Museu da Pessoa

Carmo de Minas: sair daqui a gente não sai

autoria: Museu da Pessoa personagem: Álvaro Antônio Pereira Coli

Plano Anual de Atividades 2013
Projeto Nestlé: Ouvir o outro – Compartilhando valores
Pronac 128976
Depoimento de Álvaro Antônio Pereira Coli
Entrevistado por Tereza Ruiz
Carmo de Minas, 11 de junho de 2014
NCV_HV027_ Álvaro Antônio Pereira Coli
Realização Museu da Pessoa

P/1 – Então, primeiro Álvaro, eu queria que você dissesse pra gente seu nome, data e local de nascimento.

R – É Álvaro Antônio Pereira Coli, nascido em Carmo de Minas, dia 11 de dezembro de 1965.

P/1 – Agora o nome completo do seu pai e da sua mãe e, se você se lembrar, data e local de nascimento também.

R – Tá. Meu pai, Paulo Afrânio Pereira Coli, nascido em Carmo de Minas, dia 3 de outubro de 1928. E minha mãe Adila Pereira Coli, nascida em 08 de setembro de 1941.

P/1 – Em Carmo também?

R – Em Carmo de Minas também.

P/1 – O que os seus pais faziam, Álvaro?

R – Olha, meu pai nasceu já na agricultura, os bisavós, os avós dele, os pais, sempre foram agricultores, tá, e cafeicultores também. E ele nasceu na cafeicultura, estudou só até a 4ª série, e parou, foi trabalhar na roça. E minha mãe desde pequena morou na roça também e depois trabalhava como costureira, e auxiliando aí nas despesas como costureira, e trabalha ela até hoje, ele já é falecido.

P/1 – E seu pai então vem de família que já era de pequeno proprietário rural? É isso?

R – Pequeno proprietário, era. Os avós do meu pai vieram da Itália com 15 anos de idade. O meu bisavô, né, veio da Itália, Antônio Coli. Com 15 anos de idade e instalou aqui, começou a trabalhar no comércio primeiro e depois começou a trabalhar na agricultura também. E que foi onde que foi meu avô, emeu pai, e passou pra gente também.

P/1 – Era seu bisavô então que veio, né, da Itália?

R – Meu bisavô.

P/1 – Vô do teu pai?

R – Isso, avô do meu pai.

P/1 – Você sabe por que que eles vieram? Alguém te contou essa história?

R – Olha, pelo que me falaram foi a crise na Itália. Estava uma grande crise lá. Foi mais ou menos por volta de 1870, mais ou menos, que teve uma crise lá, e tal, e ele com 15 anos. Eram dois irmãos, resolveram sair e vir arriscar vir aqui no Brasil, e vieram cair aqui em Carmo de Minas, e instalou aqui. E desde lá, a família toda aqui em Carmo de Minas.

P/1 – Fizeram a vida aqui?

R – Fizeram a vida aqui em Carmo de Minas.

P/1 – Fala um pouco como é que seu pai e sua mãe eram de jeito, de personalidade.

R – Nossa, é difícil até pra falar. Como diz, vai achar que tá agradando demais, mas, assim, muito bons, nossa, ótimos pais! Meu pai sempre, desde pequeno, me levava até pra roça pra me ensinar alguma coisinha lá, sempre deixando eu estudar, mas levando pra roça também. E a mamãe um pouco mais brava. Como dizia, a mamãe punha de castigo, o papai tirava. Então sempre foi assim, mas, muito bons, nossa. Somos em sete irmãos, são seis mulheres e eu de homem. Então todos hoje casados, uma só mora em São Paulo, o resto tudo mora aqui em Carmo de Minas mesmo, cada um num ramo diferente, mas a propriedade a gente toca em conjunto, é uma pequena propriedade. Quando meu pai, antes dele falecer, bem antes, ele teve um problema de vista, ficou cego, aí ele entregou a fazenda pra gente. E aí tocamos juntos até hoje, desde 1995, que a gente está tocando junto, em parceria. É uma pequena propriedade, mas ninguém depende exclusivamente daquilo, cada um tem uma outra atividade também.

P/1 – Como que é o nome da propriedade?

R – Sítio da Torre. É o nome então desde o tempo do meu avô, Sítio da Torre, e a gente conserva esse nome.

P/1 – É o lugar em que você nasceu e cresceu, então?

R – Isso. Quer dizer, meus pais tinham casa aqui na cidade também e uma casa na roça. Então era assim, no começo era mais ficava na roça, quando começou os estudos, as crianças a estudar, aí eles compraram uma casa na cidade e vieram. Então ele ia e voltava todo dia, e final de semana, que a gente passava final de semana lá. Mas por causa dos estudos tivemos que vir pra cidade.

P/1 – Conta um pouco como é que era essa casa então que você passou a infância? Como era o bairro e a cidade naquela época?

R – Aqui em Carmo de Minas?

P/1 – É.

R – Na cidade? Em 1965 quando eu nasci, a cidade já era pequenininha e coisa, assim, muitas ruas de terra ainda, era algumas ruas só calçada, então a gente já gostava de brincar, porque brincar no barro, principalmente quando chovia. Cidade pequena era uma delícia, né? Então era uma liberdade total. Até hoje a cidade é pequena, mas como diz, um pouquinho, cresceu um pouquinho, já não é a mesma coisa, mas na época era muito boa a cidade, pequenininha, sem movimento, sem nada. E até hoje ela é pequena, a gente usa muito São Lourenço, a estrutura de São Lourenço, mas Carmo de Minas, sair daqui a gente não sai. Quem nasce aqui, como diz a lenda... O pessoal gosta de voltar pra casa, vai trabalha fora e volta, porque a cidade é muito acolhedora, muito boa.

P/1 – E a casa que você viva? Conta, descreve pra gente um pouco, como é que era a estrutura da casa.

R – É, a casa, quando os meus pais casaram, vieram e moraram no sítio lá, então vieram...Quando os filhos nasceram e começaram a estudar e coisa, eles acabaram vindo pra cidade morar com os meus avós. E aí logo a família aumentou, que quando era um ou dois filhos, mas depois aumentou, eles compraram uma casa. A casa era relativamente pequena, uma casa com três quartos, e tinham setes filhos, então, mas depois foram aumentando a casa, o terreno era grande, foram aumentando, construindo mais quarto, como diz, o que a gente fala, o puxadinho, né, e tal, foi aumentando. E até hoje eu moro nessa casa, essa casa em que eu nasci, que eles compraram por volta de 1960 ou antes um pouco até. Aí eu já nasci... Eles tinham a casa na roça, mas tinham essa também. Então eu nasci e já morei nela e até hoje eu moro nela porque quando meu pai perdeu a vista em 1995, minhas irmãs eram todas casadas já, era só eu solteiro. Então eu acabei ficando com eles lá e depois casei, e continuei morando com eles lá e moro lá. Meu pai faleceu em 2010, e eu continuo. Minha mãe mora com a gente lá até hoje. Estou com 21 anos de casado e a gente mora junto com eles lá, nessa casa. Só que todo mundo, o resto da família tem sua casa, então ficou uma casa grande pra pouca gente, mas tá joia. Casa muito boa.

P/1 – Você é qual dos filhos, na ordem, assim, dos sete?

R – Na ordem eu sou o quinto. É, são quatro mulheres, depois eu, e depois mais duas mulheres. Mas fui o último a casar. As duas mais novas casaram primeiro também.

P/1 – E como é que era, Álvaro, as refeições na sua casa quando você era pequeno? Quem que cozinhava? O que vocês comiam?

R – É, sempre a mamãe teve uma ajudante, uma cozinheira, pelo menos, pela quantidade... Antes de ter os filhos era ela quem cozinhava, fazia tudo, ela não tinha empregada. Mas depois que chegaram os filhos, ela acabou tendo que arranjar empregada pra arrumar a casa, ajudar na comida, e coisa, fazer as coisas. Então era assim. Meu pai, a condição dele não era... Era um sítio, então quer dizer... E a mamãe costurando... Então era tudo, assim, a comida ele nunca deixou faltar nada, mas não é hoje, por exemplo, que você sai pra jantar fora. Na época não, era mais em casa mesmo porque a situação financeira não deixava assim você esbanjar, tal e coisa. Por exemplo, fazia um frango, cada um tinha seu pedaço, que eram nove pessoas. Então, mas, sempre... Isso meu pai lutou muito, não deixava passar necessidade. Estudou todos na medida do possível, né? Então, graças a Deus, foi uma infância excelente.

P/1 – Mas o que vocês comiam? Frango? O que tinha de alimento?

R – Frango, carne, tudo. Isso daí nunca, de falar: “comia só arroz, feijão e coisa”, não, nunca! Isso sempre teve fartura na mesa, isso papai nunca deixou faltar. E lá na roça também, ele mexia lá, ele criava galinha lá, ele criava porco, ele tinha gado que ele mexia, então, o que ele às vezes ele não comprava, tinha lá o porco que ele matava e punha no congelador pra coisa, pra ir consumindo. Antigamente, eu não lembro muito bem, mas no começo tinha um negócio de matar o porco e por na gordura, naquelas latas de gordura, pra ir tirando. Então, frango, ele tinha muito, isso ele tinha. Ele plantava milho lá, então tinha sempre uma roça de milho. Plantava umas coisinhas, e tal, tinha uma verdura e coisa. Então, tudo, muita coisa vinha da roça mesmo. Ele trazia pra gente. Plantava mandioca, plantava batata, plantava essas coisas. Ele gostava de ter um pedaço de terra na coisa só pra trabalhar com isso, pra trazer pra casa, não era pra comercializar, mas pra ter fartura na mesa. Isso daí ele sempre foi muito coisa com isso, com a fartura da mesa.

P/1 – Garantia.

R – Garantia. Isso sempre.

P/1 – E café? Vocês consumiam, Álvaro, café na tua casa?

R – Consumíamos. Sempre consumimos. E assim, nunca... Quer dizer, pelo menos que eu lembro, a gente não comprava café em supermercado, era sempre o que produzia lá, já separava. Na época do meu pai lá, já separava, por exemplo, dois sacos de café, na safra, pro consumo. Então já separava, já deixava guardado lá na roça, porque aquilo era pro consumo. Antigamente torrava lá. Às vezes a mamãe ia pra lá, a empregada, depois torrava naqueles ‘torradorzinhos’ de bola que falava, que é no fogo, que acende o fogo, e torrava. E sempre foi desse jeito, consumindo nosso café mesmo. E hoje, a gente já...por exemplo, a gente produz, escolhe os melhores cafés, só que a gente não conserva na roça, deixa na cooperativa, no armazém. E vamos dizer, eu pego lá 15 quilos de café, tem um rapaz que torra, e tal, e vai pra família inteira, a gente torra pra família inteira, torra, deixa lá, cada um pega; acabou aqueles 15 quilos, por exemplo, eu mando torrar mais pra não ficar guardando muito, o café quanto mais fresquinho e torrado, melhor, né?

P/1 – Mas até hoje sua família consome...

R – Até hoje, é. Toda a família. Inclusive a minha irmã de São Paulo, que ela quando ela vem ela já calcula mais ou menos o que ela vai gastar, ela vem só daqui um mês de volta, ela já leva pra consumir lá também, ela leva desse café nosso, que a gente produz.

P/1 – E como é que preparava o café na época? Você lembra?

R – Sempre foi no coador de pano, né? Sempre foi no fogãozinho de lenha lá, com a chaleira lá fervendo e colocava café com açúcar no coador de pano mesmo, e até hoje a gente usa essa tradição lá em casa. Eu levanto todo dia cedo, já coo o café no coador de pano mesmo. Tenho até máquina da Nespresso, eu ganhei uma máquina dessas. Então a gente deixa mais essa máquina com as cápsulas. Eu ganhei por ser fornecedor da Nespresso e por ser Rainforest também a propriedade, eles me deram de presente uma máquina. Então esse café a gente deixa mais pra final de semana quando reúne a família, aí a gente põe a máquina lá e aí a gente vai degustar o café ali. Mas durante a semana a gente usa o coador de pano mesmo com esse café nosso, porque senão a gente também ficar comprando cápsula e tal. A gente prefere deixar mais pro final de semana da família inteira reunida.

P/1 – Conta pra mim um pouco como é queeram as brincadeiras nessa época, Álvaro? Do que você brincava? Com quem você brincava?

R – Na infância?

P/1 – Na infância.

R – A rua onde eu moro – até na época tinha o apelido de beco, porque ela era uma rua calçada que ela chegava no final acabava o calçamento. Tinha duas saídas que saiam no asfalto, mas não eram calçadas, era de terra. Então a gente falava que era um beco porque era uma rua sem saída lá, que se chovesse não descia nesses becos. E essa rua ela tinha uma criançada. Os primos da família da minha mãe moravam todos nessa rua. São sete irmãos também que moravam nessa rua. Então a família inteira devia ser o quê? Uns 30 primos mais ou menos e mais os vizinhos do beco, que a gente falava. Que até o pessoal falava “é um grupinho fechado do beco”. Então era a família mais os amigos daquela rua. E tudo naquela época era uma criançada, cada família tinha quatro, cinco, seis, sete filhos, então era aquele bando de gente! Então a gente estudava, depois do almoço era ir jogar bola, tinha um campinho lá perto, saía, jogava bola de tarde, e de noite brincava de pique na rua. Pegava, esse beco mais esse beco que saía lá era brincar de pique, era pique-pega de correr, pique de esconde e tal, era a brincadeira da criançada na época, não tinha vídeo game e a televisão de ficar e coisa, não tinha aquela coisa. Então era mais esses brinquedos mesmo, aqueles brinquedos de bolinha, de derrubar a garrafa, aqueles negócios, era só esses brinquedos de rua. Então a gente ficava, chegava seis horas ia até, vamos dizer, nove horas da noite, porque a gente também não ficava até tarde na rua, então nove horas era brincadeira na rua, só lá. Não tinha movimento de carro, não tinha nada, porque não tinha saída nesses becos lá. Então era brincadeira na rua mesmo. Era muito divertido! Juntava ali, vamos dizer, 30 crianças, às vezes, e tal, pra brincar, de várias idades, assim, mas homem, mulher, brincava tudo ali na rua. Era muito divertido (riso).

P/1 – E você tinha quantos anos quando você começou a frequentar a escola?

R – A escola? Com sete anos. Seis anos eu entrei no pré. Antigamente era só com seis, aí sete anos que eu entrei no primeiro ano, na época era primeiro, até a quarta. Aí depois da quinta até a oitava aqui em Carmo de Minas mesmo. E depois tinha esse técnico de Contabilidade, que era da Prefeitura daqui, que tinha esse curso. Então eu estudei aqui mesmo. Nunca estudei fora, sempre foi aqui. Da sétima série do ginásio em diante eu comecei a estudar à noite e ajudava o meu pai na roça durante o dia.

P/1 – E quais são as primeiras lembranças que você tem da escola?

R – Da escola? Nossa senhora! Eu lembro da minha primeira professora, Dona Nilza, que na época era solteira, depois foi casada com até um primo meu. Mas é que eu lembro muito é dela, que foi a primeira professora, então a gente lembra muito, marca isso. Depois as outras a gente marca, mas não... Mas sempre a primeira a gente fica. Dona Nilza, é, que foi a primeira professora...

P/1 – Qual que era a escola?

R – É escola, Grupo Gabriel Ribeiro. Hoje é Escola Estadual Gabriel Ribeiro, na época era Grupo Escolar Gabriel Ribeiro que chamava. Eu estudei lá. Depois o ginásio foi Ginásio Guedes Fernandes. Tá. E depois é Escola Técnica de Contabilidade, que foi onde eu fiz a Contabilidade. No terceiro ano eu formei em Contabilidade em 1984, em 1985, eu até então ajudava o meu pai, e em 1985 aí eu entrei pra trabalhar no Sindicato Rural dos Produtores de Carmo de Minas, trabalhei um ano. Em 1986, eu fui pra Cooperativa dos Cafeicultores de Carmo de Minas, em 86, e fiquei até um mês atrás, que eu trabalhei 28 anos lá. E agora, um mês atrás eu saí de lá e vim trabalhar aqui na Carmo Coffees. Então faz um mês, eu sou empregado novo.

P/1 – Que você está aqui?

R – É.

P/1 – Deixa eu voltar um pouquinho, a gente vai chegar nessas mudanças profissionais. Nessa fase de infância ainda, você se lembra o que você queria ser quando crescesse? Você tinha, assim, uma vontade de ser alguma coisa quando crescesse? Um sonho de alguma profissão?

R – Olha, eu não tinha assim de estudar fora, de coisa, eu não tinha, nunca tive essa coisa. Acho que em cidade pequena, a gente parece que quer ficar na cidade. Então eu tinha vontade de ajudar, ficar na roça com meu pai. Era vontade de ajudar ele, desde pequeno a gente ajudava a rodar café no terreiro, tirar leite e fazer esses servicinhos de roça. Eu fazia tudo junto com ele. Então a minha vontade era isso, continuar nisso. Mas só que eu falei, na época eu falei “eu tenho que arranjar um emprego pra...”. Então por isso que eu resolvi parar lá. Ele mesmo me aconselhou, falou: “Surgiu o emprego, vai”. Aí eu acabei vindo trabalhar. Mas a intenção seria continuar lá, trabalhar com ele lá. Se fosse uma propriedade maior e coisa, até poderia ter ficado com ele, mas como é uma propriedade muito pequena, eu preferi arranjar um serviço na cidade mesmo.

P/1 – Mas sempre quis trabalhar com campo, com cultivo?

R – Sempre quis. Meu pai trabalhava de segunda a sexta, e sábado e domingo, da época dele, eu ia pra lá com ele, passava final de semana, ficava lá, gostava muito de ficar. E até hoje, eu trabalho durante a semana e final da semana vou pra lá.

P/1 – E nessa fase de infância ainda, você lembra de algum fato marcante, algum causo, alguma história que você tenha vivido, que tenha ficado, assim, na memória?

R – Sei. Olha, tem um caso até que aconteceu que eu guardei muito isso, que eu era pequenininho. Que ele às vezes chamava, que a gente tinha a sede lá e tinha um pasto, o Pasto da Serra, então a gente ia sempre dar sal pro gado lá, ia duas, três vezes por semana ia dar salpro gado. E um dia nós subindo a pé, eu subia junto com ele a pé, eu subia na frente e ele atrás, e eu lembro que eu estava naqueles matinhos, uns matinhos baixinhos, assim no meio do café subindo, e eu passando o pé, eu descalço, passando o pé no matinho assim, aí ele falou: “Ó, para de chutar mato aí, que vai ter uma cobra aí e você vai e coisa...”. Na hora que ele falou me deu um medo, eu falei: “Pai, agora tou com medo de andar”. E pouquinho pra diante tinha realmente uma cascavel lá. Então até tirou, tal, foi espantou ela pra lá. E falou: “Ó, isso daí a gente não precisa matar, só se você tivesse chutado ela, ela ia...”. Então depois disso passei a tomar um medo de cobra! Onde eu vou andar, qualquer barulhinho, já assusta.

P/1 – Você andava muito descalço quando criança?

R – Andava muito descalço. Tinha, comprava o calçado pra gente, mas aquele negócio de ficar brincando no terreiro lá, às vezes estava brincando quando ele saía, minha mãe estava lá na casa, ele saía com saquinho de sal para dar sal pro gado e falava: “Ó, tou indo lá em cima”. “Ah, pai, eu vou com você!”, que não era longe: “Eu vou com você”. E às vezes estava brincando ali no terreiro descalço mesmo e já saía. Mas geralmente quando programava de sair, ia a cavalo, porque às vezes a gente subiaà cavalo pra lá, para juntar o gado e coisa, aí geralmente já não, ia de botina, de calça, tinha que botar a roupinha direitinho pra ir junto com ele. Sempre ele conservava lá uns dois, três cavalos, pra quando precisasse a gente ia, e às vezes ele falava: “Ah, hoje eu quero andar um pouco”, aí a gente ia de pé. Mas tinha calçado, tinha tudo.
P/1 – Tinha uniforme na escola?


R – Na escola tinha, tinha uniforme. No Grupo e no Ginásio tinha. Sempre foi obrigatório o uso de uniforme.

P/1 – E como é que era? Você lembra? O uniforme.

R – No Grupo eu lembro que era um short azul, uma calça azul-marinho e tal, e camiseta branca. No Ginásio aí já mudou um pouco os uniformes, porque exigia muito a camisa, que era uma camisa branca, com gola vermelha, com o símbolo da escola, assim. Mas a calça usava, exigia que a gente usasse uma calça, era uma calça, eu lembro, no começo, era uma calça azul-marinho também, calça comprida. No Grupo a gente ia de short mesmo, mas na coisa já era calça comprida, tênis, tinha que ser tênis azul também. Era tudo, não podia comprar um tênis vermelho e querer ir na escola, porque era barrado. Teve época lá, no ginásio já, que a meia tinha que ser meia azul-marinho também. Então tinha um dia que eles resolviam lá: “Hoje nós vamos revistar”. Passava levantando a calça de todo mundo pra ver se estava com meia azul-marinho, porque se não tivesse mandava voltar em casa e trocar a meia. Tivesse uma meia colorida, uma meia de time de futebol, alguma coisa, tinha que voltar. Então era, o uniforme, isso daí era muito exigido lá. Foi sem uniforme? Não, volta e... Então era muito rígido o negócio (riso).

P/1 – Tinha mais segurança.

R – Recreio fechado e tudo. Tinha um recreio lá, que tinha repartido, no ginásio, eu lembro bem, um canteiro no meio do pátio assim, um lado recreio de homem, o outro lado recreio de mulher, não podia... Às vezes a gente chegava pra conversar às vezes alguma coisa, geralmente vinha uma supervisora lá mandava: “Não, ó, os homens pra cá, mulher pra lá”. Não podia. Aí na hora de subir fazia fila, fila dos homens de um lado, fila do outro, pra subir a escada pra ir pra sala. Era muito interessante na época, hoje não, mas era muito rígido, na época.

P/1 – Era separado? Sala de menino e menina?

R – Não. A sala era junto, só o recreio que era separado. Na hora do recreio era separado E na hora que chegava a formação pra subir a escada, que era em cima, no andar de cima, as salas, pra subir, de um lado da escada, tinha duas escadas, e subia uma só, então de um lado eram os homens, do outro ladoas mulheres, aí ia subindo na escada, lá em cima aí sim, tudo pra sala, aí misturava, na sala. Mas no recreio não, era...

P/1 – Separado.

R – Separado.

P/1 – Você tinha alguma matéria favorita nessa época de ginásio?

R – Eu gostava muito de matemática. Gostava muito de matemática, contabilidade, eu gostava de mexer com número, assim, eu até gostava bem. Mas, assim, foi aquela coisa, estudava as outras matérias, tinha as que eu detestava também, que principalmente na contabilidade, que aí você pega química, é biologia, é ciências, tinha umas coisas que eu não... Agora, matemática eu gostava bem, matemática e contabilidade, mexer com número, eram as que eu mais gostava.

P/1 – E tinha um professor favorito, nessa época?

R – Na época, de matemática, um professor que eu lembro muito, que ensinou muito, que é o William, que foi professor já no tempo do ginásio e tal, que ele era o professor de matemática lá. Eu lembro muito dele! Era um professor muito bom, que chegava final de aula assim, tinha dia que ele chegava e dizia: “Hoje nós vamos estudar até só 30 minutos, 20 minutos nós vamos ficar batendo papo só aqui”.

Eesquecia damatemática, ficava conversando. Então ele agradava muito os alunos, acho que isso que eu lembro muito dele.

P/1 – Ficou marcado.

R – É, ficou marcado.

P/1 – E aí nessa fase de adolescência, porque ginásio você já entrou na adolescência. Eu queria saber o que mudou na sua vida, o que você fazia pra se divertir, se você saía mais, porque tem as brincadeiras na época de infância. Depois normalmente na adolescência muda um pouco. O que vocês faziam? Vocês saíam? Passeavam?

R – Saía. No começo passeava mais aqui em Carmo de Minas mesmo, a gente não tinha muito aquela coisa de sair e tal. Mas depois, vamos dizer, com 16 anos, 15, 16 anos, eu já comecei a ir a São Lourenço, aí meu pai deixava eu ir. Naquela época eu não sei se a fiscalização de polícia era coisa, porque com 16 anos, por exemplo, meu pai já me emprestava o carro, sem carteira eu ia pra São Lourenço desde que tivesse horário pra voltar. E como dizia, como ele falou: “Se um dia você tomar um copo de cerveja e tal, você não pega o carro mais”. Então eu tinha essa coisa, ele me emprestava, eu ia e tal, ia pra São Lourenço, depois comecei até a ir pras cidades vizinhas, tinha Cristina, às vezes tinha alguma coisa, alguma festa, eu ia durante o dia pra não voltar à noite. Aí já começou essa coisa, de 15, 16 anos, 17. Com 18 anos, quando eu comecei a trabalhar, aí já meu pai me ajudou, eu comprei um carro pra mim, aí já tirei carteira, aí já comecei a passear mais aqui. Era mais era isso, era passear aqui no Carmo. Festinha, tinha o Clube Urca, que tinha uns bailezinhos todo final de semana, que ainda falava, que era discoteca, na época, tal, que era nesse Clube Urca, então tinha de noite, sábado e domingo, era isso que era a diversão. Era sair, ia na missa todo domingo, isso daí exigência, às sete horas tinha que estar lá na missa, oito horas acabava, aí sim a gente ia pro clube e ficava até nove, dez horas, era o máximo também, e já tinha que ir embora pra casa.

P/1 – Como é que é? O clube existe até hoje?

R – Existe até hoje.

P/1 – Como é que ele é? Como é que ele era na época?

R – Então, na época era assim, era menor, já tinha o salão, e esse salão até hoje é o mesmo salão, é coisa muito antiga e tal. A piscina também, o tamanho da piscina era o mesmo, que na época foi construído tudo bem grande. Hoje não. Aí tem, depois, sauna, campo de vôlei, society, quadra de tênis, e aí foi inovando muita coisa lá, mudou muito, jogos, toboágua, e coisa. Na época, não. Na épocaera a piscina, durante o dia piscina, tem campo de futebol society. Hoje tem tudo. Então estruturou muito, comprou mais terreno, aumentou. Mas, na época, era o quê? Era uma quadra pequena de futebol de salão, a piscina e o salão, que era pra baile. Carnaval, todo carnaval era no clube, não tinha aquele Carnaval de rua na época. Então tinha muito, na minha época de 18 anos, de 15 pros 18 anos por aí, era mais era no Urca mesmo, não tinha aquele carnaval de rua, saía um bloquinho e tal, mas de noite era Urca, ia pra lá. E até hoje, quer dizer...

P/1 – E como é que era o baile de carnaval?

R – Baile de carnaval era muito animado, muito, porque ia desde o pessoal com 18 anos, 17, 18 anos, até os nossos avós, por exemplo, iam. Todo mundo era nesse baile. As marchinhas, coisa, naquela época não tinha muito essa bagunça dessas músicas mais coisa, ainda eram aquelas marchinhas. Então, quando ia pra lá adorava porque estava junto com os adultos. Então era muito bom, muito animado o carnaval aqui.

P/1 – Tinha fantasia? As pessoas iam fantasiadas?

R – Tinha. Tinha bloco. O pessoal lá da minha rua lá, era o Bloco do Beco, que chamava. Todo ano tinha disputa de fantasia, as mulheres, né? Os homens não, não tinha muito aquela coisa de fazer fantasia de coisa, mas as mulheres, isso tinha, e tinha lá, eram quatro noites de carnaval, na última noite era já... Tinha o pessoal que olhava as fantasias e tudo, os grupos, e coisa, aquelas... Aí depois eram os blocos, né? E no último dia era a premiação. Aí tinha a premiação, com troféu, com medalha e coisa, o melhor, o mais animado, não sei quê. Tinhas as premiações todas lá, todo carnaval.

P/1 – E tinha um bloquinho ou alguns bloquinhos tradicionais da cidade?

R – Tinha. Na época aqui... até bloco de rua, vamos dizer, assim, tradicional, que há pouco tempo que acabou até, Bloco do Sujo. “Bloco do Xujo”, que é escrito lá. E esse bloco foi, deve ter sido criado até, eu acredito, uns 35 a 40 anos atrás, e foi passando, era uma casa de um pessoal, uma família lá em cima, que começou um bloquinho pequeno e foi aumentando. Então, na minha época de fazer 18 anos, por aí, eu andava direto, todo carnaval eu descia nesse bloco, arrumava e aprontava lá e descia. Todo mundo com fantasia, vamos dizer, homem vestia de mulher, e uns faziam umas fantasias meio exótica, de alguma coisa assim, um robô, tinha sempre. Só que essa família, depois os pais acabaram falecendo, a família acabou gente mudando, o pessoal mudando cada um pra um lado e coisa. O pessoal continuou tentando fazer o bloco, continuar e coisa, mas foi indo e o pessoal vai perdendo aquela turma antiga do Bloco do Sujo, vai saindo, saindo, saindo e começou foi perdendo até acabar.

P/1 – Era na rua que eles saíam?

R – Na rua.

P/1 – Eles faziam percurso na rua?

R – Na rua. É. Saía lá de cima, descia, ia na praça. Aí era assim, tinha os bares. Então em frente do bar parava, aí tocava um tanto lá, e tal, parava, depois descia pro outro bar. Ia descendo os bares que tinham, parava em todos os bares, depois pegava no asfalto, dava uma volta no asfalto, voltava. Na praça, aí dispersava. Na praça acabava. Aí cada um tomava o rumo... É, mas era muito gostoso.

P/1 – Você escutava música? Gostava de música, assim, nessa fase da juventude?

R – Gostava. Eu gostava de música. Eu gostava, quer dizer, carnaval era a bagunça mesmo, não tem. Mas fora disso eu gostava, no meu carro, por exemplo, sempre ter Zé Ramalho, Zé Geraldo, Milton Nascimento. Mais essas músicas, assim, eu não gostava muito de rock, de coisa, eu nunca fui muito chegado, não. Eu gostava mais de uma MPB tal, então sempre... Na época de adolescente foi essas músicas que eu gostava.

P/1 – Tem uma canção, assim, específica que seja mais marcante? Que tenha marcado um momento importante?

R – É. Eu gostava muito é do Zé Geraldo, Senhorita. É uma música que eu gostava muito de escutar. Então não tinha assim uma razão, é que eu gostava da música.

P/1 – Você lembra de um trechinho?

R – Aí, agora é que é (risos). É que faz tanto tempo que eu não escuto que até não arrisco, não.

P/1 – Não? Quer arriscar não?

R – Não arrisco não.

P/1 – Tudo bem... E aí você falou, então, pra mim, que essa coisa do trabalho, que você começou na sétima série, é isso? Que você começou a trabalhar com seu pai.

R – Isso.

P/1 – Até então você só estudava. É isso?

R – Só estudava. Estudava, era assim, no período da manhã que eu estudava, e à tarde, às vezes tinha dia que não tinha dever, era sexta-feira, aí depois que eu chegasse da aula e tal, eu ia na parte da tarde com ele na roça. Mas a maioria não. Eu estudava de manhã e à tarde era dever, era alguma coisa assim, então não ia. Aí na sétima série eu passei a estudar à noite, e tomei bomba. Primeiro eu estudava de manhã, mas foi uma época que eu meio que a gente meio que relaxa um pouco nos estudos e coisa, e tomei bomba na sétima série. Aí meu pai falou: “Você estuda à noite e vamos me ajudar na roça cedo, porque durante o dia, o dia que você estiver cansado, você dorme lá um pouco, não tem importância, mas você... Porque se não der no estudo...” Porque foi a primeira bomba, aí já falou: “Se não der certo no estudo, você tem uma coisa, pelo menos aprende a trabalhar lá”. Aí fomos. Fui pra lá, mas continuei estudando e nunca mais tomei bomba. Aí estudei bem e fiquei, foi essa época, da sétima em diante, da sétima até formar no terceiro ano, sempre estudei à noite.

P/1 – E aí, me conta, como é que era o seu trabalho na roça com seu pai? O que é que você fazia? Como era o cotidiano do trabalho?

R – É. Chegar cedo. Saía cedo daqui. Geralmente meu pai levantava, sempre levantou por volta de 5 horas. E arrumava café, arrumava tudo, e tal, e em torno de 6 horas, mais ou menos, a gente ia pra roça. Ia pra roça, chegava lá, a primeira coisa era juntar o gado, tirar leite, ele tirava leite. Aí tinha mais um menino, que ajudava eu e ele, que quis aprender a tirar leite mesmo antes de eu começar a ajudar, ele já me ensinava, eu ia pra lá final de semana e tal... E era tudo na mão, não tinha máquina, não tinha ordenhadeira, não tinha nada, era tudo na mão. Então tirava, não era quantidade grande, mas tirava aí 150, às vezes 200 litros de leite, mas tudo na mão. Acabava de tirar o leite e ia, tratava das vacas e coisa, arrumava tudo lá. Aí punha no carro, ele tinha um fusquinha, que botava algumas latas de leite ali, tirava o banco, botava umas latas de leite ali. Depois ele até comprou um reboquezinho pra trazer. E aqui tinha uma, a gente falava fábrica, que é nessa rua, nesse beco. Tinha a fábrica lá que produzia queijo e ele sempre vendia leite lá. Só que tinha que entregar lá, eles não tinham caminhão pra ir recolhendo. Então ele acabava de tirar o leite, arrumava, tratava de vaca, tratava de bezerro, arrumava, e vinha, por volta de 10 horas, 10h30 a gente vinha, aí levava o leite na fábrica, deixava lá. A gente mesmo que tinha que lavar as latas. Entregava, despejava o leite, media, despejada, pegava as latas assim embaixo, lavava as latas lá mesmo com vapor, com aquela água quente e tal, colocava na coisa, e voltava, passava em casa, almoçava.

P/1 – Qual era a fábrica?

R – Era fábrica só que a gente falava...

P/1 – Não tinha nome, não?

R – Tinha, na época eu lembro até o dono... Quem que era?

Mas não tinha nome. A gente falava só a fábrica e já sabia que era. Até hoje o pessoal: “o morro da fábrica ali”. Já sabe onde era o laticínio lá. Aqui até eles não vendiam. O queijo mandava pra fora. O cara fabricava ali, mas mandava pro Rio, que a família que fabricava isso acho que era gente do Rio. Lembro muito do cara que trabalhou a vida inteira lá, que era Samuel, esse eu lembro muito dele porque ele é que recebia o leite, que fazia o queijo, que fazia tudo lá, era o chefe, então eu lembro muito dele.

P/1 – E vocês consumiam esse queijo também ou vocês só...?

R – Consumia. Geralmente quando ia lá, a gente... Quer dizer, acho que ele não podia vender o queijo ali, na coisa ele não vendia, mas tinha dia que a gente chegava lá ele chamava: “Vem cá. Deixa eu te dar um pedaço de queijo aqui”, aí ia lá cortava um pedaço de queijo e dava pra gente comer. Aqueles queijos na salmoura, isso eu lembro direitinho, tinha aquelas caixas grandes, ficava aqueles queijos na salmoura, naquela água. Então às vezes pegava um queijinho, tinha uns pedaços na hora que ele ia fazer o queijo, já tirava: “Toma aqui, come aqui”. Agora pra comprar mesmo, eu acho que eles mandavam tudo pra fora, não vendia aqui.

P/1 – Aí você estava contando do seu dia. Depois entregavam e iam pra casa almoçar?

R – Isso. Ia pra casa almoçar. Já subia, parava em casa, almoçava e voltava pra roça. Aí a parte da tarde lá, tinha sempre alguma coisa, é o que eu te falei, tinha esse gado lá na serra, que é o gado que a gente fala “gado solteiro”, que não dá leite, garrote, é vaca desmamada, que não está dando leite, tal. A gente ia lá olhava isso, e era tratar de um porco, tratar de galinha, e ia no café dar uma olhada no serviço. Isso o papai que ia olhar, né? Mas geralmente ele me levava junto. E aí durante a colheita, durante a colheita de café, depois de uma série em diante que eu ia pra lá, aí eu que ia medir o café, não tinha condução, não tinha caminhonete, não tinha nada, era burro, aí tinha lá quatro, cinco burros com os cargueiros do lado, os balaios do lado. Então eu ia na lavoura, chegava lá media o café e um camarada lá ajudava a despejar os balaios de café dentro, despejava um pouco de cada lado, e amarrava um burro no outro. E a gente, assim, no começo o papai sempre ia junto comigo, e ia me ensinando, e tal. Aí depois, de vez em quando, eu já ia medir o café sozinho toda tarde, né? E media, trazia no terreiro. Eles mesmos despejavam, que na época eu ainda não... Depois comecei a despejar também, tinha dia que tinha que dar duas viagens, voltar na lavoura, pegar, encher os cinco cargueiros e trazer pro terreiro de novo.

P/1 – O que é? Você está chamando de medir o café, Álvaro, o quê que é?

R – Medir é o seguinte: desde de quando eu conheço, lá do papai e coisa, tem umas medidas, que hoje é uma medida de lata de 60 litros, uma medida 60 litros de café, o padrão, a gente fala, então, na época eram os balaios de taquara mesmo. O pessoal fazia o balaio de taquara, aí tinha que pegar um balde, pegava um balde às vezes de 10 litros, e aí media. No começo da colheita pegava, fazia o balaio, o “balainho”, aí media, 10 baldes daqueles, 60 litros. Geralmente o pessoal que fazia balaio eles já faziam de 60 litros, certinho. Então, às vezes se passasse um pouquinho e tal, tinha que fazer uma marca por dentro dele até ali, que era 60 litros. Então todos os apanhadoresde café ganhavam por produção, então combinava na época lá: “Não, vai ser tal valor cada balaio de 60 litros”. Então eu media isso. Cada um ia colhendo café e ensacando, colhendo, abana, tira as folhas e vai ensacando. E na hora que a gente vai medir, aí eles vão e despejam cada medida, e depois, por exemplo, deu um resto, às vezes um tanto assim, aí a gente calcula,15 litros, 10 litros. Então tinha uma folha que a gente marcava: fulano de tal, 3 medidas e 10 litros. Aí todo dia ia marcando, ia marcando, e chegava no final de semana, aí aquele caderno, o papai ia fazer as contas lá, tudo, não tinha calculadora, fazia tudo na mão e tal: “Fulano deu tantas medidas e tal e coisa, dá tanto”, já levava pra pagar em dinheiro. Todo sábado tinha pagamento. E até hoje é assim, é por medida, por produção, a colheita de café é por produção.

P/1 – E quem que fazia a colheita pra vocês na propriedade do seu pai?

R – Era uns camaradas de lá mesmo. O papai tinha alguns camaradas lá que trabalhavam no café, trabalhavam no roçar pasto, tudo, ajudavam em tudo. Então tinha alguns camaradas de lá e durante a colheita chamava mais alguns camaradas aqui da cidade, mas pouca gente. Produzia pouquinho café, então era pouca gente. Tinha geralmente aí cinco, às vezes, no máximo até 10 apanhadores de café só, que apanhavam, que iam ajudar. Então às vezes tinham umas três famílias lá, a mulher às vezes ia junto, ou um filho que ia junto, e tal, então apanhava. E quando precisava, às vezes, pegava mais dois, três, no máximo, daqui da cidade só pra ajudar a fazer a colheita. Mas eram uns camaradas lá mesmo, que moravam lá.

P/1 – Qual que era o tipo de café que vocês plantavam?

R – Na época do meu pai era Bourbon, ele tinha Bourbon amarelo. Desde essa época lá dele já tinha, e era Mundo Novo, que é vermelho. O que ele tinha mais eram os dois, o Bourbon e o Mundo Novo. Que hoje até o Mundo Novo é o Acaiá, que a gente tem hoje em dia, mas na época era Mundo Novo e Bourbon, que eram os mais conhecidos. Eram uns pés muito grandes e tal, o espaçamento de plantio era muito largo, uma distância de uma rua de café na outra, o pessoal usava 4 metros de distância de uma rua na outra, de um pé no outro às vezes era 2 metros, 2,5 metros, de um pé no outro. Então era aquilo lá, cabia o quê, eram 1.000 plantas por hectare. Hoje não. Hoje os plantios eles plantam até 10.000 plantas por hectare, então o espaçamento adensado, que fala, né, pra tirar mais produção por hectare.

P/1 – Qual que é a distância hoje em dia, mais ou menos?

R – Hoje em dia o pessoal planta às vezes três por meio, às vezes dois e meio por meio, de um pé no outro. Então por pé ele produz menos, na época ele produzia mais, por pé menos, mas por área, no hectare, acaba sendo uma produção maior do que a antiga, os espaçamentos antigos que existiam.

P/1 – Você falou, deixa eu tirar uma dúvida de alguém que é bem leigo em café. O Bourbon e o Novo Mundo, né, que você falou?

R – Mundo Novo.

P/1 – Eles são Arábica?

R – Tudo Arábica. Aqui não existe o Conilon, aqui na região nossa não tem. O Conilon é mais no Espírito Santo. Então não tem, por aqui não tem. Aqui é 100% Arábica.

P/1 – Então eles são tipos de Arábica, é isso?

R – É, são tipos de Arábica. Existe o Arábica e o Conilon, aí no Arábica tem várias variedades, que é hoje tem o Catuaí, tem Catucaí, tem Bourbon, Acaiá, aí são variedades do Arábica.

P/1 – Então eram variedades do Arábica naquela época.

R – Isso, variedade do Arábica. Isso.

P/1 – E aí quanto tempo você ficou, Álvaro, trabalhando com seu pai na lavoura? Conta um pouco, quantos anos foram desse trabalho, estudando de noite e trabalhando durante o dia?

R – Durante cinco anos, é. Que foi da sétima série, sétima e oitava série, depois os três anos de contabilidade, que aí eu formei no final de 1984, e em fevereiro de 1985 eu já comecei a trabalhar no Sindicato Rural.

P/1 – Onde você fez a Contabilidade? Qual que era a escola técnica?

R – A escola é Escola Técnica de Contabilidade de Carmo de Minas, é Escola de Segundo Grau, é alguma coisa, eu não lembro muito bem o nome, acho que é Escola de Segundo Grau de Contabilidade de Carmo de Minas, alguma coisa assim, que era uma escola da Prefeitura, mantida pela Prefeitura.

P/1 – Foram três anos?

R – Foram três anos. Isso.

P/1 – Nessa época que você fez o técnico, no seu cotidiano, assim, mudou alguma coisa? Ou em relação ao ginásio? Digo assim, aquilo que você fazia, o seu cotidiano mesmo. Assim, o que você fazia pra se divertir?

R – É, não, essa época já estava mais, vamos dizer,16, 17 anos, eu formei com 18 anos. Então já era isso, pra divertir, quer dizer, eu ia pra roça trabalhava e coisa, durante o dia já não era aquela coisa de brincadeira, essas coisas, então mais seria de noite, que às vezes... Eu estudava de noite, né, de noite, mas final de semana era isso, era o bailinho, era São Lourenço, era já mais essas festinhas que a gente fazia.

P/1 – Que você contou.

R – Isso. Fazia muita festinha, assim. Era uma turminha grande que tinha na época então às vezes era: “Ah, não, vamos ali pra roça, ali pra minha propriedade, do meu pai. Ô pai, empresta a chave lá da roça que hoje nós vamos fazer uma festinha lá”. E ia, final de semana, fazia uma festinha, turminha pequena. Outro dia era na casa do fulano. Então a gente sempre tinha umas festinhas da turminha, pra gente não precisar sair tal e coisa, a gente fazia essas... Era a diversão que a gente tinha era isso, basicamente era isso.

P/1 – Se reunia por aqui mesmo.

R – Isso. Reunia por aqui. E o dia que não tinha nada aí a gente ia em São Lourenço, e Cristina, Soledade, que são as cidades vizinhas aqui. Às vezes tinha uma exposição, tinha um baile, uma coisa, a gente ia já. Tinha uns primos mais velhos um pouco, então às vezes ia junto também, então a gente juntava uma turminha aí e ia.

P/1 – E você ficou os cinco anos, então. Se formou em Contabilidade e onde você foi trabalhar? Como que apareceu essa proposta de trabalho? Qual que era a sua função?

R – É, no Sindicato Rural, logo que eu formei, eu fiquei sabendo que o sindicato tinha dois funcionários só, que tinha na época, e eu fiquei sabendo que uma das moças que trabalhava lá na época, ia casar e ia sair, ia parar. Aí eu conversei com o Élcio, que era o presidente na época, conversei com ele, tinha um tio meu também, que era da diretoria, até Tonicão que o pessoal chamava, irmão da minha mãe, e ele também era da diretoria do sindicato lá. Conversei com eles, e falaram: “Então vamos ver, faz o teste lá”. Aí fui, acho que tinha três pessoas só que foram fazer o teste lá, e eu passei. Aí o papai falou: “Olha, vai, faz, se chamar você começa a trabalhar”. Aí comecei lá em fevereiro. Assim, foi mais de ver, falar, eu falei: “Deixa eu arranjar alguma coisa”. E aí trabalhei durante um ano lá.

P/1 – E o quê que era o seu trabalho lá? Qual era a função?

R – Emitia nota fiscal, registro de empregado, é tudo o que precisava, na época era um movimento pequeno ainda o sindicato. Vamos dizer, o município era o mesmo, mas eram produtores maiores, que ia pouca gente, assim, ia lá. E era registrar empregado, dar baixa, era toda essa parte de emissão de nota fiscal, emitia nota fiscal de gado, emitia lá, tudo era lá. Então eu fazia todo esse serviço. Tinha umas coisas que fazia no final do ano, é Raz, umas coisas lá, na época. Hoje eu não consigo lembrar bem, mas era basicamente esse serviço voltado para o produtor rural.

P/1 – Foi seu primeiro trabalho remunerado, Álvaro?

R – Foi o primeiro trabalho remunerado mesmo, assim, com carteira assinada, foi.

P/1 – E você se lembra o que você fez com os primeiros salários? Como é que você gastava esse dinheiro? Você comprou alguma coisa que você queria?

R – Vamos dizer, o primeiro salário, eu lembro que foi no comecinho de março de 1985, que foi quando eu entrei, recebi o primeiro salário. Eu lembro que eu fui em São Lourenço comprei um relógio pra minha mãe (riso), é.

P/1 – Como é que era o relógio?

R – Até hoje está lá.

P/1 – Um relógio de madeira, de cerejeira mesmo. Não era um relógio caro. Mas comprei e está lá em casa até hoje, tá ele lá, funciona. E eu lembro, foi o primeiro salário, foi isso. E aí eu comecei, na época tinha um dinheirinho, que o papai até então ele me dava um dinheiro pra final de semana, essas coisas, por eu ajudar ele na roça, mas não tinha assim, “Ah, não”, chegar final de semana: “Ah, pai me dá tanto aí”. Na época não lembro de valor, que era outras moedas, e coisa. Mas: “Dá tanto?” Ele dava. “Dá tanto”, assim, só pras despesinhas, não tinha assim...

Mas ajudava na roça e às vezes aparecia um bezerro pra comprar, alguém queria vender, ele falou: “Vai, compra o bezerro, eu esse mês vou te dar tanto, você compra”. Então tinha um gadinho dele, e tinha o meu, só pra me incentivar a mexer. Aí depois quando, logo que eu comecei a trabalhar no sindicato, fui juntando um dinheirinho. Pegava, porque a gente, na época era como diz, ganhava quando eu entrei lá era quase um salário e meio, se não me engano, acho que era em torno disso. Depois até fiquei um ano, lá no final, acho que eu estava ganhando dois salários, dois salários e meio, mas eu não gastava, eu sempre fui, assim, mais seguro um pouco. E aí eu pegava um pouco daquele dinheiro e abri uma caderneta de poupança e ia guardando dinheirinho ali. E até que chegou, eu falei: “Ó pai, eu queria ter um carrinho”. Aí ele me ajudou. Falou: “Quanto que você tem?”, “Tenho tanto”. Na época eu lembro que apareceu um carro pra eu comprar, um Passat, que na época foi no dia que eu experimentei, era de um cunhado meu, irmão do cunhado que queria vender. Falei: “Ah, mas eu não dou conta”. É que 30 mil cruzeiros ou alguma moeda assim. Eu falei: “Se eu vender o gadinho que eu tenho mais o dinheiro que eu tenho eu consigo uns 15 ou 16 mil”. Aí meu pai falou: “Não! Compra e o resto eu te dou”. Aí comprei. Eu lembro que o dinheiro que eu tinha economizado eu comprei o carro. E aí depois continuei, assim, sempre gostei de ter uma cadernetinha de poupança e guardar alguma coisinha. Mas, pega aquela época, vamos dizer, de 20 anos, que aí já começa, gasta mais um pouco. Eu andei até, algumas vezes, barrando o carro, dando umas batidinhas aí, e era conserto de carro e coisa. E foi onde até, vamos dizer, uns 20 até 24 anos, mais ou menos. Depois eu comecei a namorar já firme e tal, e aí como diz, aí, como diz, aí criei juízo já (riso).

P/1 – E aí esse namoro firme é a sua esposa? Foi com quem você se casou?

R – É. Isso, é.

P/1 – Conta como é que vocês se conheceram, então?

R – Isso daí, quer dizer, ela conta que um dia eu fui chegar nela num bar ali e tal, mas que eu estava tonto, e tal. E ela acho que andou até me xingando e tal, que não sei o quê. Eu falei: “Você está indo no cinema?” Tinha um cinema aqui na época ainda aqui no Carmo. Eu falei: “Você está indo no cinema?”, ela falou: “Vou”. Aí eu falei: “Então eu vou com você”. Ela falou: “Então eu não vou mais, e vou embora pra casa”. Foi o primeiro dia que ela diz que me viu. Eu também não sei porquê. Foi um dia que eu errei a mão e tal, e passou. Aí teve um dia marcamos uma festinha lá na casa de um amigo, é o grupinho, a turminha, e marcamos, ia ter uma festinha, aniversário de alguém, tal, fui pra lá pra essa festinha, e cheguei lá ela estava lá. Mas aí como eu estava mais são um pouco, e aí a conheci, conversamos um pouco, e começou um rolinho ali, nós ficamos até, vamos dizer, mais de um ano, talvez assim, eu acredito que mais de ano, ficava, quer dizer, encontrava final de semana, um dia ficava junto, outro dia, não tinha compromisso nem nada. E aí chegou um dia ela falou: “Ou nós assumimos e começamos a namorar, ou então vamos parar. Esse negócio de não sei quê não dá certo”. Falei: “Então vamos começar a namorar”, e tal. E começamos a namorar firme. Isso foi em 1989. Quer dizer, o dia que eu pedi ela em namoro foi dia 4 de junho de 1989 e tal. Que aí chegamos e sentamos lá na praça, e conversamos, e a partir de hoje vamos namorar mesmo. Porque naquela época tinha aquele negócio de pedir e coisa, e tal. Hoje não tem mais, começa a ficar e pronto, virou namoro.

P/1 – Mas você fez o pedido mesmo?

R – Tive que pedir pra ela.

P/1 – Como é que você pediu ela em namoro? Conta pra gente.

R – Então, aí sentamos porque ela tinha falado que não estava certo ficar naquilo, que uma hora chegava numa festinha não tem nada, quando é outra hora, não, fica junto e tal e coisa. Aí no dia 4 de junho de 1989, nós sentamos na praça, eu pedi ela em namoro. Ela aceitou, beleza, aí nós começamos a namorar firme mesmo. E aí ficamos noivos no dia 31 de dezembro de 1990, ficamos, e casamos no dia 14 de setembro de 1991.
P/1 – Qual é o nome dela?

R – Jaqueline.

P/1 – E como é que foi o casamento de vocês? Conta um pouco. Teve igreja? Teve festa?

R – Teve. É, teve um almoço primeiro, foi o casamento civil, na casa dela, porque a gente não tinha muita condição também e a família dela também não tinha muita condição. “Então nós vamos fazer um almoço”, o casamento civil fez na casa dela. Fizemos o casamento, as duas famílias, né? Fizemos um almoço lá, tal, e depois 2 horas, 3 horas fomos embora pra casa, e à noite foi o casamento na igreja. E aí depois do casamento fomos...

P/1 – E onde foi essa igreja?

R – Foi aqui na igreja matriz aqui de Carmo de Minas.

P/1 – E como é que foi? Você lembra se a igreja estava enfeitada?

R – Estava. Estava enfeitada. Estava muito... Aí foi filmado, foto, o fotógrafo, tudo, isso daí a gente contratou todo mundo, tudo certinho, foi bem, muito bonito, e muito bonito.

P/1 – Tinha bastante gente?

R – Tinha, bastante gente. Que meu pai ele era muito conhecido aqui, e a família dela também, que é muito conhecida aqui na cidade. E meu pai também, porque meu pai foi prefeito aqui, então tinha muita amizade na cidade. Como diz, todo mundo, praticamente bastante gente que foi todo que foi convidado, quase todo mundo foi. Então estava bem cheia a igreja.

P/1 – Teve festa depois?

R – Depois não. Aí teve só uma reuniãozinha. Nós saímos, aí fomos só na minha casa, na casa dos meus pais, teve lá só pra família, pra família também um salgadinho e coisa, porque eu falei: “Nós vamos viajar”, ia viajar no mesmo dia então acabamos fazendo só uma festinha. Nós passamos lá até rápido, o pessoal ficou lá em casa, a família, mas nós fomos embora logo.

P/1 – E pra onde vocês foram viajar?

R – Aí nós viajamos. Quer dizer, no primeiro dia viajamos e dormimos no Hotel Bavária, lá pra dentro de São Lourenço um pouco, dormimos lá naquela noite, e no outro dia nós fomos pra Caraguá. Fomos pra praia e passamos lá, ficamos acho que uns quatro dias, e depois voltamos e ficamos no Bavária de novo, na volta. E, falei: “Vamos dormir ali de novo”, e depois viemos, voltamos. Foi, o quê? Uns cinco, seis dias.

P/1 – Foi bom?

R – Foi muito bom, muito bom. Passeamos bastante, mais Caraguá mesmo, passeamos nas praias.

P/1 – Vocês já conheciam Caraguá?

R – Conhecíamos Ubatuba, Caraguá não. Aí acabamos indo. Falei: “Vamos ficar em Caraguá”. E acabou que até um parente, um parente de um cunhado meu emprestou o apartamento dele, ele tinha um apartamento lá, emprestou. Então eu falei: “Em vez da gente ficar em hotel, a gente vai”, ficamos nesse apartamento dele. Então saía durante o dia, passava o dia fora e voltava à noite só pra dormir mesmo, mas ficamos lá. Acabamos optando por lá, porque tinha esse apartamento de graça também. A gente não, como diz, não tinha jeito de estar gastando muito, já tinha gastado, né? Mas aí voltando um pouquinho, quando eu conheci ela, começamos a namorar mesmo firme, e tal, e aquele namoro firme já, dentro de casa e tudo, ela ia lá pra casa, eu ia pra casa dela, e coisa. E aí tem um fato interessante que foi um final de semana que eu, na sexta-feira à noite, uns colegas meus, a turminha da bagunça me chamou: “Olha, tá tendo exposição lá em Virgínia”, é uma cidade que deve ser uns 50 quilômetros daqui, “Tá tendo exposição lá e tal, não sei quê. Vamos pra lá?”. Eu falei: “Puxa vida, agora vou dar o bolo na Jaqueline, nós namorando firme?”. Isso já fazia um ano mais ou menos que a gente estava namorando já, e aí fui, eu resolvi, passei em casa, saí do serviço, passei em casa, tomei banho e coisa, peguei o carro e fomos embora, fomos pra Virgínia. Fiquei lá sexta-feira, sábado e domingo, voltei domingo à tarde só. Não dei notícia. E só avisei lá em casa, né, que eu tinha ido. Aí na segunda-feira eu voltei, cheguei, no domingo eu voltei, na segunda meu pai me chamou e tal, e falou: “Ó, você tá namorando ou você não tá?” Aí eu falei: “Ah, pai, tou, sim, eu vou conversar com ela”. Ele falou: “Não senhor, eu tenho seis filhas e eu não quero que faça com a filha dos outros, quer dizer, eu não quero que faça com a filha dos outros o quê eu não quero que faça com filha minha”. Falei: “Ah, pai, mas eu vou lá conversar com ela”, e tal. Aí fui lá e ela não quis nem conversa. Não deu conversa, falou: “Está terminado”. Aí o papai me chamou lá e tal, e falou: “O que você tá querendo fazer? Você quer namorar ou não quer?”, “Pai, querer eu quero, só que foi um... juntei aí com a turma e foi”. Papai foi lá na casa dela, chamou ela e tal, e levou ela lá em casa. Aí botou nós dois lá, falou: “Agora vocês sentam aí, conversam e resolvem, ou termina, acaba tudo”. Papai era muito amigo do pai dela, então falou: “Eu quero o negócio bem resolvido”. Aí sentamos lá, ficamos, conversamos, acabou ela resolvendo dar mais uma chance e tal, e aí dali pra diante foi, casamos em 1991, já vai pra... em setembro vai fazer 23 anos. Temos um casal de filhos. Então, vivemos muito bem. Graças a Deus foi legal.

P/1 – Voltando um pouquinho sobre a sua vida profissional, depois vou te perguntar sobre seus filhos, mas você falou que ficou um ano, né, no Sindicato Rural.

R – Isso.

P/1 – Aí eu queria saber, depois de um ano, pra onde que você foi?

R – Ah, então, que eu desviei um pouquinho o assunto.

P/1 – Que ano que era esse? Foi de ano até que ano?

R – Foi de fevereiro de 1985 até fevereiro de 1986, foi um ano certo. Aí tinha um funcionário da Cooperativa de Café, na época ele estava pra se aposentar, ia parar mesmo de trabalhar, ajudava lá, ajudava na Contabilidade. Naquela época tinha assim, o pessoal no escritório não tinha muito setor, todo mundo ajudava todo mundo. E aí tinha um rapaz, o Gabriel Heleno, ele até tinha o apelido de Catirica, e ele na época foi professor meu nos três anos de Contabilidade. Ele era professor, ele trabalhava na cooperativa durante o dia e de noite ele era professor de Contabilidade. E aí ele que falou: “Olha, tem o Álvaro”, que o cara ia sair, ia aposentar, e ele que falou, falou: “Olha, o Álvaro foi meu aluno lá e ele gosta muito de Contabilidade coisa e tal, aqui no escritório daria certo”. Aí esse tio meu, Tonicão, que tinha me indicado lá, ele foi lá conversar comigo. Falou: “Tem esse emprego lá na cooperativa”, ele era da diretoria também, tal: “Você não quer ir pra lá?”. Eu falei: “Eu vou, mas eu converso com o Élcio primeiro, que é o presidente”. O Élcio também achou que seria melhor pra mim na cooperativa, tinha mais chance de crescer do que lá no sindicato, tinha dois funcionários só, e fazia a mesma coisa os dois, não tinha muito o quê... E aí acabei saindo em fevereiro de 1986, e dia primeiro de março já comecei na cooperativa.

P/1 – Qual é o nome da cooperativa?

R – É Cooperativa Regional dos Cafeicultores do Vale do Rio Verde. É Cocarive, que chama. Aí foi, dia primeiro de março de 1986 até agora, dia 13 de maio de 2014. Agora que eu saí de lá.

P/1 – E nesse tempo que você ficou na cooperativa, qual que foi o momento que você voltou? Porque você trabalhava na cooperativa, e tinha sua família, né, casou nesse momento, e morava na cidade. Qual foi o momento que você retomou as atividades com a propriedade do seu pai? Conta um pouco como é que foi essa transição, como é que foi esse momento.

R – É, o meu pai... porque até então eu só ajudava, eu não tinha nada. Em 1993 eu já estava casado, aí o meu pai ele machucou a vista num acidente lá na roça e ele machucou a vista. Até quando eu casei, só voltando um pouquinho, quando eu casei em 1991, eu já tinha comprado um terreno e estava até construindo uma casa, já. Já tinha até... Porque eu falei: “A gente vai, fica lá em casa um pouco, e depois a casa também, logo a gente acaba e daí vai pra lá”.

P/1 – Um terreno aqui em Carmo mesmo?

R – Aqui em Carmo mesmo.

P/1 – Na parte urbana?

R – É, na parte urbana. Pra frente um pouco da casa, desse beco mesmo, pra frente um pouco da minha casa lá. E aí eu falei: “Depois a gente acaba de fazer a casa”, estava até mais ou menos bem adiantado, mas em 1993 papai teve um acidente lá na roça, ele estava fazendo uma cerca e voou um prego e furou o olho dele. Aí de 1993 até 1995 ele enxergava, assim, com uma vista só boa, mas no comecinho de 1995, final de 1994, começou a dar uma infecção e passar pra outra vista. Então já não tinha aquela, aquela furou mesmo, teve até que tirar o globo ocular, colocou prótese e tudo, mas acabou que ali em 1995 ele perdeu a vista totalmente. Aí ele resolveu: “Vamos dividir a propriedade e tal, pra vocês”. Aí dividiu um pedaço pra cada um, mas quer dizer, cada um tem o seu pedaço, mas a gente toca tudo em parceria.

P/1 – Entre os sete filhos?

R – Hoje são quatro filhos. Tem três que na época pegou a parte e tocou um pouco e tal, mas todos os três tinham outro ramo, não queria mexer muito com essa parte. Aí teve quatro, eu e mais três irmãs, três cunhados, e resolvemos comprar essas três partes. Compramos, numa época compramos uma e outra, depois a outra, à medida que eles foram vendendo, compramos. E voltou a propriedade ser inteira. Então tem essas três partes nossas e mais as quatro partes, voltamos, como diz, o Sítio da Torre inteiro que era. E nós quatro estamos aí, desde... A última... Compramos uma parte foi logo em 1996, a outra parte foi em 1998 e a outra foi mais ou menos em 2002, 2003, a parte do outro. Então até hoje a gente toca em parceria. Quando nós compramos essas partes, aí nós resolvemos, eu falei: “Em vez de cada um ter uma ‘estruturinha’ pra tocar o seu pedacinho ali, vamos fazer essa parceria, a gente faz uma ‘estruturinha’ só e tal, e toca, vamos dizer, 25% da receita é da despesa de cada um”. E fizemos deste jeito e estamos até hoje. Isso desde 1995 que dividiu e viemos, até hoje nós quatro tocamos junto.

P/1 – E como é que foi, Álvaro, conciliar o trabalho na cooperativa mais o trabalho com a propriedade? Me conta um pouco do cotidiano.

R – Então, na cooperativa, desde o começo, quando nós começamos a mexer com café lá, eu entro na cooperativa às 8 horas. Depois que voltei, começou a ser 7h30 que a gente começava lá. Mas eu com aquele negócio do meu pai sempre... Acordava cedo e tal, então eu acordo todo dia, até hoje, desde lá quando eu peguei em 1995, eu acordo por volta de 5h30, mais ou menos, e arrumo o café, arrumo o café, hoje, o café das crianças também pra escola e coisa, e vou na roça. Todo dia, volto 6h15 mais ou menos, 6h15, 6h20 eu vou pra roça e fico até 7h30 lá, 7h30 eu venho. Porque aí nesse período dá pra eu conversar com os camaradas: “O que vocês fizeram ontem?”, se precisa de alguma coisa, algum adubo, alguma coisa. Então, isso todo dia, até hoje, vai eu e um cunhado meu. Nós vamos desde lá... Ele trabalha em São Lourenço, mas só na parte da tarde, então ele vai comigo todo dia cedo, a gente olha isso. E de tarde, às vezes, o dia que eu saio às vezes 5h, 5h30 da cooperativa, o dia que tinha alguma coisa eu resolvia, voltava lá. Mas a maioria é todo dia cedo. E durante a colheita de café, aí eu ia cedo, na hora do almoço, que aí almoçava aqui em casa mesmo, almoçava e dava uma carreirinha lá, era 1h30 de almoço, é pertinho, então ia lá. E às vezes de tarde também eu voltava e ficava até mais de noite lá pra olhar, porque nessa época de colheita é descascar café, as coisas, fica até mais tarde fazendo esse serviço, eu ficava lá.

P/1 – Algum dos proprietários vive lá?

R – Não. Não, ninguém. Nenhum de nós quatro vive lá, não.

P/1 – Quem que fica lá? Quem que vive lá na propriedade?

R – Na propriedade ninguém. Tem um rapaz lá que mora perto, não é na propriedade, é numa casa perto, chegando lá. Ele não trabalha pra gente, mas ele olha, às vezes de noite, precisar de alguma coisa ele olha pra gente ali, uma troca de favor, alguma coisa assim. Mas os camaradas mesmo moram na cidade.

P/1 – Então eles todos vão trabalhar a voltam todo dia?

R – Vão e voltam todo dia.

P/1 – Ah, tá.

R – Porque é pertinho aqui, 2 quilômetros, então acaba indo de bicicleta, vai e volta.

P/1 – Qual é o tamanho da propriedade de vocês, Álvaro?

R – São 65 hectares, a propriedade total, sendo 35 hectares com café, e 30 de pasto, mato, as reservas, as coisas, então dá uns 30 hectares.

P/1 – E quanto que vocês produzem hoje?

R – Café?

P/1 – É.

R – Olha, a média, se for falar em média anual, a média, em torno de 1.000 sacas por ano. Só que no ano de 2012, por exemplo, nós colhemos em torno de 800 sacos; 2013 foi uma safra grande, nós colhemos 1650 sacos; e esse ano já vai ser uma safra, porque colhemos muito no ano passado então o pé... E com a seca desse ano, ele não recuperou, então esse ano deve ser, vamos colher em torno de 500 sacas só. O ano que vem, se o tempo correr bem, ajudar a chuva, tudo, o ano que vem vai ser ano de safra grande nossa de novo.

P/1 – Vocês estão em época de colheita agora?

R – Estamos. Estamos em época de colheita.

P/1 – É de quando a quando?

R – Mais ou menos de junho... Geralmente final de maio, tá. Safra pequena a nossa esse ano, eu acredito que final de julho a gente termina. O ano passado, por exemplo, foi até meados de setembro, mais ou menos, colhendo, foi uma safra maior. Então é mais ou menos de maio a outubro, é o período de colheita. Na região é isso daí. Esse ano a nossa vai ser mais curta por ser pouco café.

P/1 – E quantas pessoas você tem, que trabalham com vocês na propriedade, fora os proprietários?

R – Tá, fixo lá, empregado, nós temos cinco empregados fixos, que trabalham com a gente o ano inteiro. Nessa época de colheita, a gente contrata em torno mais uns... Esse ano tem em torno de uns 20, que nós contratamos. No ano passado contratamos uns 30, que era uma safra maior, então contratamos mais gente.

P/1 – E é pessoal da região mesmo?

R – Só daqui de Carmo de Minas, é. Não trabalho com ninguém de fora. Já um ano eu tentei trazer pessoal de outras regiões, fiz uma casinha lá, um alojamento, mas não deu certo. Trouxemos o pessoal, acabou não dando certo, e bebe, e briga. Só homensque a gente gosta de trazer, porque vir de longe pra trazer família, se tem que ter uma casa pra cada família, então você faz um alojamento e traz só homem que dorme em beliche e coisa. Mas aí foi um ano só, trabalhou lá, moraram lá uns 15 dias só, mas deu confusão entre eles mesmo. E aí acabamos com o alojamento e falamos: “Não vamos trazer mais ninguém”. Então só contratamos daqui da cidade, tá? Por causa da proximidade também, então é fácil da gente levar e trazer.

P/1 – Eu vou querer conversar de mais detalhes da sua propriedade, mas antes da agente entrar nisso, porque a gente já emenda no Nespresso. Queria voltar na sua vida pessoal e perguntar um pouco dos filhos. Quando nasceu seu primeiro filho? Como é que foi a notícia da gravidez?

R – É foi (risos)! Quer dizer, nós casamos em 1991 e nós optamos por esperar um pouco pra ter filho. A opção nossa: “Vamos esperar aí uns 2 anos, por aí e tal”. Acabou que esperamos até mais um pouco, depois começamos a tentar, mas acho que demorou mais uma pouco e tal, e foi em 1997, a minha menina, a Andressa, nasceu em 1997, dia 13 de fevereiro de 1997.

P/1 – Você acompanhou o parto?

R – Oi? Não. Eu não acompanhei, porque fui pro hospital, tudo, fiquei, mas fiquei do lado de fora. Não... Fiquei com medo de eu não aguentar. Então... Mas não acompanhei não.

P/1 – E você se lembra da primeira vez que você pegou ela no colo? Qual foi a sensação a primeira vez que você viu?

R – Nossa! Eu vi logo que ela saiu do quarto, eu estava lá, aí o médico mostrou e tal: “É uma menina”. Quer dizer, a gente já sabia, já tinha feito ultrassom, optamos por saber antes. Mas foi, Nossa Senhora, é muito emocionante! É um trem... Eu queria ter assistido, e coisa, mas eu não sei, falei: “Eu não sei como é vai ser a minha reação e tal, e sangue. Vai que, nossa...”, então optei por ficar do lado de fora mesmo do quarto.

P/1 – Foi parto normal ou foi cesárea?

R – Foi cesárea. Todos os dois foram cesáreas.

P/1 – E o seu segundo é um menino?

R – É um menino. Aí depois, ela nasceu em 1997, aí esperamos mais um tempo, tal, aí em 2002, que nós esperamos mais cinco anos, aí veio o menino, Gustavo. É, também foi cesárea e tudo, e foi a mesma coisa; fui com ela e tal, tudo, mas fiquei do lado de fora também. Não assisti também, não.

P/1 – E como é que foi ser pai, Álvaro? O que é que mudou na sua vida? Como é que é ser pai?

R – Ah, a responsabilidade, como diz, a gente começa a pensar, acreditar em muita coisa. Você pega, por exemplo, muita coisa que eu às vezes não... Às vezes cheguei até a discutir um pouco com a minha professora de religião na escola, que eu não acreditava em outra vida, falei: “Morreu acabou, não tem e tal”. E ela batia naquele negócio: “Você precisa acreditar”. Aí depois que a gente tem filho parece que a gente vai: “Pô, mas não pode acabar, que a hora que eu for embora, a lei normal é eu ir embora antes, aí separou, acabou, não tem mais”. Aí que a gente começa a acreditar em outras coisas. Sei lá. A gente começa a ter mais responsabilidade. Porque até casado, eu nunca fui depois de casado e tal, não sou de ir em bar, não gosto de nada disso, eu e minha esposa tomamos uma cervejinha, mas sempre em casa. Então, depois a gente parece que começa ficar até mais caseiro, mais coisa. Hoje, por exemplo, trabalho e tal. Quando eu trabalhava na cooperativa eu ia na hora do almoço, almoçava com eles, de tarde estava lá de novo. Hoje eu estou aqui na Carmo Coffees há um mês só, menos de um mês e pouquinho, mas eu já não almoço mais em casa porque eu trabalho, vou nas cidades vizinhas, que é onde eles têm os centros deles. Então, quer dizer, de tarde cedo, eu ia pra roça 6h15, só acordava eles e tal. Hoje não, eu já atraso um pouco lá, quero esperar, ver eles irem embora pra escola. De tarde, na hora que eu chego em casa, porque eu chego, tenho chegado mais tarde, 7 horas, 8 horas, às vezes. Então, vamos dizer, a gente começa a dar valor na família aí, nossa, porque é muito bom. E eles são muito caseiros, todos os dois, principalmente a menina, a Andressa, que está hoje com 17 anos, mas é muito caseira, não é assim de sair, de ir pra festa, pra baile, ela gosta de ficar mais em casa e estuda em São Lourenço. Todos os dois estudam em São Lourenço. Optei por levar, porque fizeram o ginásio, o grupo aqui no Carmo, mas depois nós optamos por levar pra São Lourenço porque a educação, quer dizer, a escola, talvez a escola pública aqui a gente vê falar que não é assim tão boa assim. Então nós optamos pra levar pra lá, pra amanhã quando for estudar fora já ter um conhecimento melhor. Então, e ela é muito estudiosa, gosta muito de ler e tal, as notas dela na escola, como diz, ela chega o terceiro bimestre já fechou em tudo. E então tem lá uma prova que faz no começo do ano pra ter desconto na mensalidade, ela ficou em segundo lugar, ganhamos um desconto de 60% na mensalidade. Ela então, como dizia, caseira e coisa, tem agora, já arranjou um namoradinho em São Lourenço, lá, e às vezes a gente começa... Nos finais de semana, como diz, ela vai às vezes, pega um ônibus, vai de tarde pra São Lourenço, de noite a gente busca, 9 horas, 10 horas, ela mesmo gosta de nessa hora já vir embora. Então é muito boa. Agora o Gustavo, ele é estudioso também, não sei se é do menino já, tem que estar cobrando, então a Jaqueline tem que estar sempre: “Ô, Gustavo, vamos estudar, você precisa estudar isso hoje, tem prova disso amanhã”, “Ah mãe, deixa de noite, eu vou pro clube”, então tem que ficar mais em cima dele. Mas também passa, passa relativamente bem. Não igual a Andressa, mas... Então a gente valoriza muito isso. É muito bom, família.

P/1 – Quantos anos ele está, o Gustavo?

R – Está com 12 anos. Ele nasceu também dia 24 de abril de 2002.

P/1 – E eles vão de vez em quando pra propriedade contigo?

R – Vão, vão.

P/1 – Eles gostam?

R – Gostam. Todos os dois gostam. A única coisa é que lá, vamos dizer, férias, por exemplo, a gente vai e passa uma semana lá, e fica a semana inteira, às vezes passa dez dias, vai pra lá. A única coisa é que lá não tem Internet. A criançada hoje sem internet... Aí esse ano que eles acabaram levando – não sei como é que chama lá, um pendrive – pra pegar a Internet lá, pago. Aí eles ficaram mais. Porque é aquele negócio, fica, brinca, vai aqui, vai ali, mas todo hora gosta de ir lá e entrar no Face, essas coisas. Mas final de semana eles gostam de ir, às vezes a gente vai. Aí um final de semana a gente vai pra dormir. Passa, vai na sexta-feira de tarde e volta no domingo à tarde, então gostam.

P/1 – E eles aprenderam alguma coisa de atividade no campo? Entendem um pouquinho do cultivo do café?

R – Muito pouco. Igual o Gustavo, o Gustavo gosta de chegar lá e ir pro terreiro, e tal, os camaradas estão lá mexendo nessa época, ele gosta de pegar o rodo lá e rodar, mexer o café. Tem uma bicicletinha de rodar café, ele gosta de ficar mexendo com isso. Então ele até tem um pouquinho, mas eu não procuro até fazer ele gostar muito por enquanto, porque eu queria ver mais no estudo, deixar estudar primeiro e tal. E depois falam: “Ah, lá tá lucrativo”, porque hoje o café, como diz, viver só da lavoura de café, nossa, ela vem de um período muito grande de crise, o café. Então a gente fica meio “coisa” de deixar ele gostar, e de repente gosta daquilo: “Ah pai, eu não quero estudar, eu quero ir pra roça”. E eu não: “Primeiro vamos estudar, ter um diploma”. Mas depois a gente... Com o diploma na mão, está rentável lá, dá pra ficar? Aí tudo bem, pode até a gente levar e ensinar, que não é coisa que demora. Demora um pouco, mas também eu vou estar junto também. Então eu prefiro deixar mais no estudo, e levar lá mais pra um lazer mesmo. Então ele vai, às vezes quando a gente vai pra lá, vai com os companheirinhos dele, levam as bicicletas. Que às vezes eles vão de bicicleta, porque fiz lá na horta pistinha pra eles irem de bicicleta, pra apostar corrida lá. Então pra gostar de ir lá, mas não assim de ficar, envolver e querer viver daquilo lá. Por enquanto eu acho que não dá, não.

P/1 – Pra garantir o estudo.

R – É, garantir o estudo primeiro. Eu prefiro fazer isso. Esse ano a menina já deve fazer, quer dizer, o Enem, fazer o vestibular, vai fazer o Enem esse ano, talvez já vá até estudar fora, então eu prefiro fazer isso primeiro, e depois a gente...

P/1 – Está certo. No seu trabalho mais como produtor, queria que você falasse qual que é o caminho, em linhas gerais, qual que é o caminho que o café faz até chegar na mesa do consumidor. E qual é o seu trabalho nessa cadeia?

R – Isso. Vamos dizer, no começo, nós começamos só produzia mais o café commodity mesmo. Não tinha muito aquela coisa de especial, então a gente não esquentava no começo, quando nós pegamos em 1995.

P/1 – O que você quer dizer com café commodity?

R – Um café especial, não. Chegava, colhia, não tinha lavador, não tinha descascador, não tinha nada. Colhia, colocava no terreiro, colocava, pegava um empregado que era ruim na lavoura, que não sabia apanhar café direito, colocava ele pra rodar café, que não ia render nada, mas quando ele é ruim lá, ele é ruim no terreiro também. Mas tinha aquela coisa de: “Ah não, roda e tal”. Tinha até uma época que tinha um cavalinho lá que colocava um rodo e ele arrastando, andando em cima do café, o cavalinho. Então produzia esse café, beneficiava e pronto, não tinha... Mas aí fomos pensando por volta de 2000, no ano 2000, foram uns 5 anos assim, começamos plantar um pouco de café e falamos: “Não dá desse jeito, ou a gente sai da atividade ou tenta fazer uma coisa diferente”. O pessoal começou, a região aqui, a fazer o cereja descascado, e vendo a qualidade mesmo. E aí em 2002, mais ou menos, nós começamos também nisso, a fazer o cereja descascado, e começar a aprender os cuidados no terreiro.

P/1 – Deixa eu te perguntar, vocês plantam semente ou muda?

R – Muda, muda. Semente é só lá antigamente, lá no tempo do meu pai, do meu avô, que plantavam a semente já no chão direto. Hoje não, tem os viveiros, que plantam no saquinho, faz o viveiro de mudas, depois você já compra ela num tamanho já e leva pro campo, e planta.

P/1 – Vocês têm viveiro, não?

R – Não. Não, porque hoje você tem que ser certificado, registrado e tudo, então é mais barato a gente comprar a muda de algum viveiro do que a gente fazer e ter que registrar tudo pra fazer ali um pouquinho de muda pra gente.

P/1 – E vocês compram na região, é isso?

R – É, compra na região. Tem um viveiro aqui em Cambuquira, que é uma cidade vizinha, que a gente acaba comprando lá quando a gente compra. Teve um tempo que a cooperativa que fez muda, tudo registrado direitinho, quando ela parou aí a gente compra... A gente gosta de plantar um pouquinho a cada um, tá, pra não aumentar muito, mas devagarzinho ir plantando.

P/1 – Aí você falou que em 2002 vocês começam a se preocupar um pouco mais com a qualidade, né?

R – Com a qualidade.

P/1 – E o que é isso que você está chamando de cereja descascado? É o tipo de café?

R – Não. Não é o cereja descascado. Você colhe ele no pé, antigamente colhia, quando você colhe e não faz a colheita seletiva, porque senão a mão de obra nossa é cara, porque é tudo de montanha, então a gente acaba optando por fazer uma colheita só. No estágio que tiver mais maduro, a gente vai colhendo aqueles talhões que estão mais maduros.

P/1 – Manual?

R – Manual. Manual e hoje tem as derriçadeiras, mas essa derriçadeira vai na mão também. É uma maquininha que você passa no pé de café, ela vai derrubando, mas é tudo na mão mesmo, não tem, assim, de máquina, andar, assim, não tem nada disso. E aí a gente colhe, sai um pouco de café verde, um pouco de café cereja, a maioria cereja, que é o maduro, e um pouco de boia, que é o que já passou, ele já secou, começou a secar no pé. Então têm os três estágios. A gente colhendo e colocando no terreiro, então você seca tudo junto, ele vai ficar: um que já está mais seco, o que está cereja ali, e o que está verde, que vai demorar mais pra secar. Ele não fica uma seca uniforme, fica um café mais feio e tal, então é o que a gente fazia, que é o commodity. Hoje não, hoje a gente passa no lavador, separa ele no lavador, você tira o boia, que é esse mais seco, que vai pra um lugar; e o verde e o cereja você passa no descascador, que a gente fala, que é uma máquina que espreme o grão, e ele só consegue descascar o que está maduro, então ele separa ali o maduro do verde. Aquele maduro que você descasca, o cereja descascado, que a gente fala, que é o especial, tá? Não que o boia e o verde não sirvam, dão cafés bons também, mas o especial é aquele descascado que a gente faz. E às vezes até o natural especial, a gente passa só no lavador, quando ele está com a percentagem muito pequena de verde, ao invés de descascar a gente optar por fazer um natural, ele sem descascar, sem espremer ele, que fala. A gente faz o especial também assim. Então nós começamos em 2002, depois de lá pra cá começamos a focar mais nisso, viemos fazendo. Participamos de concursos, teve alguns que nós ficamos entre os finalistas no Brasil, concurso da BSCA, que é um concurso nacional. Aí fomos, e fomos cada vez aprimorando, e principalmente no terreiro, o pós-colhido, o cuidado no terreiro. Porque a gente costuma falar que o café vem com as qualidades dele que vem da árvore, aí no terreiro ou você conserva aquela qualidade ou você perde, se você não fizer um trabalho bem feito você vai perder ele, que vai dar uma fermentação, tudo, e ele vai perder aquela qualidade ali.

P/1 – E quais são os cuidados que você tem que ter no terreiro?

R – Principalmente movimentar o café bastante. Toda hora tem um pessoal que vai estar lá movimentando, que a gente fala “rodar o café”, é passar o rodo pra lá e pra cá nos montes que tem, os micros lotes que a gente faz, toda hora movimentar ali. Se o tempo virar a gente ter a coisa de, se ele já estiver mais ou menos seco, amontoar e cobrir pra não tomar chuva. Então são esses cuidados todos. Tudo no terreiro a gente tem que fazer. Descascar o café, ele desceu, no mesmo dia você já lavar e descascar no mesmo dia à tarde. Porque às vezes tem gente que fala: “Não, vou descascar amanhã, pros camaradas não ficar até mais tarde, não pagar hora extra”. Aí, quer dizer, ele fica ou dentro do caminhão, ou na moega, e de um dia pro outro ele pode começar a fermentar. Então a gente opta por fazer isso todo dia, no mesmo dia fazer isso, já esparrama ele no terreiro, deixa esparramado, ele já dorme esparramado, sem o risco da fermentação.

P/1 – E depois que é feita a secagem, qual é o próximo passo?

R – Depois que ele é seco, se for no terreiro, a gente chegar no ponto de 11,5% de umidade dele, que pé o ponto ideal, a gente guarda em tulhas pra ele ficar, a gente fala “descansar o café”. Porque quando você amontoa ele de tarde, cobre, no outro dia cedo você esparrama até ele chegar a 11,5%, pra ele trocar a caloria de um grão que tiver com mais umidade com um que estiver mais seco, amontoando você consegue fazer aquilo pra ele ficar mais homogêneo.

P/1 – Como sabe que chegou a 11,5%?

R – Tem um aparelho de umidade. É, tem um aparelho. Lá na roça eu não tenho, mas às vezes a gente mede aqui na cooperativa. Aqui na Carmo agora eu tenho trazido pra medir aqui. Então eu pego uma amostrinha dele, um pouquinho num saquinho, e trago, chego aqui tem uma maquininha, descasca ele e mede, se estiver, vamos dizer, com 13%, eu sei que ele tem que ficar mais no sol. E às vezes quando dá um lote maior a gente põe no secador, aí o secador é com fogo. Então é o fogo indireto, é só o calor que vai, não chega no café. É um secado redondo, com o café ali dentro, e tem um tubo por dentro que passa o calor. A gente queima com palha de café mesmo, dá pra fazer o calor com a palha, e ali a gente seca ele. Aí ele vai secando, porque vários dias ali tomando aquele calor, um calor bem fraco, e ele seca, chega na umidade, a mesma coisa que o sol, ele chega ali, a qualidade fica tão boa quanto no sol. Daí a gente opta por fazer no sol pra não estar gastando lenha, não estar gastando energia e coisa, então a gente faz lá. Mas dão cafés excelentes. Aí depois desse descanso na tulha, a gente procura descansar o café em torno de 20 a 30 dias em tulha, e depois é beneficiado e a gente traz aqui pra cooperativa.

P/1 – O que é o beneficiamento?

R – É tirar aquela casca dele, porque o natural ele está com as cascas todas. O cereja, ele tira a casca de fora, mas fica um pergaminho, é uma casquinha que tem nele. Tem uma outra máquina, depois dele seco, você passa e separa o grão da palha, deixa a palha pra lá. Aí é beneficiado pra trazer. Que é o café verde, que a gente fala, mas verde não porque ele seja verde da lavoura, é que ele não foi torrado ainda. Aí ele já está pronto pra ser torrado.

P/1 – Aí ele é levado pra uma torrefação. Como é que é?


R – É, eu levo, trago pra cooperativa e armazeno. Da cooperativa tiro as amostras, aí mando amostras. O café especial meu, a não ser no concurso da BSCA, algum concurso que tenha da Emater, o resto do café é especial mesmo, 100% dele é vendido aqui através da Carmo Coffees. Isso já de vários anos pra cá. E agora até vim trabalhar, por coincidência vim trabalhar aqui, mas da propriedade mesmo, eu trabalhando na cooperativa, todo café meu eu envio amostra pra cá e aqui então eu tenho clientes japoneses, tem americanos, tem da Inglaterra, então vários lugares do mundo, que já tem o contato, que a Carmo Coffees tem com eles. E com a Nespresso também através da Carmo Coffees, tá, que eu falei os de fora, mas a Nespresso, que a Nespresso é direto aqui. Mas aí eu mando as amostras pra cá: “Não, é um café excelente”. E lá na cooperativa também é provado lá. “Ah, esse café serve pra um concurso”. Então aquele lotinho eu separo pra ir pra um concurso. “Esse serve pra gente vender pro Japão, pra um cliente que eu tenho lá. O outro é pra Inglaterra”. Então eles já sabem. Então todo café eu mando amostra pra cá e aqui eles comercializam esse café pra mim.


P/1 – E essa etapa de torrar o café, isso é feito dentro da indústria?

R – Dentro da indústria. Aí já não é a parte... Eu vendo ele antes de torrar. Pra qualquer lugar que ele for do mundo, ou aqui mesmo, a Unique, por exemplo, eu vendo café pra Unique também. Então o café que eu vendo, eu vendo ele nesse estágio, verde, eles é que vão torrar. Inclusive porque cada empresa tem seu ponto de torra, é tudo diferente. É igual pra Nespresso, vendo pra Nespresso os Bourbons, meu que eu tenho lá, o Bourbon, vendo pra eles e, como diz, entrego aqui, a Carmo Coffees que faz e entrega pra Nespresso. Tudo através deles aqui, da Carmo Coffees.

P/1 – E quais são as variedades que você tem hoje de Arábico? O Bourbon, você citou.

R – Bourbon, Acaiá, Catuaí Amarelo e Catucaí Amarelo. E plantei esse ano um pouco de Bourbon Vermelho. Que tem o Bourbon Amarelo, que é o que a gente vende pra Nespresso. Mas eu plantei um pouco só pra ter mais uma variedade, que sai mais assim. Porque a gente tem às vezes: “Ah, o que você tem?”. Eu não tenho só aquele café, eu tenho vários, que um agrada um cliente, outro agrada outro. Como diz, vários gostos, porque como é uma propriedade pequena a gente vai um pouco de cada pra ter uma diversificação maior dessas variedades.

P/1 – E elas têm uma diferença de sabor, na verdade? Qual é a diferença entre elas?

R – O Bourbon é o melhor que tem, esse daí, o Bourbon Amarelo é o melhor. Apesar do que esse, o Bourbon Vermelho, eu peguei de uma semente de uma lavoura que foi campeã do Brasil em 2005, e esse produtor me arranjou semente dele. Eu plantei agora, ele foi campeão lá. Mas arranjei esse, aí eu levei a semente pra esse viveiro, e ele fez as mudas pra mim lá. Então a gente tá plantando mais é pra ter... Agora, em questão de bebida, geralmente o Bourbon Amarelo é o melhor, os amarelos geralmente dão uma bebida melhor do que os vermelhos, tá? Mas a gente tem todos pra ter uma variedade. Apesar que precisa ter um cuidado muito grande. Terra alta, altitude, coisa, você tendo cuidado desde os tratos culturais e depois, no pós-colheita, todos dão cafés de alta qualidade, todos.

P/1 – Mas o amarelo se colhe amarelo?

R – Colhe ele amarelo. Ele é igual, vamos dizer, quando está verde, tanto o vermelho como amarelo ele são verdes ali no pé, quando ele começa a madurar aí tem aquele que fica vermelho e tem esse que fica amarelo, tá? A maturação dele, a casca dele fica amarelinha.

P/1 – Queria entender um pouco agora, Álvaro, como é que você chegou, como é que você conheceu a Nespresso? O programa da Nespresso AAA, como é que chegou até você? Como é que você aderiu ao programa? Como é que foi essa aproximação?

R – Isso. Nós começamos já faz acho que 3 ou 4 anos, que a gente começou a vender, que através da Carmo Coffees aqui e eu fiquei conhecendo a Nespresso, que até então a gente não tem muito... E eles começaram a trabalhar, fazer um trabalho com a Nespresso e me chamaram também, como chamou vários produtores aqui da região, são muitos que fornecem e tal, e tinha esse projeto da Nespresso: “Vamos fazer uma venda pra eles?” No começo vendi um pouquinho pra experimentar e tal. E vendia para outras empresas também aqui e começou a dar certo. Eu gostei do preço, o relacionamento deles. Eles vinham, vêm sempre fazer visita e tal. E depois veio a proposta de certificar a propriedade Rainforest, pra fornecer café Rainforest pra eles.

P/1 – O que seria essa certificação Rainforest?

R – É certificação da propriedade.

P/1 – Mas o quê que é? Quais são as normas? O que significa essa certificação?

R –É, ela tem várias normas. São muitos itens que a gente tem que cumprir, principalmente ambiental. A Rainforest foca muito na parte ambiental, social, muito também, e coisa, mas foca muito também em ambiental. Hoje tem um grupo aqui, quer dizer, eram cinco, saiu, hoje são quatro produtores que estão nesse grupo, são quatro propriedades certificadas. Até fomos certificados, fomos auditados o ano passado e agora já fomos também há um mês atrás, passamos também na auditoria. Então eles visam isso, a organização da propriedade, documentação, tudo, parte social, ambiental, então são muitos itens que a gente tem que cumprir pra ser uma fazenda certificada. Isso a Nespresso que deu um apoio muito grande. Nespresso, Carmo Coffees, deram um apoio muito grande pra gente fazer isso. São poucas as propriedades, a gente vai tentar aumentar esse grupo, mas por enquanto são só as quatro.

P/1 – Você teve que fazer adequações na sua propriedade?

R – Tive, tive. Tive que fazer.

P/1 – E como é foi esse processo de fazer as adequações?

R – Então, no começo assustou um pouco, no começo a gente fica meio assustado: “Nossa, vou ter que mexer nisso, mexer naquilo, e tal”. A gente fica meio cismado e tal. “Será que compensa, não compensa?” Mas a gente vê que no final não é, assim, coisa... O pessoal fala: “Ah, não vou ter que ir mexendo?”, não é. Você não vai ter que fazer 100% no primeiro, no segundo ano, mas você vai adequando e tal, tudo, arrumando as coisas e tal. Tem um custo, mas eu acho que a Nespresso cobre isso daí que a gente... Ela já paga um preço bom pra gente no café, dá um preço diferenciado. Senão, é lógico, a gente não vai ficar vendendo só por achar que tem uma amizade. Tem a parte financeira, tem que ter, e o relacionamento, muito importante o relacionamento. Mas tem que ter essa parte financeira, então acaba cobrindo. Eles pagam, vamos dizer, uma premiação por saca de café que a gente vende durante a safra, no ano começo do ano seguinte a gente recebe uma premiação daquele... é um extra que a gente recebe. Então todos os produtores que vendem pra ela acabam recebendo essa... Então ajuda muito a gente nessa parte.

P/1 – Me dá alguns exemplos, assim, mais concretos, de que modificações você precisou fazer pra se adequar? Só pra gente ter uma noção, assim, não precisa ser tudo, claro, mas alguns exemplos.

R – Tá. Teve por exemplo, lá onde tinha água, onde tem água lá, teve lugar que eu tive que cercar, era pasto, que tinha um gadinho lá. Hoje eu não mexo com gado mais, parei, mas na época eu tinha um gadinho. Então eu tive que cercar onde desce a água pro gado não chegar. É uma coisa que eu tive que fazer, porque, entre aspas, a gente perde um pedaço de terreno. Não é que perde, a gente tem que fechar e deixar nascer mato ali. Não é que perde, a gente tem que ver muito isso.

P/1 – E por que tem que cercar? Qual é a finalidade?

R – Para o gado não ficar, porque o gado começa em qualquer lugar que tiver água, ele começa a entrar. E o certo é você fazer um bebedouro pra ele ir lá, aí só ali ele vai. Senão, como diz, aonde vai nascendo o mato ele vai pisando, então é pro mato nascer sem interferência, senão você começa ver aqueles trilhos dele, aonde ele entra pra chegar à água.

P/1 – Mas é o quê, pra não contaminar ou é pra não estragar a vegetação?

R – Não contaminar e não estragar a vegetação, os dois, é. Porque ele vai lá, ele vai ficar pisando na água ali, vai contaminar também, tem gente que vai usar ela pra baixo, sempre tem. E, principalmente, nascer a vegetação também, pra conservar aquela água, não secar. E na parte de terreiro teve alguma coisa de segurança que eu tive que fazer, vamos dizer, em alguns lugares tem que fazer corrimão; extintor de incêndio, que a gente até então não tinha nenhum. Tem hoje, tudo nas normas, certinho. Então tem a parte de registro de empregado que a gente já tinha tudo, já sempre foi registrado, porque tem o Ministério do Trabalho aqui em Carmo de Minas, que fiscaliza muito. Então, mas tem muita coisa que a gente melhora na organização, controle de documento, então saber o que eu estou gastando de energia. A gente tem, assim, aquela coisa: “Ah, não, vem a conta de luz você vem paga e coisa, e arquiva lá e pronto”. Hoje não, você tem um mapa pra ver se está gastando, está gastando, ver o que a gente pode fazer. O Vinícius, às vezes a gente vai conversar com ele, e ele sempre tá dando assistência pra gente lá de: “Peraí, vamos...”, esse último ano agora, em vez de fazer três adubações, por causa da seca também: “Bom, vamos fazer só duas adubações químicas e tal, e uma com esterco de aves”. Então compramos, fizemos. Então, os estudos para tentar usar o menos químico possível, não ser orgânico, eu acho que a gente não consegue chegar nisso, é muito difícil, mas usar menos cada ano trocar o produto, o princípio ativo do produto para ter sempre, renovar aquilo lá. Então é muita coisa que o Vinícius está ajudando, apoiando muito nisso. É dessa parceria já da Nespresso, e tudo. Então, pra gente ir melhorando cada vez mais.

P/1 – E você acha que todas essas adequações que vieram a partir da parceria... De que ano que é essa parceria?

R – Com a Nespresso?

P/1 – É.

R – Foi 2010. Acho que foi 2010 que nós começamos. Não sei se é. Mas é de 2010.

P/1 – E de 2010 pra cá você acha que teve mudanças positivas?

R – Teve, teve, sempre mudança positiva. Essa organização da propriedade, sempre positiva. Tem um custo maior? Tem. Mas no final a gente vê que acaba... É um custo maior um pouquinho no momento ali, mas lá na frente você vê que houve uma redução de gasto que você teve. Lá no custo final, o custo-benefício daquele investimento é melhor. Então eu achei que melhorou bem. Eu costumo dizer, às vezes a gente reúne lá os quatro lá pra conversar, os quatro sócios lá e tal, e é o que eu falei: “É um caminho sem volta esse daí. Nós entramos e tal. Ah, nós vamos parar. Não”. É um vício que a gente tem de tentar produzir, cada vez tentar fornecer melhor, ser mais organizado e tal.

P/1 – E o que o produtor ganha com isso? Que você acha, Álvaro.

R – Olha, ganha tanto, vamos dizer, na parte financeira, tá, é uma delas. Mas o principal é o que eu estou te falando, na organização da propriedade, a organização.

P/1 – Mas a organização ajuda também a melhorar a produtividade, o lucro?

R – Ajuda, com certeza. Com certeza ajuda, porque você começa a ter mais controle das coisas. É igual o que eu estou te falando, esse do adubo, o foliar que você vai dar: “Peraí, você deu um foliar agora, vamos lá”. Às vezes fala: “Não, de mês em mês você vai lá e dá um foliar na lavoura”. É um banho que você dá na lavoura com alguns produtos e tal. Às vezes não, vamos lá, leva o agrônomo lá, o Vinícius. Tem agrônomo da cooperativa também que dá, sempre deu assistência. “Então vamos lá”, “Não, não precisa, não tem nada que esteja precisando. Você vai dar um banho na lavoura à toa? Não”. Então tem muitas coisas que a gente vai aperfeiçoando com isso.

P/1 – E nesse comecinho, em 2010, teve alguma reunião pra explicar pra vocês como era o programa?

R – Teve, teve reunião.

P/1 – Me conta como foi isso daí.

R – Veio o Guilherme, veio a Claudia Leite. Tivemos várias, aí vai tendo várias reuniões com eles. Sempre vêm e sentam, conversam, explicam tudo, o quê que é a Nespresso, o que é que eles pretendem. Levou, o ano passado, eles levaram um grupo de produtores daqui em São Paulo, pra conhecer a Nespresso lá em São Paulo. Então tem assim um relacionamento muito bom com eles. E explicando tudo, tudo, os passos todos, quando o café chega lá, o que acontece com o café da gente lá até ir pra cápsula, né? Então todo o processo. Então é uma troca de conhecimento muito boa, que a gente não tem, a gente fica aqui, produz, entrega e pronto, acabou ali, a gente não sabe o que é feito do café. Eles não, eles têm essa preocupação de levar, de mostrar, vir presentear a gente com uma máquina pra gente conhecer o café também, levar pra casa. Então presenteou a gente, esses produtores que foram lá, teve acho que três produtores, ou cinco produtores, no dia cada um ganhou uma maquininha da Nespresso. Então é uma parceria, assim, que a gente sempre troca conhecimento.

P/1 – E explica pra gente, assim, em termos gerais, quais são os objetivos do Nespresso AAA? Desse programa, quais são as ações?

R – É. Vamos dizer, ações que a gente fez, eles apoiam muito a gente em várias ações. Às vezes eu falar assim certinho o que é que é...

P/1 – Não precisa falar pelo programa, mas do seu ponto de vista mesmo, como produtor. Como é que é essa parceria, né? Em que aspectos essa parceria atua?

R – Sei. Igual agora, do plantio do café até a pós-colheita é tudo uma parceria muito boa, com essa assistência, do Guilherme vir aqui, da Claudia vir aqui, trazer outras pessoas aqui pra conhecer. Então essa organização, essa parceria, que eu estou organizando a minha propriedade. Esse ano nós tivemos três visitas de grupos ligados à Nespresso, que trouxe aqui funcionários, diretores da Nespresso do mundo, o outro foi jornalistas do mundo inteiro, o outro foi jornalistas do Brasil. Então essa parceria de trazer o pessoal pra conhecer aqui, isso acaba sendo um incentivo pra gente. “Porque escolheu a minha propriedade?”, é porque essa parceria está dando certo, eles estão nos incentivando, acho que eu devo estar correspondendo também. Então é uma parceria muito boa nesse sentido, dessa troca de informação porque a gente acaba conhecendo muita coisa e, como diz, ensinando muita coisa também pra eles. E aqui, como eu falo, a minha propriedade ali é pequena, mas quem quiser, agora, sábado agora mesmo vai um rapaz que quer passar o dia lá, que falou: “Posso ir passar o sábado com você lá? Porque eu não consigo, eu tento fazer, mas não consigo”. Falei: “Vamos”, está aberto pra quem quiser ir lá aprender. Não sou de: “Ah, ele é concorrente”. Não é. É mais um parceiro pra gente tentar aumentar esse grupo nosso. Porque se eu produzo sozinho aqui o especial, a Nespresso não vai vir comprar o café meu só, como diz, meia dúzia de saco de café. Então quer dizer, quanto mais aumentar esse número mais gente vai procurar aqui Carmo de Minas.

P/1 – Álvaro, em termos, assim, dessa parceria com a Nespresso, de apoio técnico, vocês têm algum apoio técnico de agrônomo? Como é que funciona esse apoio, essa orientação, capacitação? Tem esse trabalho?

R – Tem. Tem esse trabalho. Tem o Vinícius, né, que está com a gente. Tem o Nilton também, que é o outro agrônomo que está acompanhando a gente. Então, como diz, tem toda assistência que a gente precisa deles, é na hora. Hoje, por exemplo, ele teve por aqui, tal, saiu, foi lá pra Heliodóro, mas se eu ligar: “Vinícius, eu preciso...vamos lá na roça que tem uma coisa lá, e tal, preciso de uma assistência sua lá”, é na hora, ele está à disposição, ele o Nilton, que são os dois que estão agora aqui juntos na Carmo Coffees aqui. Então tem toda assistência que eu preciso lá, tudo, acompanha tudo, a assistência é excelente.

P/1 – E como é esse acompanhamento? No quê um agrônomo ajuda? Em quais aspectos?

R – Todos os aspectos, vamos dizer, desde o plantio até todos os tratos culturais. Aí eu faço, por exemplo, faço uma análise de terra lá. Todo ano a gente tem que fazer uma análise de terra. Aí ele vai fazer a leitura lá e vai me falar: “Preciso de calcário, preciso disso, preciso daquilo, tal está deficiente naquilo, tem excesso nesse daqui, você não precisa jogar isso, você pode diminuir a dosagem do adubo, e tal”. Então todo esse aspecto ele vai apoiando a gente. E aí eu chamei, por exemplo: “Vinícius, vamos dar uma volta aí, pega um dia, por exemplo, vamos nas lavouras tudo dar uma olhada”, aí já vamos fazer uma análise de solo: “Esse daqui é qual? Esse daqui”, então ele vê, ele dá uma leitura. Aí ele vai ver a leitura da análise de solo, vai ver o visual do café lá, que ele precisa ver, porque de repente uma análise de solo está certo ali, mas o visual, o café não está bonito, ele não está verde, não está, assim, com aquele aspecto bonito. “Opa, tem que descobrir. Vamos fazer um outro tipo de análise nele, fazer uma análise de folha.” Igual um talhão lá que estava...a análise deu certo, mas ele não estava bom, não estava, o aspecto não estava bom. Aí ele fez uma análise de 0 a 20 de profundidade, a análise do solo. Aí ele falou: “Não, vamos fazer de 20 a 40, mais fundo ainda, pra ver”. Aí tinha um alumínio que estava dando problema naquele. “Então vamos corrigir de tal jeito”, então tem muita assistência nesse sentido aí. Então vai com a análise lá, é a análise visual, e vai vendo aquilo. “A produção dele, como foi no passado? Teve pouca produção esse ano, mas por quê? Produziu muito no ano passado, esse ano produziu menos, tá normal”. Então essa troca de informação com eles é muito importante pra gente.

P/1 – E quê que determina, Álvaro, a qualidade do café Nespresso AAA?

R – O quê que determina?

P/1 – É, a qualidade? O quê que é? Explica um pouco pra gente o que faz com que o café seja de qualidade, né, na produção. E o que é um café de qualidade?

R – É. O café de qualidade...

P/1 – Pra Nespresso AAA.

R – É, pra Nespresso, aqui é o Bourbon, né? É uma exigência que seja o Bourbon. E Bourbon Amarelo. Eu plantei um pouco de vermelho, mas tem que ser o amarelo. E a qualidade é isso, é colher ele na hora certa, no ponto de maturação ideal, que tem que colher ali com o mínimo de verde, tá, e fazer um processo bem feito no terreiro. Que é o que gente faz, né? A gente está trabalhando muito nisso. Ele vai dar uma qualidade boa pra Nespresso. O café que a gente tem vendido pra eles é, como diz... Aqui até uma coisa que teve, a Carmo Coffees teve uma palestra, uma reunião dessas visitas esses dias. O Luís Paulo até, que é o proprietário aqui da Carmo Coffees, e falou que aqui é um fornecedor da Nespresso que tem 100% do café que ele manda pra Nespresso, aprovado. Então nunca teve um café que falou: “Não, mandei o café pra lá e reprovou, tal”. Ele nunca teve esse problema, 100% do café que eles vendem aqui é aprovado Então, quer dizer, eu me incluo nesse 100% de aprovado, então é uma qualidade excelente. Agora, o que determina é isso, é desde os tratos culturais até o pós-colheita, até o café ficar pronto pra vender pra eles. Senão, se você errar em alguma! Porque não adianta eu fazer um serviço bem feito lá e errar no pós-colheita, no terreiro de café. Não adianta eu querer ter um cuidado muito grande na lavoura e ter deficiência em um bocado de coisa. A produção do café não vai, ele vai passar, em vez de ficar maduro ele do verde ele já seca, tem alguma deficiência. Então o processo é bem... Tem que ter toda a cadeia funcionando redondinho pra dar certo lá no final.

P/1 – E o que esse café tem de diferenciado? Explica um pouco pra gente.

R – O café?

P/1 – É, o Bourbon, específico.

R – Doçura, acidez, o sabor, é tudo. Ele é um café diferenciado. Essa parte, assim, de prova, seria mais com os provadores, mas é um café que tem um diferencial na bebida, é um café muito melhor que as outras variedades. Quer dizer, acidez, doçura, sabor, corpo, tudo, ele tem, é um café, como diz, padrão, a gente fala, padrão Nespresso, né? É um café muito bom.

P/1 – E esse café de maior qualidade ele tem um melhor valor no mercado, pro produtor, assim, pra venda?

R – Tem. Tem um valor melhor. Todo café que é especial, não só o que eu vendo pra Nespresso, mas o que eu vendo pra outros clientes meus lá, todo ele tem um diferencial, tem um valor bem... Então todo café que é especial, como diz, eu vendo o Bourbon, a grande maioria do Bourbon nosso é pra Nespresso, mais as outras variedades também que são produzidas desse jeito, do mesmo jeito e tal, e especial, ele tem um valor agregado bem acima dos outros, tá? É um valor que pra mim hoje compensa produzir, e vou falar que está dando retorno. Às vezes muita gente fala: “Ah, não o café não está compensa financeiramente”. Pra mim, ele compensa, tá dando retorno, sim.

P/1 – Você conseguiria dar um exemplo pra gente, Álvaro, como seria uma saca, qual seria o valor médio de uma saca de café mais comum?

R – As commodities.

P/1 – É as commodities, e as commodities de um Bourbon, por exemplo. Só pra gente ter uma noção do que é que significa em termos de diferença.

R – Olha, hoje, um commodity de um café comum no mercado está valendo em torno de 360, 370 reais, tá? Um café especial, hoje, a gente consegue vender, acredito, na casa de 600 reais, 500, 600 reais, dependendo da qualidade, tá? Então eu consigo vender até acima disso, alguns microlotes, que já são outros tipos de clientes, tal, mas que a gente consegue até um valor maior que este. Mas, assim, mais ou menos numa média em torno disso, de 500 a 600 reais, a gente consegue nesse café.

P/1 – É bastante mais, né?

R – É. É um diferencial bom.

P/1 – Explica um pouco pra gente essa questão da premiação da Nespresso AAA pela qualidade do café. Como é que funciona e no que isso ajuda o produtor?

R – Esse prêmio é do café que a gente vende pra ele. Todos os produtores do Triple A, que vendem pra Nespresso, tem uma premiação, tá, todos que vendem. Esse ano, acho que foi 30 reais por saca, acho que foi uma premiação extra, fora o preço que eles pagaram, 30 reais. E pra gente que é Rainforest também, que é certificado, foi uma premiação de 45 reais. Então é uma premiação que ajuda muito, que vem assim numa época... Agora foi até esse mês passado de maio, a premiação foi no Parque das Águas lá em São Lourenço. Então, quer dizer, é um dinheiro extra que a gente recebe, porque você já vendeu o café, já pagou empregado e tal, quer dizer, ali já estou satisfeito, aí vem mais uma premiação, que é essa época agora, que é uma premiação que de repente eu vou fazer mais algum investimento, mais alguma coisinha que eu estou precisando. Eu quis fazer um terreiro suspenso lá, eu usei um pouco desse dinheiro pra fazer o terreiro suspenso, um pouco desse dinheiro dá pra começar a colheita, alguma coisinha do comecinho da colheita. Então ajuda muito a gente essa premiação, ajuda muito. Como diz, a família ainda brinca e tal, dá pra dar, como diz, faz uma festinha, a gente costuma às vezes juntar. Porque lá na roça a gente não fica com a premiação, então quando tem uma premiação. Esse da Nespresso, da BSA, esse ano nós fomos campeões, a minha propriedade, o Sítio da Torre, foi campeã brasileira do cereja descascado, vendemos a saca de café num lote de 15 sacos, cada saco foi 7.300 reais. Então já é um concurso, um outro tipo. Então quando tem essas coisas, a gente junta a família inteira, nós vamos pra chácara lá e vamos fazer uma festa lá. Aí a gente usa sempre fazer isso, fazer uma reunião. Então toda essa coisa acaba ajudando em tudo, né?

P/1 – Eu queria perguntar pra você um pouco em termos de sustentabilidade socioambiental, né? Essa relação com a Nespresso AAA mudou alguma coisa na sua consciência sobre o meio ambiente, nas práticas, na produção da sua propriedade rural?

R – Mudou. Mudou. Com certeza mudou, é o que eu estou te falando, desde a hora que eu te falei, dessa parceria com eles, essa assistência deles aqui com a gente, e mostrando tudo, o quê que a gente tem que fazer, o quê que é isso, o quê que é certo, o quê que é errado, então acabou mudando bastante a consciência da gente, dos empregados lá também.

P/1 – Mas na questão ambiental?

R – Ambiental. É ambiental, é tudo, acaba mudando um pouco em tudo. Mas na ambiental mudou, por exemplo uma coisa que até esses tempos atrás os camaradas lá tinham aquela coisa de: “Ah, não, garrafa pet”, que leva a água pra lá, ou sacolinha plástica e tal, isso pra eles, se você bebeu e jogou ali e coisa... A gente sempre procurava dizer: “Ô, gente!”. Hoje não, hoje vai lá, às vezes o Vinícius vai, o outro vai conversa com eles também e tal, pra conscientizar disso, daquilo. Muitas coisas que eles falavam: “Ah”, hoje eles mesmos pensam: “Ó, num deve fazer isso, não deve fazer aquilo”. Muito coisa assim que tem que... Nessa parte ajudou bastante, eu e eles também conscientizando um pouco eles, porque senão não adianta só eu e eles deixar, aí toda hora tem que estar chamando atenção. Aí eles também estão conscientizando lá. Ainda tem pontos lá que tem que estar ainda corrigindo, principalmente esse tempo de colheita. Que aí vai o pessoal daqui, que não são os fixos, o pessoal daqui, a mentalidade é outra. Agora já chega lá, tem sacolinha às vezes que deixam jogada, tem uma garrafa. Então a gente procura falar, mas é um período muito pequeno que eles ficam, então é aquela coisa: “Ah, acabou a colheita vou-me embora”. Agora os de lá, os fixos mesmo, não, eles mesmos estão procurando ver o que está certo, o que está errado, tudo, então ajuda muito.

P/1 – Tem outro exemplo que você se lembre, fora essa questão do lixo? Tem outra coisa que tenha mudado ou melhorado? Mesmo que não tenha resolvido, mas que tenha melhorado.

R – Olha, bastante coisa nesse sentido mesmo, por exemplo, nas lavouras mesmo. Eles mesmos eles falam: “Olha, vamos fazer isso na lavoura”, porque, como diz, a ruação ali que a gente faz, faz aquela camada que fica, pra segurar a água ali, pra não ter erosão, então fica muita coisa. E eles mesmos vão vendo, vão aprendendo também, porque o terreno é muito inclinado, então acaba tendo várias coisas: “Ah, não, ali está dando uma enxurrada, vamos arrumar aquilo lá, não sei quê”. Então eles me ajudam também nisso aí. Não tem uma coisa específica, mas várias coisas eles vão conscientizando junto com a gente também.

P/1 – E qual você acha que é a mudança, Álvaro, de pensar em produzir com sustentabilidade do meio ambiente? Com essa preocupação, a longo prazo, você vê alguma diferença?

R – Com certeza, a longo prazo. Nesse período pequeno ainda a gente vai vendo alguma diferença pequena, mas com o tempo a gente vê que vai ser melhor lá pra frente. Vai ser melhor...

P/1 – Mas por quê você acha?

R – Por causa da conservação mesmo do meio ambiente, a principal coisa é isso, conservação do meio ambiente. Às vezes a gente fala lá, ali onde é essa propriedade minha lá, são várias casas, assim, sítios, lá perto. A minha primeira lá em cima e depois tem as outras, pra baixo, que foram vendendo alguns pedacinhos, tem gente que tinha terra lá, tem um irmão do meu pai também que vendeu uns pedaços lá já há bastante tempo. Mas, por exemplo, fossa séptica, eu lá tenho duas propriedades, duas casas, que é aminha casa da sede e mais uma casa só na propriedade, eu fiz fossa séptica nas duas, então, quer dizer, ali eu já... Agora, eu ainda falo, como diz, não adianta nada, porque as casas lá pra baixo, ninguém quis fazer. Eu tentei conversar, assim, de repente fazer alguma coisa barata, mas: “Ah, não. Você não sabe. E na hora de encher os tambores?”, que a fossa é de três tambores. Falei: “Não, a gente vai estudar um jeito, o grupo”, mas ninguém. Então vão pensar: “Ah, não. Não sei quê”. Igual aqui, hoje, a cidade inteira joga esgoto dentro do ribeirão ali embaixo, então nada tratado, nem nada. Então quer dizer, aquele negócio que falam: “Ah, ninguém faz, eu também não”, mas a minha parte lá em cima eu fiz. Então dali, se pegar análise de água ali não tem contaminação, não tem nada, pra baixo tudo bem que contamina. Então essas coisas a gente têm que ir tentando. Já falei, joguei uma sementinha ali pra eles pensar. Aí lá embaixo, a água, tem um lugar lá embaixo que se quiser usar lá, como diz, ir nadar, brincar na água com criança, não vai estar... Mas, eu teria que conscientizar essa turma todinha lá. Isso daí é um trabalho que é mais demorado. A gente tem que mostrar o que está dando certo pra tentar os outros também fazer.

P/1 – É um início.

R – É um início, trabalho de formiguinha. É demorado, porque a gente vê, principalmente essa parte ambiental, de conscientizar. O pessoal diz que lá pra baixo não mexe com café nem nada e tal: “Ah, não. Não vou mexer com isso não e tal”, e você fica sem jeito, não vai ficar: “Ah, toda semana eu vou lá”, então não posso. Aí de vez em quando vou lá, converso um pouquinho isso e aquilo pra ver se eles conseguem entender, né? Ah, mas, isso que eu falei, tem que pensar lá na frente, como diz, nos filhos, ir lá e tocar, e ser melhor, pensar nisso.

P/1 – Tá certo. Eu vou começar a encaminhar pras perguntas finais, Álvaro. São quatro perguntas finais, mas antes de fazer essas perguntas, queria saber se tem alguma coisa que a gente não tenha perguntado e que você gostaria de falar?

R – Não, acho que está tudo, está tudo. Só deixar gravado, vamos dizer, os quatro lá, porque tem o meu nome só aí, mas tem os outros três sócios, que são os três cunhados, vou falar o nome dos cunhados, que é Edson, Paulo Lúcio e Márcio, que são os três sócios lá, que a gente toca. Como diz, eu que fico mais na parte da linha de frente lá, mas toda decisão que tiver que tomar é nós quatro juntos. Só isso.

P/1 – Vou encaminhar pras perguntas finais.

R – Tá joia.

P/1 – A primeira delas eu queria saber de 2010, né, que você falou, que vocês estão com essa parceria, quais que você acha que foram as principais mudanças na sua propriedade, na sua produção? Nesse tempo... Que vieram da parceria, né?

R – Isso. É aquilo que eu falei: organização, que a gente anota tudo agora, tem tudo uma organização que antes não tinha. Organização da propriedade, quer dizer, a organização em termos de gastos, vamos dizer documental.

P/1 – Administrativa.

R – Isso, administrativa. Tá? Organização dentro da propriedade, lá no terreiro, na lavoura, e tal, organização lá. E essa parte de diminuir custo, como diz, começar a ver o que eu preciso gastar, o que eu não preciso, o que eu posso jogar uma palha de café e eu diminuo adubação, joguei esterco de galinha, e tal, e eu diminuo a adubação química daquilo. Então mudou muito nisso. O principal foi isso lá.

P/1 – E aí qual você acha que é a importância dessa parceria para o produtor rural, não só pro produtor rural, mas pra quem comercializa, pro consumidor pra empresa, essa parceria com o Programa Nespresso AAA? Qual que é a importância pra todas as pessoas envolvidas, o produtor, o empresário, a pessoa que comercializa, o consumidor?

R – É uma cadeia, né? Então eu acho que se – a gente precisa falar “se” – algum desses, do produtor até o consumidor final, se algum desses elos romper, eu já acho que não ver ser uma coisa que vai servir pra todo mundo, não vai ser boa pra ninguém. Se uma romper, não é boa pra ninguém. Então eu acho que é muito importante esse relacionamento da gente com a Nespresso, da Nespresso até o cliente final lá, toda a coisa, é importante pra todos. E aqui a gente sabe lá, hoje a gente vai a gente conhece o café, eu sou produtor, mas conheço a cápsula da Nespresso lá no final, que como diz, tem um café meu ali também. Então eu acho que muito importante toda a cadeia. Estão trazendo consumidores, pessoal de lojas, de boutiques deles, da Nespresso, pra me conhecer aqui, e levando a gente. Então é uma coisa que está funcionando muito bem. É muito legal essa troca de conhecimento e essa parceria de toda a cadeia.

P/1 – E agora a penúltima pergunta então: quais são seus sonhos hoje?

R – (Risos) Sonhos?

Seria sonho em relação...

P/1 – Qualquer tipo: pode ser pessoal, profissional, pode ser os dois...

R – É, vamos dizer, eu acho que o principal sonho, sonho meu hoje, é família, o principal é a família. A gente, é como diz, é criar meus filhos, formar eles, e dar alguma coisa na vida, isso daí é o sonho que todo pai vai ter um sonho desses, é o principal. Porque se eu não conseguir lá, tudo que eu fiz está perdido, então eu sonho isso. E o sonho dar certo, que eu entrei aqui nessa empresa faz menos de um mês, de dar certo também aqui, porque eu larguei um emprego de 28 anos, e vim pra aqui, comecei aqui. Eu acho que, quer dizer, a gente já conhece, desde quando eu comecei a produzir café especial que eles montaram a empresa Carmo Coffees, eu conheço, que eles não saem daqui da cooperativa aqui. Como diz, eu tenho uma amizade muito grande com os donos aqui, com eles todos. Então, quer dizer, demorou aí dez anos desde que nós começamos pra eu vir pra cá, mas é um sonho que dar certo aqui. Porque não adianta, se não der certo no emprego também, pra eu cuidar da família também é... Então é uma cadeia. Agora, o principal é a família. É como diz, é dar certo a família. O sonho meu é esse.

P/1 – E, Álvaro, aqui na Carmo você veio trabalhar na área de Contabilidade também?

R – Não. Não.
P/1 – Me conta rapidinho o que você veio fazer?

R – Porque na cooperativa eu já entrei, foi quando eu entrei na Contabilidade, ajudando, mas faz quase 20 anos que eu estou na comercialização de café, a parte de vendas da cooperativa era por minha conta. E hoje eu vim pra cá já num outro setor, eu estou como supervisor do centro de beneficiamento deles, que eles têm. Que aqui é o escritório, o central, com toda parte de exportação, de amostra, de controle, tudo é aqui dentro. Aí tem lá em Pedralva, que é uma cidade vizinha, e Heliodóro, uma outra cidade, dois centros de processamento de café. Eles compram o café do produtor, o produtor colhe e vende lá pra esses centros. E eles fazem tudo que eu faço no meu terreiro, eles fazem nesses dois centros deles, e compram também café já beneficiado nesses dois centros, chega o produtor lá com 20 sacos, está com 500 sacos de café pra vender já pronto, a gente compra também. Então eu estou mais como supervisor desses dois centros.

P/1 – Entendi.

R – Então já é uma área completamente diferente da contabilidade que eu formei.

P/1 – Entendi, você foi mudando.

R – É, eu fui mudando. É, entrei lá na cooperativa, mudei pra comercialização e agora vim pra cá, outro setor também.

P/1 – É uma área que você entende porque é o que você faz também.

R – Como diz, é igual meu pai falava quando a gente ia trabalhar, as minhas irmãs iam pra algum emprego, alguma coisa assim, tal, e às vezes chegava alguém: “E aí, você está gostando do emprego?”. Papai falava assim: “Não, não pergunta se ela está gostando não, pergunta se o patrão está gostando dela, se estiver gostando, aí beleza; agora ela não deve gostar se o patrão não estiver gostando dela não adianta. Vou torcer pro seu patrão estar gostando de você”. É isso aí.

P/1 – Tá certo. E por fim, como é que foi contar sua história, dar o depoimento pra gente hoje?

R – Foi muito bom, muito interessante. Quer dizer, já tinha feito alguma coisinha assim, mas coisa curtinha, não de sentar e contar a vida assim, é a primeira vez, então foi muito bom. Vamos trocar essa coisa, como diz, da vida da gente, mostrar pra alguém, tal. Então é interessante, é umas coisas que vão acontecendo que de vez em quando a gente sentar e contar. Agora eu vou ficar muito assim na hora que vier o vídeo, que aí a gente vai sentar com a família e tal, e coisa, ver, isso é muito gostoso, muito bom.

P/1 – Tá certo.

R – Mas foi um prazer, como diz, contar um pedacinho da vida aí, foi um prazer pra mim.

P/1 – Tá certo, Álvaro. Obrigada! A gente agradece muito.

R – Eu é que agradeço.


Final da Entrevista