Museu da Pessoa

Um feminismo Indígena

autoria: Museu da Pessoa personagem: Watatakalu Yawalapiti

PCSH_HV756_ Watatakalu Yawalapiti

Entrevista de Watatakalu Yawalapiti
Entrevistado por Jonas Samaúma
São Paulo, 16 de abril de 2019
Projeto Wurayu Mutayala-

Histórias /indígenas nomeadas pela watatakalu
Entrevista do conte sua história hv_756 e para o projeto Histórias Indígenas- Entrevista número um
Transcrita por Selma Paiva


P/1 – Bem-vinda, Watatakalu! Você pode falar, então, um pouco o seu nome e um pouco da história do seu povo?
R – Meu nome é Watatakalu Yawalapiti, do povo Yawalapiti. Meu povo está no norte do estado do Mato Grosso, no Alto Xingu, território indígena do Xingu, que a gente fala. O nosso povo é uma das etnias com a menor população da região do Alto Xingu. A gente fala língua aruak, né? E o meu povo veio... eu conheço muito meu povo, assim, da história dos meus avós, né, do meu avô... Com o contato do homem branco veio a doença do homem branco também. Então, o Xingu, a região toda, né, vários povos morreram. Na época o meu povo era muito pequeno, né e a minha família, o meu bisavô foi assassinado, porque as outras etnias achavam que meu avô que estava fazendo feitiço. Meu bisavô, né, fazendo feitiço. Na verdade, não era. Era sarampo. (risos) Era doença do homem branco, que matava todo mundo e ele foi acusado de feitiçaria, né? E o mataram.
P/1 – E por que falaram, acharam que vinha dele? Você sabe?
R – Eles achavam que nosso povo tinha esse conhecimento muito forte de feitiçaria, das plantas. E como ele era muito famoso, por ele ser dono desse conhecimento, ele foi acusado, sem os povos saberem que aquela doença veio com o homem branco, né? E quando ele morreu, a aldeia do nosso povo acabou. E então meu avô e os irmãos deles afirmam que todos se dispersaram, né? Cada um foi pra uma aldeia, as pessoas que tinham contato com os pais dele os levaram e cuidaram deles. Então, eles cresceram em outras aldeias, né? E quando aconteceu a expedição dos Villas Boas o Ananu conheceu meu avô. Meu avô tinha essa facilidade de lidar com os jovens. Ele era muito liderança, assim. Ele não era daquela etnia, ele estava morando na aldeia Kuikuro e ele não era liderança daquela etnia. Mas ele era muito respeitado, porque ele era filho de liderança de uma etnia que não existia mais a aldeia, né? E falava mais de uma língua indígena. Então, o Orlando achou que aquele jovem era muito inteligente e que ele ia conseguir ajuda-lo naquela região. Então, meu avô foi junto com ele. Ele convidou meu avô e foi junto com ele, né? Essa é uma história que a minha avó me contou e eu já sabia da história da nossa família e tal. A gente cresceu ouvindo isso. Mas nos últimos anos eu quis perguntar isso de novo pra minha avó, o lado da história da minha avó. Então, ela confirma tudo isso. E quando eles chegaram, a expedição chegou na região onde vivem os Kamayurá, os Yawalapiti, bem no meio ali, o meu avô conheceu a minha avó. Minha avó Tepory, que era filha de um cacique Kamayurá com uma Mehinako. E ela tinha acabado de se casar. Era um casamento arranjado. Mas o meu avô se apaixonou por ela. Diz que ele falava assim: “Eu queria muito casar com ela”. Então, ele contou essa história para o Orlando também. O Orlando deu a ideia pra ele: “Por que você não rouba ela?” O meu avô adorou a ideia. (risos) Até aí eu sabia dessa história, de como aconteceu. Então, até aí, a gente não tinha aldeia. E meu avô gostou da ideia e combinou com uma parente da minha avó. Minha avó fala que era de noite e veio uma moça chama ela, falou pra ela: “Nosso pai está te chamando”. Nosso pai era o Orlando. Aí, minha avó foi. Quando chegou lá, não era o Orlando, era o meu avô, falando pra ela que ele tinha vindo buscá-la. Ela ficou muito surpresa, né? Ela falou: “Mas eu acabei de me casar, eu não posso ir embora com você”. Aí meu avô falou pra ela que ele ia querê-la mesmo assim, que ia fugir com ela. Então, a minha avó aceitou. Até brinquei com ela: “Vó, você resistiu assim?” E ela: “Resisti” “Como é que foi? Você deu assim: “Não quero, não quero” (imitando que se entrega) e aí você foi junto?” Aí ela: “É, mais ou menos”. (risos) Então, minha avó fugiu com ele, na época, né? E, nisso, o Orlando já tinha ido para um lugar chamado Base Jacaré, onde teria feito a base da Aeronáutica, na época. Então, eles remaram a noite inteira e só no outro dia que chegaram no mesmo lugar. Eles chegaram umas seis e meia, sete horas, assim. Ela falou que estava escurecendo. Aí, disse que a comitiva dos Villas Boas estava jantando e que, quando eles chegaram, todo mundo levantou e começou a bater palmas, porque meu avô chegou, porque meu avô fazia parte da comitiva deles também. E aí todo mundo bateu palma e minha avó não entendeu por que era, por que eles estavam batendo palmas. Ela falou bem assim: “Eu até fiquei com raiva quando eles bateram palmas pra mim. Eu achava que eles estavam debochando de mim” (risos) Aí eu expliquei pra ela: “Quando alguém bate palmas, vó, é porque eles estão aplaudindo, estão gostando”. Expliquei na nossa língua, assim, como funcionava. Aí ela: “Ahhhhhhhh”. Então, o pai dela a quis de volta, porque ela era casada e o Orlando ajudou nessa negociação, né, de aceitarem meu avô e de desfazer o casamento da minha avó com o outro. E assim meu avô casou com a minha avó e o Orlando os ajudou a fazer uma nova aldeia para os Yawalapitis. Por isso que criaram, a primeira aldeia, do lado do Posto Leonardo Villas Boas, lá no Alto Xingu. Uma aldeia chamada Amakapuko, onde eu nasci, só que hoje a gente chama de Aldeia Velha Yawalapiti. Então, o meu avô trouxe as irmãs, os irmãos, todo mundo voltou e fizeram uma pequena... diz que tinha uma oca lá. Era uma mini aldeinha, assim, de família. E, com o tempo, dessas famílias, era meu avô, o irmão dele, a irmã, outra irmã, outra irmã, o primo, outro primo e outro primo. Então, era família de sete homens. Só que nem todos eram casados, só meu avô e o irmão dele, que era casado primeiro. Ele tinha um irmão mais velho e meu avô era o segundo irmão.
P/1 – Aí, quando seu vô conheceu sua avó, eles foram pra essa aldeia, eles viviam como? É em aldeia, mesmo?
R – Eles viviam em aldeias de outras etnias, né? O meu avô vivia no kuikuro, o irmão dele vivia na aldeia mehinako, outro na aldeia waujá. Os primos dele estavam vivendo em outra aldeia. Então, quando eles ficaram adultos, com 18, 20 anos, que aconteceu esse processo todo. Então, quando eles reuniram, eles eram jovens, né, querendo reconstruir a aldeia do povo deles, né? E aí surgiu esse casamento e então, o primeiro que teve filho foi o meu avô, o segundo irmão da família. Então, quando ele teve filho, que é o meu tio Aritana hoje, que é o nosso cacique, o nosso líder maior, ele teve, ao invés do filho do mais velho ser cacique, ficou esse papel pro filho do segundo filho. Não sei se eu estou confundindo a cabeça de vocês.
P/1 – Explica um pouquinho melhor.
R – Tinha o meu avô, o Sariruá e tinha meu avô Kanato, né? O Sariruá era o mais velho e o Kanato era mais novo. Se o Sariruá tivesse o primeiro filho, era o filho do Sariruá que era pra ser o nosso cacique. Mas ele não teve filho primeiro. Quem teve filho primeiro foi meu avô Kanato, né? Então, nasceu meu tio Aritana, depois nasceu meu pai. Só depois do meu pai que nasceram os filhos do meu outro avô, né? Então, eles já tinham dois herdeiros, que falam, né? Então, os dois já eram líderes automaticamente, a partir do momento que eles nascem.




P/1 – Então, seu pai já nasceu líder?




R – Meu pai já nasceu cacique, meu tio Aritana já nasceu cacique, né?
P/1 – Você podia contar um pouquinho de como foi a trajetória do seu pai? Eu sei que é muita coisa, mas o que você achar importante de deixar preservado, assim. Que seu pai foi, realmente, um símbolo.
R – Sim. O meu pai foi preparado junto com meu tio Aritana, né? Como a minha avó era Kamayurá, a minha avó era irmã do cacique Tacumã. Então, quem preparou a educação que o meu tio Aritana e meu pai tiveram, era uma educação tupi, dos kamayurás, porque eles se ofereceram pra educa-los, pra passar de como liderar o povo, né, junto com o meu avô que é o Kanato. Meu avô Kanato. Então, os kamayurás fizeram toda a parte da preparação deles. Eles os colocaram em reclusão; eles que ensinaram como liderar o povo; eles que ensinaram serem lutadores de huka-huka, porque eles tinham esse conhecimento também de plantas que fazem fortalecer o corpo, que eles praticavam essa luta corporal, que vários homens podem conquistar a sua posição sendo lutadores de huka-huka também. Então, eles ensinaram tudo para os dois, né? Então, tinha meu tio Aritana e o meu pai, né? Meu tio Aritana ficou na aldeia sempre, ele nunca sai da aldeia, só se tiver acontecendo mobilizações gigantes ele vai. Mas o meu pai, além de ser um líder, fazia essa ponte do mundo não indígena com o nosso povo, né? Mas o meu pai nunca falava que era cacique. Ele sempre dizia: “Eu sou um líder”. Ele sempre falava isso: “Cacique é seu tio. Eu sou um líder. Eu vou lutar diferente. Eu quero levar, brigar pelos territórios, eu quero que isso fique um dia na História. E o seu tio vai ficar aqui pra manter os nossos costumes, porque a gente precisa, porque eu indo conhecer o mundo do branco, alguém precisa ficar aqui, pra cuidar da aldeia, pra manter, pra fazer, porque não pode faltar um cacique dentro da aldeia. Quando o cacique sai, tem que ter outro”. Então, tinha os primos dele também, que davam essa base pra ele. E o meu pai começou, então, participar do movimento indígena. Só que ele ia sozinho. Ele falava assim porque o Orlando falava pra ele: “Eu vou ensinar você, eu vou pedir pra alguém te ensinar a ler e escrever, porque eu quero que você seja, um dia, embaixador do Xingu”. Ele sempre falava isso pra ele, né? Ele falava: “O Orlando falava isso pra mim, que eu tinha que enfrentar os brancos e escrever, aprender, pra defender o nosso povo” - é como se eu não sei falar em português, assim... como é que fala? - “eu enfrento os brancos e o seu tio continua enfrentando tudo isso, mostrando pro branco que ele não precisa escrever ou mexer com papel, conhecer, estudar, pra ele ter força”. Então, meu pai achava que ele precisava conhecer as coisas do homem branco, né, pra somar força com o irmão, né? Ele achava que ele precisava defender o irmão também contra várias pessoas que usavam a imagem do meu tio, né? Então, tinha brancos que se aproveitavam, mesmo, dele, tinha muito, o carregava pra lá e pra cá, né, assina aqui e meu pai falava: “Não pode assinar, sair assinando assim. Tem que ver o que esse branco quer”, né? E muitas vezes meu pai era visto como chato, né? Por quê? Porque ele queria preservar a imagem do irmão, né? Quando aconteceu a construção do PCH Paranatinga, onde barraram nosso rio, várias pessoas levaram a negociação direto pro meu tio e as pessoas que sabiam que meu pai ia dizer não deixavam meu pai sem saber dessa história toda, né? Porque meu pai falava: “Isso tá errado. Se a gente aceitar a barragem, no futuro os nossos filhos não vão ter peixe, né? Barrar os nossos rios vai secá-los. Vender madeira não é bom. O branco só quer destruir”. Ele vinha muito com essa coisa do que o branco estava fazendo com a gente. E na aldeia, como a gente não tinha internet na época, essas coisas, muitas vezes ninguém acreditava nele: “Está inventando. O branco não vai fazer isso. O branco diz que não faz mal pra índio”, né? Porque naquela época não tinha internet e o branco que ia lá dizia que estava fazendo coisas boas, né? E várias coisas aconteceram, mas eu acho que o meu pai fez isso pela nossa causa, mesmo, sabe? Tenho certeza que, se ele estivesse vivo, ele ia fazer de novo, não ia se arrepender de fazer tudo de novo.


P/1 – O que ele fez? Qual foi a luta dele, assim? O que ele construiu na vida dele?
R – Então, ele foi funcionário da Funai, né? Ele trabalhava de voluntário muito tempo, porque ele queria aprender, levar para o xinguano essa coisa de defender a terra. Tem que ir contra o que o governo faz pra gente. Então, ele que começou o movimento indígena no Xingu. Então, hoje, se vários indígenas participam do movimento, é porque ele abriu esse caminho pra gente, né? Ele também fazia a divulgação, né? Ele valorizava muito essa questão da divulgação da cultura indígena. Ele era muito todo: “Não pode ser assim. Você tem que manter a nossa cultura. Você tem que se pintar. A nossa roupa é isso”. Ele sempre falava isso pra gente: “O nosso cabelo, a nossa língua, isso é tudo a nossa identidade”. Ele sempre falou isso pra gente, né? E se, hoje, a gente defende isso, porque ele ensinou isso pra gente, né? Eu não sei, assim, ele é meu pai, então eu sou meio suspeita pra falar sobre ele.




P/1 – Qual que é o nome dele?


R – Pirakumã Yawalapiti.
P/1 – Mas depois você conta uns causos, alguma coisa que você viveu com ele, né? Mas já deu pra entender. Você quer contar um pouquinho da sua mãe, antes de contar como você nasceu?
R – (risos) Tá bom. Eu sou a segunda filha, né, da minha mãe. Eu tenho um irmão mais velho, eu sou a segunda filha. Minha mãe fala que ela foi pra roça barriguda, carregando peso, um cesto cheio de mandioca. Aí, quando viu, ela estava ralando, preparou um mingau de tarde e, quando terminou, ela foi pro rio, né? E, no meio do caminho, começou a sentir as contrações. (risos) Então, a distância do rio até a aldeia dá mais ou menos um quilômetro e meio. Então ela foi, no meio do caminho sentiu e voltou e aos poucos foi. Diz que ela chegou em casa, assim, já armaram a redinha de parto, né, que tem todo o ritualzinho de parto e eu nasci muito rápido, assim. Ela fala que eu não dei trabalho pra ela na hora de nascer, né? E minha mãe é Mehinako, também tem a mesma história que a gente, o avô dela Mehinako, a avó é Waujá e meu pai a conheceu e a pediu em casamento. Ela ainda estava em reclusão. Então, ela casou muito nova com meu pai. Ela não foi aceita pela minha avó, minha avó não a aceitava, mas o meu pai a queria muito e então meu pai não traduzia as coisas que falavam dela, né? (risos) Falavam: “A gente não a quer”. Arrumaram esposas pro meu pai, pra ver se ele não ficava com a minha mãe, mas o meu pai não quis as outras esposas, né? E enfrentou tudo. E minha mãe fala que foi uma época difícil, assim, pra ela, mas também que aprendeu muito, né? Porque quando ela veio pra família, como a gente era muito pouco, as minhas tias não têm essa coisa de liderar mulheres. Então, quando chegaram as noras do meu avô, ele as colocou como líderes. Então, a minha mãe e a esposa do meu tio Aritana, enquanto a gente não crescia, quando a gente era criança, elas eram as líderes do povo Yawalapiti. Então, elas são muito respeitadas pelo nosso povo, né? Mesmo a minha mãe não morando hoje na aldeia Yawalapiti, nosso povo tem um respeito muito grande, minha família tem um respeito muito grande por ela. Muitos anos ela era pajé do nosso povo, quando morava lá, então teve gente que falou assim: “Eu não sabia que sua mãe era Mehinako, eu achava que sua mãe era Yawalapiti. (risos) Quando seu pai faleceu e aconteceu isso tudo, sua mãe volta pra aldeia Mehinako e só hoje eu fiquei sabendo porque eu não moro numa aldeia mehinako”, né? Então, porque ela é Mehinako.








P/1 – E você não é Mehinako?




R – Não sou mehinako.
P/1 – Mesmo sua mãe sendo mehinako, você não...
R – Não sou mehinako, né? Porque a gente acredita assim: que tudo que a gente aprende, desde criança, é o que a gente é, né? Então, eu aprendi todo o costume, aprendi costume aruak, do meu povo e do povo da minha mãe. Porque Mehinako também é aruak. Então, a nossa família é toda aruak. A família dos irmãos do meu pai não são aruaks. Porque as esposas são karibs, tupis. E eles têm o costume karib de outras etnias. No nosso povo só a nossa família tem o costume aruak. Eu falo mais de uma língua aruak: falo língua mehinako, waujá também e yawalapiti. E isso foi muito forte pra mim porque, quando eu era criança, até a minha adolescência, né, até mesmo depois de adulta, eu não falava a minha língua. Eu falava a língua da minha avó, da minha mãe, outras línguas, falava tupi karib, mas não falava a minha língua. Porque meu pai não falava comigo na língua. Ele falava a língua da mãe dele comigo.
P/1 – E o que te fez buscar a aprender essa língua?






R – Meus filhos. Porque quando a minha filha nasceu, caiu a ficha: “Opa, o que é isso? O que eu vou fazer agora? Com qual língua eu vou falar com ela, né?”. Então, meu marido teve uma participação muito forte, assim, porque ele também... eu já estava pensando isso comigo, sabe, aí, depois, no segundo dia, ele falou pra mim: “E agora, o que você vai fazer? Você já escolheu qual língua você vai falar com sua filha?” Ele me deu, sabe? E eu falei: “Nossa, eu vou falar a minha língua. Eu vou falar yawalapiti”. Ele: “Como? Eu falei: “Eu não sei, mas eu vou começar pelo meu pai. Meu pai vai me ajudar, né?”. Então eu conversei com meu pai, pedi ajuda pra ele, né, falei pra ele: “Eu quero muito falar a nossa língua e eu quero a sua ajuda”. E ele: “Como é que você quer?” Eu falei: “Eu quero que você escreva tudo, eu vou escrever tudo, vou fazer uma colinha com a língua yawalapiti e mehinako, pra eu entender, né e português, pra eu conseguir traduzir. Eu preciso do mehinako, pra eu conseguir traduzir pra português, né? Porque se eu coloco só yawalapiti, eu não consigo traduzir também para o português. Porque eu preciso entender qual que é, porque existem algumas palavras que são parecidas, né? E aí eu comecei a falar e comecei a praticar, né? O som da palavra é igual o Yawalapiti, do Yawalapiti, Mehinako e Waujá. Então, foi assim: comecei a escrever tudo na língua e comecei a praticar com a minha filha. Ela bebê, ainda. Ela tinha nem um mês. E foi indo. E como não existiam crianças que falavam a nossa língua, eu comecei a isolar a minha filha de todo mundo, né? Eu não deixava ela escutar outras línguas. E a minha filha foi crescendo, crescendo e ela começou a falar, né? Quando eu fui ver, eu já estava falando com ela, né, eu não tinha mais aquela coisa presa, assim. Parece que eu entendi, já estava aprendendo, conseguia falar, já, os sons, mas tinha um negócio que me segurava. Eu tinha vergonha de falar, sabe? E isso acabou, passou, assim. Então eu comecei a trabalhar em cima disso, comecei a escrever, a escrever, a escrever, né e hoje minha filha tem dez anos, é a segunda filha, né, que eu tenho outra filha do meu primeiro casamento.




P/1 – Quando você nasceu, quais são as suas primeiras lembranças que você tem de você crescendo? O que você lembra das memórias mais antigas?
R – Eu era a neta mais velha. (risos) Então, muitas coisas eu não podia, né? Por ser a neta mais velha, como meu tio Aritana era o filho mais velho, eu também tinha esse papel, de ser a neta mais velha e de ter que me preparar pra liderar meu povo, as mulheres, né? Então, nós fomos escolhidas pra ser essas mulheres. Então, eu era a primeira, aí tem uma prima minha, aí o que aconteceu? A gente foi dividida por irmãos e primos, né, dos nossos pais. Então, era eu, uma filha do meu tio Aritana, que tem quase a minha idade, ela é mais nova do que eu e tinha uma outra prima. A terceira era nossa prima, que é mais velha do que eu, mas ela é filha do filho do irmão do meu avô, a que teve filho depois, do meu avô.
P/1 – Como é que transmitiram pra você que vocês eram escolhidas?
R – Quando a gente nasceu, já é isso tudo. A gente tem essa coisa: você é filha... desde pequena eu escutava, até me dava – eu tenho um problema sério com isso, sabe?

Me dava um negócio na barriga, assim, tipo um negócio ruim, parece que a gente está carregando alguma coisa pesada, sabe? Todo mundo falava: “Ah, elas são líderes, elas são lideranças”. Desde pequena a gente escutou isso. E a mulher tem um processo, né, de como passar isso. Todos os rituais que aconteciam eles dão cadeiras, são três bancos, assim, que eles colocam pra você levar e representar o seu povo. Então, eu sempre estive no meio, sabe? O meu pai ensinava, minha mãe veio também de uma família de líderes do povo dela, então eles me ensinavam como se comportar, como tem que ser, né? Eu não posso ter eu, primeiro, as coisas. Primeiro é o nosso povo. Se sobrar, você vai ter. Se não sobrar, você não pode reclamar. Você tem que estar feliz de ver o seu povo feliz, né? Então, a gente recebeu muito isso, sabe? Todas as mulheres alto xinguanas, antigamente, usavam um símbolo, uma tatuagem no braço. A minha mãe tem, minha avó teve, né, a mãe da minha mãe. Esse é um costume aruak. E a gente não teve, nenhuma de nós. Nem eu, nem as minhas primas. Porque meu avô não deixou a gente ter. Porque eles achavam que a gente não tinha, que a gente podia fazer algo que fosse desonrar esses símbolos, né? E eu acho que eles tinham medo, né, com essa coisa da cultura do homem branco, também, já, sabe? Eu acho que meu avô meio que deixou, assim, porque talvez, mesmo que ele não saiba, né, algo fez com que ele não deixasse a gente ter essa tatuagem. Porque todas que têm essa tatuagem, não podem sair da aldeia, né? Então, era como se eu tivesse uma corrente me segurando e eu não podia ir pra cidade estudar ou ir buscar outras coisas, né, pras mulheres, talvez, naquela época. Então, ele achava que a gente ia estragar. Então, a gente não teve, nenhuma de nós tem, né? Então, isso tudo veio na reclusão, eu tinha...
P/1 – O que é a reclusão?
R – Porque quando vem a primeira menstruação da mulher, a gente fica em reclusão. A gente passa por um rito de passagem, né? Fiquei dois dias sem comer, sem beber, sem se mexer. (risos) É uma forma de limpeza, né? É um teste de resistência que você tem que passar, porque você tem que se concentrar naquilo que você vai ser, pra sua vida, né? Então, no segundo dia que você vai tomar as ervas que vão te purificar, que vão tirar tudo que você era criança e vai ficar pra trás. A partir daquele momento você vai ser uma outra pessoa, né?
P/1 – Você fica onde, nesse processo?


R – Tudo dentro de casa, dentro de um quartinho. Era menor do que essa sala. (risos) Então, depois que a gente toma essa raiz, a gente passa o dia inteiro ainda tomando essa raiz, fazendo limpeza. Então, só água via o seu estômago. Eu fiquei dessa grossura. Tudo colado, assim. Vomita. Só no outro dia que você está autorizada a comer. Devagarzinho. É tudo um ritual, sabe? E eu não entendia pra que aquilo ali servia, né, ia servir pras nossas vidas um dia. Mas é isso. Acontece coisas na sua vida... meu avô deixava isso muito bem claro, né, quando ele visitava a gente. Já estava lá quase com a boca toda seca e ele falando: “Vocês precisam se preparar, porque se você não se prepara, a vida é muito mais difícil do que esses dois dias sem se mexer, sem comer, sem beber água. A vida é muito mais amarga do que essa raiz que você está tomando”. Ele sempre falava isso pra mim, né? Só depois de adulta é que eu fui entender isso tudo, né? Então, depois disso tudo, a gente fica alguns anos em reclusão. Então, a gente entra criança e sai adulta dessa reclusão. E aí, nesse período, que a gente aprende os artesanatos, né, uma parte das histórias, porque desde criança que a gente escuta as histórias, os mitos, né, de como você tem que se comportar e como você tem que ser pra sua vida.
P/1 – Você podia falar um pouco mais sobre isso, como são contadas as histórias do seu povo? Quais são os tipos de histórias que você lembra de ter ouvido? Quem, exatamente, que contava, na aldeia?
R – Sim. Eu sempre recebi isso tudo da minha vó, né? Minha vó e, de vez em quando, meu avô contava. Como eles ficam mais... eu tenho irmão mais velho, então eles ficavam por conta desses irmãos. Eles preparam os homens, né, os irmãos, pra serem líderes também, né? Então, eu recebia muito essas histórias, aprendi muito com minha vó, né? Porque ela que ia lá contar, mas desde pequena a gente já aprende as histórias, né? Toda noite a gente escuta. Cada noite ela vai contando uma história, que se repete, às vezes. Ela perguntava: “Qual história vocês querem?” Tinha dias que a gente falava: “Ah, a gente quer aquela história dos irmãos gêmeos. A gente quer de como surgiu o povo. Ah, de como surgiu nosso mundo, como que surgiu... porque a gente tem cabelo, porque tem animais”. Essas coisas. Então, a gente tinha essa opção de escolher o que a ela ia contar pra gente. E era maravilhoso, né, a gente estar com nossa vó, né? Então, tudo que eu tenho hoje, tudo que eu aprendi, minha avó que me ensinou, né? Uma parte agora, quem me ensina hoje, é minha mãe, né? Só depois de velha que eu aprendi os cantos, que eu não me interessei quando eu era novinha, né? Isso veio depois dos 30, de 30 anos. Então, a minha infância foi muito isso, né? A casa da minha avó, oca, meu avô chegando com várias coisas. Meu avô levantava às cinco da manhã e voltava seis horas, já com a comida do dia pronta, né? Então, a gente sempre fala: “Ô, infância”. (risos) Porque daqui a pouco é a nossa vez de fazer isso, né? Agora é o nosso momento de ensinar aos nossos filhos, que são adolescentes. Então, as nossas mães que estão fazendo isso com as nossas filhas, com os nossos filhos. Então, já está chegando esse momento com a gente, pra gente. Só que o nosso papel, hoje, é também mostrar o outro lado, né?
P/1 – E qual história você lembra que você gostava bastante?




R – Eu gosto muito dos irmãos lua e sol.








P/1 – Podia contar? É muito longa?
R – Muito longa. É porque todos os mitos trazem uma energia, né? Então, isso acho que não é o momento.
P/1 - O que mais você achou importante, assim, que os seus avós te transmitiram? Os seus pais. Você fala que desde pequena você foi escolhida pra ser líder e então eles ficavam te ensinando muitas coisas. Você falou essa coisa de primeiro pensar no povo. O que mais você lembra que foi muito importante ou algo que você viu seu pai fazendo que ficou bem forte pra você?
R – O que meu pai fez, assim, uma das coisas que eu acho que ele fez, que ficou, marcou pra mim, foi a preservação, mesmo, da nossa cultura, sabe? Ele botar isso na gente, assim. Tinha, já, momentos que eu achava bonito ou meus irmãos ou meus primos achar que a cultura, algumas coisas da cultura do branco achar bonito aquilo ali e ele falar: “Isso não é bonito”, sabe? Ele me ensinar que eu tenho que valorizar muito a minha cultura, a minha identidade. Que a cultura do outro lá não é importante pra mim. Que aquele ali é só mais uma coisa, ele sempre vai estar ali, né? Que eu teria que preservar o que é da nossa cultura porque pode se perder um dia. Então, isso que ficou muito marcado. E uma outra coisa que ficou muito marcada... você fala na aldeia, né? Ou em qualquer lugar que meu pai tenha feito?
P/1 – Qualquer lugar.










R – Duas cenas, assim. Eu não estava presente, mas eu só vi depois. Eu não entrei junto com ele quando ele entrou na Câmara, junto com aquele povo e foi parar lá dentro do Congresso, falando pra todo mundo, né, como deveria ser. Que o planeta estava pedindo socorro e ninguém estava escutando, né? Esse momento foi muito forte pra mim, assim. Eu acho que fica pra sempre, assim. Acho que não só pra mim. Pra várias pessoas.
P/1 – Quando que foi isso?




R – Foi no ano... deixa eu ver... eu não lembro direito. Naquele ano que foi invadido o Congresso Nacional pelos parentes. Que ano que foi? Foi naquele ano. E meu pai era dos poucos que estavam lá, acho que só estava ele, eu acho, assim. Só foi ele de parente lá. Eu fiquei do lado de fora. Os parentes que foram ficaram do lado de fora. Porque eles ficaram com medo. Meu pai não ficou com medo. Falaram pra ele: “Os guardas vão jogar spray de pimenta, eles vão atirar em vocês”. Ele falou: “Pode atirar. A gente está indo lá pra brigar pelo nosso povo, pela terra dos parentes. A gente não pode só ficar olhando, porque já temos terra demarcada. Se nós estamos bem hoje na nossa terra, tem parente que não está. Então nós temos que dar o exemplo de ir lá brigar junto com o parente que precisa”, né? Então, isso foi muito forte pra mim. Então ele entrou, sozinho. Aí ele pediu pra eu ficar do lado de fora, porque eu estava com a minha filha, pequena.
P?1 – Mas voltando, assim, só, nesse momento, antes de passar, eu queria saber o que você brincava quando você era criança. Quais eram as brincadeiras?
R – Que eu brincava escondido, né? (risos) Então, como tudo não podia, eu não podia brincar muito, a gente não podia brincar. Não pode brincar, né? Mas eu gostava de ficar no rio. (risos) Gostava de brincar no rio, explorar. É o que eu me lembro, assim. Porque eu realmente não podia brincar.
P/1 – O que você podia fazer?
R – Eu tinha que ficar em casa, sentada, bonitinha. (risos) Só aprender coisas do nosso costume. Mas eu escapava de vez em quando pra esse rio aí. Eu lembro que eu cortei meu pé e fiquei de castigo por causa disso, porque eu estava no rio brincando. Porque não podia brincar.
P/1 – Tinha umas brincadeiras tradicionais?
R – As crianças têm. Todo mundo brincava. Todas as outras crianças do nosso povo brincam, né? Brincam de atirar no círculo de palha, de escorrega, de balança, de cair na água. Amarrava a corda, assim e caía na água. Arco e flecha, né? Ainda mais mulher, não pode tocar em arco e flecha. Umas brincadeiras que a gente fazia com linha, na mão. Isso também eu não podia brincar. Mas eu brincava. (risos) De vez em quando eu brincava. Mas várias brincadeiras, assim. Na verdade, o tempo todo, a vida na aldeia, assim, a criança está brincando, né? A gente participa da vida das mães. Enquanto a mãe está na roça, a gente está lá brincando. Esses momentos dava pra aproveitar, né? Brincar no meio da floresta. Os meninos brincam de atirar na lagartixa. (risos) Mas era mais no dia a

dia, mesmo, né? Brincar na chuva.




P/1- Quais são os momentos mais importantes, assim? Por exemplo: esses momentos que passa uma pessoa do seu povo, que tem esse momento que as mulheres passam pela reclusão. Quais são os costumes? É legal de deixar registrado.
R – Esse processo eu acho que é muito importante, né, da parte da reclusão. Porque é uma faculdade indígena. Tudo você aprende lá e quando você está lá, você acha que aquilo ali não vai servir. Mas ele serve pra sua vida, né? E se todo mundo fizesse isso acho que teria muita coisa, sabe, de ruim, que poderia ser evitada. Por causa desse processo, né? E outra parte também que é importante...
P/1 – Esse processo é quanto tempo?
R – Depende muito de cada família, né?
P/1 – Quanto tempo você ficou?
R – Eu fiquei três anos. Tem família que fica um, dois anos. Hoje em dia tem gente que não fica mais.
P/1 – Que aí você entra quando você menstrua?
R – É.
P/1 – E como é que foi esses três anos? O que você não podia fazer nesses três anos?
R – Eu não podia receber visita, não posso sair, não posso falar alto, não posso comer qualquer comida. Fiquei três meses sem comer doce, sem comer comida salgada, só comida lavada. É só peixe. E durante o ciclo menstrual a gente só come ave, né ou carne de caça, mas de caça é macaco, jacu, mutum, né? Pombo também a gente come. Mais do que isso não podia comer, outras coisas. Então, esse processo é difícil, assim. É porque você fica fechado num quartinho onde pessoas que não têm costume iam ficar, acho, doido, né? É uma prisão educativa, né? Você vai aprender tudo lá dentro. Eu não sentia falta de ir pra fora, né? Eu não sentia falta de falar alto, né? Estava todo mundo... era dentro da oca, você tem um quartinho feito de palha, que você escuta todo mundo, mas ninguém pode te ver. E você não pode ver ninguém.
P/1 – Três anos?








R – Três anos.
P/1 – Nem seus pais?




R – Ah, eles, sim. Eles vêm, mas você tem que evitar muito, né? Não pode ficar com você o tempo todo. Você tem que ficar sozinha, concentrada nas coisas que você está aprendendo. Eles te passam tudo, te orientam e você fica sozinha.
P/1 – E você ficou aprendendo o quê?


R – Ah, eu aprendi muito as coisas da arte, né? As histórias que eu comecei a compreender, várias histórias que eu ouvia quando eu era criança, quando eu estava em reclusão, né? Aprendi a fazer os artesanatos quando estava em reclusão, aprendi a fazer grafismo. Foi durante a reclusão, né? Os cantos eu não aprendi durante a reclusão, mas deveria ter aprendido.
P/1 – As histórias você aprendeu?
R – As histórias eu perguntei porque era, comecei a perguntar detalhes durante a reclusão.
P/1 – Mas tem algum jeito de contar a história que você só aprende nesses momentos?
R – Não. É só gravando, mesmo. Muitos me perguntam se tem isso escrito, não. Tem tudo na cabeça. É uma lembrança que eu tenho, de tudo que a minha avó me contava. Durante esse processo todo.
P/1 – E qual foi o momento, assim, desse período, mais marcante que foi nessa época. São três anos que ficou de reclusão. Qual foi, pra você, o momento mais marcante?
R – Eu vejo todo o processo como um todo, viu? Eu não tenho assim: cada um. Porque, se tivesse faltado um pedaço, não ia ser todo processo, né? Talvez, o que tenha diferenciado, né, é que a família toda toma conta de você. Todo mundo cuida de você nesse período, né? Acho que é isso.
P/1 – Quando você saiu do seu processo, como é que foi sair e voltar?


R – Saí num ritual Kuarup, participei de dois rituais Kuarup. Durante o segundo ano, né, de reclusão, eu participei, foi a primeira vez que eu fui. E o segundo ano já foi pra cortar a franja, o cabelo cresce, né? Tem que cortar. O segundo ano já cortei o cabelo. E o processo teve um ritual. Meus pais me levaram numa outra aldeia, onde estava acontecendo o Kuarup e as pessoas que cortaram meu cabelo eram homens Waujá. Eles se ofereceram pra cortar meu cabelo. Porque eu era filha de um dos líderes do nosso povo, né? Então eu tive padrinhos homens. É liderado por um homem e ele convida outros pra irem juntos. E eu tive essa ligação, com esse padrinho, muito tempo. Desde então eu o olhava com respeito. A gente tinha como se fosse um... como que fala?... uma pessoa que eu tinha respeito... não sei, foi muito automático, assim, porque eu sentia, eu tinha essa ligação com ele, então ele me visitava e eu o visitava, né? Era como se fosse da família, mesmo, ele. Um parente da minha mãe. E quando ele faleceu foi muito forte, assim, pra mim, né? Um pedaço da minha história também indo junto com ele. Mas que ficou marcado, assim, pra mim, né?
P/1 – E como é que é o Kuarup?






R – É um ritual fúnebre, né, mas as reclusas participam no finalzinho, né? Elas fazem parte do encerramento, então, na nossa época, eram minhas primas junto comigo, né? E a gente distribui castanha, é um símbolo de boa recepção para outros povos. Então, nesse período, teve gente que quis casar comigo. (risos) Mas naquela época o meu pai achava que eu era muito nova pra casar, né? Então, ele nunca deu brecha naquela época, ainda. Então, eu ainda fiquei um ano sem ninguém me perturbar. Só depois de um ano que veio essa coisa toda de casamento arranjado.
P/1 – O seu casamento foi arranjado?
R – É, teve casamento arranjado quando eu tinha 15 anos, né, mas eu não aceitei. Fiquei brigando pra não ficar com ele.
P/1 – Por que você não gostava dele?
R – Não. Eu nunca nem tinha o visto. Eu já ouvia falar dele, né? Mas ele pediu pro meu pai e meu pai falou não pra ele, né? Mas ele pediu de novo pra minha mãe, minha mãe aceitou e meu pai não ia contra as coisas que minha mãe aceitava, né, porque ele a respeitava muito, então ele achava que, se minha mãe já tinha decidido, ele tinha que respeitar. Aí eu me vi numa situação muito sem saída. E eu vou ter que me livrar dessa pessoa, né? Então foram três anos. A minha vida entre 15 e 18 anos era planejar, todos os dias da minha vida, como eu ia me livrar daquela pessoa. Então, nesse período que começou assim a transformação das coisas que eu pensava. Então, eu consegui me livrar dele com 18 anos.
P/1 – Nossa! Você não começou a gostar dele durante esse processo?
R – Não. Eu não o deixava chegar perto de mim, né? Ele era meu marido, mas não era meu marido.
P/1 – Você não beijava, não tinha relações com ele?
R – Não. A gente não se falava. Ele fazia questão de ficar perto de mim, mas a gente não se falava, a gente não... eu sofri muito com isso, porque eu me sentia um objeto, assim, tipo: me entregaram pra uma pessoa. Era um sentimento muito ruim que eu sentia, assim. Então, eu planejava todas as formas possíveis pra eu me livrar dele. E só com 18 anos que eu consegui, né? Ele cansou, também, né? Hoje eu entendo que ele sofreu muito também com tudo isso, mas na época eu não conseguia, né? Eu não imagino ficar com uma pessoa que eu não tenho afinidade, não tenho... sabe? Casamento é uma coisa muito séria. (risos) Não posso viver com pessoa que eu não tenho sentimento, assim, que eu não vejo como homem, né? Então, fui repreendida por causa disso, muitas vezes. Apanhei por causa disso, né? Mas eu não me arrependo de ter feito tudo isso. Podia ter apanhado de novo, né, pra eu passar por tudo aquilo. Passava tudo de novo. Mas eu não aceitaria, né? E é isso, assim.
P/1 – Vocês tiveram filhos?


R – Não. A gente nunca teve nada.
P/1 – E você ficou três anos casada?
R – É porque ficava três anos, mas de vez em quando que a gente ficava perto um do outro. Por obrigação, né? Porque todo mundo vigiava. Tinha gente: “Senta perto dele. Você tem que sentar mais perto” “Eu já estou sentada mais perto”. Tipo: era assim e ele assim. E todo mundo queria que eu sentasse tipo no colo dele, eu acho, né? Com certeza. Todo mundo queria isso. Minhas tias, minha família fazia palestras pra mim, pra eu poder como me acostumar com ele, como aceita-lo, como era importante eu aceita-lo, né? Mas eu não conseguia, né? Muita gente me criticou, me xingavam por causa disso, falavam: “Ai, ela é feia e não o aceita, um homem bom, não sei o que”. Mas eu não conseguia.
P/1 – E como foi que você conseguiu se separar?


R – Aí ele me devolveu. (risos) Cansou. Mas ele tentou, eu ouvi várias ele tentando me devolver, mas a família dele não deixava. Ele falava: “Mas ela não gosta de mim. Ela não me aceita”. Ele tentava se arrumar pra ver se eu despertava interesse. (risos) Coitado! Mas eu não conseguia, né? E aí ele me devolveu. Não lembro a data, sabe, mas eu lembro que ele me devolveu em agosto. Não sei se era agosto. É, era agosto. No meio do ano ele me devolveu. Falou que ia embora. Não quero. Eu aproveitei da situação, sabe? Minha mãe falava: “Eu vou deixar você estudar na escola do homem branco, se você aceita-lo”. Então eu aproveitei da situação e fui aprender a ler e escrever.
P/1 – Você queria estudar?
R – Eu queria estudar. Minha mãe nunca quis deixar, né? Mas ela fez isso pra tentar me proteger, porque era outro pensamento, né? Mas eu falava: “Não dá”. Aí eu me aproveitei da situação e fui estudar, aprendi a ler e escrever, mas chegou o momento que ele falou: “Não posso mais. Eu já estou ficando velho. São três anos. E eu preciso ter filhos, me casar”. E aí ele chegou e disse que não queria mais, né? Ele também não disse assim: “Ela não me aceita”, porque ele tinha muita vergonha disso, né? Isso era uma vergonha, na época. Uma mulher não aceitar um homem era vergonha. Então, ele escondia muito isso. E a minha família escondia isso. Todo mundo escondia isso. Minha família tentando esconder, mas todo mundo sabia o que estava acontecendo. Então, ele me devolveu e quando ele me devolveu respirei fundo, assim. Agora tenho que enfrentar minha família, pra eles não me devolverem pra ele. Porque eles podiam. Eles me devolveram várias vezes. Nesses três anos eu não quis, eu quis fugir, eu quis me suicidar. (risos) Não porque eu queria morrer. Eu queria assustar minha família, mas nada adiantava.
P/1 – Você tentou?








R – Não, nem tentei. (risos) Mesmo assim minha mãe não ficava com pena de mim. Meu pai falava: “Você está desonrando a nossa família”. Eu falava: “Mas eu vou estar desonrando a mim mesma seu eu fizer uma coisa que vai contra o que eu quero”. Então, me devolveu tudo certo, fiquei feliz, aí meu pai falou pra mim: “Agora nunca mais ninguém vai querer casar com você, porque você está velha, você tem 18 anos. Você está vencida”. Eu lembro meu pai falando isso. E eu: “Ai, pai, tá bom”. Aí ele ficou de boa, assim, comigo, mas a minha mãe ficava muito preocupada: “Sem marido”. Mas logo depois ela quis me casar com meu primo, né? Ele é um pouquinho mais novo. E eu falava: “Não. Pelo amor de Deus, mais um marido, né?” Aí eu falei pra ele: “Olha só, eu gosto muito de você, nós somos irmãos. Então você vai me ajudar a eles não fazerem isso com a gente”. Então, ele foi muito gente boa também, era jovem, né? Acho que um ajudou o outro. Ele falou: “Tudo bem. A gente não vai casar”. E aí, minha mãe, com esse negócio, ficava buscando marido pra mim. Só pensava em marido. Quando eu fiz 20 anos, eu já não aguentava mais, né? Marido, marido. E aos 22 eu me casei, né, porque eu quis mostrar pra eles que, se eu quisesse casar, eu podia. Casei, arrumei um namoradinho, casei assim, casei, pronto. Agora, acho que tá tudo certo, né? Mas casamento não é assim. Mas depois eu me arrependi. (risos) Me arrependi de ter casado. O menino era muito gente boa e tal, mas eu tenho um problema muito sério com homem inteligente. Pra mim tem que ser homem inteligente. E ele era menino. Não sabe as coisas. (risos) Então, a gente não se conhecia direito também. Ele morava numa aldeia, eu era de outra. Então, quando eu me arrependi, já estava grávida da minha primeira filha. Aí a gente até tentou, mas quando a minha filha nasceu eu vi que não deu certo, mesmo e falei: “Olha, eu gosto muito de você, você é muito gente boa, mas o nosso casamento não dá, a gente tem que se separar”, né? Aí eu me separei dele. Ele quase teve um treco, mas tudo bem. Ele virou meu inimigo pra sempre. Ele não fala comigo direito até hoje. (risos)
P/1 – Um mês você se separou, grávida?




R – Não. Eu não me separei. Eu me arrependi um mês depois que eu já estava com ele e depois eu esperei minha filha nascer ainda. Até tentei, achei que era momento gravidez, que a gente enjoa de marido durante a gravidez. Achava que era isso, né? Que eram os hormônios. Mas, quando a minha filha nasceu, quando a minha filha tinha um ano e seis meses, a gente se separou. Vi que não dava, mesmo. Que a gente era muito diferente. E aí, de novo, não pode se separar. Porque mulher separada não serve na nossa sociedade. Então, de novo, enfrentar tudo isso, né? “Ela se separou”. Porque mulher não pode largar marido. Tem que ser o contrário. E aí, três meses depois, eu já casei de novo. (risos) Ai, meu Deus, casei de novo e estou casada até hoje com ele. Tem 14 anos.










P/1 – E ele é do seu povo?
R – Não é do meu povo. Então, eu sou tudo do contrário. Eu casei com outro povo, de uma outra região. Na época também não podia casar com outra região. Só podia ser entre alto xinguanos. E eu já fui contra isso e fui e casei com um baixo xinguano, né?
P/1 – E como que foi?
R – Foi um choque cultural entre povos, muito forte. Foi mais fácil pra minha família porque minha família já me conhecia, né? O meu pai só falou pra mim, assim: “Olha, você vai se arrepender de novo e vai se separar. Então, eu não vou nem mais falar nada pra você. Eu acho que o que você decidir, você faz, mas você vai se arrepender de novo, né?”. Aí minha mãe perguntou pra mim e eu falei: “Mãe, é verdade”. A minha mãe eu até me surpreendi, na época, porque minha mãe foi, primeiro, que teve essa aceitação, né? O meu pai não me recriminou também, ele só falou isso: “Você vai de novo se arrepender”, né? Mas a minha mãe gostou de cara do novo genro, né? Foi muito forte pra família dele aceitar também, porque era de outra etnia, mas hoje está tudo certo. A gente tem cinco filhos e meus filhos são de todas as etnias do Xingu. E os meus filhos vão crescer respeitando parentes, não importa de onde seja. Que é isso que eu aprendi do meu pai, aprendi com essa vida, eu aprendi com a união do outro povo. Meus filhos não têm problema nenhum.
P/1 – E como que é o casamento? Como foi seu casamento?
R – Os arranjados ou os que eu quis? Os que eu quis não teve festa.
P/1 – E os arranjados, sim?
R – O arranjado. O primeiro. Teve festa de três dias. Ele teve que dar presente. Na verdade, ele me pagou, né? Pagou pra todos os membros da família. Todo mundo desfilava com o meu pagamento, né? Eu fui vendida, na verdade. Fui trocada. E aí teve três dias de festa. Então, os dois povos festejaram um casamento que todo mundo estava festejando e eu chorando. Mas é por isso que eu falo: nem tudo que é festa no começo é coisa boa. (risos)
P/1 – E eu queria que você contasse um pouquinho como foi seu contato com o branco ocidental, que você foi estudar na escola. Como foi pra você? O que você achou diferente?














R – Tudo. Eu me sentia muito, sei lá, é uma coisa que aquilo eu não fazia parte, mesmo, daquele mundo, né? Mas que eu sentia que eu precisava estar ali. Primeiro meu nome. Eu lembro que a chamada que a professora fazia... lembro até o nome da minha ex professora, se chamava Inês. Era uma gaúcha, (risos) branca, loirinha e ela pronunciou meu nome e aí ela falou assim... porque eu fui com 15 anos pra escola do homem branco e ela olhou assim pra mim: “Por que você está nessa sala?” E eu não entendia. Me matricularam na primeira série com 15 anos, né? “Por que você está nessa sala?” Eu falei: “Porque me colocaram aqui dentro”. A resposta que eu dei pra ela. Ela: “Mas você não deveria estar aqui. Deveria estar na turma tal”. Eu falei: “Não sei, porque eu não entendo”. Mas eu falava um português diferente, tá? Porque na aldeia eu escutava as enfermeiras falando e eu não compreendia muitas coisas, assim, sabe? Na verdade, a gente copiava o que os brancos falavam. Eu aprendi, eu falava, mas eu não entendia muito o sentido, assim, sabe? Hoje eu consigo falar um pouquinho melhor porque a gente anda com várias pessoas, a gente recebe pessoas na nossa aldeia. Mas muitas coisas eu não entendia o que ela falava, né? E tudo bem, ela perguntou pra mim, fez um teste comigo e aí, os coleguinhas, tudo olhando diferente pra mim, né? E todo mundo riu na sala. “Como é que é, mesmo? Não sei o que. É batata? Não sei o que”. Faziam piadinhas. E eu senti que eu fiquei muito, assim, mal naquele dia, né? Mas eu senti na hora que eu não tinha que abaixar a cabeça. Aí eu respondi pra ela, né? Ela perguntou: “É seu nome, mesmo?”, quando ela perguntou meu nome. Eu falei: “É meu nome”. Ela falou: “Como se pronuncia?” “Watatakalu”. Ela falou: “Você quer que a gente te chame por um outro nome?” Eu falei: “Não. Watatakalu é o meu nome”. Aí todo mundo ficou quieto na sala, né? E desde então, eu sempre fui assim, em todas as escolas que eu passei. Eu fiz ensino médio, primeiro e segundo anos, em Brasília, também foi assim. Aí, o que aconteceu? Eles começaram a fazer teste comigo, começaram a me pular. Uma semana depois eu estava em uma outra sala e fizeram teste comigo. (risos) Porque eu comecei a aprender ler e escrever. E aí faziam teste. Foi muito engraçado. (risos) Aí os meninos olhavam, assim, pra gente, diferente, né? “As índias. Tem índia aqui. Vamos pra igreja?” Algumas meninas já convidando a gente pra igreja, né? E até fui em uma. Meu Deus, eu fiquei horrorizada! Aí, depois, no outro dia, eu já sabia o que era uma igreja. Porque eu não sabia o que era uma igreja. Sei lá!
P/1 – Como foi, pra você?






R – Foi tipo todo mundo lá arrumado, todo mundo na frente, tinha um homem lá na frente falando e falava alto, falava e de repente eu vi todo mundo chorando, né? E de repente eu os vi colocando um negocinho numa caixinha ali na frente, né? Na época eu não entendi o que era, hoje eu sei. E a mulher falando: “Feche os olhos que você vai sentir agora, vai acontecer não sei o que, não sei o que”. E eu falava: “Gente, o que é isso?”, né? Eu fui uma vez. Assembleia de Deus, né? E aí, tá, a gente saiu antes de terminar o negócio, porque eu comecei a ficar com dor de cabeça. Comecei a escutar vários sons que já estava me incomodando demais. A gente saiu antes. Aí, depois, elas começaram a convidar de novo, aí eu já avisei todo mundo: “Olha, esse negócio de igreja não é coisa boa, não. Pra gente, não. Então, eles andam assim...” e comecei a falar um pouquinho do que eu tinha visto e aí, então, desde então minha família nunca foi, mais. Porque eu fui. Mas nunca mais. Então, eu passei por várias coisas, da menina me chamando: “Volta pra aldeia, sua índia. O seu lugar é na floresta, no mato”. Na escola, isso. Eu lembro que meti um tapão na cara de um colega, né? Ele falou: “Eu vou te bater”, veio pra cima de mim, mas os meninos o seguraram. Eu vi também que tinha brancos olhando diferente pra gente. Eu nunca entendi, assim. Olhando pra gente com preconceito, mesmo, sabe? De índio sujo, sabe? Mas sujos são eles. Índio levanta cedo e vai tomar banho. Então, eu comecei a ter isso também. Quando eu fui pra Canarana estudar, eu observei que os vizinhos levantavam e nunca tomavam banho antes de comer, né? E quando as pessoas falavam, eu falei: “Olha, eu acho que sujo, aqui, é você, porque você ainda não tomou banho. Eu já tomei banho e você ainda não tomou”. Então, essas coisas a gente começava a falar, né? (risos) Eu não entendia essa coisa de sujo, sabe? O que é sujo? É por que a gente vive na floresta? Eu estou morando na casa, que nem eles, né? Meu pai era servidor público, já trabalhava na Funai. A gente nem fazia ideia desse negócio. Meu pai era servidor público e ganhava dinheiro. Eu também não tinha noção das coisas. Meu pai entregava o cartão dele e eles viviam na aldeia. Então, meu pai pagava aluguel de uma casa pra gente em Canarana, comida e a gente estudava, né? Então, a gente não conhecia essa coisa de passar fome. Eu não tive esse problema, né? Acredito que outros parentes, que não tiveram essa chance, devem ter passado, mas eu nunca passei por isso. Então, quando eles falavam assim: “Vocês moram… índio é preguiçoso? Você já nasce recebendo um salário do governo?”, eu não entendia isso ainda, no começo, também. Então, tinha tudo isso e eu não entendia porque essa pessoa está falando que eu estou passando fome? “É verdade que os índios... como é que é? Lá tem comida? Lá tem isso?” Umas perguntas bem nada a ver, assim. Mas eu aprendi muito com essas perguntas, né, esses olhares que os brancos tinham pra cima da gente. Aprendi muito. Aprendi valorizar o que é meu, o que aprendi. Aprendi que a vida do branco não é melhor do que a minha. Se eu venho ou estava ali era por uma boa causa. Era pra aprender as coisas boas do homem branco. Não as coisas ruins, né? E é isso.
P/1 – Você tem alguma história

com árvore?
R – (risos) Não sei. Eu tenho uma de quando eu era pequena. A gente tinha um pé de jatobá na nossa casa. Gigante, lindo e eu tinha muito medo dele, porque ele tinha dono. Tem certos momentos que o jatobá, ainda quando ele é jovem, ainda não tem dono, né, que a gente fala. Não sei se você já viu pé de jatobá. Quando ele está mais velho, é todo escuro, né? Vai escurecendo. Derrama um negócio e fica todo escuro, assim. Uma mancha escura. Quando surge aquela mancha escura é porque tem dono. É guardado por um espírito bem forte. E eu não saía de perto, porque me sentia protegida por aquela árvore, pelo dono da árvore. O tempo todo eu escutava a minha mãe falando: “Sai de perto da árvore”, mas eu me sentia protegida por aquela árvore. Quando ela foi derrubada, eu fiquei muito triste, assim. É isso.


P/1 – Quando foi que você começou essa coisa do movimento da luta indígena?
R – Com 23 anos. A primeira vez que eu fui, né? A gente tinha toda essa preparação tradicional e tal... Quando eu me casei e tive filho, eu ainda estava com o pai da minha filha primeira, ela tinha nascido tinha uma semana e aconteceu um encontro de mulheres realizado pelo Instituto Socioambiental. Na verdade, era o Atix junto com o Instituto Socioambiental e Unicef. E eu fui chamada como tradutora. Assim, as pessoas não indígenas organizaram, levando esse encontro pra gente. Eu não sabia nem o que era. E começaram a falar de saúde. Eu fui como tradutora. Nossa, foi um desastre! Eu conseguia conduzir um pouco tradicionalmente, levando, fazia tudo certinho, mas quando foi fazer uma coisa diferente, eu comecei a observar. Como eu fui traduzir, eu traduzi, eu era uma das tradutoras e os outros eram homens. Eu comecei a observar que os homens traduziam errado a fala das mulheres. E que eles mesmos que colocavam a opinião deles em cima das coisas. Nem traduziam, na verdade. Colocavam o que eles pensavam, né? Eles mesmos colocavam no papel as coisas que eles queriam. Como estava se falando da saúde, eles mesmos colocavam o pensamento deles. Eu achava aquilo ali... falei: “Esse negócio tá errado”. Aí aconteceu de novo. Fui participar como convidada, assim, só pra ajudar, mesmo, as mulheres, lá, mas quem estava à frente era não indígena, era a Doutora Sofia, aqui da Unicef, do Projeto Xingu, da Escola Paulista, mas elas que faziam tudo. Então, a gente estava lá só pra ver como que era, como as não indígenas faziam, né, reuniões. E o terceiro momento foi a Conferência Nacional de Saúde Indígena e eu fui e como eu sabia ler e escrever, eu já tinha terminado o ensino médio, me chamaram pra trabalhar na Saúde Indígena, na parte administrativa. Por eu saber ler e escrever, eu fui. Eu gostei, estava lá e eu fui nessa Conferência da Saúde Indígena. Era tudo homem, né? Tinha acho que três mulheres que eram agentes de saúde, né, que estavam lá ajudando e eu fui falar. Quando eu fui falar, todos os homens ficaram quietos, né? E eu não consegui falar direito. Fiquei muito nervosa. Minha voz começou a tremer. E um homem levantou e falou assim pra mim: “Tá vendo? Mulher não dá conta” – a palavra que ele usou – “Ela só está aí chorando. Não dá conta. A gente não pode ficar atrasando nossas coisas por causa dela”. Então, isso ficou muito forte pra mim, né? Isso que me incentivou a levar, a fazer parte desse movimento indígena, de ir também participar da política indigenista. E quando ele falou: “Não adianta a gente trazê-las, elas só vão atrasar a gente”. Então tive que repetir várias coisas lá e eu quis mostrar que não era assim. Que a gente podia, sim, participar das coisas, porque a gente pode, também, ajudar nas coisas, porque é a gente que está lá sofrendo, a gente que está com os filhos, a gente que cuida da casa e da aldeia, né? A gente que faz as coisas acontecerem. Se eu não falo português direito ou outras mulheres não sabem se expressar na frente de um monte de gente, a gente vai aprender. Mas por isso que eu... e outro motivo foi que muita gente falava por nós, muitas brancas e brancos falavam o que a gente era, como que a gente era, o que a gente queria, qual que era o nosso pensamento. Levava muita mensagem errada, né, pra fora. E que a melhor forma de levar nossa mensagem, o que a gente quer, é a gente ir, mesmo. E a gente mesmo falar por nós. É isso.
P/1 – E o que você viveu dentro desse movimento de luta?






R – Eu comecei a participar dos encontros, das reuniões, consegui acompanhar mais o meu pai, comecei a prestar atenção nas coisas que meu pai participava, né, e a gente começou a fazer as coisas dentro da aldeia. O projeto da Casa da Mulher. As pessoas começaram a atacar a gente, por achar que a gente estava mudando a cultura. Então, a gente enfrentou um montão de coisas, né? Se eu estou, no caso, dando entrevista pra você, muitos parentes diziam que muitas coisas que a gente faz, né, a gente estava ganhando dinheiro em cima, né? Que as pessoas do movimento indígena, todo mundo que vai fazer entrevista ou ir em um encontro, está ganhando muito dinheiro em cima do nosso povo, né? E eu quis mostrar pras pessoas também que isso não é verdade, né? Existe um trabalho, uma forma pra você ganhar dinheiro, né? E tem coisas que a gente faz pela causa, né? E a melhor forma pra mostrar isso pro nosso povo, pras mulheres, por exemplo, principalmente, né, é trazê-las pra sentir isso. Eu quis que as mulheres tivessem a mesma oportunidade de aprender ler, escrever, a fazer as coisas e de também levar sua voz pra fora. E que, da mesma forma que a gente estava com o projeto da Casa da Mulher, elas também poderiam ter isso na aldeia delas. Mas o projeto da Casa da Mulher foi como se fosse inimigo, assim, para as pessoas, para os homens, principalmente.
P/1 – Como é que nasceu?
R – Minha irmã Ana Terra que pensou nessa Casa. E ela me pediu ajuda, porque eu tinha contatos com não indígenas, ela achou que eu podia ajudar a procurar apoio. Então, a gente combinou: “Você fica como coordenadora do projeto dentro da aldeia, tomando conta, com outras irmãs, primas do nosso povo e eu fico pedindo ajuda pros meus amigos”, né? Então, eu ficava entre a aldeia e a cidade, contatos, essas coisas e elas executavam o trabalho. E aí os homens não apoiaram isso, mas antes da gente começar, a gente conversou com os nossos pais. Tem um vídeo do meu pai, na época, apoiando, do porquê, da importância da Casa da Mulher, né? Existe a Casa dos Homens e a gente não pode usá-la. Mas a gente precisa de um espaço e a gente pensou: “Vamos criar a Casa da Mulher, que vai servir como escola pra gente, pros nossos filhos. A gente vai fazê-la, montar um museuzinho lá dentro, com as peças femininas, porque, quando vierem visitantes, vão conhecer a nossa Casa, né, vai ter um espacinho onde tem tudo que é da mulher Yawalapiti, algumas coisas que já foram feitas: documentários, livros, que falam do nosso povo dentro dessa Casa. Um espaço pra fazer reuniões, uma escola dentro da aldeia e vamos construí-la no formato da nossa oca tradicional”. Então, a gente a construiu no formato. Era uma oca, né? Estava quase no fim, assim, mas os nossos parentes acharam que tinha que trocar - essa a primeira Casa – as coordenadoras, já que tinha alguns homens questionando. Até aí, então, tinha homem mandando nas mulheres. Eu falei: “Eu não sou coordenadora da construção da Casa. Eu sou a dona da Casa junto com vocês, a Casa é nossa. Não importa quem vai ser a coordenadora, quem vai terminar a Casa pra gente. A Casa é nossa. Mesmo que você ou ela vão estar na coordenação, a Casa vai ser minha também”. Mas os homens não entenderam isso. E aí trocaram as coordenadoras. Isso aconteceu no mês de agosto. A inauguração ia ser em outubro, né? Então, estava tudo pronto. A gente tinha os apoiadores e só precisava terminar a Casa, pra gente colocar tudo dentro, né, as coisas. Organizar tudo. E nós trocamos as coordenadoras. E os irmãos das coordenadoras as proibiram de fazer, continuarem o trabalho. E se perdeu a Casa, toda a estrutura maravilhosa. Meu pai que desenhou a estrutura, o desenho, né, da Casa.
P/1 – Os homens sabotaram?
R – Os homens sabotaram. Tinha mulher também no meio. Mas eram poucas mulheres. Não eram todas as mulheres. Mulher ajudou esses homens também a sabotar, colocando lá: “Olha, você deveria receber salário por estar construindo a Casa. Olha, você deveria ter pagamento pra você estar nesse projeto”. Mas a gente tentou explicar: “Como a gente vai ter pagamento se a Casa é nossa?”, né? Ninguém está recebendo pra ter a Casa. O pagamento maior é a nossa Casa pronta. É o nosso Centro Cultural funcionando, né? Mas não entenderam e perdeu a Casa. E quando a gente criou, a gente mudou da aldeia e a gente foi ter a nossa aldeia, a gente fez uma outra Casa. Foi isso que deixou meu irmão doidinho. (risos) A gente mudou o nome. Ao invés de ser Casa da Mulher, a gente chamou de Umatali, que significa união e respeito. A tradução mais próxima, né? Não bate com a palavra. Mas é uma tradução que meu tio Aritana ajudou a traduzir pra gente, junto com a gente, a gente pediu orientações. A escolha do nome ele também indicou alguns nomes e a gente resolveu escolher Umatali, que representa união e respeito. É uma casa construída por todos e que é vista com respeito. Então, a gente construiu, né? E foi um dos motivos que meu irmão expulsou a gente da aldeia. Ele não apoiava. Quando a gente mudou o nome pra Umatali, a gente imaginava que não ia ter mais homem contra. Não ia ter só a Casa dos Homens na nossa aldeia, ia ter uma Casa de Saberes no centro da aldeia, né? Ia ser aberta, a gente estava com planos de ter, minha mãe tem uma flauta jacuí, que é guardada dentro da Casa dos Homens. Ela ia ser guardada, mas bem escondida, em um lugar que as mulheres não iam ver. A gente respeita a flauta, mas a gente tinha que usar também em alguns momentos o espaço, né, do centro. E que não ia ter, na nossa aldeia - a gente estava imaginando – machistas, porque os nossos filhos são meninos ainda e então, na nossa cultura, homem não pode fazer beiju e nossos filhos fazem, nossos maridos fazem, nossos maridos arrancam mandioca, carregam mandioca, buscam água no rio, coisa que homem não pode fazer. Antigamente. Ainda tem isso. Os nossos maridos fazendo coisas que só mulher fazia. Então, todo mudo tem que ajudar. Porque a mulher faz, ele tem que fazer. Todo trabalho, cada um... vamos viver em comunidade... então a gente achava que estava tudo certo, porque na nossa frente eles diziam que apoiavam. Antes da gente levantar a Casa, a gente se reuniu e dissemos: “Alguém é contra a Casa?” Ninguém falou. Todo mundo falou que apoiava. Mas quando a Casa já estava pronta, a gente estava mobilizando homens e mulheres de outras etnias que vinham para o mutirão fazer, foi quando ele se revelou, assim, que era contra. Ele falou: “Eu não gosto”. Eu nunca achei que fosse presenciar isso, assim, do meu irmão. Porque a gente não era assim. Meu pai não era assim. Muito diferente da gente o comportamento. Quando ele olhou, assim e disse: “Vocês são mais respeitados do que eu e isso eu não vou permitir”, eu fiquei chocada, olhando pra ele. E minha mãe falando pra ele: “Meu filho, mas se as suas irmãs, essas pessoas vêm fazer as coisas com esse trabalho que as suas irmãs têm, elas não são suas inimigas. Você deveria ter orgulho das suas irmãs. Você deveria cuidar das suas irmãs”. Minha mãe falou isso e ele mandou minha mãe calar a boca. E que ela era a culpada de tudo isso, porque ela deveria colocar a gente no nosso lugar, e que ela estava o desrespeitando. Ele falou: “Eu sou o homem dessa aldeia, eu que mando aqui. Essa aldeia é minha”. E minha mãe falou pra ele: “A aldeia não é só sua. A aldeia é de todos nós”. E ele falou: “Não. A aldeia é minha e eu quero que você vá embora daqui. E não quero mais você aqui. Você não me respeita. Você prefere ficar do lado da sua filha. Você nunca está do meu lado. Quando eu quero vender o livro da história do meu pai, você nunca está do meu lado. Quando eu quero abrir uma estrada, você nunca está do meu lado. Você nunca está do meu lado, você sempre está do lado dela. E esses amigos dela sempre estão do lado dela. E eu não vou permitir isso. Então, eu quero que você vá embora a pé pra aldeia dos seus irmãos”. Minha mãe falou: “Você está me expulsando?” Ele falou: “Eu estou te expulsando”. Ele olhou assim pra minha irmã e falou: “Você também”. Minha irmã falou assim: “Por que você está falando assim?” Ele falou: “Porque eu não gosto da Casa que você está construindo. O problema, aqui, é a Casa que você está construindo. Por que você veio pra cá?” Porque a gente morava na outra aldeia. A minha irmã, no começo, não queria ir morar nessa aldeia que a gente abriu. Ele falou: “Por que você veio pra cá?” Aí minha irmã falou: “Porque você me chamou, porque você se sentia sozinho aqui. Porque você precisava dos meus filhos pra abrir essa aldeia, porque você precisava do meu marido pra abrir essa aldeia”. Ele falou: “Eu não quero saber disso. Essa aldeia é minha e eu quero vocês fora da minha aldeia”. Eu fiquei muito chocada com tudo isso porque as pessoas me falavam como é que ele se comportava, né? Porque, quando ele casou, com 18 anos, ele foi morar com o sogro. Então, eu não conhecia esse lado dele. Então, ele só visitava, ia lá, comia com a gente e ia embora pra casa dele. Então, eu não conhecia esse lado, né? E nem ele conhecia a gente. Porque a gente sempre viveu mais junto com nossos pais. E eu falei assim: “Espera aí. Essa aldeia é nossa. Todos nós construímos aqui. Você não está falando sério. Você está expulsando a nossa mãe. Isso é sério?” Ele falou: “Isso é sério”. Eu falei: “Vamos conversar, vamos repensar o que está acontecendo, porque nós somos uma família, a gente precisa nos entender, porque não foi pra isso que a gente veio aqui. Aí ele falou: “Eu não quero a nossa mãe aqui. Eu não quero a nossa irmã aqui. Vocês morreram pra mim. Eu não apoio as coisas que vocês fazem”. Eu falei: “Mas você disse que apoiava”. Ele falou: “Só pra fazer a vontade de vocês eu falei aquilo, mas eu não apoio”. Aí eu comecei a chorar. Eu chorei muito, assim. Eu falei pra ele que eu me sentia fracassada, né, porque eu não consegui fazer com que ele entendesse que nós éramos uma família, que aquilo ali fazia parte de um projeto de resgate, que a nossa família era a única que tinha criança que falava a nossa língua. Eu falei: “O objetivo da gente vir pra essa aldeia era cuidar da nossa mãe e resgatar nossa língua de vez com os nossos filhos e você não está cumprindo com isso. Você está quebrando esse compromisso que fizemos”. Ele falou: “Se você quiser ficar, você fica, porque eu sei que você tem amigos brancos que vão vir ajudar a gente, a gente vai fazer uma aldeia moderna aqui”. Eu falei: “Você expulsa nossa mãe e você quer que eu fique aqui? Você quer que eu fique aqui só por causa dos meus amigos brancos? Você acha que os meus amigos brancos são mais importantes que a nossa mãe, que a nossa irmã, nossa família? Você sabe quem você está expulsando? Você não está expulsando nossa mãe, nem nossa irmã. Você está expulsando, além delas, meus filhos, os filhos da Ana, os seus cunhados e os seus irmãos mais novos. Você realmente está preparado pra ficar sozinho?” Aí ele cruzou os braços, assim e falou: “Eu sou cacique, eu tenho respeito, eu estou no lugar do meu pai, eu estou fazendo o que meu pai ia fazer”. Aí a minha irmã falou muitas coisas pra ele, dizendo que ele jamais vai ser como nosso pai, que jamais meu pai faria ou fez algo parecido com a família dele. Aí minha irmã falou pra ele que ela ia embora, sim, mas que um dia ele ia se arrepender por tudo que ele estava fazendo, né, porque ela não ia voltar atrás de voltar um dia morar lá. E eu comecei a chorar muito, sabe? E a minha irmã olhou assim pra mim e falou: “Para de chorar. Ele só está tirando o peso das nossas costas. A gente não precisa de um irmão machista, fingindo que apoia o que a gente é”. Eu não conseguia parar de chorar. (risos) E minha mãe foi muito forte. Eu achei que a minha mãe que ia chorar, sabe? Mas eu a vi forte e firme, falando com ele que ela ia, sim, porque isso que ela aprendeu: quando alguém a expulsa, ela não pode ficar nesse lugar. E ela falou que ele ia, sempre, ser filho dela, mesmo ele tendo a expulsado. Sempre ia ser filho dela. E que, quando ele precisasse, ela ia estar lá, né, pra apoiá-lo com coisas boas. E aí ele pirou o cabeção, ficou louco, assim. Então, por isso que a gente saiu. A minha casa estava quase pronta, assim. Minha oca, nossa oca. É porque a gente tem aldeias circulares, né? Então, a gente tinha fechado, já, o círculo. A nossa aldeia era linda. Era maravilhosa, assim. Todo mundo encantado. Fazia um ano e meio que a gente estava trabalhando, todos os dias. A gente levantava seis horas e parava cinco e meia, seis horas, pra tomar banho e dormir e acordar no outro dia. Durante um ano e meio. Nossos filhos trabalhando. Todo mundo envolvido. Aí ele mandou a gente queimar nossas ocas. Ele falou pra Ana que não queria nem ver aquela Casa que a gente estava construindo. A Casa da Mulher, Casa da Cultura. Que aquela Casa fazia mal pra ele. Ele falou: “Quero ver se você vai ser mulher de arrancar tudo aquilo ali. Arranca tudo. Eu não quero ver uma madeira ali”. (risos) A Ana falou pra ele: “Quer saber? Eu vou te obedecer. Eu vou fazer isso”. Então, foi muito forte, assim. No outro dia meu marido me levou pra cidade de Canarana, que ele achou que eu não ia conseguir ficar lá naqueles dias. Aí fiquei três dias em Canarana, voltei... não, foram quatro dias, que eu fiquei quatro dias chorando. (risos) Aí, no quinto dia, eu voltei pra buscar as minhas coisas, que eu ia pra aldeia do meu sogro. E aí, quando eu cheguei lá, a Casa da Cultura já tinha sido derrubada. Meus irmãos, meus primos, irmãos de outra aldeia, vieram, os que também estavam ajudando a construir, arrancaram tudo e aí a gente doou as madeiras pra uma família que estava precisando de casa, em uma outra aldeia. Toda a estrutura, assim. As madeiras que já não dava mais pra aproveitar, quando você tira, estraga, a gente queimou e eu queimei minha oca, maravilhosa, né? Mas ele ainda pediu pra gente deixar as nossas ocas, depois. Ele queria que a gente deixasse pra sogra dele e pras filhas dele, né? Eu falei: “Não, olha só, você disse que construiu essa aldeia sozinho e você não construiu. Você vai ter a chance de construir uma aldeia. Então, a gente está dando isso de presente pra você, mas as ocas não”. Aí queimei minha oca. Foi muito dolorido, assim, sabe? (risos) Então hoje ele vive sozinho lá

e a gente se reuniu com todo mundo que saiu de lá: meus cunhados, meus primos, meus irmãos menores, minha mãe e falou: “Olha, a gente está trabalhando um ano e meio. A gente vai emendar?” A gente tinha essa opção, de emendar também, porque estava na época de abrir roça. Falei: “Olha, a gente trabalhou muito, a gente vai ficar seis meses com as famílias dos nossos maridos, né? A nossa mãe vai pra lá ficar com os irmãos e vamos descansar, vamos viajar, vamos passear na cidade, vamos visitar os amigos, aí a gente volta e faz a nossa outra aldeia, né?” Mas aí o nosso digníssimo presidente ganhou, né? E aí começa toda a luta do nosso povo.
P/1 – Foi o ano passado?
R – Isso foi o ano passado. Então, a gente está nessa luta ainda, por isso que a gente não abriu esse ano, bem no comecinho do ano, a nossa aldeia. A gente vai abrir uma roça agora, no meio do ano, né, pra plantar. No segundo semestre. E aí vamos construir uma outra aldeia pra gente, né? Porque, por mais que a família do meu marido me receba, assim, é minha casa também, sabe, mas eu preciso ter uma aldeia. Eu sou yawalapiti. E eu sinto essa necessidade de ter uma casa minha, sabe? Não só casa, sabe? Uma aldeia, mesmo, de referência, assim, pra mim. Meu tio Aritana pediu pra gente ir morar com ele, né? Ele está mudando de aldeia, está abrindo uma nova aldeia esse ano. Ele falou pra eu não responder, semana passada, que era pra eu pensar esses dias que eu estou aqui. Pra eu, quando eu voltar, dar essa resposta pra ele, sabe? Mas quando eu voltar eu dou essa resposta pra ele. Eu já tenho a resposta, né? Então, a nossa luta agora é essa, né? Então, é fortalecimento. Por isso que surgiu essa coisa toda do movimento e várias mulheres gostaram da ideia do projeto da Casa da Mulher. Eles perguntaram o que é, né? A Casa da Mulher a gente não conseguiu inaugurar, terminar. Como é que funciona isso? Falei pra ela: “A Casa é uma casa, entendeu? O que, na verdade, importa, é o que a gente já faz. Você, que é kayabi, não tem o seu projeto da produção de farinha? Você não tem o projeto de revitalização da variedade de comida do seu povo? Então vocês trabalham com isso, né? Vocês vendem o polvilho aqui na aldeia mesmo e fora também, né? Então, a Casa da Mulher era Casa pra isso que vocês estão fazendo, entendeu? O objetivo era: a gente ia ter um acervo, museuzinho lá dentro, fazer oficinas de canto lá dentro, trazer mulheres de outras regiões pra gente escutá-las, a experiência delas, ensinar... era uma escola. Então, vocês não têm a Casa, mas vocês já fazem isso, né? É esse que é o objetivo da Casa da Mulher, né? Vocês já fazem isso”. Aí, as mulheres de outras regiões falaram assim: “Então, se a gente quiser construir a Casa da Mulher, a gente pode construir? Vocês não vão achar ruim?” “Claro que não. A ideia é que vocês façam isso pra vocês, né? Vocês não têm o espaço pra fazer reuniões, encontros? Façam. Tem meninas aí que mexem com audiovisual, não têm câmera, não têm material apropriado, não têm espaço pra fazer isso, vocês podem ter uma casa, que não precisa se chamar Casa da Mulher, ou se vocês quiserem falar Casa da Mulher, que trabalhem com isso. Isso é fortalecer o trabalho das mulheres, mas que seja voltado para as mulheres”. Então elas: “Ah, agora entendemos o que é”. E aí a minha irmã sofre muito com essa coisa da Casa da Mulher, sabe? Ela sofre, mesmo. Às vezes ela desabafa comigo desesperada, assim. Eu nem respondo nada, sabe? E quando a gente abrir a nossa aldeia agora, a ideia é que eu dê de presente pra ela essa Casa. (risos) Ela ainda não sabe disso. Como esse vídeo ninguém vai ver agora, (risos) ela não sabe disso. Eu vou dar de presente essa Casa pra ela. Porque outras coisas a gente já faz, do que a Casa vai fazer. A gente já movimenta as mulheres, né, a gente já está fortalecendo as lideranças de todas as regiões, de cada etnia, a gente está trazendo essas mulheres e as mulheres estão falando: “Vamos fazer uma lojinha no, vamos implantar uma loja na cidade de Canarana, vamos abrir uma escola de música na minha aldeia, vamos... como é que fala?... fazer um moitará, um evento grande, só de mulheres, né?” Já está acontecendo isso, né? Então, as mulheres procuram a gente mais por causa dessa história da Casa da Mulher, sabe? E aí tem muito homem que fala assim: “Elas querem a Casa da Mulher por que elas querem mudar a cultura”. Não é mudar a cultura. Talvez a gente vai trazer coisas um pouco diferentes. O que a gente quer? A gente quer que a mulher tenha participação nas coisas, né? Não é mais aquilo: os homens que decidem como a mulher vai ser filmada. Vai acontecer um trabalho de filmagem: “Ah, mulheres, venham aqui, vocês vão ser filmadas”. E pronto, acabou. E quem recebe o pagamento dessas filmagens é a comunidade. Comunidade como? Comunidade homem, né, porque só eles decidem o que vai ser, como vai ser usado o apoio em troca dessas filmagens das mulheres, né?
P/1 – Você falou que teve aquele momento onde virou o camarada lá, que estava chorando e você decidiu fortalecer, aí você contou esse pedaço da Casa da Mulher, que foi o ano passado. Achei muito interessante que você falou que vocês já trazem as mulheres, que as fortalecem. Como foi que você fez, você e sua irmã, isso de ir falar com as mulheres?
R – Eu casei com uma pessoa que é de outra região, né? Quando eu casei com ele eu conheci o Xingu todo, mesmo. Porque o pai dele é de uma etnia e a mãe é de outra. Então, eu tive contato com todo mundo através disso, só que eu nunca me envolvi nessa questão política, que elas são bem organizadas e tal, tradicionalmente. Eu nunca me envolvi com isso. E quando o Bolsonaro ganhou, né, na eleição toda, teve a questão daquela parente que o apoiou. E ela falou coisas em nome do Xingu, né? Ela expôs o nome das mulheres do Xingu, porque é uma mulher indígena, do Xingu. “Ah, os índios estão apoiando”. E que não era verdade, né? Ela mora aqui, ela tem a vida dela aqui. Espero que ela tenha ficado muito rica em troca da coisa toda que ela fez. E a gente falou assim: “Nossa, elas não podem falar em nome do Xingu. A gente precisa mostrar que o pensamento das mulheres indígenas do Xingu não é esse, que as mulheres do Xingu não são assim, né? E que ela está falando besteira, né? Que ela está mentindo. O que a gente vai fazer?” Todo mundo falou isso. Todo mundo. Todo mundo se ligou, todo mundo no whatsapp. O que a gente fez? Gente, isso está acontecendo porque nós não estamos organizados. Todo mundo indígena que vai pra fora pode fazer o que ele quiser porque o Brasil não sabe, não conhece quem nós somos. Ele acredita que aquilo que aquela pessoa está falando é verdade. A gente precisa se fortalecer. A gente precisa dizer que o que ela está falando é mentira, não é a realidade do nosso povo. Que o xinguano não é a favor dessa pessoa aí. Que ela está pedindo apoio na língua, para os parentes dela. Ela está dizendo que ele não é do mal, que ele é uma pessoa boa e que vai ajudar nosso povo. E ela está dizendo aqui no áudio que o Bolsonaro vai demarcar a terra dela dentro do Xingu. (risos) Aí todo mundo zoava, né? Gente, como é que ele vai demarcar a terra pra ela dentro de uma terra demarcada? E a gente está pagando mico porque a gente está deixando. A gente precisa se organizar pra essas coisas não acontecerem mais, né? Então, essa necessidade precisou, porque muitas pessoas estavam falando por nós e não era verdade, né? Era muito solto. A gente falou: “Vamos nos organizar. A gente conversa entre a gente primeiro, antes de colocar nossa cara lá, pro mundo do branco, né? Porque eu preciso ter segurança. Se eu estou sentada aqui na frente dessa câmera, eu tenho que ter segurança do que eu estou dizendo, porque lá na base vai ter alguém que não é liderança e vai dizer assim: “Ninguém está sabendo isso aí”, mas olha só, eu tenho uma carta, eu tenho autorização pra representar nosso povo. Eu não estou aqui colocando a minha opinião. Estou aqui colocando, trazendo voz ao nosso povo. Se o nosso povo tem protocolo de consulta, tem que ser respeitado. Se o nosso povo fala que a gente tem que ir pra mobilização através da Atix, somente através da Atix, é somente através da Atix que a gente tem que ir e temos que mostrar isso pros brancos. Então, foi por isso que a gente começou a conversar. As mulheres começaram. A gente teve uma reunião, um encontro interno, pra gente conversar entre a gente. Cada mulher, de cada região. Que consegue entender o que está acontecendo e consegue trazer isso da sua aldeia. Então, a gente falou: “A gente precisa se organizar. A gente vai ser o quê? Uma associação? Porque a gente já tentou, uma parente aí já tentou uma associação que não funciona, não é nossa realidade. Não existe uma líder aqui no Xingu. Nós somos várias. E cada povo tem várias. Então, a gente sempre se respeitou igual. Você que é líder, é igual todas as outras. Eu não posso decidir por você e você não pode... todo mundo tem que estar de acordo. Se alguém não concordar, a gente só fala lá fora aquilo que for acordado entre todas, né?” E assim a gente começou a se mobilizar. Cada mulher que se propôs a mobilizar o seu povo, veio de aldeia em aldeia, de motocicleta, porque é longe, né? De barco, de carona, indo de aldeia em aldeia, pra conversar com as mulheres. Porque a gente pediu várias vezes para os homens fazerem isso, eles não vão. É outra conversa, né? E hoje a gente tem algumas mulheres que a gente consegue... como que é que fala?... eu estou aqui, tem várias mulheres lá resolvendo milhões de coisas. O que eu estou fazendo aqui elas estão sabendo, né? Mas é pra proteção, mesmo, né? A gente não tem a mesma língua, as mulheres, mas a gente se comunica em português. É muito engraçado. (risos) E é isso, é fortalecer. A gente vai ter o encontro das mulheres agora, do dia seis a dez de maio, né, depois da ATL,

onde a gente vai discutir tudo que já aconteceu, desde o começo do ano até agora, né? Porque a gente precisa se organizar dentro da nossa terra, pra estar fortalecida. Muita gente não gostou, que tinha acesso a várias coisas individualmente, né? Porque agora, se for fazer qualquer projeto, essas pessoas que faziam individualmente, precisam ter essa anuência de todos os povos, né? Então, muita gente chiou, né? Mas é isso. Que nem: eu botei minha cara na internet pedindo apoio pra gente levar as mulheres pra ATL , né? Imagina se fosse pedir apoio e esse depósito vier pra minha conta. Ia ficar muito esquisito, né? (risos) Então, toda arrecadação vai pra Associação Terra Indígena Xingu, que representa os povos politicamente, né? Então, está sendo muito lindo essas mulheres, mas assim, cresceu muito, mas ficou uma etnia que ainda está difícil, os homens são muito machistas e as mulheres desesperadas, querem nossa ajuda de como, né? E a gente também está indo com calma com essa etnia, porque tem que ter um respeito, né? Eu acho que eles não sabem ainda como funciona. Têm uma ideia. Acho que eles imaginam outras coisas. Esse pensamento ainda: a mulher vai pra uma reunião, vai ficar fazendo bagunça. É o que eles falam, né? Bagunça é tipo namorar. Essa é a bagunça pra eles, porque eles só pensam nisso. Eles acham que as coisas são assim, bagunçadas desse jeito. (risos) E o movimento está sendo bem forte. A ATL desse ano é toda mulher, né? Organizada por mulheres. A Soninha Guajajara é maravilhosa e ela que está à frente de toda organização. E, nas bases, as mulheres todas se movimentando pra arrecadar grana pra poder levar essas mulheres. E esse ano a gente botou a cara e a gente está mostrando pros homens que a gente pode, sim, apoiar, a gente tem força pra trazer apoio, né, pro nosso povo. Não só pra minha etnia, não só pra minha família, entendeu? É pra todos os povos. Hoje eu vejo isso claramente. Que essa semana muitas pessoas entenderam que é isso, sabe? E o movimento tá aí, tá muito lindo.
P/1 – Andando, conhecendo pessoas de outra etnias, qual foi o aprendizado importante que você fez de algum indígena de outra etnia?








R – Aprendi a respeitar cada um desses povos, sabe? Respeitar o modo de vida deles. Respeitar que ele teve o contato muito antes e que ele, com tantas coisas lindas, consegue manter a cultura, consegue estar presente, né, na aldeia, tanto na cidade. Como é que eu posso dizer isso? Resistir, mesmo, né? Os índios do nordeste, né, são demais! O primeiro contato, eles lutam, muitos conseguiram resgatar a sua língua, né? A gente, hoje, os povos indígenas se chamam de parentes, né? Irmãos. Eu aprendi que esses encontros com outros parentes fortaleceu muito o nosso povo. Hoje a gente sabe que nós somos um povo muito grande. Não importam as fronteiras. Não tem onde que está, se é de outro país, se é aqui do Brasil. Todos somos parentes. Ver que nós somos um povo unido, rico de diversidade, de língua, de cultura e que tem muito pessoal não indígena que tem muita coisa pra aprender com o nosso povo. É isso.
P/1 – E deus?, mas o que seria o que, por exemplo, chamam de Deus, Adonai na cultura judaica. Como é que é? Não sei se é essa a palavra, mas essa espiritualidade, qual foi um momento bem forte com a espiritualidade ?






R – Eu sinto muito nos rituais, sabe? Tanto nos rituais xamânicos, dos pajés, quanto nos rituais fúnebres, que é o Kuarup, a festa do pequi, a festa das mulheres. São coisas criadas pelos mesmos deuses, né? Então, eu sinto muito a presença do Criador nos rituais. E não é assim de sentir bonito, essas coisas. É sentir, mesmo. Eu aprendi cantar a música do Uri. A preparação de liderança feminina. A minha primeira vez eu senti que alguma coisa estava em mim, sabe? Antes, quando me convidaram pra eu ir eu até pensei assim: “Eu não vou. Vai dar um branco em mim. Vai acontecer alguma coisa. Eu vou pagar mico. Eu vou passar vergonha em todo mundo. Eu vou decepcionar”. Mas não. Minha mãe, que é minha professora, né, nos cantos do Uriri, ela falava assim: “Quando a música te aceita, quando o ritual te aceita, né, ele vai estar dentro de você. Você só tem que aprendê-la com respeito. E recebe-la de uma forma espiritual. Porque, quando você está em um ritual, vai sair algo, alguém vai cantar junto com você”. E isso eu senti naquele momento. Estava rodeada de pessoas e eu tinha que me concentrar pra fazer esse canto, né? E eu senti a presença, mesmo, dessa energia toda, que é do mesmo - que a gente tem muito isso, né – criador de todas as coisas que existem no mundo, né? Coisas boas. E eu cantei e eu achava que era outra pessoa, sabe? (risos) Até eu fiquei impressionada, assim, quando eu vi meu tio meio assim chorando, né? Era a primeira vez que eu tinha cantado. Participei de uma festa depois da morte do meu pai. E aí eles chorando, sabe? Foi muito forte pra mim, né? E minha mãe, de longe, dizem que ela chorava. (risos) Não vou chorar. Essa coisa é forte, sabe? Eu acho que em cada momento existe essa força maior que nos acompanha.








P/1 – Você falou dessa festa das mulheres, o que exatamente?
R – Nós temos três. Uma é essa que eu te contei, que é a preparação de liderança feminina. Os cantos são rezas, tudo rezas. A menina que recebe, a moça que recebe isso está sendo energizada porque ela precisa ter isso no corpo dela, pra ela aprender, todo ensinamento que ela receber, pra ficar junto com ela. Só que tem duas coisas: essa reza a faz aprender ser uma boa líder e, se ela não fizer direito, ela perde também essa coisa da parte de liderar um dia. Então, tem todo processo. Então, ela vem pra abençoar também você, vai energizar toda você, só que você tem que se cuidar, por um bom período. Um presente que a gente dá pra essa moça. E tem uma festa chamada Ihahá que é dos homens, a flauta dos homens. A flauta era nossa, né? Na história a flauta era da mulher e os homens roubaram das mulheres. Só que eles não roubaram o conhecimento que elas já tinham. Então, a gente canta o som da jacuí , que a gente chama de Ihahá. E tem o Iamuricumã, que surgiu de uma rebelião das mulheres, né, que é a que deu origem às mulheres da Amazônia, né? Que elas viraram um ser superpoderoso. Por isso que a Bruna Franchetto traduziu Iamuricuman como hiper mulheres. Então, todos eles são preparados diferente. São as mesmas danças, mas são com preparações diferentes. As festas do Muri as mulheres cantam recebem presente, em troca dos cantos que elas fazem, né? O jacuí e a Iamuricumã não recebem presentes. Jacuí é o som da flauta e o Iamuricuman é a rebelião das mulheres e elas maltratam os homens. Quando tem, está acontecendo o ritual do Iamuricuman, não pode ter visitante homem. Se, por um acaso, ele chega, ele leva uma surra, ele é maltratado pelas mulheres. Até carinhosamente, vai. (risos) E, no ritual do Iamuricuman, elas fazem tudo aquilo que só o homem pode fazer. Então, elas vão pescar, fazem tudo acontecer, assim. Então os homens ficam só cuidando dos filhos, né, ficam só nos bastidores, cuidando das coisas, enquanto elas fazem a festa.








































P/1 – Como foi pra você contar sua história?










R – Eu acho que é bom dividir algumas coisas. Gostei. Assim, você sabe que eu aceitei porque tem pessoas que eu admiro muito, né, aqui, já. O Ailton Krenak é uma das pessoas que eu admiro muito, né? Que eu nunca mais tive coragem de vê-lo. Toda vez que tem evento alguém, várias pessoas me convidam e eu achava que eu não estava preparada ainda. Então, é uma honra pra mim estar aqui, contando um pouco da minha história pra vocês, né? Eu não quero dizer: “Ela é supermulher”. Não. Eu tenho todos os defeitos de uma pessoa. Eu não sou perfeita e nem maravilhosa. Eu sou uma pessoa comum, mas que quer defender nossa causa, nosso povo e continuar vivendo nas nossas aldeias... como se fala?... sem precisar ter que se preocupar com o que os brancos estão fazendo com a gente, sabe? Porque a gente não tem mais paz, né? A gente tem que sair da nossa casa, pra poder ter que argumentar, né, dizer: “A gente não quer isso, a gente precisa viver em paz. Vocês estão envenenando nossa água, estão destruindo nossas florestas”, sabe? Eu acho que é ter um pouco de respeito, é o que a gente precisa. Só respeitar a gente, as pessoas, não ficar falando coisas que não sabe. Então, por isso, sabe, quando me convidam, quando eu tenho essa oportunidade, eu falo mesmo, né? Obrigada!
P/1 – Na sua visão, do seu povo, como você acha que seria um bom projeto de memória indígena ?
















R – Eu acho que contando a história, mesmo, de cada povo, sabe? Tem muitas histórias que se perderam. Várias coisas que eu recuperei da história do meu povo foi também de livros. No caso, tinham antropólogos, eles registravam coisas, só por aquelas coisas que eles estavam supondo, na época, né, porque as pessoas não falavam o português. Então, eu acho bem importante guardar várias coisas pro futuro dos nossos filhos, mesmo, né? Eu queria muito saber como era meu pai criança. Não tem. Eu sei o que me contam, o que eu soube dele, mas imagina se tivesse uma história dele aqui, eu ia saber. Eu acho que é trazer, mesmo, a pessoa de cada povo, assim, sabe? Que tem muita gente com história boa que saíram, crescendo e também ter algumas coisas do nosso povo no Museu, de ter toda... como é que eu posso dizer?... vocês falaram que tem as coisas disponíveis na internet, vocês me mostraram, mas que aqui não tem isso disponível. Eu não sei, porque pra mim Museu tinha que ter coisas pegáveis, antigamente. (risos)
P/1 – Nosso Museu é virtual...
R – Sim.






P/1 – Mas eu estou perguntando do seu povo. É justamente isso: na sua memória, o que você acha? São os objetos...
R – Os objetos, fotos, essas coisas. As histórias. Eu quero muito fazer o negócio de livro de grafismo, ter, registrar os grafismos, né? Ter disponível... como é que fala?... mapa de famílias, sabe, de cada povo. Porque hoje tem povos que tem várias aldeias. Contar essas coisas também. Eu acho que é bem importante. E principalmente essa coisa de contar como é uma etnia, como é a infância, a adolescência, né, essas coisas todas. É bem interessante isso que vocês fazem. É isso. E vocês também, mergulhar um pouco e fazer as entrevistas nas bases. Imagina!
P/1 – É, eu tenho ideia.
R – Te respondi?
P/1 – Respondeu. A última coisinha: eu queria que, se você pudesse falar, dessas entrevistas, eu vou pedir pra cada um falar alguma fala pra construir o manifesto da memória, o que é a memória pra você.
R – Pra mim a memória é tudo aquilo que a gente vive, né? As histórias, nossos grafismos, nossa identidade, mesmo, manter a língua. Eu não sei explicar isso direito, assim, essa coisa de língua de caraíba me confunde muito, né? (risos) Mas é isso, de guardar, mesmo. De passar pra vocês, do Museu mostrar como que é, de como era. Fotos, mesmo, é muito importante. Fotos antigas. Fotografar também as pessoas que trabalham com imagens nas aldeias, né? Eu acho que isso é História: fotos, fases de um povo, de pessoas. Não sei responder muito isso.