Helenice Andrade Nogueira

  • Feminino
  • Brasil / São Paulo
  • Brasil / Cafelândia
  • professora
Ano 1971

Será que chego nos cem?

data (ou período): Ano 1971 Imagem de:Helenice Andrade Nogueira

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Será que chego nos cem?

personagem: Eu e minha avó Belizária.
historia: Será que chego nos cem?Se você foi à cidade de Aparecida do Norte, por volta de trinta anos atrás, você deve ter uma foto como essa, inclusive com o mesmo fundo. Nesta praça da Igreja velha da cidade havia um fotógrafo daqueles antigos, com aquelas máquinas “lambe-lambe” que parecia um caixote. Tinha também aquele pano preto, embaixo do qual ele focalizava as pessoas e, depois, saía e puxava a cordinha. Do lado tinha um varal onde ele colocava as fotos para secar. Eu já vi em vários álbuns de família uma foto dessa, onde só mudam as personagens. As personagens desta foto sou eu e minha avó Bela, mãe do meu pai. Eu tinha quinze anos de idade, ela, então, sessenta e oito. Vó Bela morava no interior de São Paulo e tinha vindo para a capital para que alguém a acompanhasse até Aparecida do Norte, onde deveria pagar uma de suas promessas. Era segredo. Segundo meu pai, muito brincalhão, ela inventava de pagar as promessas bem longe de casa só para poder passear. Ela sorria meio sem graça, portanto, acho que tinha um pouco de verdade naquilo. Eu, que já era uma “mocinha”, fui encarregada de acompanhá-la, o que me deixou muito envaidecida. E lá fomos nós, de ônibus. Logo que chegamos era só alegria, fomos à Igreja velha, rezou, rezei, acendemos velas e saindo ainda tiramos a tal foto. Quando achei que dali pra frente era almoçar e voltar pra casa começou o meu calvário. - Que nada, ainda não paguei a promessa. - disse ela. Foi aí que fui informada que a promessa era atravessar a ponte que ligava a igreja velha e a nova em construção, nove vezes, logicamente à pé, rezando um terço em cada ida e volta.. - Tudo bem, então vamos. – eu disse pensando no sapato novo que eu estava usando e que não era um “andarilho do bem”. A última vez que eu o tinha calçado, me brotaram três bolhas daquelas bem doloridas, as quais eu tive que curtir por toda a semana. Mas, eu tinha que cumprir a minha missão. A primeira travessia foi fácil. Na segunda, o Sol já parecia ter aumentado de tamanho, posso jurar que ele encostou em minha cabeça. O pé, que até então estava protegido por um estado letárgico automático de proteção anatômico-fisiológica, começou a dar sinal de vida. Mas eu fingi que não era comigo, e continuei andando. A minha esperança era que a “vó” Bela também ia querer desistir na terceira, então eu me distraí juntando argumentos para encorajá-la a se desincumbir da promessa. - “Deus já viu o teu esforço vindo até aqui hoje.” - “Hoje está muito Sol, o esforço é dobrado.” - “Considerando que eu não tinha promessa para pagar e estou andando junto, então dá para dividir por dois.” - “Nada impede que a gente venha um outro dia, menos quente, para terminar de cumprir a promessa.” Enquanto eu ocupava minha mente com essas tentativas de interromper o calvário, eu a ouvi dizer: - Ainda bem que o tempo está bom hoje. Eu temia que tivesse que cumprir a promessa na chuva. Aquilo foi um balde de “chuva” fria nas minhas esperanças. Olhei para ela e não vi nenhum sinal de cansaço. Incrível E ela usava um saltinho O jeito era continuar juntando créditos de bênçãos e ir até o fim. A quarta vez parecia que eu ia precisar de uma ambulância, o que seria um vexame e por isso me segurei em pé e com saúde, na medida do possível. Da quinta vez em diante, não era mais eu que estava ali, mas um corpo do plano superior, que deslizava naquela ponte, daqui pra lá e de lá pra cá, completamente alheio a tudo, às bolhas principalmente. Eu não tinha mais gotas de suor para andar. Vocês não vão acreditar, mas chegou uma hora que aquilo acabou. - Pronto, agora acabou. Quer passear mais um pouco ou vamos embora? – perguntou minha avó e ela não estava ironizando, parecia que teria pique para mais umas caminhadas. Talvez fosse aquele terço que ela rezava enquanto andava, que deu uma força extra. Não era possível Eu creio que não agüentaria o peso do terço. - Vamos embora que está ficando tarde. – eu disse tentando parecer normal. Dormi no ônibus como nunca em minha vida. Depois que cheguei em casa fiquei sabendo que o pneu do ônibus tinha furado, esperaram mais de uma hora até consertar, fizeram amizade com os outros passageiros e até “rolou” um lanche comunitário. Depois disso eu decidi que iria fazer atividade física regular para não passar mais por isso. Fiz e refiz esta promessa pra mim mesma, várias vezes e não cumpri nenhuma. Não sou boa para cumprir promessas. Até hoje sou muito preguiçosa para grandes caminhadas e a minha avó Bela viveu, e com ótima saúde, até os cento e dois anos de idade.

período: Ano 1971
local: Aparecida Do Norte - São Paulo-sp
tipo: Fotografia