderou os perigos da profissão e as implicações que iriam advir, porém também não conseguiu alcançar as razões daquele quem ele sempre apostara para um atendimento perfeito, preocupava mais que tudo a necessidade de ter que procurar outra pessoa para aquela função.
Tinha ao longo do tempo treinado alguém para uma função peculiar e com certeza teria que começar tudo do zero, treinando, vestindo e aconselhando um novo jovem, que provavelmente também acabaria dando certo, mas que com certeza implicaria em aborrecimentos e reclamações dos clientes mais fiéis.
O Restaurante não tinha ninguém em preparo como havia acontecido com o menino Cariri, aquilo havia sido um achado que se encaixara no tempo e nas necessidades da época.
Agora eram outros tempos e teriam que procurar alguém já experiente e engajado na função, o que com certeza traria mudança de paladares e hábitos já enraizados nos clientes que gostavam e confiavam naquele jovem.
Servia com o automóvel a uma classe mais abastada e de poder aquisitivo altamente qualificada. Conversando com outros proprietários de menor porte começou a descobrir a dura vida e as ilusões de outros motoristas.
Arrependido, começou a conversar com a esposa sobre a volta as funções no restaurante. Ela já não gozava tanto da fama angariada junto aos clientes e patrões. Os tempos haviam mudado e como diz o ditado: “longa vida ao Rei” – aquele que se retira, permite espaço ao novo monarca – rei morto, rei posto.
Cariri havia abandonado não só os patrões e clientes, havia abandonado principalmente os amigos achando que estava em um plano superior ou melhor, em outro patamar.
Descobriu que ganhar dinheiro com transporte de pessoas era uma enganação, alto consumo de combustível, os problemas de manutenção caras levavam todo o esforço em conseguir passageiros. Quando tudo parecia bem, uma peça nova para o carro ou uma arranhada, uma multa, tudo era motivo para levar a féria do mês inteiro.
Tentou então conversar com o Senhor Haroldo e descobriu que não tinha mais chance de voltar, criara em seus antigos patrões uma rejeição que viria a atingir inclusive sua mulher em funções que eles poderiam efetuar mudanças criando uma nova empatia das Madames com novo rosto e simpatia.
Agora eram dois desempregados e as marcas criadas provocaram uma decepção que se não era admitida também não produzia o efeito necessário ao perdão.
Mal dizia o momento que havia seguido os conselhos do amigo que agora compreendia estar em uma situação menor do que a que ele possuía, não tendo nenhuma condição de lhe oferecer conselhos e a tomar diretrizes que não possuía.
Como diria minha santa mãezinha: - “ se conselho fosse bom, vendia-se a peso de ouro”
Estava agora ali ao meu lado com o coração apertado e sem esperanças de voltar a vida que perdera. Tentava juntar os cacos e descobrir onde começara a errar. Um recomeço parecia estar tão distante. Havia queimado etapas que agora faziam uma falta descomunal. Entendia que a amizade nem sempre te faz aceitar conselhos e condutas. O que pode ser bom para uns nem sempre será bom para todos. Sabia das boas intenções do amigo a época, porém aprendera os efeitos de uma forma muito dura e cruel e que de boa intenção o inferno está cheio, repleto ao extremo.
Agora, choroso vendo que havia jogado no lixo as oportunidades de uma vida melhor, que conquistara e perdera, que por ilusão, acreditara nas palavras de um amigo tão ou mais inexperiente que ele mesmo, deixara escapar a chance de sua vida, desabafava agora com um estranho as suas agruras.
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