Museu da Pessoa

Dane-se a dieta!

autoria: Museu da Pessoa personagem: América Suárez de Oliveira

P/1 – Bom dia, América.

R – Bom dia.

P/1 – Nós vamos começar com você nos falando seu nome completo, local e a data do seu nascimento.

R – América Suárez de Oliveira. Nasci em São Paulo em 1946.

P/1 – E qual é o nome de seus pais?

R – José Suárez Blanco e América ___0.30____ Suárez.

P/1 – O nome da sua... a origem da sua família, qual é?

R – Meu pai é espanhol e a minha mãe, descendente de alemães.

P/1 – E você sabe como eles chegaram aqui no Brasil, seus avós vieram...?

R – Meus avós por parte de minha mãe... na realidade, o meu bisavô veio contratado por D. Pedro pra construir as estradas de ferro de São Paulo. Isso é o que eu sei. E o meu pai veio... o pai dele que veio primeiro, uma leva de espanhóis que vinham pra fazer... ter padaria. Uma vez fizeram uma padaria na rua Campos Salles, e muitos anos eles tiveram essa padaria na Campos Salles. Depois meu pai teve um armazém na Rua Conceição com a Lusitana, secos e molhados na época.

P/1 – Então a atividade de seus pais, eles eram comerciantes?

R – Comerciantes.

P/1 – E você falou que seu pai teve um armazém, né?

R – Armazém. Casa Ceres. Ficava na Rua Conceição com Lusitana, numa esquina.

P/1 – Conta um pouco pra gente, o que você lembra desse armazém do seu pai, como é que era?

R – Ah, eu gostava de... eu tinha medo de atender o telefone. Detestava atender telefone, então eu procurava me esconder, mas gostava de fazer os pedidos, que antigamente era tudo pedido, gostava de passear na vizinhança, ia na frente, que tinha o (Cola Ferre?) Macarrão, ia conversar com italiano, ia do lado na Mercantil de Vidros Planos, que tinha umas... uns espelhos que um engordava, outro emagrecia. Gostava de ficar passeando por lá, quando era criança, nos vizinhos.

P/1 – Você lembra, assim, um pouco do movimento do armazém, as pessoas usavam aquela cadernetinha pra comprar, como é que era?

R – Não era caderneta, não era... não me lembro de ter caderneta. Talvez pagasse por mês alguns fregueses, mas não era caderneta, que eu me lembre.

P/1 – E o que vendia no armazém?

R – Secos e molhados. Tudo que... aquelas coisas de antigamente.

P/1 – Gêneros...

R – Gêneros, é, antigamente tinha a Casa Maia, era no centro, tinha a Mercearia Dalva, a Casa Ceres do meu pai... tinha umas quatro que vendia pra praticamente toda Campinas. Só quatro, já pensou?

P/1 – E, assim, as pessoas que freqüentavam, você lembra?

R – Lembro.

P/1 – É, como eram os clientes...

R – Era a elite de Campinas que usavam a... o armazém do meu pai.

P/1 – Eram produtos de primeira, então?

R – Era. É, antigamente não tinha muito... não tinha o que tem hoje, né? Não tinha tanto supérfluo como tem hoje, né? As coisas eram mais básicas, né?

P/1 – E você tem irmãos, América?

R – Tenho.

P/1 – Quantos?

R – Dois.

P/1 – E eles seguiram esse ramo do comércio também?

R – Não. Meu irmão, ele é livre docente da USP de Lingüística. Ele já se aposentou. E a minha irmã trabalhou por muitos anos no Maison de La France, em São Paulo.

P/1 – Certo.

R – Trabalhou com turismo pra França.

P/1 – E qual era a sua impressão, assim, na infância da cidade de Campinas, do bairro que você morava...?

R – Morava no Cambuí. Era muito gostoso, que a rua que eu morava era Presciliana Soares, uma rua que tinha de tudo: classe média alta, tinha pessoas mais simples, e todos nós íamos pra escola pública. Era mais igual, eu gostava. Brincava bastante na rua.

P/1 – E o que que você gostava de fazer, assim, você lembra das brincadeiras de infância...

R – Lembro.

P/1 – ... com quem você brincava?

R – Lembro, lembro sim. A gente brincava de... acusada, que é esconde-esconde, brincava de bola, de boneca, ficava até as nove, dez horas, no verão podia ficar na rua até dez horas no verão, os meninos brincavam de futebol...

P/1 – E você brincava com seus irmãos, ou você tinha amigos?

R – Não, bastante amigos, bastante... a rua tinha bastante criança.

P/1 – E você acompanhava tua mãe, teu pai na loja?

R – No armazém, sim. Eventualmente ele nos escalava pra ajudar.

P/1 – Então, na sua casa, claro, os itens que vocês usavam vinham...

R – Todos do armazém.

P/1 – ... vinham todos do armazém do teu pai.

R – Todos do armazém. Então a gente... nos habituamos desde pequena a comer coisas que vinham da Europa, porque meu pai era espanhol, então sempre nozes, frutas secas no Natal, sempre tinha em casa, bacalhau.

P/1 – E como era o abastecimento do armazém do seu pai, você lembra? Vinha de São Paulo, vinha de onde?

R – Ah, acredito que vinha de São Paulo.

P/1 – Você não lembra, assim,...

R – Não lembro.

P/1 – ... de de repente eles irem fazer compras em São Paulo pra trazer pro armazém, coisas assim?

R – Não, meu pai não ia. Vinha tudo pra... pra Campinas, entregava no armazém.

P/1 – Ele pedia e...

R – Chegavam os pedidos.

P/1 – E a escola? Você falou que ia até a escola...

R – Estudei na escola pública, no João Lourenço Rodrigues, no Cambuí, na Escola Normal também, no Jardim da Infância, depois eu fui para o Cesário Mota, que é uma escola particular.

P/1 – E que curso que você fez na escola?

R – Só segundo... o, digamos, colegial. Ginásio e colegial, e não fiz universidade, terceiro grau. Eu casei.

P/1 – E havia alguma expectativa, assim, de você seguir alguma carreira...

R – Não.

P/1 – ...por parte da família?

R – Não. A expectativa era ser uma dona-de-casa, na época, anos dourados. Casar.

P/1 – E você, naquele tempo, pensava de repente em trabalhar no comércio?

R – Nunca. Nunca, nunca.

P/1 – Não passava pela sua cabeça? E aí, você, antes de casar, você falou que casou, mas antes, como foi, assim, a tua juventude? Você freqüentava bailes...?

R – Bailinhos, bailinhos que tinha no... das comissões de formatura das escolas, sempre tinha bailinho, todo sábado tinha bailinho, que terminava geralmente à uma hora da manhã, no dia mais tarde que terminava, começava às nove e ia até a uma da manhã.

P/1 – E outras coisas, cinema, festas...?

R – Cinema, nossa, com certeza, Cinema Ouro Verde, Cinema Volga, era o lugar da paquera.

P/1 – E os filmes da época, como eram?

R – Eu me lembro de um filme que até hoje é o filme que eu mais gosto, é uma comédia que eu acho até hoje engraçadíssima, que eu fui assistir, eu tinha 14 anos, pus o salto da minha mãe, que era 37, eu já era 38, quase morri, tomei o bonde seis, fui no Cine Ouro Verde assistir Quanto Mais Quente Melhor. Pra mim, até hoje, é o filme mais... comédia melhor que... que eu já assisti. Muita engraçada. Hoje passa na Sessão da Tarde.

P/1 – E, na sua família, vocês viajavam, assim, em férias, iam pra outros lugares?

R – Pra Santos, basicamente pra Santos, a gente ia nas férias. Santos, São Paulo, na casa de parentes.

P/1 – E como vocês iam?

R – Rio... De carro, com meu pai.

P/1 – De carro? Não viajavam de trem naquela época?

R – Não, não.

P/1 – Seu pai tinha carro?

R – Meu pai tinha um furgãozinho.

P/1 – E como eram essas viagens, você lembra pra contar um pouco pra gente?

R – Parava na estrada pra tomar água, uma coisa assim bem basiquinha...

P/1 – E Santos, praia, né?

R – Santos, a praia.

P/1 – E aí você falou que casou, né?

R – Casei muito jovem, com 16 anos, primeira filha nasceu, tinha 16 anos, daí em sete anos, eu tive cinco. Era um por ano, quase.

P/1 – E quando você resolveu ingressar no comércio? Foi só mais tarde ou foi...?

R – É que eu tinha empregada que fazia todo o serviço, mas eu cozinhava, sempre gostei de cozinhar. E cinco filhos e boca grande; nenhum queria um pedacinho só, queriam bastante. Então eu fui... não tinha livro de receita naquela época, o único livro que tinha era o Dona Benta, que eu tinha, e a gente não tinha... não tinha facilidade de achar receita, então a gente trocava com amigas, tudo... E eu fui fazendo, fui aprendendo. E daí, numa época que eu estava casada, meu marido estava doente, minha filha estava na Unicamp, e daí ela chegou e falou pra mim: “Mãe, uma amiga minha, que o pai deu um carro zero e um apartamento, estava vendendo doce na porta do restaurante.” Falei: “Bom, interessante. Então vou fazer brigadeiro que você vai vender, que é pequeno, não faz volume, e você vende.” Então ela fez a graduação, pós-graduação, vendendo brigadeiro, daí os irmãos também já pegaram, foram vender brigadeiro, e daí meu marido ficou doente, e eu pensei, falei: “Vou vender nos restaurantes do Cambuí.” Então fui no Papillon, que era na Barreto Leme, fui no Churrasqueto, que era onde é um restaurante italiano hoje, do lado do posto de gasolina, na ___10.40____ da Silva Teles, vendi muita torta lá. E daí, quando o inquilino saiu dessa esquina, que era do meu pai, do armazém, a gente achou por bem montar uma doceria lá. Então nós montamos.

P/1 – E você falou, o teu marido por acaso era do ramo do comércio ou não?

R – Não, ele trabalhava com ações, obrigações... e era comércio, mas era comércio de papel.

P/1 – Certo. E que idade você tinha nessa época quando você resolveu montar a doceria?

R – Há 13 anos atrás, 14 anos atrás... Estou com 61... Acho que uns 50... Um pouco menos, 48, por ai, 47, 48 anos.

P/1 – Antes disso você nunca tinha feito outra coisa, assim, trabalhado...

R

– Não, eu estava já fazendo em casa já há uns cinco anos.

P/1 – Só em casa? Tá.

R – Há uns cinco anos já fazia, trabalhava em casa cinco anos.

P/1 – E como foi assim, a abertura da loja?

R – Meu filho é arquiteto, inclusive ele trabalhava na TV cultura, ele fez o, ordenou a cenografia do castelo ra-tim-bum, então ele fez um projeto muito interessante pra nós, ainda melhor que era de graça né. (risos) Então a loja ficou superbonita e a minha filha teve idéia de um nome bem interessante, e a qualidade com que agente trabalhava, com matéria-prima sempre de primeira qualidade, então nós fomos tendo sucesso na nossa empreitada.

P/1

– E qual é esse nome interessante que a sua filha arrumou pra loja?

R – Danisedieta. No logo, um balãozinho de pensamento.

P/1 – Legal. Mas conta assim um pouco pra gente, como foi esse processo da abertura, escolha dos funcionários, como foi?

R – Bom, para montar a loja, a gente vendeu um telefone, segundo telefone, terceiro telefone, vendemos uma moto. Daí era abrir ou abrir, não tinha outra chance, porque não tinha mais nada, nem um real. Na realidade, meu filho falou: “você vai gastar uns quinze mil”. Nós gastamos

vinte e cinco mil pra montar a loja. Eu falei: “porque você não falou Alex”? “Porque se eu falasse você não ia fazer, então você tinha que fazer”. E daí, quando a gente comprou a... começou com capital de giro, pelo cartão do Carrefour, a gente ia no Carrefour, comprava, vendia à tarde, saia da loja, ia no Carrefour, pagava e comprava de novo. Até foi assim, muita luta, muito sacrifício, muito trabalho, muito trabalho, muito trabalho.

P/1 – Mas vocês já tinham os clientes né, que você vendia?

R – Não, praticamente a clientela foi toda nova, toda nova. A gente fez no centro da cidade, então a gente... meu filho que fazia UNICAMP, mais os amigos dele fizeram, levaram muitos camafeus. Então a gente fez uns cartaozinhos: “visite a nossa loja, e ganha um camafeu”. Então foi bastante gente, bastante gente atrás do camafeu, depois agente falava pras funcionarias, olha você tem que recitar tudinho o que é, o que não é, depois você dá o camafeu; primeiro você fala o que nós estamos fazendo, o que que é, a qualidade que tem, depois você dá o camafeu, porque tinha gente que queria chegar já pegar e sair correndo né. (risos) Então a gente fazia, tinha que fazer um discurso antes, depois você dá o camafeu. E como era bom, as pessoas vieram.

P/1 – E você falou que vocês sempre investiram na qualidade, né?

R – Na qualidade. A matéria-prima é fundamental pra você ter qualidade no serviço, no fim. Então a matéria-prima é fundamental.

P/1 – E a criação das receitas?

R – Minha filha Kátia, que ela é criativa, ela cria, ela passa pra mim, a gente vai experimentar, experimentamos como é que fica, fazemos uma vez, duas vezes, até agente achar que está do jeito que a gente quer.

P/1 – E aí começou a dar certo, começou...?

R – Começou a dar certo. A gente começou a fazer, por exemplo, o avental da loja, a camiseta da loja, e meu filho é professor, e também dono da loja, ele é professor de educação física. Então ele ia com a camiseta do Daniseadieta, daí começamos a vender a camiseta também, Daniseadieta agente quer correr na lagoa, levava a camiseta, então o nome ficou assim bem marcado mesmo, em Campinas.

P/1 – E esse relacionamento assim com os clientes?

R – Muito bom, fizemos muitos amigos, muitos amigos.

P/1 – Essa área mesmo assim comercial né, como vocês...

R – Nossa, fizemos muitos amigos, muitos amigos mesmo.

P/1 – E como era o seu meio de transporte pra ir pra loja? Que que você..

R – Eu ia de carro e depois, mais pra frente, eu comecei a deixar o carro em casa, que eu atravessava a rua, tomava um ônibus, descia no centro da cidade, comecei a ir de ônibus, achei mais pratico, não pagava estacionamento, ficava mais barato.

P/1 – E o horário de funcionamento da loja?

R – Das 8:00 ás 18:00.

P/1 – No centro, né?

R – No centro.

P/1 – E como era o comércio ali? Naquela época, em volta ali, tua..

R – O meu publico alvo eram os profissionais liberais, do centro empresarial; Jaraguá, que tem ao lado; os bancários e o pessoal do DRT, do Décimo Quinto Tribunal Regional do Trabalho de Campinas. Esse era meu público.

P/1 – Mas as outras lojas, os outros comércios que tinham em volta, como era aquela região nessa época que você começou lá?

R – Tinha uma loja de importados. Lojas de fechadura, fechaduras. Na Conceição o restaurante Cacareco, que é bem antigo, mais ou menos isso.

P/1 – E como era o teu relacionamento com os outros comerciantes?

R – Muito amigável. Deixei muitos amigos lá.

P/1 – Tem muitas historias pra contar?

R – Bastante, bastante, me diverti muito.

P/1 – Então conta alguma coisa para a gente, alguma historia.

R – Lembrar agora é muito interessante... não lembro.

P/1 – Como era Campinas nessa época?

R – Campinas... faziam anos que eu não ia ao centro da cidade. Mas depois, tendo a loja lá, eu descobri que o centro é muito interessante, ele tem coisas assim que você não acredita. Pra ter uma idéia, uma vez minha filha, há dois anos atrás, ela foi ao shopping dia das mães, ela falou com o filho dela: “essa era uma jaquetinha de veludo molhado, essa, meu objeto de consumo que eu queria, meu objeto do desejo que eu queria, custava quatrocentos reais”. Daí o filho deu risada: “Não, eu tô falando o que eu queria, não o que você vai me dar”. Depois ela foi fazer um curso no centro da cidade de, pra refazer a aula de volante, ela desceu no intervalo, ela encontrou numa baciada, por vinte reais, igualzinho, igualzinho. Ela comprou por vinte reais. Ela foi com o objeto de desejo pra casa (risos). Lá no centro tem muito disso, tem coisa que você não acredita, que tem qualidade e preço.

P/1 – E o comércio, assim, de Campinas, você lembra, dá pra citar quais são as lojas mais conhecidas?

R – Perto do entorno da minha loja?

P/1 – Não, no geral.

R – No geral? Bom, quando eu era criança tinha exposição clipper, que era na Francisco Cliseri onde é o Bobs, de roupa, que todo ano, no começo do inverno, começo do verão, minha mãe nos levava lá pra comprar as roupas a prestações. Tinha a loja Anauati, que vendia roupa, roupas de (sim?), roupas das classes sociais mais favorecidas, Anauati Modas e a Anauati Juniors que vendia roupas infantis. Era na Treze de Maio. Oculista tinha a Ótica Conceição, que ficava na Conceição, agora está na Barão. Continua existindo, ainda dos mesmos donos, mas na... Dos filhos né, na rua Barão de Jaguar, ficava na Conceição. Uma frutaria também que era na Barão de Jaguar, uma frutaria muito chique na época, não lembro o nome, esqueci. Foi. (risos)

P/1 – Mais alguma que você lembre?

R – Ah, Lutel Términos, a doceria Términos. As livrarias, a livraria Pontes, a livraria João Amêndola, que na minha casa a gente lia muito, então livraria fazia parte da gente visitar sempre. Copenhagem... Que mais? Agora não me lembro mais. (risos).

P/1 – E a loja ficou famosa, né, vocês...

R – Ficou, fez muito sucesso.

P/1 – Vocês fizeram muito sucesso.

R – Fizemos sim.

P/1 – Foram entrevistados para televisão, conta um pouco para gente.

R – A TV Globo nos chamou pra fazer - ela nos chamou não -

ela veio até nós pra fazer uma matéria sobre marcas fortes, que eles gostaram muito da marca. Então nós fizemos a matéria, saiu na “Pequenas Empresas, Grandes negócios”, depois -

mais 2 anos após - foi a vez da TV Cultura, “negócios e soluções”, também com marcas fortes também. Então chamou muita atenção. Mas basicamente, o que chamou atenção é que meus doces eram diferentes, eles não são iguais a todas as docerias que tem em Campinas. Você acha as coisas diferentes na minha loja.

A minha filha é muito criativa, então ela faz coisas diferentes. Então, por exemplo, a torta fondue de morango é uma torta que eu vendia muito, todos os dias. Todo mundo falava que era uma, era um vicio. Então tinha gente que ia todo dia pra comer só essa torta, então tinha... a qualidade do que eu fazia era muito boa, bem diferente, então eu tive bastante sucesso.

P/1 – E a sua filha sempre foi sua sócia desde o começo...

R – Sempre.

P/1 – E o filho também, é isso?

R – Também, isso, nós três desde o começo.

P/1 – Trabalhavam os três.

R – Trabalhamos juntos os três.

P/1 – E vocês tinham outros empregados, como?

R – Tínhamos sim, tínhamos sim. Tinha uma menina, tinha a balconista, e na cozinha tínhamos duas pessoas para ajudar na cozinha, algum serviço que a gente passava, ensinava, de preferência que entrava sem saber absolutamente nada para a gente treinar do jeito que a gente queria, pra fazer do nosso jeito.

P/1 – E vocês, com esse sucesso que você falou das camisetas, aventais, também vocês também vendiam?

R – Aventais também, que era o uniforme da loja também.

P/1 – E como era essa parte, assim, das camisetas, dos aventais?

R – As pessoas compravam. Pedia: “Tem camiseta?”, então a gente fazia pra uniforme, fazia um pouco a mais para os clientes que quisessem comprar.

P/1 – Na própria loja?

R – Na própria loja. A gente mandava fazer as camisetas, os aventais, sempre com qualidade, porque não era camiseta assim de... era camiseta de algodão 100%. O avental também. Então o pessoal gostava de comprar para dar de presente, natal a gente vendia bastante, Avental principalmente.

P/1 – E como foi, assim, os desafios que vocês tiveram que enfrentar?

R – Os desafios, digamos assim, de uma dona de casa, que nunca teve nada, nunca, de repente teve que pensar em administração, teve que pensar em estoque, teve que pensar em funcionário, então esse foi o desafio maior: conseguir administrar isso, minha falta de preparo.

P/1 – Mas você devia ter, lá no fundinho, aquele gene trazido lá do seu pai. ( risos)

R – Pode ser.

P/1 – Que já era comerciante.

R – Pode ser.

P/1 – O ramo do comércio é uma coisa que normalmente apaixona as pessoas, né.

R – É muito gostoso. Eu gostei muito de trabalhar com público. Eu pra cada... por exemplo, duas freguesas chatas, eu tinha 30, 40 excelentes. Então, a gente tinha muita paciência com todos os fregueses, sempre educação, fazia parte do treinamento da nossa equipe: ter muita paciência, ser simpático, explicar bem as coisas pra não haver duvidas.

P/1 – Como era o dia-a-dia assim da loja?

R – Ah, de manhã eu chegava na loja, via o que é que a gente ia fazer, ainda fazia o cronograma do que eu queria que fizesse pra colocar à venda, pra vitrine, pra vender inteiro. Daí não tinha nunca dia parado, porque se você tem menos encomenda, você trabalha com estoque, então tem muitas sobremesas que a gente fazia e congelava. Daí a gente tirava todos os dias as sobremesas congeladas, punha, vende, põe outra, vende, põe outra. Sobremesas com frutas frescas que não são congeladas, a gente, sempre às vezes, montava até metade de um bolo, pra ficar sempre fresco as sobremesas. Então não tinha como você chegar lá e ter uma coisa velha. Sempre coisa fresquinha.

P/1 – E vocês trabalhavam tanto com pedaços...

R – Com pedaços, é... Por quilo e inteiro.

P/1 – E inteiro também.

R – E inteiro.

P/1 – E quais os segredos que você acha que tem pra um estabelecimento comercial ser bem sucedido?

R – Trabalho, trabalho, trabalho,(risos). Não tem outra, muito trabalho.

P/1 – Mas vale a pena?

R – Vale a pena. Muita dedicação, muito a se empenhar naquilo que você faz.

P/1 – E esse ramo do comercio, o que que ele te trouxe, o que que você conseguiu aprender, viver com ele?

R – Me diverti muito, me diverti muito. Eu gosto muito de cozinhar, então sempre me deu uma satisfação muito grande receber elogios. Então, nossa, eu nunca comi uma torta tão boa, eu nunca... então isso fez muito bem pro meu ego. Nunca fui modesta. (risos)

P/1 – Você lembra de algumas historias assim, do cotidiano da loja para contar para gente, fatos que aconteceram?

R – Digamos, uma vez, ligou uma moça, falou que o filho dela tinha comido uma torta holandesa na minha casa, que estava passando mal, e que ela estava junto no, lá com o médico, e que o médico queria saber o que ia na torta holandesa, porque -era uma torta que eu nem gosto, parei de fazer, acho muito engordurada - e o que que ia nessa torta holandesa pra poder medicar o filho, e eu falei: “vai basicamente manteiga, ovos, açúcar, biscoito”. Bom, daqui a pouco me liga de novo, querendo saber exatamente quanto que ia. Eu falei: “olha, você vem amanha na minha loja, que eu vou passar direitinho o que vai, pra você levar pro medico, e que você leve no Adolfo Lutz pra fazer o exame que é necessário”. Aí minha filha falou: “mãe, mas como você está tão tranqüila?” E eu falei: “Kátia, eu tenho certeza do que eu faço, não tem contaminação nenhuma, tem alguma coisa errada” eu falei. Mas como que pode, está ligando um médico. Daí nós ligamos, tem o bina, ligamos lá, falava uma criançada, tava falando da casa dela. No dia seguinte ela chega na loja, ela quer saber exatamente quantas gramas que é de manteiga, quantas gramas, ela queria a receita. (risos) Eu falei: “você, por favor, manda o médico me ligar, que eu vou passar direitinho pra ele.” Não entrei em termos nada, porque não ia resolver nada. Mas foi bem engraçado. Minha filha ficou apavorada, minha filha falou: “mas que que é isso?” Eu falei: “alguma coisa está errada. Eu vendi a torta, só fez mal pro filho dela?”

P/1 – Na verdade, o que ela queria era a receita.

R – Era a receita, então foi bem engraçado.

P/1 – Tem outras histórias?

R – Lembrar agora... no momento não me lembro.

P/1 – O que mais assim que você pode nos contar da sua loja? O sucesso, o que é que trouxe pra vocês.

R – Trouxe uma exposição maior na mídia. As pessoas chamavam pra fazer matéria, pra dar receita. a rack da Anhangüera Comunicações estava sempre ligando, pedindo receita. Então todas as vezes que tinha natal, tinha páscoa, sempre eles iam atrás de alguma receita, de alguma coisa, e eu fiquei muito contente com a vejinha, que nos indicou duas vezes como melhores doceiros de Campinas. Então, mas, basicamente, o que me agradava era o reconhecimento do público daquilo que eu fazia.

P/1 – Vocês saiam freqüentemente então na mídia?

R – Freqüentemente saímos na mídia de Campinas.

P/1 – E extrapolou pra fora de Campinas?

R – Só através do programa “Pequenas empresas” e o “Negócios e soluções”, que foi pra outros lugares.

P/1 – E vocês pensaram em abrir filiais, alguma coisa?

R – Pensamos em formatar a loja, em fazer, mas daí teve esse problema que eu não... deixamos descansar um pouco pra ver, mais pra frente o que a gente vai fazer.

P/1 – Certo. É... como você percebe hoje a cidade de Campinas e a região? Nessa parte de comércio, como que é o comércio, se está bem desenvolvido.

R – Eu lamento profundamente que o centro esteja abandonado. Eu acho que o centro poderia estar, assim, bem desenvolvido, bem aquele centro que tem muita coisa interessante. Não ficasse só em shoppings, acho shoppings interessantes, mas só shopping, acho que é muito... Campinas tem uma historia né, acho que Campinas merecia um centro mais, mais bonito, mais limpo, mais cuidado, com mais segurança, que o centro de Campinas é muito interessante.

P/1 – E o resto da região, assim, como está hoje?

R – Eu acho que o comércio de Campinas está crescendo cada vez mais. Tem muitos shoppings, muitos condomínios novos, muito... Então a construção civil está bem animada.

P/1 – A cidade de Campinas, em relação a sua infância pra hoje, faz ai uma comparação.

R – Nossa, não existe mais. Não tem comparação (risos), não tem comparação.

P/1 – Você acha que Campinas cresceu muito em função de que?

R – Cresceu muito. Em função da... acho que é de tudo, do comércio, da medicina, das escolas, universidades.

P/1 – A vinda das universidades.

R – Da Unicamp, principalmente.

P/1 – E no estado de São Paulo, como você vê o comércio hoje?

R – Eu não sou uma pessoa que sou boa pra falar sobre isso, porque eu basicamente conheço Campinas, conheço Santos - Santos eu conheço mais a parte histórica - mas eu acredito que Campinas é realmente um ponto de referência para o Estado de São Paulo.

P/1 – Que lições você tira dessa sua atividade no comércio? Lições pra sua vida, pra...

R – Que a gente, tudo o que for fazer, que a gente faça bem feito. Que a gente, com certeza, se fizer bem-feito, se tiver empenho, vai dar certo.

P/1 – Tem mais alguma coisa assim, que você queira contar para gente?

R – É interessante uma coisa, eu gosto muito de ler, e a Eva da Pontes gosta muito de bolo, então a gente praticava o escambo. eu comprava livros e ela comprava bolos, todos mês ela comprava bolo e todo mês eu comprava livros. Então é uma coisa curiosa, uma coisa de escambo muito antigo, né?

P/1 – Nos dias atuais, né?

R – Nos dias atuais, então sempre que chegava livro novo, ela já me levava que sabe do que eu gostava. Então, o escambo com a Eva da livraria Pontes.

P/1 – E essa parte, assim, da criatividade da sua filha, não sei se você poderia também desenvolver um pouquinho mais.

R – Ela é muito criativa. Ela olha uma coisa, pensa, fala: “mãe, vamos fazer isso”, então tá. Então a gente fica fazendo, testando, experimentando, daí quando chega naquilo que a gente quer, que a gente pensou, que ela pensou, daí dá certo. Mas o primeiro impulso sempre é dela. Como fazer, o que fazer, o porquê fazer.

P/1 – E eu percebi nas fotos que você trouxe que, assim, bem trabalhado nos acabamentos, os arremates das tortas, dos bolos, tudo muito bonito.

R – Aquela primeira impressão é visual né, então tem que chamar você, ser uma coisa bem feita, bonita. Não pode ser só bonita, tem que ter qualidade. Por exemplo, se o bolo for seco, você não come. Você vai comer um bolo, vai tomar com guaraná, é complicado, né? Então nas padarias, por exemplo, você vai comprar um bolo, o bolo é seco, por quê? Porque o bolo fica na padaria a semana inteira, eles fazem uma leva pra semana inteira, então se eles molharem vai dar fungo. Como na minha loja a gente fazia os bolos diariamente, não tinha como ter fungo, então o bolo era bem úmido. Outro dia uma cliente chegou pra mim e falou assim: “olha, eu gosto do seu pavê de nozes porque ele não é muito forte. Ele é mais suave, mais gostoso”. Eu falei: “você está enganada, você esta confundindo, você não gosta de pavê de nozes, de doce de nozes com noz rançosa, que a noz tem que ser devidamente armazenada, no freezer, se você demora muito pra usar ou se você demora menos tempo pra usar, você pode deixar fora da geladeira. Mas se não, se você demorar mais de um mês, já é freezer com certeza. Então esse que você fala forte, é rançosa. A noz na realidade, então aqui você come nozes frescas”. Então tem essas coisinhas assim. Papo de anjo, papo de anjo não tem em Campinas em lugar nenhum, então eu fazia papo de anjo que é uma torta, é uma sobremesa portuguesa, basicamente das pessoas antigas né? Então eles iam lá buscar o papo de anjo. Bolos, quando eu era criança, tinha o bolo, os aniversários tinham bolo recheado com coco fresco, leite condensado, nozes com leite condensado. Ou coco fresco com leite condensado e ameixa com leite condensado. Então esse é um bolo que eu sempre tive na loja, que era um bolo de antigamente. Em todas as festas de aniversário, antigamente, não tinha esse monte de bolo, era dois tipos só e acabou. Era coco e nozes ou ameixa. Então eu resgatei isso, pessoal ia lá, pessoas de mais idade, sempre comia esse bolo, de ameixa e de coco, e nozes e coco.

P/1 – E você tinha publico de todas as idades na sua loja?

R – De todas as idades. Todas. Homens gostam de doce também, pessoas de mais idade, jovens. Os jovens iam na torta fondue, que é morango com chocolate.

P/1 – Que é famosa?

R – Que é famosa, é. Essa é uma torta que minha filha criou.

P/1 – E a preferência dos outros? Qual era? Das crianças.

R – Torta fondue. Criança também, torta fondue de morango, que é, tem o chocolate, tem o leite condensado, tem o morango, então é uma coisa assim... a minha filha falou: “pus tudo que eu gostava”. (risos)

P/1 – E a preferência dos homens?

R – É interessante, porque tem gente que ia só atrás de uma terrine de chocolate, tem uns que ia atrás de torta de limão, e daí eu usava uma técnica: Dava um pedacinho: “você vai experimentar hoje esse pedacinho”, punha de graça no prato. Eles ficavam muito chateados: “porque agora eu gostei desse também, como é que eu vou fazer?” (risos) Pra obrigá-los a experimentar outros, porque vai focado só naquele, só naquele, só naquele, sempre aquele... Agora não, vamos diversificar um pouco né? Então eu dava um pedacinho falando: “e agora, o que eu faço”?

Aí eles se obrigavam a experimentar outros. (risos)

P/1 – E as mulheres experimentavam vários, como era?

R – Vários, vários. Tem aqueles que vão focados só naquele, mas daí você faz isso, dá um pedacinho, daí experimenta e quer o outro também.

P/1 – Essa técnica é boa, você usava com todo mundo, de dar um pedacinho.

R – Usava, é, de dar um pedacinho é uma técnica que funciona pra caramba.

Fim da faixa 3.

P/1 – Então retomando, América, um pouco. Vocês preparavam sempre tudo fresquinho na hora, mas que tipo de embalagem vocês usavam?

R – A gente comprava uma embalagem com o nome da loja padronizado, e era... quando vendia inteiro ia numa caixa, fechadinha com o nome e logo da loja.

P/1 – E formas de pagamento como era? Vocês trabalhavam só com dinheiro, trabalhavam com cartão?

R – Não, dinheiro, cartão - não de crédito, débito -

cartão de débito, ou TR.

P/1 – Aceitavam ticket refeição.

R – Ticket refeição, isso.

P/1 – Esse tipo de coisa hoje em dia é fundamental no comercio né?

R – É fundamental, é.

P/1 – Pra funcionar né?

R – Isso, é fundamental.

P/1 – E vocês faziam assim promoções, dia das mães, dia dos pais, ou promoção de alguma coisa, natal?

R – Não, agente tinha um preço diferenciado para quem levava bolo inteiro, torta inteira era um pouco mais barata. Essa era o que a gente fazia de diferenciação.

P/1 – Certo, não tinha uma...

R – Não, assim, promoção não.

P/1 – Mas não tinham promoção de preço mais barato, mas vocês faziam produtos especiais, de repente, pra épocas...

R – Fazíamos. De repente chegava alguma pessoa e falava: “ah, eu queria comer um bolo que minha avó fazia, que não sei o quê, que é assim, assim...” daí a gente desenvolvia para essa pessoa, pra agradar aquela pessoa. Então tinha assim uma atenção especial com: “ai, eu queria comer um bolo que era da minha infância, pepepe...” “como que era”? “Ah, minha avó fazia assim”. Daí a gente desenvolvia, e a pessoa ficava super contente.

P/1 – Agora, por exemplo, eu digo assim, na época de Páscoa, se vocês desenvolviam alguns produtos especiais para aquela ocasião, dias da mães, sei lá, algum bolo aí para mãe...

R – Sim, sim, no natal também a gente desenvolvia umas sobremesas especificas pro natal.

P/1 – E a aceitação era boa?

R – Muito boa.

P/1 – Bom, as lições que você tirou, você já falou não é, Para a gente. E que mais? Tem mais alguma coisa assim que você gostaria de contar? Da loja, da atividade comercial.

R – Há o carinho que eu tive por uma funcionaria minha deficiente. Na realidade ela era muito eficiente, inteligentíssima, e ela lavava louça pra nós. E meu filho trabalhou sempre no CEAD da PUC, Centro de Integração e Apoio ao Deficiente, ele falava: “vamos colocar alguém deficiente pra trabalhar”. Eu falei: “Davi, pelo amor de Deus, funcionário já é tão complicado, você quer uma deficiente”? Não, experimenta. Experimentamos, ela ficou muitos anos conosco. Até a gente terminar, ela ficou conosco, e é uma pessoa assim com um carinho muito grande, muito eficiente, muito trabalhadeira, então foi uma parte muito gostosa também. E, digamos assim, meninos de rua: eu tinha medo. Chegava na loja assim, os meninos, chegou um, deitou no balcão, eu levei um susto: “dá não sei o que.” já dei e ele saiu correndo, daí veio outro dia, e meu filho tava lá, falou: “limpa lá em cima pra mim”, ele subiu e limpou. Ele falou assim: “mãe, pode cuidar dele que é um menino bom”.

Eu sei que esse menino, ele vendia bala na rua, no farol. Daí ele estava crescendo, usando drogas. Eu falei: “escuta Luciano: você não vai conseguir mais vender bala no farol. Você tem que tomar uma coisa, ter alguma profissão. Ninguém vai mais comprar bala, do fato de que você já esta grande”. (__?__) Ele foi sempre na minha loja. Daí uma vez ele foi, ficou no padre Aroldo, voltou, falou que tinha feito um tratamento com o padre Aroldo, que estava bem. Daí ele era negro, pobre e homossexual, qual a chance dele? Nenhuma. Daí eu fiquei pensando o que eu podia oferecer pra aquele menino. Daí falei: “bom, ele é vaidoso, ele veio com a unha pintada”. Falei: Vou oferecer um curso de cabeleireiro”. Daí ofereci um curso de cabeleireiro pra ele, falei: “Você quer faze um curso”? Ele: “eu”? Eu falei: “É, pra você ter uma profissão”. Ele falou: “Quero”. “Então você vai atrás”. Ele foi atrás de vários. Foi na Ondina, era 70, 80 reais o curso, ele conseguiu por 50, e eu paguei o curso pra ele na Ondina. Aí teve a formatura, tudo, daí saiu de lá, comprei tesoura, comprei tudo, e ele está super bem, está morando em Santos, na praia Grande, cabeleireiro. E ele sempre vem na loja, ele diz que sou madrinha dele. Última vez ele veio esse ano, de aparelho nos dentes. Então eu fiquei muito feliz de ter contribuído com alguma coisa, e, na realidade, eu queria que o Daneseadieta fosse também o farol para os meninos do farol. Aí começou a vir muita criança, muita criança, todo dia. Era para vir umas cinco. Começou cinco, dez, acho que umas 20 por dia. Então os bolos que sobravam do dia anterior, que iam ficar sempre um pedacinho pequeno você que não vende, o pessoal pensa que está velho. Então já separava pros meninos. Então todo dia tinha, pelo menos... dia que vinha pouco era dez meninos do farol. Então eles não vinham só atrás do bolo, vinham atrás da conversa. “Hoje que eu vendi, quarenta reais eu ganhei”. “Nossa, mas Ezequiel, bastante né”? É, hoje o dia foi bom. Então, depois eu percebi que eles não tinham pra quem falar, eles iam contar pra mim, porque eu era amiga deles. Então foi muito interessante também esse contato que eu tive, e esse, perdi o medo desses meninos, que eles são realmente muito frágeis, e o governo devia olhar por eles.

P/1 – Através do seu comercio, está vendo, você chegou neles, né?

R – É, eu cheguei neles, conheci eles, o outro lado. Daí o menino, ele falou pra mim: “onde você mora?” “Você mora debaixo da ponte, não sei o que lá”. Mas: “não, mas eu que horror, você mora debaixo da ponte”. “Mas não, eu fechei lá tudo com madeirite, lá eu não passo frio”. Então tem uma outra, outra visão desse país tão rico, com uma injustiça social tão grande.

P/1 – É verdade. Bom, então América, se você não tem mais nada... (risos).

R – Não.

P/1 – O que você achou de ter dado essa entrevista pra agente?

R – Achei interessante, achei interessante.

P/1 – Gostou, se sentiu bem?

R – Gostei, me senti bem.

P/1 – Então tá bom. Então, em nome do CESC, e em nome do Museu da Pessoa, a gente agradece a sua entrevista. Obrigada.

R – Muito obrigada. Obrigada eu.